Sete Anos no Tibet
12 uma Tentativa de Golpe de Estado
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
ses, ou estudantes de uma cidade em particular como, por exemplo,
Shigatse.Dentro do mosteiro não se pode tirar a vida a nenhuma
criatura, mas o clima frio torna necessário comer alguma carne; por
isso as comunidades fornecem mantimentos de carne de iaque seca, e
numa vila das proximidades come-se carne fresca.
Para além da alimentação e alojamento gratuitos os monges recebem
uma pequena mesada que é assegurada por subsídios do governo e
ofertas de peregrinos. No entanto, quando um monge possui talentos
notáveis, geralmente encontra um patrono entre os nobres ou entre
comerciantes ricos. A igreja no Tibete é muito rica e possui, de facto, a
maior parte da terra e os mosteiros usufruem das receitas de regiões
extensas. Cada mosteiro tem o seu gestor que se encarrega das
provisões e outras necessidades. São gastas enormes somas na
manutenção dos mosteiros e dos seus membros. Uma vez ajudei um
monge na sua contabilidade e reparei que durante o primeiro mês do
ano, que todos os monges passam em Lassa, o governo lhes tinha
fornecido três toneladas de chá e cinquenta de manteiga, para além do
dinheiro dos subsídios, no valor de aproximadamente 40 000 libras
esterlinas.
Nem todas estas figuras dos hábitos vermelhos são gentis e educadas.
A maioria são indivíduos rudes e brutos, para quem o chicote não é
disciplina suficiente. Os piores pertencem à organização clandestina,
mas tolerada, dos Dob-Dobs, uma espécie de soldados-monges que
usam uma braçadeira vermelha e escurecem os rostos com fuligem.
Nos seus cintos trazem uma enorme chave que podem usar como arma
de arremesso e frequentemente têm nos bolsos afiadas facas de
sapateiro. Muitos deles são rufiões, de atitude provocadora e rápidos
no ataque. As pessoas sensatas mantêm-se à distância. Na guerra
contra os comunistas chineses formaram um batalhão que ganhou
reputação pela sua coragem. Em tempo de paz também têm
oportunidades para descarregarem o seu excesso de energia, pois os
diferentes mosteiros dos Dob—Dobs estão sempre em guerra uns com
os outros. E justo acrescentar que nem sempre as suas diferenças são
resolvidas pela violência, e que alguma da sua belicosidade é
empregue nos torneios atléticos entre mosteiros rivais. Dre-bung é
geralmente o vencedor, dispondo de uma maior selecção de atletas do
que os seus competidores. Como antigo treinador de desporto, eu
costumava ir a Drebung com frequência e os monges ficavam sempre
contentes com a minha participação nos seus treinos. Este foi o único
lugar no Tibete em que encontrei homens de compleição atlética e
músculos treinados.
Os grandes mosteiros de Drebung, Será e Ganden — os três Pilares
do Estado — têm um papel decisivo na vida política do Tibete. Os seus
abades, juntamente com oito funcionários governamentais, presidem à
Assembleia Nacional. Nenhuma decisão é tomada sem a concordância
destes clérigos, que naturalmente estão interessados em manter a
supremacia dos mosteiros. A sua intervenção tem impedido a
realização de muitas ideias progressistas. Houve um período em que
consideravam que Aufschnai-ter e eu éramos obstáculos, mas retiraram
a sua oposição quando perceberam que não tínhamos ambições
políticas e que nos tínhamos adaptado aos seus costumes e executado
projectos dos quais eles também beneficiavam.
Como já referi, os mosteiros são as escolas superiores da Igreja. Por
essa razão, todos os Lamas — e há mais de mil no Tibete — devem ser
educados num deles. Estas Encarnações são uma constante atracção
para os peregrinos, que acorrem aos milhares para os visitar e receber a
sua bênção.Mesmo durante a visita do Dalai Lama a Drebung, estas
Encarnações assistiam a todas as cerimónias e senta-vam-se nos
lugares da frente — uma autêntica multidão de deuses! Entretanto, nos
frondosos jardins do claustro realizava-se diariamente uma discussão
religiosa entre os abades e o seu soberano. Este é um dos actos mais
íntimos da vida religiosa lamaísta, e eu nunca tive a mínima esperança
de poder presenciá-lo.
Contudo, um dia, enquanto tomava o pequeno-almo-ço, Lobsang
perguntou-me se gostaria de ir com ele. Este gesto inesperado da sua
parte proporcionou-me testemunhar um drama que nenhuma outra
pessoa de outro credo jamais presenciou. Como eu estava na
companhia do irmão do Dalai Lama ninguém tentou impedir-me de
entrar no recôndito jardim. Um estranho cenário desenro-lou-se diante
de mim. Em frente de um denso bosque, uma grande multidão de
monges com os seus hábitos vermelhos, talvez dois mil, estava sentada
no chão de gravilha, enquanto num local elevado o Dalai Lama
pregava a Sagrada Escritura. Pela primeira vez ouvi a sua clara voz
infantil. Falava sem qualquer embaraço e com a segurança de um
adulto. Esta era a sua primeira aparição pública. Era um rapaz de
catorze anos que estudara muitos anos e agora o seu conhecimento
estava a ser testado perante uma audiência exigente. Esta primeira
aparição poderia ter consequências decisivas. É verdade que ele nunca
poderia renunciar à sua carreira predestinada, mas a sua prestação
neste dia iria mostrar se estava destinado a ser um instrumento na mão
dos monges ou a ser o seu mestre. Nem todos os seus antecessores
tinham tido a capacidade do quinto e do décimo terceiro Dalai Lama.
Muitos deles permaneciam a vida inteira como marionetas nas mãos
dos homens que os tinham treinado, e o destino do país era controlado
pelos Regentes. As pessoas falavam da inteligência milagrosa deste
rapaz. Dizia-se que ele só precisava de ler um livro uma vez para o
decorar; e era sabido que há muito se interessara por tudo o que
acontecia no país e costumava criticar ou elogiar as decisões da
Assembleia Nacional.
Agora que chegara a altura do debate, eu percebia que as suas
capacidades não tinham sido exageradas. O Dalai Lama sentou-se na
gravilha, para não enfatizar a superioridade da sua condição, enquanto
o abade, em cujo mosteiro a discussão se realizava, se postava à sua
frente e pontuava as suas questões com gestos convencionais. O Dalai
Lama respondeu a todas as questões que lhe eram colocadas, mesmo
as mais provocadoras, com prontidão e bom humor e nem por um
momento perdeu a sua postura.
