Senhor das sombras
16. Passam pelo Errante
16
Passam pelo Errante
Mark foi até o quarto de Kieran, decidido a mentir.
A inquietação e o cansaço tinham tirado Mark da saleta. Os outros, igualmente cansados, se
dispersavam para os próprios quartos. Cristina se esgueirara e saíra sem que Mark notasse, embora ele tivesse sentido a ausência dela como um tipo de pontada no peito, depois que ela já não estava mais lá. Diana decidira partir para Idris assim que pudesse, e Julian e Emma tinham ido se despedir dela.
Mark ficara um pouco chocado ao ouvir de Emma que o namoro de mentira tinha acabado;
ele sabia o que tinha dito a ela, no Reino das Fadas, e que ela simplesmente fizera o que ele pedira. Ainda assim, ele se sentia ligeiramente solto, solitário, sem ideia de como olhar nos olhos de Kieran e dizer inverdades.
Não gostava de mentir; não tinha feito isso na Caçada, e se sentia pouco à vontade com os
ritmos da mentira. Queria conversar com Cristina, mas imaginava que ela não fosse querer ouvir sobre seus sentimentos complicados em relação a Kieran. Julian ia se concentrar apenas no que era necessário e no que precisava ser feito, por mais que fosse doloroso. E agora ele não podia mais falar com Emma. Ele não tinha notado o quanto a relação deles era próxima de uma verdadeira amizade, por mais falsa que fosse; e agora se perguntava se ia perder isso também.
E quanto a Kieran... Mark inclinou sua cabeça contra a parede perto da porta de Kieran. Os
corredores eram forrados com um papel de parede com folhas douradas apagadas, trepadeiras e treliças, cujo contato foi frio contra a testa dele. Kieran era a pessoa com quem ele menos poderia conversar.
Não que bater a cabeça na parede fosse fazer algum bem. Ele se endireitou e empurrou a
porta silenciosamente; o cômodo que tinham separado para Kieran era bem distante do restante dos quartos, acima de um pequeno lance de escadas, um quarto que, muito provavelmente, um dia fora usado para armazenamento. Estreito, com janelas em arco que davam para as paredes lisas dos outros edifícios. Havia uma cama de dossel imensa no meio do cômodo e um guarda-roupa igualmente grande — embora Mark não fizesse ideia do que ficaram achando que Kieran poderia colocar dentro dele.
A colcha tinha sido retirada da cama e não se via Kieran em parte alguma. Mark sentiu uma
pontada de inquietação. Ao seu modo, Kieran tinha prometido a Cristina que ficaria: se ele tivesse decidido não honrar sua promessa a ela, seria um problema.
Mark suspirou e fechou os olhos. Sentia-se tolo e vulnerável, parado no meio do cômodo, de
olhos fechados, mas conhecia Kieran muito bem.
— Kier — falou. — Não consigo enxergar nada. Saia e fale comigo. Um instante depois, ele sentiu mãos nas laterais do seu corpo, erguendo-o e jogando-o na
cama. O peso de Kieran fez Mark afundar no colchão; o menino abriu os olhos e viu o outro apoiado em cima dele, selvagem e estranho em roupas da nobreza. O contorno das ataduras de Kieran pressionavam o peito de Mark, mas, de resto, o peso do príncipe fada lhe era um tanto familiar. E, para seu corpo, muito bem-vindo.
Kieran olhava para ele, os olhos em negro e prata como o céu noturno.
— Eu te amo — falou Kieran. — E fiz promessas. Mas se eu tiver que ser constantemente humilhado e escorraçado, não responderei por minhas ações.
Mark ajeitou uma mecha do cabelo de Kieran. Os fios escorregaram entre seus dedos; seda pesada.
— Vou me certificar de que tratem você com mais respeito. Eles só precisam se acostumar.
Os olhos de Kieran brilharam.
— Não fiz nada para merecer a desconfiança deles.
Ah, mas você fez, pensou Mark, você fez, e todos se lembram disso, menos você.
— Eles me ajudaram a resgatar você — falou Mark em voz alta. — Não seja ingrato.
Kieran sorriu ao ouvir aquilo.
— Eu preferiria imaginar que apenas você era o responsável. — Ele se abaixou e roçou o pescoço de Mark com o nariz.
