Senhor das sombras
13. Terra dos Sonhos
13
Terra dos Sonhos
Emma olhou em volta, admirada. A entrada não exibia vestígios de ter sido entalhada na encosta. Era feita de pedra lisa, cinza, e o teto era de mármore azul com estampa de estrelas douradas. Um corredor sombreado levava mais fundo na colina.
A mulher fada, Nene, ergueu o lampião. Estava cheio de vaga-lumes agitados, que lançavam
um brilhozinho limitado sobre o pequeno grupo. Emma viu Julian, com a boca contraída, e Cristina, que apertava seu pingente. Mark estava baixando Kieran no chão, com delicadeza nas mãos. Ela precisou de um instante para perceber que Kieran estava inconsciente, a cabeça caíra para trás e as roupas estavam salpicadas de sangue.
— Estamos nas Terras Seelie agora — falou Nene. — Vocês podem usar suas Marcas e pedras
de luz enfeitiçada. — Ela fitou Kieran com uma expressão confusa. — Vocês podem curar seu amigo.
— Não podemos. — Julian tirou a pedra de luz enfeitiçada do bolso. Sua iluminação se
precipitou sobre Emma como o oásis de água no deserto. — Ele não é um Caçador de Sombras.
Nene se aproximou e, consternada, arqueou as sobrancelhas claras. Mark mantenha-se no
chão, segurando Kieran, e o rosto do príncipe fada estava exaurido, com uma cor esbranquiçada; os olhos fechados eram luas crescentes pálidas no rosto anêmico.
— Ele é da Caçada? — perguntou ela.
— Nós dois somos... — começou Mark.
— Você pode fazer alguma coisa por ele? — interrompeu Emma antes que Mark falasse
demais.
— Sim. — Nene se ajoelhou, ajeitando o lampião no chão, bem ao seu lado. Ela sacou um
frasco do colete de pele branca que usava sobre o vestido. Hesitou, olhando para Mark. —Você não precisa disso? Não está machucado?
Ele balançou a cabeça, confuso.
— Não, por quê?
— Eu trouxe para você. — Ela tirou a rolha do frasco. Posicionando-o junto aos lábios de
Kieran, murmurou alguma coisa num idioma que Emma desconhecia.
Os lábios de Kieran se abriram e ele engoliu. O líquido dourado claro escorreu pelos cantos
da boca. Os olhos se esvoaçaram e aí se abriram, e então ele se ergueu um pouco, tomando um segundo e um terceiro goles caprichados. Os olhos dele encontraram os de Nene por cima do gargalo, e aí ele virou o rosto e limpou a boca com a manga.
— Guarde o restante — falou com voz rouca. — É o bastante. Com a ajuda de Mark, ele ficou de pé, cambaleando levemente. Os outros tinham guardado
suas estelas. Uma nova Marca de Cura ardia no braço de Emma, e ao lado havia uma Marca de Energia. Ainda assim, seu corpo doía e o coração estava ferido. Ela não conseguia parar de enxergar seu pai, encarando-a, deitado na grama.
Não tinha sido ele, na verdade, mas isso não tornava a imagem menos dolorosa. — Vamos — falou Nene, guardando o frasco. — A bebida só vai sustentar você por um breve período. Temos que nos apressar para a Corte.
Ela começou a percorrer o corredor e os outros a seguiram, com Mark dando apoio a Kieran, que caminhava com dificuldade. Julian pegou a pedra de luz enfeitiçada e o corredor brilhou. Vistas de longe, as paredes pareciam mosaicos intrincados, mas ao se aproximar Emma notou que eram de resina clara com pétalas de flores e asas de borboleta por baixo.
— Milady — falou Cristina. Seu cabelo, assim como o de Emma, estava emaranhado com folhas e carrapichos. — O que você quis dizer quando falou que trouxe aquela bebida para Mark? Como sabia que ele estaria aqui?
— Nós tivemos convidados, aqui na Corte — falou Nene. — Uma garota Caçadora de Sombras com cabelos ruivos e um garoto louro.
— Jace Herondale e Clary Fairchild — adivinhou Emma.
— Eles me contaram sobre os Blackthorn. Esse era um nome que eu conhecia. Minha irmã, Nerissa, amou um Blackthorn, teve dois filhos com ele e morreu de amor quando ele a abandonou.
Mark parou de andar. Kieran soltou um sibilo baixinho de dor.
— Você é irmã da minha mãe? — perguntou, incrédulo.
— Acho que normalmente chamam isso de tia — falou Emma.
Mark lançou um olhar mal-humorado para ela.
— Fui eu quem levou você e sua irmã até a porta de seu pai e os deixou lá para que pudesse criar vocês — falou Nene. — Você tem meu sangue.
— Estou começando a me perguntar se algum de vocês não tem um parente perdido há muito no Reino — falou Kieran.