Após algum tempo, os antagonistas trocaram de lugares e era o Dalai
Lama quem fazia as perguntas ao abade sentado. Podia-se perceber
que esta não era uma encenação preparada para exibir a inteligência do
jovem Buda; era um genuíno duelo de espíritos no qual o abade se
aplicava ao máximo para não ser derrotado.
Quando o debate acabou, o jovem Rei Divino subiu novamente ao
seu trono dourado e a sua mãe, a única mulher presente, serviu-lhe chá
numa chávena em ouro. Trocou um rápido olhar amigável comigo
como para se assegurar de que eu aprovara o seu desempenho. Pelo
que me toca, estava profundamente impressionado pelo que tinha visto
e ouvido, e sentia uma genuína admiração pela presença de espírito
deste Jovem Deus de uma família humilde. Quase me convenceu a
acreditar na reencarnação.No fim do debate religioso toda a gente
rezava em coro. Estas orações soavam como uma litania e demoravam
muito tempo. Depois disso o Dalai Lama, ajudado pelos seus abades,
regressou ao Palácio. Eu sempre me interrogara a propósito da postura
senil do Dalai Lama, e agora aprendera que isto era parte do ritual e
que todos os diferentes movimentos eram prescritos de forma a imitar
a pose do Buda, e ao mesmo tempo visava realçar a dignidade do Dalai
Lama.
Gostaria imenso de ter tirado algumas fotografias desta cerimónia
única mas, como se provou depois, foi uma sorte não ter a minha
câmara comigo. No dia seguinte houve uma grande agitação quando o
meu amigo Wangdúla (sem que eu soubesse) tentou fotografar o Dalai
Lama enquanto ele circundava um dos mosteiros. Ele já tinha tirado
uma boa fotografia quando um monge zeloso o denunciou. Wangdúla
foi levado à presença do secretário do Regente e foi severamente
interrogado. Como punição pela sua ofensa, baixou de categoria e
disseram-lhe que tinha muita sorte em não ser expulso da ordem
monástica. Para além disso, a sua câmara foi confiscada — tudo isto
apesar de ser um nobre da quinta casta e sobrinho de um antigo
Regente. Durante algum tempo os monges só falavam deste incidente,
mas o próprio Wang-diila aceitou tudo muito calmamente. Eleja
conhecia os altos e baixos da carreira.
O próximo compromisso no programa do Dalai Lama era a sua
expedição ao cume do Monte Gyambe Utse, um pico com mais de
5200 metros de altitude que domina o mosteiro de Drebung.Certa
manhã, bem cedo, uma enorme comitiva de cerca de mil homens e
várias centenas de cavalos pôs-se a caminho. O primeiro objectivo era
um acampamento a meio caminho da escalada. O cavalo do Dalai
Lama era conduzido por dois moços de estrebaria. Tinham sido
preparados vários locais para repouso ao longo do percurso, mobilados
com um trono sobre carpetes. Ao anoitecer, a caravana chegou a meio
da jornada. Queimou-se incenso como sinal de agradecimento por
chegarem ali em segurança e rezaram orações. Neste lugar tinham sido
montadas tendas e a comitiva passou aqui a noite. Foram preparados
iaques para o dia seguinte e antes do nascer-do-sol o Dalai Lama e os
seus altos dignatários partiram a cavalo para o cume. Os monges de
Drebung já tinham preparado a passagem para esta peregrinação.
Quando o grupo chegou ao cume, foram celebradas orações e feitas
ofertas aos deuses.
No vale, multidões de populares esperavam pelo momento em que o
fumo do incenso surgiria nos céus vindo do pico da montanha. Sabiam
que o seu soberano estava lá em cima a rezar pelo bem-estar do seu
povo. Eu próprio tinha escalado o pico no dia anterior e agora
observava a cerimónia a uma distância discreta. Entre os outros
espectadores encontravam-se bandos de corvos, que podiam cheirar as
oferendas de tsampa e manteiga e aguardavam impacientes e ruidosos
pelo momento de mergulhar sobre os restos.
Para a maioria daqueles que acompanhavam o Dalai Lama, esta era a
primeira vez que subiam ao topo de uma montanha. Os membros mais
novos da comitiva pareciam apreciar imenso a experiência e
mostravam uns aos outros os diferentes detalhes do maravilhoso
panorama. Em contraste, os monges mais velhos e os funcionários, na
sua maioria homens corpulentos de meia-idade, ignoravam as belezas
da paisagem e sentavam-se exaustos enquanto os seus criados os
assistiam.No mesmo dia a comitiva cavalgou todo o percurso de
regresso ao mosteiro. Poucos dias depois o Dalai Lama visitou o
mosteiro de Será e participou num debate público semelhante ao
anterior. Os seus conselheiros tinham colocado algumas reservas em
relação à visita a Será por causa da recente rebelião dos monges. Mas a
entusiástica recepção que lhe foi oferecida no mosteiro constituiu uma
prova, se esta fosse necessária, de que ele estava muito acima de todas
as divisões e rixas partidárias.
Entretanto a minha vida prosseguia calmamente. Estava ao serviço
do governo traduzindo notícias e artigos de jornais e, de vez em
quando, construía pequenas represas e sistemas de irrigação. Visitava
Aufschnaiter regularmente nas suas obras do canal fora da cidade. No
decurso das suas escavações ele tinha feito as mais interessantes
descobertas. Os trabalhadores tinham desenterrado fragmentos de
louça, que Aufschnaiter guardava cuidadosamente e começara a juntar
peça a peça, tendo já uma colecção de vasos e jarras realmente belos,
com formas muito diferentes das actuais. Ele recompensava os
trabalhadores pelo que encontravam e deu-lhes ordens para cavarem
com todo o cuidado e para o chamarem imediatamente se
encontrassem algo de interesse. Todas as semanas havia descobertas.
Descobria-se sepulturas contendo esqueletos perfeitamente
conservados e taças com pedras semipreciosas. O meu companheiro
tinha encontrado uma nova ocupação para as suas horas de lazer. Tinha
imenso trabalho com as suas colecções, que remontavam a milhares de
anos. Orgulhava-se muito delas e com razão, pois tinha sido o primeiro
a encontrar provas de uma antiga civilização tibetana. Nenhum dos
Lamas que ele consultou soube elucidá-lo sobre estas descobertas, e
nos livros de história antiga não havia qualquer referência a uma época
em que os tibetanos tivessem tido o costume de enterrar os seus mortos
juntamente com oferendas.
