Senhor das sombras
12. Nas Montanhas
12
Nas Montanhas
Mark foi abrindo caminho através da Corte Unseelie. Ele só tinha estado entre essas pessoas em festas: a Corte não ficava sempre no mesmo lugar, mas se movia através das Terras Unseelie. Mark sentia o cheiro de sangue no ar noturno agora que andava entre os nobres aglomerados. Ele sentia o cheiro de pânico, medo e ódio. O ódio aos Caçadores de Sombras. O Rei estava mandando a Corte se aquietar, mas a multidão gritava para Emma derramar o sangue do pai.
Ninguém vigiava Kieran. Ele estava caído de joelhos, o peso do corpo puxava as cordas de espinhos que o prendia como se fossem arame farpado. Sangue escorria lentamente pelos cortes nos pulsos, no pescoço e nos tornozelos.
Mark passou pelo último cortesão. Assim de perto, dava para ver que Kieran tinha alguma coisa em uma corrente no pescoço. Uma flecha de elfo. A flecha de elfo de Mark. Mark sentiu uma pontada no estômago.
— Kieran. — Ele colocou a mão na bochecha do menino.
Os olhos de Kieran se abriram. Seu rosto estava cinza de dor e desamparo, mas seu sorriso era gentil.
— Tantos sonhos — falou. — É o fim? Você veio para me levar para as Terras Brilhantes? Não poderia ter escolhido um rosto melhor para usar.
Mark passou as mãos pelas cordas de espinhos. Eram duras. Uma lâmina serafim poderia tê-las cortado, mas lâminas serafim não funcionavam aqui, deixando-o apenas com adagas comuns. Uma ideia passou pela cabeça de Mark, e ele esticou o braço para soltar a flecha de elfo do pescoço de Kieran.
— Não importa que deuses tenham feito isso — murmurou Kieran —, são gentis por me trazer aquele que minha alma ama, em meus últimos momentos. Sua cabeça caiu para trás contra a árvore, expondo os cortes vermelhos em volta da garganta onde os espinhos tinham cortado. — Meu Mark.
— Silêncio — falou Mark com a garganta apertada. A flecha de elfo era afiada, e ele passou a lâmina contra as cordas que prendiam o pescoço de Kieran e depois seus pulsos. Elas caíram, e Kieran soltou um suspiro de dor aliviada.
— É verdade, como dizem — falou. — A dor passa quando você morre.
Mark cortou as cordas que prendiam os tornozelos de Kieran, e se esticou.
— Chega — falou. — Eu sou o Mark, e não uma ilusão. Você não está morrendo, Kieran. Está vivendo. — Ele pegou Kieran pelo pulso e o ajudou a se levantar. — Está escapando.
O olhar de Kieran parecia deslumbrado pelo luar. Ele esticou os braços para Mark e colocou as mãos nos ombros dele. Houve um momento em que Mark poderia ter recuado, mas não o fez. Ele foi em direção a Kieran ao mesmo tempo que Kieran foi em direção a ele, e pôde sentir o cheiro de sangue e de vinhas cortadas em Kieran, e eles se beijaram.
A curva dos lábios de Kieran sob os dele era tão familiar quanto o gosto de açúcar ou a sensação da luz do sol. Mas não havia açúcar nem luz do sol aqui, nada brilhante, nem doce, apenas a pressão escura da Corte ao redor deles e o cheiro de sangue. E seu corpo ainda respondia ao de Kieran, pressionando-o contra o tronco da árvore, segurando-o, suas mãos deslizando pela pele, cicatrizes e ferimentos recentes sob as pontas dos dedos.
Era como se Mark tivesse sido erguido e estivesse fora do próprio corpo. Ele estava
novamente na Caçada, com a mão agarrando a crina de Lança do Vento, inclinado contra a ventania que soprava seu cabelo, feria sua garganta e levava sua risada. Os braços de Kieran o envolviam, a única coisa quente em um mundo frio, e os lábios de Kieran encostavam em sua bochecha.
Alguma coisa cantou ao seu ouvido. Ele se afastou do príncipe fada. Outro objeto assobiou
por perto e instintivamente ele empurrou Kieran contra a árvore.
Flechas. Cada uma com a ponta em chamas, cortando o ar pela Corte como vaga-lumes
mortais. Um dos príncipes Unseelie corria em direção a Mark e Kieran, erguendo um arco.
Tinham sido notados, afinal, ao que parecia.
***
A grama em frente ao Instituto parecia ferver, uma massa de demônios marinhos e Centuriões, tentáculos açoitando e lâminas serafim cortando. Kit meio que se jogou pelas escadas, quase derrubando Samantha, que, junto com seu irmão gêmeo, lutava furiosamente com uma criatura cinza grotesca coberta de bocas vermelhas sugadoras.
— Olha por onde anda! — gritou ela, e depois guinchou quando um tentáculo a envolveu
pelo peito. Kit avançou com Adriel, cortando o tentáculo logo acima do ombro de Samantha. O demônio gritou de todas as suas bocas e sumiu.
— Nojento — disse Samantha, que agora estava coberta de sangue demoníaco cinzento e
espesso. Ela estava franzindo a testa, o que parecia ingrato a Kit, mas ele mal teve tempo de se preocupar com isso; já estava virando para levantar novamente a espada contra uma criatura espinhenta, de pele dura como uma estrela do mar.
