Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 7 de 9 · parte 3/4

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Sr. Assassino

Cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Durante m ais de noventa quilôm etros, ele se alterna entre o desespero com alienação, que é a qualidade prim ária de sua existência, e a alegria com a perspectiva de reclam ar seu destino.

Ele desej a desesperadam ente estar com seu pai, sua m ãe, ver seus rostos queridos (que foram apagados das lâm inas de sua m em ória), abraçá-los e restabelecer a profunda ligação entre ele e as duas pessoas a quem deve sua existência. Pelos film es que viu, sabe que os pais podem ser um a m aldição — a m ãe m aníaca que estava m orta antes da cena de abertura de Psicose, a m ãe egoísta e o pai que perverteram o pobre Nick Nolte em O Príncipe das Marés — m as ele acredita que seus pais sej am de um a variedade m ais refinada, com passivos e verdadeiros, com o Jim m y Stewart e Donna Reed em A Felicidade Não se Compra.

A estrada é flanqueada por lagos secos tão brancos com o sal, súbitas m uralhas de rocha verm elha, oceanos de areia esculpidos pelo vento, arbustos, planícies de boro, distantes escarpas de pedra escura. Em toda a parte há evidências de convulsões geológicas e fluxos de lava de m ilênios longínquos.

Na cidade de Red Mountain, o BMW sai da autoestrada e para num posto de serviços para reabastecer.

Ele segue até ter certeza da intenção deles, m as passa pelo posto de serviço sem parar. Eles têm arm as. Ele não. Logo encontrará um m elhor m om ento para m atar o im itador.

Reentrando na Autoestrada 395, ele roda para o norte um a pequena distância para Johannesburg, que está situada a oeste das Montanhas Lava. Sai de novo da estrada e abastece o Cam ry em outro posto de serviço. Nos autom áticos, com pra biscoitos crem e crackers, barras de doce e am endoim para sustentar-se durante a longa viagem que tem pela frente.

Ele está na estrada na frente do BMW, talvez porque Charlotte e Em ily tiveram que usar o banheiro na parada de Red Mountain. Mas isso não im porta, porque ele não precisa m ais segui-los. Ele sabe para onde estão indo.

Mam m oth Lakes, Califórnia.

Jim e Alice Stillwater. Que o ensinaram a ser um hom em honesto. Que não podem ser culpados por ele ser capaz de pensar com o um crim inoso. A quem dedicou um rom ance. Am ados. Queridos. Que foram roubados dele, m as que logo serão reclam ados.

Ele está ansioso para alistá-los em sua cruzada para recuperar a fam ília e seu destino. Talvez o falso pai possa enganar suas filhas, e talvez até Paige possa ser tapeada para aceitar o im postor com o o verdadeiro Martin Stillwater. Mas seus pais o reconhecerão com o seu verdadeiro filho, sangue de seu sangue, e não serão iludidos pelo astuto m im etism o daquela fraude que lhe roubava a fam ília.

Desde que entrou na Autoestrada 395, onde o tráfego é leve, o BMW m anteve um a velocidade constante de 95 a 100 km por hora, em bora a estrada perm itisse um a velocidade m ais alta em m uitas regiões. Agora, ele leva o Cam ry à frente a 120 e 130 km . Deve poder chegar em Mam m oth Lakes entre duas e duas e quinze, m eia hora a quarenta m inutos na frente do im postor, o que lhe dará tem po para alertar a m ãe e o pai sobre as m ás intenções da criatura que se fantasiava com o seu filho.

A autoestrada form a um ângulo em noroeste passando pelo Vale Indian Wells, com as Montanhas El Paso ao sul. Quilôm etro após quilôm etro, seu coração incha de em oção com a perspectiva de reunir-se a sua m ãe e seu pai, dos quais foi cruelm ente separado. Ele chega a sentir dor de tanta necessidade de abraçá-los e de aquecer-se no am or deles, o am or inquestionável, o am or eterno e perfeito.

8.

O helicóptero executivo Bell JetRanger, que conduziu Oslett e Clocker para Mam m oth Lakes, pertencia a um estúdio cinem atográfico filiado à Rede. Com assentos de couro de bezerro preto, acessórios de m etal e paredes da cabine acolchoadas com pele de lagarto verde-esm eralda, o am biente era m ais luxuoso do que o com partim ento de passageiros do Lear. O helicóptero tam bém oferecia um a coleção de leitura m ais divertida do que aquela disponível no j ato, inclusive as edições do dia de The Hollywood Reporter e Daily Variety, além das edições m ais recentes de Premier, Rolling Stone, Mother Jones, Forbes, Fortune, GQ, Spy, The Ecological Watch Society Journal e Bon Appétit.

Para ocupar seu tem po durante o voo, Clocker pegou outro rom ance Jornada nas Estrelas que havia com prado na loj a de presentes do Ritz-Carlton antes de sair do hotel. Oslett está convencido de que a difusão dessa literatura fantástica nas loj as tidas com o de bom gosto e adm inistradas com elegância de um hotel cinco estrelas — que antes era o lugar que cuidava das pessoas cultas e poderosas, não apenas dos ricos —, era um sinal alarm ante do colapso im inente da sociedade, com parando aos bem arm ados traficantes de cocaína e crack que vendiam sua m ercadoria nos pátios de escola.

