Senhor das sombras
11. Em Um Trono Negro
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Em Um Trono Negro
Kit se sentou nos degraus do Instituto, fitando a água.
Tinha sido um dia longo e inquietante. As coisas estavam mais tensas do que nunca entre os
Centuriões e os moradores do Instituto, mas, pelo menos, os Centuriões não sabiam por quê.
Diana tinha feito um esforço heroico para dar aula, como se tudo estivesse normal. Ninguém
conseguia se concentrar — pela primeira vez, Kit, apesar de totalmente perdido em relação a comparações entre vários alfabetos seráficos, não era o mais distraído da sala. Mas o objetivo das aulas era manter as aparências para os Centuriões, então seguiram em frente.
As coisas não melhoraram muito no jantar. Após um dia longo e úmido durante o qual não
encontraram nada, os Centuriões estavam irritadiços. Não ajudava o fato de que Jon Cartwright aparentemente tinha tido uma espécie de faniquito e saído, e seu paradeiro era desconhecido. A julgar pelos lábios contraídos de Zara, ele tinha discutido com ela, mas Kit só podia imaginar o motivo. A moralidade de confinar feiticeiros em campos ou de conduzir fadas a câmaras de tortura, ele supunha.
Diego e Rayan deram o melhor de si para manter uma conversa alegre, mas fracassaram.
Livvy passou quase toda a refeição encarando Diego, provavelmente pensando no plano de utilizá-lo para frear Zara, mas isso evidentemente o deixou nervoso, considerando que, por duas vezes, ele tentou cortar a carne com a colher. Para piorar, Dru e Tavvy pareceram captar o clima tenso na sala e passaram o jantar enchendo Diana com perguntas sobre quando Julian e os outros voltariam da “missão”.
Quando acabou, Kit ficou feliz por se retirar, evitando lavar a louça após o jantar, e encontrou
um canto quieto embaixo da varanda da frente da casa. O ar que soprava do deserto era frio e temperado, e o oceano brilhava sob as estrelas, uma tela preta que se desdobrava em uma série de ondas brancas.
Pela milésima vez, Kit perguntou a si mesmo o que o mantinha ali. Por mais que parecesse
bobagem desaparecer por causa de uma conversa desagradável no jantar, ele tinha sido dolorosamente lembrado nesse último dia que os problemas dos Blackthorn não eram dele, e provavelmente nunca deveriam ser. Uma coisa era ser filho de Johnny Rook.
Outra, muito diferente, era ser um Herondale.
Ele tocou a prata do anel em seu dedo, fria contra a pele.
— Eu não sabia que você estava aqui fora — foi a voz de Ty; Kit sabia antes de olhar. O
menino tinha vindo pela lateral da casa e o encarava com curiosidade.
Havia algo em torno do pescoço de Ty, mas não eram os fones de sempre. Ao subir pela
escada, uma sombra esguia de jeans escuros e um casaco, Kit percebeu que tinha olhos.
Ele colou as costas contra a parede.
— Isso é um furão?
— É selvagem — disse Ty, apoiando-se na grade que cercava a varanda. — Furões são
domesticados. Então, tecnicamente, é uma fuinha, mas se fosse domesticado, seria um furão.
Kit encarou o animal. Ele piscou os olhos para ele e mexeu as patinhas.
— Uau — falou o menino. E foi sincero.
A fuinha correu pelo braço de Ty e saltou para a grade, depois, desapareceu na escuridão.
— Furões são ótimos animais de estimação — disse Ty. — São surpreendentemente leais. Ou, pelo menos, as pessoas dizem que é surpreendente. Eu não sei por que seria. São limpos, e gostam de brinquedos e são quietos. E podem ser treinados para... — interrompeu-se. — Você está entediado?
— Não. — Kit se espantou; será que ele parecia entediado? Ele estava curtindo o som da voz de Ty, vivaz e pensativo. — Por quê?
— Julian diz que, às vezes, as pessoas não querem saber tanto quanto eu sobre os assuntos — respondeu Ty. — Então eu devo simplesmente perguntar.