Mark semicerrou os olhos; sentia os próprios cílios fazendo cócegas em suas bochechas. Sentia o peso do corpo de Kieran se movimentando em cima dele. Kieran tinha cheiro de mar, como sempre. Mark se lembrou de uma colina numa região verde, um monte de pedras úmidas, rolando com Kieran aos pés do morro. Mãos nos cabelos e por todo seu corpo, quando ele estivera há tanto tempo sem ser tocado por ninguém. Ele ardera e estremecera. E estremecia agora. O que Kieran era para ele? O que ele era para Kieran? O que tinham sido um para o outro algum dia?
— Kier — começou Mark. — Ouça...
— Agora não é o momento de conversar — interrompeu Kieran, e seus lábios roçaram bem de leve a pele de Mark, movendo-se pela pulsação em seu pescoço, percorrendo a mandíbula até capturar a boca.
Foi um momento que pareceu se esticar até a eternidade, um momento no qual Mark se enveredou através das estrelas que se espalhavam ao redor. Os lábios de Kieran eram macios e frios, e tinham gosto de chuva, e Mark se agarrou a ele naquele local escuro e débil no fundo do céu.
Ele enredou os dedos nos cabelos de Kieran, envolvendo os fios, ouviu Kieran expirar com força pela boca. O corpo dele pressionou ainda mais o de Mark, e então os dedos de Kieran deslizaram pela nunca de Mark e se enrolaram na corrente que trazia o colar de flecha de elfo.
Foi como ser sacudido para um despertar súbito. Mark rolou e levou Kieran junto, para que ficassem deitados lado a lado na cama. O movimento interrompeu o beijo, e Kieran o fitou meio irritado e meio confuso.
— Miach — falou. Sua voz assumiu o nome e o transformou numa carícia convidativa, um convite aos prazeres inimagináveis das fadas.
— Não — falou Mark. Não me chame assim.
Kieran inspirou.
— Tem algum problema entre a gente, não é? Mark, por favor, me diga o que é. Percebo sua distância, mas não entendo a causa.
— Você não se lembra, mas tivemos uma briga. Sobre eu ficar com a minha família. Foi por isso que eu lhe devolvi meu colar de flecha de elfo.
Kieran pareceu confuso.
— Mas eu sempre soube que você poderia ficar com a sua família. Eu não queria, mas devo ter aceitado isso. Eu me lembro de acordar na Corte Unseelie. Não me lembro de sentir raiva de você.
— Não foi uma briga feia. — Mark engoliu em seco. — Mas eu não esperava isso... Você, no
meu mundo. Todas as complicações dessa política.
— Você não me quer aqui? — A expressão de Kieran não mudou, mas de repente seus
cabelos ficaram rajados de branco nos cachos contra as têmporas.
— Não é isso — falou Mark. — Na Caçada Selvagem, eu pensava que poderia morrer a
qualquer noite. Todas as noites. Eu queria tudo, sempre, e arriscava tudo porque ninguém dependia de mim. E então veio você, e nós dependíamos um do outro, mas... — Ele pensou em Cristina. As palavras dela vieram e ele não conseguiu evitar usá-las, embora quase parecesse uma traição. Cristina, que ele beijara com alegre abandono durante aqueles poucos momentos perto da festa, antes que ele se desse conta do que ela pensava dele... alguém que ela só beijaria estando bêbada ou fora de si...
— Eu sempre precisei de você, Kieran — falou ele. — Sempre precisei de você para viver.
Sempre precisei muito, nunca tive a chance de pensar se éramos bons ou não um para o outro.
Kieran se sentou. Ficou em silêncio, embora Mark visse, para seu alívio, que as mechas
brancas em seu cabelo tinham voltado à cor azul e preta, mais normal.
— Isso foi bem sincero — falou, finalmente. — Não posso culpá-lo. — Kieran...
— De quanto tempo você precisa? — Kieran se empertigara e agora ele era o orgulhoso
príncipe fada. Mark pensou nas vezes em que vira Kieran nas festas, de longe; nas vezes em que vira as fadas menores se alastrando diante dele. Meninas e meninos que se penduravam em seus braços e esperavam uma palavra ou uma olhadela porque mesmo a benevolência de um príncipe em desgraça era moeda. E Kieran não oferecia nem palavras nem olhadelas, pois suas palavras e olhadelas eram todas para Mark. Tudo para o que eles tinham quando a Caçada Selvagem lhes dava uma folguinha...
— Talvez uns poucos dias — falou Mark. — Se você puder ser paciente tanto assim. — Eu posso ser paciente por uns dias.