Enquanto o JetRanger seguia para o norte através do Sequoia National Park, pelo King’s Cany on National Park, ao longo do flanco ocidental da Sierra Nevadas e, eventualm ente, direto para essas m ontanhas m agníficas, Oslett ficou andando de um lado para o outro do helicóptero, determ inado a não perder nada do deslum brante cenário. A vastidão abaixo era tão pouco povoada que poderia ter disparado sua aversão quase agorafóbica aos espaços abertos e paisagens rurais. Mas o terreno m udava a cada m inuto, apresentando novas m aravilhas e vistas m ais esplêndidas ainda num a velocidade rápida o bastante para entretê-lo.

Além disso, o JetRanger voava a um a altitude m uito m ais baixa do que o Lear, dando a Oslett um a sensação de abrupto m ovim ento para a frente. O interior do helicóptero era m ais barulhento e se sacudia com m ais vibrações do que o com partim ento de passageiros do j ato — o que ele tam bém gostava.

Ele cham ou a atenção de Clocker duas vezes para as m aravilhas naturais do outro lado das j anelas. Nas duas vezes, o grandalhão apenas olhou durante um ou dois segundos para o cenário e depois, sem com entar, voltou sua atenção para Amazonas de Seis Seios do Planeta Lodo.

— Que porra há de tão interessante nesse livro? — finalm ente Oslett perguntou, deixando-se cair no assento oposto ao de Clocker.

Depois de term inar o parágrafo que estava lendo, antes de levantar a vista, Clocker disse:

— Eu não poderia dizer.

— Por que não?

— Porque, m esm o que eu lhe dissesse o que acho interessante neste livro, não seria interessante para você.

— O que você quer dizer com isso?

Clocker encolheu os om bros.

— Acho que você não iria gostar.

— Eu odeio rom ances, sem pre odiei, especialm ente a ficção científica e m erdas com o essa.

— Está vendo?

— O que você quer dizer?

— Só que você acaba de confirm ar o que eu disse... que você não gosta de coisas assim .

— Claro que não.

Clocker encolheu os om bros de novo.

— Está vendo?

Oslett olhou fixo para ele. E disse gesticulando para o livro:

— Com o você consegue gostar desse lixo?

— Nós existim os em universos paralelos — disse Clocker.

— O quê?

— No seu, Johannes Gutenberg inventou o fliperam a.

— Quem ?

— No seu, talvez o suj eito m ais fam oso cham ado Faulkner foi um virtuose do banj o.

Oslett franziu as sobrancelhas:

— Nada dessa m erda está fazendo sentido para m im .

— Está vendo? — disse Clocker e voltou a atenção para Kirk e Spock Apaixonados, ou fosse lá qual fosse o título do épico.

Oslett queria m atá-lo. Dessa vez ele detectou, no padrão enigm ático de Karl Clocker, um desrespeito expresso de m aneira sutil, m as ainda um profundo desrespeito. Quis arrancar e incendiar o estúpido chapéu do grandalhão, com pena de pato e tudo, tirar-lhe a brochura da m ão e rasgá-la em pedacinhos e despej ar nele talvez m il balas 9m m de ponta oca à queim a-roupa.

Em vez disso, virou-se em direção à j anela para ser acalm ado pela m aj estade dos picos de m ontanha e florestas vistos a 240 km por hora.

Acim a deles, nuvens se m oviam vindo de noroeste. Redondas e cinzentas, iam com o esquadrilhas de dirigíveis rum o aos picos de m ontanha.

* * *

À 1:10 da tarde de terça-feira, num cam po de aviação nos arredores de Mam m oth Lakes, eles foram recebidos por um representante da Rede cham ado Alec Spicer. Ele estava esperando no pavim ento próxim o ao hangar de blocos de concreto e aço corrugado onde desceram .

Em bora ele conhecesse seus nom es verdadeiros e, portanto, tivesse um posto pelo m enos igual ao de Peter Waxhill, não estava vestido de m aneira tão im pecável, nem falava suave ou bem com o o cavalheiro que os inform ara durante o café da m anhã. E, ao contrário do m usculoso Jim Lom ax no Aeroporto John Way ne do condado de Orange, na noite anterior, deixou que levassem sua própria bagagem até o Ford Explorer verde que estava à sua disposição no estacionam ento atrás do hangar.

Spicer tinha cerca de cinquenta anos, 1,75m , oitenta quilos, cabelos cinza-ferro à escovinha. Seu rosto era todo liso e os olhos estavam ocultos atrás de óculos de sol, em bora o céu estivesse nublado. Usava botas de com bate, calças cáqui folgadas, cam isa cáqui e um a surrada j aqueta de aviador de couro com inúm eros bolsos com zíper. Sua postura ereta, m odos disciplinados e fala engolida identificavam -no com o um oficial do exército reform ado — talvez rebaixado — que não estava disposto a m udar de atitude hábitos ou guarda-roupa de m ilitar de carreira.

— Vocês não estão vestidos de m aneira adequada para Mam m oth — disse Spicer em tom brusco, quando cam inhavam para o Explorer, com a respiração saindo de sua boca com o vapor branco.