— Eu não tenho — retrucou Cristina com voz pesarosa.
— Metade dos parentes de Mark é do Povo das Fadas — observou Emma. — Onde mais eles estariam?
— Como foi que você soube que eu precisaria ser salvo? — perguntou Mark à mulher fada.
— A puca que deixou vocês passarem pelo portão da lua é um velho amigo — explicou Nene. — Ele me contou sobre a jornada de vocês e eu adivinhei qual seria sua missão. Eu sabia que você não sobreviveria aos truques do Senhor das Sombras sem ajuda.
— As flechas em chamas — falou Julian. O corredor, antes feito de pedra e azulejos, agora era de terra batida. Raízes emaranhavam-se no teto, cada uma delas entrelaçada com flores reluzentes que iluminavam a escuridão. Veios de minerais na pedra reluziam e se modificavam quando Emma olhava para eles. — Foi você.
Nene fez que sim com a cabeça.
— E alguns outros, da Guarda da Rainha. Então eu tinha apenas que ficar alguns passos à frente de vocês e abrir a porta. Não foi simples, mas existem muitas portas para Seelie, por todas as Terras do Rei. Mais do que ele conhece. — Ela lançou um olhar sério para Kieran. — Você não vai falar disso, vai, Caçador?
— Pensei que você tinha me visto como um Nephilim — falou Kieran.
— Isso foi antes de ver seus olhos — falou ela. — Como meu sobrinho, você é servo de Gwyn. — Ela suspirou baixinho. — Minha irmã Nerissa ficaria de coração partido se soubesse que o filho seria tão amaldiçoado quando adulto.
O rosto de Julian ficou sombrio, mas antes que ele pudesse falar, um vulto se agigantou diante deles. O grupo tinha alcançado um local onde o corredor se abria para uma sala circular, com outros corredores conduzindo a uma variedade atordoante de direções.
Um cavaleiro fada bloqueava o progresso deles. Um homem alto, com pele morena clara e
uma expressão sombria, trajando vestes oficiais e um gibão de tecido multicor brilhante.
— Fergus — falou Nene —, deixe-nos passar.
Ele arqueou uma sobrancelha escura e retrucou com uma torrente de palavras numa língua
estranha, semelhante ao chilrear de um pássaro — não estava furioso, mas sua irritação era evidente. Nene ergueu uma das mãos e respondeu com voz ríspida. Enquanto observava a fada, Emma pensou ser capaz de notar alguma semelhança com Mark. Não apenas os cabelos louros e claros, mas a delicadeza dos ossos e a ponderação dos gestos.
O cavaleiro suspirou e deu um passo para o lado.
— Podemos ir agora, mas seremos chamados para uma audiência com a Rainha ao raiar do
dia — falou Nene, apressando-se. — Vamos, me ajudem a levar o Caçador para um quarto.
Emma tinha algumas perguntas: como eles iam saber que já era o raiar do dia aqui neste
lugar, por que Nene parecia não gostar muito da Caçada Selvagem e, claro, aonde eles estavam indo. Ela guardou todos os questionamentos para si, no entanto, e finalmente eles chegaram ao fim de um corredor onde as paredes eram de rocha polida, que reluzia com pedras semipreciosas: olho de tigre, lazulita, jaspe. As fendas na rocha eram cobertas com longas cortinas de veludo, bordadas com fios reluzentes.
Nene afastou uma das cortinas para o lado e revelou um cômodo cujas paredes eram lisas e
faziam uma curva na direção do teto abobadado. Cortinas brancas pendiam dele, cobrindo parte de uma cama feita de grossos galhos entremeados com flores.
Nene pousou o lampião.
— Deite o Caçador — falou.
Kieran ficara quieto desde que entraram na Corte Seelie propriamente dita. Permitiu que
Mark o conduzisse até a cama. Sua aparência estava terrível, pensou Emma enquanto Mark ajudava Kieran a se ajeitar sobre o colchão. Ela se perguntava quantas vezes Mark tinha feito esse tipo de coisa por ele, quando Kieran chegava exausto de uma caçada — ou quantas vezes Kieran fizera o mesmo por Mark. Ser um Caçador era um trabalho arriscado; ela não conseguia imaginar quanto do sangue um do outro eles já tinham visto.
— Tem algum curandeiro nesta Corte? — perguntou Mark, se aprumando. — Eu sou a curandeira — falou Nene. — Mas raramente trabalho sozinha. Em geral, tenho
um ajudante, mas está muito tarde e a Corte está meio vazia. — O olhar dela pousou em Cristina. — Você vai me ajudar.
— Eu? — Cristina pareceu surpresa.
— Você tem ar de curandeira — falou Nene, indo apressada até um armário de madeira e
escancarando suas portas. Nele, viam-se vidros de ervas, cordas penduradas de flores secas e frascos de líquidos com cores diferentes.