— Por que você escolheu Cristina? — falou Mark abruptamente. — Quando você teve que
jurar lealdade a um de nós. Por que ela? Você fez isso para me perturbar?
Kieran sorriu.
— Como dizem, nem tudo gira em torno de você, Mark. — Ele se reclinou; o cabelo era
muito preto contra a roupa de cama branca. — Não é melhor você ir?
— Não quer mais que eu fique aqui? — indagou Mark. — Com você? — Enquanto pesa meus méritos como se eu fosse um cavalo que você cogita comprar? Não —
falou Kieran. — Volte para o seu quarto, Mark Blackthorn. E se a solidão o impedir de descansar, não venha me ver. Certamente deve haver uma Marca para a insônia.
Não havia, mas Mark não achava que seria uma boa ideia dizer isso. Os olhos de Kieran
reluziam perigosamente. Mark saiu, se perguntando se teria cometido um erro terrível.
O quarto de Cristina no Instituto de Londres era bem semelhante aos quartos que ela vira nas fotografias de outros Institutos pelo mundo: mobiliado com simplicidade, com uma cama pesada, guarda-roupa, penteadeira e escrivaninha. Um banheiro pequeno, limpo, com um chuveiro que ela já usara. Agora ela estava deitada no colchão grumoso, com os cobertores puxados até o peito e o braço dolorido.
Ela não sabia ao certo o motivo. Tinha adorado cada minuto voando com a Caçada Selvagem; se tinha se machucado de alguma forma, não se lembrava. Nem quando montara o cavalo nem quando cavalgaram, e sem dúvida ela se lembraria de uma dor assim, não? E como ela poderia ter se machucado de outra maneira?
Ela rolou para o lado e esticou a mão, tocando a pedra de luz enfeitiçada na mesinha de cabeceira. A pedra se iluminou com um brilho suave, clareando o cômodo: a imensa cama inglesa, a pesada mobília de carvalho. Alguém tinha rabiscado as iniciais JB + HL na tinta perto da janela.
Ela baixou o olhar para o braço direito. Ao redor do pulso, via-se uma faixa de pele mais clara, levemente avermelhada nas bordas, como a cicatriz deixada por uma pulseira em brasa.
— Vocês vão ficar bem? — falou Diana. Era metade declaração, metade pergunta.
Diana, Julian e Emma estavam de pé à entrada do Instituto de Londres. As portas do edifício estavam abertas e o pátio escuro era visível. Mais cedo, tinha chovido e as lajes haviam sido lavadas. Julian via o arco do famoso portão de metal que encerrava o Instituto e as palavras entalhadas nele: SOMOS PÓ E SOMBRAS.
— Vamos ficar bem — respondeu Julian.
— Malcolm está morto outra vez. Ninguém está tentando nos matar — falou Emma. — São praticamente férias.
Diana pôs a bolsa no ombro. Seu plano era pegar um táxi até a Abadia de Westminster, onde um túnel secreto acessível somente aos Caçadores de Sombras conduzia até Idris.
— Eu não gosto de deixar vocês.
Julian ficou surpreso. Diana sempre agira de acordo com a própria vontade.
— Vamos ficar bem — falou ele. — Evelyn está aqui, e a Clave fica a um telefonema de distância.
— Mas não é um telefonema que você queira dar — falou Diana. — Mandei outra mensagem para Magnus e Alec, e vou manter contato com eles em Alicante. — Ela fez uma pausa. — Se precisar, mande uma mensagem de fogo e eles virão.
— Eu dou conta — falou Julian. — Já lidei com coisa muito pior por mais tempo.
Os olhos de Diana encontraram os dele.
— Eu ficaria, se pudesse — declarou ela. — Você sabe disso. Eu assumiria o Instituto, se fosse possível. E me colocaria contra os Dearborn.
— Eu sei — respondeu Julian e, curiosamente, ele sabia mesmo. Mesmo que não tivesse certeza do que impedia Diana de se apresentar como candidata, ele sabia que era alguma coisa importante.
— Se fizesse alguma diferença — falou Diana. — Mas eu sequer passaria pela entrevista. Seria inútil, e deste modo eu não poderia ficar com vocês ou ajudar.
Ela soava como se estivesse tentando convencer a si mesma, e Emma esticou a mão, impulsiva como sempre.
— Diana, você sabe que nunca deixaríamos que tirassem você da gente — disse.