— Eu não sabia que estaria tão frio aqui — disse Oslett, trem endo de m odo incontrolável.

— Sierra Nevadas — disse Spicer. — Estam os a quase 2.400 m etros acim a do m ar. Dezem bro. Não pode esperar palm eiras, cam isas havaianas e piñas coladas.

— Eu sabia que estaria frio, m as não tão frio assim .

— Vocês vão congelar suas bundas — disse Spicer laconicam ente.

— Esse paletó é quente — disse Oslett na defensiva. — É de cashmere.

— Bom para você — com entou Spicer.

Ele abriu a porta traseira do Explorer e deu um passo para o lado para que eles colocassem a bagagem no espaço de carga.

Spicer sentou-se atrás do volante. Oslett sentou-se no banco do carona. No assento traseiro, Clocker retom ou a leitura de A Flatulenta Ferocidade de Ganimede.

Enquanto saía do cam po de aviação para a cidade, Spicer ficou calado durante algum tem po. Depois:

— Esperam os nossa prim eira neve da tem porada para o fim do dia.

— O inverno é m inha estação do ano favorita — disse Oslett.

— Talvez não goste tanto com neve até sua bunda e esses belos sapatos oxfords ficando tão duros com o tam anco holandês de m adeira.

— Você sabe quem eu sou? — perguntou Oslett, im paciente.

— Sim , senhor — disse Spicer, engolindo as palavras m ais do que de hábito, m as inclinando um pouco a cabeça num sutil reconhecim ento de sua posição inferior.

— Ótim o — disse Oslett.

Em alguns lugares, sem pre-vivas altas enchiam os dois lados da estrada. Muitos dos hotéis, restaurantes e bares de beira de estrada vangloriavam -se de sua arquitetura alpina de im itação, e em alguns casos os nom es incorporavam palavras que evocavam im agens m entais de film es tão diferentes com o A Noviça Rebelde e veículos de Clint Eastwood: Bávaro isso, Suíça aquilo, Eiger, Matterhom , Genebra, Hofbrau.

— Onde é a casa dos Stillwater? — perguntou Oslett.

— Estam os indo para o hotel de vocês.

— Pelo que entendi, há um a unidade de vigilância paquerando a casa dos Stillwater — insistiu Oslett.

— Sim , senhor. Do outro lado da rua, num a cam ionete com vidros pintados.

— Quero j untar-m e a eles.

— Não é um a boa ideia. Essa é um a cidade pequena. Não chega a ter cinco m il pessoas, se não contarm os os turistas. Muita gente entrando e saindo de um a cam ionete estacionada num a rua residencial... vai cham ar atenção.

— Então, o que você sugere?

— Telefone para a equipe de vigilância, avise onde eles podem encontrá-lo. Depois aguarde no hotel. No m inuto que Martin Stillwater ligar para sua fam ília ou aparecer em sua porta... você será notificado.

— Ele ainda não telefonou?

— O telefone deles tocou várias vezes nas últim as horas, m as eles não estão em casa para atender, de m odo que não sabem os se é ou não o filho.

Oslett ficou incrédulo.

— Eles não têm secretária eletrônica?

— O ritm o da vida aqui não requer que se tenha um a.

— Incrível. Bem , se não estão em casa, onde estão?

— Foram às com pras hoj e de m anhã, e não faz m uito tem po pararam para alm oçar num restaurante na Route 203. Devem chegar em casa dentro de um a hora m ais ou m enos.

— Estão sendo seguidos?

— Claro.

Esperando a torm enta prevista, esquiadores j á estavam chegando na cidade carregando seus esquis nas costas. Oslett viu um adesivo de para-choque onde estava escrito: MINHA VIDA É TODA MONTANHA ABAIXO — E EU ADORO!

Quando pararam num sinal verm elho atrás de um a perua, que parecia estar abarrotada de m ulheres j ovens e louras com suéteres de esqui num núm ero suficiente para povoar m eia dúzia de com erciais de cervej a ou de bálsam o para lábios, Spicer disse:

— Ouviu sobre a puta em Kansas City ?

— Estrangulada — disse Oslett. — Mas não há nenhum a prova de que nosso garoto tenha feito isso, m esm o que alguém parecido com ele tenha saído do bar acom panhado por ela.

— Então você não sabe da últim a. Am ostra de esperm a chegou em Nova York. Foi exam inada. É do nosso garoto.

— Eles têm certeza?

— Positivo.

Os picos das m ontanhas desapareciam no céu que baixava. A cor das nuvens havia aprofundado do m atiz de aço esm erilhado para um cinza sarapintado e preto-hulha.

O hum or de Oslett tam bém ficou m ais som brio.

O sinal de trânsito m udou para verde.

Seguindo o carro cheio de louras através do cruzam ento, Alec Spicer disse:

— Portanto, ele é capaz de fazer sexo.

— Mas ele foi proj etado para ser... — Oslett não pôde term inar a frase. Já não tinha m ais nenhum a fé no trabalho da engenharia genética.

— Até aqui — disse Spicer —, através de contatos na polícia, a m atriz com pilou um a lista de quinze hom icídios envolvendo assalto sexual, que podem ser atribuídos ao nosso garoto. Casos não resolvidos. Mulheres j ovens e atraentes. Em cidades que ele visitou, em m om entos em que estava lá. Método de operação sem elhante em todos os casos, incluindo extrem a violência depois que a vítim a estava inconsciente, às vezes com um a pancada na cabeça, m as em geral com um soco na cara... evidentem ente para assegurar o silêncio durante o verdadeiro assassinato.