Aufschnaiter queria colocar as suas descobertas à disposição de um
museu arqueológico na índia, e quando os comunistas chineses
invadiram o Tibete levámos as colecções cuidadosamente embaladas.
Pouco tempo depois tive uma inesperada oportunidade de sair de
Lassa e conhecer alguma coisa de uma nova parte do país. Alguns
amigos tinham-me convidado para avaliar as suas propriedades e fazer
sugestões para melhoramentos. Tinham conseguido que o governo me
desse uma licença e assim pude visitar as suas quintas. As condições
que encontrei eram completamente medievais. Os camponeses ainda
usavam arados de madeira com uma relha de ferro. Estas charruas
eram puxadas por dzos (o dzo é o resultado de um cruzamento entre o
boi e o iaque e é um óptimo animal de tracção. Assemelha-se muito ao
iaque e o leite das fêmeas, que tem um alto teor de gordura, é muito
apreciado).
Um dos problemas não resolvidos pelos tibetanos é a irrigação dos
campos. A Primavera é geralmente muito seca, mas ninguém se
lembra de transportar água dos rios e riachos cheios de neve.As
propriedades dos latifundiários são geralmente muito grandes. Por
vezes é necessário um dia inteiro a cavalo para as atravessar. Em cada
propriedade são utilizados muitos aldeões; dão-lhes campos para
cultivarem em proveito próprio, mas são obrigados a trabalhar um
certo tempo para o seu patrão. Os capatazes das quintas, que
geralmente são apenas criados de confiança do proprietário, exercem
sobre os camponeses a autoridade de pequenos reis. O seu próprio
patrão vive em Lassa, onde trabalha para o governo, e tem pouco
tempo para se preocupar com a propriedade. No entanto, os seus
serviços públicos são frequentemente recompensados com a oferta de
terrenos, e existem funcionários nobres que ao longo das suas carreiras
já receberam até vinte quintas enormes. A autoridade que cai em
desgraça está igualmente sujeita a ver as suas propriedades
confiscadas, que passam para as mãos do governo. Não obstante, há
muitas famílias que vivem há séculos nos seus castelos e cujos nomes
estão ligados às suas terras. Os seus antepassados frequentemente
construíam estas fortalezas nos promontórios rochosos que dominam
os vales. As que foram construídas em terrenos planos são cercadas
por fossos, que agora estão secos e vazios. As armas antigas
preservadas nos castelos atestam o espírito guerreiro dos seus antigos
senhores, que tinham de estar constantemente prontos para se
defenderem dos ataques dos mongóis.
A minha viagem durou semanas, e cavalgar através de regiões
desconhecidas do país era uma mudança bem—vinda depois do
quotidiano em Lassa. Mas não estava sempre a cavalo. Passei parte do
tempo dentro de um barco de pele de iaque, descendo a poderosa
corrente do Brah-maputra, parando para visitar mosteiros que me
chamavam a atenção e tirando fotografias.
Já era Inverno quando regressei a Lassa. O pequeno afluente do
Kyichu já estava congelado — e isso fez-nos pensar em algo de novo.
Com um pequeno grupo de amigos, incluindo o irmão do Dalai Lama,
fundámos um clube de patinagem. Não éramos as primeiras pessoas no
Tibete a aderir a este tipo de desporto. O pessoal da Legação Britânica
tinha praticado patinagem para enorme espanto dos nativos. Na
verdade, éramos os seus herdeiros pois adquirimos os seus patins, que
eles tinham deixado aos seus criados quando partiram. Os nossos
primeiros esforços foram muito cómicos e tínhamos sempre muitos
espectadores a rirem-se de nós e a imaginar quem seria o próximo a
cair de cabeça ou a afundar-se no gelo. Os pais observavam
horrorizados o entusiasmo dos seus filhos, determinados a aprender a
patinar a qualquer custo.As famílias nobres mais antiquadas e
antidesportivas não conseguiam conceber que alguém pudesse
deliberadamente querer atar lâminas às solas dos sapatos para deslizar
sobre o gelo.
14 O TIBETE PREPARA-SE PARA COMPLICAÇÕES
Fotógrafo da Encarnação do Buda — A hospitalidade tibetana —
Reorganização do exército e intensificação da obediência religiosa —
Imprimir prospectos e livros — Construo uma sala de cinema para o
Dalai Lama.
O Dalai Lama soube do nosso novo desporto através do seu irmão,
mas infelizmente o nosso ringue não era visível do telhado do Potala.
Ele gostaria imenso de nos ver patinar no gelo, mas como isso era
impossível mandou—me a sua máquina de filmar e instruções para
que filmasse o ringue e os patinadores. Como eu nunca tinha filmado,
estudei cuidadosamente as instruções antes de começar a trabalhar. Fiz
então as filmagens e mandei o rolo através do Ministério dos Negócios
Estrangeiros para ser revelado na índia. Em dois meses estava nas
mãos do Dalai Lama. Tinha ficado muito bom. Através deste filme tive
o meu primeiro contacto pessoal com o jovem soberano do Tibete. É
curioso que um produto do século xx tenha sido o ponto de partida de
um relacionamento que, apesar de todas as convenções, se tornou
numa sólida amizade.
Pouco depois, Lobsang Samten dísse-me que o irmão desejava que
eu filmasse várias cerimónias e cenas de festivais. Surpreendia-me o
seu enorme interesse por estas filmagens. Mandava-me sempre
instruções precisas, às vezes por escrito, outras verbalmente através de
Lobsang Samten. Aconselhava-me de modo a tirar o melhor partido da
luz em certas posições e às vezes mandava avisar-me de que esta ou
aquela cerimónia iria começar. Também pude enviar-lhe uma
mensagem para lhe dizer quando deveria manter o olhar fixo na
direcção da câmara durante uma procissão.Durante estas cerimónias eu
tentava não chamar as atenções. Ele também considerava isso
importante e dis-se-me para me manter sempre o mais afastado
possível, e que se não o conseguisse devia desistir da filmagem.
Obviamente eu não podia evitar ser visto, mas logo que se soube que
eu filmava e fotografava sob as ordens de Sua Santidade, ninguém me
interrompeu. Na verdade, os temíveis Dob-Dobs muitas vezes
afastavam a multidão para que o meu campo de visão ficasse
desimpedido: e quando eu lhes pedia que posassem para a câmara,
obedeciam como cordeiros. Desta forma consegui fazer vários registos
únicos de cerimónias religiosas. Para além da máquina de filmar eu
tinha sempre a minha Leica comigo e tirava muitas fotografias de
cenas invulgares.
