Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 7 de 9 · parte 4/4

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Sr. Assassino

Cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Dois quarteirões depois, ele vira à direita na esquina e se dirige de volta a um a área com ercial próxim a ao centro da cidade, onde antes passou por um a loj a de m aterial esportivo. Sem arm a de fogo, e sem poder com prar um a com silenciador, ele precisa obter um par de arm as sim ples.

* * *

O telefone do quarto de m otel tocou às 2:20.

Oslett colocou os óculos de sol, saltou para fora da cam a e foi até o vão da porta da sala de estar.

Spicer atendeu o telefone, ouviu, m urm urou um a palavra que podia ter sido “bom ” e desligou. Virando-se para Oslett, disse:

— Jim e Alice Stillwater acabam de voltar do alm oço.

— Vam os esperar que Marty ligue para eles agora.

— Ele vai ligar — disse Spicer em tom confiante.

Enfim levantando a vista do livro, Clocker falou:

— Por falar em alm oço, estam os atrasados.

— A geladeira da cozinha está abarrotada de coisas — disse Spicer. — Frios sortidos, salada de batata, salada de m acarrão, bolo de queij o. Não vam os m orrer de fom e.

— Nada para m im — disse Oslett. Estava excitado dem ais para com er.

* * *

No m om ento em que retorna à vizinhança em que m oram seus pais são 2:45, m eia hora depois que partiu. Ele tem aguda consciência dos m inutos que se passam . O pai falso, Paige e a m eninas poderiam chegar a qualquer instante. Mesm o que depois de Red Mountain tenham feito outra parada para ir ao banheiro, ou ainda que não tenham m antido um a velocidade tão alta com o quando ele os seguia, com certeza chegariam em m enos de quinze ou vinte m inutos.

Ele quer desesperadam ente ver os pais antes que o im postor traiçoeiro chegue até eles. Precisa prepará-los para o que aconteceu e recrutar a aj uda deles na batalha para recuperar sua m ulher e filhas. Está apreensivo com a possibilidade do em busteiro chegar prim eiro até eles. Se aquela criatura conseguiu insinuar-se tão com pletam ente com Paige, Charlotte e Em ily, talvez haj a um risco, m esm o que pequeno, de que ele tam bém vença m am ãe e papai.

Quando vira na esquina do quarteirão onde passou a infância não lem brada, j á não está m ais dirigindo o Cam ry que roubou em Laguna Hills ao am anhecer. Está na cam ionete de entrega de um florista, um a feliz aquisição que fez à força depois de deixar a loj a de m aterial esportivo.

Ele fez um bocado de coisa em m eia hora. No entanto, o tem po está passando.

Em bora o dia estej a cada vez m ais som brio, ele dirige com o visor de sol arriado. Está usando um quepe de beisebol puxado para baixo, cobrindo a testa, e um a j aqueta de universidade com forro de lã, que pertence ao j ovem que faz as entregas da Murchison’s Flowers. Disfarçado pelo visor de sol e pelo quepe, ele não será identificado por alguém que o estej a observando atrás do volante.

Ele se aproxim a do m eio-fio e estaciona bem atrás do veículo de passeio, no qual suspeita que está escondida um a equipe de vigilância. Salta de seu carro e cam inha rápido até a traseira, sem dar tem po para ser observado.

O veículo tem um a única porta traseira. As dobradiças precisam de lubrificação; elas rangem .

O entregador m orto está deitado de costas, no chão da parte de carga. As m ãos estão dobradas no peito e ele está cercado de flores, com o se j á estivesse em balsam ado e disponível para a visita dos acom panhantes do enterro.

De um a sacola de plástico ao lado do cadáver, ele retira o m achado de gelo que adquiriu no extenso balcão de equipam ento para escaladas na loj a de m aterial esportivo. A ferram enta de aço de um a peça tem um punho de borracha no cabo. Um a das extrem idades tem a form a e o tam anho de um m artelo de tachas, ao passo que a outra apresenta um a ponta afiada. Ele enfia o cabo na cintura do jeans.

Da m esm a sacola de plástico, ele retira um a lata de aerossol de um produto quím ico descongelante. Quando borrifado sobre um a pedra de gelo, este descongela rapidam ente. Se aplicado em vidro, fechaduras e lim padores de para-brisas de um veículo antes de um a nevasca, é garantido que im pedirá a form ação de gelo. Pelo m enos é isso que o rótulo prom ete. Mas isso não o preocupa: para o que ele desej a não im porta se o produto funciona ou não.

Ele retira a tam pa da lata pressurizada, expondo o bico. Há duas posições: BORRIFO e JORRO. Ele posiciona em JORRO, depois desliza a lata para dentro do bolso da j aqueta de universidade.

Entre as pernas do cadáver há um enorm e arranj o de rosas, cravos, delicadas gipsófilas e sam am baias num recipiente verde-resedá. Ele o retira da cam ionete, segurando com as duas m ãos, e fecha a porta com o om bro.