— Quinze — m urm urou Oslett estarrecido.

— Talvez m ais. Talvez m uito m ais. — Spicer desviou o olhar da estrada e olhou para Oslett. Seus olhos não só eram im possíveis de ser interpretados, com o tam bém estavam inteiram ente ocultos atrás dos óculos de sol de lentes m uito escuras. — E é m elhor que ele tenha m atado todas as m ulheres que fodeu.

— O que quer dizer?

Spicer disse, voltando a olhar para a estrada:

— Ele tem um a alta dosagem de esperm a. Um esperm a ativo. Ele é fértil.

Em bora não pudesse adm itir para si m esm o, Oslett tinha certeza de que essa m á notícia estava a cam inho, até que Spicer disse em voz alta.

— Sabe o que isso significa? — perguntou Spicer.

Do assento traseiro, Clocker disse:

— O prim eiro clone hum ano operativo da geração Alfa é um renegado em processo de m utação, de um a m aneira que não podem os com preender, que corre o risco de contagiar os genes hum anos com m aterial genético capaz de gerar um a raça nova e hostil de superseres quase invulneráveis.

Por um m om ento, Oslett pensou que Clocker estava lendo um a linha de seu atual rom ance Jornada nas Estrelas, depois percebeu que ele fizera um resum o sucinto da natureza da crise.

— Se nosso garoto não desperdiçou cada bim bada que deu com as nam oradas, se fez alguns bebês que por algum a razão não foram abortados — m esm o que sej a apenas um bebê — nós estam os m ergulhados na m erda. Não apenas nós três, não apenas a Rede, m as sim toda a raça hum ana — concluiu Spicer.

9.

Dirigindo-se ao norte através do Vale Owens, com as Montanhas Iny o a leste e a im ponente Sierra Nevadas a oeste, Marty descobriu que o telefone celular nem sem pre funcionava com o devia, por causa da topografia dram ática que interferia nas transm issões de m icroondas. E nas ocasiões em que conseguiu fazer um a cham ada para a casa dos pais em Mam m oth, o telefone tocava e tocava sem ser atendido.

Após dezesseis toques, ele apertou o botão END, interrom pendo a ligação:

— Ainda não estão em casa.

O pai estava com 66 e a m ãe com 65 anos. Tinham sido professores de escola, e am bos se aposentaram no ano anterior. Ainda eram j ovens pelos padrões m odernos, saudáveis e vigorosos, apaixonados pela vida, de m odo que não era nenhum a surpresa que estivessem na rua e não passando o dia em casa, num par de poltronas, assistindo aos program as de j ogos e novelas da televisão.

— Quanto tem po vam os ficar com vovó e vovô? — perguntou Charlotte no assento traseiro. — Tem po suficiente para ela m e ensinar a tocar violão tão bem quanto ela? Estou ficando m uito boa no piano, m as acho que gostaria de tocar violão tam bém , e vou ser um a m úsica fam osa, que acho que posso m e interessar em ser... ainda estou deixando m inhas opções em aberto... então seria m uito m ais fácil de levar m inha m úsica por aí, j á que não se pode exatam ente carregar um piano nas costas por aí.

— Não vam os ficar na casa de vovó e vovô — disse Marty. — Na verdade, nem vam os passar lá.

Charlotte e Em ily gem eram desapontadas.

— Podem os visitá-los m ais tarde — disse Paige —, dentro de alguns dias. Verem os. Neste exato m om ento, estam os indo para a cabana.

— Oba! — entusiasm ou-se Em ily.

— Está bem — aprovou Charlotte.

Marty ouviu-as estalar as m ãos, num a saudação com os cinco dedos abertos.

A cabana que sua m ãe e seu pai possuíam desde que Marty era garoto estava aninhada nas m ontanhas, a alguns quilôm etros de distância de Mam m oth Lakes, entre a cidade e os lagos, não m uito longe do povoam ento m enor ainda de Lake Mary. Era um lugar acolhedor, no qual seu pai havia expandido o prédio original com o correr dos anos, protegido por pinheiros e abetos com trinta m etros de altura. Para as m eninas que haviam sido criadas na confusão suburbana do condado de Orange, a cabana era tão especial quanto qualquer chalé encantado de um conto de fadas.

Marty precisava de alguns dias para pensar antes de tom ar qualquer decisão sobre o que fazer em seguida. Queria exam inar as notícias e ver com o continuava a se desenrolar a história sobre ele; nos m eios de com unicação que tratavam do assunto, ele era capaz de avaliar o poder, se não a identidade de seus verdadeiros inim igos, que certam ente não se lim itavam ao sósia m isterioso e enlouquecido que invadira sua casa.

Eles não podiam ficar na casa de seus pais. Ela era acessível dem ais a repórteres, caso a história continuasse crescendo com o um a bola de neve. Tam bém era acessível aos conspiradores desconhecidos por trás do sósia, que haviam feito com que um pequeno artigo sobre um assalto tivesse grande cobertura de im prensa, pintando-o com o um hom em de estabilidade duvidosa.