Ele pensou em Ty na praia com a estrela do mar na mão, sorrindo. Se encheu de raiva — ele
não tinha percebido o quanto os demônios pareciam as coisas belas do mundo que tinham sido deformadas, e transformadas em algo repugnante e desprezível.
A lâmina baixou. O demônio guinchou e se encolheu — e de repente braços envolveram Kit,
arrastando-o para trás.
Era Diana. Ela estava encharcada de sangue, parte humano e parte demoníaco. Agarrou o
braço de Kit, puxando-o de volta para a escada, para o Instituto.
— Estou bem… Não preciso de ajuda… — arfou ele, contorcendo-se na mão dela. Ela tirou Adriel dele e jogou para Diego, que pegou a lâmina e girou para enfiar o objeto no
corpo espesso de um demônio água-viva, atacando com o machado na outra mão. Foi bastante impressionante, mas Kit estava furioso demais para se importar.
— Eu não preciso de ajuda!— gritou outra vez, quando Diana o puxou pelos degraus. — Não
preciso ser salvo!
Ela o virou para que ele ficasse de frente para ela. Uma de suas mangas estava ensanguentada
e havia uma marca vermelha em sua garganta onde o colar tinha sido arrancado. Mas ela continuava imperiosa como sempre.
— Talvez não precise — falou. — Mas os Blackthorn precisam, e você vai ajudá-los. Em choque, Kit parou de lutar. Diana o soltou e abriu as portas do Instituto com o ombro; após uma última olhada para trás, ele a seguiu.
Os instantes após Julian pegar Erec e colocar a faca em sua garganta foram caóticos. Diversas fadas perto do pavilhão uivaram; os cavaleiros recuaram, com expressão aterrorizada. O Rei Unseelie gritava.
Julian manteve a mente focada: segure seu prisioneiro. Mantenha a faca na garganta dele. Se ele escapar, você ficará sem nada. Se matá-lo rápido demais, ficará sem nada. Essa é a sua vantagem. Aproveite.
Comandados pelo Rei, os cavaleiros se afastaram, formando uma espécie de túnel para Julian atravessar, empurrando Erec. O fim do túnel ficava abaixo do trono do Rei. O Rei estava na beira do pavilhão; sua capa branca voando com a brisa.
Erec não resistiu, mas quando chegaram ao pavilhão, ele esticou a cabeça e encarou o pai. Julian sentiu os olhares deles se encontrarem.
— Você não vai cortar a garganta do meu filho — disse o Rei Unseelie, olhando para Julian com desdém. — Você é um Caçador de Sombras. Tem um código de honra.
— Você está pensando nos Caçadores de Sombras e em como eram antigamente — disse Julian. — Eu cresci na Guerra Maligna. Fui batizado com sangue e fogo.
— Você é suave — disse o Rei —, suave como anjos são suaves.
Julian ajeitou a faca com mais firmeza na curva do pescoço de Erec. O príncipe fada tinha cheiro de sangue e medo.
— Eu matei meu próprio pai — falou Julian. — Acha que não matarei seu filho?
Um olhar de surpresa passou pelo rosto do Rei. Adaon falou:
— Ele está dizendo a verdade. Muitos estavam no Salão dos Acordos durante a guerra. Foi testemunhado. Esse aí é implacável.
O Rei franziu o rosto.
— Adaon, fique quieto. — Mas ele estava claramente perturbado. Sombras se moveram por trás de seus olhos. — O preço que você pagaria por derramar o sangue da minha família na minha Corte seria inominável — falou para Julian. — Você não seria o único a pagar. Toda a Clave pagaria.
— Então não me obrigue a isso — disse Julian. — Deixe-nos partir em paz. Levaremos Erec conosco, por um quilômetro, e depois o soltaremos. Ninguém deverá nos seguir. Se sentirmos que estamos sendo seguidos, nós o mataremos. Eu o matarei.
Erec xingou e cuspiu.
— Deixe que me mate, pai — falou. — Deixe meu sangue iniciar a guerra que sabemos que está por vir.
Os olhos do Rei pousaram por um momento em seu filho. Ele é o preferido do Rei, Mark tinha dito. Mas Julian não podia deixar de imaginar se o Rei estaria mais preocupado com a guerra que estava por vir, com controlar como e quando começaria, do que com o destino de Erec.
— Você acha que anjos são suaves — disse Julian. — São tudo, menos isso. Eles trazem justiça com sangue e fogo celestial. Se vingam com punhos e ferro. A glória é tanta que queimaria seus olhos se você olhasse para ela. É uma glória fria e brutal. — Ele encontrou o olhar do Rei: seu olho furioso e o vazio. — Olhe para mim se duvida do que eu digo que farei — disse Julian. — Olhe para os meus olhos. Fadas veem muito, pelo que dizem. Acha que sou alguém que tem alguma coisa a perder?
Estavam na entrada: Ty, Livvy, Arthur, e os mais novos, Dru com Tavvy no colo.
Eles se alegraram quando Diana e Kit entraram, mas Kit não sabia se a reação era por ele ou
por ela. Arthur estava sentado na escada, em silêncio, olhando para o roupão manchado de sangue. Ele se levantou ao vê-los, mas estava se apoiando no corrimão com uma das mãos.
— Ouvimos tudo — disse Livvy. Ela estava pálida de choque, dando a mão para Ty. —
Malcolm quer sangue Blackthorn, e ele tem um exército de demônios...
— Quando ele diz que quer “sangue Blackthorn”, não existe chance de ele estar falando de
um pouco? — perguntou Kit. — Talvez um copo?