Tirei algumas excelentes fotografias da Catedral. A Tsug Lag Khang,
como é chamada, foi construída no século VTI e contém a mais preciosa
estátua de Buda do Tibete. A origem deste templo data do reinado do
famoso Rei Srongtsen Gampo. As suas duas mulheres eram princesas e
ambas pertenciam à fé budista. Uma delas veio do Nepal e fundou o
segundo maior templo de Lassa, o Ramoche, ao passo que a outra era
chinesa e trouxe da China o ídolo de ouro. O Rei, que seguia a antiga
religião, foi convertido pelas suas mulheres ao budismo, que passou a
ser a religião oficial. Mandou então erguer a catedral como santuário
para o ídolo. O edifício tem os mesmos defeitos que o Po-tala. O
exterior é grande e imponente, mas o interior é escuro, cheio de cantos
e assustador. E recheado com tesouros, que aumentam diariamente
com novas oferendas. Todo o ministro em exercício deve comprar
novos trajes em seda bordada para as estátuas dos santos e um prato
em ouro maciço para manteiga. Quantidades enormes de manteiga são
queimadas incessantemente nas lamparinas, e no Verão ou no Inverno
o ar está impregnado com o cheiro do fumo rançoso. As únicas
criaturas que beneficiam com as ofertas são os ratos, que trepam aos
milhares pelas pesadas cortinas de seda e se banqueteiam com a
manteiga e a tsampa nas taças. E escuro no interior do templo: nem um
raio de luz penetra do exterior e apenas as lamparinas de manteiga nos
altares espalham o seu clarão tremeluzente. A entrada para o mais
Sagrado dos Sagrados está geralmente fechada por uma cortina de
ferro, que só é levantada a determinadas horas.Numa passagem estreita
e escura encontrei um sino pendurado no tecto. Mal podia acreditar
nos meus olhos quando vi no sino a inscrição «Te Deum Laudamus».
Era provavelmente a última relíquia que restara da capela que os
missionários católicos tinham construído em Lassa há muitos séculos
atrás. Não tinham conseguido manter-se no Tibete e foram obrigados a
partir. É possível que a preservação deste sino na Catedral se deva ao
profundo respeito que os tibetanos têm por todas as religiões. Eu
adoraria saber mais sobre a capela dos Jesuítas e dos Capuchinhos,
mas não restavam quaisquer vestígios do edifício.
Ao anoitecer, a Catedral enche-se de fiéis. A cortina é levantada e
uma longa fila aguarda diante do altar do Buda. Cada devoto toca a
estátua com a testa e faz uma pequena oferta. Nas suas mãos, juntas
em forma de concha, um monge verte água benta, tingida com açafrão.
Bebe parte desta água e salpica a restante sobre a cabeça. Muitos
monges passam a sua vida inteira na Catedral. O seu dever é vigiar os
tesouros e encher as lamparinas de manteiga.Uma vez foi feita uma
tentativa de instalar luz eléctrica na Catedral, mas devido a um curto-
circuito ocorreu um incêndio e toda a gente relacionada com a
instalação foi dispensada. E assim não se falou mais em luz
artificial.Diante da Catedral há um terraço de lajes polidas como
espelhos e moldadas pela prostração dos adoradores ao longo de um
milhar de anos. Quando se olha para estas reentrâncias na pedra e se
reconhece a expressão de profunda devoção no rosto dos fiéis,
percebe-se por que uma missão católica nunca poderia ter sucesso em
Lassa. Um Lama de Drebung que visitasse Roma para converter
católicos reconheceria a futilidade da sua missão quando visse os
degraus da santa escadaria gastos pelos joelhos de incontáveis
peregrinos, e partiria resignado do Vaticano. O Cristianismo e o
Budismo têm muito em comum. Ambos se fundamentam na crença da
felicidade plena noutro mundo e ambos pregam a humildade nesta
existência. Mas há uma diferença na forma como as coisas se passam
actualmente. No Tibete não se é perseguido de manhã à noite pelos
apelos da «civilização». Aqui há tempo para nos ocuparmos com a
religião e para conhecermos a nossa própria alma. A religião ocupa
aqui mais espaço na vida de um indivíduo, como antigamente no
Ocidente. Os mendigos instalam-se à porta da Catedral e sabem
perfeitamente que o Homem é caridoso e respeitador quando está na
presença de Deus. No Tibete, assim como na maioria dos outros
lugares, os mendigos são um incómodo público. Quando eu estava a
construir a represa, o governo decidiu pôr os mendigos a trabalhar.
Reuniu os mil pedintes de Lassa e seleccionou setecentos homens que
estavam aptos para trabalhar e colocou-os na obra, recebendo comida e
remuneração pelo seu trabalho. No dia seguinte só apareceu metade e
alguns dias depois tinham desaparecido todos. Não é a falta de
trabalho ou a necessidade extrema nem, na maioria dos casos, a
enfermidade física que transforma esta gente em mendigos. E a
preguiça. A mendicidade oferece uma vida boa no Tibete e ninguém
corre um pedinte da sua porta. E se um mendigo só consegue um
bocado de tsampa e um centavo de cada pessoa, o produto de duas
horas de «trabalho» é suficiente para o manter o dia todo. Então senta-
se ociosamente encostado à parede e dormita feliz à luz do sol. Muitos
destes indigentes sofrem de doenças terríveis e merecem compaixão,
mas exploram as suas deformidades ex-pondo-as à vista dos
transeuntes.
Uma das mais atraentes características da vida no Tibete é o hábito
de ir receber ou despedir-se dos amigos. Quando alguém parte, os
amigos geralmente montam uma tenda a vários quilómetros da cidade,
na estrada por onde esse amigo vai passar, e esperam por ele com uma
refeição pronta de forma a acelerar a sua viagem. O amigo que vai
partir não pode fazê-lo sem antes ter sido agraciado com écharpes
brancas e votos de boa viagem. Quando regressa a cerimónia repete-se.
Por vezes é recebido em vários lugares antes de chegar a casa. De
manhã avista em primeiro lugar o Potala, mas à entrada da cidade os
amigos encarregados das boas-vindas retêm-no numa tenda a seguir à
outra e já é de noite quando finalmente chega a Lassa; e a sua modesta
caravana, à qual se juntaram os amigos e os seus criados, já aumentou
para proporções dignas de uma comitiva estatal. Chega a casa com a
reconfortante sensação de que não foi esquecido.