— Acho que isso se aplica a todo mundo — disse Kit.
Ty balançou a cabeça.
— Não — falou. — Eu sou diferente. — Ele não parecia incomodado, nem chateado com isso. Era um fato que sabia sobre si mesmo e isso era tudo. Kit descobriu, surpreso, que invejava a segurança tranquila de Ty. Ele nunca achou que fosse invejar nada que se referisse a um Caçador de Sombras.
Ty subiu para a varanda ao lado de Kit e se sentou. Ele tinha um vago cheiro de deserto, areia e sálvia. Kit pensou que gostava do som da voz de Ty: era raro ouvir alguém ter esse tipo de prazer tão sincero simplesmente por compartilhar informações. Ele supunha que também poderia ser um mecanismo para lidar com as coisas — o incômodo dos Centuriões, a preocupação com Julian e os outros; Ty provavelmente estava estressado.
— Por que está aqui fora? — Ty perguntou a Kit. — Está pensando em fugir outra vez?
— Não — respondeu Kit. E não estava mesmo. Talvez um pouco. Olhar para Ty fazia com que ele não quisesse pensar no assunto. Fazia com que quisesse desvendar um mistério para dar de presente a Ty, como alguém poderia dar uma caixa de doces a uma pessoa amada.
— Queria que todos nós pudéssemos fazer isso — disse Ty, com uma franqueza demolidora. — Demoramos muito para nos sentir seguros aqui, depois da Guerra Maligna. Agora parece que o Instituto está cheio de inimigos outra vez.
— Está falando dos Centuriões?
— Não gosto de tê-los aqui — disse Ty. — Não gosto de multidões em geral. Quando estão todos falando ao mesmo tempo e fazendo barulho. Multidões são as piores... especialmente em lugares como o Píer. Você já foi lá? — Ele fez uma careta. — Todas aquelas luzes, e os gritos e as pessoas. É como vidro quebrado na minha cabeça.
— E as lutas? — Kit quis saber. — Batalhas, matar demônios, isso deve ser bem barulhento e alto, não?
Ty balançou a cabeça.
— A batalha é diferente. Batalhar é o que os Caçadores de Sombras fazem. A luta está no meu corpo, não na minha mente. Desde que eu possa usar fones...
Ele se interrompeu. Ao longe, Kit ouviu um barulho de algo delicado estilhaçando, como uma janela sendo estourada por um furacão.
Ty imediatamente ficou de pé, quase pisando em Kit, e sacou uma lâmina serafim do seu cinto de armas. Ele a agarrou, encarando o oceano com um olhar tão fixo quanto os das estátuas no jardim atrás do Instituto.
Kit foi para trás dele com dificuldade, o coração acelerado.
— O que há de errado? O que foi isso?
— Barreiras... as barreiras de proteção que os Centuriões botaram... esse é o barulho delas
quebrando — disse Ty. — Tem alguma coisa vindo. Algo perigoso.
— Achei que você tivesse dito que o Instituto era seguro!
— Normalmente é — disse Ty, e ergueu a lâmina em sua mão. — Adriel — falou, e a lâmina
pareceu arder por dentro. O brilho iluminou a noite, e, em sua claridade, Kit viu que a estrada que levava ao Instituto estava lotada de formas em movimento. Não eram humanos; uma onda de criaturas escuras, escorregadias, úmidas, que ondulavam, e um fedor, que veio de baixo em direção a eles, um fedor que quase fez Kit engasgar. Ele se lembrava de uma vez em que estava em Venice Beach e passou por um cadáver apodrecido de foca, cheio de alga. Fedia daquele jeito, mas pior.
— Segure isso — falou, e um segundo depois Kit descobriu que Ty tinha colocado sua lâmina
serafim acesa na mão dele.
Era como segurar um circuito elétrico. A espada parecia pulsar e se retorcer, e Kit precisou de
muito esforço para segurá-la.
— Nunca segurei uma dessas antes! — falou.
