Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 7 de 9 · parte 2/4

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Sr. Assassino

Cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A m úsica em ociona-o. Ele para na suave brisa m atinal, balançando com o num sonho, os olhos fechados. Fica com ovido com o hino. Talvez ele tenha talento m usical. Ele iria descobrir. Talvez tocar algum tipo de instrum ento e com por canções fosse m ais fácil do que escrever rom ances.

Quando a m úsica term ina, ele entra no carro e parte.

* * *

Marty trocou agrados com a Sra. Higgens quando ela retornou com a caixa. Era evidente que ninguém do banco tinha visto o noticiário sobre ele, j á que nenhum a das m ulheres m encionou o assalto. Seu suéter de gola redonda e a cam isa abotoada escondiam os hem atom as vivos no pescoço. Sua voz estava um pouco roufenha, m as não o suficiente para provocar com entários.

A Sra. Higgens observou que o saque em dinheiro que ele desej ava fazer era m uito grande, externando seu com entário para induzi-lo a explicar por que estaria se arriscando a carregar tanto dinheiro por aí. Marty apenas concordou que era, de fato, m uito grande e expressou a esperança de não estar lhes causando m uito problem a. Talvez a afabilidade incansável fosse essencial para com pletar a transação com a m aior rapidez possível.

— Não tenho certeza se podem os pagar toda a quantia em notas de cem — disse a Sra. Higgens, falando de um a m aneira suave e discreta, em bora só houvesse m ais dois clientes no banco e nenhum deles nas proxim idades. — Terei que verificar nosso suprim ento de notas dessa quantia.

— Algum as de vinte e cinquenta estão bem — assegurou Marty. — Só estou tentando im pedir que fique m uito volum oso.

Em bora tanto a subgerente com o a caixa estivessem sorrindo e sendo educadas, Marty sabia de sua curiosidade e preocupação. Afinal de contas, elas estavam no ram o financeiro, e sabiam que não havia m uitas razões legítim as — e poucas sensatas — para alguém carregar setenta m il em dinheiro vivo.

Mesm o que se sentisse confortável deixando Paige e as m eninas no carro, Marty não teria feito isso. A prim eira suspeita a cruzar a m ente de um banqueiro seria que o dinheiro era destinado a pagar um resgate de refém , e a prudência recom endaria um telefonem a para a polícia. Com toda a fam ília presente, o sequestro podia ser riscado da lista.

A caixa de Marty com eçou a consultar outros caixas, catalogando a quantidade de notas de cem contida em suas gavetas, enquanto que a Sra. Higgens desaparecia pela porta aberta da passagem da caixa-forte aos fundos do balcão.

Ele olhou de soslaio para Paige e as m eninas. Entrada leste. Sul. Seu relógio de pulso. Sorrindo, sorrindo o tem po todo, sorrindo com o um idiota.

Estarem os fora daqui em quinze m inutos, ele disse para si m esm o. Talvez até em dez. Fora daqui, em nosso cam inho e em segurança.

A onda som bria atingiu-o.

* * *

No Denny ’s, ele usa o banheiro m asculino, depois escolhe um canto j unto às j anelas e pede um enorm e café da m anhã.

A garçonete é um a graciosa m orena cham ada Gay le. Ela faz gracej os sobre o apetite dele. Cam inha na direção dele. Ele pensa na possibilidade de tentar m arcar um encontro com ela. A garçonete tem um corpo adorável, pernas delgadas.

Fazer sexo com Gay le seria adultério, j á que ele é casado com Paige. Ele se pergunta se continuaria sendo adultério caso, depois de fazer sexo com Gay le, ele a m atasse.

Ele deixa um a boa gorj eta e decide voltar dentro de um a ou duas sem anas para m arcar um encontro. Ela tem um nariz atrevido, lábios sensuais.

De novo no Cam ry, antes de ligar o m otor, ele fecha os olhos lim pa a m ente e im agina estar m agnetizado, do m esm o m odo que o falso pai, polos opostos que se atraem . Ele procura a atração.

Dessa vez, ele penetra na órbita do outro hom em m ais rápido do que quando tentou fazer um a conexão no m eio da noite, e o poder adutor é incom ensuravelm ente m aior do que antes. De fato a atração é tão forte, tão instantânea, que ele grunhe de surpresa e fecha as m ãos em torno do volante, com o se corresse um perigo verdadeiro de ser arrancado do Toy ota através do para-brisa e disparado com o um a bala direto no coração do falso pai.

Seu inim igo tem consciência im ediata do contato. O hom em está assustado, am eaçado.

Leste.

E sul.

Isso o levará de volta à direção de Mission Viej o, em bora ele duvide que o im postor se sinta seguro o bastante para j á ter voltado para casa.

* * *

Um a onda de pressão, com o que causada por um a trem enda explosão, caiu sobre Marty e quase arrancou-o do chão. Agarrou com as duas m ãos o tam po do balcão diante do guichê do caixa para m anter o equilíbrio. Recostou-se no balcão, apoiando-se contra ele.

A sensação era subj etiva. O ar parecia com prim ido ao ponto da liquefação, m as nada se desintegrou, rachou ou tom bou. Ele parecia ser a única pessoa afetada.

