Senhor das sombras

Cassandra Clare · Capítulo 18 de 35

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Senhor das sombras

14. Através de Vidros Escuros

14

 

Através de Vidros Escuros

 

A Rainha permanecia em silêncio enquanto caminhava, e Julian, descalço, se apressava para acompanhá-la. Ela seguia decidida pelos corredores da Corte.

Era difícil entender a geografia do Reino das Fadas, com seu território em constante mutação

— o modo como espaços imensos cabiam em espaços menores. Era como se alguém tivesse levado a sério a pergunta filosófica de quantos anjos caberiam na cabeça de um alfinete e tivesse transposto isso para a paisagem.

Conforme andavam, cruzaram com alguns membros da nobreza. Aqui, na Corte Seelie, havia

menos fascínio sombrio, menos vísceras, ossos e sangue. Os uniformes verdes reproduziam a cor das plantas, das árvores e da grama. E havia ouro em toda parte: nos gibões dourados dos homens, nos vestidos longos das mulheres, como se eles estivessem canalizando o brilho do sol incapaz de alcançá-los debaixo da terra.

Finalmente, eles dobraram o corredor e entraram num imenso cômodo circular. Não tinha

mobiliário e as paredes de pedra lisa se curvavam para cima na direção de um cristal no auge do teto. Imediatamente abaixo do cristal, havia um grande pedestal de pedra, com uma bacia dourada apoiada em cima dele.

— Este é o meu cristal da vidência — explicou a Rainha. — Um dos tesouros do povo fada.

Você gostaria de olhar seu interior?

Julian recuou. Embora não tivesse o conhecimento de Cristina, sabia o que era um cristal da

vidência. O artefato permitia que você olhasse numa superfície reflexiva (normalmente um espelho ou poça d’água) e enxergasse o que estava acontecendo em outra parte do mundo. Ele teve muita vontade de usá-lo para ver como estava sua família, mas, a menos que fosse obrigado, não aceitaria ofertas de uma fada.

— Não, obrigado, milady — falou.

Notou o brilho de raiva nos olhos da Rainha e isso o surpreendeu. Imaginava que ela fosse

capaz de controlar melhor as próprias emoções. Mas a raiva se foi um instante depois e ela sorriu para ele.

— Um dos Blackthorn está prestes a pôr a própria vida em grave perigo — falou. — Isso não

é uma razão boa o suficiente para você olhar no cristal? Você prefere desconhecer o perigo que ameaça sua família, o sangue de seu sangue? — A voz dela era quase um sussurro. — Pelo que conheço de você, Julian, filho dos espinhos, isso não é da sua natureza.

Julian cerrou as mãos. Um Blackthorn em perigo? Poderia ser Ty, se metendo em um

mistério, ou Livvy, sendo precipitada e voluntariosa? Dru? Tavvy?

— Você não cai em tentação facilmente — falou ela, e agora sua voz estava mais suave e

sedutora. Os olhos brilhavam. Ela gostava daquilo, pensou ele. Da perseguição, do jogo. — Não é nada comum em alguém tão jovem.

Julian pensou com um contentamento meio desesperador que quase tivera uma crise, há pouco, perto de Emma. Mas aquilo fora uma fraqueza. Todo mundo tinha fraquezas. Os anos que passou negando as coisas que queria para si pelo bem de sua família transformaram sua vontade em algo que, às vezes, era uma surpresa até mesmo para ele.

— Eu não posso esticar a mão e mudar o que acontece, posso? — perguntou ele. — Não seria simplesmente uma tortura se eu ficasse assistindo?

Os lábios da rainha se curvaram.

— Eu não posso dizer — falou ela. — Também não sei o que vai acontecer. Mas se você não olhar, também não saberá. E, pela minha experiência com humanos e Nephilim, não acho que suportem não saber. — Ela baixou o olhar para a água. — Ah — disse. — Ele chegou na convergência.

Antes que pudesse evitar, Julian já estava ao lado do pedestal, fitando dentro d’água. O que viu o deixou chocado.

A água parecia um espelho translúcido, como a tela de uma televisão sobre a qual uma cena era projetada com nitidez quase assustadora. Julian estava olhando para a noite nas colinas de Santa Monica, uma visão familiar o suficiente para enviar uma pontada de saudades de casa pelo corpo dele.

A lua se erguia ao longo das ruínas da convergência. Os rochedos jaziam ao redor de uma planície de grama ressecada que se estendia até uma queda abrupta na direção do oceano, azul e preto ao longe. Perambulando pelos rochedos, estava Arthur.

Julian não conseguia se lembrar da última vez em que vira o tio sair do Instituto. Arthur trajava um casaco grosso e botas e, em sua mão, via-se uma luz enfeitiçada, brilhando fracamente. Ele nunca tinha se parecido tanto com um Caçador de Sombras, nem mesmo no Salão dos Acordos.

— Malcolm! — gritou Arthur. — Malcolm, eu exijo que você venha até mim! Malcolm Fade! Estou aqui, com sangue dos Blackthorn!

— Mas Malcolm está morto — murmurou Julian, fitando a bacia. — Ele morreu.

— É uma fraqueza de sua espécie considerar a morte tão definitiva — falou a Rainha, exultante —, sobretudo, quando se trata de feiticeiros.

O medo rasgou Julian como uma flecha. Ele tinha certeza de que, ao deixarem o Instituto, sua família ficaria em segurança. Mas se Malcolm estava lá — e ainda buscava sangue dos Blackthorn... mas se Arthur o estava oferecendo, então era provável que o feiticeiro não tivesse conseguido ainda —, só que Arthur não era nada confiável...

— Silêncio — falou a Rainha, como se pudesse ouvir o clamor dos pensamentos de Julian. — Observe.

— Malcolm! — gritou Arthur, e sua voz ecoou pelas montanhas.

— Estou aqui. Mas você chegou cedo. — A voz pertencia a uma sombra; uma sombra retorcida, disforme. Julian engoliu em seco quando Malcolm deu um passo, foi iluminado pela lua e o que fora feito dele (ou o que ele fizera de si) foi revelado.

A água na bacia ficou turva. Julian esticou o braço na direção da imagem antes de enxergar apenas o próprio reflexo e retirar a mão em seguida.

— Onde eles estão? — perguntou, com voz rouca. — O que eles estão fazendo?