Sempre que chegam estrangeiros, são recebidos por um representante
do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que lhes transmite os
cumprimentos do ministro e se encarrega do seu alojamento e de todo
o programa para a sua estadia. Os novos embaixadores são recebidos
com honras militares e um representante do Gabinete ofere-ce-lhes
écharpes brancas. Em Lassa existe uma área residencial destinada a
acomodar os convidados assim como os seus criados e animais, e os
primeiros encontram sempre prendas à sua espera. Será justo afirmar
que em nenhum outro país os viajantes são tratados com tanta atenção
e hospitalidade.Os aviões que durante a guerra voavam da índia para a
China perdiam frequentemente a sua rota, que é provavelmente a mais
difícil rota aérea do mundo, pois a travessia dos Himalaias exige o
máximo da habilidade e experiência dos pilotos e, quando perdem as
coordenadas, dificilmente conseguem orientar-se devido à inexactidão
dos mapas do Tibete.
Certa noite, o ronco de motores soou sobre a Cidade Sagrada e
causou o alarme geral. Dois dias depois chegou de Samye a notícia de
que cinco americanos tinham aterrado aí de pára-quedas. O governo
convidou-os para virem a Lassa no seu caminho de regresso à índia.
Os aviadores devem ter ficado atónitos ao serem recebidos em tendas,
ainda nos arredores da cidade, com uma calorosa recepção em que lhes
foi oferecido chá e écharpes. Em Lassa dis-seram-nos que se tinham
perdido completamente e que o seu avião tinha rasado as encostas de
neve do Nyenchen-thanglha. Depois disto fizeram meia-volta para
regressar, mas ao constatar que o combustível não era suficiente para
chegar à índia decidiram abandonar o avião e saltar. A excepção de um
ou outro tornozelo torcido e de um braço partido, conseguiram aterrar
em segurança. Após uma breve estadia em Lassa foram encaminhados
pelo governo até à fronteira indiana, montados a cavalo e com todo o
conforto que se pode ter num trilho do Tibete.
As tripulações de outros aviões americanos que se despenharam no
Tibete durante a guerra não tiveram tanta sorte. No Tibete Oriental
foram encontrados os destroços de dois aviões acidentados; nenhum
dos membros das tripulações sobreviveu. Um outro avião despenhou-
se a sul dos Himalaias numa província cujos habitantes são indivíduos
primitivos da selva. Este povo não é budista mas sim gente selvagem
que anda nua e é conhecida por usar setas envenenadas.
Ocasionalmente saem das suas florestas para trocar peles e almíscar
por sal e por cordas. Numa destas ocasiões ofereceram objectos que só
podiam ter vindo do avião americano. Nunca se soube mais nada sobre
este desastre. Gostaria de ter ido à procura do local do acidente, mas a
distância era muito grande.
A situação política no Tibete deteriorava-se gradualmente. Os
chineses já tinham declarado solenemente em Pequim que iam
«libertar» o Tibete. Em Lassa as pessoas não tinham quaisquer ilusões
quanto à gravidade desta ameaça pois na China os Vermelhos tinham
sempre concretizado as suas intenções.
O governo tibetano encetou freneticamente a reorganização do
exército sob a supervisão do Gabinete de Ministros. O Tibete tinha um
exército permanente, para o qual cada distrito contribuía com uma
quota proporcional ao seu número de habitantes. Esta concepção de
serviço militar obrigatório difere da nossa na medida em que o Estado
se interessa apenas por números e não com os indivíduos. Um homem
que seja recrutado pode comprar um substituto. Frequentemente estes
substitutos permanecem no exército toda a sua vida.Os instrutores
militares serviram na índia e conhecem o uso de armas modernas. Até
agora as ordens de comando eram dadas numa mistura de tibetano,
hindi e inglês. A primeira decisão do novo Ministro da Defesa foi a de
que todas as ordens deviam ser transmitidas em tibetano. Foi composto
um novo hino nacional para substituir o «God Save the Queen», que
até à data era tocado em paradas militares importantes. O texto
consistia numa glorificação da independência do Tibete e num tributo
ao seu ilustre soberano, o Dalai Lama.As planícies à volta de Lassa
foram transformadas em terrenos para exercícios militares. Foram
formados novos regimentos e a Assembleia Nacional decidiu requisitar
as classes mais ricas para fornecer e equipar mais mil homens. Ficava
a seu critério alistar-se pessoalmente ou arranjar substitutos. Foram
organizados cursos para treinar monges e funcionários civis como
oficiais do exército. Havia um enorme entusiasmo patriótico.
Antigamente, em tempos de paz, as pessoas nunca tinham dado
muita importância ao exército. As comunidades de cada distrito tinham
que suprir os seus contingentes com provisões e pagamento
suplementar. Agora as autoridades reconheciam a importância de uma
organização mais efectiva e estabeleceram taxas fixas de remuneração
para oficiais e soldados.
Não era fácil, à partida, satisfazer as necessidades do novo exército.
Todo o sistema de transportes estava sobrecarregado. Os cereais
necessários tinham que ser trazidos de depósitos distantes, de
armazéns espalhados por todas as regiões onde as colheitas são férteis;
são enormes construções em pedra, sem janelas e ventilados por
buracos nas paredes. Os cereais podem ficar aí armazenados durante
décadas sem se estragarem devido à secura do ar. Mas agora eram
rapidamente esvaziados, pois em caso de guerra as provisões teriam
que ser armazenadas nas proximidades da frente de combate. Não
obstante, o país não estava ameaçado pela falta de alimentos. Se fosse
construída uma muralha à volta do Tibete, ninguém iria sofrer frio ou
fome, pois todos os recursos necessários aos três milhões de habitantes
podiam, de uma forma ou de outra, ser encontrados no país. As
cantinas militares serviam refeições substanciais e o salário dos
soldados permitia-lhes comprar cigarros e chang. As tropas estavam
satisfeitas.
No exército tibetano é fácil reconhecer a diferença entre oficiais e
soldados rasos. Quanto mais alto for o posto mais ornamentos em ouro
são usados. Não parece haver regras específicas quanto ao uniforme.
Uma vez vi um general que para além das suas dragonas de ouro trazia
uma colecção de objectos reluzentes pendurados ao peito. Tinha
certamente passado muito tempo a observar revistas estrangeiras e
resolvera decorar-se a si próprio da mesma forma, pois não existem
medalhas militares no Tibete. Em vez de menções honrosas ou
distinções, o soldado tibetano recebe recompensas mais tangíveis.
