Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 9 de 9 · parte 2/4

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Sr. Assassino

Seis

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A j aqueta de esqui m antinha aquecida a parte superior de seu corpo, m as o jeans não conseguia repelir o frio penetrante da pedra sobre a qual estava deitada. Quando o calor do corpo se dissipou, seus quadris e j oelhos com eçaram a doer. Ela desej ou estar usando calças de esqui com isolam ento térm ico, e percebeu que devia ter levado pelo m enos um a coberta para colocar entre seu corpo e o granito.

Sob a influência do tem poral que se avolum ava, os galhos m ais altos dos abetos e pinheiros rangiam com o portas que se abriam em dobradiças enferruj adas. Nem m esm o os ram os abafadores de som das sem pre-vivas conseguiam suavizar a voz crescente do vento.

A últim a hora de luz do dia que se apagava gradualm ente era a som bra de aço do gelo num tanque de inverno.

Cada vista e som eram gélidos e pareciam exacerbar o frio que a penetrava pela pedra. Paige com eçou a se preocupar com o tem po que poderia aguentar antes de precisar voltar à cabana para se aquecer.

Então, um j ipe-perua azul-escuro com eçou a subir o m orro pela estrada do condado, depois fez um a volta abrupta pegando a entrada de carro. Parecia o j ipe que pertencia aos pais de Marty.

* * *

Reostato a sete graus. Ao sul de Mam m oth Lakes, através de crescentes cortinas de neve, através de redem oinhos de dem ônios de neve, através de torrentes, chicotes, explosões, cataratas e m uros de neve transportados pelo ar, por um a estrada m al definida abaixo do m anto profundo, passando em alta velocidade por um tráfego que se m ove devagar, piscando com os faróis para encoraj ar os obstrutores a sair do cam inho e deixá-lo passar, passando inclusive por um a m áquina de lim par neve e um cam inhão que espalha hulha, cheio de bigorrilhos com luzes de em ergência am arela e verm elha, que durante breves m om entos transform am os m ilhões de flocos brancos em brasas brilhantes. Um as viradas à esquerda. Estrada m ais estreita. Morro acim a. Entrando em aclives com florestas. Longa cerca de correntes de argolas à direita, encim ada por espiral de fio com corte, tom bada em certos trechos. Ainda não aqui. Um pouco m ais adiante. Perto. Logo.

Os quatro coquetéis Molotov estão num a caixa de papelão no assoalho em frente ao assento do carona, encaixada no espaço dos j oelhos. As lacunas entre elas foram preenchidas com j ornais am assados, para evitar que as garrafas fiquem batendo um as nas outras.

Vapores penetrantes sobem das saturadas m echas de pano. O perfum e da destruição.

Guiado pela atração m agnética do falso pai, ele faz um a repentina virada para a direita, pegando um a entrada de carro de pista única, j á sem ioculta pela neve. Ele freia o m ínim o possível, fazendo a curva com os pneus deslizando e levando o pé novam ente ao acelerador, enquanto o j ipe ainda procura o ponto de apoio e am bos os pneus traseiros giram e guincham ferozm ente.

Bem à frente, pelo m enos cem m etros bosque adentro, está um a cabana. Luz suave nas j anelas. O telhado coberto de neve.

Mesm o se o BMW não estivesse estacionado à esquerda da casa, ele saberia que encontrou sua presa. A odiosa presença m agnética do im postor o atrai.

A prim eira vista da cabana, ele decide fazer um assalto frontal, sem levar em consideração a sabedoria ou consequências desse tipo de ataque. Seu pai e sua m ãe estão m ortos, é provável que sua esposa e filhas tam bém j á estej am m ortas, com form as e faces im itadas de m aneira zom beteira pelas pérfidas espécies alienígenas que roubaram seu nom e e m em órias. Ele está perturbado de raiva, de um ódio tão intenso que provoca dor física, um a angústia que parece fogo no coração. Só um a j ustiça rápida dará o alívio tão desesperadam ente alm ej ado.

Os pneus trituram a neve até a cam ada de terra.

Ele força o pé no acelerador.

O j ipe se arrem essa para a frente.

Um grito de fúria selvagem e vingança escapa de sua boca e o reostato m ental gira de sete para 360 graus.

* * *

Marty estava na j anela da frente quando os feixes dos faróis trespassaram a neve que caía lá fora na estrada do condado, m as a princípio não pôde ver a fonte. Guiado m orro acim a, o veículo ficava oculto pelas árvores e arbustos ao lado da estrada. Depois, ele apareceu — um j ipe — pegando a entrada de carro em alta velocidade, com a traseira form ando um rabo de peixe e plum agens de neve e lam a j orrando atrás dos pneus traseiros.

