Sete Anos no Tibet
encontro para os monges. O maior edifício,…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Os delegados tinham agora a certeza de que tinham encontrado o que
procuravam. Telegrafaram num código secreto via China e índia uma
mensagem para Lassa, e imediatamente receberam instruções para
manterem segredo absoluto, de forma a evitar intrigas que poderiam
pôr em perigo o sucesso da missão. Os quatro enviados fizeram uma
solene jura de silêncio perante uma thanka na qual estava bordada uma
imagem de Chenrezi, e depois saíram para inspeccionar outros rapazes
numa manobra de diversão. É preciso lembrar que a busca estava a ser
conduzida em território chinês, e era essencial usar toda a precaução.
Teria sido fatal revelar o facto de que o verdadeiro Dalai Lama tinha
sido descoberto, pois os chineses poderiam então ter insistido em
mandar uma escolta de tropas com ele para Lassa. Em conformidade,
os delegados pediram ao governador da província, um tal Ma Pufang,
autorização para levar o rapaz para Lassa, onde o Dalai Lama seria
identificado entre vários candidatos. Ma Pufang exigiu 100 000
dólares chineses para ceder o rapaz e esta quantia foi paga
imediatamente. Isto foi um erro, pois os chineses percebiam agora a
importância que os tibetanos atribuíam à criança. Pediram então mais
300 000 dólares. Os delegados, conscientes do seu erro anterior,
pagaram apenas uma parte deste montante, que pediram emprestado a
mercadores maometanos locais, prometendo pagar—lhes a dívida
quando estes viessem a Lassa a acompanhar a caravana. O governador
concordou com este acordo.No fim do Verão de 1939 os quatro
delegados partiram para Lassa, acompanhados pelos seus criados, os
mercadores, a Criança Sagrada e a sua família. Viajaram durante
meses até alcançarem a fronteira tibetana, onde eram esperados por um
ministro do Gabinete e a sua comitiva. O ministro entregou ao rapaz
uma carta contendo a confirmação oficial do seu reconhecimento. Só
então lhe foi prestada homenagem como Dalai Lama pela primeira
vez. Mesmo os seus pais, que seguramente deduziram que o seu filho
devia ser uma alta Encarnação, só agora ficavam a saber que ele era
nada mais nada menos do que o futuro rei do Tibete.
Deste dia em diante o pequeno Dalai Lama passou a distribuir
bênçãos tão naturalmente como se nunca tivesse feito outra coisa na
vida. Ele ainda tem uma clara lembrança de ter sido trazido para Lassa
no seu palanquim dourado. Nunca tinha visto tanta gente. A cidade
inteira estava presente para saudar a nova Encarnação de Chen-rezi,
que ao fim de tantos anos finalmente regressava ao Potala e para o seu
povo órfão. Tinham-se passado seis anos desde a morte do «Corpo
Anterior» e tinham decorrido praticamente dois antes de o Deus
retomar a forma humana. Em Fevereiro de 1940, a coroação do Dalai
Lama foi celebrada durante o Grande Festival do Ano Novo, quando
ele recebeu novos cognomes: «O Sagrado», O Meigo e Glorioso, «O
que Profere Palavras Poderosas», «A Compreensão Excelente», « A
Sabedoria Absoluta», «O Defensor da Fé», «O Oceano».Toda a gente
estava estupefacta com a inacreditável dignidade da criança e com a
gravidade com que acompanhava as cerimónias que duravam horas.
Ele era tão carinhoso e confiante com os criados do seu antecessor
responsáveis por ele como se os tivesse conhecido sempre.Eu estava
muito contente por ter ouvido este relato mais ou menos em primeira
mão. Com o passar do tempo muitas lendas tinham-se formado em
volta destes extraordinários eventos e eu já tinha ouvido várias versões
deturpadas.
Com a chegada do Outono, as horas que passávamos juntos foram
sendo cada vez mais frequentemente interrompidas. Até no nosso
tranquilo canto no Jardim das Jóias se sentiam as brisas da tempestade
que se aproximava. A medida que a crise se intensificava, a iniciação
do jovem rei nos assuntos de Estado acelerava o passo. A Assembleia
Nacional transferiu-se para Norbulingka de forma a poder comunicar,
sem atrasos, acontecimentos importantes a Sua Santidade. O jovem rei,
a despeito da sua inexperiência, surpreendeu toda a esfera
governamental com a sua perspicácia e inteligência ao opor-se a
políticas inadequadas. Não havia dúvida de que os destinos da nação
lhe seriam confiados em breve.
A situação agravava-se cada vez mais. Do Leste do Tibete chegavam
notícias de que a infantaria e cavalaria chinesas se concentravam na
nossa fronteira. Foram enviadas tropas para leste, embora fosse
claramente reconhecido que eram demasiado fracas para deter o
inimigo. As tentativas do governo para chegar a um acordo por via
diplomática foram em vão. As delegações que tinham sido enviadas
com fins propagandísticos ficaram retidas na índia. O Tibete não podia
contar com qualquer auxílio exterior. O exemplo da Coreia
demonstrava de forma suficientemente clara que mesmo o apoio dos
Estados Unidos era de eficácia relativa contra o Exército Vermelho. O
povo começava a resignar-se com a perspectiva de uma derrota.
A 7 de Outubro de 1950 o inimigo atacou simultaneamente seis
pontos da fronteira tibetana. Teve lugar o primeiro combate, mas
durante dez dias Lassa não recebeu quaisquer notícias da frente.
Enquanto os primeiros tibe-tanos morriam pela sua pátria, em Lassa
realizavam-se festivais e as pessoas esperavam por um milagre. Após
as notícias das primeiras derrotas, o governo convocou todos os
oráculos mais famosos do Tibete. Assistia-se a cenas dramáticas em
Norbulingka. Os abades de cabelos brancos e os ministros veteranos
suplicavam aos oráculos que os ajudassem nestas horas de aflição. Na
presença do Da-lai Lama, os mais velhos prostravam-se aos pés dos
mon-ges-profetas e imploravam-lhes conselhos sábios. No auge do seu
transe, o Oráculo do Estado cambaleou para trás e caiu perante o Dalai
Lama, gritando «Façam-no rei!». Os outros oráculos disseram
precisamente a mesma coisa, e como se acreditava que as vozes dos
deuses deviam ser obedecidas, começaram imediatamente os
preparativos para a ascensão do Dalai Lama ao trono.