— Paciência. Eles devem ir a um lugar. Malcolm vai levar seu tio até lá. — A Rainha Seelie exultava. Achava que Julian agora estava na palma de sua mão, pensou ele, odiando-a.

Ela mergulhou os longos dedos na água e o garoto viu um redemoinho rápido de imagens: as

portas do Instituto de Nova York, Jace e Clary dormindo num campo verde, Jem e Tessa num local escuro... e então as imagens ficaram nítidas outra vez.

Arthur e Malcolm estavam no interior de uma igreja antiquada, com janelas de vitral e

bancos com extremidades entalhadas. Havia algo no altar, algo coberto por um pano preto. Algo que se agitava delicadamente, como um animal despertando de seu sono.

Malcolm observava Arthur, um sorriso brincando no rosto destruído. Sua aparência era a de

uma coisa que fora arrastada de alguma dimensão infernal cheia de água. Das valetas e regatos em sua pele vazava água do mar. Seus olhos estavam leitosos e opacos; metade do cabelo branco se fora e a pele visível era irregular e cheia de crostas. Ele vestia um terno branco, e as fissuras em carne viva da pele desapareciam de maneira um tanto estranha debaixo da gola e das abotoaduras caras.

— Pra qualquer ritual de sangue, o sangue oferecido de boa vontade é melhor do que aquele

tirado à revelia — falou Arthur. Ele estava de pé, naquela postura desleixada costumeira, as mãos no bolso da calça jeans. — Darei meu sangue de boa vontade, se você prometer deixar minha família em paz.

Malcolm lambeu os lábios; sua língua estava azulada.

— É tudo o que você quer? Essa promessa?

Arthur assentiu.

— Você não quer o Volume Negro? — indagou Malcolm num tom irônico, dando um

tapinha no livro enfiado no cós de sua calça. — Você não quer ter certeza de que nunca mais vou machucar um único Nephilim?

— Sua vingança só me interessa uma vez que a minha família permanecer ilesa — falou

Arthur, e o alívio bambeou os joelhos de Julian. — O sangue Blackthorn que eu lhe dou deve aplacar sua sede, feiticeiro.

Malcolm sorriu. Os dentes estavam deformados e pontudos, como os de um tubarão. — Se eu concordar, será que estarei me aproveitando de você, já que é louco? — ponderou

Malcolm, em voz alta. — Será que sua mente instável confundiu a situação? Você está confuso? Desnorteado? Sabe quem eu realmente sou? — Arthur se encolheu. Julian sentiu uma pontada de solidariedade pelo tio e um lampejo de ódio por Malcolm.

Mate-o, pensou ele. Diga-me que o senhor levou uma lâmina serafim, tio, e acabe com ele. — Seu tio não estará armado — falou a Rainha. — Fade teria visto isso. — Ela observava com

um prazer quase avarento. — O Nephilim louco e o feiticeiro louco — disse ela. — É uma história e tanto.

— Você é Malcolm Fade, traidor e assassino — concluiu Arthur. — É uma ingratidão dizer isso para alguém que lhe forneceu seu remédio por esses anos

todos — murmurou Malcolm.

— Remédio? Estão mais para mentiras temporárias. Você fez o que fez para continuar

enganando Julian — acusou Arthur, e Julian se sobressaltou ao ouvir o próprio nome. — Você lhe deu a minha medicação porque queria que ele confiasse em você. Minha família o amava. Mais do que já me amou. Você enfiou uma faca no coração deles.

— Oh — murmurou Malcolm. — Não foi bem assim.

— Eu preferiria estar louco do meu jeito a estar como você — falou Arthur. — Você teve tanta coisa. Amor antigamente, poder e vida imortal, e jogou isso fora como se fosse lixo. — Arthur olhou na direção da criatura que se contorcia no altar. — Eu me pergunto se ela ainda será capaz de amá-lo, desse jeito que você é agora.

Malcolm fez uma careta.

— Chega! — falou, e uma breve expressão de triunfo passou pelos traços cansados e abatidos de Arthur. A seu modo, ele passara a perna no feiticeiro. — Eu aceito sua promessa. Venha cá.

Arthur deu um passo adiante. Malcolm o agarrou e começou a empurrá-lo na direção do altar. A luz enfeitiçada de Arthur já tinha se apagado, porém velas ardiam em castiçais presos às paredes, lançando uma luz amarelada e bruxuleante.

Malcolm segurou Arthur com uma das mãos, abaixando-o sobre o altar; com a outra mão, ele retirou o pano negro que cobria o altar e revelou o corpo de Annabel.

— Oh — suspirou a Rainha. — Ela já foi adorável.

Agora não era mais. Annabel era um esqueleto, embora não daquele tipo com ossos branquinhos e limpinhos que se via por aí na arte e nas pinturas. Sua pele tinha aspecto de couro ressecado, com buracos por onde vermes rastejavam, entrando e saindo. A náusea cresceu no estômago de Julian. Ela estava coberta por uma mortalha branca, mas dava para ver as pernas e os braços: em alguns lugares, a pele fora retirada e o musgo crescia nos ossos e tendões secos.

Uma cabeleira escura e quebradiça saía de seu crânio. A mandíbula de Annabel se mexia como se ela estivesse vendo Malcolm, e um gemido veio da garganta destruída. Parecia que ela balançava a cabeça.

— Não se preocupe, querida — falou Malcolm —, eu trouxe o que você precisa.

— Não! — gritou Julian, no entanto estava acontecendo exatamente o que ele temia: não era possível impedir os eventos se desenrolando à sua frente. Malcolm pegou a lâmina ao lado de Annabel e cortou a garganta de Arthur.

O sangue jorrou sobre Annabel — sobre o corpo e sobre a pedra na qual ela se encontrava. Arthur apalpou o pescoço e Julian perdeu a fala, agarrando as laterais da bacia.

A mortalha que cobria Annabel ficou carmim. Lentamente, as mãos de Arthur baixaram para as laterais do corpo. Agora ele só estava ereto porque Malcolm o segurava. O sangue encharcou o cabelo quebradiço e a pele ressecada de Annabel, e transformou a parte da frente do terno branco de Malcolm numa superfície escarlate.