Após uma vitória tem direito ao saque e a pilhagem é uma regra geral.
É no entanto obrigado a entregar todas as armas que captura. Um bom
exemplo da utilidade deste sistema pode ser encontrado nas batalhas
contra os bandidos. Os Põnpos locais têm o direito de recorrer ao
auxílio do governo quando já não conseguem controlar os ladrões.
Nessa altura são enviados pequenos destacamentos militares em sua
ajuda. Apesar da forma feroz como os bandidos lutam, o serviço nestes
destacamentos é muito cobiçado. Os soldados têm o saque em mira e
ignoram o perigo. O direito dos soldados aos despojos de guerra tem
sido a causa de muitos problemas. Num caso em que estive
pessoalmente envolvido, custou a vida a várias pessoas.Quando os
comunistas chineses invadiram o Turques-tão, o cônsul americano
Machiernan, juntamente com um jovem estudante americano chamado
Bessac e três russos fugiram para o Tibete, tendo primeiro contactado a
Embaixada Americana na índia para que esta solicitasse autorização e
meios de transporte ao governo tibetano. De Lassa foram enviados
mensageiros em todas as direcções para instruírem os postos e
patrulhas fronteiriças no sentido de não colocarem qualquer obstáculo
aos fugitivos. O pequeno grupo viajava em caravana através das
montanhas de Kuen Lun. Os camelos suportaram bem a viagem e
conseguiram carne fresca abatendo jumentos selvagens. Por azar, o
mensageiro do governo chegou atrasado ao local onde o grupo ia
atravessar a fronteira. Sem um aviso e sem perguntar quem se
aproximava, os soldados do posto fronteiriço, tentados pela visão de
uma dúzia de camelos bem carregados, dispararam sobre a caravana,
matando de imediato o cônsul americano e dois dos russos. O terceiro
russo foi ferido e só Bessac escapou ileso. Prenderam—nos e levaram-
nos à presença do governador do distrito mais próximo. Durante o
caminho os dois homens foram insultados e ameaçados pelos soldados,
que tinham primeiro dividido entre si os despojos, ficando radiantes
por encontrarem objectos valiosos como binóculos e máquinas
fotográficas. Antes de chegarem ao Pônpo local apareceu o
mensageiro do governo com a sua escolta, com ordens para que os
americanos e os seus acompanhantes fossem tratados como
convidados do governo. Isto provocou uma mudança de atitude e os
soldados desdobravam—se em atenções: mas o estrago não podia ser
reparado. O governador enviou um relatório para Lassa e as
autoridades, horrorizadas com as notícias, fizeram tudo o que podiam
para expressar o seu pesar pelo sucedido. Um enfermeiro treinado num
hospital indiano foi enviado com presentes ao encontro de Bessac e do
seu companheiro ferido. Foram ambos convidados a vir para Lassa e
pediram-lhes para testemunhar contra os soldados que já tinham sido
presos. Um oficial superior que falava um pouco de inglês foi ao
encontro dos viajantes. Eu acompa-nhei-o pensando que talvez
trouxesse algum conforto ao jovem americano ter um homem branco
com quem falar. Também esperava convencê-lo de que o governo não
podia ser responsabilizado pelo incidente, que lamentava
profundamente. Encontrámo-nos sob uma chuva torrencial. Era alto
como um poste e parecia um gigante montado no pequeno pónei
tibetano. Eu podia perfeitamente imaginar como se sentia. A pequena
caravana tinha passado meses na estrada, sempre em fuga de inimigos
e exposta a perigos, e o seu primeiro encontro com o povo do país no
qual procuravam asilo trouxe a morte a três dos seus membros.Novas
roupas e sapatos aguardavam-nos numa tenda junto à estrada e em
Lassa foram acomodados numa residência com um cozinheiro e um
criado para os assistir. Felizmente, o russo, Vassilieff, não fora
gravemente ferido e em breve podia passear pelo jardim com o auxílio
de muletas. Permaneceram um mês em Lassa e durante esse período
travei amizade com Bessac. Ele não tinha ressentimentos contra o país
que inicialmente o tinha recebido tão mal. Apenas pediu que os
soldados que o tinham maltratado fossem punidos. Solicitaram a sua
presença na execução da sentença, para que não restassem dúvidas das
verdadeiras intenções do governo. Quando viu os açoita-mentos pediu
que reduzissem o número de chicotadas. Tirou fotografias da cena, que
posteriormente apareceram na Life como um testemunho da atitude
correcta do governo tibetano. Foi feito tudo o que era possível para
prestar as últimas homenagens aos mortos segundo os costumes
ocidentais. E por isso ainda hoje três crucifixos em madeira se erguem
sobre as suas sepulturas no Changthang. Bessac foi recebido pelo
Dalai Lama e depois partiu para Sikkim, onde era aguardado por
compatriotas seus.
Os tempos conturbados trouxeram muitos fugitivos para o Tibete,
mas nenhum teve tão pouca sorte como este grupo. Uma outra
caravana de camelos que chegou através do Changthang pertencia a
um príncipe mongol, que trouxe consigo as suas duas esposas, uma
polaca e uma mongol. Admirei estas duas mulheres que tinham
realizado tamanha viagem, e o meu espanto foi ainda maior quando vi
as suas duas adoráveis crianças que tinham suportado as agruras da
estrada da mesma forma.
Durante estes tempos críticos o governo desejava não só mobilizar os
meios logísticos de defesa como também a força espiritual do povo.
Para este efeito, a religião, o mais poderoso elemento na vida do país,
tinha que ser invocada. Novos funcionários eram postos ao serviço
desta política. A estes funcionários eram entregues grandes quantias de
dinheiro e davam-lhes carta branca para organizarem a campanha.
Foram dadas ordens a todos os monges no Tibete para participarem
nas cerimónias públicas durante as quais o Kangyur, a Bíblia tibetana,
deveria ser lido em voz alta. Novas bandeiras e moinhos de oração
surgiram por toda a parte. Raros e poderosos amuletos foram retirados
de velhos armários. As oferendas duplicaram e em todas as montanhas
ardiam fogueiras de incenso, enquanto os ventos, ao fazerem girar os
moinhos de oração, transportavam súplicas para as divindades
protectoras em todos os cantos do céu. O povo acreditava com uma fé
firme como uma rocha que o poder da religião seria suficiente para
proteger a sua independência. Entretanto, a Rádio Pequim já transmitia
mensagens em tibetano prometendo para breve a libertação do Tibete.