Além disso, ele não queria pôr a m ãe e o pai em risco, indo abrigar-se com eles. Na verdade, quando conseguisse com pletar um a ligação, insistiria para que os dois fizessem as m alas, de im ediato, em barcassem no motorhome e saíssem de Mam m oth Lakes durante algum as sem anas, talvez m ais tem po. Enquanto estivessem viaj ando, m udando de camping a cada um a ou duas noites, ninguém poderia tentar chegar até ele através deles.

Desde a tentativa do contato no banco em Mission Viej o, Marty não havia sido subm etido a m ais nenhum a sondagem do Outro. Tinha esperança de que a pressa e decisão com que haviam fugido para o norte tivessem garantido segurança para eles. Mesm o a clarividência ou telepatia — ou que droga fosse — devia ter seus lim ites. Caso contrário, eles haviam topado não apenas com um fantástico poder m ental, m as com pura m ágica; enquanto que Marty podia ser levado, pela experiência, a acreditar na possibilidade de habilidades paranorm ais, sim plesm ente não podia acreditar em m ágica. Após ter colocado centenas de quilôm etros entre eles e O Outro, era provável que estivessem além do alcance de seu sexto sentido farej ador. As m ontanhas que periodicam ente interferiam na operação do telefone celular tam bém podiam isolá-los da detecção telepática.

Talvez fosse m ais seguro ficar longe de Mam m oth Lakes e esconder-se num a cidade com a qual não tivessem vínculos. Entretanto, ele optou pela cabana porque, m esm o aqueles que pudessem visar a casa de seus pais com o possível refúgio para ele, não teriam conhecim ento daquele abrigo, e seria im provável que soubessem dele por acaso. Além disso, dois de seus am igos da antiga escola secundária tinham sido subxerifes do condado de Mam m oth durante um a década, e a cabana ficava próxim a à cidade na qual ele crescera e onde ainda era bem conhecido. Com o garoto da cidade natal que nunca fora arruaceiro na j uventude, ele podia esperar que as autoridades o levassem a sério e lhe dessem m aior proteção, caso O Outro tentasse contatá-lo de novo. No entanto, num lugar estranho, ele seria um forasteiro, visto com m ais suspeita do que a que o detetive Cy rus Lowbock exibira. Perto de Mam m oth Lakes, se o pior acontecesse, ele não se sentiria tão isolado e perdido com o sabia que se sentiria em qualquer outro lugar.

— Podem os ter tem po ruim pela frente — disse Paige.

Grande parte do céu estava azul a leste, m as m assas de nuvens escuras se avolum avam atrás dos picos e nos desfiladeiros de Sierra Nevadas a oeste.

— É m elhor parar num posto de gasolina em Bishop — disse Marty — para descobrir se a patrulha da estrada está exigindo correntes para subir a Mam m oth.

Talvez ele devesse dar boas-vindas a um a forte nevada. Ela isolaria ainda m ais a cabana, deixando-os m enos acessíveis aos inim igos que os estivessem caçando. Mas Marty só se sentiu inquieto com a perspectiva de um a torm enta. Se a sorte não estivesse com eles, podia chegar um m om ento em que precisassem sair às pressas de Mam m oth Lakes. As estradas fechadas por um a nevasca podiam causar um a dem ora longa o bastante para causar a m orte deles.

Charlotte e Em ily queriam brincar de Olha Quem é o Macaco Agora, um j ogo de palavras que Marty inventara alguns anos antes para entretê-las em longas viagens de carro. Já haviam brincado duas vezes desde que saíram de Mission Viej o. Paige recusou-se a j untar-se a eles, alegando a necessidade de concentrar a atenção na direção, e Marty acabou sendo o m acaco com m ais frequência do que de praxe, porque a preocupação não perm itia que se concentrasse no j ogo.

As áreas m ais altas da Sierra desapareciam na brum a. As nuvens escureciam cada vez m ais, com o se os fogos do sol oculto queim assem em extinção, deixando apenas ruínas carbonizadas nos céus.

10.

Os donos do m otel referiam -se a seu estabelecim ento com o um aloj am ento. Os prédios eram abraçados pelos galhos de Coníferas de trinta m etros, pinheiros m enores e lariços. O desenho era propositalm ente rústico.

Os quartos não poderiam ser com parados com os do Ritz-Carlton, claro, e a tentativa do desenhista de interiores de cham ar a Baviera à m ente com os painéis de pinho com nós e m obílias atarracadas de m adeira foi insípida, m as m esm o assim Drew Oslett achou as acom odações agradáveis. Um a lareira de pedra de grande tam anho, na qual j á se encontravam toros e m aterial para iniciar o fogo, era especialm ente atraente; m inutos depois de sua chegada, o fogo j á queim ava.

Alec Spicer telefonou para a equipe de vigilância posicionada num a cam ionete no outro lado da rua da casa dos Stillwater. Usando um a linguagem tão enigm ática quanto algum as das declarações de Clocker, ele inform ou que os operadores de Alfie estavam agora na cidade e podiam ser encontrados no m otel.