Entretanto, as tropas chinesas tinham penetrado centenas de
quilómetros no Tibete. Alguns comandantes tibe-tanos já tinham
deposto as armas e outros tinham desistido de resistir, pois sabiam que
não tinham qualquer hipótese de sucesso na luta contra uma força que
era avassaladora. O governador da principal cidade no Tibete Leste
tinha enviado um telegrama para Lassa a pedir permissão para se
render pois era inútil resistir. A Assembleia Nacional rejeitou o seu
pedido e assim, após ter explodido as suas armas e arsenais, ele fugiu
em direcção a Lassa com Ford, o operador de rádio inglês. Dois dias
depois encontrou o seu caminho bloqueado por tropas chinesas e
ambos foram capturados (já me referi ao destino de Ro-bert Ford).
Agora, a Assembleia Nacional enviava um apelo urgente à ONU
pedindo ajuda contra os seus agressores, argumentando que o seu país
tinha sido invadido em tempo de paz sob o pretexto de que o Exército
Vermelho não podia tolerar a influência de poderes imperialistas no
Tibete. O mundo todo sabia, conforme sublinharam, que o Tibete era
completamente alheio a qualquer influência estrangeira. Não havia
aqui nenhuma influência imperialista nem nada para libertar. Se
alguma nação merecia a ajuda da ONU, essa nação era o Tibete. Este
apelo foi rejeitado e a ONU expressou o desejo de que a China e o
Tibete chegassem a um acordo pacífico.
Ficava assim claro para todos que não haveria ajuda exterior e que o
Tibete devia render-se. Toda a gente começou a fazer as malas.
Aufschnaiter e eu sabíamos que tinha chegado a nossa hora e que
tínhamos perdido o nosso segundo lar. A ideia de partir era amarga,
mas sabíamos que tínhamos de ir. O Tibete tinha-nos tratado
hospitaleiramente e tinha-nos dado tarefas para executar às quais nos
dedicámos de corpo e alma. O tempo durante o qual tive o privilégio
de dar aulas ao Dalai Lama tinha sido o melhor da minha vida. Nunca
tivemos nada a ver com as actividades militares do Tibete, conforme
muitos jornais europeus noticiaram.O Dalai Lama começou a ficar
preocupado com as nossas perspectivas pessoais. Tive uma longa
conversa com ele e ficou acordado que eu deveria entrar agora de
férias conforme planeara há muito tempo. Isto iria dar-me uma maior
liberdade de movimentos e permitir-me partir sem comentários. O
Dalai Lama iria regressar ao Potala dentro de dias, e por isso não teria
tempo para as minhas lições. O meu plano era viajar para sul e visitar a
cidade de Shigatse, após o que deveria prosseguir para a índia.
A cerimónia durante a qual o Dalai Lama seria proclamado maior de
idade estava iminente. O governo gostaria de a ter apressado, mas a
data propícia tinha que ser determinada pelos presságios. Ao mesmo
tempo era da máxima importância decidir o que fazer com o jovem rei.
Deveria permanecer em Lassa ou exilar-se? Quando se decidia sobre
questões difíceis, era habitual seguir o exemplo da conduta de prévias
Encarnações. Parecia portanto relevante lembrar que, há quarenta anos
atrás, o décimo terceiro Dalai Lama tinha fugido à invasão chinesa e
que daí para a frente as coisas tinham-lhe corrido bem. Mas o governo
não podia tomar sozinho uma decisão tão crítica. Os deuses deveriam
ter a palavra final. Assim, na presença do Dalai Lama e do Regente
foram feitas duas bolas de tsampa amassada, e foram colocadas numa
bacia dourada depois de terem sido pesadas numa balança de ouro para
certificar que ambas tinham o mesmo peso. Cada uma destas bolas
continha uma tira de papel no interior: num deles estava escrita a
palavra «sim» e no outro a palavra «não». Entretanto o Oráculo do
Estado executava, hipnotizado, a sua dança. A bacia foi colocada nas
suas mãos e ele começou a rodá-la progressivamente mais rápido até
que uma das bolas saltou e caiu no chão. Quando foi aberta, encon-
trou-se o papel com o «sim» e por isso ficou decidido que o Dalai
Lama deveria sair de Lassa.
Eu tinha adiado a minha viagem por algum tempo, pois queria saber
primeiro quais seriam os planos do Dalai Lama. Detestava a ideia de o
deixar nestes tempos difíceis, mas ele insistia na minha partida e
consolava-me dizendo que iríamos reencontrar-nos no sul. Os
preparativos para a sua própria retirada estavam a ser ultimados, mas
foi mantido segredo absoluto para não alarmar a população. Os
chineses ainda estavam a algumas centenas de quilómetros a leste de
Lassa e por ora estavam parados, mas te-mia-se que um avanço
inesperado pudesse obstar à fuga do Dalai Lama para sul.
Os rumores de que o soberano se preparava para partir eram
inevitáveis. O facto de que o seu tesouro particular estava a ser
transferido não podia ser ocultado. Todos os dias eram vistas caravanas
de mulas carregadíssimas que deixavam a cidade sob a supervisão dos
homens do corpo da guarda. Consequentemente, os nobres não
hesitaram mais e começaram a mudar as suas famílias e fortunas para
lugares mais seguros.
A vida em Lassa seguia aparentemente o seu curso normal. Apenas a
escassez de meios de transporte indicava que muita gente estava a
guardar os seus animais de carga para o seu próprio uso. Os preços
subiram ligeiramente. Chegavam relatos de feitos heróicos individuais
de soldados tibetanos, mas era do conhecimento geral que o exército
estava destroçado. Em pouco tempo as poucas unidades que ainda
mantinham os seus postos foram obrigadas a ceder perante a
superioridade táctica do inimigo.Em 1910, os invasores chineses
tinham entrado em Lassa e pilharam e incendiaram, e agora os
habitantes estavam paralisados pelo medo de que estes atentados se
repetissem. Não obstante, é justo afirmar que durante a presente guerra
as tropas chinesas tinham-se mostrado disciplinadas e tolerantes, e os
tibetanos que tinham sido capturados e depois libertados diziam que
tinham sido bem tratados.
17 DEIXO O TIBETE
Adeus a Lassa — O Lama fantoche e o Dalai Lama — A fuga do Rei
Divino — As condições da rendição — Os meus últimos dias no
Tibete — Nuvens escuras sobre o Potala.