— Emma. — A voz de Julian soou mais aguda do que ele pretendia. A raiva que ele vinha engolindo desde que Emma dissera que ela e Mark terminaram estava subindo de novo e ele não sabia por quanto tempo mais poderia controlá-la. — Diana sabe do que está falando.
Emma pareceu surpresa com a frieza do tom dele. Diana passou os olhos de um para o outro. — Ouçam, eu sei que é incrivelmente estressante ficar longe de casa assim, mas tentem não
brigar — alertou. — Vocês vão ter que segurar as pontas até eu voltar de Idris.
— É só um dia ou dois — falou Emma sem olhar para Julian. — E ninguém está brigando. — Dê notícias — falou Julian para Diana. — Conte-nos o que Jia disser. Ela assentiu.
— Desde a Guerra Maligna não vou a Idris. Vai ser interessante. — Ela se inclinou então para
um beijo na bochecha, primeiro em Jules, depois em Emma. — Cuidem-se. E falo sério.
Aí puxou o capuz do casaco e saiu, engolida pelas sombras quase no mesmo instante. O braço
de Emma encostou brevemente no de Julian quando ela ergueu a mão para acenar. Ao longe, Julian ouviu a batida do portão da frente.
— Jules — disse ela, sem virar a cabeça. — Sei que comentou que Diana se recusa a assumir o
Instituto, mas você sabe por quê...?
— Não — respondeu ele. Foi uma única palavra, mas havia uma boa dose de veneno nela. —
E por falar em confissões, você estava planejando contar ao restante da família de Mark por que deu um pé na bunda dele sem avisar?
Emma se revelou admirada.
— Está zangado porque eu e Mark terminamos?
— Acho que você deu um pé na bunda de dois irmãos dele, se é que nós estamos mesmo
contando — falou ele como se ela não tivesse dito nada. — Quem vai ser o próximo? Ty?
No mesmo instante Julian se deu conta de que tinha ido longe demais. Ty era o irmão caçula
dela, assim como o dele. O rosto de Emma ficou impassível.
— Vai se ferrar, Julian Blackthorn — falou, dando meia-volta e correndo para o andar de
cima.
Nem Julian nem Emma dormiram bem naquela noite, só que ambos ficaram achando que toda aquela perturbação só estava na própria cabeça e que o outro provavelmente estava descansando placidamente.
— Acho que é hora de você ganhar sua primeira Marca de verdade — falou Ty.
Só os três, Livvy, Ty e Kit, foram deixados na saleta. Todos os outros tinham ido dormir. Pela
escuridão do lado de fora, Kit supunha que provavelmente eram três ou quatro da manhã, mas ele não estava cansado. Podia ser a diferença de fuso por causa da viagem, ou da travessia pelo Portal (ou sabe-se lá como chamavam isso); talvez fosse efeito do alívio contagioso dos outros por todos estarem unidos novamente.
Ou talvez fosse culpa das quase seiscentas xícaras de chá que ele bebera. — Eu já tive Marcas — falou Kit. — Você botou aquela iratze em mim. Livvy pareceu ligeiramente curiosa, mas não fez perguntas. Ela estava jogada na poltrona,
perto da lareira, as pernas penduradas, uma de cada lado.
— Estou falando de uma permanente — explicou Ty. — A primeira de verdade que todos nós
ganhamos. — Ele ergueu a mão direita, com dedos compridos; as costas voltadas para Kit, mostrando a graciosa Marca em formato de olho que identificava todos os Caçadores de Sombras. — Vidência. Que clareia a Visão.
— Eu já posso ver o Mundo das Sombras — observou Kit. Deu uma mordida no biscoito digestivo de chocolate. Uma das poucas comidas boas que a Inglaterra tinha a oferecer, em sua opinião.
— Você provavelmente não vê tudo o que poderia — falou Livvy; em seguida, ergueu as mãos, indicando neutralidade. — Mas você faz o que quiser.
— É a Marca mais dolorosa de se obter — falou Ty. — Mas vale a pena.
— Claro — retrucou Kit, pegando mais um biscoito ociosamente; Livvy tinha roubado um pacote inteiro da despensa. — Parece muito legal.
Ele ergueu o olhar com surpresa um momento depois, quando a sombra de Ty se assomou diante dele. O menino estava de pé, atrás dele, com a estela na mão e os olhos brilhantes.