— Meu irmão sempre diz que tem que começar de alguma forma. — Ty soltou uma adaga do
cinto. Era curta e afiada, e parecia uma arma menos assustadora do que uma lâmina serafim.
Qual irmão?, Kit ficou imaginando, mas não teve chance de perguntar — agora podia ouvir
os gritos, o barulho de pés correndo, e ficou feliz porque a maré escura de criaturas estava quase no fim da estrada. Ele tinha virado o pulso de um jeito que não achava que fosse possível, e a lâmina parecia mais firme em sua mão — brilhava sem calor, como se fosse feita do mesmo material desconhecido das estrelas ou da lua.
— Então agora que todos estão acordados — disse Kit —, eu não suponho que isso signifique
que vamos voltar para dentro do Instituto, não é?
Ty estava tirando os fones do bolso e tocava logo acima do último degrau com o tênis preto. — Somos Caçadores de Sombras — falou. — Não fugimos. A lua então saiu de trás da nuvem, exatamente quando a porta atrás de Kit e Ty abriu e
Caçadores de Sombras saíram aos montes. Diversos Centuriões carregavam luzes enfeitiçadas: a noite se iluminou, e Kit viu as criaturas que subiam pela estrada e se espalhavam pela grama. Vinham em direção ao Instituto, e na varanda os Caçadores de Sombras erguiam suas armas.
— Demônios marinhos. — Ele ouviu Diana falar sombriamente, e, de repente, Kit se deu
conta de que estava prestes a lutar sua primeira batalha, gostando ou não.
Kit girou. A noite estava cheia de luz e barulho. O brilho das lâminas serafim iluminava a
escuridão, o que era uma bênção e uma maldição.
Kit viu Livvy e Diana com suas armas, seguidas por Diego, que trazia um enorme machado
na mão. Zara e os outros Centuriões estavam logo atrás.
Mas ele também conseguia ver os demônios marinhos, e eram muito piores do que tinha
imaginado. Eram coisas que pareciam lagartos pré-históricos, com escamas de pedras, cujas cabeças eram uma massa com dentes pontudos gotejantes e olhos negros mortos. Criaturas que pareciam geleia pulsante, com bocas cheias de presas, nas quais órgãos nojentos se penduravam: corações deformados, estômagos transparentes, nos quais Kit conseguia ver os contornos do que um deles tinha acabado de comer — algo com braços e pernas humanas... Criaturas semelhantes a enormes lulas com rostos, que olhavam de soslaio, com tentáculos cheios de ventosas, das quais pingava ácido verde no chão, deixando buracos queimados na grama.
Os demônios que tinham matado seu pai pareciam muito atraentes em comparação com esses.
— Pelo Anjo — falou Diana, baixinho. — Fiquem atrás de mim, Centuriões.
Zara lançou-lhe um olhar terrível, apesar de os Centuriões estarem basicamente aglomerados na varanda, boquiabertos. Apenas Diego parecia literalmente ansioso para se lançar em combate. As veias se destacavam em sua testa e a mão tremia de ódio.
— Somos Centuriões — disse Zara. — Não recebemos ordens de vocês...
Diana se virou para ela.
— Cale a boca, criança tola — falou Diana com uma voz de fúria gelada. — Como se os Dearborn não tivessem se acovardado em Zurique durante a Guerra Maligna? Você nunca esteve em uma batalha de verdade. Eu já. Não diga mais uma palavra.
Zara recuou, rija de choque. Nenhum dos Centuriões, nem mesmo Samantha ou Manuel, fez qualquer movimento de defendê-la.
Os demônios — guinchando, se debatendo e deslizando pela grama — já estavam quase na varanda. Kit sentiu Livvy vindo em direção a ele e Ty, se colocando na frente dele. Estavam tentando bloqueá-lo, ele percebeu de repente. Para o protegerem. Sentiu uma onda de gratidão, e depois outra de irritação; será que achavam que ele era um mundano indefeso?