Saí de Lassa em meados de Novembro de 1950. Vinha hesitando em
o fazer quando uma oportunidade de assegurar transporte me forçou a
tomar uma decisão. Aufs-chnaiter, que inicialmente tinha a intenção de
me acompanhar, hesitou no último momento; por isso levei a sua
bagagem comigo e ele seguiria viagem alguns dias depois. Foi com o
coração amargurado que deixei a casa que fora o meu lar por tanto
tempo, o meu querido jardim e os meus empregados que se juntaram à
minha volta a chorar. Levei comigo apenas os meus livros e valores e
deixei tudo o mais para os meus criados. Constantemente chegavam
amigos com presentes, o que tornou a despedida ainda mais difícil. Era
uma pobre consolação pensar que iria revê-los no sul do Tibete.
Muitos deles ainda acreditavam firmemente que os chineses nunca
viriam para Lassa e que quando as minhas férias terminassem eu
poderia regressar em paz. Eu não partilhava as suas esperanças. Sabia
que não voltaria a Lassa tão cedo, e por isso despedi-me de todos os
locais que eu tinha aprendido a amar. Um dia saí com a minha
máquina fotográfica e tirei tantas fotos quanto pude, ciente de que
futuramente elas me fariam reviver muitos momentos felizes e que
talvez conquistassem a simpatia de outros para com esta bela e
estranha terra.
O céu estava carregado quando embarquei no meu pequeno barco de
pele de iaque que iria levar-me pelo Kyi-chu abaixo até à sua
confluência com o Brahmaputra. A viagem fluvial de seis horas
poupava-me a uma jornada de dois dias a cavalo. A minha bagagem
tinha seguido à minha frente por estrada. Os meus amigos e os meus
criados ficaram na margem e acenavam tristemente para mini. Ao
mesmo tempo que eu lhes tirava uma fotografia, a corrente afastava o
barco e em breve perdi-os de vista. A medida que navegava rio abaixo,
não conseguia tirar os olhos do Potala; eu sabia que o D alai Lama
estava no telhado olhando para mim através do seu telescópio.No
mesmo dia alcancei a minha caravana de catorze animais de carga e
dois cavalos para mim e para o meu criado. O fiel Nyima tinha
insistido em me acompanhar. Estava mais uma vez na estrada, subindo
colinas e descendo vales, através de montanhas e cordilheiras, até que
ao fim de uma semana chegámos a Gyantse na grande rota das
caravanas para a índia.
Há pouco tempo atrás um dos meus melhores amigos tinha sido
nomeado governador da região. Recebeu-me como convidado em sua
casa e aqui celebrámos a ascensão ao trono do Dalai Lama, que
ocasionou um dia de festa em todo o Tibete. As notícias deste evento
tinham sido levadas por mensageiros a todo o país. Novas bandeiras de
oração flutuavam sobre todos os telhados e por um pequeno período de
tempo as pessoas esqueceram as suas preocupações com o futuro
obscuro, e dançaram e cantaram e beberam num acesso de alegria do
passado. Nunca um novo Dalai Lama tinha inspirado tanta confiança e
esperança. O jovem rei estava muito acima de todas as questiúnculas e
intrigas e já tinha dado muitas provas de sensatez e determinação. O
seu instinto nato iria guiá-lo na escolha dos seus conselheiros e
protegê-lo da influência de homens perversos.
Ah! Era muito tarde, eu sabia. Ele tinha chegado ao trono no preciso
momento em que o destino se voltava contra ele. Se ele fosse alguns
anos mais velho, a sua liderança poderia ter alterado a história do seu
país.Durante este mês visitei Shigatse, a segunda maior cidade do
Tibete, famosa pelo grande mosteiro de Trashi-lhúnpo. Encontrei aí
vários amigos ansiosos por notícias da capital. Neste lugar as pessoas
não pensavam tanto em exílio pois o mosteiro era a sede do Panchen
Lama.Esta alta Encarnação era apoiada pelos chineses há gerações
como rival do Dalai Lama. O actual incumbente era dois anos mais
novo que o Dalai Lama. Tinha sido educado na China e fora
proclamado em Pequim como legítimo soberano do Tibete. Na
realidade, não tinha o mínimo direito à sua posição. Tinha direitos
legais sobre o mosteiro e as suas terras, mas nada mais. E verdade que
na hierarquia dos Budas Vivos Õ-pa-me estava acima de Chenrezi,
mas na verdade a primeira Encarnação tinha apenas sido professor do
quinto Dalai Lama que, por gratidão, o declarara como Encarnação e
lhe dera o mosteiro com todos os seus enormes benefícios.
Por altura da selecção do último Panchen Lama tinha havido uma série
de candidatos. Uma das crianças foi descoberta na China e nessa
ocasião as autoridades chinesas tinham recusado deixar a criança viajar
para Lassa sem uma escolta militar. O governo tibetano não tinha
conseguido recusar esta proposta, e um dia os chineses simplesmente
declararam a criança como verdadeira Encarnação de Õ-pa-me e único
Panchen Lama legítimo.
Desta forma, eles tinham dado a si próprios uma importante carta do
baralho no seu jogo político com o Tibete e pretendiam fazer o melhor
uso possível do seu trunfo. O facto de serem comunistas não impedia
os chineses de fazerem violenta propaganda radiofónica a favor das
qualidades religiosas e temporais da sua Encarnação; não obstante,
tinha poucos adeptos no Tibete, que eram principalmente os habitantes
de Shigatse e os monges do seu mosteiro, que viam nele o seu líder e
queriam ser independentes de Lassa. Esta gente aguardava o «Exército
da Libertação sem receio. Comentava-se inclusive que o Panchen
Lama iria abraçar a causa chinesa. Não há dúvida de que o povo do
Tibete ficaria feliz por receber a sua bênção pois, sendo uma
Encarnação de Buda, era-lhe devido o maior respeito. Mas mesmo que
ele lhes fosse imposto pelos chineses, os tibetanos nunca iriam
reconhecê-lo como seu rei.Este título é incontestavelmente reservado
ao Dalai Lama como Encarnação do deus patrono do Tibete. Por isso,
quando chegou o momento de jogarem o seu trunfo, os chineses
falharam na sua tentativa de impor o Panchen Lama como soberano do
povo tibetano. A sua autoridade está limitada, como habitualmente, ao
mosteiro de Tras-hilhunpo.
Durante a minha viagem a Shigatse tive ocasião de visitar o
mosteiro, que era mais propriamente uma grande cidade habitada por
milhares de monges. Consegui tirar algumas fotografias sem qualquer
restrição. Entre outras curiosidades encontrei num templo uma
impressionante estátua dourada tão alta como um prédio de nove
andares e com uma cabeça gigante.