Após o choque inicial, Marty sentiu-se com o se tivesse sido soterrado debaixo de um a avalanche. Sendo oprim ido por incom ensuráveis m egatons de neve. Ofegante. Paralisado. Frio.

Ele suspeitava que seu rosto se tornara pálido, ceráceo. Tinha certeza de que não conseguiria falar caso lhe falassem . Se alguém retornasse ao guichê do caixa enquanto ele estivesse tendo o ataque, o m edo seria revelado sob sua pose de indiferença. Ele seria exposto com o um hom em envolvido em desesperada encrenca, e ficariam relutantes em entregar tanto dinheiro para alguém que, com toda certeza, ou estava doente ou louco.

Marty ficou dram aticam ente m ais frio quando sentiu um a carícia m ental da m esm a presença pérfida e fantasm agórica que sentira na véspera, na garagem , quando tentava partir para o consultório do m édico. A m ão “gelada” do espírito pressionava a superfície crua de seu cérebro, com o se estivesse lendo sua localização, dedilhando dados em código Braille no interior do tecido contorcido de seu córtex cerebral. Agora ele com preendia que o espírito era, na verdade, o sósia cuj os estranhos poderes não se lim itavam à recuperação espontânea de ferim entos m ortais no peito.

* * *

Ele rom pe a conexão m agnética.

Ele sai do estacionam ento do restaurante.

Liga o rádio. Michael Bolton está cantando sobre o am or.

A m úsica é com ovente. Ele fica enternecido, quase a ponto de chorar. Agora que finalm ente é alguém , agora que um a esposa espera por ele e duas j ovens m eninas precisam de sua orientação, ele conhece o sentido e o valor do am or. Ele se pergunta com o pôde ter vivido tanto tem po sem isso.

Ele se dirige para o sul. E leste.

O destino cham a.

* * *

De form a abrupta, a m ão espectral solta-se de Marty.

A pressão esm agadora foi aliviada e o m undo voltou ao norm al — se é que anda existia essa coisa de norm alidade.

Ele ficou aliviado porque o ataque só durou cinco ou dez segundos. Nenhum dos em pregados do banco percebeu que havia algo de errado com ele.

Entretanto, era urgente a necessidade de conseguir o dinheiro e dar o fora dali. Ele olhou para Paige e as m eninas sentadas na sala de espera aberta nos fundos do salão. Preocupado, dirigiu o olhar para a entrada leste, a entrada sul, leste de novo.

O Outro sabia onde eles estavam . Em m inutos, no m áxim o seu inim igo m isterioso e im placável estaria em cim a deles.

4.

Os ovos m exidos no prato abandonado de Oslett adquiriram um leve m atiz cinzento quando esfriaram e endureceram . O arom a salgado do bacon, antes tão atraente, provocou nele um a vaga náusea.

Aturdido com a ideia de que Alfie podia ter-se desenvolvido, transform ando-se num a criatura com desej os sexuais e com a habilidade de satisfazê-los, Oslett estava determ inado a não parecer preocupado, pelo m enos não diante de Peter Waxhill.

— Bem , tudo isso ainda não passa de conj ectura.

— Sim — disse Waxhill —, m as estam os exam inando o passado para ver se a teoria é consistente.

— Que passado?

— Registros policiais nas cidades em que Alfie esteve em m issão nos últim os catorze m eses. Estupros e assassinatos com estupro durante as horas em que ele não estava trabalhando.

A boca de Oslett ficou seca. Seu coração m artelava.

Ele não se im portava com o que acontecera à fam ília Stillwater. Que droga, eles eram apenas Klingons.

Tam pouco se im portava se a Rede entrasse em colapso e todas as suas am bições grandiosas não fossem realizadas. Mais tarde, um a organização sem elhante seria form ada, e o sonho seria renovado.

Mas se fosse im possível capturar ou deter seu garoto m au, a m ancha poderia se espalhar na fam ília Oslett, colocando em risco sua riqueza e dim inuindo seriam ente seu poder político durante as próxim as décadas. Acim a de tudo, Drew Oslett exigia respeito. O derradeiro fiador do respeito sem pre fora a fam ília, a linhagem . A perspectiva de o nom e Oslett tornar-se obj eto de ridículo e escárnio, alvo do ultraj e público, centro das piadas pueris de todos os com ediantes da tevê e tem a de m atérias em baraçosas em j ornais tão diversos com o o New York Times e o National Enquirer, era de abalar a alm a.

— Algum a vez você se perguntou o que o seu garoto fazia com o tem po livre, entre as m issões? — indagou Washill.

— Durante as prim eiras seis sem anas, nós o m onitoram os de perto, claro. Ele frequentava cinem as, restaurantes, parques, assistia tevê, fazia todas as coisas que as pessoas fazem para m atar o tem po... da m aneira com o queríam os que ele agisse fora de um am biente controlado. Nada de estranho. Nada fora do com um , em absoluto. Certam ente, nada a ver com m ulheres.

— Claro que ele teria o m elhor com portam ento se soubesse que estava sendo observado.