Ele já tinha combatido demônios antes. No fundo de sua alma, alguma coisa se mexia. Alguma coisa que fez a lâmina serafim arder mais brilhante em sua mão. Algo que o fez entender o olhar no rosto de Diego quando ele virou para Diana e perguntou: “ordens?”.
— Matar todos eles, obviamente — retrucou Diana, e os Centuriões começaram a descer pelas escadas. Diego enfiou o machado no primeiro que viu; símbolos brilhavam pela lâmina enquanto ela cortava em meio a sangue preto-acinzentado gelatinoso.
Kit se lançou para a frente. O espaço em frente aos degraus tinha se tornado uma zona de combate. Ele viu todo o poder das lâminas serafim quando os Centuriões atacaram e golpearam, o ar foi tomado pelo fedor de sangue demoníaco, e a lâmina em sua mão brilhou cada vez mais e alguma coisa o segurou pelo pulso, prendendo-o no topo da escada.
Era Livvy.
— Não — falou. — Você não está pronto...
— Estou bem — protestou ele. Ty estava no meio da escada; ele chegou a mão para trás e lançou a adaga que ainda estava segurando. Ela afundou no olho largo e chato de um demônio com cabeça de peixe, que piscou até o seu fim.
Ele se virou para trás e encarou Kit e a irmã.
— Livvy — falou. — Deixa ele...
A porta se abriu novamente, e para surpresa de Kit, era Arthur Blackthorn, ainda de jeans e com o roupão de banho por cima da roupa, mas, pelo menos, ele tinha calçado os sapatos. Uma espada anciã e manchada pendia de sua mão.
Diana, envolvida em um combate com um demônio lagarto, levantou o olhar horrorizada.
— Arthur, não!
Arthur estava arfando. Havia terror em seu rosto, mas também havia outra coisa, uma espécie de ferocidade. Ele desceu os degraus, se lançando contra o primeiro demônio que viu — uma coisa avermelhada e com franjas com uma boca imensa e um longo ferrão. Quando o ferrão desceu, ele o partiu ao meio, fazendo a criatura voar pelo ar, quicando e guinchando como um balão de ar se esvaziando.
Livvy soltou Kit. Ela fitava o tio, impressionada. Kit se virou e desceu as escadas, exatamente
quando os demônios começaram a se retirar — eles estavam recuando, mas por quê? Os Centuriões tinham começado a vibrar quando o espaço na frente do Instituto clareou, mas para Kit parecia cedo demais. Os demônios não estavam perdendo. Também não estavam ganhando, mas era cedo demais para recuar.
— Alguma coisa está acontecendo — falou, olhando para Livvy e Ty, ambos posicionados nos
degraus com ele. — Algo está errado...
Risos cortaram o ar. Os demônios congelaram em um semicírculo, bloqueando a passagem
para a estrada, mas sem andarem para a frente. No centro do semicírculo caminhava uma figura que parecia passagem de um filme de terror.
Outrora fora um homem; ele ainda tinha a forma borrada de um, mas sua pele era verde-
acinzentada como a barriga de um peixe, e ele mancava, porque um dos braços e a lateral do corpo tinham sido quase todos mastigados. A camisa pendia em trapos, mostrando onde os ossos brancos das costelas tinham sido limpos e a pele cinza fora drenada em volta dos terríveis machucados.
Praticamente não tinha mais cabelo, mas o remanescente era branco como osso. O rosto
estava afogado e inchado, os olhos tinham ficado leitosos, embranquecidos pela água do mar. Ele sorriu com uma boca praticamente sem lábios. Em sua mão, trazia um saco preto, o tecido manchado com água e escuro.
— Caçadores de Sombras — falou. — Como senti falta de vocês. Era Malcolm Fade.
No silêncio que seguiu a revelação do campeão Unseelie, Julian pôde ouvir o próprio coração batendo forte no peito. Ele sentiu o símbolo parabatai arder, uma dor evidente e lancinante. A dor de Emma.