A cidade de Shigatse situa-se na margem do Brahma-putra, a uma
pequena distância do mosteiro. Assemelha—se ligeiramente a Lassa
pelo facto de estar também dominada por uma fortaleza. Tem uma
população de 10 000 habitantes, entre os quais se encontram os
melhores artesãos do Tibete. A lã constitui a base da indústria
tradicional, trazida das planícies vizinhas do Changthang por
caravanas. Shigatse está a uma altitude superior à de Lassa e o seu
clima é bastante mais frio. No entanto, é daqui que saem os melhores
cereais do país e é aqui que o Dalai Lama e os nobres de Lassa se
abastecem de farinha.Ao fim de alguns dias voltei a Gyantse, onde o
meu amigo, o governador, estava à minha espera para me dar a boa
notícia de que o Dalai Lama passaria por Gyantse dentro em breve.
Tinha chegado uma ordem instruindo todas as estações de caravanas
para estarem prontas para receberem convidados e para que as estradas
fossem arranjadas — isto só podia ter um significado. Coloquei-me à
disposição do governador para ajudar nos preparativos.Grandes
quantidades de ervilhas e cevada foram armazenadas nas estações
como ração para os animais e um exército de trabalhadores foi
agrupado para limpar e melhorar as estradas. Fui com o governador
numa das suas rondas de inspecção à província. Quando regressámos a
Gyantse ficámos a saber que o Dalai Lama tinha partido de Lassa a 19
de Dezembro e vinha agora a caminho daqui.
Encontrámos a sua mãe, irmãos e irmãs quando passavam por Gyantse
— todos excepto Lobsang, que viajava com o rei. Também encontrei
Tagtsel Rinpoche pela primeira vez ao fim de três anos. Tinha sido
forçado pelos chineses a viajar com uma escolta de tropas chinesas e a
levar uma mensagem ao seu irmão. Os chineses não tinham ganho
nada com isto e Tagtsel não tinha tentado influenciar o Dalai Lama.
Tagtsel estava muito contente por se ter livrado dos chineses. A sua
escolta tinha sido aprisionada e confiscaram-lhe o rádio transmissor.
A caravana da Família Sagrada era muito modesta. A mãe já era
idosa e tinha direito a ser transportada num palanquim, mas viajava
com os outros e todos os dias percorria grandes distâncias. Antes do
governador e eu irmos ao encontro do Dalai Lama, a Grande Mãe e as
suas crianças e criados prosseguiram viagem em direcção a sul.O meu
amigo e eu cavalgámos cerca de três dias ao longo da estrada de Lassa
e na Cordilheira de Karo encontrámos os batedores da caravana de Sua
Santidade. Do alto da cordilheira podíamos avistar a longa coluna que
subia pela estrada, envolta numa nuvem de poeira. O Dalai Lama era
escoltado por quarenta nobres e por uma guarda formada por cerca de
duzentos soldados cuidadosamente seleccionados e armados com
metralhadoras e morteiros. Seguia-se um exército de criados e
cozinheiros, e um interminável comboio de 1500 animais de carga na
retaguarda.
No meio da coluna flutuavam duas bandeiras: a bandeira nacional do
Tibete e uma bandeira pessoal do décimo quarto Dalai Lama. As
bandeiras assinalavam a presença do soberano. Quando vi o jovem
Deus-Rei subindo lentamente a cordilheira no seu cavalo cinzento,
involuntariamente pensei numa antiga profecia que as pessoas em
Lassa às vezes citavam. Um oráculo tinha há muito tempo declarado
que o décimo terceiro Dalai Lama seria o último da sua linhagem.
Parecia que a profecia estava a cumprir-se. Desde a sua ascensão
tinham decorrido quatro semanas, mas o jovem rei não tinha tomado as
rédeas do poder. O inimigo estava na sua terra, e a fuga do soberano
era apenas o primeiro dos infortúnios ainda maiores que se seguiriam.
Quando passou por mim, tirei o chapéu e ele retribuiu com um
amigável aceno de mão. No cume da cordilheira ardiam fogueiras de
incenso para saudar o jovem Deus, mas desagradáveis e ruidosas
rajadas de vento agitavam as bandeiras de oração. A caravana
prosseguiu sem atrasos para o próximo ponto de paragem, onde tudo
estava preparado e uma refeição quente aguardava os viajantes. O
Dalai Lama passou a noite num mosteiro nas proximidades, e antes de
adormecer pensei nele sentado num quarto hostil com ídolos
poeirentos por companhia. Ele não encontraria um fogão para se
aquecer e as cortinas de papel nas janelas seriam a sua única protecção
contra o vento e o frio, enquanto umas poucas lamparinas de manteiga
seriam iluminação suficiente apenas para poder ver.O jovem soberano,
que na sua curta vida não tinha conhecido outro lar senão o Potala e o
Jardim Precioso, era agora forçado pelo infortúnio a aprender algo
sobre o país que governava. E como necessitava desesperadamente de
conforto e apoio moral! Mas, pobre rapaz, ia ter que se erguer acima
de todos os seus problemas e usar toda a sua força para abençoar todos
aqueles que lhe vinham pedir confiança e conforto espiritual.
O seu irmão Lobsang, gravemente doente com um ataque de coração,
viajava com a comitiva numa liteira. Fiquei horrorizado ao saber que
os médicos lhe tinham providenciado os mesmos métodos brutais que
usavam num cavalo doente. No dia em que a caravana deveria
prosseguir viagem ele entrou num coma de várias horas e por isso o
médico do Dalai Lama teve que o reanimar apli-cando-lhe um ferro em
brasa no corpo. Mais tarde ele contou-me os detalhes desta viagem
inesquecível.
A fuga do Dalai Lama tinha sido mantida em segredo absoluto. As
autoridades não queriam perturbar o povo e temiam que os monges dos
grandes mosteiros fizessem tudo o que estivesse ao seu alcance para o
demover da sua decisão. Assim, os altos funcionários que tinham sido
escolhidos para o acompanhar só foram informados ao princípio da
noite de que a caravana iria partir às duas horas da manhã seguinte.
Pela última vez, todos eles beberam chá no Potala e encheram
novamente as chávenas, que foram deixadas assim como sortilégio
para propiciar um regresso em breve. Nenhum dos quartos que o rei
habitara deveria ser varrido no dia seguinte, pois isso traria má sorte.
A coluna de fugitivos seguiu silenciosamente pela noite, dirigindo-se
primeiro para o Norbulingka, onde o jovem rei parou para rezar. A
caravana ainda não tinha completado um dia de viagem e já a notícia
da fuga se espalhara por toda a parte. Os monges do Mosteiro de Jang
acorreram aos milhares para irem ao encontro do Dalai Lama.