Carregando o arranj o de um a m aneira totalm ente natural, m as ainda assim ocultando seu rosto dos observadores na cam ionete verm elha, ele cam inha até a porta da casa diante da qual os dois veículos estão estacionados. As flores não estão destinadas a ninguém desse endereço. Ele espera que não haj a ninguém em casa. Se alguém atender, ele fingirá que descobriu estar na casa errada, de m odo a poder retornar à rua com o arranj o ainda cobrindo o seu rosto.

Ele está com sorte. Ninguém atende à cam painha da porta. Ele toca várias vezes e, através da linguagem corporal, exibe im paciência.

Ele se afasta da porta. Segue pela calçada da frente até a rua. Olhando por entre o leque de flores e sam am baias que segura à sua frente, vê que esse lado da cam ionete tam bém ostenta duas j anelas espelhadas no com partim ento traseiro. Considerando-se que a rua está m uito quieta e deserta, ele sabe que o estão vigiando por falta de algo m elhor a fazer.

Tudo bem . Ele é apenas o entregador frustrado de um florista. Eles não verão nenhum a razão para tem ê-lo. É m elhor que o observem , descartem e voltem de novo a atenção para a casa de revestim ento de m adeira branca.

Ele faz um a curva ao passar pela lateral do carro. Entretanto, em vez de seguir pela calçada rachada e esburacada até a traseira da cam ionete do florista, ele desce do m eio-fio na frente dele e atrás do “cam inhão de brinquedo” verm elho.

Há um a portinhola espelhada na porta traseira do veículo de vigilância e, para o caso de ainda estarem observando, ele finge um acidente. Tropeça, deixa o arranj o de flores escapar de suas m ãos e xinga com raiva quando as flores se chocam com o pavim ento.

— Oh, m erda! Filha da puta. Bonito, bonito m esm o. Droga, droga, droga.

Mesm o durante o tem po em que diz as im precações, ele se deixa cair abaixo da portinhola traseira, tirando a lata do produto quím ico descongelante do bolso da j aqueta. Com a m ão esquerda, agarra a m açaneta da porta.

Se a porta estiver trancada, ele terá revelado suas intenções com a tentativa de abri-la. Se falhar, estará bastante encrencado, porque é provável que eles tenham arm as.

No entanto, eles não têm nenhum a razão para esperar um ataque, e ele supõe que a porta não estará trancada. Supõe de m aneira correta. A m açaneta se m ove com suavidade.

Ele não averigua se alguém saiu na rua e o observa. Olhar por cim a do om bro só o faria parecer m ais suspeito.

Ele abre a porta com um solavanco. Subindo no interior relativam ente escuro da cam ionete, antes de ter certeza de que há alguém lá dentro, ele aperta o dedo indicador no botão da lata de aerossol, varrendo-a para a frente e para trás.

O veículo está cheio de equipam ento eletrônico. Painéis de controle com luz fraca. Duas cadeiras giratórias aparafusadas no chão. Dois hom ens na equipe de vigilância.

O hom em m ais próxim o parece ter levantado da cadeira e se virado para a porta traseira, um a fração de segundo atrás, com a intenção de olhar pela portinhola. Ele fica assustado quando a porta se abre.

O j orro grosso do produto quím ico descongelante atinge seu rosto, cegando-o. Ele inala o produto, queim ando garganta e pulm ões. Sua respiração é sufocada antes que ele possa gritar.

Agora, o borrão do m ovim ento. Com o um a m áquina. Program ado. Em alta m archa.

Machado de gelo. Tirado da cintura. Arco suave e poderoso. Girado com grande força. Na têm pora direita. Um esm igalham ento ruidoso. O suj eito cai duro. Solta a arm a.

Segundo hom em . Segunda cadeira. Usando fones de ouvido. Sentado diante de um banco de equipam entos atrás da cabine, de costas para a porta. Os fones abafam os arquej os do parceiro. Sente a com oção. Sente a cam ionete balançar quando o prim eiro operante tom ba. Gira. Surpreso, leva a m ão tarde dem ais para a arm a no coldre de om bro. O substituto de clava chove em seu rosto.

Mover-se, mover-se, enfrentar, desafiar, lutar e vencer.

O prim eiro hom em no chão, tendo espasm os desam parados. Chegar até ele, passar por cim a, m over-se, m over-se, um borrão, direto ao segundo hom em .

Machado. De novo. Machado. Machado.

Silêncio. Quietude.

O corpo no chão j á não tem m ais espasm os.

Tudo transcorreu bonito. Sem berros, sem gritos, sem tiros.

Ele sabe que é um herói, e os heróis sem pre vencem . Mesm o assim , é um alívio quando o triunfo é atingido em vez de ser apenas prognosticado.

Ele está m ais relaxado do que esteve durante todo o dia.