Todos o encararam com expressão séria, exceto Ty.
— Eu também pensei nisso — disse Ty, olhando animado para Kit. — Mas os feitiços foram
escritos em língua arcaica. “Sangue Blackthorn” significa uma vida Blackthorn.
— Ele não vai conseguir o que quer — disse Diana. Ela tirou o casaco manchado de sangue e
o jogou no chão. — Precisamos de um Portal. Agora. — Ela procurou o telefone no bolso da calça, encontrou e começou a digitar.
— Mas não podemos simplesmente desaparecer — disse Livvy. — Malcolm vai soltar todos
aqueles demônios! Pessoas vão morrer!
— Você não pode barganhar com Malcolm — disse Diana. — Ele mente. Ele poderia
conseguir o sangue Blackthorn que deseja e mesmo assim soltar os demônios. Deixá-los em segurança e depois atacá-lo é a melhor opção.
— Mas...
— Ela tem razão — disse Kit. — Malcolm fez milhares de promessas ao meu pai, inclusive a
de mantê-lo seguro. No fim, ele tinha se certificado de que se alguma coisa acontecesse a ele, meu pai morreria também.
— Catarina. — Diana virou-se de lado, com o telefone ao ouvido. — Preciso de um favor.
Bem grande.
— Vão nos chamar de covardes — falou Dru, desanimada. — Fugir assim... — Vocês são crianças — disse Arthur. — Ninguém espera que fiquem e lutem. — Ele
atravessou a sala até a janela. Ninguém foi atrás dele. O som que vinha do lado de fora bastava. Tavvy estava com o rosto no ombro da irmã.
— Para Londres? — disse Diana. — Tudo bem. Obrigada, Catarina. — E desligou. — Londres? — disse Livvy. — Por que Londres? — Por que não vamos para Idris? — perguntou Dru. — Onde Emma e Jules estão? — Catarina não pode abrir um Portal para Idris — disse Diana, sem olhar nos olhos de Dru.
— Mas ela tem um acordo com o Instituto de Londres.
— Então devemos entrar em contato com a Clave! — disse Dru. Ela deu um pulo para trás
quando o ar na frente dela começou a brilhar.
— Precisamos pegar nossas coisas — disse Tavvy, olhando preocupado para o brilho
crescente. Estava se espalhando, uma espécie de cata-vento agora, de cores que giravam e ar que se movia. — Não podemos ir sem as nossas coisas.
— Não temos tempo para nada disso — retrucou Diana. — E não temos tempo de contatar a
Clave. E há casas Blackthorn em Londres, lugares seguros, pessoas que conhecem...
— Mas por quê? — Livvy começou. — Se a Clave...
— É perfeitamente possível que a Clave prefira negociar um de vocês com Malcolm — disse
Arthur. — Não é disso que está falando, Diana?
Diana não disse nada. O cata-vento giratório estava tomando forma: a forma de uma porta, alta e larga, cercada por símbolos brilhantes.
— Assim como os Centuriões, pelo menos, alguns deles — disse Diana. — Estamos fugindo deles, tanto quanto de qualquer outra pessoa. Eles já estão derrotando os demônios marinhos. Temos pouco tempo.
— Diego jamais... — Dru começou indignada.
— Diego não está no comando — respondeu Diana. O Portal tinha ficado pronto: uma porta vaivém, que estava aberta; através dela, Kit podia ver um tipo de sala de estar com papel de parede desbotado, com estampa de flores. Parecia extremamente incongruente. — Agora vamos... Drusilla, você primeiro...
Com um olhar de fúria desesperada, Drusilla atravessou a sala e entrou pelo Portal, ainda segurando Tavvy. Kit observou, impressionado, enquanto eles giravam e desapareciam.
Livvy foi em seguida, de mãos dadas com Ty. Ela parou na frente do Portal, a força da magia que pulsava através dele levantando o seu cabelo.
— Mas não podemos deixar esse lugar para Zara e a Tropa — protestou ela, voltando-se para Diana. — Não podemos deixar para eles...
— É melhor do que algum de vocês morrer — retrucou Diana. — Agora, vá.
Mas foi Ty que hesitou.
— Kit vem, certo?
Diana olhou para Kit. Ele sentiu sua garganta doer; não sabia por quê.
— Vou — falou. Observou Livvy e Ty entrarem no vazio colorido e desaparecerem. Viu Diana ir atrás deles. Foi até o Portal e parou ali, olhando para Arthur.
— Você quer ir antes? — perguntou.
Arthur balançou a cabeça. Tinha um olhar estranho — estranho até mesmo para Arthur. Apesar de ele não ter estado tão estranho essa noite, Kit pensou. Foi como se a emergência o tivesse forçado a se manter controlado de um jeito que normalmente não conseguia.
— Diga a eles — falou, e os músculos do seu rosto tremeram. Atrás dele, a porta da frente estremeceu; alguém estava tentando abrir. — Diga a eles...
— Você poderá dizer pessoalmente, em um minuto — disse Kit. Ele podia sentir a força do Portal puxando-o. Achou até que estava ouvindo vozes; a voz de Ty, a de Livvy. Mas ficou onde estava.
— Está acontecendo alguma coisa? — falou.
Arthur foi para perto do Portal. Por um instante, Kit relaxou, pensando que o tio das crianças ia entrar junto com ele. Em vez disso, sentiu uma mão no ombro.