Atiravam-se diante dos cascos do seu cavalo e imploravam-lhe que
não os deixasse, gritando que se ele partisse ficariam sem um líder, à
mercê dos chineses. As autoridades receavam que os monges
tentassem impedir o Dalai Lama de prosseguir, mas neste momento
crítico ele mostrou a força da sua personalidade e explicou aos monges
que poderia fazer mais pelo seu país se não caísse nas mãos do
inimigo, e que regressaria assim que conseguisse chegar a um acordo
aceitável com eles. Após demonstrações de afecto e lealdade, os
monges abriram caminho para a caravana passar.
A notícia da aproximação do Dalai Lama chegou rapidamente a
Gyantse. Pequenas pedras brancas foram colocadas ao longo da berma
das ruas para afastar os maus espíritos. Monges e freiras acorreram dos
conventos e a população inteira esperou em pé durante horas para
receber o seu rei. Tropas indianas estacionadas perto dali vieram ao
encontro da caravana para prestar homenagem ao Dalai Lama. Ao
chegar às localidades principais a caravana tomava a forma de uma
procissão. O Dalai Lama desmontava e sentava-se no seu palanquim.
Nós tínhamos adoptado o sistema de iniciar a marcha regularmente
depois da meia-noite para evitar as tempestades de areia que ocorriam
durante todo o dia no planalto desprotegido. As noites eram
terrivelmente frias. O Dalai Lama embrulhava-se confortavelmente no
seu manto de seda forrado a pele e usava um grande gorro em pele de
raposa que lhe tapava as orelhas. Antes do nascer-do-sol a temperatura
chegava aos zero graus e embora não houvesse vento, andar a cavalo
era um castigo.Frequentemente, o Dalai Lama saltava do seu cavalo
antes que os abades o pudessem ajudar, caminhando em passos largos
e adiantando-se aos outros. Todos os outros cavaleiros tinham também
que desmontar e muitos nobres corpulentos que nunca tinham andado
a pé nas suas vidas ficavam vários quilómetros para trás. Durante dois
dias cavalgámos através de um vendaval, tiritando com o vento gelado,
e sentimos um grande alívio quando deixámos para trás as cordilheiras
do Himalaia e descemos para uma região mais quente e bem
arborizada.
Dezasseis dias depois de deixar a capital a caravana chegou ao seu
destino provisório, o quartel-general do governador distrital de
Chumbi. A chegada, o Dalai Lama foi transportado na sua cadeirinha
amarela pelo meio de uma densa multidão para a modesta casa do
governador, que imediatamente foi intitulada «Palácio Celestial, a Luz
e a Paz do Universo. Nenhum mortal jamais poderia voltar a habitá-la,
pois todos os lugares nos quais o Dalai Lama pernoitava eram
automaticamente consagrados como capelas. Doravante, os fiéis
levariam para aí as suas oferendas e rezariam para pedir a bênção do
seu Deus.
As altas autoridades ficavam hospedadas nas casas dos aldeões das
aldeias vizinhas e tinham que se acostumar a privarem-se dos seus
confortos habituais. A maioria dos soldados foi enviada de regresso ao
interior pois não havia acomodação para eles em Chumbi. Todas as
entradas para o vale estavam guardadas por postos militares, e apenas
as pessoas portadoras de um passe especial podiam entrar e sair. Havia
pelo menos um representante de cada departamento governamental nos
aposentos do Dalai Lama, e assim foi instaurado um governo
provisório que mantinha um expediente normal de trabalho e se reunia
regularmente. Foi estabelecido um serviço de mensageiros entre Lassa
e o governo provisório. O Dalai Lama tinha trazido o seu Grande Selo,
com o qual validava as decisões das autoridades em Lassa. Os
mensageiros cobriam a distância entre Lassa e Chumbi a uma
velocidade incrível, tendo um deles efectuado a viagem de ida e volta
(cerca de 800 quilómetros de região montanhosa) em nove dias. Estes
correios, que eram o único elo de ligação entre Lassa e o mundo
exterior, traziam as últimas notícias do avanço chinês. Mais tarde
chegou Fox com os seus instrumentos e estabeleceu um posto de rádio.
As mulheres e os filhos dos funcionários que os tinham acompanhado
viajaram directamente para a índia. Não havia acomodação para eles
em Chumbi. Muitos aproveitaram a oportunidade para irem em
peregrinação aos lugares sagrados do budismo na índia e no Nepal.
Até mesmo a família do Dalai Lama, à excepção de Lobsang Samten,
tinha ido para sul e vivia agora em bungalows na estação de montanha
de Kalimpong. Muitos dos refugiados que chegaram à índia viram pela
primeira vez cami-nhos-de-ferro, aviões e automóveis, mas após a
excitação inicial ao observar estas maravilhas ansiavam por regressar à
sua própria terra que, apesar de atrasada em relação aos progressos da
civilização, representava para eles o chão firme da existência.
Durante estes dias vivi em Chumbi como convidado de um amigo. O
meu trabalho estava a chegar ao fim e muitas vezes sentia-me
entediado, mas não conseguia de-cidir-me a deixar os meus amigos.
Sentia-me como um espectador numa peça de teatro, antevendo o
desfecho trágico, e estava entristecido pelo fim inevitável, mas tinha
de permanecer até ao último acto. Para aliviar a minha ansiedade
costumava subir diariamente às montanhas e desenhava muitos
esboços de mapas.
Só tinha um dever oficial para executar, tratava-se de manter o
Ministro dos Negócios Estrangeiros a par das últimas notícias, que eu
recebia através do meu pequeno rádio a pilhas. Fiquei a saber que os
chineses não tinham avançado mais e que agora convidavam o
governo tibetano a ir a Pequim e negociar um acordo. O Dalai Lama e
o governo concluíram que seria uma boa política aceitar o convite, e
foi despachada uma delegação com plenos poderes. Como uma
resistência armada seria inútil, o governo usava a pessoa do Dalai
Lama como moeda de troca, pois sabiam que os Vermelhos estavam
ansiosos por que ele voltasse para o Tibete. Delegações formadas por
gente de todas as classes continuavam a aparecer em Chumbi para
implorar ao soberano que regressasse. O Tibete inteiro estava
mergulhado numa depressão e só agora eu percebia realmente quão
estreitamente o povo e o seu rei estavam ligados um ao outro. Sem a
bênção da sua presença o país nunca poderia prosperar.
