Senhor das sombras

Cassandra Clare · Capítulo 19 de 35

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Senhor das sombras

Parte Dois

 

Thule

15

 

Amigos que se Foram

Kit jamais tinha imaginado que poria os pés em um dos Institutos dos Caçadores de Sombras. Agora ele comia e dormia em dois deles. Se continuasse assim, ia acabar se tornando um hábito.

O Instituto de Londres era exatamente do jeito que ele teria imaginado se lhe pedissem para

imaginar, o que evidentemente ninguém fez. Localizado numa imensa e antiga igreja construída com pedras, faltava ao Instituto a modernidade lustrosa de seu equivalente em Los Angeles. Parecia que a construção não passava por uma reforma fazia oitenta anos. Os cômodos eram pintados em tons pastel eduardiarnos, que, com o passar das décadas, tinham desbotado para cores claras e enlameadas. A água quente era intermitente, os colchões tinham calombos e as superfícies da maior parte da mobília estava recoberta com poeira.

Pelos trechos de conversas que Kit entreouvira, o Instituto de Londres costumava abrigar

muito mais gente antes. Fora atacado por Sebastian Morgenstern durante a Guerra Maligna, e a maioria dos antigos moradores não voltara.

A diretora do Instituto parecia quase tão antiga quanto o edifício. Seu nome era Evelyn

Highsmith. Kit tinha a impressão de que os Highsmith fossem muito importantes na sociedade dos Caçadores de Sombras, embora não fossem tão importantes quanto os Herondale. Evelyn era uma senhora de cabelos brancos, alta e imperiosa, em torno dos oitenta anos, usava vestidos longos no estilo dos anos quarenta, andava com uma bengala com punho de prata e às vezes falava com pessoas que não estavam presentes.

Só mais uma pessoa parecia morar no Instituto: Bridget, a criada de Evelyn, que era tão velha

quanto a patroa. Ela pintava os cabelos num tom vermelho bem forte e tinha milhares de rugas finas. Sempre aparecia em locais inesperados, o que era inconveniente para Kit, que, mais uma vez, estava à espreita de algum objeto que pudesse roubar. Não era uma busca bem-sucedida — a maior parte das coisas que pareciam valiosas eram móveis e ele não conseguia imaginar como se esgueiraria do Instituto carregando um aparador. As armas estavam cuidadosamente trancadas fora da vista e ele não sabia como vender castiçais na rua. E embora houvesse algumas valiosas primeiras edições na imensa biblioteca, a maioria fora rabiscada por algum idiota chamado Will H.

A porta da sala de jantar se abriu, e Diana entrou. Ela usava mais um dos braços: Kit

descobrira que alguns ferimentos dos Caçadores de Sombras, em particular os que envolviam veneno ou icor de demônios, se curavam lentamente, apesar das Marcas.

Livvy se levantou ao ver sua tutora. A família estava reunida para o jantar, que fora servido na

mesa comprida da imensa sala de jantar vitoriana. Antigamente, pinturas de anjos adornavam o teto, mas havia muito estavam praticamente cobertas por poeira e manchas de incêndios.

— Alguma notícia de Alec e Magnus?

Diana balançou a cabeça, sentando-se de frente para Livvy. A menina usava um vestido azul

que parecia ter sido roubado do set de um programa de época da BBC. Embora eles tivessem fugido do Instituto de Los Angeles sem os pertences, havia um monte de roupas guardadas em Londres, embora nenhuma delas parecesse ter sido comprada depois de 1940. Evelyn, Kit e a família Blackthorn sentavam-se à mesa exibindo uma variedade curiosa de roupas: Ty e Kit vestiam calça e camisa de mangas compridas, Tavvy usava short e uma camiseta listrada de algodão, e Drusilla trajava um vestido de veludo preto que a agradara devido ao seu toque gótico. Diana havia rejeitado todas as roupas e simplesmente preferia lavar seus próprios jeans e camiseta.

— E quanto à Clave? — perguntou Ty. — Você conversou com a Clave?

— Eles já foram úteis alguma vez? — murmurou Kit baixinho. Ele não achou que alguém tivesse ouvido, mas alguém deve ter escutado porque Evelyn explodiu numa risada.

— Oh, Jessamine — falou a mulher para ninguém. — Ora, ora, isso não é de bom gosto.

Os Blackthorn entreolharam-se com as sobrancelhas erguidas. Mas ninguém fez comentários porque Bridget chegara da cozinha trazendo bandejas fumegantes com carne e vegetais, que tinham sido cozidos até o ponto de ficar sem gosto.

— Eu simplesmente não entendo por que não podemos ir para casa — falou Dru melancolicamente. — Se os Centuriões derrotaram todos os demônios marinhos, como disseram. . .

— Isso não significa que Malcolm não vá voltar — interrompeu Diana. — E o que ele quer é sangue dos Blackthorn. Vocês vão ficar aqui dentro, e sem discussão.

Kit tinha desmaiado durante aquela coisa terrível que eles chamavam de viagem através do Portal — o redemoinho horroroso através do nada absolutamente gelado —, por isso, ele perdera a cena que deve ter ocorrido quando eles apareceram no Instituto de Londres, sem Arthur, e Diana explicara que eles tinham ido definitivamente para lá.