— Ele não sabia. Não podia saber. Ele j am ais soube de nossos hom ens de vigilância. De j eito nenhum . Eles eram os m elhores. — Oslett percebeu que estava protestando dem ais. Mesm o assim , não conseguiu im pedir-se de acrescentar: — De j eito nenhum .

— Talvez ele soubesse deles do m esm o m odo com o soube desse Martin Stillwater. Algum a percepção paranorm al de baixa intensidade.

Oslett estava com eçando a não gostar de Waxhill. O suj eito era um pessim ista incorrigível.

Waxhill pegou a garrafa térm ica e serviu m ais café para os três.

— Mesm o que ele só estivesse frequentando cinem as, assistindo tevê... isso não o preocupou?

— Olha, ele devia ser o assassino perfeito. Program ado. Sem rem orsos, sem segundas intenções. Difícil de ser surpreendido, m ais difícil de ser m orto. Se algum a coisa der errada, ele não pode ser seguido até seus operadores. Ele não sabe quem som os ou por que querem os que essas pessoas sej am elim inadas, portanto, não pode ser transform ado em prova do Estado. Ele não é nada, um a concha, um hom em totalm ente vazio. Mas ele tem que funcionar em sociedade, ser discreto, agir com o um João qualquer, fazer coisas que as pessoas de verdade costumam fazer em seu tempo de folga. Se fizéssem os com que ele ficasse em quartos de hotel, olhando para as paredes, as em pregadas iriam com entar, achá-lo esquisito, lem brar dele. Além disso, que m al pode haver nos film es e em um pouco de televisão?

— Influências culturais. Elas poderiam m udá-lo de algum a form a.

— É a natureza que im porta, a m aneira com o ele foi proj etado, não o que ele fez com sua tarde de sábado — Oslett recostou-se na cadeira, sentindo-se m ais bem protegido agora que se convencera em algum nível, m esm o sem ter convencido Waxhill. — Exam inem o passado. Mas vocês não vão encontrar coisa algum a.

— Talvez j á tenham os encontrado. Um a prostituta em Kansas City. Estrangulada num m otel barato no outro lado da rua de um bar cham ado Blue Life Lounge. Duas diferentes garçonetes deram para a polícia de Kansas City um a descrição do hom em que saiu com ela. Parece o Alfie.

Oslett tinha percebido um elo de classe e experiência entre ele e Peter Waxhill. Chegara a entrever a perspectiva de um a am izade. Agora tinha a desagradável sensação de que Waxhill sentia prazer em ser o portador de todas essas m ás notícias.

— Um de nossos contatos conseguiu obter um a am ostra do esperm a retirado da vagina da prostituta pela Divisão de Investigação Científica da polícia de Kansas. Nesse m om ento, está voando para nosso laboratório em Nova York. Se for esperm a de Alfie, nós saberem os.

— Ele não pode produzir esperm a. Ele foi proj etado...

— Bem , se for dele, nós saberem os. Tem os o m apa de sua estrutura genética, nós a conhecem os m elhor do que Rand McNally conhece o m undo. E ela é única. É m ais individual do que as im pressões digitais.

Hom ens de Yale. São todos iguais. Bastardos presunçosos e enfatuados.

Clocker pegou um m orango de estufa carnudo entre o polegar e o indicador. Exam inando com atenção, com o se tivesse padrões m uito altos para com estíveis e não fosse com er nada que não fosse aprovado em sua inspeção exigente, ele com entou:

— Se Alfie é atraído por Martin Stillwater, então o que precisam os saber é onde podem os encontrar Stillwater agora — e deixou cair na língua o m orango inteiro, da m etade do tam anho de um lim ão, com o um sapo capturando um a m osca.

— Ontem à noite, m andam os um hom em dar um a olhada na casa — disse Waxhill. — Há indicações de que eles fizeram as m alas a toda pressa. Gavetas de côm oda foram deixadas abertas, roupas espalhadas, algum as m alas vazias foram abandonadas depois que decidiram não m ais utilizá-las. A j ulgar pelas aparências, eles não tencionam voltar para casa nos próxim os dias, m as estam os vigiando o lugar só para o caso de eles decidirem voltar.

— E vocês não têm a m enor ideia de onde encontrá-los — Oslett saboreia um prazer perverso ao pôr o outro na defensiva.

Tranquilo, Waxhill disse:

— Não, não podem os dizer onde eles estão nesse m om ento...

— Ah.

— ... m as acham os que podem os prever um lugar onde terem os um a pista deles. Os pais de Stillwater vivem nos Mam m oth Lakes. Ele não tem nenhum outro parente na Costa Oeste e, a m enos que haj a algum am igo íntim o que não conhecem os, é quase certo que ele telefone para o pai e a m ãe. Isso se não for até lá.

— E quanto aos pais da m ulher?

— Quando ela tinha dezesseis anos, o pai atirou no rosto da m ãe e depois se m atou.

— Interessante. — Oslett quis dizer que a aparência enganosa da vida da m édia das pessoas nunca deixava de surpreendê-lo.