Um instante depois, quando ainda reagia à chegada do j ipe, Marty foi atingido por um a brutal onda paranorm al, tão forte quanto as que experim entara antes, porém de um a qualidade diferente. Essa não foi apenas a energia urgente e farej ante que o chocara em outras ocasiões, m as um a explosão de em oção som bria e am arga, crua e não censurada, que o pôs dentro da m ente de seu inim igo com o nenhum ser hum ano j am ais conseguiu estar na m ente de um outro. Era um reino surrealista de raiva psicótica, desespero, ensim esm am ento infantil, terror, confusão, invej a, desej o e fom e urgentes — sentim entos tão torpes que um rio de esgoto e corpos em putrefação não poderiam ter sido m ais repulsivos.

Durante o tem po desse contato telepático, Marty sentiu-se com o se m ergulhasse num a das regiões m ais profundas do Inferno. Em bora a conexão não tenha durado m ais do que três ou quatro segundos, ela pareceu interm inável. Quando foi interrom pida, ele se encontrou parado, as m ãos apertando as têm poras, a boca aberta num grito silencioso.

Ele ofegava procurando respirar e trem ia de m aneira violenta.

O rugido de um m otor pôs de novo seus olhos em foco e cham ou sua atenção para o dia do outro lado da j anela. O j ipe-perua acelerava na entrada de carro rum o à cabana.

Talvez ele estivesse se enganando a respeito da tem eridade e insanidade do Outro, m as havia estado dentro de sua m ente e achava que sabia o que estava vindo. Ele girou, afastando-se da j anela, e correu na direção das m eninas.

— Corram , saiam pelos fundos, vamos!

Depois de se levantarem do chão da sala de estar e do j ogo de cartas de duas m ãos, com o qual fingiam estar absorvidas, Charlotte e Em ily corriam a toda velocidade em direção à cozinha, antes m esm o de Marty term inar de gritar a advertência.

Ele correu atrás delas.

Um a estratégia alternativa girou em sua m ente num segundo: perm anecer na sala de estar, esperar que o j ipe entalasse na varanda sem conseguir chegar na parede da frente da cabana, depois correr para fora, após o im pacto, e atirar no bastardo antes que ele saísse detrás do volante.

E, em outro segundo, o potencial som brio dessa estratégia: talvez o j ipe atravessasse todo o cam inho — as tábuas de cedro, quebradas em dois por quatro, fiação elétrica, pedaços do reboco, vidro estilhaçado explodindo na sala de estar, vigas dobrando-se, o teto desabando, m ortíferas telhas de ardósia caindo em cim a dele — e Marty seria m orto por escom bros voadores, ou sobreviveria para ficar preso nos entulhos, as pernas soterradas.

As m eninas estariam sozinhas. Não podia correr esse risco.

Lá fora, o rugido do m otor crescia, aproxim ando-se.

Ele alcançou as m eninas quando Charlotte agarrava o pino da fechadura de cavilha m orta da porta da cozinha. Ele estendeu a m ão por cim a da cabeça dela e abriu a aldrava, enquanto ela desengatava a trava m ais baixa.

O grito do m otor enchia o m undo, era curiosam ente m enos o ruído de um m otor do que o grito selvagem de algum a coisa im ensa e j urássica.

A Beretta. Aturdido pelo contato telepático e pelo j ipe em disparada, ele havia esquecido a Beretta na m esinha de café na sala de estar.

Não havia tem po para ir buscá-la.

Charlotte girou a m açaneta. O vento uivante arrancou a porta da m ão da m enina e j ogou-a contra ela. Charlotte foi atirada ao chão.

Então, bam, na frente da casa, com o um a bom ba explodindo.

* * *

O enorm e j ipe-perua passou em disparada pelo esconderij o de Paige, tão rápido que ela soube que não teria a chance de esperar que o filho da puta estacionasse para depois rastej ar de m odo furtivo até ele, de árvore em árvore e som bra a som bra, à m aneira da boa heroína de aventuras com o ela se via. Paige j ogava com suas próprias regras, o que significava que não havia regra nenhum a, e toda sua ação seria im previsível.

No m om ento em que ela, com dificuldade, se pôs de pé, o j ipe estava a vinte ou 22 m etros da cabana. Ainda acelerando.

Rezando para que as pernas enrij ecidas pelo frio não tivessem câim bras, Paige escalou com m ãos e pés a baixa form ação rochosa. Correu para a cabana, num a paralela à entrada de carro, perm anecendo na escuridão do bosque, ziguezagueando por entre os troncos de árvore.