— Você pode dizer o nome de alguma dessas coisas?
— Tiarella — falou Cristina prontamente, como se estivessem em sala de aula. — Montia
perfoliata, falso lírio, Clintonia uniflora.
Nene se mostrou impressionada. Ela sacou de uma gaveta uma pilha de tecidos de linho,
incluindo tiras cortadas direitinho do tamanho de ataduras e entregou tudo a Cristina.
— Tem gente demais aqui, isso vai tornar a cura do paciente mais lenta. Levarei esses dois
para a próxima porta. Você deve tirar as roupas de Kieran.
As bochechas de Cristina arderam.
— Mark pode fazer isso.
Nene revirou os olhos.
— Como você quiser. — Ela se voltou para a cama, onde Kieran estava caído sobre os travesseiros. Havia manchas de sangue oxidado por toda a camisa e a pele de Mark, mas ele não parecia perceber. — Esmague um pouco de Tiarella e dê a ele com um pouco d’água. Não devemos enfaixá-lo ainda. Temos que inspecionar os ferimentos.
Ela saiu correndo do quarto, e Emma e Julian dispararam atrás. Deram apenas alguns passos no corredor, na direção de uma cortina vermelha escura, que ocultava uma porta aberta. Nene afastou o tecido e fez um gesto para que os dois entrassem.
Uma vez lá dentro, Emma teve que disfarçar um arquejo de admiração. Este quarto era muito maior do que o outro. O teto se perdia nas sombras. As paredes eram de quartzo prateado e brilhavam por dentro, iluminando o cômodo com um brilho suave. Flores em tons de branco e bege desciam em cascata pelas paredes, perfumando o ar com cheiro de jardim. Sobre uma plataforma com degraus, uma cama imensa. Havia uma pilha de travesseiros de veludo e uma colcha suntuosa.
— Isto vai servir? — perguntou Nene.
Emma só conseguiu fazer que sim com a cabeça. Uma sebe onde crescia uma treliça de rosas se estendia na direção de um dos extremos do quarto, e atrás dela uma cascata de água precipitava-se sobre as pedras. Quando ela olhou ao redor da sebe, viu que ela se esvaziava numa piscina de pedras, alinhada com pedras verdes e azuis que formavam uma borboleta.
— Não é tão bonito quanto o do Instituto — ela ouviu Julian dizer —, mas vai servir.
— De quem é o quarto? — perguntou Emma. — É da Rainha?
Nene deu risada.
— Os aposentos da Rainha? Certamente que não. É de Fergus... na verdade, ele tem dois. Ele tem muitas regalias na Corte e não vai se importar se vocês dormirem aqui. Ele fica de vigia à noite.
Ela se virou para sair, mas parou perto da cortina e olhou outra vez para eles.
— Vocês são o irmão e a irmã do meu sobrinho?
Emma fez menção de falar, mas aí desistiu. Mark era mais um irmão do que qualquer outra coisa para ela. Certamente era mais irmão do que Julian.
— Sim — respondeu Julian, percebendo a hesitação da menina.
— E vocês o amam — falou Nene.
— Creio que você descobrirá que é fácil amá-lo, se tirar um tempo para conhecê-lo — falou Jules, e o coração de Emma inflou, ansiando por ele, por ele e Mark juntos, felizes e risonhos como deveriam ser os irmãos, e pelo desafio nos olhos de Julian ao olhar para Nene. Você deve ao meu irmão o amor que ele merece; mostre isso a ele ou darei minhas costas a você.
Nene pigarreou.
— E minha sobrinha? Alessa?
— O nome dela é Helen agora — falou Julian. Ele fez uma pausa momentânea, e Emma pôde notar que estava refletindo se devia mencionar a situação de Helen, mas desistiu; ele não confiava o suficiente em Nene, não ainda. — Sim, ela é minha irmã. Sim, eu a amo como amo Mark. Ambos são fáceis de se amar.
— Fáceis de se amar — repetiu Nene, em tom ponderado. — Há poucos dos nossos que eu classificaria como seres fáceis de se amar. — Ela se virou novamente para a porta. — Devo me apressar antes que o menino Caçador morra — falou e se foi.
Julian olhou para Emma, sobrancelhas arqueadas.
— Ela é muito...
— Sim — concordou Emma, sem precisar ouvir o restante das palavras para saber o que ele
queria dizer. Ela e Julian quase sempre concordavam sobre as pessoas. Emma sentiu a boca se curvar ao sorrir para ele, apesar de tudo, apesar da tensão incrível e extrema da noite.
E não era como se o risco tivesse acabado, pensou ela, virando-se para olhar o cômodo.