— De fato, é interessante — disse Waxhill, talvez querendo dizer algo diferente do que Oslett pensou. — Paige chegou da escola e encontrou os corpos. Durante alguns m eses, ficou sob a guarda de um a tia. Mas não gostava da m ulher e preencheu um a petição ao tribunal para ser declarada adulta legal.

— Aos dezesseis anos?

— O j uiz ficou suficientem ente im pressionado com ela para decidir em seu favor. É raro, m as acontece.

— Ela deve ter tido um trem endo advogado.

— Suponho que sim . Ela estudou os estatutos e precedentes adequados e representou-se a si m esm a.

A situação era som bria o tem po todo. Mesm o que tivesse sorte Martin Stillwater levara a m elhor sobre Alfie, o que significava que era um suj eito m ais form idável do que o sim plório da People. Agora com eçava a parecer que sua m ulher possuía m ais do que um a m edida com um de coragem , sendo um a adversária de valor.

— Para fazer com que Stillwater entre em contato com sua fam ília, devíam os usar os filiados à Rede nos m eios de com unicação para colocar na prim eira página os incidentes em sua casa ontem à noite — disse Oslett.

— Estam os usando — disse Peter Waxhill enfurecido, em oldurando com as m ãos m anchetes im aginárias: — Autor de Best-seller Atira em Invasor. Golpe Publicitário ou Am eaça Real? Autor e Fam ília Desaparecidos. Escondendo-se do Matador ou Evitando o Interrogatório Policial? Esse tipo de coisa. Quando Stillwater deparar-se com um j ornal ou um noticiário da televisão, vai ligar im ediatam ente para os pais, porque saberá que eles viram as notícias e estão preocupados.

— Nós gram peam os o telefone dele?

— Gram peam os. Pusem os na linha equipam ento que identifica o autor da ligação. No m om ento em que for feita a conexão, terem os o núm ero de onde Stillwater está.

— O que fazem os enquanto isso?—perguntou Oslett. — Só ficar por aqui, fazendo as unhas e com endo m orangos?

A j ulgar pela quantidade de m orangos que Clocker com ia, o estoque do hotel acabaria em pouco tem po, e logo depois toda a colheita de estufas da Califórnia e estados vizinhos seria exaurida.

Waxhill olhou para seu Rolex de ouro.

Drew Oslett tentou detectar algum a indicação de ostentação na m aneira com o Waxhill consultou o relógio caro. Teria ficado contente em notar algum a ação reveladora que pudesse expor um em busteiro desaj eitado sob a atraente aparência de graça e sofisticação.

Mas Waxhill pareceu encarar o relógio de pulso da m esm a m aneira com o Oslett via seu próprio Rolex de ouro: com o se não fosse diferente de um Tim ex com prado na K-Mart.

— Na verdade, vocês voarão para os Mam m oth Lakes hoj e de m anhã, m ais tarde.

— Mas não podem os ter certeza de que Stillwater vai aparecer por lá.

— É um a expectativa razoável — disse Waxhill. — Se aparecer, então há um a boa chance de que Alfie o siga. Vocês estarão em posição de recuperar nosso garoto. E se Stillwater não for lá, se ele apenas telefonar para os queridos pai e mãe, vocês podem partir de avião ou de carro para o lugar de onde ele fez a ligação.

Relutante em continuar sentado, tem endo que Waxhill aproveitasse o tem po para dar outras noticias m ás, Oslett depositou o guardanapo em cim a da m esa e em purrou a cadeira para trás.

— Então, vam os nos m exer. Quanto m ais tem po nosso rapaz estiver solto, m aior será a chance de alguém vê-lo j unto com Stillwater. Quando isso acontecer, a polícia com eçará a acreditar na história dele.

Perm anecendo em sua cadeira, erguendo a xícara de café, Waxhill disse:

— Mais um a coisa.

Oslett havia levantado. Era contrário a sentar-se de novo porque iria parecer que Waxhill controlava a situação. Na verdade, Waxhill controlava a situação, m as só porque possuía a inform ação necessária, não porque fosse superior a Oslett na hierarquia ou em qualquer outro sentido. Na pior das hipóteses, eles tinham igual poder na organização; e o m ais provável era Oslett ser o peso pesado dos dois. Ele perm aneceu de pé ao lado da m esa, olhando para o hom em de Yale.

Apesar de finalm ente haver term inado de com er, Clocker perm aneceu na cadeira. Oslett não sabia se o com portam ento do parceiro era um a pequena traição ou apenas prova de que a m ente do Trekker estava fora, com Spock e o grupo, em aipim canto distante do universo.

Após um gole de café, Waxhill disse:

— Se vocês tiverem que elim inar nosso garoto, será um a pena m as aceitável. Melhor ainda se puderem trazê-lo de volta para o curral, pelo m enos até que ele possa ser levado para um a instituição segura. O que quer que aconteça... Stillwater, sua m ulher e as m eninas têm que ser elim inados.

— Sem problem a.

5.