A tutora entrara em contato com a Clave para contar-lhes sobre as ameaças de Malcolm —, mas Zara se antecipara. Aparentemente ela havia tranquilizado o Conselho, dizendo que os Centuriões tinham tudo sob controle, que eram muito superiores a Malcolm e seu exército, e a Clave ficara muito satisfeita em acreditar em suas palavras.

E como se as palavras de Zara tivessem operado um milagre, Malcolm não voltara a aparecer e nenhum demônio visitara a Costa Oeste. Dois dias se passaram e não havia notícias de desastre.

— Eu odeio o fato de Zara e Manuel estarem no Instituto sem a gente lá para vigiá-los — falou Livvy, soltando o garfo. — Quanto mais tempo eles ficam, mais argumentos vão ter para a Tropa assumi-lo.

— Isso é ridículo — falou Evelyn. — Arthur dirige o Instituto. Não seja paranoica, garota. — Ela pronunciava o r bem forte.

Livvy se encolheu. Embora todos eles, incluindo Dru e Tavvy, finalmente tivessem sido colocados a par da situação, sobre a doença de Arthur e o paradeiro de Julian e dos outros, ficou decidido que era melhor que Evelyn não soubesse. Ela não era uma aliada; não havia razão para que ficasse ao lado deles, embora parecesse nitidamente desinteressada na política do Conselho. Na verdade, na maior parte do tempo ela nem parecia estar ouvindo o que eles diziam.

— Zara falou que Arthur esteve trancado em seu escritório desde que nós saímos de lá — comentou Diana.

— Eu também permaneceria trancado se tivesse que lidar com Zara — disse Dru.

— Eu ainda não entendo por que Arthur não veio com você — fungou Evelyn. — Ele costumava morar neste Instituto. Imaginei que não se importaria de fazer uma visita.

— Veja pelo lado bom, Livvy — falou Diana. — Quando Julian voltar com os outros do... do lugar onde eles estão... muito provavelmente vão direto para Los Angeles. Você ia querer que eles encontrassem o Instituto vazio?

Livvy cutucou a comida sem dizer nada. Ela estava pálida e abatida, com olheiras. Na noite

seguinte à chegada em Londres, Kit se dirigira ao quarto dela, perguntando-se se ela gostaria de vê-lo, porém, quando pôs a mão na maçaneta, ele a ouvira chorando. Sendo assim, dera meia-volta e optara por ir embora, sentindo um aperto estranho no peito. Ninguém que chorava daquele jeito parecia disposto a desfrutar da companhia de alguém, sobretudo de alguém como ele.

Kit sentiu o mesmo aperto quando olhou para Ty, à sua frente na mesa, e se lembrou de

como o outro menino havia curado sua mão. De como a pele de Ty era fria. Ty estava tenso, do jeito dele — a mudança para o Instituto de Londres fora uma grande perturbação em sua rotina e era evidente que aquilo o incomodava. Ele passava muito tempo na sala de treinamento, que era praticamente idêntica à do Instituto de Los Angeles. Às vezes, quando ele estava estressado, Livvy segurava suas mãos e as massageava casualmente. A pressão parecia acalmá-lo. No entanto, agora Ty estava tenso e distraído, como se de algum modo tivesse se ensimesmado.

— Nós podíamos ir a Baker Street — falou Kit, sem sequer imaginar que ia dizer aquilo. —

Nós estamos em Londres.

Ao ouvir aquilo, Ty ergueu o olhar, as íris cinzentas brilhando. Já havia afastado seu prato:

Livvy tinha contado para Kit que Ty levava muito tempo para se acostumar a comidas e sabores. Por enquanto, ele praticamente só comia batatas.

— Para Baker Street, 221B?

— Quando as coisas com Malcolm estiverem resolvidas — interveio Diana. — Até lá, nem

um Blackthorn sai do instituto, nem um Herondale também. Eu não gostei do modo raivoso como Malcolm olhou para você, Kit. — Ela se levantou. — Estarei na saleta. Preciso mandar uma mensagem de fogo.

Quando a porta se fechou atrás dela, Tavvy — que fitava o ar ao lado da cadeira de um modo

que Kit considerou sinceramente alarmante — deu uma risadinha. Todos eles se viraram, surpresos. O caçula dos Blackthorn não vinha rindo muito ultimamente.

Ele não podia culpá-lo. Julian era tudo que o menino possuía, a coisa mais semelhante a uma

figura paterna. Kit sabia como era sentir falta do pai, e Tavvy não tinha nem sete anos.

— Jessie — ralhou Evelyn, e por um momento Kit realmente olhou ao redor, como se a

pessoa a quem ela se dirigia estivesse com eles no cômodo. — Deixe a criança em paz. Ele nem conhece você. — A idosa olhou ao redor da mesa. — Todo mundo acha que leva jeito com crianças. Poucos sabem quando não levam. — Ela mordeu uma cenoura. — Eu não levo jeito algum — falou ela, mastigando a comida. — Nunca suportei crianças.

Kit revirou os olhos. Tavvy encarou Evelyn como se estivesse pensando em atirar um prato

nela.