Dificilmente já tinha se hospedado num local tão bonito. Emma já tinha ouvido falar de hotéis em cavernas, locais na Capadócia e na Grécia onde quartos lindos eram escavados nas rochas e cobertos com sedas e veludos. Mas aqui eram as flores que tocavam seu coração; as flores brancas, que tinham cheiro de chantili, como as flores brancas que cresciam em Idris. Elas pareciam irradiar luz.
E também havia a cama. Com uma espécie de choque tardio, Emma se deu conta de que ela e
Julian tinham ficado a sós num quarto absurdamente romântico, com apenas uma cama, muito grande e aveludada.
Sem dúvida, as preocupações da noite ainda não tinham acabado. De forma alguma.
Quando Nene voltou, limpou o ferimento de Kieran delicadamente com as tiras úmidas de linho, pressionando as beiradas do corte cuidadosamente com os dedos. Ele se sentou, rígido, na beira da cama, sem se mexer nem notar o que estava acontecendo, mas pelo tanto que vinha mordendo o lábio, Cristina percebia que ele sentia dor.
Mark estava sentado, em silêncio, ao lado dele. Parecia angustiado, exausto, e não mudava de
posição nem segurava a mão de Kieran, simplesmente permanecia ali, ombro a ombro com o outro menino. Mas já essa coisa de ficar da mãos dadas não fazia muito o estilo deles, pensou Cristina. A Caçada Selvagem não era um lugar onde tais expressões delicadas de afeto eram bem recebidas.
— Tinha capuz-de-frade na flecha Unseelie — falou Nene quando terminou de limpar o
ferimento. Ela esticou a mão para pegar a atadura e começou a enrolar pelo tronco esguio de Kieran.
Tiraram suas roupas e depois vestiram uma calça limpa, e a camisa ficara dobrada ao lado
dele na cama. Havia cicatrizes nas costas de Kieran, não muito diferentes das cicatrizes de Mark, e elas se estendiam até os braços e desciam pelos antebraços também. Apesar de magro, ele parecia forte, os contornos dos músculos bem distintos nos braços e no peito.
— Se você fosse humano ou mesmo uma fada comum, isso o teria matado, mas Caçadores
têm uma proteção própria. Você vai sobreviver.
— Sim — falou Kieran, erguendo o queixo com arrogância. Mas Cristina ficou pensando...
Ele não tinha dito Sim, eu sabia que iria sobreviver. Ele duvidara disso, desconfiava ela. Ele de fato sentira medo de morrer.
Mesmo assim ela admirava sua coragem. Não podia evitar. Nene revirou os olhos, terminando de enfaixar. Ela deu um tapinha no ombro de Cristina
enquanto Kieran vestia a camisa, meneando os ombros para acomodá-la no corpo e abotoando devagar, os dedos trêmulos. Apontou para uma bandeja rasa de mármore sobre a mesinha de cabeceira, cheia de panos úmidos boiando num líquido esverdeado.
— São cataplasmas para evitar uma infecção. Troque e ponha sobre o ferimento de duas em duas horas.
Cristina assentiu. Não sabia ao certo se deveria programar um despertador ou se acordaria a cada duas horas, ou se simplesmente deveria ficar acordada a noite inteira, mas ia dar um jeito.
— Tome — falou Nene, inclinando-se para Kieran com outro frasco. — Beba. Não vai lhe fazer mal, só vai ajudar.
Após um instante, Kieran bebeu. De repente, ele rejeitou o frasco, tossindo.
— Como ousa... — começou, e então seus olhos se reviraram e ele afundou nos travesseiros. Mark o segurou antes que as costas machucadas tocassem a cama e ajudou Nene a virá-lo com cuidado.
— Não se sinta culpada — falou Mark, notando a mandíbula trincada de Nene. — Ele sempre berra isso ao adormecer.
— Ele precisava descansar. — Foi tudo o que a mulher fada disse. E saiu do quarto.
Mark ficou observando-a sair, o rosto confuso.
— Ela não é o que eu imaginava, quando eu sonhava com a possibilidade de ter uma família no Reino das Fadas — disse ele. — Durante tantos anos eu procurei e perguntei, e nem sinal deles. Eu já tinha desistido.
— Ela fez um tremendo esforço para encontrar e salvar você — falou Cristina. — É óbvio que ela se importa.
— Ela não me conhece — falou Mark. — Fadas têm uma ligação consanguínea muito forte. Ela não poderia deixar que eu caísse nas mãos do Rei Unseelie. O que acontece a um membro da família se reflete nos outros que integram aquela linhagem.
Ela tocou no seu cabelo, era o que Cristina queria dizer. Ela havia visto, mas muito rapidamente: quando Nene esticara a mão para enfaixar as costas de Kieran, seus dedos roçaram as pontas finas do cabelo claro de Mark. Ele não notara e agora Cristina se perguntava se ele ao menos acreditaria nela, caso contasse.