— Tio Arthur — murmurou Julian. Sentiu gosto de sal nos lábios. Por um momento, ficou horrorizado por estar chorando, e bem diante da Rainha, mas, para seu alívio, ele apenas tinha mordido o lábio. Engoliu o sabor metálico do próprio sangue enquanto Arthur esmorecia na mão de Malcolm e o feiticeiro empurrava o corpo com impaciência. O tio desmoronou no chão ao lado do altar e permaneceu imóvel.

— Annabel — murmurou Malcolm.

Ela havia começado a se mexer.

Os braços e pernas foram os primeiros a se movimentar, espreguiçando-se, e suas mãos ávidas por tocar o nada. Por um momento, Julian pensou que houvesse alguma coisa errada com a água da bacia, um reflexo esquisito, até que seu deu conta de que era a própria Annabel. Um brilho branco rastejava sobre a figura dela; não, era sua pele nascendo para cobrir os ossos nus e tendões descobertos. O cadáver de Annabel parecia inchar conforme a carne preenchia suas formas, como se uma luva lisa e lustrosa tivesse sido esticada sobre seu esqueleto. O que era cinzento e branco tornara-se rosado: os pés descalços e as panturrilhas agora pareciam humanos. E até as meias-luas de suas unhas eram visíveis nas pontinhas dos dedos dos pés.

A pele seguiu rastejando pelo corpo, deslizando sob a mortalha e subindo para cobrir o peito

e as omoplatas, espalhando-se então pelos braços. As mãos se abriram como se fossem uma estrela-do-mar e cada dedo se esticou conforme ela testava o ar. Seu pescoço arqueou para trás quando fios em tons de preto e castanho explodiram de seu crânio. Os seios se ergueram debaixo da mortalha, as bochechas ocas foram preenchidas e os olhos se abriram de repente.

Eram olhos Blackthorn, que reluziam azul-esverdeados como o mar. Annabel se sentou, apertando os pedaços da mortalha ensanguentada contra si. Debaixo

deles, estava o corpo de uma jovem. Cabelos volumosos cascateavam em torno do rosto oval e pálido; os lábios eram fartos e vermelhos; os olhos brilhavam, maravilhados, quando ela encarou Malcolm.

E Malcolm estava transformado. O que quer que aquele dano perverso tivesse feito a ele,

agora não estava ali mais e, por um momento, Julian o viu como ele devia ter sido quando era um jovem apaixonado. Havia doçura e admiração nele, e Malcolm parecia congelado ali, o rosto brilhando em adoração enquanto Annabel descia do altar. Ela ficou de pé no soalho de pedra ao lado do corpo dobrado de Arthur.

— Annabel — chamou Malcolm. — Minha Annabel. Esperei por você durante tanto tempo,

fiz tanta coisa para trazê-la de volta para mim. — Ele deu um passo cambaleante na direção dela. — Meu amor. Meu anjo. Olhe para mim.

Mas Annabel estava olhando para Arthur. Lentamente, ela se curvou e pegou a faca que havia

caído perto do corpo. Ao se endireitar, seu olhar estava fixo em Malcolm, e lágrimas desciam por seu rosto. Seus lábios articularam uma palavra — Julian se esticou para a frente, mas ela dissera baixinho demais para se fazer ouvir. A superfície do cristal da vidência tinha começado a se agitar e estremecer, como a superfície do mar antes de uma tempestade.

Malcolm parecia perplexo.

— Não chore — falou. — Minha querida, minha Annabel. — E esticou a mão para ela.

Annabel deu um passo até ele, o rosto erguido. O feiticeiro se curvou como se fosse beijá-la no mesmo momento em que ela ergueu o braço e o esfaqueou numa investida só.

Malcolm a encarou, incrédulo. Então gritou. Foi um grito que ia além da dor; foi um uivo de

profundo desespero, de traição e de coração partido. Um uivo que pareceu rasgar o universo e separar as estrelas.

O feiticeiro cambaleou para trás, mas Annabel o seguiu, um espectro de sangue e terror nas

roupas mortuárias brancas e vermelhas. Ela o golpeou outra vez, abrindo seu peito, e ele caiu no chão.

Mesmo assim, ele não ergueu a mão para afastá-la quando ela se assomou diante dele. O

sangue borbulhava no canto da boca quando ele murmurou:

— Annabel. Ah, meu amor, meu amor... Ela o golpeou com crueldade, enfiando a lâmina no coração. O corpo de Malcolm

convulsionou. A cabeça tombou para trás, e os olhos reviraram. Sem expressão, Annabel se abaixou e retirou o Volume Negro do cinto dele. Sem dar mais nenhuma olhada para Malcolm, ela se virou e saiu da igreja, desaparecendo do campo de visão do cristal da vidência.

— Aonde ela foi? — perguntou Julian, mal reconhecendo a própria voz. — Siga-a, use o

cristal...

— O cristal da vidência não é capaz de encontrar o caminho através de tanta magia negra — falou a Rainha. Seu rosto brilhava como se ela tivesse acabado de ver alguma coisa maravilhosa.

Julian se encolheu e se afastou dela; ele não conseguiu evitar. Só queria sair dali, ir para um cantinho do cômodo e vomitar. Mas a Rainha consideraria isso uma fraqueza. Ele foi até uma das paredes e se recostou.

A Rainha estava de pé com uma das mãos apoiada na beira da bacia dourada e sorria para ele.

— Você viu que Fade em momento algum ergueu a mão para se defender? — falou ela. — Isso é amor, filho dos espinhos. Nós recebemos os golpes mais cruéis e quando sangramos por causa deles, murmuramos nossos agradecimentos.

Julian se apoiou contra a parede.

— Por que você me mostrou tudo aquilo?

— Eu barganharia com você — falou ela. — E tem coisas que eu gostaria que você não ignorasse neste momento.

Julian tentou acalmar a respiração, obrigando-se a entrar ainda mais fundo na própria mente, nas lembranças mais terríveis. Ele estava no Salão dos Acordos. Tinha 12 anos e acabara de matar seu pai. Estava no Instituto e havia acabado de descobrir que Malcolm Fade havia sequestrado Tavvy. Estava no deserto, e Emma lhe dizia que amava Mark; Mark e não ele.

— Que tipo de barganha? — falou, e sua voz estava firme como uma rocha.

Ela balançou a cabeça. Os cabelos ruivos irradiavam ao redor do rosto fino e emaciado.

— Eu quero o grupo todo presente quando a barganha for feita, Caçador de Sombras.

— Eu não vou barganhar com você — falou Julian. — A Paz Fria...