— Agradeça a Julian — falou Arthur, e o empurrou com força.
Kit caiu no nada giratório e sem som.
O príncipe fada disparou sua flecha.
Kieran se moveu mais depressa do que se poderia imaginar. Ele girou o corpo, cobrindo o de Mark. A flecha sibilou pelo ar, cantando como um pássaro mortal. Mark só teve tempo de agarrar Kieran e empurrá-lo quando a flecha o alcançou e se enterrou nas costas dele, logo abaixo da omoplata.
Kieran desabou no ombro de Mark. Com a mão livre, Mark puxou uma adaga do cinto e arremessou; o príncipe caiu, gritando, com a lâmina na coxa.
Então ele começou a arrastar Kieran para longe da clareira. As flechas tinham parado, mas o
fogo ardia das bandeiras com sua marca da coroa partida. Tinham pegado fogo. As fadas nobres gritavam e iam de um lado para o outro, muitas se separando e começando a correr.
Ainda segurando Kieran, Mark desapareceu dentro da floresta.
— Emma — murmurou Cristina. A clareira estava barulhenta: risos, gritos e vaias. De longe, ela podia ver Julian com a faca na garganta de Erec; ouviu exclamações quando ele foi na direção do pavilhão do Rei, apesar de o Rei, distraído por Emma, ainda não ter visto.
Emma estava ajoelhada no chão, agarrando o braço do campeão fada ferido. Ela levantou o
olhar e viu Cristina, e seus olhos brilharam.
— Me ajude com meu pai — falou. Ela estava puxando o braço dele, tentando apoiá-lo em
seu pescoço. Ele ficou deitado imóvel, e por um instante Cristina temeu que estivesse morto.
Ele se afastou de Emma e se levantou pesadamente. Era um homem esguio, alto e a
semelhança familiar era evidente: ele tinha as feições de Emma, o formato dos seus olhos. Mas os dele eram vazios, o azul tornara-se leitoso.
— Solte—me — falou. — Vadia Nephilim. Solte-me. Isso já foi longe demais. O sangue de Cristina congelou com suas palavras. O Rei explodiu em mais uma rodada de
risos. Cristina pegou Emma, puxando-a para perto de si.
— Emma, você não pode acreditar em tudo que vê aqui.
— Esse é meu pai — insistiu a menina. Cristina a segurava pelo pulso; podia sentir a pulsação
acelerada nas veias de Emma, que estendeu a mão livre. — Pai — chamou —, por favor, venha comigo.
— Você é Nephilim — disse o pai de Emma. Dava para ver, em seu pescoço, as cicatrizes
brancas de antigas Marcas, agora desbotadas. — Se me tocar, eu a arrastarei para os pés do meu Rei e ele a matará.
As fadas ao redor estavam rindo, agitadas, agarrando uma a outra, e pensar que era o pavor
de Emma e sua confusão que as estavam fazendo rir provocou pontadas de fúria assassina através das veias de Cristina.
Uma coisa era estudar as fadas e ler que suas emoções não eram como as emoções humanas.
Que as fadas da Corte Unseelie eram criadas para terem prazer na dor alheia. Para prendê-lo em uma teia de palavras e mentiras, e observar, sorrindo, você cair em seus truques.
Outra coisa era ver isso.
Houve uma súbita comoção. O Rei Unseelie correu para a ponta oposta do pavilhão; ele
gritava ordens, e, de repente, os cavaleiros se desalinharam.
Julian, pensou Cristina. E, sim, ela podia vê-lo, Julian segurando Erec na sua frente, ao pé do
pavilhão do Rei. Ele tinha deliberadamente atraído o Rei para longe de Emma e Cristina.
— Vai ser fácil o bastante decidir isso — disse Cristina. Ela pegou o canivete do cinto e o
ofereceu ao campeão. — Pegue isso — falou.
— Cristina, o que você está fazendo...? — Emma quis saber. — É ferro frio — respondeu Cristina. Ela deu mais dois passos em direção ao campeão. O
rosto dele foi mudando conforme ela observava, cada vez menos parecido com o de Emma, e mais parecido com outra coisa; algo grotesco vivendo sob aquela pele. — Ele é Caçador de Sombras. Ferro frio não deverá incomodá-lo.
Ela se aproximou — e o campeão que parecera John Carstairs mudou completamente. Seu rosto se ondulou e o corpo se contorceu e modificou; a pele ficou manchada e verde-acinzentada. Os lábios incharam ao mesmo tempo que os olhos se projetaram, arregalados e amarelos, e o cabelo sumiu até exibir uma cabeça lustrosa e cheia de caroços.
O que antes fora o pai de Emma, agora era um cavaleiro fada com corpo atarracado e a cabeça de sapo. Emma o encarou, pálida. A boca grande se abriu e falou, crocitando:
— Finalmente, finalmente, livre da ilusão do Nephilim repulsivo...
Ele não concluiu a frase. Emma tinha pegado Cortana e atacado, enfiando a lâmina na garganta do cavaleiro.
Ele emitiu um ruído úmido e sufocado. Sangue cor de pus esguichou da sua boca grande; ele cambaleou para trás, mas Emma o seguiu, girando o cabo da faca. O fedor do sangue e o som de carne molhada rasgando quase fizeram Cristina vomitar.
— Emma — gritou Cristina. — Emma!
Emma puxou a espada outra vez e golpeou novamente repetidas vezes até Cristina segurá-la pelos ombros e sacudi-la. O cavaleiro fada sucumbiu ao chão, morto.