Retornando à porta traseira, ele se reclina para fora e olha em volta na rua. Ninguém à vista. Tudo está quieto.

Ele fecha a porta, deixa o m achado de gelo cair no chão e contem pla os m ortos com gratidão. Sente-se tão próxim o deles por causa do que com partilharam .

— Obrigado — diz com ternura.

Revista os dois cadáveres. Em bora tenham identidades nas carteiras, ele supõe que sej am falsas. Não encontra nada interessante, exceto 76 dólares em dinheiro, dos quais se apodera.

Um rápido exam e na cam ionete não revela nenhum arquivo, blocos de anotação, blocos de m em orando ou outros papéis que pudessem identificar a organização proprietária do veículo. Eles adm inistram um a operação fechada e lim pa.

Um coldre de om bro com revólver está pendurado nas costas da cadeira em que o prim eiro operante estava sentado. É um Sm ith & Wesson .38 Chief ’s Special.

Ele tira a j aqueta de universidade, coloca o coldre sobre o suéter cerej a, aj usta-o até ficar confortável e veste a j aqueta outra vez. Saca o revólver e abre o tam bor. As cabeças das balas brilham . Totalm ente carregado. Ele fecha o tam bor e volta a colocar a arm a no coldre.

O m orto no chão tem um a bolsa de couro no cinto. Ela contém dois carregadores rápidos.

Ele os afixa no próprio cinto, o que lhe dá m ais m unição do que iria precisar se tivesse que tratar apenas do falso pai. Entretanto, parece que seus superiores sem rosto o alcançaram , e ele não pode adivinhar que problem as terá que enfrentar antes de recuperar seu nom e, sua fam ília e a vida que lhe roubaram .

O segundo m orto, caído na cadeira com o queixo no peito, não conseguiu sacar a arm a para a qual estendera a m ão. Ela continua no coldre.

Ele a retira. Outro Chief ’s Special. Por causa do cano curto, o revólver se aj usta ao bolso espaçoso da j aqueta de universidade.

Com aguda consciência de que está perdendo tem po, ele sai da cam ionete e fecha a porta.

Os prim eiros flocos de neve da torm enta espiralam no céu noroeste num a brisa gelada. São de núm ero pequeno, a princípio, m as grandes e rendados.

Quando atravessa a rua em direção à casa de revestim ento branco com venezianas verdes, ele estica a língua para fora da boca a fim de colher alguns flocos. É provável que tenha feito a m esm a coisa quando, durante sua infância naquela rua, se encantava com a prim eira neve da estação.

Ele não tem nenhum a lem brança de bonecos de neve, batalhas com bolas de neve com outros garotos, nem de andar de trenó. No entanto, deve ter feito essas coisas, que foram apagadas j unto com tantas outras coisas, sendo-lhe negada a doce alegria da recordação nostálgica.

Um a calçada de laj es atravessa o gram ado da frente com a cor castanha do inverno.

Ele sobe três degraus e atravessa a varanda profunda.

Diante da porta, ele fica paralisado de m edo. Seu passado está do outro lado da soleira. O futuro tam bém . Ele chegou bem longe desde a súbita tom ada de consciência e desesperada busca de liberdade. Esse pode ser o m om ento m ais im portante de sua cam panha pela j ustiça. O ponto de virada. Os pais podem ser aliados dedicados em tem pos de encrenca. Sua fé. Sua confiança. Seu am or im ortal. Ele tem m edo de, à beira do sucesso, fazer algum a coisa que os afaste e destrua suas chances de recuperar sua vida. Tanta coisa está em risco se ele ousar tocar a cam painha.

Am edrontado, ele se vira para olhar a rua e fica encantado com a cena, pois a neve cai m ais rápido do que quando ele se aproxim ou da casa. Os flocos ainda são grandes e fofos, m ilhões deles girando no suave vento noroeste. O branco é tão intenso que parecem lum inosos, com cada form a cristalina e rendilhada cheia de um a suave luz interior, e o dia não é m ais som brio. O m undo está tão silencioso e sereno — duas qualidades raras em sua experiência — que não parece m ais real, com o se num passe de m ágica ele tivesse sido transportado para um desses globos de vidro que contêm um dioram a com um a estranha cena de inverno, e que se encherá de um a eterna torrente de flocos se for sacudido de tem pos em tem pos.

A fantasia é atraente. Um a parte dele anseia pela estagnação de um m undo sob o vidro, um a prisão benigna, sem tem po e im utável, em paz, lim po, sem m edo nem luta, sem perda, onde o coração nunca é perturbado.

Linda, linda, a neve que cai, em branquecendo o céu antes da terra, com um a efervescência no ar. É tão encantador, com ove-o de m aneira tão profunda, que seus olhos ficam cheios de lágrim as.

Ele é m uito sensível. Às vezes, as experiências m ais m undanas são tão com oventes. A sensibilidade pode ser um a m aldição num m undo tão abrasivo.