Ela deu uma gargalhada.

— Você rompeu a Paz Fria mil vezes, criança. Não finja que eu nada sei sobre você ou sua família. Apesar da Paz Fria, apesar de tudo o que eu perdi, ainda sou a Rainha da Corte Seelie.

Julian não conseguiu deixar de pensar no que significava aquela frase: apesar de tudo o que eu perdi. O que exatamente ela perdera? Será que ela se referia à tensão da Paz Fria, à vergonha por ter sido derrotada na Guerra Maligna?

— Além disso — falou ela —, você ainda não sabe o que estou oferecendo. Nem seus amigos. Creio que eles poderiam se interessar, sobretudo, sua adorável parabatai.

— Você tem alguma coisa para Emma? — quis saber ele. — Então por que me trouxe aqui sozinho?

— Eu queria lhe dizer uma coisa. Uma informação que talvez você não queira que ela saiba que é de seu conhecimento. — Um sorriso minúsculo percorreu os lábios da Rainha. Ela deu outro passo até ele. Julian estava próximo o suficiente para ver o detalhe das plumas no vestido dela, os flocos de sangue que indicavam que tinham sido arrancadas da ave pela raiz. — A maldição dos parabatai. Eu sei como quebrar.

Julian viu-se incapaz de respirar. Foi a mesma coisa que a puca lhe dissera no Portão: No Reino das Fadas, você encontrará alguém que sabe quebrar a ligação dos parabatai.

Ele tinha guardado tal informação no coração desde que eles chegaram. Tinha se perguntado quem seria. Mas era a Rainha. Claro que era a Rainha. Alguém em quem ele absolutamente não deveria confiar.

— A maldição? — perguntou ele, mantendo a voz suave e um pouco confusa, como se não tivesse ideia do motivo de ela se referir à ligação daquele jeito.

Alguma coisa indefinível brilhou em seus olhos.

— A ligação dos parabatai, melhor dizendo. Mas é uma maldição para vocês, não é? — Ela segurou o pulso dele, virando sua mão para cima. Os crescentes que ele traçara na palma com as unhas roídas estavam apagados, mas ainda eram visíveis. Ele pensou no cristal da vidência. Pensou na Rainha observando os dois, ele e Emma, no quarto de Fergus. Claro que ela havia feito isso. Ela soubera exatamente quando Emma adormecera. Quando ele estivera vulnerável. Ela sabia que ele amava Emma. Podia ser algo que ele escondesse da família e dos amigos, mas estaria claro como um farol para a Rainha da Corte Seelie, acostumada a buscar fraqueza e vulnerabilidade, e a combiná-las de maneira cruel a verdades desagradáveis. — Como eu disse — falou ela, com um sorriso —, nós acolhemos as feridas do amor, não é?

Uma onda de raiva percorreu Julian, mas sua curiosidade foi maior. Ele afastou a mão dela. — Diga-me — falou. — Conte o que você sabe.

Cavaleiros fada em verde, dourado e vermelho vieram buscar Emma para levá-la até a sala do trono. Ao acordar, ela ficou um pouco confusa com a ausência de Julian, mas se tranquilizou ao ver Mark e Cristina no corredor, igualmente escoltados, e então Mark lhe confidenciou que ouvira um dos guardas dizendo que Julian já estava à espera deles na sala do trono.

Emma xingou o próprio cansaço. Como foi que ela não notou que ele tinha saído? Ela se

obrigara a dormir, incapaz de suportar mais um segundo de proximidade física com Jules sem poder nem mesmo abraçá-lo. E ele se mostrara tão calmo, tão totalmente tranquilo; ele a fitara com uma simpatia distante — bondade até, quando lhe garantira que a amizade deles permanecia intacta — e isso doera demais, por isso ela só queria era que o cansaço levasse tudo embora.

Emma esticou a mão para tocar em Cortana pendurada em suas costas. Também carregava o

restante das coisas dela e de Julian na mochila, sentindo-se ridícula por usar uma arma por cima de um vestido fino, porém não iria trocar de roupa na frente da Guarda da Rainha. Tinham se oferecido para carregar a espada para ela, mas Emma recusara. Ninguém além dela tocava em Cortana.

Cristina estava praticamente se contorcendo, de tão agitada. — A sala do trono da Rainha Seelie — murmurou. — Eu li a respeito, mas nunca imaginei

que realmente a veria. A aparência da sala muda de acordo com as variações de humor da Rainha.

Emma se lembrou que Clary contava histórias da Corte para ela, e falava de uma sala de gelo

e neve, na qual a Rainha trajava dourado e prateado, e de uma cortina de borboletas que batiam as asas. Mas não foi assim quando eles chegaram. Conforme Mark já tinha dito, Julian já estava na sala do trono. Era um cômodo oval e desprovido de móveis, cheio de fumaça acinzentada. A fumaça se deslocava pelo soalho e crepitava no teto, onde era espetada com pequenos dardos de raios negros. Não havia janelas, mas a fumaça cinzenta formava desenhos nas paredes: um campo de flores mortas, uma onda batendo, o esqueleto de uma criatura alada.

Julian estava sentado na escada que conduzia ao grande bloco onde se localizava o trono da

Rainha. Ele usava uma mistura de uniforme e de roupas comuns, e por cima da camisa via-se um casaco que ele só poderia ter encontrado aqui no Reino das Fadas. A peça reluzia com fios dourados e pedaços de brocado, as mangas viradas para exibir os antebraços. A pulseira de vidro marinho brilhava no pulso.

Ele ergueu o rosto quando todos entraram. Mesmo contra o fundo pálido, seus olhos azul-

esverdeados reluziam.

— Antes que vocês digam qualquer coisa, eu tenho algo para falar — avisou ele.

Apenas metade da mente de Emma estava prestando atenção nas palavras quando ele começou a falar; a outra metade notava que ele parecia estranhamente à vontade.

Ele parecia calmo e sempre que Julian aparentava tranquilidade era porque estava mais apavorado do que nunca. Mas ele continuou falando e ela começou a se dar conta do que ele dizia. Ondas de choque a invadiram. Malcolm: morto, vivo e morto outra vez? Arthur, assassinado? Annabel se levantara da sepultura? O Volume Negro desaparecera?

— Mas Malcolm estava morto — falou ela, com voz entorpecida. — Eu o matei. Eu vi o corpo flutuar e se afastar. Ele estava morto.