— Você poderia muito bem levar Tavvy para a cama, Dru — falou Livvy apressadamente. —

Acho que todos já terminamos o jantar aqui.

— Claro, por que não? Não é como se eu não tivesse procurado roupas pra ele hoje de manhã

ou posto para dormir na noite passada. Eu poderia muito bem ser uma criada — rebateu Dru e, em seguida, tirou Tavvy da cadeira e saiu pisando duro até o quarto, arrastando o irmãozinho mais novo.

Livvy pôs a cabeça nas mãos. Ty ficou a observá-la e aí falou: — Você não precisa tomar conta de ninguém.

Ela fungou e olhou de esguelha para o irmão gêmeo.

— É só que... sem Jules aqui, eu sou a mais velha. Por uns minutos, de qualquer forma.

— Diana é a mais velha — falou Ty. Ninguém mencionou Evelyn, que tinha colocado os óculos sobre o nariz e lia o jornal.

— Mas ela tem mais o que fazer além de cuidar da gente... quero dizer, cuidar das pequenas coisas — falou Livvy. — Nunca pensei nisso de fato, em todas as coisas que Julian faz por nós, mas é demais. Ele sempre nos mantém juntos e toma conta de todos, e eu nem entendo como...

Ouviu-se um som de explosão. O rosto de Ty ficou pálido. Era evidente que ele estava ouvindo um barulho conhecido.

— Livvy — falou. — O Salão dos Acordos...

Agora o barulho parecia menos semelhante ao de uma explosão e soava mais como um trovão, um trovão impetuoso que dominava o céu. Um som de nuvens sendo rasgadas, como tecido.

Dru entrou correndo no cômodo, com Tavvy bem atrás dela.

— São eles — falou. — Vocês não vão acreditar, mas precisam vir rápido. Eu vi, são eles, voando... fui até o terraço...

— Quem? — Livvy estava de pé; todos estavam, menos Evelyn, que ainda lia o jornal. — Quem está no terraço, Dru?

Dru pegou Tavvy no colo.

— Todo mundo — falou ela, os olhos brilhando.

O terraço do Instituto era forrado com cascalho e se estendia até uma balaustrada de ferro forjado na altura da cintura. Os capitéis das balaustradas tinham lírios de ferro nas pontas. Ao longe, Kit via o domo reluzente da catedral de São Paulo, conhecida graças a milhares de filmes e programas de tevê.

As nuvens estavam pesadas, cor do ferro, e circundavam o Instituto como nuvens em torno de uma montanha. Kit mal conseguia enxergar as ruas lá embaixo. O ar era acre com os raios de verão.

Todos eles tinham se espalhado pelo telhado, menos Evelyn e Bridget. Diana estava aqui, o braço cuidadosamente protegido. Os olhos cinzentos de Ty mantinham-se fixados no céu.

— Ali— falou Dru, apontando. — Estão vendo?

Quando Kit olhou, o feitiço de disfarce se desfez. De repente, era como se uma pintura ou um filme tivessem ganhado vida. Mas os filmes não ofereciam tal coisa, a confusão visceral de admiração e medo. Os filmes não forneciam o cheiro de magia, estalando como relâmpagos, nem as sombras lançadas por uma hoste de criaturas que voavam de modo impossível contra o céu acima delas. Filmes ou pinturas não proporcionavam a luz das estrelas nos cabelos louros de uma garota conforme ela deslizava, dando gritinhos de emoção e alegria, nem das costas de um cavalo voador, ambos pousando num telhado de Londres. Nem tampouco lhe mostravam a expressão dos rostos dos Blackthorn ao verem seus irmãos e amigos voltando para eles.

Livvy pulou em cima de Julian, abraçando seu pescoço. Mark desceu do cavalo e quase desabou de emoção ao se ver abraçado com força por Dru e Tavvy. Ty se aproximou com mais calma, porém com a mesma felicidade incandescente no rosto. Ele esperou que Livvy terminasse de quase estrangular o irmão e então avançou para pegar as mãos de Julian.

E Julian, que Kit sempre considerara um assustador modelo de controle e distância, agarrou o irmão e o puxou para bem pertinho, as mãos torcendo as costas da camisa de Ty. Seus olhos estavam fechados e Kit teve que evitar encarar a expressão do outro.

Ele nunca tivera ninguém além do pai e sempre tivera certeza de que seu pai nunca o amara

desse jeito.

Mark se aproximou dos irmãos então, e Ty se virou para olhar para ele. Kit ouviu quando ele

disse:

— Eu não sabia ao certo se você voltaria.

Mark pousou a mão no ombro do irmão e falou rispidamente: — Eu sempre voltarei para você, Tiberius. Sinto muito se fiz você acreditar no contrário. Havia dois outros recém-chegados entre os Blackthorn, os quais Kit não reconheceu: um

menino lindo, de cara amarrada, com cabelos preto-azulados que ondulava em torno do rosto anguloso, e um homem imenso, de ombros largos usando um capacete assustador com chifres de cervo entalhados que se projetavam de cada lado. Os dois estavam montados nos cavalos, em silêncio, sem se mexer. Uma escolta de fadas, talvez, para manter os outros em segurança? Mas como será que os Blackthorn e Emma conseguiram um favor desses?