A gerente da filial, a Sra. Takuda, foi até Marty enquanto ele aguardava j unto ao guichê do caixa, pouco depois que a onda som bria caiu sobre ele e partiu. Caso se confrontasse com o próprio reflexo, esperaria ver que ainda estava pálido e com os lábios contraídos, com um a selvageria anim al nos olhos. Entretanto, se a Sra. Takuda notou algo de estranho em sua aparência, foi educada dem ais para m encionar. Ela estava preocupada sobretudo com a possibilidade de ele estar sacando a m aior parte de sua poupança porque algum a coisa no banco o desagradava.

Ele ficou surpreso porque ainda conseguia ostentar um sorriso convincente e charm e suficiente para garantir a ela que não tinha nenhum a briga com o banco e que ela podia ficar descansada. Ele sentia frio e trem ia por dentro, m as nenhum dos trem ores chegou à superfície nem afetou sua voz.

Quando a Sra. Takuda foi até a subgerente Elaine Higgens na caixa forte, Marty olhou para Paige e as m eninas, a porta leste, a porta sul e seu Tim ex. A visão do ponteiro verm elho lim pando os segundos do m ostrador fez brotar suor em sua testa. O Outro estava vindo. Quanto tem po? Dez m inutos, dois m inutos, cinco segundos?

Outra onda o atingiu.

* * *

Atravessando um a am pla alam eda. O sol da m anhã brilha nos crom ados dos autom óveis que passam . Phil Collins no rádio, cantando sobre traição.

Sim patizando com Collins, m ais um a vez ele im agina o m agnetism o. Clique. Contato. Sente um a atração irresistível bem m ais a leste e sul, portanto ainda se m antém na direção certa.

Ele rom pe o contato segundos após tê-lo feito, esperando ter outro sinal do falso pai sem se revelar. Contudo, m esm o durante essa breve ligação, o inim igo sente a intrusão.

* * *

Em bora a segunda onda tenha tido duração m ais curta do que a prim eira, não foi m enos poderosa. Marty sentiu com o se tivesse sido atingido no peito por um m artelo.

A caixa retornou ao guichê j unto com a Sra. Higgens. Tinha dinheiro solto e pacotes fechados de notas de cem e vinte dólares. Form avam duas pilhas de cerca de oito centím etros cada.

A caixa com eçou a contar os setenta m il.

— Está bem — disse Marty. — Apenas coloque em dois envelopes de papel m anilha.

Surpresa, a Sra. Higgens disse:

— Mas, Sr. Stillwater, o senhor assinou a ordem de retirada, nós devem os contar na sua frente.

— Não, tenho certeza de que j á contaram direito.

— Mas o procedim ento do banco...

— Confio em vocês, Sra. Higgens.

— Bem , obrigada, m as eu realm ente penso...

— Por favor.

6.

Enquanto Drew Oslett ficava de pé, im paciente, a seu lado, Waxhill exerceu controle só de perm anecer sentado à m esa do serviço de quarto. Oslett não gostava dele e, ao m esm o tem po, o adm irava com relutância.

— É quase certo — disse Waxhill — que a m ulher e as filhas viram Alfie no segundo incidente da noite passada. Elas sabem m uito pouco sobre o que está acontecendo, m as se sabem que Stillwater estava dizendo a verdade quando falou do sósia, então sabem dem ais.

— Com o eu disse, sem problem a — lem brou Oslett, im paciente.

Waxhill concordou com um aceno de cabeça.

— Sim , está bem , m as a m atriz quer que isso sej a feito de um a certa m aneira.

Suspirando, Oslett desistiu e sentou-se.

— Qual?

— Fazer parecer que Stillwater ficou fora de si.

— Assassinato com suicídio?

— É, m as não um assassinato com suicídio qualquer. A m atriz ficaria contente se pudesse parecer que Stillwater agia sob um a ilusão psicopática particular.

— Qualquer que sej a.

— A esposa deve ser atingida a bala em cada seio e na boca.

— E as filhas?

— Prim eiro, faça, com que se dispam . Am arre seus pulsos nas costas. Am arre os tornozelos. Com força. Tem um a m arca especial de fio trançado que gostaríam os que você usasse. Será providenciado. Depois atire duas vezes em cada m enina. Um a vez em ... suas partes privadas, depois entre os olhos. Stillwater deve parecer que se atingiu com um tiro no céu da boca. Você vai lem brar-se de tudo isso?

— Claro.

— É im portante que você faça tudo exatam ente dessa m aneira, sem desviar-se do script.

— Que história estam os tentando contar? — perguntou Oslett.

— Você não leu o artigo da People?

-— Não todo ele — adm itiu Oslett. — Stillwater pareceu tão idiota... e ainda por cim a um idiota chato. — Há alguns anos, em Mary land, um hom em m atou a esposa e as duas filhas dessa m esm a m aneira. Ele era um esteio da com unidade, de m odo que todo o m undo ficou chocado. História trágica. Todos ficaram perguntando por quê. Parecia tão sem sentido, tão fora da realidade. Stillwater ficou intrigado com o crim e e pensou em escrever um rom ance baseado nele, para explorar a possível m otivação por trás dele. Mas, depois de fazer um bocado de pesquisa, deixou o proj eto de lado. Na People, ele diz que a história o deixou deprim ido dem ais. Disse que a ficção, seu tipo de ficção, precisa fazer as coisas terem sentido, im por ordem ao caos, m as ele não conseguiu encontrar nenhum sentido naquilo que aconteceu em Mary land.