— A Rainha me advertiu sobre pensar na morte como algo definitivo — explicou Julian. — Sobretudo, quando se trata de feiticeiros.

— Mas Annabel está viva — interveio Mark. — E o que ela quer? Por que levou o Volume Negro?

— Todas são excelentes perguntas, Miach — falou uma voz do outro lado do recinto. Todos se viraram, surpresos. Menos Julian.

Ela emergiu das sombras cinzentas envolvida em mais cinza ainda: um vestido cinzento longo feito de asas de mariposa e cinzas, com um decote tão profundo no torso que dava para ver os ossos protuberantes da clavícula sem dificuldade. Seu rosto era fino e triangular, dominado por olhos azuis ardentes. Os cabelos ruivos estavam presos atrás da cabeça com uma rede prateada. A Rainha. Havia brilho em seus olhos: se era malícia ou loucura, era difícil saber.

— Quem é Miach? — perguntou Emma.

A Rainha apontou para Mark.

— Ele. O sobrinho de minha criada Nene.

Mark parecia confuso.

— Nene chamou Helen de “Alessa” — falou Emma. — Então... Alessa e Miach são os nomes de fada deles?

— Não são os nomes completos, que lhes dariam poder. Não. Mas são muito mais harmoniosos do que Mark e Helen, não concorda? — A Rainha foi até Mark, uma das mãos puxando o vestido. Ela esticou a outra e tocou no rosto dele.

Ele não se mexeu. Parecia congelado. O medo da nobreza da fada e, sobretudo, dos monarcas em especial, fora incutido nele durante anos. Foram os olhos de Julian que se semicerraram quando a Rainha pôs uma das mãos na bochecha de Mark e os dedos dela acariciaram a pele de seu irmão.

— Belo menino — falou. — Você foi desperdiçado na Caçada Selvagem. Poderia ter servido aqui na minha Corte.

— Eles me sequestraram — falou Mark. — Não você.

Mesmo a Rainha pareceu um pouco perplexa.

— Miach...

— Meu nome é Mark. — Ele disse isso sem qualquer hostilidade ou resistência. Era um mero fato. Emma viu as centelhas nos olhos de Julian: orgulho pelo irmão, quando a Rainha deixou a mão cair. Ela voltou ao trono, e Julian se levantou e desceu os degraus, juntando-se aos outros lá embaixo, ao mesmo tempo que ela se sentou.

A Rainha sorriu para eles, e as sombras começaram a se movimentar em torno dela, como se isso lhes tivesse sido ordenado, contorcendo-se em fiapos e formatos semelhantes a flores.

— Então Julian já lhes contou tudo que vocês devem saber — falou ela. — Agora podemos barganhar.

Emma não gostava do modo como a Rainha falava o nome de Jules: o possessivo, quase

lânguido Julian. Ela também se perguntava onde a Rainha estivera enquanto Julian lhes contava o que acontecera. Com certeza ficara por ali, para que pudesse ouvir. Em um local próximo, de onde poderia escutar e avaliar as reações.

— Você nos trouxe aqui, milady, embora nenhum de nós saiba o porquê — falou Julian. Era

evidente, pela expressão dele, que não sabia o que a Rainha planejava pedir. Mas também era evidente que ele não pretendia recusar. — O que quer de nós?

— Quero que encontrem Annabel Blackthorn para mim — falou ela —, e recuperem o

Volume Negro.

O grupo se entreolhou. Não importa o que tivessem esperado, não fora aquilo. — Você só quer o Volume Negro? — perguntou Emma.

— Apenas o livro — respondeu a Rainha. — Annabel não tem importância, a menos que ela

esteja com o livro. Depois de ser ressuscitada tanto tempo após a morte, provavelmente ela está louca.

— Bem, isso torna a busca por ela tão mais divertida — falou Julian. — Por que você não

pode enviar sua Corte para buscá-la no mundo mundano?

— A Paz Fria dificulta as coisas — falou a Rainha secamente. — Eu ou meu povo seremos

pegos assim que formos vistos. Por outro lado, vocês são os queridinhos do Conselho.

— Eu não diria “queridinhos” — falou Emma. — Isso talvez seja um exagero. — Então nos diga, o que a Rainha das Fadas quer com o Volume Negro dos Mortos? —

perguntou Mark. — Aquilo é brinquedo de feiticeiros.

— E ainda assim é perigoso nas mãos erradas, mesmo quando são mãos de fadas — falou a

Rainha. — O Rei Unseelie aumenta seu poder desde a Paz Fria. Ele assolou as Terras dos Unseelie com o mal e encheu os rios com sangue. Vocês viram pessoalmente que nenhum objeto do Anjo pode sobreviver nas terras dele.

— É verdade — falou Emma. — Mas por que você se importa se ele transformou as Terras

dos Unseelie numa zona proibida para os Caçadores de Sombras?

A Rainha a encarou com um sorriso que não alcançava os olhos. — Eu não me importo — falou ela. — Mas o Rei pegou um do meu povo. Um membro da

minha Corte, muito querido. Ele mantém a pessoa prisioneira em suas terras. E eu a quero de volta.

A voz da Rainha era fria.

— Como o livro vai ajudá-la com isso? — perguntou Emma. — O Volume Negro é mais do que necromancia — explicou a Rainha. — Contém feitiços que

me permitirão recuperar o prisioneiro na Corte Unseelie.

Cristina balançou a cabeça.

— Milady — começou. Ela soava muito doce e firme, e nem um pouco ansiosa. — Embora

nós todos nos solidarizemos com sua perda, isso é muito perigoso e é muito trabalho para nós, apenas para ajudá-la. Acho que você teria que oferecer algo muito especial para conseguir nossa ajuda.

A Rainha assumiu uma expressão divertida.

— Você é muito decidida, para alguém tão jovem. — Anéis brilharam em seus dedos quando

ela gesticulou. — Mas veja, nossos interesses são semelhantes. Vocês não querem o Volume Negro nas mãos do Rei e nem eu quero. Ele ficará mais seguro aqui em minha Corte do que jamais estará no mundo por aí... O Rei vai estar procurando pelo livro também e o Volume Negro somente encontrará proteção no coração dos Seelie.

— Mas como vamos saber que você também não vai usá-lo contra os Caçadores de Sombras? — perguntou Emma, ansiosa. — Não faz tanto tempo assim que os soldados Seelie atacaram Alicante.