— Sua mão dominante é a direita — disse —, então estique aquela ali na minha direção.
Surpreso, Kit mastigou o biscoito; Livvy sentava-se empertigada.
— Ty — falou. — Não. Ele não quer. Ele só estava brincando.
— Eu... — começou Kit, mas Ty ficara da cor de marfim velho e recuara, parecendo amuado. Seus olhos se desviaram rapidamente dos olhos do outro menino. Livvy estava começando a se levantar da cadeira.
— Não... não, eu quero uma — falou Kit. — Eu gostaria da Marca. Vocês têm razão. É hora de ter uma de verdade.
O momento ficou em suspenso; Livvy tirou metade do corpo da cadeira. Ty piscou rapidamente. Então esboçou um sorriso e o coração de Kit retomou o batimento normal.
— Sua mão direita então — pediu Ty.
Kit esticou a mão, e Ty estava certo: a Marca doía. Conforme ele já imaginara, era bem semelhante a adquirir uma tatuagem: uma picada profunda que queimava. Quando Ty acabou, seus olhos estavam marejando.
Kit dobrou os dedos, fitando a mão. Ele o teria para sempre, aquele olho, nas costas da mão, essa coisa que Ty tinha posto ali. Nunca ia poder apagá-la nem modificá-la.
— Fico me perguntando — falou Ty, guardando a estela de volta no cinto — onde poderia ficar essa tal casa de Malcolm, na Cornualha.
— Posso dizer exatamente onde fica — falou a menina de perto da lareira. — É em Polperro.
Kit a encarou. Tinha certeza de que havia um segundo, ela não estivera ali. Era loura, muito jovem e... transparente. Dava para ver o papel de parede através dela.
Kit não conseguiu evitar. Deu um grito.
Bridget tinha conduzido Emma a um quarto que parecia ter sido escolhido fazia muito tempo, e logo a menina descobriu o porquê: havia marcações de altura no gesso, quando você encosta uma criança na parede e desenha uma linha pouco acima da cabeça com a data, marcando a evolução de seu desenvolvimento em cada ocasião. Uma continha o nome de Will Herondale; a outra, James Carstairs.
Um quarto para os Carstairs. Emma cruzou os braços e segurou os cotovelos, imaginando Jem, sua voz doce, os olhos escuros. Ela sentia falta dele.
Mas isso não era tudo; afinal, Jem e Will poderiam ter feito suas marcações em qualquer quarto. Na gaveta da mesinha de cabeceira, Emma encontrou um monte de fotografias velhas, a maioria datando do início dos anos 1900.
Fotografias de um grupo de quatro garotos, em diferentes estágios da vida. Pareciam um bando animado. Dois deles, um garoto louro e um de cabelos escuros, estavam juntos em praticamente todas as fotos, abraçados, ambos risonhos. Também havia uma garota, de cabelos castanhos que parecia um bocado com Tessa, mas que não era ela. E então lá estava Tessa, os traços iguaizinhos, com um homem extremamente bonito aparentando vinte e tantos anos. O famoso Will Herondale, imaginou Emma. E havia uma outra garota, com cabelos ruivos, pele morena e expressão séria. Em suas mãos, trazia uma espada dourada. Emma a reconheceu imediatamente, mesmo sem ler a inscrição na lâmina: Eu sou Cortana, do mesmo aço e da mesma têmpera que Joyeuse e Durendal.
Cortana. Não importava quem fosse a menina na fotografia, ela era uma Carstairs. No verso, alguém tinha rabiscado o que parecia o trecho de um poema. A ferida é o lugar por
onde a Luz entra em você.
Emma fitou aquelas palavras por um longo tempo.
— Não tem a menor necessidade de você gritar — falou a menina, aborrecida. O sotaque era muito inglês. — Sou um fantasma, só isso. Você age como se nunca tivesse visto um.
— E nunca vi mesmo — falou Kit, irritado.
Livvy estava de pé.
— Kit, o que está acontecendo? Com quem você está falando? — Com um fantasma — respondeu Ty. — Quem é, Kit?
— Meu nome é Jessamine — falou a menina. — E só porque não me viu antes não quer dizer
que eu não estivesse tentando.
— O nome dela é Jessamine — informou Kit. — Ela disse que vinha tentando chamar a nossa
atenção.