— Nenhum a novidade — disse Spicer quando desligou o telefone. — Jim e Alice Stillwater ainda não estão em casa. O filho e sua fam ília tam bém não apareceram e, claro, não há nenhum sinal do nosso garoto.

Spicer acendeu todas as luzes do quarto e abriu as cortinas porque ainda estava com os óculos de sol, apesar de haver tirado a j aqueta de couro de aviador. Oslett suspeitava que Alec Spicer não tirava os óculos nem para fazer sexo — e talvez nem quando ia para a cam a à noite.

Os três se sentaram em cadeiras giratórias em volta de um a pequena m esa de j antar de pinho espinha-de-arenque na pequena cozinha. A j anela com m ainel próxim a oferecia um a vista para a descida cheia de árvores atrás do m otel.

De um a pasta de couro negro, Spicer retirou vários artigos que Oslett e Clocker iriam precisar para encenar as m ortes da fam ília Stillwater da m aneira com o a m atriz desej ava.

— Dois rolos de fio trançado — disse ele, colocando em cim a da m esa um par de carretéis enrolados em plástico. — Am arrem os pulsos e tornozelos das filhas com isso. Bem apertado. Firm e o bastante para doer. Foi assim no caso em Mary land.

— Está bem — disse Oslett.

— Não corte o fio — instruiu Spicer. — Depois de am arrar os pulsos, leve o m esm o fio até os tornozelos. Um rolo para cada m enina. Tam bém foi assim em Mary land.

O próxim o artigo retirado da pasta foi um a pistola.

— É um a SIG nove m ilím etros — disse Spicer. — Desenhada pelo fabricante suíço, m as m anufaturada por Sauer na Alem anha. Um a arm a m uito boa.

Oslett aceitou a SIG:

— Vai ser com isso que liquidarem os a m ulher e as m eninas?

Spicer concordou com um aceno de cabeça.

— Depois o próprio Stillwater.

Oslett fam iliarizou-se com a arm a, enquanto Spicer retirava da pasta um a caixa de m unição de 9 m m .

— Foi essa m esm a arm a que o pai usou em Mary land?

— Exato — disse Spicer. — Os registros indicarão que Martin Stillwater com prou há três sem anas na m esm a loj a de arm as em que adquiriu o resto de seu arm am ento. Tem um em pregado que foi pago para se lem brar de ter vendido a ele.

— Legal.

— A caixa em que essa arm a veio e a nota da venda j á foram plantadas nos fundos de um a das gavetas da escrivaninha no escritório dom éstico de Stillwater, na casa de Mission Viej o.

Sorrindo, cheio de autêntica adm iração, com eçando a acreditar que iriam salvar a Rede, Oslett falou:

— Soberba atenção ao detalhe.

— Sem pre — confirm ou Spicer.

A com plexidade m aquiavélica do plano encantou Oslett tal com o os elaborados esquem as de Wile E. Coy ote nos desenhos de Road Runner o fascinaram quando criança — só que, nesse caso, os coiotes eram os inevitáveis vencedores. Ele olhou de soslaio para Karl Clocker, esperando que ele tam bém estivesse encantado.

O Trekker lim pava as unhas com a lâm ina de um canivete. Sua expressão era som bria. Por todos os indícios, sua m ente estava pelo m enos a dois parsecs e duas dim ensões de Mam m oth Lakes, Califórnia.

Spicer tirou da pasta um a sacola de plástico Ziploc, que continha um a folha de papel dobrada.

— É um bilhete de suicídio. Forj ado. Mas tão bem -feito que qualquer grafologista ficaria convencido de que foi escrito pelo próprio punho de Stillwater.

— O que diz? — perguntou Oslett.

Spicer falou de m em ória:

— Tem um verm e. Cavando por dentro. Todos nós contam inados. Escravizados. Parasitas dentro. Não podem os viver desse j eito. Não podem os viver.

— É do caso de Mary land? — perguntou Oslett.

— Palavra por palavra.

— O cara estava piradaço.

— Não vou discutir com você sobre isso.

— Vam os deixar isso ao lado do corpo?

— Exatam ente. Só pegue nele com luvas. E pressione os dedos de Stillwater em todo o papel depois que você o tiver m atado. O papel tem um revestim ento duro e liso. Vai aceitar bem as im pressões.

Spicer enfiou a m ão na pasta m ais um a vez e retirou outra sacola Ziploc contendo um a caneta preta.

— Pentel Rolling Writer — disse Spicer. — Tirada de um a caixa de um a gaveta da escrivaninha de Stillwater.

— Foi com isso que ele escreveu o bilhete de suicídio?

— Foi. Deixe em qualquer lugar perto do corpo, com a tam pa fora.

Sorrindo, Oslett exam inou o conj unto de artigos em cim a da m esa.

— Vai ser m uito divertido.

* * *

Enquanto esperavam um alerta da equipe de vigilância que espreitava a casa de Stillwater pai, Oslett arriscou um a cam inhada até um a loj a de esqui num aglom erado de loj as e restaurantes do outro lado da rua do m otel. No pouco tem po em que estiveram no quarto, o ar parecia ter ficado m ais cortante e o céu parecia ter equim oses.