Por fim, não restou alternativa ao Dalai Lama senão aceitar as
condições dos chineses e regressar a Lassa. Após longas negociações,
os termos do tratado foram formulados em Pequim, assegurando ao
Dalai Lama a administração interna do país e garantindo que a religião
seria respeitada e assegurada a liberdade de credo. Em troca destas
concessões os chineses insistiram em ficar com as relações exteriores
do Tibete e em serem responsáveis pela defesa do país. Teriam o
direito de enviar quantas tropas quisessem para o Tibete e assim
assegurarem a concretização de quaisquer exigências futuras.
Como a casa do governador se situava num vale frio e sombrio, o
Dalai Lama mudou-se para o mosteiro com aspecto romântico de
Dungkhar. Aí vivia isolado do mundo, assistido pelos monges e pelos
seus próprios criados, e eu praticamente não tive hipótese de falar com
ele a sós. Lob-sang Samten vivia num quarto do mosteiro, onde eu o
visitava frequentemente. Saíamos amiúde com o Dalai Lama nas suas
longas caminhadas. Ele costumava visitar os claustros vizinhos a pé e
toda a gente se admirava com a velocidade com que caminhava.
Ninguém conseguia acompanhá-lo. Esta era a primeira vez que ele
tinha oportunidade para fazer exercício físico e tirou o maior proveito
dela. Para além disso, a sua energia era boa para a saúde do seu
pessoal, que tinha que se manter em forma para poder acompanhar o
seu passo. Os monges abdicaram do rapé e os soldados deixaram de
fumar e de beber bebidas alcoólicas. A despeito da depressão
generalizada, as festas religiosas eram regularmente observadas, mas
faltavam os materiais para reproduzir a pompa e cerimónia das
celebrações de Lassa. A visita de um sábio indiano, que trouxe ao rei
uma réplica genuína do Buda numa urna em ouro, representou um
agradável interlúdio. Nesta ocasião, tirei a minha última e melhor
fotografia do Dalai Lama.
A vida dos nobres tornou-se cada vez mais deprimida à medida que
íamos permanecendo no Vale de Chumbi. Quase toda a gente se
deslocava a pé pois, salvo raras excepções, os cavalos tinham sido
mandados embora. É verdade que ainda mantinham os seus criados e
não precisavam de fazer nada por eles próprios, mas tinham que passar
sem os seus confortos, sem as suas sumptuosas casas, as suas festas e
os seus entretenimentos. Dedicaram-se à intriga de uma forma
mesquinha e achavam relaxante mexericar e espalhar boatos.
Começaram a aperceber-se de que o período da sua supremacia tinha
chegado ao fim. Já não podiam tomar decisões por si próprios e tinham
que submeter tudo ao Dalai Lama. Para além disso, não podiam ter a
certeza de que os chineses lhes devolveriam as suas propriedades
quando regressassem, embora tivessem prometido fazê-lo. A cortina
tinha caído sobre o feudalismo e eles sabiam-no.
Permaneci no Vale de Chumbi até Março de 1951 e nessa altura
decidi ir para a índia. Já tinha compreendido há muito tempo que não
poderia voltar para Lassa, mas ainda era um funcionário do governo
tibetano e tinha de pedir uma licença antes de poder partir. Foi-me
concedida imediatamente. O passaporte que me foi entregue pelo
Gabinete era válido por seis meses e continha uma cláusula que
solicitava ao governo indiano que me desse assistência caso eu
decidisse regressar ao Tibete, mas eu sabia que nunca poderia utilizá-
la. Estava seguro de que em seis meses o Dalai Lama estaria de volta a
Lassa, onde seria tolerado como a Encarnação de Chenrezi, mas nunca
mais reconhecido como o soberano de um povo livre.
Há muito tempo que eu vinha dando voltas à cabeça para encontrar
uma solução para o meu problema pessoal, e após uma cuidadosa
apreciação optei por ir para a índia. Já há algum tempo que mantinha
correspondência com Aufschnaiter e de facto tinha-o encontrado em
Gyantse, ocasião em que ele me confidenciara que tencionava ficar no
Tibete enquanto fosse possível e depois seguir para a índia. Quando
nos separámos não fazíamos ideia de que iríamos ficar anos sem nos
vermos. Levei a sua bagagem comigo para Kalimpong e depositeí-a aí.
Depois disso fiquei um ano sem notícias suas. Parecia que ele tinha
desaparecido completamente. Ouvia-se toda a espécie de rumores e
muita gente acreditava que ele estava morto. Só depois de ter
regressado à Europa é que fiquei a saber que ele tinha ido para
Kyirong, a nossa vila de contos de fadas, e tinha permanecido aí até à
chegada dos chineses. Esperou literalmente até ao último minuto e
escapou com dificuldades ainda maiores do que as que eu encontrei.
Fiquei muito feliz ao receber a sua carta enviada do Nepal dizen-do-
me que estava vivo.Ainda vive num exílio voluntário no Extremo
Oriente, tentando satisfazer a sua insaciável sede de explorar. Existem
poucos homens vivos com um conhecimento tão profundo dos
Himalaias e da «Terra Proibida. O que não terá para contar quando
voltar à Europa após todos estes anos?Parti com o coração
amargurado, mas não podia permanecer. Sentia uma enorme ansiedade
em relação ao futuro do jovem rei. Sabia que a vida no Potala seria
obscurecida pela sombra de Mao Tse-tung. No lugar de pacíficas
bandeiras de oração, eu imaginava a bandeira vermelha com a foice e o
martelo a flutuar ao vento com a sua pretensão de dominar o mundo.
Talvez Chenrezi, o eterno Deus da Graça, sobrevivesse a este regime
sem alma da mesma forma que tinha sobrevivido a tantas invasões
chinesas. Só me restava esperar que a nação mais pacífica do mundo
não tivesse que sofrer muito e que não ficasse desmoralizada pelas
mudanças revolucionárias. Tinham-se passado quase sete anos desde o
dia em que entrara no Tibete e dera por mim a admirar os montículos
de pedras e as bandeiras de oração na cordilheira que transpunha a
fronteira com a índia. Nessa altura eu estava cansado e esfomeado,
mas cheio de alegria por ter alcançado a terra por que tanto almejara.