Emma estava tremendo, suja de sangue. Ela cambaleou.
— Vamos. — Cristina agarrou o braço da amiga e começou a puxá-la para longe do pavilhão. Foi então que o ar explodiu com um zumbido ritmado. Flechas. Tinham pontas de fogo e iluminavam a clareira com um brilho sombrio e móvel. Cristina desviou automaticamente, apenas para ouvir um som estridente a poucos centímetros de sua cabeça. Emma tinha jogado Cortana para o lado e uma flecha atingiu a lâmina, desfazendo-se em pedaços no mesmo instante.
Cristina acelerou.
— Temos que sair daqui...
Uma flecha em chamas passou por elas e atingiu uma bandeira pendurada no pavilhão do Rei, que pegou fogo e estalou. Iluminou os príncipes correndo do pavilhão, saindo das beiradas para a sombra. O Rei ainda estava na frente do trono, olhando para o nada. Onde estava Jules? Para onde ele e Erec tinham ido?
Ao se aproximar da beira da clareira, a mulher fada com vestido de ossos surgiu na frente delas. Seus olhos eram verdes, semelhantes ao de um peixe, sem pupilas, e brilhavam como óleo sob a luz das estrelas. Cristina pisou forte no pé da mulher fada; seus gritos foram abafados pelos uivos da Corte quando ela recebeu uma cotovelada e saiu do caminho. Ela caiu no pavilhão, pequenos ossos caindo do vestido dela como neve acidental.
Emma e Cristina estavam de mãos dadas. Os dedos de Emma pareciam feitos de gelo e Cristina apertou a mão da amiga com mais força.
— Vamos — falou, e elas correram para as árvores.
Mark não ousou ir longe. Julian, Emma e Cristina ainda estavam na Corte. Ele puxou Kieran para trás de um tronco espesso de carvalho e o fez sentar, apoiado nele.
— Você está bem? Está com dor? — perguntou.
Kieran olhou para ele nitidamente exasperado. Antes que Mark pudesse contê-lo, ele esticou o braço, agarrou a flecha, e a puxou dali. Sangue saiu junto, uma poça que ensopou as costas da camisa.
— Jesus, Kieran, que diabos...
— Que deuses estrangeiros você chama agora? — Kieran quis saber. — Pensei que você tivesse dito que eu não estava morrendo.
— Não estava. — Mark tirou o colete de linho, dobrando o tecido para pressioná-lo contra as
costas de Kieran. — Mas agora eu posso matá-lo por ser tão burro.
— Caçadores se curam rápido — disse Kieran, engasgando. — Mark. Realmente é você. —
Seus olhos eram luminosos. — Eu sabia que viria atrás de mim.
Mark não disse nada. Estava concentrado em segurar o tecido sobre o ferimento de Kieran,
mas uma sensação de ansiedade pressionava suas costelas. Ele e Kieran não tinham terminado em bons termos. Por que ele acharia que Mark viria atrás dele, quando quase não veio?
— Kier — falou ele, afastando o colete. Kieran tinha razão sobre a recuperação. O sangue
tinha diminuído muito. Mark deixou o colete sujo de sangue cair e tocou a lateral do rosto do menino fada. Estava quente como uma fornalha. — Você está ardendo. — Ele esticou a mão para devolver o colar de flecha de elfo ao pescoço de Kieran, mas ele o impediu.
— Por que estou com o seu colar? — falou, franzindo o rosto. — Deveria ser seu. — Eu te devolvi — retrucou Mark.
Kieran soltou um riso rouco.
— Eu me lembraria disso. — Então seus olhos arregalaram. — Não me lembro de ter matado
Iarlath — disse. — Sei que matei. Me disseram. E eu acredito; ele não valia nada. Mas não me lembro. Não me lembro de nada depois que te vi pela janela do Instituto falando com aquela garota. Cristina.
Mark gelou. Automaticamente, ele colocou o colar de flecha de elfo sobre a própria cabeça,
sentindo-o bater em seu peito. Kieran não se lembrava?
Isso significava que não se lembrava de ter traído Mark, contando à Caçada Selvagem que
Mark tinha compartilhado segredos de fadas com os Nephilim. Ele não se lembrava do castigo, das chicotadas em Julian e Emma.
Ele não se lembrava que Mark tinha terminado a relação com ele. Devolvido o colar. Não era à toa que achava que Mark viria atrás dele.
— Aquela garota Cristina está aqui — disse uma voz acima deles. Cristina tinha se juntado a eles nas sombras. Ela estava desalinhada, mas muito menos do que
Emma, que estava suja de sangue de fada e sangrando de um arranhão grande na bochecha. Mark se levantou.
— O que está acontecendo? Algum de vocês se machucou? — Eu... eu acho que estamos bem — disse Emma. Ela parecia espantada e preocupantemente
sem expressão.
— Emma matou o campeão do Rei — disse Cristina, e depois fechou a boca. Mark sentiu que
havia mais, mas não insistiu.
Emma piscou os olhos, focando lentamente em Mark e Kieran. — Ah, é você — falou para Kieran, soando mais como ela mesma. — Cara de Fuinha. Tem
cometido algum ato de traição pessoal monstruosa ultimamente?
Kieran pareceu espantado. As pessoas normalmente não falavam assim com príncipes
Unseelie, e, além disso, Mark pensou, Kieran não se lembrava mais por que Emma poderia estar brava com ele ou acusá-lo de traição.