O povo afluía mais do que nunca aos festivais religiosos que, no
começo de 1950, suplantaram em pompa e esplendor qualquer coisa
que eu jamais tenha visto. Parecia que toda a população do Tibete se
tinha reunido, num fervor religioso, nas estreitas ruas de Lassa. Mas eu
não conseguia afastar o pensamento de que a sua comovente fé nunca
poderia demover os deuses de ouro. Se não viesse ajuda do exterior,
em breve o Tibete seria brutalmente despertado do seu pacífico sono.
O Dalai Lama encarregara-me mais uma vez de fotografar os
festivais, por isso tive oportunidade de assistir a tudo de um local
privilegiado. Quatro semanas depois do «Grande Festival do Ano
Novo realiza-se um «Pequeno» Festival de Oração que dura apenas
dez dias, mas que supera talvez o Grande Festival em esplendor. Por
esta altura, a verdura da Primavera começa a aparecer e a cidade
apresenta um aspecto inesquecível. Este festival é o ponto alto do ano
para os habitantes de Shõ. Durante duas horas uma enorme faixa
pendurada no Potala flutua sobre o bairro Shõ. Esta faixa é
seguramente a maior do mundo. São necessários cinquenta monges
para a transportarem para o seu lugar e desdobrá-la. É feita de uma
excelente e espessa seda e adornada com imagens dos deuses em cores
vivas. Enquanto é exibida das amuradas do Potala, uma colorida
procissão desloca-se do Tsug Lag Khang para o Shõ, onde se dispersa.
A esta procissão segue-se um curioso ritual. Grupos de monges
executam danças primitivas, girando lentamente ao som do rufar dos
tambores. Usam máscaras e estão enfeitados com ornamentos exóticos
esculpidos em osso. O povo observa extasiado as estranhas figuras.
Por vezes, um rumor percorre a multidão. Alguém julga ter visto o
Dalai Lama em pé sobre o telhado do Potala observando a cerimónia
através do seu telescópio, cem metros acima de sua cabeça.
O bairro de Shõ, que se situa no sopé do Potala, abriga a imprensa
estatal, um edifício alto e escuro do qual nem um som chega ao mundo
exterior. Não se ouve o barulho de máquinas e apenas as vozes dos
monges ecoam através das paredes. Nas prateleiras estão empilhados
blocos de madeira que só são usados quando um novo livro é
impresso. A preparação de um livro novo envolve um trabalho
interminável. Os monges têm primeiro de cortar as pequenas placas em
madeira, pois não existem serrações aqui, e depois talhar os retorcidos
caracteres um a um nas tábuas de madeira de vidoeiro. Quando estão
prontas, as pranchas são cuidadosamente colocadas por ordem. Em vez
de tinta gráfica usam uma mistura de fuligem, que os monges obtêm
queimando esterco de iaque. A maioria deles fica preto dos pés à
cabeça durante o trabalho. Por fim, os moldes são impressos
separadamente em papel tibetano de fabrico manual. Os livros não têm
lombada e consistem em páginas soltas impressas dos dois lados e
revestidas de capas em madeira esculpida. E possível enco-mendar-se
um livro directamente à casa da imprensa ou comprá-lo aos livreiros
da rua Barkhor. Em casa são geralmente mantidos em invólucros de
seda e muito bem estimados. Como o seu tema é sempre religioso, são
tratados com todo o respeito e geralmente são colocados sobre o altar
doméstico. Em todas as casas da classe superior encontra-se uma
Bíblia completa, bem como duzentos volumes com comentários. A
reverência por estes livros é tal que ninguém pensaria em colocar um
volume sobre uma cadeira. Por outro lado dão muito pouco valor aos
livros que nos interessam. Uma vez encontrei um valioso livro sobre a
língua tibetana num local muito pouco apropriado. Faltavam-lhe as
primeiras páginas. Levei o livro comigo e copiei as páginas que
faltavam de outro exemplar, muito satisfeito com a minha descoberta.
O preço dos livros tibetanos depende da qualidade do papel usado. O
Kangyur, com os seus comentários, custa tanto como uma boa casa ou
uma dúzia de iaques.Existe uma outra gráfica muito grande em
Narthang, nos arredores de Shigatse, e quase todos os mosteiros
dispõem de máquinas para imprimir livros sobre santos locais e anais
das suas ordens religiosas.
Toda a cultura do Tibete é inspirada na religião, como antigamente
nos nossos países. As obras-primas da arquitectura e da escultura, da
poesia e da pintura glorificam a fé e aumentam o poder e a reputação
da Igreja. Não existe até agora qualquer conflito entre a religião e a
ciência e, consequentemente, o conteúdo da maioria dos livros é uma
amálgama de lei religiosa, de conhecimento filosófico e de sabedoria
obtida através da experiência.
Poemas e canções são essencialmente manuscritos, escritos em
folhas soltas e não são reunidos em colecções. Os poemas do sexto
Dalai Lama constituem uma excepção a esta regra e estão impressos
num só volume. Comprei um exemplar num bazar e leio-os com
frequência. Expressam perfeitamente o anseio do poeta por amor. Não
fui o único a apreciar os versos deste prisioneiro da solidão: muitos
tibetanos adoram os poemas do seu soberano falecido há muito tempo
devido ao seu carácter singular na linha dos Dalai Lamas. Amava as
mulheres e costumava disfarçar-se para se escapulir até a cidade para
as encontrar. O seu povo não tinha ressentimentos contra os seus
desejos de satisfazer a sua alma poética.Os manuscritos copiados por
monges habilidosos existem em grande quantidade e custam ainda
mais do que os livros. Os assuntos são geralmente despretensiosos e
frequentemente humorísticos. Um dos mais conhecidos é a colecção de
anedotas escritas pelo mais famoso escritor cómico do Tibete, Agu
Thõnpa, que comentava satirica-mente a vida política e religiosa do
seu tempo e ainda hoje é imensamente popular. Em todas as festas
alguém conta uma das suas histórias para entreter os convidados. O
gosto dos tibetanos por humor e situações cómicas fizeram com que
Agu Thõnpa fosse apreciado como um clássico, e quando eu vivi em
Lassa o principal comediante da cidade tinha o seu nome.
Todos os anos no Outono as casas particulares e templos em Lassa
(inclusive o Potala) são pintados e arranjados. E um trabalho perigoso
pintar as altas paredes perpendiculares do Potala e os mesmos
trabalhadores são contratados todos os anos. Estes homens penduram-
se em cordas de pêlo de iaque e entornam a tinta na parede com
pequenas vasilhas em barro. Pode-se observá-los em posições incríveis
montados em ornamentos ou numa cornija, dando-lhes um novo lustro.