Daí, mais uma vez, se havia alguém capaz de conseguir uma coisa assim, este alguém seria

Julian Blackthorn. Como o pai de Kit costumava dizer sobre vários criminosos, Julian era o tipo de pessoa que poderia descer ao inferno e sair de lá com o próprio diabo lhe devendo um favor.

Diana abraçou Emma e depois Cristina, e lágrimas brilhavam em seu rosto. Sentindo-se

estranhamente deslocado naquele encontro, Kit foi até a beira da balaustrada. As nuvens tinham se dissipado e dava para ver a Millenium Bridge dali de cima, iluminada com cores do arco-íris. Um trem chacoalhava sobre outra ponte e lançava seu reflexo na água.

— Quem é você? — perguntou uma voz junto ao cotovelo dele. Kit se assustou e se virou. Era

um dos guardas das fadas que ele notara antes, o que olhava de cara feia. Os cabelos escuros, vistos bem de perto, pareciam menos pretos do que uma mistura de tons verde e azul-escuro. Ele afastou um pouco do cabelo do rosto, franzindo a testa. Tinha uma boca farta e ligeiramente irregular, mas o mais interessante, sem dúvida, eram os olhos. Tais os de Mark, com duas cores diferentes. Um era prata como um escudo polido; o outro era de um negro tão escuro que mal se via.

— Kit — respondeu ele.

O menino com os cabelos de oceano assentiu.

— Sou Kieran — falou. — Kieran Caçador.

Caçador não era um tipo de nome real das fadas, Kit sabia disso. As fadas não costumavam

fornecer seus nomes verdadeiros, pois eles continham poder; Caçador apenas denotava o que ele era, do modo como as nixies também se denominavam Nascidas da Água. Kieran era da Caçada Selvagem.

— Hum — falou Kit, pensando na Paz Fria. — Você é um prisioneiro? — Não — respondeu a fada. — Sou amante de Mark.

Ah, pensou Kit. A pessoa que ele foi salvar no Reino das Fadas. Ele tentou disfarçar um olhar

divertido ante o modo como as fadas falavam. Intelectualmente, sabia que a palavra “amante” fazia parte do discurso tradicional, mas ele não podia evitar: ele era de Los Angeles e, até onde sabia, Kieran tinha acabado de dizer: Olá, eu transo com Mark Blackthorn. E você?

— Eu pensei que Mark estivesse namorando Emma — falou Kit. Kieran pareceu confuso. Alguns cachos do cabelo pareceram escurecer, ou talvez fosse só uma peça pregada pela difusão da luz.

— Creio que você deve estar enganado.

Kit ergueu uma sobrancelha. O quanto este cara e Mark eram realmente íntimos, afinal? Talvez fosse só uma coisa sem importância. Embora parecesse um mistério por que Mark arrastaria metade da família até o Reino das Fadas para salvar o cara.

Antes que ele pudesse dizer algo, Kieran virou a cabeça e desviou sua atenção.

— Aquela deve ser a adorável Diana — falou ele, apontando na direção da tutora dos Blackthorn. — Gwyn ficou muito encantado com ela.

— Gwyn, o cara grandão? Do capacete de cervo? — perguntou Kit. Kieran fez que sim com a cabeça, observando quando Gwyn desmontou do cavalo e indo na direção de Diana, que parecia minúscula diante do tamanho dele, embora fosse uma mulher alta.

— A providência nos reuniu novamente — disse Gwyn.

— Eu não acredito na providência — falou Diana. Ela parecia constrangida, um pouco alarmada. Estava segurando o braço ferido junto ao corpo. — Nem num céu intervencionista.

— Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia — falou Gwyn.

Kit fez um muxoxo. Diana ficou pasma.

— Você está citando Shakespeare? — perguntou ela. — Eu imaginaria que ao menos teria sido Sonho de uma Noite de Verão.

— Fadas não suportam Sonho de uma Noite de Verão — resmungou Kieran. — Está tudo errado.

Gwyn deu um sorrisinho.

— E por falar em sonhos... — acrescentou ele. — Você tem estado nos meus, e com frequência.

Diana pareceu chocada. Os Blackthorn silenciaram seu encontro barulhento e ficaram observando ela e Gwyn com curiosidade descarada. Julian até esboçou um sorriso; ele segurava Tavvy, que tinha passado os braços ao redor do pescoço do irmão e agora estava pendurado como um coala.

— Eu gostaria que nós nos encontrássemos formalmente para que eu pudesse cortejá-la — falou Gwyn. As mãos grandes se remexiam sem direção nas laterais do corpo, e Kit se deu conta, com um choque, que ele estava tenso; o sujeito grandalhão e musculoso, o líder da Caçada Selvagem, tenso. — Nós poderíamos matar um gigante de gelo ou devorar um cervo.

— Não quero fazer nenhuma dessas coisas — disse Diana após um momento.

Gwyn pareceu cabisbaixo.

— Mas eu vou sair com você — falou ela, corando. — De preferência a um bom restaurante. Traga flores e nada de capacete.