Com o o BMW não estava estacionado bem em frente à cabana, m as sim à esquerda, o j ipe teve um a traj etória lim pa até os degraus da varanda. Menos de três centím etros de neve foram insuficientes para reduzir sua velocidade. O solo sob esse m anto branco não estava congelado e sólido com o um a rocha, com o ficaria m ais tarde no inverno, de m odo que os pneus cortaram terra pura, encontrando toda a tração de que precisavam .

O m otorista parecia estar parado de pé no acelerador. Era um suicida. Ou estava convencido de sua invulnerabilidade. O m otor uivava.

Paige ainda se encontrava a trinta m etros da cabana quando o pneu esquerdo dianteiro do j ipe atingiu os baixos degraus de concreto da varanda, subindo com o se eles fossem um a ram pa. O pneu direito dianteiro girou no ar por um instante, depois agarrou o chão da varanda, enquanto o para-lam a rasgava a parede de tela.

Ela esperava que a varanda cedesse sob o peso. Mas o j ipe parecia estar sendo aerotransportado quando o pneu esquerdo traseiro chegou ao topo dos três degraus.

* * *

Voando. Arrancando painéis de tela e as m olduras que os m antinham no lugar com o se fossem teias de aranha, fios de gaze.

Direto para a porta. Com o a chegada de um a bala de m orteiro. Um a bom ba de duas toneladas.

Fecha os olhos. O para-brisa pode im plodir.

Im pacto de chocalhar os ossos. Lançado para a frente. O cinto de segurança puxa-o para trás, ele exala de form a explosiva, correntes de dor cintilam por breves m om entos em seu peito.

Um a sinfonia de instrum entos de percussão de tábuas se quebrando, pinos partindo ao m eio, um bral de porta se desintegrando, verga de porta se rom pendo. Então, cessa o m ovim ento para a frente, o j ipe para com estrépito.

Ele abre os olhos.

O para-brisas ainda está intacto.

O j ipe está na sala de estar da cabana, na frente de um sofá e de um a poltrona tom bada. As rodas da frente quebraram as tábuas do assoalho, abrindo o espaço de ar sob o piso.

As portas do j ipe estão acim a do chão da cabana, não encontram obstáculos. Ele desengata o cinto de segurança e sai do veículo com um a das pistolas 38 na m ão direita.

Mover-se, mover-se, enfrentar, desafiar, lutar e vencer.

Ele ouve rangidos acim a de sua cabeça, e levanta a vista. O teto está quebrado e curvo, m as é provável que se m antenha firm e. Neve em pó e folhas m ortas de pinheiro caem por entre as fendas.

O chão está cheio de vidro quebrado. As j anelas que flanqueiam a cabana foram espatifadas.

Ele está excitado com a destruição. Ela inflam a sua fúria.

A sala de estar está deserta. Pela arcada, pode ver a m aior parte da cozinha, e tam pouco há alguém ali.

Duas portas fechadas surgem na passagem larga entre a sala de estar e a cozinha, um a à esquerda e outra à direita. Ele se m ove para a direita.

Se o falso pai estiver esperando do outro lado, o próprio ato de abrir a porta vai provocar um a fuzilaria.

Ele quer evitar ser alvej ado tanto quanto possível, j á que não desej a ter que tornar a sair rastej ando em busca da cura. Quer acabar com isso agora, ali, hoj e.

Se sua m ulher e filhas j á não tivessem sido copiadas e substituídas por form as alienígenas, claro que não teriam perm issão para continuar hum anas. A noite está chegando. Falta m enos de um a hora. Pelos film es, ele sabe que essas coisas sem pre acontecem à noite — assalto alienígena, inj eção de parasitas, ataques de m utantes-de-form a e ladrões de alm a e coisas que bebem sangue, tudo à noite, quando a lua está cheia ou quando não há lua nenhum a, m as à noite.

Em vez de abrir a porta com um em purrão, m esm o de um a posição segura ao lado, ele vai até a frente dela, levanta o 38 e abre fogo. A porta não é de m adeira sólida, m as sim um m odelo de m adeira prensada com o centro de espum a, e as balas de ponta oca fazem enorm es buracos a um a distância de alça zero.

Sacudindo seus braços, o recuo do Chief ’s Special provoca um a im ensa satisfação, é quase um a experiência sexual, oferecendo um a pequena m edida do alívio de sua intensa frustração e raiva. Ele continua apertando o gatilho até o cão bater em câm aras vazias.

Nenhum grito no quarto do outro lado. Nenhum som , quando se dissipa o rugido do últim o disparo.