Juntando toda a sua coragem , ele torna a se virar para a casa. Toca a cam painha, espera apenas alguns segundos e toca de novo.

Sua m ãe abre a porta.

Ele não tem nenhum a recordação dela, m as sabe por instinto que ela é a m ulher que lhe deu vida. Seu rosto é um pouco gorducho, quase não apresenta rugas para sua idade e é a própria essência da cordialidade. As feições dele são um eco das dela. Ela tem o m esm o tom de olhos azuis que ele vê quando se olha no espelho, em bora os olhos dela pareçam ser para ele um a j anela para a alm a m uito m ais pura do que seus próprios olhos.

— Marty ! — diz ela com surpresa e um rápido sorriso afetuoso, abrindo os braços para ele.

Com ovido com a aceitação instantânea, ele atravessa a soleira e a abraça, apertando-a com força, com o se fosse afogar-se se a soltasse.

— Querido, o que é? O que há de errado? — ela pergunta.

Só então ele percebe que está soluçando. Está tão com ovido com o am or dela, tão grato por haver encontrado um lugar de onde faz parte e onde é bem -vindo que não consegue controlar suas em oções.

Ele pressiona o rosto nos cabelos brancos dela, que têm um leve cheiro de xam pu. Ela parece tão afetuosa, m ais afetuosa do que outras pessoas, e ele se pergunta se todas as m ães são assim .

Ela cham a seu pai:

— Jim ! Vem aqui, rápido!

Ele tenta falar, tenta dizer que a am a, m as sua voz se rom pe antes que ele possa form ar um a única palavra.

Então, seu pai aparece no corredor, cam inhando apressado na direção deles.

As lágrim as deform antes não podem im pedir que ele reconheça o pai. Os dois se parecem m uito m ais do que ele e a m ãe.

— Marty, filho, o que aconteceu?

Ele troca um abraço pelo outro, com m uda gratidão pelos braços abertos do pai, não m ais solitário, vivendo agora num m undo sob o vidro, apreciado e am ado, am ado.

— Onde está Paige? — pergunta a m ãe, olhando pela porta aberta o dia cheio de neve. — Onde estão as m eninas?

— Nós estávam os alm oçando no café-restaurante — diz o pai — quando Janey Torreson disse que você estava no noticiário, algum a coisa sobre você ter atirado em alguém , m as que talvez fosse um em buste. Não fazia nenhum sentido.

Ele ainda está sufocado pela em oção, sem conseguir responder.

— Tentam os ligar para você assim que saím os pela porta, m as fom os atendidos pela secretária eletrônica, de m odo que deixei um recado — falou o pai.

Mais um a vez, a m ãe pergunta por Paige, Charlotte e Em ily.

Ele precisa recuperar o autocontrole, porque o falso pai pode chegar a qualquer m om ento.

— Mam ãe, papai, estam os m etidos num a baita encrenca — ele diz. — Vocês têm que nos aj udar, por favor, m eu Deus, vocês têm que aj udar.

A m ãe fecha a porta para o frio ar de dezem bro, e eles o levam para a sala de estar, cada qual de um lado, cercando-o com seu am or, tocando-o, os rostos cheios de preocupação e com paixão. Ele está em casa. Enfim , está em casa.

Ele se lem bra da sala de estar tão pouco quanto da m ãe, do pai ou das neves de sua j uventude. O chão de carvalho está m eio coberto por um tapete estilo persa, em tons de pêssego e verde. Os m óveis são estofados com um tecido cor-de-chá, e a m adeira visível é um a cerej eira escura verm elho acastanhado. Sobre a lareira, flanqueado por um par de vasos que apresentam cenas de um tem plo chinês, um relógio tiquetaqueia solene.

Enquanto o leva até o sofá, a m ãe diz:

— Querido, de quem é a j aqueta que está usando?

— Minha — ele responde.

— Mas é o novo m odelo da j aqueta da universidade.

— Paige e as m eninas estão bem ? — pergunta o pai.

— Sim , estão bem , não foram m achucadas — ele diz.

A m ãe apalpa a j aqueta:

— A escola só adotou esse m odelo há dois anos.

— É m inha — ele repete. E tira o quepe de beisebol antes que ela note que é um pouco grande para ele.

Um a das paredes exibe um arranj o de fotografias dele, de Paige, de Charlotte e de Em ily em diferentes idades. Ele desvia os olhos daquela galeria, que tanto o afeta e am eaça arrancar m ais lágrim as dele.

Ele precisa recuperar-se e m anter o controle sobre suas em oções para poder com unicar a seus pais o essencial de sua situação com plexa e m isteriosa. Os três têm pouco tem po para bolar um plano de ação antes da chegada do im postor.

Sua m ãe senta-se ao seu lado no sofá. Ela segura a m ão direita dele com as suas, apertando-a com suavidade, de m aneira encoraj adora.