Os Blackthorn começaram a rir e a aplaudir. Kit se recostou na parede com Kieran, que balançava a cabeça com perplexidade.

— E por conseguinte o orgulhoso líder da Caçada foi vencido pelo amor — falou ele. — Espero que um dia haja uma canção sobre isso.

Kit ficou observando Gwyn, que ignorava os aplausos enquanto preparava os cavalos para partir.

— Você não se parece com os outros Blackthorn — comentou Kieran depois de um instante. — Seus olhos são azuis, mas não como o azul do oceano. São mais como um céu comum.

Kit se sentiu ligeiramente insultado.

— Não sou um Blackthorn — falou ele. — Sou um Herondale. Christopher Herondale. Ele aguardou. O nome Herondale parecia produzir uma reação explosiva na maioria dos

habitantes do mundo sobrenatural. O menino com cabelo da cor do oceano, porém, sequer piscou.

— Então o que está fazendo aqui, se não é da família? — perguntou ele. Kit deu de ombros.

— Sei lá. Não pertenço a isto aqui, com certeza.

Kieran deu um sorriso enviesado típico das fadas.

— Somos dois então.

Finalmente, eles se reuniram na saleta, o cômodo mais quente da casa. Evelyn já estava lá, resmungando perto da lareira acesa; embora fosse fim de verão, Londres já carregava um ar frio e úmido. Bridget trouxe sanduíches — atum e milho, frango e bacon — e os recém-chegados devoraram tudo como se estivessem terrivelmente famintos. Julian teve que comer todo desengonçado com a mão esquerda, pois na outra equilibrava Tavvy, que permanecia em seu colo.

A saleta envelhecera melhor do que muitos dos outros cômodos no Instituto. Tinha papel de

parede florido e alegre, apenas levemente desbotado, e uma linda mobília antiga que alguém evidentemente escolhera com cuidado: uma escrivaninha com tampa de correr, uma delicada mesa secretária, poltronas de veludo liso e sofás reunidos em torno da lareira. Mesmo a grade da lareira era feita de delicado ferro forjado, com desenhos de garças com asas abertas, e quando o fogo brilhava através dela, a sombra das aves era lançada na parede como se elas estivessem voando.

Só Kieran não pareceu entusiasmado com os sanduíches. Ele os cutucou, com ar desconfiado,

e então os separou e comeu apenas os tomates, enquanto Julian explicava o que tinha acontecido no Reino das Fadas: a jornada até a Corte Unseelie, o encontro com a Rainha.

— Havia locais queimados, brancos como cinzas, como a superfície da lua — falou Mark, os

olhos sombrios de angústia. Kit se esforçou para se ater à história, mas era como tentar andar numa montanha-russa com freios defeituosos; expressões como “cristal da vidência”, “campeão Unseelie” e “Volume Negro dos Mortos” ficavam empurrando-o para fora dos trilhos.

— Quanto tempo passou para eles? — murmurou ele finalmente para Ty, que estava enfiado

entre ele e Livvy numa namoradeira muito pequena para os três.

— Parece que se passaram menos dias do que para nós — falou Ty. — Um resvalamento de

tempo, mas não muito. O colar de Cristina parece ter funcionado.

Kit assobiou baixinho.

— E quem é Annabel?

— Era uma Blackthorn — falou Ty. — Ela morreu, mas Malcolm a trouxe de volta. — Dos mortos? — indagou Kit. — Isso... isso é necromancia. — Malcolm era necromante — observou Ty.

— Cala a boca. — Livvy deu uma cotovelada em Kit, que estava perdido em pensamentos.

Necromancia não era só uma arte proibida no Mercado das Sombras, era um assunto proibido. O castigo por ressuscitar os mortos era a morte. Se os Caçadores de Sombras não pegassem você, outros integrantes do Submundo pegariam, e sua execução não seria nada bonita.

Trazer os mortos de volta, Johnny Rook sempre dissera, distorcia o tecido da vida do mesmo modo que tornar os humanos imortais. Será que alguém poderia trazer os mortos de volta e fazer isso funcionar?, perguntara Kit a ele uma vez. Mesmo o mago mais poderoso?

Deus, respondera Johnny, depois de uma pausa muito longa. Deus poderia fazê-lo. E aqueles que despertassem os mortos poderiam começar a achar que eram Deus, mas em breve eles descobririam a mentira na qual acreditaram.

— O diretor do Instituto de Los Angeles está morto?! — exclamou Evelyn, deixando cair os restos de seu sanduíche numa mesa antiga provavelmente muito cara.

Kit não a culpava por sua surpresa. Os Blackthorn não agiram como uma família de luto por causa da morte de um tio amado. Sim, estavam confusos e agitados. Mas e daí, quando conviviam com Arthur se comportavam quase como se fossem desconhecidos.

— Foi por isso que ele quis ficar em Los Angeles? — quis saber Livvy, com as bochechas coradas. — Assim ele se sacrificaria... por nós?

— Pelo Anjo. — Diana colocou a mão no peito. — Ele não respondera nenhuma de nossas mensagens, mas isso não era incomum. Mas Zara não ter percebido...

— Talvez ela tivesse, talvez não tivesse — falou Livvy. — Mas é melhor para os planos dela se ele estiver fora do caminho.