Agora tinha criados e cavalos e economias suficientes para não me
preocupar com o futuro próximo. Mas uma profunda depressão
dilacerava-me e já não sentia a excitante expectativa que costumava
experimentar sempre que chegava à fronteira de um novo país. Olhei
pesarosamente para trás, para o Tibete. A pirâmide gigante de
Chomolhari que se erguia à distância parecia dizer-me adeus.À minha
frente estava o Sikkim, dominado pela enorme montanha de
Kinchinjunga*, o último dos gigantes dos Hi malaias que pude avistar.
Com o meu cavalo seguro pelas rédeas, desci lentamente a pé em
direcção à planície indiana.
Em tibetano pronuncia-se (Kangchendzõnga), que significa «
cinco Tesouros das Grandes Neves». (N. do E.)
Alguns dias depois estava em Kalimpong e mais uma vez, ao fim de
muitos anos, entre europeus. Olhavam—me com estranheza e eu sentia-me um estranho na sua companhia. Repórteres de muitos jornais apressaram-se ao meu encontro, sequiosos de notícias sobre o tecto do mundo. Demorei bastante a ambientar-me a toda a balbúrdia e parafernália da civilização. Mas tive amigos que me ajudaram a superar essa fase. Ainda não conseguia conformar-me com a ideia de deixar a índia, onde me sentia em contacto com o destino do Tibete, e fui adiando a minha partida para a Europa.
No Verão desse ano o Dalai Lama regressou a Lassa e as famílias
tibetanas que se tinham exilado na índia também voltaram para os seus lares. Passei pela experiência de ver o governador geral chinês passar por Kalimpong a caminho de Lassa, onde iria assumir o seu cargo. Até ao Outono de 1951 o Tibete inteiro esteve ocupado pelas tropas chinesas e as notícias do país eram escassas e confusas. A medida que escrevo estas linhas finais muitos dos meus receios já se confirmaram.
Há fome no país, que não consegue alimentar os exércitos de ocupação e
os habitantes. Em jornais europeus tenho visto fotografias de enormes cartazes com a figura de Mao Tse-tung afixados nas paredes do Potala. Carros blindados circulam pela Cidade Sagrada. Os leais ministros do Dalai Lama já foram demitidos e o Panchen Lama fez a sua entrada em Lassa com uma escolta de soldados chineses. Os chineses foram suficientemente espertos para reconhecerem o Dalai Lama como chefe do governo, mas a vontade do poder ocupante é soberana. Instalaram-se confortavelmente no Tibete e com a sua poderosa organização já construíram estradas com centenas de quilómetros Je comprimento que ligam esta terra outrora sem caminhos ao seu próprio país.
Acompanho tudo o que acontece no Tibete com o maior dos interesses
pois parte do meu ser está indissoluvelmente ligada a essa terra querida. Onde quer que eu viva, vou sentir sempre saudades do Tibete. Muitas vezes lembro-me e ainda ouço os gritos selvagens dos gansos e dos grous e o bater das suas asas quando sobrevoam Lassa ob a luz clara e fria do luar. O s meu desejo mais profundo é o de que este livro possa trazer alguma compreensão para com um povo cuja vontade de viver em paz e liberdade é praticamente ignorada por um mundo de apatia.
EPÍLOGO
Mais de meio século passou desde que tive o privilégio de viver no
Tibete. O Dalai Lama disse uma vez: «Hein-rich Harrer tornou-se num de nós e agora, ao envelhecermos, lembramo-nos dos dias felizes em que vivemos juntos num país livre. Um dos sinais da verdadeira amizade é o facto de esta não se modificar, aconteça o que acontecer. A amizade e a disponibilidade de nos ajudarmos mutuamente continua até ao fim das nossas vidas. Heinrich Harrer foi sempre um grande amigo do Tibete. Mas o seu maior contributo para a nossa causa foi sem dúvida o livro Sete Anos no Tibete, que apresentou o meu país a milhões de pessoas.
Ainda hoje continua a lutar activamente pela liberdade do povo do Tibete,
e nós estamos-lhe agradecidos por isso».
Quando Peter Aufschnaiter e eu, depois de conquistarmos inúmeras
veredas, algumas a mais de seis mil metros de altitude, chegámos a Lassa após quase dois anos, tínhamos queimaduras, fome, e estávamos doentes. Não ficaríamos admirados se o governo do Tibete nos tivesse enviado outra vez para a fronteira com a índia. Pois o Tibete era um país proibido, e muito particularmente a Cidade Santa. Mas aconteceu o oposto. Tiveram pena de nós, deram-nos comida, roupas quentes, uma casa e trabalho, e transformámo-nos num deles.
Enquanto vivíamos felizes em Lassa, ninguém pensava que viria o dia em
que teríamos de abandonar esse país pacífico no topo do mundo. O exército vermelho da China invadiu o país e o Dalai Lama e milhares de tibetanos fugiram em 1959 para a índia.
Nenhuma descrição conseguiria dar conta do que aconteceu desde então
na terra da neve. Um milhão e duzentos mil tibetanos perderam a vida e noventa e nove por cento dos seis mil templos sagrados foram destruídos. E agora que os tibetanos precisam de ajuda, é natural que todos os que amam o país e o seu valente povo se empenhem na sua causa. As conferências promovidas pelas diferentes organizações de ajuda ao Tibete e a publicação de velhas fotografias também contribuíram e contribuem para isso, porque praticamente nenhum dos tibetanos que agora vive no exílio conhece o seu país natal como era antes da destruição. Para além disso, estou orgulhoso com o facto de o livro Sete Anos no Tibete ter sido agora impresso em caracteres tibetanos, além da adaptação cinematográfica ao jeito de documentário. O produtor promete retratar a invasão e o sofrimento do povo do Tibete de modo a ajudar a causa dos tibetanos. Uma certa garantia disto é o facto de conhecermos o modo profundo como Jean-Jac-ques Annaud conduz a sua arte de realização.
E foi este filme que levou a China a pressionar todos os países vizinhos, e
assim o cenário teve de mudar dos Himalaias para os Andes. Esse medo e o kotau1 ao poder chinês ajusta-se também ao comportamento da Comissão dos Direitos do Homem, que em Abril de 1996 condenou em Genebra seis nações, mas não a China.
Quanto a mim, desde que abandonei o Tibete conheci muitos outros
países e povos interessantes, e quando nos tornamos mais velhos muitas vezes as nossas motivações e preferências alteram-se — mas no que diz respeito à Ásia e especialmente ao Tibete, a minha fascinação continua e todos os anos viajo para um dos países dos Hima-laias. Só as fronteiras do Tibete são tabu. Contudo, francamente considero que é uma honra ser uma «persona non grata».