— Um fantasma — falou Ty, olhando na direção da lareira. Era evidente que ele não
conseguia enxergar Jessamine, mas também era evidente que fazia uma boa ideia de onde ela se encontrava. — Dizem que um fantasma salvou o Instituto de Londres durante a Guerra Maligna. Foi ela?
Kit ouviu e repetiu.
— Ela diz que sim. E parece bastante convencida a respeito disso. Jessamine o fitou com uma expressão séria.
— Ela também diz que sabe onde Malcolm morava — continuou Kit. — Ela sabe? — Livvy foi até a escrivaninha e pegou caneta e um caderno. — Ela vai nos
contar?
— Polperro — repetiu Jessamine. Ela era muito bonita, com cabelos louros e olhos escuros.
Kit se perguntava se era esquisito achar um fantasma atraente. — É uma cidadezinha na Cornualha. Malcolm falava às vezes sobre o projeto da casa, quando ele estava no Instituto. — Ela acenou a mão transparente. — Ele sentia muito orgulho da casa... Que fica bem em cima de umas cavernas famosas. É terrível que ele tenha se transformado num vilão. E pobre Arthur — emendou ela. — Eu costumava tomar conta dele quando ele dormia. Ele tinha pesadelos horríveis com as fadas e com seu irmão.
— O que ela está dizendo? — perguntou Livvy, com a caneta posicionada sobre o papel. — Polperro — esclareceu Kit. — No Sul da Cornualha. Ele tinha muito orgulho do local.
Jessamine lamenta que ele tenha se transformado num babaca.
Livvy anotou tudo.
— Aposto que ela não falou babaca.
— Nós temos que ir à biblioteca — falou Ty. — Encontrar um atlas e descobrir os horários dos trens.
— Pergunte uma coisa por mim — pediu Livvy. — Por que ela simplesmente não contou a Evelyn onde ficava a casa de Malcolm?
Após um momento, Kit falou:
— Ela disse que Evelyn não podia ouvi-la de verdade. Ela costuma inventar coisas e fingir que era Jessamine quem falava.
— Mas ela sabe que Jessamine está aqui — retrucou Ty. — Ela deve ser um espírito fraco, já que nenhum de nós pode vê-la.
— Humpf! — resmungou Jessamine. — Espírito fraco, de fato; é evidente que nenhum de vocês treinou a observação dos mortos-vivos. Fiz de tudo para chamar a atenção, exceto acertar a cabeça de um de vocês com um tabuleiro Ouija.
— Eu simplesmente vi você — falou Kit. — E nunca treinei para ser um Caçador de Sombras.
— Você é um Herondale — falou Jessamine. — Eles podem ver fantasmas.
— Normalmente os Herondale podem ver fantasmas — falou Ty, ao mesmo tempo. — Por isso eu queria que você recebesse a Marca da Vidência.
Kit se virou para olhar para ele.
— Por que você não disse logo?
— Talvez não funcionasse — explicou Ty. — Eu não queria que você se sentisse mal se não desse certo.
— Bem, deu certo — falou Livvy. — Melhor a gente acordar Julian e contar para ele.
— O menino mais velho, com cabelo cacheado castanho? — perguntou Jessamine. — Ele está acordado. — Ela deu uma risadinha. — É bom ver aqueles adoráveis olhos Blackthorn outra vez.
— Julian está acordado — falou Kit, concluindo que era melhor não mencionar que o fantasma tinha uma quedinha por ele.
Ty se juntou a Livvy à porta.
— Kit, você vem?
O menino balançou a cabeça, surpreso com a própria reação. Se há algumas semanas tivessem perguntado se ele iria sentir algum prazer em ficar a sós com um fantasma, ele teria dito que não. Não que ele estivesse exatamente satisfeito, mas também não estava incomodado. Não havia nada de assustador em Jessamine. Ela parecia mais velha do que devia ser, um pouco melancólica e nem um pouco morta.
Mas ela estava morta. Ela se moveu com a lufada de ar da porta que se fechou, os dedos longos e brancos apoiados na cornija.
— Você não precisava ficar — falou ela para Kit. — Provavelmente, vou desaparecer em um minuto. Até os fantasmas precisam descansar.
— Eu queria fazer uma pergunta — falou Kit. Ele engoliu em seco; agora que chegara o momento, sua garganta estava seca. — Você... você já viu meu pai? Ele morreu já tem um tempinho.
Os olhos castanhos dela se encheram de pena.