Ela se sentou ao pé da cama. Kieran se aninhara, e os cabelos escuros estavam emaranhados sob a cabeça inquieta. Mark se recostara na cabeceira. Os pés descalços estavam na cama a apenas alguns centímetros de Cristina; o braço estava esticado e seus dedos quase tocavam os dela.
Mas o olhar estava fixado em Kieran.
— Ele não se lembra — falou.
— Kieran? Do que ele não se lembra?
Mark puxou os joelhos para o peito. Vestindo a camisa e a calça rasgadas e ensanguentadas, ele parecia mais o monte de trapos que fora quando a Caçada Selvagem o libertou.
— A Corte Unseelie bateu nele e o torturou — explicou ele. — Eu já esperava isso. É o que fazem com os prisioneiros. Depois que eu o desamarrei, assim que o tirei da clareira, percebi que lhe provocaram algum tipo de dano, de modo que ele não se lembrava de ter matado Iarlath. Ele não se lembra de coisa alguma daquela noite em que nos viu na cozinha.
— Ele não se lembra dos açoites, do que aconteceu a Jules e Emma...?
— Ele não se lembra do que aconteceu, nem que eu o abandonei por causa disso — falou Mark com ar sério. — Ele disse que sabia que eu viria atrás dele. Como se nós ainda fôssemos... o que éramos.
— O que vocês eram? — Cristina se deu conta de que nunca havia perguntado. — Vocês tinham um compromisso? Tinham uma palavra para isso, como novio?
— Namorado? — repetiu Mark. — Não, nada disso. Mas era alguma coisa e depois virou
nada. Porque eu estava zangado. — Ele olhou para Cristina com ar infeliz. — Mas como posso ficar zangado com alguém que sequer se lembra do que fez?
— Seus sentimentos são seus sentimentos. Kieran fez aquelas coisas. Foi ele, mesmo que não
se lembre delas. — Cristina franziu a testa. — Será que estou sendo muito dura? Não é minha intenção. Mas fiquei com Emma depois disso. Eu a ajudei a enfaixar os cortes por causa do açoite.
— E agora você ajudou a enfaixar Kieran. — Mark respirou fundo. — Sinto muito, Cristina.
Isso deve parecer... Eu sequer consigo imaginar o que você está pensando. Ter que ficar sentada aqui comigo, com ele...
— Você se refere ao... — Cristina corou. Você se refere ao beijo na festa? Ela buscou no fundo
do seu coração ciúme, amargura, raiva de Mark. Não havia nada. Nem mesmo a fúria que ela sentira por Diego quando Zara aparecera.
Tudo aquilo parecia muito distante agora. Muito distante e pouco importante. Zara merecia
Diego; ela que ficasse com ele.
— Não estou zangada — falou. — E, de qualquer forma, você não deveria se preocupar com
meus sentimentos. Acho que agora a gente deve se concentrar no fato de Kieran estar em segurança, de que podemos retornar.
— Não consigo parar de me preocupar com seus sentimentos — falou Mark. — Não consigo
parar de pensar em você.
Cristina sentiu o coração pular do peito.
— Seria um erro considerar a Corte Seelie um terreno seguro onde poderemos descansar.
Tem um ditado antigo que diz que a única diferença entre Seelie e Unseelie é que Unseelie faz o mal abertamente e Seelie o esconde. — Mark baixou o olhar. Kieran respirava baixinho, regularmente. — E eu não sei o que vamos fazer com Kieran — falou. — Mandá-lo de volta para a Caçada? Chamar Gwyn? Agora Kieran não vai entender por que eu quereria me afastar dele.
— E você quer? Quer se afastar dele agora?
Mark não disse nada.
— Eu entendo — falou ela. — Entendo mesmo. Você sempre precisou tanto de Kieran, que
nunca teve a chance de pensar no que você queria com ele antes.
Mark resmungou bem baixinho. Aí pegou a mão de Cristina e a segurou, ainda olhando para
Kieran. O aperto foi forte, mas ela não retirou a mão.
Julian se sentou na cama imensa de Fergus. Ele não podia ver nem um pedacinho de Emma atrás da sebe alta que bloqueava a piscina de pedras, mas podia ouvi-la mergulhando, um som que ecoava pelas paredes reluzentes.
O som deixou seus nervos à flor da pele. Quando ela terminasse, sairia da piscina e se deitaria
na cama com ele. Ele já tinha dividido a cama com Emma uma centena de vezes. Talvez milhares de vezes. Mas isso não significava nada quando eram crianças e, depois, quando já não eram, ele dizia a si que ainda não significava coisa alguma, mesmo quando acordava no meio da noite para observar o modo como as mechas do cabelo dela roçavam em sua bochecha enquanto ela dormia. Mesmo quando ela começou a sair de manhã cedo para correr na praia, e ele se aninhava no calor que ela deixava sobre os lençóis e inspirava o perfume de água de rosas da pele dela.