Queria ir até ela. Emma estava de pé, como um cavaleiro em uma pintura, a cabeça inclinada
e a espada junto à lateral do corpo, sangue manchando o uniforme, o cabelo meio solto das presilhas, voando em torno dela. Ele viu seus lábios se moverem: ele sabia o que ela estava dizendo, mesmo que não pudesse ouvi-la. Isso o invadiu com lembranças da Emma que ele tinha conhecido ao que parecia cerca de mil anos, uma garotinha esticando os braços e pedindo o colo do pai.
Papai?
O Rei riu.
— Corte a garganta dele, menina — falou. — Ou não consegue matar seu próprio pai? — Pai? — Cristina ecoou. — O que ele quer dizer com isso? — Aquele é John Carstairs — disse Mark. — O pai de Emma. — Mas como...
— Não sei — disse Julian. — É impossível.
Emma caiu de joelhos, guardando Cortana de volta na bainha. Ao luar, o pai e ela, que se
curvava sobre o homem caído, eram sombras.
O Rei começou a rir, seu rosto sinistro estava dividido com um sorriso largo, e a Corte riu
com ele, uivos de júbilo explodindo ao redor.
Ninguém estava prestando atenção nos três Caçadores de Sombras no centro da clareira.
Julian queria ir até Emma. Queria desesperadamente. Mas ele era alguém acostumado a não fazer ou conseguir o que queria. Ele se virou para Mark e Cristina.
— Vá até ela — falou para Cristina. Os olhos escuros da menina se arregalaram. — Vá até ele — falou para Mark, e o irmão fez que sim com a cabeça e entrou na multidão, uma sombra entre as sombras.
Cristina desapareceu atrás dele, seguindo o caminho oposto pela multidão. Os cortesãos ainda estavam rindo, o som do deboche aumentando, tingindo a noite. Emoções humanas são tão bobas para eles, e mentes e corações humanos, tão frágeis.
Julian pegou uma adaga do cinto. Não era uma lâmina serafim, sequer uma lâmina Marcada, mas era de ferro frio e cabia confortavelmente em sua palma. Os príncipes entre os cavaleiros olhavam para o pavilhão e riam. Julian precisou de apenas alguns passos para alcançá-los, passar o braço em volta do Príncipe Erec e encostar a ponta da adaga contra a garganta dele.
O primeiro pensamento distraído de Kit foi: então foi por isso que não conseguiram encontrar o corpo de Malcolm.
O segundo foi uma lembrança. O Alto Feiticeiro era uma presença habitual no Mercado das Sombras, e era amigável com o pai de Kit — apesar de só mais tarde ele ter descoberto que os dois eram mais do que apenas conhecidos, eram parceiros no crime. Mesmo assim, o feiticeiro vivaz de olhos roxos tinha sido popular no Mercado, e, às vezes, trazia doces gostosos para Kit, que dizia serem de lugares distantes para onde tinha viajado.
Era estranho perceber que o feiticeiro amistoso que conheceu era um assassino. Era mais estranho ainda ver o que Malcolm tinha se tornado. O feiticeiro avançou, sem toda a graça que outrora teve, arrastando-se sobre a grama. Os Caçadores de Sombras assumiram uma formação, como uma legião romana: encararam Malcolm em uma fila, ombro a ombro, com as armas na mão. Só Arthur estava sozinho. Ele encarou Malcolm, e sua boca se mexeu.
A grama diante deles estava toda queimada, preta e cinza, por causa do sangue de demônio.
Malcolm sorriu, tão bem quanto conseguia com seu rosto arruinado.
— Arthur — falou, olhando para o homem encolhido, usando um roupão manchado de sangue. — Você deve sentir minha falta. Não parece estar muito bem sem seu remédio. Nem um pouco.
Arthur se apoiou na parede do Instituto. Ouviu-se um murmúrio entre os Centuriões, interrompido quando Diana falou:
— Malcolm. — Naquele momento, ela soou incrivelmente calma. — O que você quer?
Ele parou, perto dos Centuriões, mas não perto o bastante para que pudessem atacar.