As m ercadorias da loj a eram de prim eira qualidade. Em pouco tem po, ele conseguiu equipar-se com roupa de baixo térm ica, bem -feita, im portada da Suécia, e um a roupa preta para tem pestade Hard Corps-Tex/Therm olite. A roupa tinha um forro prateado refletivo, capuz dobrável, j oelhos form ados anatom icam ente, proteção balística de náilon, bainha isolada para neve com listras em borrachadas e bolsos em núm ero suficiente para satisfazer um m ágico. Por cim a, ele usou um colete cor de púrpura U.S. Freesty le Team com isolam ento térm ico, forro refletivo, braçadeiras elásticas e om bros reforçados. Tam bém com prou luvas — couro italiano e náilon, quase tão flexíveis quanto um a segunda pele. Pensou em com prar óculos de proteção de alta qualidade, m as decidiu-se por um par de óculos de sol, j á que não tencionava verdadeiram ente subir os m orros. Suas pavorosas botas de esqui pareciam algo que um robô exterm inador usaria para abrir a chutes o cam inho através de paredes de bloco de concreto.

Ele sentiu-se incrivelm ente rij o.

Com o foi necessário experim entar cada peça de roupa, ele aproveitou a oportunidade para m udar as roupas com que entrara na loj a. Am ável, o em pregado dobrou as roupas dentro de um a sacola de com pras, que Oslett carregou quando partiu para a cam inhada de volta ao m otel com seu novo equipam ento.

No m esm o m inuto, sentiu-se m ais otim ista com suas perspectivas. Nada com o um a farra de com pras para levantar o ânim o.

Quando voltou ao quarto, em bora tivesse se ausentado durante m eia hora, não havia nenhum a novidade.

Spicer estava sentado num a poltrona, ainda usando óculos de sol, assistindo a um talk show. Um a m ulher negra, troncuda, com cabelo enorm e, entrevistava quatro hom ens, vestidos com roupas m istas, que haviam tentado se alistar, com o m ulheres, no Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos, e tinham sido rej eitados, em bora parecessem acreditar que o presidente tencionava intervir em seu favor.

Clocker, claro, estava sentado a um a m esa ao lado da j anela, na cascata de luz prateada pré-torm enta, lendo Mirtilo Kirk e as Putas Transpirantes de Alfa Centauri, ou fosse lá qual fosse o m aldito título do livro. Sua única concessão ao clim a de Sierra tinha sido a troca do suéter-colete padrão arlequim para um suéter de cashmere de m anga com prida num tom de laranj a de revirar o estôm ago.

Oslett levou a pasta preta para um dos quartos de dorm ir que flanqueavam a sala de estar. Esvaziou o conteúdo em cim a de um a das cam as de tam anho gigante, sentou-se no colchão de pernas cruzadas, tirou os óculos de sol novos, e exam inou os espertos adereços que garantiriam , depois da m orte de Martin Stillwater, a convicção de m últiplo assassinato e suicídio.

Tinha um a série de problem as para resolver, inclusive com o m atar toda aquela gente com a m enor quantidade de barulho. Não estava preocupado com os tiros, que poderiam ser abafados de um a m aneira ou de outra. Eram os gritos que o preocupavam . Dependendo do local do encontro, podia haver vizinhos. Se fossem alertados, eles cham ariam a polícia.

Após alguns m inutos, ele colocou os óculos de sol e saiu na sala de estar, interrom pendo o program a de televisão que Spicer assistia.

— Nós os elim inam os, depois que delegacia de polícia vai tratar do caso?

— Se acontecer aqui — disse Spicer —, é provável que sej a o departam ento do xerife do condado de Mam m oth.

— Tem os algum am igo lá?

— Não agora, m as tenho certeza de que poderíam os ter.

— Médico-legista?

— Aqui na roça... é provável que sej a apenas um agente funerário local.

— Sem nenhum a form ação forense?

— Ele saberá diferenciar um buraco de bala de um olho do cu, m as só isso.

— Quer dizer que se elim inarm os prim eiro a m ulher e Stillwater, ninguém será sofisticado o suficiente para detectar a ordem dos hom icídios?

— Os laboratórios forenses das grandes cidades teriam dificuldades para fazer isso se a diferença fosse, digam os, de m enos de um a hora.

— O que penso é — disse Oslett — ... se tentarm os tratar prim eiro das crianças, terem os um problem a com Stillwater e sua m ulher.

— E daí?

— Um de nós dois pode vigiar os pais enquanto o outro leva as crianças para um quarto diferente. Mas tirar a roupas das m eninas, am arrar m ãos e tornozelos... vai levar uns dez, quinze m inutos, com o em Mary land. Mesm o que estej am os vigiando Stillwater e a m ulher com um a arm a, eles não ficarão sentados quietos. Os dois vão m e atacar, ou atacar Clocker, quem estiver vigiando, e j untos podem levar vantagem .

— Duvido — disse Spicer.

— Com o pode ter certeza?

— Hoj e em dia as pessoas não têm “peito”.

— Stillwater lutou com Alfie.

— É verdade — adm itiu Spicer.

— Quando a m ulher tinha dezesseis anos, encontrou o pai e a m ãe m ortos. O velho m atou a m ãe, depois se suicidou...

Spicer sorriu.

— Bela ligação com nosso cenário.

Oslett não havia pensado nisso.