— Você a trouxe aqui para me resgatar? — perguntou ele a Mark. — Todos nós viemos para resgatá-lo — disse Julian, apenas parcialmente visível atrás de Erec,
que ele empurrava.
Emma deu um suspiro alto, uma indicação audível de alívio. Julian a encarou rapidamente, e eles trocaram um olhar. Era o que Mark sempre considerou o olhar parabatai: a rápida olhada para se certificar de que a outra pessoa estava bem, estava ao seu lado, segura e viva. Mas agora que ele conhecia os verdadeiros sentimentos de Julian por Emma, não podia deixar de se perguntar se havia mais um pouco no que eles compartilhavam.
A garganta de Erec estava sangrando onde a adaga provavelmente tinha escorregado; ele observava sob as sobrancelhas negras, o rosto contorcido em uma careta.
— Traidor do sangue — disse a Kieran, e cuspiu sobre a faca. — Matador dos seus.
— Iarlath não era nada meu — disse Kieran, com a voz exaurida.
— Era mais seu do que esses monstros — rebateu Erec, olhando em volta para os Caçadores de Sombras que o cercavam. — Mesmo agora, você nos trai por eles.
— Como você me traiu para o Rei, nosso pai? — retrucou Kieran. Ele estava aninhado entre as raízes da árvore, parecendo surpreendentemente pequeno, mas quando esticou o rosto para encarar Erec, seus olhos eram duros como pedras preciosas. — Pensa que eu não sei quem contou para o Rei que eu matei Iarlath? Acha que não sei quem posso culpar pelo meu exílio da Caçada?
— Arrogante — disse Erec. — Você sempre foi arrogante, jovem insolente, achando que pertencia à Corte como o restante de nós. Eu sou o favorito do Rei, e não você. Você não conquistou nenhum lugar especial no coração dele ou nos corações da Corte.
— Mesmo assim gostavam mais de mim — respondeu Kieran em voz baixa. — Antes...
— Chega — disse Julian. — A Corte está pegando fogo. Os cavaleiros vêm atrás da gente assim que o caos passar. É loucura ficar aqui e fofocar.
— Assuntos importantes da Corte não são fofoca. — Erec rosnou.
— Para mim, são. — Julian espiou pelo bosque. — Deve haver uma saída rápida daqui, em direção às Terras Seelie. Pode nos levar?
Erec ficou em silêncio.
— Ele pode — disse Kieran, levantando-se sem firmeza. — Ele não pode mentir e dizer que não é possível; por isso, não está falando.
Emma ergueu uma sobrancelha para Kieran.
— Cara de Fuinha, você é surpreendentemente útil quando quer.
— Gostaria que você não tivesse tanta intimidade — falou Kieran em tom de reprovação.
Erec emitiu um rosnado — Julian estava enfiando a faca em seu pescoço. Havia um leve tremor na mão do Caçador de Sombras, no punho em torno da lâmina. Mark supunha que devia ser necessário um grande esforço físico para manter Erec contido, mas desconfiava que havia mais do que isso. Julian não tinha natureza de torturador, por mais que pudesse ser e fosse implacável na hora de proteger os que amava.
— Vou matá-lo se você não nos levar na direção certa — falou agora. — E eu o farei lentamente.
— Você prometeu ao meu pai...
— Eu não sou fada — disse Julian. — Eu posso mentir.
Erec parecia furioso, de um jeito que alarmava Mark. Fadas podiam guardar mágoa por muito tempo. Mas ele começou a andar e os outros o seguiram, deixando para trás a luz laranja que vinha da clareira.
Penetraram a escuridão da floresta. As árvores se aglomeravam, e raízes grossas serpenteavam pelo solo escuro. Montes de flores coloridas, vermelhas e verdes, se agrupavam ao redor dos ramos baixos das árvores. Passaram por uma fada de árvore risonha, que estava sentada na forquilha de um galho, nua, exceto por uma rede elaborada de fios prateados, e deu uma piscadela para Mark quando ele passou. Kieran se apoiava pesadamente em seu ombro; Mark estava com uma mão na lombar de Kieran. Será que os outros estavam confusos ou imaginando o que estaria acontecendo entre eles? Ele viu Cristina olhar para trás na direção dele, mas não conseguiu ler sua expressão.
Emma e Cristina caminhavam juntas. Julian estava na frente, permitindo que Erec os guiasse.
Mark ainda se sentia inquieto. Parecia que tinham escapado fácil demais. Para o Rei da Corte Unseelie tê-los deixado sair, levando seu filho favorito...
— Onde estão os outros? — perguntou Erec quando as árvores foram rareando e o céu,
multicolorido em toda a sua glória, se tornou visível. — Seus amigos?
— Amigos? — perguntou Mark, confuso.
— Os arqueiros — respondeu Erec. — Aquelas flechas em chamas na Corte... foi inteligente,
reconheço. Ficamos imaginando como vocês lidariam com armas depois que tirássemos seus poderes de anjo.
— Como fizeram isso? — perguntou Mark. — Profanaram toda a terra? — Isso não faria diferença — disse Emma. — Símbolos funcionam até em reinos demoníacos.
Isso é algo mais estranho.
— E a praga — disse Mark. — O que significa a terra com praga? Está em todos os cantos das
Terras Unseelie, como câncer em um corpo doente.
— Como se eu pudesse falar sobre isso. — Erec se irritou. — E não adianta me ameaçar, pois
contar valeria a minha vida.