A sua esquerda, seu pai se aboleta na beirada de um a poltrona, reclinando-se para a frente, atento, a testa franzida de preocupação.

Ele tem tanto para contar e não sabe por onde com eçar. Ele hesita. Por um m om ento, tem m edo de j am ais encontrar a prim eira palavra certa, de ficar m udo, oprim ido por um bloqueio psicológico m uito pior do que aquele que o afligiu na prim eira vez em que se sentou diante do com putador em seu gabinete e tentou escrever a prim eira frase de um novo rom ance.

Entretanto, quando subitam ente com eçou a falar, as palavras j orraram com o as águas de um a torm enta que explodem um a barricada.

— Um hom em , tem um hom em , ele se parece com igo, é exatamente igual a m im , nem eu consigo ver algum a diferença, e ele roubou m inha vida. Paige e as m eninas pensam que ele sou eu, m as não é, não sei quem ele é nem com o engana Paige. Ele tom ou m inhas lem branças, deixando-m e com nada e eu não sei com o, não sei com o, com o conseguiu roubar tantas coisas de m im , deixando-m e tão vazio.

O pai parece assustado, e bem podia estar assustado com essas revelações terríveis. Mas há algo de errado no susto de papai, algum a qualidade sutil que se esquiva da definição.

As m ãos de m am ãe apertam sua m ão direita de um a m aneira que parece m ais reflexiva do que consciente. Ele não ousa olhar para ela.

Ele continua apressado, consciente de que eles estão confusos, ansioso para fazê-los com preender.

— Fala com o eu, m ove-se e fica parado com o eu, parece ser eu, de form a que pensei m uito, tentando com preender quem ele poderia ser, de onde poderia vir, m as deve ser com o nos film es, vocês sabem , com o com Kevin McCarthy ou Donald Sutherland na segunda versão de Vampiros de Almas, algo não hum ano, não desse m undo, algo que nos pode imitar à perfeição e sugar nossas m em órias, tornar-se nós, só que de algum a form a ele não conseguiu m atar-m e e se livrar de m eu corpo, depois que tirou o que havia em m inha m ente.

Ele faz um a pausa, ofegante.

Por um m om ento, nenhum dos pais fala.

Eles trocam um olhar. Ele não gosta desse olhar. Não gosta nem um pouco.

— Marty — diz o pai —, talvez sej a m elhor você voltar ao com eço, dim inuir a velocidade, contar-nos exatam ente o que aconteceu, passo a passo.

— Estou tentando contar — diz ele, exasperado. — Sei que é incrível, difícil de acreditar, m as sou eu que está lhe dizendo, pai.

— Quero aj udá-lo, Marty. Quero acreditar. Portanto, acalm e-se, conte-m e tudo desde o com eço, dê-m e um a chance para com preender.

— Não tem os m uito tem po. Você não entende? Paige e as m eninas estão vindo para cá com esse... essa criatura, essa coisa inum ana. Tenho que tirá-las dele. Com a aj uda de vocês, tenho que m atá-lo de algum a form a e ter m inha fam ília de volta, antes que sej a tarde dem ais.

A m ãe está pálida, m ordendo o lábio. Seus olhos um edeceram -se com lágrim as nascentes. Suas m ãos fecharam -se com tanta força sobre a sua que quase o m achucam . Ele ousa esperar que ela com preenda a urgência e a natureza m edonha da am eaça.

— Tudo vai ficar bem , m ãe — diz ele. — Vam os tratar disso de algum a form a. Juntos, tem os um a chance.

Ele olha de soslaio para as j anelas da frente. Espera ver o BMW chegando na rua nevada, entrando na estradinha de carro. Ainda não. Eles ainda têm tem po, talvez apenas m inutos, segundos, m as tem po.

O pai pigarreia e diz:

— Marty, não sei o que está acontecendo aqui...

— Eu lhe disse o que está acontecendo — berra. — Que droga, pai, vocês não sabem pelo que passei — as lágrim as brotam de novo e ele se esforça para reprim i-las. — Passei por tanta dor, senti tanto m edo até onde consigo m e lem brar, com m uito m edo e sozinho e tentando com preender.

O pai estica o braço, coloca a m ão em seu j oelho. Papai está perturbado, m as não da m aneira que deveria estar. Não está visivelm ente furioso porque um a entidade alienígena roubou a vida do filho, não está am edrontado com o devia estar com a notícia de um a presença não hum ana que agora cam inha na face da terra, passando-se por hum ana. Ele apenas parece preocupado e... triste. Há um a tristeza inconfundível e inadequada em seu rosto e em sua voz.

— Você não está sozinho, filho. Estarem os sem pre aqui. Com certeza, você sabe disso.

— Estarem os a seu lado — diz m am ãe. — Vam os dar-lhe a aj uda que precisar.

— Se Paige está vindo, com o você diz — acrescenta o pai —, quando chegar aqui, vam os nos sentar j untos para conversar sobre isso e tentar com preender o que está acontecendo.