— Estão gostando de procurar meu corpo, Centuriões? Tem sido muito divertido assistir. Passeando com seu barco invisível, sem ideia do que estão procurando ou de como encontrar. Mas vocês nunca foram muito úteis sem feiticeiros, certo?
— Silêncio, imundo — disse Zara, vibrando como um circuito elétrico. — Você...
Divya deu uma cotovelada nela.
— Não — sussurrou. — Deixe Diana falar.
— Malcolm — disse Diana, no mesmo tom frio. — As coisas não são como antigamente. Temos a força da Clave ao nosso lado. Sabemos quem você é, e vamos encontrá-lo onde estiver. Você é um tolo, vindo aqui e dando as caras.
— Dando as caras — repetiu ele em tom reflexivo. — Onde é que está mesmo a minha cara?
Ah, certo. Está dentro dessa sacola... — Ele enfiou a mão no saco que trazia. Quando a retirou, estava segurando uma cabeça humana, que fora cortada.
Fez-se um silêncio horrorizado.
— Jon! — gritou Diego, com voz rouca. Gen Aldertree parecia prestes a sofrer um colapso.
— Meu Deus. Pobre Marisol. Ah...
Zara encarava, boquiaberta e horrorizada, apesar de não ter feito qualquer movimento para
avançar. Diego deu um passo, mas Rayan o segurou pelo braço quando Diana gritou:
— Centuriões! Permaneçam em formação!
Ouviu-se um ruído engasgado quando Malcolm jogou a cabeça de Jon Cartwright sobre a
grama. Kit percebeu que ele mesmo tinha feito o barulho. Ele fitava a espinha exposta de Jon. Era muito branca contra o chão escuro.
— Suponho que esteja certa — disse Malcolm para Diana. — Já é hora de acabar com nossos
fingimentos, não é? Vocês conhecem minhas fraquezas... e eu conheço as de vocês. Matar este aqui — ele apontou para os restos de Jon — levou segundos, e romper suas barreiras, menos ainda. Acham que vou demorar muito mais para conseguir algo que eu realmente quero?
— E o que seria? — perguntou Diana. — O que você quer, Malcolm? — Quero o que sempre quis. Quero Annabel e o que é preciso para tê-la de volta. — Malcolm
riu. Foi como um gorgolejo. — Quero meu sangue Blackthorn.
***
Emma não se lembrava de ter caído de joelhos, mas estava ajoelhada.
Terra batida e folhas mortas a cercavam. O cavaleiro fada — seu pai — estava deitado de
costas em uma poça de sangue que se espalhava. Encharcou a terra já escura, deixando-a praticamente preta.
— Papai — sussurrou ela. — Papai, por favor, olhe para mim. Ela não dizia a palavra “papai” há anos. Provavelmente desde os sete anos de idade. Olhos azuis se abriram no rosto cheio de cicatrizes. Ele era exatamente como Emma
lembrava — bigodes louros onde tinha se esquecido de barbear, rugas gentis em volta dos olhos. Sangue seco manchava sua bochecha. Ele a encarou, com olhos arregalados.
O Rei riu.
— Corte a garganta dele — falou. — Ou não consegue matar seu próprio pai, menina? Os lábios de John Carstairs se moveram, mas nenhum ruído saiu. Você novamente verá o rosto de alguém que amou, que está morto, a puca havia dito. Mas
Emma nunca sonhou com isso, não com isso.
Ela pegou o braço do pai, coberto pela armadura de couro das fadas. — Eu me rendo — falou, com voz entrecortada. — Eu me rendo, eu me rendo, apenas o
ajude...
— Ela se rendeu — disse o Rei.
A Corte começou a rir. Risos se elevaram em volta de Emma, apesar de ela mal ter escutado.
Uma voz no fundo da mente lhe dizia que isso não estava certo, que havia algo de fundamentalmente errado, mas a imagem do pai estrondeava como o som de uma onda quebrando. Ela tentou alcançar uma estela — ele ainda era um Caçador de Sombras, afinal — mas abaixou a mão; nenhum iratze funcionaria aqui.