— Acredite em mim, eu mesmo estou cansado de ameaçá-lo — disse Julian. — Então me solte — falou Erec. — Quanto tempo planeja me segurar? Para sempre? Pois é o
tempo que precisaria para me usar como proteção contra o meu pai e seus cavaleiros, para impedir que os encontrem e cortem suas gargantas.
— Eu disse que estava cansado de ameaçar e não que ia parar — disse Julian, cutucando a
lâmina da faca. Eles tinham chegado à beira da floresta, onde as árvores terminavam e os campos começavam. — Agora, para que lado?
Erec partiu pelo campo, e eles foram atrás. Kieran estava se apoiando mais pesadamente em
Mark. Seu rosto era muito pálido ao luar. As estrelas destacavam o azul e o verde em seu cabelo — sua mãe era uma fada do mar, e um pouco do brilho adorável da água permanecia nas cores do cabelo de Kieran e em seus olhos.
O braço de Mark se curvou inconscientemente em volta dele. Ele estava furioso com Kieran,
sim, mas aqui no Reino das Fadas, sob o brilho das estrelas policromáticas, era difícil não se lembrar do passado, não pensar em todas as vezes em que se apoiou em Kieran para ter calor e companhia. Que eram só os dois e ele achava que talvez fossem ser para sempre. E que se considerava muito sortudo por alguém como Kieran, um príncipe, e lindo, sequer olhar para ele.
O sussurro de Kieran era como um leve carinho no pescoço de Mark. — Lança do Vento.
Lança do Vento era o cavalo de Kieran. Ou foi. Ele tinha vindo com ele da Corte quando
Kieran se juntou à Caçada.
— E ele? Onde ele está?
— Com a Caçada — respondeu Kieran, e tossiu violentamente. — Foi um presente de Adaon, quando eu era muito novo.
Mark nunca tinha conhecido os meios-irmãos de Kieran, as dezenas de príncipes de diferentes mães que visavam o Trono Unseelie. Adaon, ele sabia pelas histórias de Kieran, era um dos mais gentis. Erec era o oposto. Foi cruel com ele por quase toda a vida. Kieran raramente falava dele sem raiva.
— Achei que tivesse ouvido o galope dele — disse Kieran. — Ainda ouço.
Mark escutou. Inicialmente não ouviu nada. Sua audição não era aguçada como a de Kieran, ou como a de qualquer fada verdadeira, pelo menos, não quando suas Marcas não funcionavam. Ele teve que esforçar os ouvidos para finalmente ouvir o som. Era um galope, mas não de Lança do Vento. Nem de nenhum dos cavalos. Era um estrondo de cascos , dezenas deles, vindo da floresta.
— Julian! — gritou Mark.
Não havia como conter o pânico da sua voz; Jules ouviu e se virou, rápido, soltando a mão de Erec. Erec se afastou, explodindo em movimento. Ele atravessou o campo, sua capa preta voando atrás dele, e correu para a floresta.
— E ele era uma ótima companhia — murmurou Emma — Com toda aquela coisa de “Nephilim, vocês todos vão morrer em uma poça do próprio sangue”. Estava muito agradável. — Ela parou. Tinha ouvido os cavalos. — O que é isso...?
Cortana pareceu voar para sua mão. Julian continuava segurando a adaga; Cristina alcançou o canivete.
— A cavalaria do Rei — disse Kieran, com uma calma surpreendente. — Não têm como combatê-los.
— Temos que correr — disse Mark. — Agora.
Ninguém discutiu. Correram.
Eles correram pelo campo, saltaram um muro de pedra do outro lado, Mark praticamente carregando Kieran. O chão começou a tremer com a força dos cascos distantes. Julian estava praguejando, um fluxo baixo e frequente de xingamentos. Mark supôs que ele não pudesse xingar muito no Instituto.
Estavam se movendo acelerados, mas não rápido o suficiente, a não ser que conseguissem encontrar outro bosque ou algum tipo de cobertura. Mas não havia nada visível ao longe, e as estrelas pouco diziam a Mark. Ele estava exausto o bastante para ficar tonto com elas. Metade da sua força parecia destinada a Kieran: não apenas por arrastá-lo junto, mas por mantê-lo de pé.
Chegaram a outro muro, que não era alto o bastante para conter os cavalos das fadas, mas era o suficiente para incomodar. Emma saltou; Julian foi atrás dela, seus dedos tocando levemente o topo do muro ao saltar por cima dele.
Kieran balançou a cabeça.
— Eu não consigo — falou.
— Kier... — começou Mark, irritado, mas Kieran estava com a cabeça abaixada, como um cachorro surrado. Seus cabelos caíam, suados e embaraçados, no rosto, e a camisa e a cintura da calça estavam ensopadas de sangue. — Você está sangrando de novo. Achei que tivesse dito que estava se curando.
— Achei que estivesse — respondeu o príncipe fada em voz baixa. — Mark, deixe-me aqui...
Alguém tocou o ombro de Mark. Cristina. Ela tinha guardado a faca e o encarava com frieza.
— Eu ajudo a passá-lo sobre o muro.
— Obrigado — falou Mark. Kieran sequer pareceu ter a energia para olhar irritado para ela.
Ela subiu para o topo do muro e esticou as mãos para baixo; juntos, Cristina e Mark ajudaram Kieran a passar sobre a barreira. Eles pularam para baixo, para a grama ao lado de Emma e Julian, que estavam esperando, com ar de preocupação. Kieran aterrissou ao lado deles e sucumbiu ao chão.