Suas vozes são vagam ente condescendentes, com o se estivessem falando com um a criança inteligente e perceptiva, m as um a criança, m esm o assim .

— Calem a boca! Tratem de calar a boca! — Ele solta a m ão do aperto da m ãe e salta do sofá, trêm ulo de frustração.

A j anela. A neve que cai. Nenhum BMW Mas logo.

Ele se afasta da j anela, encara os pais.

A m ãe está sentada na beirada do sofá, o rosto enterrado nas m ãos, os om bros arqueados num a postura de aflição e desespero.

Ele precisa fazê-los com preender. Está consumido por essa necessidade e frustrado por sua incapacidade de m ostrar-lhes até os fatos m ais fundam entais da situação.

O pai se levanta da cadeira. Para indeciso. Os braços pendem nos lados.

— Marty, você veio a nós para pedir aj uda e querem os aj udar, Deus sabe que querem os, m as não podem os aj udar se você não deixar.

Tirando as m ãos do rosto, agora com lágrim as nas faces, a m ãe diz:

— Por favor, Marty. Por favor.

— Todo m undo com ete erros de vez em quando — diz o pai.

— Se forem drogas — diz a m ãe por entre lágrim as, falando tanto para o pai com o para ele —, podem os dar um j eito, querido podem os tratar, podem os achar um tratam ento.

Seu m undo encerrado em vidro — lindo, pacífico, sem tem po —, no qual viveu durante os preciosos m inutos desde que a m ãe abriu os braços para ele na porta da frente, agora se fratura de form a repentina. Um a m edonha fenda denteada cicatriza a m acia curva do cristal. A atm osfera doce e lim pa desse breve paraíso escapa com um vapt, adm itindo o ar venenoso do odioso m undo no qual a existência requer um a luta infindável contra a desesperança, a solidão, a rej eição.

— Não façam isso com igo — suplica. — Não m e traiam . Com o podem fazer isso com igo? Com o podem voltar-se contra m im ? Sou seu filho — a frustração transform a-se em raiva. — Seu filho único. — A raiva transform a-se em ódio. — Eu preciso, preciso. Não podem ver? — Ele está trem endo de raiva. — Não se im portam ? Vocês não têm coração? Com o podem ser tão m aus com igo, tão cruéis? Com o puderam deixar que chegasse a esse ponto?

12.

Eles param no posto de serviços em Bishop o tem po suficiente para com prar correntes de neve — e pagam um dinheiro extra para elas serem encaixadas nas rodas do BMW A Patrulha da Autoestrada da Califórnia recom endava, m as ainda não exigia, que todos os veículos que se dirigiam a Sierra Nevadas estivessem equipados com correntes.

A Rota 395 tornava-se um a estrada dividida a oeste de Bishop e, apesar da dram ática elevação, eles progrediram por Rovanna e Crowley Lake, por McGee Creek e Convict Lake, saindo da 395 para a Rota 203 um pouco ao sul de Fonte de Águas Term ais Casa Diablo.

Casa Diablo. Casa do Diabo.

O significado do nom e nunca antes violou Marty.

Agora tudo era um presságio.

A neve com eçou a cair antes de chegarem a Mam m oth Lakes.

Os flocos grossos eram trançados quase tão frouxos quanto renda barata. Caíam em tal plenitude que parecia que m ais da m etade do volum e do ar entre a terra e o céu era ocupada por neve. No m esm o instante com eçou a grudar, cobrindo a paisagem com falso arm inho.

Paige atravessou Mam m oth Lakes sem parar e virou ao sul em direção a Lake Mary. No assento traseiro, Charlotte e Em ily estavam tão enlevadas com a nevada que, por hora, não precisavam ser entretidas.

A leste das m ontanhas, o céu estava cinza-preto e agitado. Ali, no centro invernal de Sierras, era com o um olho ciclópico revestido de um a catarata leitosa.

O ponto de desvio da Rota 203 foi m arcado por um bosque de pinheiros, cuj o exem plar m ais alto ostentava cicatrizes de golpe de relâm pago com um a década de idade. O raio não apenas causara dano ao pinheiro, m as tam bém o encoraj ara a assum ir padrões m utantes de crescim ento, até ele se tornar um a torre m aligna e retorcida.

Os flocos de neve eram m enores do que antes, caíam com m ais força, im pelidos pelo vento noroeste. Após um início j ocoso, a torm enta estava ficando séria.

Atravessando cam pinas e florestas da m ontanha — cada vez m ais florestas e m enos cam pinas —, a estrada em ascensão passou, num dado m om ento, por um a propriedade cercada por correntes de argolas, de m ais de quarenta hectares, à direita. Esse terreno fora com prado onze anos antes pela Igrej a Profética do Êxtase, um culto que seguira os ensinam entos do reverendo Jonathan Caine e acreditara que em breve os fiéis seriam levitados da terra, enquanto só os pagãos e os m aus seriam deixados aqui para suportar m il anos de guerra e inferno na terra, antes de acontecer o Juízo Final.