Muitos lugares onde a chuva não chega adquirem uma espessa camada
de cal. É uma visão estonteante olhar para as paredes do Potala, de um
branco fulgurante, que se erguem sobre Lassa.Fiquei muito satisfeito
quando o Dalai Lama me deu instruções para fazer um filme que
mostrasse este trabalho em curso. Deu-me a oportunidade de registar
algo certamente único no mundo. De manhã cedo eu costumava subir a
alta escadaria de pedra, por entre uma multidão de mulheres que
traziam baldes com cal da vila de Shõ. São necessários cem coolies
durante catorze dias para aplicar às paredes o novo revestimento.
Assim tive tempo de sobra para as minhas filmagens e imensas
oportunidades para experimentar todos os ângulos possíveis de forma a
conseguir as melhores imagens. Foi particularmente interessante filmar
os trabalhadores a balouçarem entre o céu e a terra pendurados nas
cordas. Para poder realizar o meu trabalho foi-me permitido entrar em
qualquer dependência do palácio. Muitas delas eram escuras como
breu, com as suas janelas bloqueadas por pilhas de lenha acumuladas
ao longo dos séculos, através das quais tive que perfurar caminho até à
luz. Mas o esforço valeu a pena, pois encontrei antigas e esquecidas
estatuetas do Buda, perante as quais nenhuma lamparina ardia agora, e
várias thankas esplêndidas, escondidas sob espessas camadas de pó.
Os museus do mundo considerar-se-iam felizes por receber uma
fracção dos tesouros que aqui se desfaziam em pó. Nas caves do
Palácio, o meu guia mostrou-me ainda outra característica notável
desta incrível construção. Sob os pilares que suportam a sua estrutura
tinham-se aberto fendas ao longo dos séculos e o soberbo edifício tinha
sucumbido, mas os habilidosos pedreiros de Lassa tinham conseguido
restituí-lo ao seu nível normal — um feito notável para um povo sem
técnicas modernas. Consegui fazer um bom filme dos trabalhos de
pintura do Potala e en-viei-o para a índia para ser revelado.Lobsang
Samten surpreendeu-me um dia ao perguntar-me se eu estaria disposto
a construir uma sala para exibir os filmes. O seu irmão tinha
expressado esse desejo. A vida em Lassa tinha-me ensinado que não se
devia dizer «não mesmo quando nos pedissem para fazer coisas com as
quais não estávamos completamente familiarizados. Aufschnaiter e eu
éramos conhecidos como «homens dos sete instrumentos e já tínhamos
resolvido uma série de problemas complicados. Quando consegui
saber a voltagem necessária para alimentar o projector do Dalai Lama
e a que distância teria que ficar da tela, declarei-me pronto para
começar o trabalho. Fui então oficialmente indigitado para o executar
pelos abades-guardiões do Dalai Lama. A partir dessa altura os portões
do Jardim Interior em Norbulingka foram-me franqueados. Comecei o
projecto no Inverno de 1949-50, já depois do jovem Dalai Lama ter
regressado ao Potala. Após uma inspecção a todos os edifícios, escolhi
uma casa desabitada adjacente ao lado interior do muro do jardim, que
achei que poderia transformar numa sala de cinema. Os melhores
pedreiros de Lassa e os soldados da guarda pessoal foram postos à
minha disposição. Não me era permitido empregar mulheres, cuja
presença teria profanado o lugar sagrado. Usei molhos de pequenos
espigões em ferro para formar vigas para suportar o tecto, de forma a
dispensar os habituais pilares. A sala tinha dezoito metros de
comprimento e eu tinha que construir uma plataforma para o projector
que fosse acessível tanto pelo interior da sala como pelo exterior do
edifício. A alguma distância do cinema ergui uma pequena central
eléctrica para abrigar o motor e o gerador. Fiz isto a pedido expresso
do Dalai Lama, que não queria que o ruído do motor fosse audível
dentro do cinema pois estava preocupado em não contrariar o velho
Regente (a instalação de um cinema em Norbulingka já era
suficientemente revolucionária). Construí uma dependência especial
para os tubos de escape, cujo barulho foi eficientemente abafado.
Como o velho motor a petróleo não era totalmente fiável, propus que o
motor do jipe ficasse disponível para accionar o gerador em caso de
necessidade. O Dalai Lama aprovou a sugestão; e como a sua vontade
era lei, o jipe foi adaptado para este efeito. No começo tivemos alguma
dificuldade porque o portão do jardim era muito estreito para o jipe
passar. No entanto, o jovem soberano, a despeito da tradição, mandou
alargar o portão. Um novo portão substituiu o velho e todos os
vestígios da operação foram removidos o mais rapidamente possível,
para que não ficasse nada visível que pudesse atrair as críticas dos
espíritos reaccionários. O ponto forte deste rapaz era conseguir pôr as
suas ideias em prática sem perder a simpatia daqueles que o
rodeavam.E assim o jipe teve direito à sua pequena garagem e
frequentemente socorríamo-nos dele quando o velho motor entrava em
greve. O motorista do décimo terceiro Dalai Lama ajudou-me com as
ligações e em pouco tempo pusemos a máquina a trabalhar como um
relógio. Tive imenso trabalho para remover do jardim todos os
vestígios das nossas actividades de construção, e fiz novos canteiros e
caminhos no terreno que tinha sido calcado pelos trabalhadores. E,
claro, aproveitei esta oportunidade única para explorar completamente
o restrito jardim, sem ter a menor ideia de que no futuro iria visitá-lo
inúmeras vezes como convidado.
Quando chegou a Primavera o Norbulingka era uma visão adorável.
Os pessegueiros e as pereiras floresciam em todo o seu esplendor.
Pavões passeavam orgulhosamente pelo terreno e centenas de vasos
com plantas raras resplandeciam à luz do sol. Num canto do parque
havia um pequeno zoo, mas a maioria das jaulas estava vazia. Só
restavam alguns gatos selvagens e linces. Antigamente tinham existido
panteras e ursos, mas estes sucumbiram em pouco tempo no seu
exíguo cativeiro. O Dalai Lama recebia muitos animais selvagens
como oferta, especialmente animais feridos, que encontravam um
refúgio seguro no Jardim Precioso.
Para além dos templos havia muitas casas pequenas espalhadas sob
as árvores e cada uma era usada para um propósito específico — uma
para meditação, outra para ler e estudar, e outras serviam de ponto de