— Não vou deixá-lo — falou. Sua cabeça zumbia. — Não vou deixá-lo aqui. — Ela apertou o braço dele com mais força, e se agachou ao pé do pavilhão, ciente do olhar do Rei nela, e dos risos em volta. — Eu fico.
Foi Arthur quem se moveu. Ele se afastou da parede com violência, indo em direção a Livvy e Ty. Pegou cada um deles por um braço e os empurrou para a porta do Instituto.
Ambos lutaram, mas Arthur parecia surpreendentemente forte. Livvy deu meia-volta, chamando o nome de Kit. Arthur abriu a porta com um chute e empurrou os sobrinhos para dentro. Kit pôde ouvir Livvy gritando, e a porta se fechando atrás deles.
Diana arqueou uma sobrancelha para Malcolm.
— Sangue Blackthorn, você disse?
Malcolm suspirou.
— Cães loucos e ingleses — falou. — E, às vezes, você encontra alguém que é as duas coisas. Ele não pode achar que isso funcionaria.
— Está dizendo que consegue entrar no Instituto? — insistiu Diego.
— Estou dizendo que não importa — disse Malcolm. — Eu armei isso tudo antes de Emma me matar. Minha morte, e eu estou morto, apesar de não por muito tempo... não é maravilhoso o Volume Negro?… soltou os demônios marinhos por essa costa. O que estão vendo hoje é uma fração mínima do que eu controlo. Ou me trazem um Blackthorn, ou eu os envio para a terra para assassinarem e destruírem mundanos.
— Nós vamos contê-lo — disse Diana. — A Clave vai contê-lo. Enviarão Caçadores de Sombras...
— Não há o suficiente de vocês — falou Malcolm alegremente. Ele tinha começado a andar de um lado para o outro na frente da parede de demônios marinhos que vinham babando atrás dele. — Essa é a beleza da Guerra Maligna. Vocês simplesmente não conseguem conter todos os demônios do Pacífico, não com seus números atuais. Ah, não estou dizendo que não possam vencer um dia. Venceriam. Mas pensem em todas as mortes nesse meio-tempo. Um único Blackthorn vale realmente o sacrifício?
— Não vamos entregar um dos nossos para que você o mate, Fade — disse Diana. — Você sabe muito bem disso.
— Você não fala pela Clave, Diana — retrucou Malcolm. — E eles não são contra sacrifícios. — Ele tentou sorrir. Um dos lábios podres partiu, e líquido negro entornou por seu queixo. — Um por muitos.
Diana estava arfando, os ombros subiam e desciam furiosamente.
— E depois? Tanta morte e destruição, e o que você ganha?
— Vocês também sofrerão, e para mim isso basta por enquanto. Que os Blackthorn sofram. — Seus olhos percorreram o grupo diante dele. — Onde estão meus Julian e Emma? E Mark? Covardes demais para me encarar? — Ele riu. — Que pena. Eu gostaria de ter visto o rosto de Emma quando ela pusesse os olhos em mim. Pode dizer a ela que espero que a maldição consuma os dois.
Consuma quem?, Kit pensou, mas o olhar de Malcolm tinha desviado para ele, e ele viu os olhos leitosos do feiticeiro brilharem.
— Sinto muito pelo seu pai, Herondale — disse Malcolm. — Não tinha como evitar.
Kit ergueu Adriel sobre a cabeça. A lâmina serafim estava quente em sua mão, começando a
piscar, mas projetava um brilho ao seu redor, que ele esperava ser o bastante para que o feiticeiro o visse quando ele atirasse em sua direção.
O olhar de Malcolm não tinha expressão. Ele se voltou novamente para Diana. — Vocês têm até amanhã à noite para decidirem. Depois eu voltarei. Se não me arrumarem
um Blackthorn, a costa será destruída. Enquanto isso... — Ele estalou os dedos, e uma chama roxa fraca faiscou no ar. — Divirtam-se com meus amigos aqui.
Ele desapareceu enquanto os demônios marinhos avançavam para cima dos Centuriões.