Veio-se a saber que Caine era um m olestador infantil, que gravava em vídeo seu abuso nas crianças m em bros do culto. Ele foi parar na prisão, dois m il seguidores se dispersaram nos ventos da desilusão e da traição, e a propriedade com seus prédios ficara presa por litígios durante quase cinco anos.

Algum as fantasias eram destrutivas.

A cerca de corrente, encim ada por rolos de perigoso fio cortante, caíra em alguns trechos. Ao longe, o pináculo da igrej a elevava-se bem acim a das árvores. Atrás dele estavam os telhados inclinados de um grupo de prédios, onde os fiéis haviam dorm ido, tom ado suas refeições e esperado serem elevados aos céus pela m ão direita do Senhor Todo-poderoso. O pináculo não fora tocado. Mas nos prédios abaixo faltavam m uitas portas e j anelas: casa de ratos, gam bás e guaxinins tosquiados de glória e peludos de decadência. Às vezes, os vândalos tinham sido hum anos. Mas o vento, o gelo e a neve causaram a m aior parte do estrago, com o se Deus, através do clim a urdido ao Seu capricho, tivesse feito um j ulgam ento da Igrej a Profética do Êxtase que ainda não estava preparado para fazer do resto da hum anidade.

A cabana tam bém ficava à direita da estreita estrada do condado, era a próxim a propriedade depois da enorm e área do falecido culto. Situada dez m etros atrás da estrada, ao fim de um a pista de terra, era um dos m uitos abrigos sem elhantes, espalhados nos m orros vizinhos, a m aioria deles em m eio ou m ais hectares de terra.

Era um a estrutura de um andar, com tábuas de cedro prateado pelo tem po, telhado de ardósia, varanda da frente protegida por tela e fundações de pedra de rio. Com o correr dos anos, sua m ãe e seu pai haviam expandido o prédio original até que ele contivesse dois quartos, cozinha, sala de estar e dois banheiros.

Eles estacionaram diante da cabana e saltaram do BMW Os abetos, pinheiros de açúcar e pinheiros am ericanos circundantes eram antigos e enorm es, e o ar revigorante estava adocicado com o seu arom a. Redem oinhos de folhas de pinheiro e grandes quantidades de pinhas se espalhavam pela propriedade. A neve só chegava ao solo nos lugares entre as árvores e nas fendas ocasionais de seus galhos cobertos de sapê.

Marty foi até o depósito de m adeira atrás da cabana. A porta era m antida trancada por um a cavinha e um a argola de cadeado. No interior, perto da parede à direita da entrada, um a chave de reserva em brulhada em plástico estava enterrada um centím etro no chão de terra.

Quando Marty retornou à frente da cabana, Em ily circundava agachada um a das árvores m aiores, exam inando as pinhas que haviam caído de seus galhos. Charlotte dançava um balé exagerado num espaço aberto entre as árvores, onde um feixe largo de neve caía com o um refletor sobre um palco.

— Eu sou a Rainha da Neve — anunciou Charlotte ofegante, enquanto girava e saltava. — Tenho poder sobre o vento! Posso m andar a neve cair! Posso deixar o m undo brilhando e branco e lindo!

Quando Em ily com eçou a colher um a braçada de pinhas, Paige disse:

— Querida, você não vai levá-las para dentro de casa.

— Vou fazer algum tipo de arte.

— Elas estão suj as.

— Elas são lindas.

— Elas são lindas e suj as — disse Paige.

— Vou fazer arte aqui fora.

— Neve cai! Neve sopra! Neve gira e roda e salta! — com andava a Rainha da Neve, enquanto Marty galgava os degraus de m adeira e abria a porta de tela da varanda.

Nessa m anhã, as m eninas estavam vestidas de jeans e suéteres de lã, prontas para as Sierras, e tam bém usavam j aquetas de náilon com isolam ento térm ico e luvas de pano. Elas queriam ficar brincando do lado de fora. Contudo, ainda que estivessem de botas, o ar livre estaria fora dos lim ites. Dessa vez, a cabana não era apenas um refúgio de férias, m as sim um abrigo enclausurado que talvez tivesse que ser transform ado em fortaleza, enquanto os bosques vizinhos talvez abrigassem algo m uito m ais perigoso do que lobos.

Lá dentro, o local tinha um leve cheiro de m ofo. Na verdade, o interior parecia m ais frio do que o dia nevado fora de suas paredes.

Toras foram em pilhadas e lenha adicional foi arm azenada a um lado da lareira larga e profunda. Mais tarde, acenderiam o fogo. Para aquecer a cabana rapidam ente, Paige foi de quarto em quarto, ligando os aquecedores elétricos instalados nas paredes.