Respire. Ele enfiou as mãos na almofada de veludo que tinha puxado para o colo. Pense em
outra coisa.
Não que ele não tivesse muitas coisas nas quais pensar. Aqui estavam eles, na Corte Seelie, não exatamente prisioneiros, mas também não exatamente convidados. Era tão difícil escapar do Reino das Fadas quanto entrar, e eles ainda não tinham planos sobre o jeito de ir embora.
Mas ele estava exausto; era a primeira vez que ficava a sós num quarto com Emma desde que ela terminara o relacionamento deles, e, neste raro instante, era o coração dele que estava assumindo a função de pensar, não o cérebro.
— Jules? — chamou ela. Ele se lembrou dos breves dias em que ela o chamara de Julian, o modo como o som da palavra naquela boquinha fazia seu coração se estilhaçar de prazer. — Nene me deixou um vestido e é... — Ela suspirou. — Bem, acho que é melhor você ver.
Ela saiu de trás da sebe que ocultava a piscina, os cabelos soltos, já usando o vestido. As roupas das fadas costumavam ser muito enfeitadas ou muito simples. Este vestido era muito simples. Alças finas cruzavam os ombros dela; era feito de um tecido branco, parecido com seda, que se agarrava ao corpo molhado como uma segunda pele, realçando as curvas da cintura e do quadril.
Julian sentiu a boca seca. Por que Nene deixara um vestido? Por que Emma não poderia vir para a cama usando o uniforme sujo? Por que o universo o odiava?
— É branco — falou, franzindo a testa.
Pois o branco é a cor do pranto e da morte. A cor dos funerais para os Caçadores de Sombras. Havia o uniforme branco para os funerais públicos e seda branca era colocada sobre os olhos dos Caçadores de Sombras mortos quando seus corpos iam para a cremação.
— Branco não quer dizer nada para as fadas — falou ele. — Para elas, é a cor das flores e das criaturas naturais.
— Eu sei, é só que... — Ela suspirou e começou a subir, descalça, os degraus até o estrado onde ficava a cama. Parou para examinar o imenso colchão e balançou a cabeça, encantada. — Certo. Talvez eu não tenha gostado de cara do Fergus quando nos conhecemos — falou. Seu rosto estava afogueado por causa da água quente, as bochechas, rosadas. — Mas ele seria capaz de montar um albergue incrível, devo admitir. Provavelmente seria daqueles que botariam um chocolate no seu travesseiro todas as noites.
O vestido desceu levemente quando ela deitou na cama, e Julian percebeu, para seu horror, que havia uma fenda lateral que ia quase até o quadril. As pernas compridas de Emma apareceram contra o tecido quando ela se ajeitou sobre a colcha.
O universo não apenas o odiava, como também estava tentando matá-lo.
— Dê-me mais uns travesseiros — pediu Emma, e pegou vários deles ao lado de Julian antes que ele pudesse fazer qualquer movimento. O menino continuou segurando firmemente a almofada em seu colo e olhou para Emma meio desafiadoramente.
— Nada de roubar as cobertas — falou.
— Eu nunca faria isso. — Ela ajeitou os travesseiros atrás de si, formando uma pilha na qual pudesse encostar. O cabelo úmido grudava no pescoço e nos ombros, cachos longos de cabelo louro-claro molhado.
Os olhos dela estavam meio avermelhados, como se ela tivesse chorado. Emma raramente chorava. Ele percebera que sua tagarelice desde que ela chegara no quarto era uma animação fingida, algo que ele já deveria ter sabido — ele, que conhecia Emma melhor do que ninguém.
— Em — falou, incapaz de se controlar, ou de controlar a cortesia em sua voz. — Você está bem? O que aconteceu na Corte Unseelie...
— Eu só me sinto muito idiota — falou ela, a bravata desaparecendo da voz. Debaixo de toda
aquela astúcia estava Emma, a sua Emma, com toda sua força, inteligência e bravura. Emma, parecendo arrasada. — Eu sei que fadas pregam peças. Eu sei que mentem sem mentir. E ainda assim, a puca me falou... Ele disse que se eu viesse ao Reino das Fadas, veria o rosto de alguém que eu tinha amado e perdi.
— Típico do povo fada — falou Julian. — Você viu o rosto dele, o rosto do seu pai, mas não
era ele. Era uma ilusão.
— Era como se eu não conseguisse processar isso — continuou ela. — Minha mente ficou
turva. Eu só conseguia pensar que finalmente tinha meu pai de volta.
— Provavelmente sua mente estava turva — falou Julian. — Existe um monte de
encantamentos sutis que podem confundir seus pensamentos aqui. E aconteceu muito rápido. Eu também não desconfiei que fosse uma ilusão. Nunca tinha ouvido falar de uma tão forte.
Ela não disse nada. Estava apoiada nas mãos, e seu corpo era delineado pelo vestido branco.