— Boa questão. Tam bém poderia explicar por que Stillwater não conseguiu escrever o rom ance baseado no caso de Mary land. Em todo caso, três m eses depois, ela fez um a petição ao tribunal para ser liberada de sua guardiã e declarada adulta legal.

— Puta forte.

— O tribunal concordou. Aceitou a petição.

— Então, liquide os pais prim eiro — aconselhou Spicer, m udando de posição na poltrona com o se as nádegas tivessem ficado dorm entes.

— É isso que vam os fazer — concordou Oslett.

— Isso é um a porra de loucura — afirm ou Spicer.

Por um m om ento, Oslett pensou que Spicer estivesse com entando sobre os planos para os Stillwater. Mas ele se referia ao program a de televisão, ao qual sua atenção voltara outra vez.

No talk show, a apresentadora de cabelo grande conduzira para fora os hom ens com roupas de m ulher e apresentava um novo grupo de convidados. Quatro m ulheres com cara de raiva estavam sentadas no palco. Todas usavam chapéus estranhos.

Quando Oslett saiu da sala, viu Clocker pelo canto do olho. O Trekker ainda estava à m esa j unto à j anela, grudado no livro, m as Oslett não deixou que o grandalhão estragasse seu hum or.

No quarto de dorm ir, sentou-se na cam a de novo, em m eio a seus brinquedos, tirou os óculos de sol e, com ar de felicidade, encenou e reencenou os hom icídios em sua m ente, planej ando para cada contingência.

Lá fora, o vento aum entou. Soava com o lobos.

11.

Ele para num posto de serviços para perguntar os endereços, dos quais se recorda do cartão Rolodex. O j ovem frentista consegue aj udá-lo.

Às 2:10 ele entra no bairro onde evidentem ente cresceu. Os terrenos são grandes com num erosos vidoeiros desfolhados pelo inverno e um a grande variedade de sem pre-vivas.

A casa de sua m ãe e de seu pai fica no m eio do quarteirão. É um a estrutura m odesta, de dois andares, sarrafos de revestim ento brancos e venezianas verde-floresta. A profunda varanda da frente tem pesados balaústres brancos, um corrim ão verde e faixas recortadas no beirai.

O lugar parece cálido e acolhedor. É com o um a casa de um film e antigo. Jim m y Stewart podia m orar nela. Sabe-se, à prim eira vista, que um a fam ília adorável vive lá dentro, pessoas decentes com m uito a com partilhar, m uito a dar.

Ele não consegue lem brar coisa algum a do quarteirão, m enos ainda da casa onde, ao que parece, passou a infância e a adolescência. Ela bem podia ser residência de com pletos estranhos num a cidade que ele nunca havia visto até esse dia.

Ele está enfurecido com a extensão da lavagem cerebral que lhe fizeram , privando-o de preciosas m em órias. Os anos perdidos o perseguiam . A total separação daqueles a quem ele am a é tão cruel e devastadora que está a ponto de chorar.

Entretanto, ele reprim e a raiva e a aflição. Não pode dar-se ao luxo de ser em ocional enquanto a situação perm anecer precária.

A única coisa que ele reconhece nas vizinhanças é um a cam ionete estacionada do outro lado da rua da casa dos pais. Nunca viu aquela cam ionete particular, m as conhece o tipo. A visão o deixa alarm ado.

É um veículo de passeio. Verm elho m açã caram elada. O porta-estepe estendido proporciona um interior m ais espaçoso. Teto oval abobadado. Enorm es abas para barro com letras crom adas: CAMINHÃO DE BRINQUEDO. O para-choque traseiro ostenta adesivos superpostos retangulares, redondos e triangulares recordando visitas ao Yosem ite National Park, em Yellowstone, ao Rodeio Anual de Calgary, Las Vegas, à Represa Boulder e a outras atrações turísticas. Faixas decorativas paralelas, verdes e pretas, ondulam ao longo da lateral, interrom pidas por um par de j anelas espelhadas.

Talvez a cam ionete sej a apenas o que aparenta ser, m as à prim eira vista ele está convencido de que é um posto de vigilância. Para com eçar, o veículo parece agressivamente recreativo, ostentoso. Com seu treinam ento em técnicas de vigilância, ele sabe que às vezes esses veículos procuram declarar sua inofensividade cham ando a atenção para si, porque os obj etos potenciais de vigilância esperam que um veículo de “paquerar” sej a discreto, e j am ais im aginariam que estão sendo vigiados por, digam os, um vagão de circo. Depois tem a questão das j anelas espelhadas na lateral, que perm ite que as pessoas de dentro vej am sem serem vistas, m as que tam bém é ideal para operações clandestinas.

Ele não dim inui a velocidade ao se aproxim ar da casa dos pais, e se esforça para não dem onstrar interesse na residência ou na cam ionete verm elho m açã caram elada. Ao passar pelas j anelas espelhadas, ele tam bém consegue esconder o rosto, coçando a testa com a m ão direita.

Os ocupantes da cam ionete — se houvessem ocupantes — devem ser em pregados daquela gente desconhecida que o m anipulou de m aneira tão im piedosa até Kansas City. São um vínculo com seus superiores. Ele está tão interessado neles com o em restabelecer o contato com a am ada m ãe e o pai.

Continuar: parte 4 de 4