Entre as duas guerras mundiais, um oficial britânico pensava que com a
invenção dos aviões o mundo estava finalmente conquistado — mas dizia que ainda existia um último mistério: um país enorme no topo do mundo, onde acontecem milagres e os monges separam a alma do corpo e levitam e onde os acontecimentos são determinados pelos oráculos. O país é rodeado pelas mais altas montanhas da Terra e o chefe do governo é um Deus vivo.
A sua casa é um palácio belíssimo sobre um rochedo vermelho. É um país
proibido e a capital Lassa é severamente guardada por monges. E os românticos podem encontrar, escondida atrás das montanhas, a flor azul.
Não é de admirar que missionários, intelectuais, aventureiros e cientistas
estivessem interessados em investigar os segredos e mistérios desse país.
Peter Aufschnaiter e eu estávamos guardados para vivermos o misterioso
Tibete na sua Idade Média — e também o seu declínio. Fomos testemunhas quando a cortina foi violentamente rasgada e a cultura milenar destruída.
Na minha infância eu lia apenas livros de aventuras de exploradores. Os
meus maiores exemplos eram Alexan-der von Humboldt e sobretudo o lendário explorador da Ásia, Sven Hedin, cujas aventuras no Tibete me interessaram especialmente. E como a nossa prisão na índia durante a Segunda Guerra Mundial foi mudada para os contrafortes dos Himalaias, as minhas tentativas de fuga concentraram-se muito naturalmente na direcção do Tibete, daquela terra proibida no tecto do mundo que estava interdita até aos coloniais vizinhos britânicos a sul.
Quero desde já tornar isto claro: os ingleses trataram—nos estritamente
segundo a convenção de Genebra. Estar sentado atrás do arame farpado era tudo menos insuportável. Era até bastante agradável. Tínhamos livros, actividades desportivas, saídas condicionadas nas redondezas, e tínhamos sempre comida — por isso não havia razão nenhuma para fugirmos dali. O motivo pelo qual queria sair de trás do arame farpado tinha um fundamento oposto. Eu queria partir para alcançar algo. Talvez fosse o eterno impulso do Homem em ser livre, mas no meu caso era também certamente o amor às montanhas e, em segredo, também a ideia fantástica de atingir a terra proibida do Tibete por detrás das próximas montanhas do Himalaia.
O livro Sete Anos no Tibete termina na Primavera de 1951, depois
daqueles anos passados na minha segunda pátria, quando me despedi do meu jovem amigo o décimo quarto Dalai Lama no sul do Tibete. Dessa vez não era meu desejo partir ou fugir. Pelo contrário. Antes de atravessar a fronteira para a índia, tirei ainda a última fotografia de Sua Santidade no Tibete livre. Foi a primeira fotografia a cores da capa da revista Life (7 de Maio de 1951). O mundo soube da invasão chinesa do Tibete.
Quando voltei para a Áustria em 1952, o Dalai Lama decidiu ficar com os seus ministros no Tibete, acreditando sempre que os chineses iriam reger-se pelo acordo dos dezassete pontos ditado por eles, e que o Tibete aceitara sob pressão.
Os anos que se seguiram contam-se rapidamente. A vida tornou-se cada
vez pior debaixo do jugo do invasor estrangeiro. Durante uma revolta popular em Lassa, em Março de 1959, o Dalai Lama conseguiu fugir e chegar à índia depois de semanas de privações. O Pandit Neru acolheu o importante fugitivo. Também eu pude cumprimentá-lo em Tezpur (Assam), quinze anos depois de eu ter fugido da prisão em Dehra-Dun. Generosamente, os refugiados receberam alojamento e puderam constituir um governo não-oficial no exílio.
Os anos seguintes foram anos difíceis. Em 1962, o Dalai Lama perdeu a
sua querida mãe, e pouco depois morreu também o seu irmão mais velho, Lobsang Samten, com apenas cinquenta anos — era o seu maior apoio no exílio.
A admiração e o respeito pelo Dalai Lama tornaram-se mundiais
entretanto. Para desgosto dos chineses, a causa dos tibetanos pela liberdade e independência cresceu. Deve-se ao Dalai Lama e ao seu carisma podermos conhecer o povo do Tibete e a sua cultura de dois mil anos e constatar que a destruição desses valores foi uma grande perda. Sem dúvida que a atribuição do Prémio Nobel constituiu um dos momentos altos da vida de Sua Santidade.
É compreensível que me sinta cheio de orgulho quando o Dalai Lama é
honrado e quando essa grande individualidade é meu amigo. Também me sinto orgulhoso quando refugiados tibetanos no exílio têm sucesso e são amados. Ainda hoje lhes estou agradecido por me terem recebido tão generosamente quando cheguei a Lassa. O meu empenho pela causa dos tibetanos é natural.
Um acaso maravilhoso é o facto de Sua Santidade e eu fazermos anos no
dia 6 de Julho. Foi certamente um grande dia para a minha terra natal, Huttenberg in Karnten (Áustria), quando o Dalai Lama benzeu e inaugurou o museu Heinrich Harrer no dia 25 de Julho de 1992.
A destruição do Tibete continua ainda após quase 40 anos de ocupação.
Da minha velha Lassa restam talvez apenas dois por cento. Lassa tornou-se numa cidade chinesa. Um incontável número de lojas chinesas, centenas de casas de bebidas e de jogo, e em volta do Potala locais de lanternas vermelhas para distrair os soldados do exército invasor, décadas de destruição, repressão, esterilização, genocídios e doutrinação política — tudo isto não conseguiu quebrar o desejo de liberdade dos tibetanos. A sua fé e a sua adoração pelo seu Dalai Lama não diminuiu.
Por todo o mundo o Dalai Lama recebe manifestações de simpatia e
promessas, mas lamentavelmente ninguém age. Os ganhos materiais são mais importantes que os Direitos do Homem. Contudo, tenho a visão de que o dia da liberdade chegará, e todos os que amam o Dalai Lama e o seu povo irão numa procissão até ao Potala, o singular monumento da força criadora tibetana.
Mesmo que a destruição dos bens culturais continue, os chineses nunca
conseguirão destruir as montanhas mais altas do mundo que rodeiam aquele país e que são o trono dos deuses tibetanos. E por isso os piedosos tibetanos também irão gritar, ao passar nas altas veredas: «Os Deuses vencerão!.
1 Kotau — genuflexão chinesa, até tocar com a testa no chão.
LHAGYELLO!
Jovim Gondomar.
Este livro foi digitalizado por Adelina Santos
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Você terminou Sete Anos no Tibet
Heinrich Harrer