— Não — respondeu. — A maioria das pessoas não se torna fantasma, Christopher. Apenas aquelas que têm negócios pendentes na Terra ou que morreram sentindo que deviam algo a alguém.
— Meu pai nunca achou que devesse qualquer coisa a quem quer que fosse — resmungou Kit.
— É melhor que eu não o tenha visto. Isso significa que ele seguiu seu caminho. Está em paz. — Seguiu seu caminho e foi para onde? — Kit ergueu a cabeça. — Ele está no céu? Quero
dizer, parece tão improvável.
— Christopher! — Jessamine parecia chocada. — É sério — retrucou o menino. — Você não o conheceu. — Não sei o que vem depois da morte — explicou Jessamine. — Tessa costumava me
perguntar coisas assim também. Ela queria saber onde Will estava. Mas ele não ficava por aí. Ele morreu feliz e em paz, e seguiu seu caminho. — As mãos dela flutuaram em sinal de impotência. — Não sou como Caronte. Não sou o barqueiro. Não posso dizer o que tem do outro lado do rio.
— Poderia ser terrível — falou Kit, cerrando os punhos e sentindo o ferrão da dor em sua
nova Marca. — Poderia ser a tortura eterna.
— Poderia — falou Jessamine. Havia sabedoria em sua voz suave. — Mas eu não creio que
seja isso.
Ela abaixou a cabeça. A luz da lareira cintilou no cabelo louro claro e ela se foi. Kit ficou
sozinho no cômodo. Mas havia algo em sua mão, que estalou quando ele se mexeu.
Era um pedaço de papel dobrado. Ele abriu e examinou as palavras rapidamente; elas tinham
sido traçadas com uma letra delicada e feminina.
Se roubar algum dos livros da biblioteca, eu saberei, e você vai lamentar muito. Estava assinado, com vários floreios: Jessamine Lovelace.
Quando Livvy entrou no quarto de Julian, ele estava deitado esparramado na cama, como um pedaço de torrada caído. Nem sequer tinha se dado ao trabalho de trocar de roupa ou de se enfiar sob as cobertas.
— Jules? — chamou Livvy, parada à porta.
Ele se sentou rapidamente. Vinha tentando revirar seus pensamentos, mas a visão da irmã
caçula — em seu quarto, tarde da noite — baniu tudo, exceto o pânico atávico e imediato.
— Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Livvy assentiu.
— É uma notícia boa, na verdade. Descobrimos onde fica a casa de Malcolm; aquela, na
Cornualha.
— O quê? — Julian passou as mãos pelo cabelo, esfregando os olhos para acordar. — E Ty,
onde está?
— Na biblioteca. — Ela se sentou no canto da cama de Julian. — No fim das contas, tem um
fantasma na casa. Jessamine. De qualquer forma, ela se lembrava de Malcolm e sabia onde ficava a casa. Ty está verificando, mas não há razão para achar que ela não estaria certa. Evelyn tem falado com ela há dias, mas simplesmente não achamos que ela existisse realmente, só que Kit...
— Consegue enxergar fantasmas. Certo — falou Julian. Estava mais alerta agora. — Muito
bem. Vou amanhã e verei o que posso descobrir.
— E nós vamos para a Casa dos Blackthorn — falou Livvy. A Casa dos Blackthorn era uma
das duas propriedades da família Blackthorn. Tinham uma mansão em Idris e uma casa grande em Chiswick, no Tâmisa, que havia pertencido aos Lightwood fazia muito tempo. — Ver se tem algum documento, alguma coisa sobre Annabel. Kieran não pode realmente sair do Instituto, então Mark pode ficar com ele e Cristina, e eles podem olhar na biblioteca.
— Não — falou Julian.
Livvy trincou a mandíbula.
— Jules...
— Vocês podem ir à Casa dos Blackthorn — falou ele. — Certamente fizeram por merecer, você e Ty, e Kit também. Mas Mark vai junto. Kieran pode se distrair trançando colares de margaridas ou compondo uma balada.
Livvy torceu a boca
— Parece errado fazer chacota do Povo das Fadas.
— Kieran merece ser alvo de chacota — falou Julian. — Ele nos aborreceu no passado.
— Acho que Cristina pode vigiá-lo.
— Eu ia pedir que ela fosse à Cornualha — falou Julian.
— Você e Cristina? — Livvy parecia perplexa. Julian não podia culpá-la. Era fato que o grupo tinha padrões estabelecidos com base em idade e familiaridade. Jules e Emma ou Jules e Mark fazia sentido. Jules e Cristina, não.