Oslett perm aneceu sentado em silêncio durante um m om ento, tentando odiar Waxhill, m as descobrindo que sua antipatia pelo outro se dissipava rapidam ente.

— Devo dizer... isso é m uito sim pático.

Waxhill sorriu quase com tim idez e encolheu os om bros.

— Foi ideia sua? — perguntou Oslett.

— Sim , foi. Eu propus à m atriz e eles aderiram na m esm a hora.

— É engenhosa — disse Oslett com genuína adm iração.

— Obrigado.

— Bastante lim po. Martin Stillwater m ata a fam ília da m esm a m aneira que o suj eito de Mary land, e fica parecendo que a verdadeira razão pela qual não pôde escrever um rom ance sobre o caso original era porque estava próxim a dem ais, porque era isso que ele desej ava, secretam ente, fazer com sua fam ília.

— Exato.

— E ficou rem oendo em sua m ente desde então.

— Perseguindo os sonhos dele.

— Esse im pulso psicótico para estuprar de m aneira sim bólica...

— ... e m atar de fato...

— ... suas filhas...

— ... m atar sua m ulher tam bém , a m ulher que...

— ... as nutriu — concluiu Oslett.

De novo eles sorriram um para o outro com o haviam sorrido ao conversar sobre a adorável cafeteria perto dos Cham ps Ely sées.

— Ninguém j am ais será capaz de im aginar o que a m atança da fam ília teve a ver com o relato m aluco sobre o sósia invasor, m as im aginarão que o sósia tam bém era parte do delírio — falou Waxhill.

— Acabo de perceber que as am ostras do sangue de Alfie tiradas na casa de Mission Viej o vão parecer ser o sangue de Stillwater.

— Sim . Teria ele extraído o próprio sangue de tem pos em tem pos, guardando-o para o golpe publicitário? E por quê? Com certeza, surgirão m uitas teorias grandiosas e, no final, isso será um m istério irrelevante com parado àquilo que fez com sua fam ília. Ninguém j am ais desvendará a verdade de tudo isso.

Oslett com eçava a ter esperanças de que pudessem recuperar Alfie, salvar a Rede e m anter suas reputações intactas.

Virando-se para Clocker, Waxhill disse:

— E quanto a você, Karl? Tem algum problem a com isso?

Apesar de estar sentado à m esa, Clocker parecia distante em espírito. Ele voltou a atenção para eles, com o se seus pensam entos estivessem com a tripulação da Enterprise num planeta hostil, na Nebulosa de Câncer.

— Há cinco bilhões de pessoas na terra — disse ele —, por isso pensam os que é superpovoada. Mas, para cada um de nós, o universo contém incontáveis m ilhares de estrelas, um a infinidade de estrelas para cada um de nós.

Waxhill olhou fixo para Clocker, esperando um a elucidação. Quando percebeu que Clocker nada m ais tinha a dizer, virou-se para Oslett.

— Acredito que o que Karl quer dizer é que... Bem , no vasto esquem a das coisas, que im portância tem se algum as pessoas m orrem um pouco antes do que m orreriam no curso natural dos eventos?

7.

O sol está alto sobre as m ontanhas distantes, onde os picos m ais elevados estão cobertos de neve. É estranho ter um a visão do inverno nessa m anhã prim averil de dezem bro, cheia de palm eiras e flores.

Ele se dirige para sul e leste, para Mission Viej o. É a vingança sobre rodas. A j ustiça sobre rodas. Rodando. Rodando.

Pensa em localizar um a loj a de arm as e com prar um a espingarda ou um rifle de caça, algum a arm a para a qual não haj a nenhum período de espera antes do direito de com prar. Seu adversário está arm ado, m as ele não.

Entretanto, não desej a postergar a perseguição ao sequestrador que roubou sua fam ília. Se o inim igo for m antido desequilibrado e em m ovim ento, estará m ais inclinado a com eter erros. A pressão incansável é um a arm a m elhor do que qualquer revólver.

Além disso, ele é vingança, j ustiça e virtude. É o herói desse film e, e os heróis não m atam . Eles podem ser alvej ados, receber cacetadas, serem j ogados para fora da estrada em perseguições em alta velocidade, cortados à faca, em purrados de um rochedo, trancados num a m asm orra cheia de cobras venenosas, e suportar um a infinita série im aginativa de abusos sem perecer. Com Harrison Ford, Sy lvester Stallone, Steven Seagal, Bruce Willis, Wesley Snipes e tantos outros heróis, ele com partilha a invencibilidade da virtude e do propósito nobre.

Ele percebe por que seu assalto inicial ao falso pai, ontem em sua casa, estava condenado ao fracasso, apesar de ele ser um herói. Fora atraído para oeste pela poderosa atração que havia entre ele e seu sósia; no m esm o nível em que ele teve consciência de que algo o puxava, o sósia percebeu algo que se aproxim ava durante todo o dom ingo e a segunda-feira. No m om ento em que se encontraram o falso pai havia sido alertado e estava pronto para a batalha.