— Quais planos? — perguntou Cristina. — Como assim os planos de Zara?

Era o momento de mais uma longa explicação, dessa vez de coisas que Kit já sabia. Evelyn adormecera diante da lareira e estava roncando. Kit se perguntava quanto valia o punho da bengala dela. Era prata verdadeira ou só folheada?

— Pelo Anjo — falou Cristina quando terminaram de explicar. Julian nada disse; Emma falou alguma coisa impublicável. Mark se inclinou para a frente, as bochechas coradas.

— Deixe-me ver se entendi — falou. — Zara e o pai querem controlar o Instituto de Los Angeles para que possam impulsionar a pauta anti-integrantes do Submundo. As novas Leis provavelmente se aplicariam a mim e a Helen. E, sem dúvida, a Magnus e Catarina... todos os integrantes do Submundo que conhecemos, por mais leais que sejam.

— Eu conheço o grupo deles — falou Diana. — Eles não acreditam em integrantes do Submundo leais.

— Que grupo deles? — perguntou Emma.

— A Tropa — falou Diana. — São uma facção bem conhecida no Conselho. Assim como todos os grupos que existem principalmente com o intuito de odiar, eles acreditam falar para uma maioria silenciosa... acham que todos desprezam os integrantes do Submundo, assim como eles. Creem que a oposição à Paz Fria é covardia moral ou, na melhor das hipóteses, é choradeira daqueles que se sentem incomodados por ela.

— Incomodados? — falou Kieran. Não havia expressão em sua voz, apenas a palavra, pairando ali no ambiente.

— Eles não são inteligentes — falou Diana. — Mas são barulhentos e assustaram muitas pessoas, que se calaram. Não contam com nenhum diretor de Instituto entre os seus, mas se contarem...

— Isso é ruim — falou Emma. — Antes, eles precisariam provar que Arthur não era capaz de dirigir um Instituto. Agora ele está morto. O cargo está vago. Tudo que eles têm a fazer é esperar a próxima reunião do Conselho e apresentar seu candidato.

— E eles estão em boa posição para isso. — Diana se pusera de pé e começara a andar. — A Clave está muito impressionada com Zara Dearborn. Acreditam que ela e os Centuriões derrotaram a ameaça dos demônios marinhos por conta própria.

— Os demônios desapareceram porque Malcolm morreu... outra vez, e dessa vez, com sorte,

vai ser para sempre — falou Livvy, furiosa. — Nada disso é por causa de Zara. Ela está levando crédito pelo que Arthur fez!

— E não há nada que a gente possa fazer quanto a isso — disse Julian. — Não ainda. Daqui a

pouco, eles vão descobrir que Arthur está morto ou desaparecido. Mas só o fato de abandonar seu posto já poderia ser motivo para substituí-lo. E não podem desconfiar que sabemos como ou por que ele morreu.

— Porque a única razão pela qual sabemos é graças à Rainha Seelie — complementou Emma

baixinho, observando a adormecida Evelyn.

— Annabel é a chave para encontrarmos o Volume Negro — falou Julian. — Mas precisamos

ser os únicos na busca por ela agora. Se a Clave encontrá-la primeiro, nunca mais conseguiremos o livro para a Rainha.

— Só que quando concordamos com o plano da Rainha, nós não sabíamos sobre a Tropa —

lembrou Mark, aflito. — E se não tivermos tempo para encontrar o livro antes de a Tropa agir?

— Então vamos simplesmente ter que encontrar o livro mais depressa — falou Julian. — Não

podemos enfrentar os Dearborn num Conselho aberto. O que foi que Zara fez de errado, de acordo com a Clave? Arthur não estava qualificado para dirigir um Instituto. Muitos no Conselho odeiam os integrantes do Submundo. Ela quer dirigir um Instituto para aprovar uma lei bizarra. Não seria a primeira. Não está violando as regras. Nós é que estamos.

Kit sentiu um estremecimento bem leve subir por suas costas. Por um momento, Julian tinha

soado como seu pai. O mundo não é do jeito que queremos que seja. É do jeito que é.

— Então nós temos que fingir que não sabemos o que Zara está armando? — Emma franziu a

testa.

— Não — respondeu Diana. — Vou a Idris para conversar com a Consulesa. Todos a encararam, com olhos arregalados — todos, menos Julian, que não parecia surpreso,

e Kieran, que ainda estava fazendo cara feia para a comida.

— O que Zara está propondo significaria que a filha de Jia estaria casada com um dos

integrantes do Submundo a ser registrado. Jia sabe a que isso levaria. Eu sei que ela se encontraria comigo. Se eu puder argumentar com ela...

— Ela deixou a Paz Fria ser aprovada — falou Kieran.

— Ela não teve escolha — interveio Diana. — Se tivesse sido avisada do que viria a seguir, eu

gostaria de acreditar que as coisas teriam sido diferentes. Dessa vez, ela terá o aviso. Além disso... nós temos algo a oferecer a ela agora.

— É verdade — falou Julian, com um gesto para Kieran. — O fim da Paz Fria. Um

mensageiro fada da Rainha Seelie.