Ele sentiu um lampejo de algo que era quase dor, como se houvesse uma chave sob sua carne, apertando a pele sempre que era virada. Lembranças invadiram sua mente implacavelmente — a sensação de escorregar as mãos pelo corpo dela, o jeito como ela mordiscava o lábio inferior dele. O arco do corpo dela se encaixando ao dele: um crescente duplo, um sinal de infinito desfeito.
Ele sempre considerara o desejo uma sensação agradável. Jamais imaginara que poderia
cortá-lo desse jeito, como navalhas sob a pele. Ele tinha pensado antes daquela noite na praia com Emma que ele a desejava mais do que qualquer um jamais pudera desejar. Ele achava que o desejo poderia matá-lo. Mas agora ele sabia que a imaginação era uma coisa sem graça. Que mesmo quando esvaía dele na forma de tinta sobre tela, não seria capaz de capturar a magnificência da pele dela na dele, o gosto doce e quente da boca de Emma. O ato de desejar não ia matá-lo, pensou ele, mas saber o que ele estava perdendo seria capaz disso.
Ele enterrou as unhas nas palmas das mãos, com força. Infelizmente, elas estavam muito
roídas para machucar.
— Ver que aquela coisa no fim das contas não era meu pai... me fez perceber o que na minha
vida foi ilusão — falou Emma. — Passei tanto tempo querendo vingança, mas descobri que isso não ia me fazer feliz. Cameron também não. Pensei que todas estas coisas fossem me fazer feliz, mas foi tudo ilusão. — Ela se virou para ele, olhos arregalados e impossivelmente escuros. — Você é das poucas coisas reais na minha vida, Julian.
Ele podia sentir o coração batendo por todo o corpo. Todas as outras emoções: o ciúme de
Mark, a dor por separar-se de Emma, a preocupação pelas crianças, o medo do que a Corte Seelie reservava para eles, desapareceram. Emma o encarava; as bochechas estavam coradas e os lábios entreabertos, e se ela se inclinasse na direção dele, se ela o desejasse, ele certamente ia desistir, sucumbir e desmoronar. Mesmo que isso significasse trair seu irmão, ele cederia. Ele a puxaria para si e se enterraria nela, em seu cabelo, em sua pele e em seu corpo.
Seria uma coisa da qual ele se lembraria depois com uma agonia semelhante a facas muito
quentes. Seria um lembrete de tudo que ele jamais poderia ter. E ele iria se odiar por magoar Mark. Mas nada disso o impediria. Ele sabia o tamanho de sua força de vontade, e tinha chegado ao seu limite. Seu corpo já estava tremendo, a respiração se acelerando. Bastava a ele apenas esticar a mão...
— Eu quero que a gente seja parabatai de novo — falou ela. — Do jeito que a gente era. As palavras explodiram como um golpe na cabeça de Julian. Ela não o desejava; ela queria ser parabatai, e ponto final. Ele ficara sentado ali, pensando no que queria e em quanta dor poderia suportar, mas isso não importava se ela não o desejasse. Como ele pôde ter sido tão idiota?
Ele falou com voz calma:
— Nós sempre seremos parabatai, Emma. É para a vida toda.
— Tem sido estranho desde que nós... desde que comecei a namorar Mark — falou ela, sustentando o olhar no dele. — Mas não é por culpa de Mark. É por causa da gente. Do que nós fizemos.
— Vamos ficar bem — falou. — Não tem um livro de regras para isso, não tem orientação. Mas a gente não quer magoar um ao outro, então isso não vai acontecer.
— No passado, alguns parabatai começaram a se odiar. Pense em Lucian Graymark e Valentim Morgenstern.
— Isso não vai acontecer com a gente. Nós escolhemos um ao outro quando éramos crianças. Nós escolhemos um ao outro de novo aos 14 anos. Eu escolhi você e você me escolheu. É isso que é a cerimônia parabatai, na verdade, não é? É um modo de selar essa promessa. Que diz que eu sempre vou escolher você.
Ela se apoiou no braço dele, o toque mais leve em seu ombro, mas foi o suficiente para acender o corpo de Julian como fogos de artifício no Píer de Santa Monica.
— Jules?
Ele assentiu, sem confiança em si para falar.
— Eu sempre vou escolher você também — falou Emma, e fechou os olhos, pousando a cabeça em seu ombro.
Cristina acordou de um sono agitado num sobressalto. O cômodo estava escuro; ela estava aninhada ao pé da cama, as pernas encolhidas. Kieran dormia um sono entorpecido apoiado nos travesseiros, e Mark estava no chão, enrolado nos cobertores.
Duas horas, dissera Nene. Ela precisava dar uma olhada em Kieran a cada duas horas. Deu outra olhadinha em Mark, concluiu que não podia acordá-lo, suspirou e se sentou propriamente, encostando na beirada da cama, na direção do príncipe fada.