Agora ele com preende que pode iniciar e term inar a conexão entre eles à vontade. Com o a corrente elétrica de qualquer circuito dom éstico, ela pode ser controlada por um interruptor ON-OFF. Em vez de deixar o interruptor o tem po todo na posição ON, ele pode abrir a passagem por breves m om entos, o tem po suficiente para captar a atração do falso pai e determ inar a posição dele.

A lógica sugere que ele tam bém pode m odificar a energia que flui ao longo do fio sobrenatural. Im aginando que o controle paranorm al é o interruptor de um redutor de intensidade — um reostato —, ele deve ser capaz de aj ustar para baixo a am peragem da corrente no circuito, tornando o contato m ais sutil do que foi até ali. Afinal de contas, ao usar o interruptor de um reostato, a luz de um lustre pode ser reduzida a níveis em que m al se consegue ver um brilho. Do m esm o m odo, im aginando o interruptor paranorm al com o outro reostato, ele pode ser capaz de abrir a conexão num a am peragem tão baixa que se torna possível rastrear o falso pai sem que o adversário sej a alertado para o fato de que está sendo seguido.

Ao parar num sinal verm elho no centro de Mission Viej o, ele im agina um interruptor de redutor do tipo m ostrador com um a am plitude de 360 graus de lum inosidade. Ele liga apenas 90 graus e, de im ediato, sente a atração do falso pai, um pouco m ais para leste e agora um tanto quanto para o norte.

* * *

Do lado de fora do banco, na m etade do cam inho para o BMW, Marty sente repentinam ente outra onda da pressão — e, atrás dela, o carro esm agador de destruição de seus sonhos. A sensação não foi tão forte quanto a que teve no banco, m as atingiu-o no m eio da cam inhada e desequilibrou-o. Marty cam baleou, tropeçou e caiu. Os dois envelopes de papel m anilha cheios de dinheiro voaram de suas m ãos e deslizaram no pavim ento.

Charlotte e Em ily correram atrás dos envelopes, e Paige aj udou Marty a se pôr de pé.

Quando a onda passou e Marty ficou parado trem endo, ele disse:

— Tom e, pegue as chaves, é m elhor você dirigir. Ele está m e caçando. Está vindo.

Ela olhou em volta do estacionam ento do banco, em pânico.

— Não, ele ainda não está aqui — continuou Marty. — É com o antes. Essa sensação de estar no cam inho de algum a coisa m uito poderosa e veloz.

* * *

Dois quarteirões. Talvez não tão longe.

Dirigindo devagar. Exam inando a rua à frente, à esquerda e à direita. Procurando-os.

Um a buzina de carro soa atrás dele. O m otorista está im paciente.

Devagar, devagar, olhando de soslaio à direita e à esquerda, exam inando as pessoas nas calçadas, dentro dos carros que passam .

A buzina atrás dele. Ele faz gestos obscenos, que parecem assustar o suj eito, silenciando-o.

Devagar, devagar.

Nenhum sinal deles.

Tente o reostato m ental novam ente. Dessa vez, ligando em 60 graus. Ainda um forte contato, um a atração urgente e irresistível.

À frente. À esquerda. Shopping center.

* * *

Quando Marty entrou no assento da frente e bateu a porta, segurando os envelopes com dinheiro que as m eninas haviam recuperado, tornou a ser sacudido por um contato com O Outro. Em bora o im pacto da sondagem tenha sido m enos perturbador do que antes, ele não sentiu nenhum consolo pela redução de sua potência.

— Tire-nos dessa droga — instou ele a Paige, enquanto pegava a Beretta carregada debaixo do assento.

Paige ligou o m otor e Marty virou-se para as crianças, que estavam afivelando os cintos de segurança.

Quando Paige deu m archa a ré e saiu do estacionam ento, as m eninas encontraram os olhos de Marty. E ficaram assustadas.

Ele nutria um respeito grande dem ais pela percepção delas para m entir.

Em vez de fingir que tudo iria ficar bem , ele disse:

— Segurem -se. Sua m ãe vai tentar dirigir com o eu.

Enquanto dava a ré, Paige perguntou:

— De onde ele está vindo?

— Não sei. Mas trate de não voltar pelo m esm o cam inho que viem os. Sinto-m e intranquilo com isso. Use a outra rua.

* * *

Ele é atraído m ais para o banco do que para o shopping center, e estaciona próxim o à entrada leste.

Quando desliga o m otor, ouve um breve cantar de pneus. Pelo canto do olho, percebe um carro afastando-se rápido da extrem idade sul do prédio. Ele se vira e vê um BMW branco a vinte ou trinta m etros de distância. O carro dispara na direção do shopping center, passa por ele com o um raio.

Ele capta apenas um a parte do rosto do m otorista — um osso m alar, a linha da m andíbula, a curva de um queixo. E um vislum bre de cabelos dourados.

Às vezes, é possível identificar um a m úsica favorita apenas por três notas, porque a m elodia deixou um a im pressão indelével na m ente. Do m esm o m odo, pelo perfil parcial, vislum brado em m eio a um bruxuleio de luzes e som bras, no borrão do m ovim ento, ele reconhece sua preciosa esposa. Pessoas desconhecidas extirparam dele as lem branças dela, m as a fotografia que descobriu ontem está im pressa em seu coração.