Evelyn, que estivera dormindo perto da lareira, rapidamente se aprumou. — Agora basta. — Ela olhou de cara feia para Kieran. — Eu posso aceitar um Blackthorn

nesta casa, mesmo alguém de linhagem questionável. Sempre aceitarei um Blackthorn. Mas uma fada? Escutando sobre os negócios dos Nephilim? Não vou permitir.

Kieran pareceu momentaneamente confuso. Então ficou de pé. Mark também começou a se

levantar e Julian permaneceu exatamente onde estava.

— Mas Kieran é parte do nosso plano...

— Quanta baboseira. Bridget! — chamou ela, e a criada, que evidentemente ficara espiando no corredor, enfiou a cabeça no cômodo. — Por favor, leve o principezinho para um dos quartos vagos. Fada, você me dará sua palavra de que não vai sair daqui até que lhe seja permitido.

Kieran olhou para Cristina.

— Qual é o seu desejo, milady?

Kit estava perplexo. Por que Kieran, um príncipe nobre, estava aceitando receber ordens de Cristina?

Ela corou.

— Você não precisa jurar que não vai sair do quarto — falou ela. — Eu confio em você.

— Confia? — indagou Emma, soando fascinada enquanto Kieran fazia uma mesura rígida e se retirava.

Os resmungos de Bridget podiam ser ouvidos por todos enquanto ela conduzia Kieran porta afora.

— Fadas no Instituto — murmurou ela. — Fantasma é uma coisa, feiticeiro é outra, mas nunca na vida...

Drusilla parecia confusa.

— Por que Kieran está aqui? — perguntou ela assim que ele saiu. — Eu pensei que nós o odiássemos. Tipo, quase todo mundo odeia. Quero dizer, ele salvou nossas vidas, mas ainda é um babaca.

Ouviu-se um burburinho. Kit se lembrou de alguma coisa que tinha entreouvido Livvy dizendo a Dru um dia ou dois antes. Mais pedacinhos do quebra-cabeça de Kieran: Livvy ficara zangada com o fato de Mark ter ido ao Reino das Fadas ajudar alguém que o tinha magoado. Que machucara Emma e Julian. Kit não sabia ao certo o que tinha acontecido, mas evidentemente tinha sido ruim.

Emma fora se sentar no sofá, ao lado de Cristina. Ela chegara usando um vestido claro, de tecido fino, que parecia alguma coisa que Kit veria no Mercado das Sombras. A roupa a deixava graciosa e delicada, mas Kit se lembrou do aço nela, do modo como ela abrira os demônios Mantis em sua casa com toda a calma de uma noiva cortando fatias do bolo de casamento.

Julian ouvia em silêncio à conversa da família. Embora não olhasse para Emma, uma energia quase visível crepitava entre eles. Kit se lembrou do modo como Emma dissera ao pai dele: Esse aqui não é o tipo de lugar para Julian — uma das primeiras coisas que ele a ouvira dizer, no Mercado — e o modo como sua voz parecera abraçar as sílabas do nome dele.

Parabatai eram desconhecidos. Tão próximos e ainda assim não era um casamento, no entanto era mais do que uma relação entre melhores amigos. Não havia nada semelhante para os mundanos. E isso o atraía, a ideia em si, de estar ligado a alguém desse modo, o modo como todas as coisas belas e perigosas do mundo dos Caçadores de Sombras o atraíam.

Talvez Ty...

Julian ficou de pé e ajeitou Tavvy na poltrona. Ele esticou os braços estalando os tendões dos pulsos.

— A questão é que precisamos de Kieran — falou ele.

Evelyn fez um muxoxo.

— Imagine só, precisar de uma fada — disse. — Para qualquer coisa.

Julian cochichou no ouvido de Tavvy. Um instante depois, ele estava de pé.

— Srta. Highsmith — começou ele. — Meu irmãozinho está exausto, mas falou que não sabe onde fica o quarto dele. A senhorita pode mostrar a ele?

Evelyn olhou, irritada, de Julian para Tavvy, que sorriu angelicalmente para ela, exibindo as

covinhas.

— Você não pode acompanhar a criança?

— Eu acabei de chegar — falou Julian. — Não sei onde fica o quarto. — Ele acrescentou o

próprio sorriso ao de Tavvy. Julian era capaz de irradiar charme quando queria; Kit quase se esquecera disso.

Evelyn olhou ao redor para ver se algum voluntário assumiria por ela; ninguém se mexeu.

Finalmente, com um muxoxo indignado, ela estalou os dedos para Tavvy e falou:

— Bem, então venha, criança. — E saiu do cômodo com o menino atrás de si. Julian deu um sorriso torto. Kit não conseguia afastar a sensação de que ele tinha usado

Evelyn para se livrar de Kieran, e Tavvy para se livrar de Evelyn, e o fez tão habilmente que ninguém sequer poderia provar.

Se Julian quisesse se bandear para a marginalidade, pensou Kit, ele se daria muito bem. — Precisamos de Kieran para barganhar com a Clave — falou Julian, como se nada tivesse

acontecido. — Quando nós o encontramos no Reino das Fadas, o pai dele estava prestes a matá-lo. Ele escapou, mas nunca estará em segurança se o Rei Unseelie estiver sentado no trono. — Agitado, passou a mão pelos cabelos, e Kit se perguntou como ele conseguia manter tudo na mente: planos, complôs, segredos, verdades.