— Os tempos mudam, assim como as alianças — falou a Rainha. — Agora o Rei é uma ameaça maior a mim e aos meus do que os Nephilim. E eu provarei minha lealdade. — Ela inclinou a cabeça para trás e sua coroa reluziu. — Eu ofereço o fim da Paz Fria — emendou — e o retorno de sua irmã, Alessa, para vocês.

— Isso está além de seu poder — falou Mark. Mas ele não fora capaz de controlar a reação ao ouvir o nome da irmã: seus olhos estavam excessivamente brilhantes. E os de Julian também. Alessa. Helen.

— Não está — falou a Rainha. — Tragam-me o livro e eu oferecerei minhas Terras e armas ao Conselho para que possamos derrotar o Rei juntos.

— E se eles negarem?

— Eles não vão negar. — A Rainha soava absolutamente confiante. — Eles compreenderão que somente ao se aliar conosco, serão capazes de derrotar o Rei, e que para fazer tal aliança eles devem, primeiro, encerrar a Paz Fria. É do meu conhecimento que sua irmã foi punida com o exílio Nephilim por ser, em parte, fada. O Inquisidor tem o poder de anular a sentença de exílio. Com o Fim da Paz Fria, sua irmã estará livre.

Emma sabia que a Rainha não podia mentir. Ainda assim, ela sentia que, de alguma forma, eles estavam sendo enganados. Olhando em volta, dava para notar pela expressão inquieta dos outros que ela não era a única a pensar assim. No entanto...

— Você quer tomar as Terras Unseelie? — perguntou Julian. — E quer que a Clave ajude a fazer isso?

Ela fez um gesto preguiçoso com a mão.

— Qual seria a utilidade das Terras Unseelie para mim? Não sou movida a conquistas. Outro será levado ao trono para substituir o Senhor das Sombras, alguém mais solidário com as preocupações dos Nephilim. Isso deveria interessar aos seus.

— E você tem alguém em mente? — quis saber Julian.

E agora a Rainha sorria; um sorriso de verdade, que fez com que todos se esquecessem de sua aparência magra e emaciada. Sua beleza era gloriosa quando ela sorria.

— Eu tenho. — Ela se virou na direção das sombras atrás de si e falou: — Tragam-no.

Uma das sombras se esgueirou e se afastou das outras. Foi Fergus que Emma viu quando ele desapareceu por uma entrada em formato de arco, retornando um instante depois. Emma não achou que alguém fosse ficar surpreso ao ver quem ele conduzia, piscando, confuso e mais taciturno do que nunca.

— Kieran? — falou Mark, espantado. — Kieran, Rei da Corte Unseelie?

Kieran conseguiu parecer assustado e insultado ao mesmo tempo. Ele vestia roupas novas, calça e camisa de linho e um casaco marrom-amarelado, embora ainda estivesse muito pálido e as ataduras em volta do tronco fossem visíveis através da camisa.

— Não — falou ele. — De forma alguma.

A Rainha começou a rir.

— Não é Kieran. É o irmão dele. Adaon.

— Adaon não vai querer — falou Kieran. Fergus segurava o príncipe firmemente pelo braço;

Kieran parecia fingir que aquilo não estava acontecendo, como um meio de manter a dignidade. — Ele é leal ao Rei.

— Então ele não parece muito solidário com os Nephilim — falou Emma. — Ele odeia a Paz Fria — falou a Rainha. — Todos sabem disso; todos sabem também que ele

é leal ao Rei Unseelie e que acata suas decisões. Mas isso só é válido se o Rei estiver vivo. Se a Corte Unseelie for derrotada por uma aliança entre os Caçadores de Sombras e o povo Seelie, será fácil colocar nossa escolha no trono deles.

— Você faz parecer simples — falou Julian. — Se não planeja colocar Kieran no trono, por

que arrastá-lo até aqui?

— Tenho outra utilidade para ele — falou a Rainha. — Eu preciso de um enviado. Alguém

cuja identidade eles conheçam. — Ela se virou para Kieran. — Você será meu mensageiro junto à Clave. Vai jurar lealdade a um destes Caçadores de Sombras aqui. E por causa disso, e por ser filho do Rei das Sombras, quando você falar ao Conselho, eles saberão que você fala por mim, e que eles não serão enganados novamente como foram pelo mentiroso Meliorn.

— Kieran deve concordar com este plano — falou Mark. — Deve ser escolha dele. — Ora, certamente é a escolha dele — afirmou a Rainha. — Ele pode concordar ou pode

muito provavelmente ser assassinado pelo próprio pai. O Rei não gosta quando seus prisioneiros condenados fogem.

Kieran resmungou alguma coisa e falou:

— Eu jurarei lealdade a Mark. Farei como ele me pedir e seguirei os Nephilim por ele. E

discutirei com Adaon em seu benefício, embora, no fim, a escolha seja dele.

Alguma coisa brilhou nos olhos de Julian.

— Não — negou ele. — Você não vai fazer isso por Mark. Mark encarou o irmão, confuso; Kieran tinha uma expressão tensa. — Por que não por Mark?

— O amor complica as coisas — falou Julian. — Um juramento deve ser livre de

complicações.

Parecia que Kieran estava prestes explodir. Seu cabelo ficara totalmente preto. Lançando um

olhar de raiva a Julian, ele foi até os Caçadores de Sombras... e se ajoelhou diante de Cristina.

Todos pareceram surpresos, ninguém mais do que Cristina. Kieran jogou os cabelos escuros

para trás e ergueu o olhar para ela, um desafio nos olhos.

— Juro lealdade a você, Dama das Rosas.

— Kieran Fazedor de Reis — falou Mark, olhando Kieran e Cristina com uma expressão

totalmente indecifrável nos olhos. Emma não podia culpá-lo. Ele devia estar quase sempre à espera de que Kieran se lembrasse do que tinha se esquecido. Ela sabia que ele temia a dor que as lembranças trariam aos dois.

— Não estou fazendo isso por causa de Adaon ou da Paz Fria — falou Kieran. — Estou

fazendo porque quero meu pai morto.

— Mas que tranquilizador... — resmungou Julian quando Kieran se levantou. — Está acertado então — falou a rainha, com ar satisfeito. — Mas entenda uma coisa: você

pode prometer minha ajuda e minha boa vontade ao Conselho. Mas só declararei guerra ao Trono de Sombras quando tiver nas mãos o Volume Negro.