— Paige — sussurra O Outro.

Liga o Cam ry, sai de ré do estacionam ento, e vira na direção do shopping center.

A grande extensão de pavim ento está vazia naquela hora, pois apenas o superm ercado, um a loj a de doces e outra de artigos de escritório estão abertos ao público. O BMW atravessa o estacionam ento em disparada, fazendo um a curva afastado dos poucos grupos de carros, em direção à estrada de serviço em frente às loj as. Ele vira à esquerda e se dirige para a extrem idade norte do shopping center.

Ele segue, m as não de m aneira agressiva. Se os perder, localizá-los de novo será um a questão fácil devido ao vínculo m isterioso m as confiável que há entre ele e o suj eito odioso que usurpou sua vida.

O BMW chega à saída norte e vira à direita na rua. No m om ento em que ele chega à m esm a interseção, o BMW j á está a dois quarteirões de distância, parado num sinal verm elho e quase sem poder ser avistado.

Durante m ais de um a hora, ele os segue discretam ente pelas ruas da área, para o norte nas estradas Santa Ana e Costa Mesa, depois para leste na Riverside Freeway, perm anecendo m uito atrás deles. Encolhido no intenso trânsito m atinal, o pequeno Cam ry é quase invisível.

Na Riverside Freeway, a oeste de Corona, ele im agina ligar a corrente psíquica entre ele e o falso pai. Im agina o reostato e gira cinco graus dos 360 possíveis. É o suficiente para ele sentir a presença do falso pai à frente no tráfego, em bora isso não lhe dê um a localização precisa. Seis graus, sete, oito. Oito é dem ais. Sete. Sete é o ideal. Com a chave aberta apenas sete graus, a atração é poderosa o bastante para lhe servir com o um a baliza, sem alertar o inim igo para o fato de que o vínculo foi restabelecido. No BMW o im postor viaj a para leste em direção a Riverside, tenso e vigilante, m as sem saber que está sendo m onitorado.

No entanto, na m ente do caçador, o sinal da presa é registrado com o um a luz verm elha piscando num m apa eletrônico.

Tendo dom inado o controle desse estranho poder aducente, ele pode golpear o falso pai com um certo nível de surpresa.

Em bora o suj eito no BMW aguarde um ataque e estej a fugindo para evitá-lo, tam bém está acostum ado a se prevenir do assalto. Quando tiver transcorrido um tem po suficiente sem nenhum a perturbação no éter, quando ele não sentir nenhum a sondagem perturbadora, recuperará a confiança. Com o retorno da confiança, sua cautela dim inuirá e ele se tornará vulnerável.

O caçador só precisa perm anecer na trilha, seguir o rastro, dar tem po ao tem po e esperar o m om ento ideal para atacar.

Quando atravessam Riverside, o tráfego m atinal se afina em torno deles. Ele se atrasa m ais ainda, até o BMW tornar-se um ponto distante e sem cor que às vezes desaparece tem porariam ente, com o um a m iragem , num brilho da luz do sol ou num redem oinho de poeira.

Para a frente e para o norte. Através de San Bernardino. Para a Interestadual 15. Para a extrem idade norte das Montanhas San Bernardino. Através do Desfiladeiro El Caj on a 1.200 m etros de altura.

Logo depois, ao sul da cidade de Hesperia, o BMW sai da interestadual e se dirige direto para o norte na Autoestrada federal 395, para a região m ais ocidental do am eaçador Deserto de Moj ave. Ele segue, perm anecendo a um a distância segura: eles não podem perceber que a pequena m ancha escura no retrovisor é o m esm o carro que os seguiu através de três condados.

Alguns quilôm etros m ais e ele passa por um sinal de estrada que indica a quilom etragem para Ridgecrest, Lone Pine, Bishop e Mam m oth Lakes. Mam m oth é a m ais distante — 388 quilôm etros.

O nom e da cidade provoca um a associação instantânea nele. Sua m em ória é eidética. Pode ver as palavras escritas na página da dedicatória de um dos rom ances de m istério, que escreveu e guarda nas prateleiras de seu escritório na casa de Mission Viej o:

Esta obra é para minha mãe e meu pai, Jim e Alice Stillwater, que me ensinaram a ser um homem honesto — e que não podem ser culpados por eu ser capaz de pensar como um criminoso.

Ele tam bém se lem bra do cartão Rolodex com os nom es e o endereço. Eles vivem em Mam m oth Lakes.

Mais um a vez, ele tem um a aguda consciência do que perdeu. Mesm o que possa reclam ar sua vida do im postor que usa seu nom e, talvez nunca recupere as m em órias que lhe foram roubadas. Sua infância. A adolescência. A prim eira nam orada. Suas experiências na escola secundária. Ele não tem nenhum a lem brança do am or de sua m ãe e de seu pai, e parece ultraj ante, monstruoso, que ele possa ter sido roubado dessas m em órias m ais essenciais e duradouras.

Continuar: parte 3 de 4