— E Emma — emendou Julian, xingando baixinho. A ideia de passar mais tempo com Emma, especialmente agora era... assustadora. Mas seria estranho se ele fosse sem ela, sua parabatai. Isso sem falar que Emma não aceitaria tudo passivamente. Não havia a menor chance disso.
Mas levar Cristina ia ajudar. Ela seria um amortecedor. Ter que botar alguém entre ele e Emma o deixava enjoado, mas a lembrança do modo como ele falara rispidamente com ela à entrada do Instituto o deixava mais enjoado ainda.
Era como observar alguém conversando com a pessoa que ele mais amava no mundo; alguém magoando sua parabatai de propósito. Ele tinha conseguido fazer alguma coisa com seus sentimentos enquanto ela estivera com Mark: os torcera e amassara, e os empurrara para bem debaixo de sua pele e consciência. Ele os sentia ali, sangrando, como um tumor rasgando seus órgãos internos, mas ao menos não era capaz de vê-los.
Agora eles estavam ali outra vez, diante dele. Era aterrador amar alguém proibido para você. Aterrador sentir alguma coisa sobre a qual você nunca poderia falar, algo horrível para quase todos que você conhecia, alguma coisa que poderia destruir sua vida.
E de alguma forma, era mais terrível saber que seus sentimentos eram indesejáveis. Quando ele tinha pensado que Emma o amava, não se sentira completamente só em seu inferno. Quando ela estava com Mark, ele ao menos podia dizer a si que era Mark quem os separava. E não que ela preferia estar sozinha a estar com ele.
— Cristina sabe um bocado de coisas sobre o Volume Negro — falou Julian. Ele não fazia ideia se isso era verdade ou não. Gentilmente, Livvy não insistiu. — Ela vai ser útil.
— Casa dos Blackthorn, aqui vamos nós — falou Livvy, e saiu da cama. Ela olhou para Julian como uma garotinha de um desenho antigo de um livro ilustrado, com seu vestido azul de mangas bufantes. Talvez Livvy fosse sempre parecer uma garotinha para ele. — Jules?
— Sim?
— Nós sabemos — falou. — Sabemos sobre Arthur e o que tinha de errado com ele. Sabemos que você dirigia o Instituto. Sabemos que era você fazendo tudo desde a Guerra Maligna.
Julian sentiu como se a cama tivesse se inclinado embaixo dele.
— Livia...
— Não estamos zangados — falou ela rapidamente. — Estou aqui sozinha porque queria conversar com você a sós, antes de Ty e Dru. Tinha uma coisa que eu queria te dizer.
Julian ainda estava com os dedos na colcha. Desconfiava estar num tipo de choque. Durante
tantos anos ele pensara em como seria este momento, mas agora que estava acontecendo, não fazia ideia do que dizer.
— Por quê? — finalmente conseguiu articular.
— Eu percebi uma coisa — falou ela. — Eu quero ser igual a você, Jules. Não neste segundo,
nem agora, mas um dia. Quero cuidar das pessoas, de outros Caçadores de Sombras, de pessoas que precisam de mim. Quero dirigir um Instituto.
— Você seria muito boa nisso — falou Julian. — Livvy... não contei porque não podia. Não
porque não confiasse em você. Eu nem sequer disse a Emma. Só algumas semanas atrás.
Ela apenas sorriu para ele, e contornou a cama, indo até onde ele estava sentado. Ela se
abaixou e ele sentiu o beijo suave em sua testa. Julian fechou os olhos, lembrando-se de quando ela era pequena o suficiente para ser erguida nos braços, quando ela costumava segui-lo e esticava as mãozinhas para ele: Julian, Julian, me pega no colo.
— Não tem mais ninguém com quem eu queira me parecer além de você — falou ela. —
Quero que você sinta orgulho de mim.
Ele abriu os olhos ao ouvir aquilo e a abraçou, desajeitado, usando um braço só, e então ela se
afastou e bagunçou o cabelo dele. Ele reclamou e ela riu e caminhou até a porta, dizendo que estava exausta. Daí apagou a luz ao sair do quarto, deixando-o no escuro.
Julian se revirou debaixo do cobertor. Livvy sabia. Eles sabiam. Eles sabiam e não o odiavam.
Ele estava se livrando de um peso que quase tinha se esquecido de que carregava.