— E se ele declarar guerra a você? — perguntou Julian.

— Primeiro, ele vai declarar guerra a vocês — retrucou a rainha. — Eu sei disso.

— E se nós não o encontrarmos? — falou Emma. — O livro, quero dizer.

A Rainha gesticulou, como se cortasse preguiçosamente o ar usando a mão.

— Então a Clave ainda terá minha boa vontade — falou. — Mas não somarei meu povo ao exército deles até estar com o Volume Negro.

Emma olhou para Julian, que deu de ombros, como se indicasse que não esperava que a Rainha dissesse mais nada.

— Uma última coisa — falou Julian. — Helen. Não quero esperar o fim da Paz Fria para tê-la de volta.

A Rainha pareceu momentaneamente irritada.

— Há coisas que eu não posso fazer, pequeno Nephilim — falou ela rispidamente, e foi a primeira coisa dita por ela na qual Emma realmente acreditou.

— Você pode. Jure que vai insistir com a Clave para que Helen e Aline sejam suas embaixadoras. Assim que Kieran terminar sua tarefa e transmitir sua mensagem ao Conselho, a função dele acaba. Outra pessoa terá que ir e voltar ao Reino das Fadas para você. Permita que sejam Helen e a esposa dela. Eles terão que trazê-las de volta da Ilha de Wrangel.

A Rainha hesitou um momento e então inclinou a cabeça.

— Você compreende que eles não têm motivo algum para fazer o que digo, a menos que esperem ajuda dos meus e de mim — falou ela. — Então quando vocês tiverem o Volume Negro, aí sim, vão poder fazer disso uma condição para receber minha ajuda. Kieran, autorizo você a fazer tal solicitação na hora certa.

— Eu a farei — retrucou Kieran, e olhou para Mark. Emma praticamente pôde ler a mensagem nos olhos dele. Mas não por você.

— Adorável — falou a Rainha. — Vocês poderiam ser heróis. Os heróis que encerraram a Paz Fria.

Cristina se retesou. Emma se lembrou da outra garota dizendo para ela: Sempre tive a esperança de um dia conseguir um tratado melhor do que a Paz Fria. Algo mais justo para com os integrantes do Submundo e para com os Caçadores de Sombras que os amam.

O sonho de Cristina. A irmã de Mark e Julian. Segurança para os Blackthorn quando Helen e Aline voltassem. A Rainha tinha oferecido a eles todas as esperanças perdidas, os desejos secretos. Emma odiava sentir medo, mas neste momento estava com muito medo da Rainha.

— Estamos finalmente acertados, crianças barulhentas? — perguntou a Rainha, e seus olhos brilharam. — Temos um acordo?

— Você sabe que temos. — Julian praticamente lançou as palavras. — Vamos começar a procurar, embora ninguém tenha ideia de por onde começar.

— As pessoas vão aos locais que significam alguma coisa para elas. — A Rainha inclinou a cabeça para o lado. — Annabel era uma Blackthorn. Leiam sobre o passado dela. Conheçam sua alma. Vocês têm acesso à papelada dos Blackthorn, a histórias que ninguém mais pode tocar. — Ela ficou de pé. — Alguns do meu povo os visitaram uma vez, quando eram jovens e felizes. Fade tinha uma casa na Cornualha. Talvez ela ainda esteja de pé. Pode haver alguma coisa por lá. — Ela começou a descer a escadaria. — E agora é hora de acelerarem a jornada. Vocês devem voltar ao mundo mundano antes que seja tarde demais. — Ela havia chegado ao fim dos degraus. Virou-se, imperiosa e magnífica em suas vestes. — Entrem! — chamou. — Estávamos esperando vocês.

Dois vultos apareceram à entrada do cômodo, ladeados por cavaleiros com o uniforme da

Rainha. Emma reconheceu um deles como Nene. O rosto dela continha uma expressão de respeito e até um pouco de medo ao entrar. Ao seu lado, ela acompanhava a figura formidável de Gwyn ap Nudd. Gwyn usava um gibão mais formal de veludo escuro contra o qual se retesavam os ombros imensos.

Gwyn virou-se para Mark. Seus olhos, azuis e pretos, fixaram-se nele com uma expressão de

orgulho.

— Você salvou Kieran — falou. — Eu não devia ter duvidado de você. Você fez tudo o que eu

poderia ter pedido e mais. E agora, pela última vez, você cavalgará comigo e a Caçada Selvagem. Eu o levarei à sua família.

Os cinco acompanharam a Rainha, Nene e Gwyn através de uma série de corredores intrincados até que um deles terminou num túnel inclinado para baixo que emanava ar frio e fresco. Ele se abria num espaço verde. Não havia sinal de árvores, somente grama salpicada de flores e, acima, o céu noturno girando com nuvens multicoloridas. Emma se perguntava se ainda era a mesma noite na qual eles tinham chegado à Corte Seelie ou se um dia inteiro já tinha se passado no subterrâneo. Não havia jeito de saber. O tempo no Reino das Fadas se movia como uma dança cujos passos ela desconhecia.

Cinco cavalos estavam parados na clareira. Emma reconheceu Lança do Vento, a montaria

que Kieran tinha cavalgado na batalha com Malcolm. O animal relinchou ao avistar Kieran e coiceou para o céu.

— Foi isso que a puca me prometeu — falou Mark, em voz baixa. Ele estava parado atrás de

Emma, com os olhos fixos em Gwyn e nos cavalos. — Que se eu viesse ao Reino, cavalgaria com a Caçada Selvagem novamente.

Emma esticou a mão e apertou a de Mark. Pelo menos, para ele, a promessa da puca se

tornara verdade, sem o gosto amargo no final. Ela torcia pela mesma coisa para Julian e Cristina.

Cristina se aproximou de um ruão vermelho, que coiceava a terra, irritadiço. Ela murmurou

para o cavalo até ele se acalmar, e subiu com um impulso em seu lombo, esticando o braço para acariciar o pescoço do animal. Julian subiu numa égua negra cujos olhos tinham um estranho tom verde. Ele parecia imperturbável. Os olhos de Cristina brilhavam de satisfação. Ela encarou Emma e sorriu, como se mal pudesse se controlar. Emma se perguntava havia quanto tempo Cristina devia sonhar em cavalgar com uma tropa fada.