— E a Rainha quer o Rei fora do trono — falou Emma. — Ela está disposta a nos ajudar a

substituí-lo pelo irmão de Kieran, mas Kieran tinha prometido convencê-lo.

— O irmão de Kieran seria melhor do que o Rei que eles têm agora? — perguntou Dru. — Seria melhor — confirmou Emma. — Acredite se quiser. — Kieran também vai testemunhar diante do Conselho — disse Julian. — Ele vai levar o

recado da Rainha, de que ela está disposta a se aliar para derrotar o Rei. E pode confirmar para o Conselho o que o Rei está fazendo nas Terras Unseelie...

— Mas você poderia contar isso a eles — alertou Kit.

— Se nós quiséssemos arriscar a ira da Clave por termos nos aventurado no Reino das Fadas

— falou Julian. — Isso sem mencionar que, embora a gente possa sair dessa, não seremos perdoados por termos feito uma barganha com a Rainha Seelie.

Kit era obrigado a admitir que Julian tinha razão. Ele sabia o tamanho do problema que os

Blackthorn quase arrumaram para si ao barganhar com a escolta que devolvera Mark a eles. A Rainha Seelie entrava num nível de proibição totalmente diferente. Era como levar um tapinha na mão por ultrapassar o sinal vermelho e então voltar no dia seguinte e explodir a rua toda.

— Kieran é seu cartão de saída da cadeia — falou ele.

— Isso não tem a ver só com a gente — afirmou Emma. — Se o Conselho ouvi-lo, isso pode

acabar com a Paz Fria. Na verdade, teria que fazer isso. Eles teriam que acreditar. Ele não é capaz de mentir, e se a Rainha está disposta a enfrentar o Rei Unseelie com a Clave, eu não sei se eles seriam capazes de recusar isso.

— O que significa que temos que manter Kieran em segurança — falou Julian. — Precisamos

fazer o possível para não hostilizá-lo.

— Porque ele está fazendo isso por Mark? — perguntou Dru. — Mas Mark terminou com ele — falou Livvy, e então olhou ao redor, alarmada. O rabo de

cavalo dela roçou o ombro de Kit. — Isso era uma coisa que eu não deveria dizer?

— Não — disse Mark. — É a verdade. Mas... Kieran não se lembra. Quando a Corte Unseelie o torturou, ele perdeu parte das lembranças. Ele não lembra de ter trazido o comitê ao Instituto, nem de Emma e Julian sendo açoitados, nem do perigo em que botou a todos nós com sua raiva e pressa. — Ele baixou o olhar para as mãos entrelaçadas. — E ninguém deve contar nada a ele.

— Mas... Emma — falou Livvy. — Não temos que fingir que ela e Mark não são...

Kit se inclinou para Ty, que cheirava a tinta e lã.

— Eu não entendo nada disso.

— Nem eu — murmurou Ty em resposta. — É muito complicado.

— Mark e eu terminamos — falou Emma, e olhou fixamente para Mark.

Kit se perguntava se Mark teria se dado conta disso. Ele não foi capaz de disfarçar a expressão de espanto.

— Simplesmente não deu certo — prosseguiu Emma. — Então está tudo bem, Mark pode fazer o que tem que fazer.

— Eles terminaram? — murmurou Livvy. Ty deu de ombros, perplexo. Livvy estava tensa e agora olhava de Mark para Emma, nitidamente preocupada.

— Nós temos que deixar Kieran pensar que ele e Mark ainda estão namorando? — perguntou Ty, com expressão atônita. Kit também sentia que a coisa toda estava além de seu controle, mas, por outro lado, Henrique VIII tinha decapitado algumas de suas mulheres aparentemente por razões governamentais. Os aspectos pessoal, político e romântico frequentemente se entrelaçavam.

— Esconder essas coisas de Kieran não é o ideal — falou Julian, com as mãos nos bolsos. — E odeio pedir a vocês para mentir. Provavelmente é melhor evitar o assunto. Mas literalmente não há outra maneira de garantir que ele apareça diante da Clave.

Mark se sentou, passando os dedos pelo cabelo louro, distraído. Kit praticamente podia ouvi-lo dizendo “Eu estou bem, está tudo bem” a Cristina. E sentiu uma onda de estranha solidariedade; não por Mark, mas por Kieran. Kieran, que não sabia que seu namorado não era seu namorado de verdade, que dormia numa casa cheia de pessoas que, por mais amigáveis que talvez parecessem, mentiriam para ele para obter algo de que precisavam.

Ele pensou na frieza que vira em Julian no Mercado das Sombras. Julian, que sacrificaria Kieran, e talvez o próprio irmão de certo modo, para obter o que desejava.

Mesmo que seu desejo fosse uma coisa boa. Mesmo que fosse o fim da Paz Fria. Kit olhou para Julian, fitando a lareira na saleta com olhos insondáveis, e desconfiou que houvesse mais coisas naquela história toda.

Que, até onde dizia respeito a Julian Blackthorn, sempre haveria mais coisas.