Muitas pessoas tinham aparência tranquila no sono, mas não Kieran. Ele respirava forte e os olhos tremelicavam por trás das pálpebras. Suas mãos mexiam sem parar por cima das cobertas. No entanto, ele não acordou quando ela se inclinou para a frente e ergueu a parte de trás da camisa dele com dedos desajeitados.
A pele de Kieran estava ardendo em febre, mas ele era dolorosamente adorável de perto: as maçãs do rosto largas combinavam com os olhos amendoados, os cílios grossos baixos, feito plumas, e os cabelos com um tom preto-azulado.
Rapidamente, ela trocou o cataplasma; o velho estava praticamente encharcado de sangue. Quando se inclinou para puxar a camisa para baixo novamente, sentiu seu pulso ser agarrado com a força de um torno.
Olhos negros e prateados a encararam. Os lábios, ressecados e rachados dele articularam alguma coisa.
— Água? — murmurou ele.
De algum jeito, usando apenas uma das mãos, Cristina conseguiu servir água de um jarro na mesinha de cabeceira num copo de estanho e deu a ele. O príncipe fada bebeu sem soltá-la.
— Talvez você não se lembre de mim — falou. — Sou Cristina.
Ele pousou o copo e a encarou.
— Eu sei quem você é — respondeu ele após um instante. — Eu pensei... mas não. Nós
estamos na Corte Seelie.
— Sim — disse ela, e acrescentou, caso ele estivesse preocupado: — Mark está dormindo. No entanto, a mente dele parecia distante.
— Eu pensei que fosse morrer esta noite — falou ele. — Eu estava preparado para isso. Estava
pronto.
— As coisas nem sempre acontecem quando pensamos que vão acontecer — observou
Cristina. Não parecia um comentário tão convincente assim, mas Kieran pareceu reconfortado. O cansaço espalhava-se pelo rosto dele, como uma cortina se fechando sobre uma janela.
Ele a apertou com mais força.
— Fique comigo — pediu.
Surpresa, ela teria retrucado — talvez até se recusado a ficar —, mas não houve chance de
fazê-lo. Ele já havia voltado a dormir.
Julian estava deitado, acordado.
Ele queria dormir; era como se o esgotamento tivesse penetrado em seus ossos. Mas o quarto
fora tomado pela penumbra e Emma estava enlouquecedoramente perto dele. Dava para sentir o calor emanando do seu corpo enquanto ela dormia. Emma havia afastado parte da colcha que a cobria, e dava para ver o ombro nu onde o vestido escorregara, e o traço da Marca de parabatai em seu braço.
Ele pensou nas nuvens de tempestade rondando o Instituto, no modo como ela o beijara na
escada do Instituto antes de Gwyn aparecer. Não, era melhor ser sincero consigo. Antes que ela se afastasse e dissesse o nome de seu irmão. Fora assim que a coisa terminara.
Talvez fosse simplesmente fácil demais recair em emoções inadequadas quando eles já
estavam tão próximos. Parte dele queria que ela o esquecesse e fosse feliz. A outra parte queria que ela se lembrasse do mesmo jeito que ele se lembrava, como se a lembrança de seu período juntos fosse parte viva de seu sangue.
Ele passou as mãos pelo cabelo, inquieto. Quanto mais tentava enterrar tais pensamentos,
mais eles vinham à tona feito água numa piscina de pedras. Ele queria esticar o braço e puxar Emma para si, capturar sua boca num beijo — beijar a Emma real e apagar da memória a leanansídhe —, mas ele teria preferido aninhá-la contra si, abraçando-a durante a noite toda e sentindo seu corpo se expandir e contrair conforme ela respirava. Teria preferido dormir a noite inteirinha com apenas o dedo mindinho de ambos se tocando.
— Julian — falou uma voz baixa. — Acorde, filho dos espinhos. Ele se sentou ereto. Parada ao pé da cama, viu uma mulher. Não era Nene ou Cristina: era
alguém que ele nunca tinha visto pessoalmente, embora a conhecesse de pinturas. Era magra, quase famélica, mas bela ainda assim, com lábios carnudos e olhos azul-vítreos. Os cabelos ruivos ondulavam até a cintura. O vestido que usava parecia ter sido feito para ela numa época em que não estivera tão esguia, mas ainda era bonito: azul-escuro e branco, com delicados bordados de plumas, envolvia seu corpo com uma leveza sutil. Suas mãos eram compridas, brancas e pálidas, a boca vermelha, as orelhas levemente pontudas.
Na cabeça, via-se um ornamento circular e dourado; uma coroa, um trabalho intrincado das
fadas.
— Julian Blackthorn — falou a Rainha da Corte Seelie. — Levante agora e venha comigo, pois tenho algo para mostrar.