Ela ficou para trás, esperando que Gwyn chamasse seu nome. Por que eram cinco cavalos, e

não seis? Ela teve sua resposta quando Mark tomou impulso para montar Lança do Vento e esticou o braço para puxar Kieran atrás de si. A flecha de elfo no pescoço de Mark reluziu sob a luz multicolorida das estrelas.

Então Nene se aproximou de Lança do Vento e pegou as mãos de Mark, ignorando Kieran.

Emma não conseguiu ouvir o que ela murmurava para ele, mas havia dor profunda em seu rosto. Os dedos de Mark agarraram os dela por um momento e então se soltaram. Nene se virou e voltou para a colina.

Em silêncio, Kieran se ajeitou atrás de Mark, mas não tocou o outro garoto. Mark se remexeu um pouco no lugar.

— Você está preocupado? — perguntou a Kieran.

Kieran balançou a cabeça.

— Não — falou —, porque estou com você.

O rosto de Mark ficou tenso.

— Sim — retrucou —, você está.

Ao lado de Emma, a Rainha deu uma risadinha baixa.

— Tantas mentiras em apenas três palavras — falou. — E ele sequer disse “eu te amo”.

Emma sentiu uma pontada de raiva.

— Você sabe o que são mentiras — retrucou ela. — Aliás, se quer saber, a maior mentira de todas que o povo fada já contou é que trata-se de um povo que não mente.

A Rainha se empertigou. Parecia fitar Emma de uma grande altura. As estrelas giravam atrás dela, azuis e verdes, roxas e vermelhas.

— Por que você está tão nervosinha, garota? Eu fiz uma barganha justa. Tudo que vocês poderiam desejar. Eu lhes dei uma bela hospedagem. Até as roupas que está usando são das fadas.

— Eu não confio em você — falou Emma sem rodeios. — Nós fizemos uma barganha com você porque não tínhamos escolha. Mas você nos manipulou a cada etapa do caminho... Até o vestido que estou usando é uma forma de manipulação.

A Rainha arqueou uma das sobrancelhas.

— Além disso — continuou Emma —, você se aliou a Sebastian Morgenstern. Você o ajudou a travar a Guerra Maligna. Por causa da guerra, Malcolm conseguiu o Volume Negro e meus pais morreram. Por que eu não a culparia?

Os olhos da Rainha examinaram Emma, e agora a menina notava neles o que a outra se esforçara para esconder antes: sua raiva e sua maldade.

— Foi por isso que você se tornou a protetora dos Blackthorn? Como não foi capaz de salvar seus pais, você os salvará, sua família substituta?

Emma encarou a Rainha por um longo momento antes de falar:

— Pode apostar que sim.

Sem olhar outra vez para a governante da Corte Seelie, Emma se afastou, irritada, na direção dos cavalos da Caçada.

Julian nunca gostara muito de cavalos, embora tivesse aprendido a cavalgar como a maioria dos Caçadores de Sombras. Em Idris, onde os carros não funcionavam, eles ainda eram o principal meio de transporte. Ele aprendera a cavalgar num pônei mal-humorado que ficava bufando e lançando-se sob os galhos baixos, tentando derrubá-lo.

O cavalo que Gwyn lhe dera tinha uma expressão sombria nos olhos terrivelmente verdes que não pressagiava coisa muito melhor. Julian se apoiou, esperando uma subida abrupta, mas quando Gwyn deu a ordem, o cavalo simplesmente deslizou no ar, como um brinquedo puxado por uma corda.

Julian arfou ruidosamente por causa do choque. Flagrou suas mãos afundando na crina do cavalo, apertando com força, enquanto os outros se erguiam no ar à sua volta; Cristina, Emma, Mark e Kieran. Por um momento, eles pairaram, como se fossem sombras sob a luz da lua.

Então os cavalos dispararam. O céu acima deles virou um borrão e as estrelas se tornaram linhas de tinta multicolorida, reluzente. Julian percebeu que estava sorrindo de verdade, do modo que raramente fazia desde que era pequeno. Não conseguia evitar. Escondido na alma de todo mundo, pensou enquanto rodopiavam pela noite, devia estar o desejo de voar.

E não do jeito que os mundanos faziam, presos no interior de um cilindro de metal. Mas

desse jeito, tomando impulso entre as nuvens e descendo suavemente; o vento acariciando a pele. Ele olhou para Emma. Ela estava inclinada sobre a crina do cavalo, as longas pernas dobradas nas laterais, o cabelo brilhante esvoaçando como um estandarte. Atrás dela, vinha Cristina, mãos para cima, dando gritinhos de felicidade.

— Emma! — gritou ela. — Emma, olha só, sem as mãos!

Emma olhou e riu alto. Mark, que cavalgava Lança do Vento com um ar de familiaridade,

com Kieran agarrado ao seu cinto usando uma das mãos, não pareceu achar graça.

— Use as mãos! — gritou ele. — Cristina, isso não é uma montanha-russa! — Os Nephilim são loucos! — gritou Kieran, tirando do rosto o cabelo que flutuava

selvagemente.

Cristina apenas riu e Emma a fitou com um grande sorriso e olhos que brilhavam como as

estrelas acima, que se transformaram nas estrelas brancas e prateadas dos mundanos.

Sombras cresceram diante deles, em branco, preto e azul. Os penhascos de Dover, pensou

Julian, e sentiu uma dor por dentro pelo fato de que talvez aquilo fosse acabar muito rápido. Ele virou a cabeça e olhou para o irmão. Mark montava Lança do Vento como se tivesse nascido sobre um cavalo. O vento dividia os cabelos claros e revelava as orelhas pontudas. Ele também sorria, um sorriso calmo e secreto, de alguém fazendo o que amava.

Muito abaixo deles, o mundo girava, um misto de campos pretos e prateados, colinas

sombrias e rios sinuosos e iluminados. Era belo, mas Julian não conseguia tirar os olhos de seu irmão. Então isto é a Caçada Selvagem, pensou. Essa liberdade, a vastidão, a ferocidade da alegria. Pela primeira vez, compreendeu como e por que a decisão de Mark de ficar com a família poderia não ter sido fácil. Pela primeira vez, pensou, admirado, no quanto seu irmão devia amá-lo, afinal de contas, para ter desistido do céu por amor a ele.