— Ele não pode continuar correndo — disse Mark.
Julian olhou por cima do muro. O barulho dos cascos estava alto agora, um estrondo acima
deles. A liderança da cavalaria Unseelie era visível, uma linha escura se movendo.
— Ele precisa — falou. — Vão nos matar.
— Me deixem aqui — disse Kieran. — Deixem que me matem. Julian se abaixou, apoiado em um dos joelhos. Colocou a mão embaixo do queixo de Kieran,
forçando o rosto do príncipe a se levantar de modo que os olhares se encontraram.
— Você me chamou de implacável — falou, seus dedos claros contra a pele ensanguentada de
Kieran. — Não tenho pena de você, Kieran. Você causou isso a si mesmo. Mas se você pensa que viemos até aqui para salvar a sua vida apenas para permitir que você deite e morra, é mais tolo do que eu pensava. — Sua mão baixou do rosto de Kieran para o braço, puxando-o para cima. — Me ajude, Mark.
Juntos, levantaram Kieran entre eles e avançaram. Era uma tarefa absurdamente difícil. O
pânico e o esforço de segurar Kieran abalaram os sentidos de Caçador de Mark; eles tropeçaram sobre pedras e raízes, entraram em um bosque, e galhos baixos arranharam a pele e o uniforme. No meio do bosque, Kieran ficou mole. Finalmente tinha desmaiado.
— Se ele morrer... — começou Mark.
— Ele não vai morrer — respondeu Julian sombriamente. — Poderíamos escondê-lo aqui e voltar para buscar...
— Ele não é um par de sapatos. Não podemos simplesmente deixá-lo aqui e esperar que ele
esteja no lugar quando voltarmos — sibilou Julian.
— Vocês dois podem parar... — começou Emma, mas se interrompeu com um engasgo. —
Ah!
Eles tinham saído do bosque. À sua frente, se erguia uma colina, verde e lisa. Poderiam subir,
mas teriam que enterrar mãos e pés, e escalar para o topo. Seria impossível fazer isso e manter Kieran com eles. Até Julian tinha parado onde estava. O braço do príncipe fada, que ficara enrolado no pescoço de Julian, agora estava solto, pendurado. Mark tinha a sensação distante e terrível de que ele estava morto. Queria deitar Kieran na grama e checar o pulso, segurá-lo do jeito que se devia segurar um Caçador em seus últimos momentos.
Em vez disso, ele virou a cabeça e olhou para trás. Cristina estava com os olhos fechados; ela
apertava o pingente, e sua boca se movia em uma oração silenciosa. Emma segurou Cortana da mesma forma, com olhos atentos e brilhantes. Ela os defenderia até o fim, Kieran também; ela cairia sob os cascos da cavalaria negra.
E eles estavam vindo. Mark podia vê-los, sombras entre as árvores. Cavalos como fumaça
negra, olhos em brasa como carvões vermelhos, com ferraduras de prata e ouro ardente. Fogo e sangue lhes davam vida: eram assassinos e brutais.
Mark teve a impressão de que podia ver o Rei, vindo na frente. Seu capacete de batalha era
talhado com um desenho de caras que berravam. O protetor de rosto cobria apenas a parte humana e linda do Rei, deixando a pele cinza morta exposta. Seu olho brilhava como veneno vermelho.
O som da aproximação deles era como o som de uma geleira quebrando. Ensurdecedor e mortal. De repente, Mark desejou que pudesse ouvir o que Cristina estava dizendo, as palavras de sua oração silenciosa. Ele observou os lábios dela se mexerem. Anjo, cuidai de nós, abençoai-nos, salvai-nos.
— Mark. — Julian virou a cabeça para o irmão mais velho, seus olhos azul-esverdeados subitamente sem reservas, como se ele estivesse prestes a falar algo que estava desesperado para falar há muito tempo. — Se você...
A colina pareceu rachar. Um grande quadrado na frente dela se destacou do restante e se abriu como uma porta. O queixo de Mark caiu. Ele tinha ouvido falar nessas coisas, colinas com portas nas laterais, mas nunca tinha visto uma.
Luz brilhou da abertura. Parecia um corredor, curvando-se para o coração da colina. Uma jovem fada com orelhas levemente pontudas, e os cabelos claros presos com cordas de flores, estava de pé na entrada, segurando um lampião. Ela estendeu uma das mãos para eles.
— Venham — falou, e sua voz tinha o sotaque inegável da Corte Seelie. — Venham depressa antes que eles os alcancem, pois os cavaleiros do Rei são selvagens e não vão permitir que vivam.
— E você? — perguntou Julian. — Pretende nos tratar bem?
Só Julian discutiria com a providência, Mark pensou. Mas Julian não confiava em ninguém além da família. E, às vezes, nem na família.
A mulher sorriu.
— Sou Nene — falou. — Vou ajudá-los, e não feri-los. Mas venham, agora, depressa.
Mark ouviu Cristina sussurrar um “obrigada”. E então estavam todos correndo outra vez, sem ousar olhar para trás. Um por um, pularam pela porta e pousaram na terra batida lá dentro. Mark e Julian entraram por último, carregando Kieran. Mark deu uma última olhada nos cavaleiros negros atrás deles, e ouviu seus gritos de raiva decepcionada. Depois, a porta se fechou atrás deles, selando a colina.