Parado diante de um a das j anelas da frente, olhando pela varanda protegida por tela e para o cam inho de terra que levava à estrada do condado, Marty usou o telefone celular que trouxera do carro para tentar m ais um a vez falar com sua fam ília em Mam m oth Lakes.

— Pai — disse Charlotte enquanto ele digitava os núm eros —, eu estava pensando... quem vai dar com ida para Sheldon e Bob e Fred e os outros suj eitos lá em casa se não estam os lá?

— Já com binei com a Sra. Sanchez para tom ar conta disso — ele m entiu, j á que ainda não encontrara a coragem para contar que todos os seus anim ais de estim ação tinham sido m ortos.

— Oh, está bem . Então um a coisa boa é que a Sra. Sanchez não ficou louca de raiva.

— Está ligando pra quem , papai? — perguntou Em ily quando o prim eiro toque soou no outro lado da linha.

— Vovô e vovó.

— Fale que vou fazer um a escultura de pinhas pra eles.

— Puxa — disse Charlotte —, isso vai fazer com que eles vom item .

O telefone tocou pela terceira vez.

— Eles gostam da m inha arte — insistiu Em ily.

— Eles são obrigados... são seus avós — falou Charlotte.

Quatro toques.

— Sim , bem , você tam bém não é a Rainha da Neve — disse Em ily.

— Sou sim .

Cinco.

— Não, você é o Duende da Neve.

— Você é o Sapo da Neve — replicou Charlotte. Seis.

— Verm e da Neve.

— Larva da Neve.

— Ranho da Neve.

— Vôm ito da Neve.

Marty lançou-lhes um olhar de advertência que pôs um fim na com petição de xingam entos, em bora as duas se tenham j ogado as línguas para fora.

Após o sétim o toque, Marty pôs o dedo no botão END. Porém , antes que pudesse apertá-lo, a ligação foi atendida.

A pessoa que tirou o fone do gancho não disse nada.

— Alô? — disse Marty. — Mãe? Pai?

Deixando escapar um som ao m esm o tem po triste e furioso, o suj eito no outro lado da linha disse:

— Com o você conseguiu ganhá-los?

Marty sentiu com o se tivesse form ado gelo em suas veias e m edula, m as não por causa do frio penetrante da cabana, e sim porque a voz que respondera era um a im itação perfeita da sua.

— Por que eles o am ariam m ais do que a m im ? — perguntou O Outro, a voz trêm ula de em oção.

Um m anto de m edo caiu sobre Marty, e um senso de irrealidade tão desorientador quanto qualquer pesadelo. Ele parecia estar sonhando de olhos abertos.

— Não toque neles, seu filho da puta. Não ponha nenhum dedo neles.

— Eles m e traíram .

— Quero falar com m inha m ãe e m eu pai — pediu Marty.

— Minha m ãe e meu pai — disse O Outro.

— Ponha-os na linha.

— Para você contar m ais m entiras para eles?

— Ponha-os na linha agora — disse Marty com os dentes trincados.

— Eles não podem m ais escutar suas m entiras.

— O que você fez?

— Eles pararam de escutar você.

— O que você fez?

— Eles não m e dariam o que preciso.

Com a com preensão, o m edo tornou-se aflição. Por um m om ento, Marty não conseguiu encontrar a própria voz.

— Tudo que eu precisava era ser am ado — disse O Outro.

— O que você fez ? — ele gritava. — Quem é você, o que você é, droga, o que você é, o que você fez?

Ignorando as perguntas, O Outro respondeu com outras perguntas:

— Você pôs Paige contra m im ? Minha Paige, m inha Charlotte, m inha doce e pequena Em ily ? Tenho algum a esperança de tê-las de volta, ou tam bém terei que m atá-las? — A voz se perdeu com a em oção. — Oh, Deus, ainda há sangue nas veias delas, elas continuam sendo hum anas, ou você as transform ou em algum a outra coisa?

Marty percebeu que os dois não podiam travar um a conversação. Era loucura tentar. Por m ais que pudessem parecer e falar iguais, eles não tinham bases com uns. De m aneiras fundam entais, os dois eram tão diferentes um do outro com o os m em bros de espécies diferentes.

Marty apertou o botão END.

Suas m ãos trem iam tanto que ele deixou o telefone cair.

Quando virou-se da j anela, viu que as m eninas estavam j untas, de m ãos dadas. Olhavam fixo, pálidas e am edrontadas.

Seus gritos haviam tirado Paige de um dos quartos, onde estava aj ustando o aquecedor elétrico.

Im agens dos rostos de seus pais e queridas lem branças de um a vida de am or inundaram sua m ente, m as ele reprim iu-as com resolução. Se cedesse ao sofrim ento agora, se perdesse um tem po precioso com lágrim as, estaria condenando Paige e as m eninas a um a m orte certa.

— Ele está aqui — disse Marty. — Está vindo e não tem os m uito tem po.