Ele j oga a arm a no chão e saca o segundo 38 do coldre do om bro sob sua j aqueta de universidade.

Abre a porta com um chute e entra rápido, a arm a esticada à sua frente.

É um quarto de dorm ir. Deserto.

A im ensa frustração sopra as cham as da raiva.

Retornando à passagem , ele encara a outra porta fechada.

* * *

Por um m om ento, a visão do j ipe voando pela varanda e se chocando contra a parede da frente da cabana fez com que Paige parasse.

Em bora isso estivesse acontecendo na sua frente e ela não tivesse nenhum a dúvida de que era real, a batida teve a qualidade irreal de um sonho. O j ipe pareceu ter ficado parado no ar durante um tem po im possivelm ente longo, flutuando na varanda com as rodas girando. Ele quase pareceu dissolver-se através da parede, entrando na cabana, desaparecendo com o se nunca tivesse existido. A destruição foi acom panhada de um a grande quantidade de ruídos, m as de algum a form a não foi m uito dissonante, não fez a m etade do barulho que faria se a batida tivesse acontecido num film e. No m esm o instante, na esteira da batida, a quietude relativa da tem pestade reclam ou sua existência apenas com o lam ento do vento; a neve caía num dilúvio sem som .

As m eninas.

No olho da m ente de Paige, ela viu a parede explodindo em cim a delas, com o j ipe em disparada seguindo logo atrás.

Ela voltou a correr antes de perceber que corria. Direto para a cabana.

Segurava a espingarda de caça com as duas m ãos — a m ão esquerda na coronha, a m ão direita no cabo e o dedo no gatilho. Tudo que teria que fazer seria parar, girar o cano na direção do alvo, deslizar o dedo no gatilho e disparar. Antes, enquanto carregava a Mossberg, ela colocara um a carga na culatra, de m odo a poder aj ustar um cartucho extra no tubo do pente.

Quando ela saía do bosque correndo e pegava a entrada de carros, a m enos de dez m etros dos degraus da varanda, disparos irrom peram na casa. Cinco tiros em rápida sucessão. Ao invés de fazê-la parar, os tiros esporearam -na, levando-a a atravessar a entrada de carro e o pátio coberto de som bras o m ais rápido que pôde.

No m om ento em que chegou aos pés dos degraus da varanda, Paige escorregou na neve e caiu sobre um j oelho. A dor arrancou-lhe um a im precação involuntária, dita em voz baixa.

Entretanto, se não tivesse caído, estaria na varanda ou j á na sala de estar quando Charlotte fez a volta no canto da cabana. Marty e Em ily apareceram logo atrás dela, correndo de m ãos dadas.

* * *

Ele dispara três vezes contra a porta à esquerda da passagem , abre-a com um chute, passa rápido e agachado pelo vão da porta, e encontra outro quarto de dorm ir deserto.

Lá fora, um a porta de carro é batida.

* * *

Marty deixou a porta do m otorista aberta enquanto entrava atrás do volante, apalpando com um a das m ãos debaixo do assento à procura das chaves. E nem pensou em advertir Charlotte e Em ily para não bater a porta, até que o ato foi feito e o barulho reverberou nas árvores vizinhas.

Paige ainda não entrara no BMW Estava parada j unto à porta aberta, vigiando a casa, com a Mossberg levantada e preparada.

Onde estavam as m alditas chaves?

Ele reclinou-se para a frente, abaixando-se, tentando levar a m ão para trás sob o assento.

Quando os dedos de Marty fecharam -se sobre as chaves, a Mossberg ribom bou. Ele j ogou a cabeça para cim a enquanto um a bala de resposta errava Paige, passava pela porta aberta do carro e se chocava com o painel de instrum entos, a centím etros de sua cabeça. Um m edidor espatifou-se, fazendo chover pedaços de plástico em cim a dele.

— Abaixem -se! — gritou para as m eninas no assento traseiro.

Paige disparou a espingarda m ais um a vez, atraindo fogo de resposta.

O Outro estava parado no buraco onde antes era a porta da frente da cabana, em oldurado por ruínas denteadas, com o braço direito esticado enquanto apertava o gatilho. Depois, abaixou-se na sala de estar, talvez para recarregar a arm a.

Em bora a espingarda o im pedisse de se aproxim ar m ais, ele estava distante dem ais para ser m uito ferido pela arm a, sobretudo se considerarm os seus poderes de recuperação incom um . Entretanto, àquela distância, a arm a dele despachava um a sólida pancada.

Marty enfiou a chave na ignição. O m otor pegou sem protestar. Ele soltou o freio de m ão, engrenou o BMW

Paige entrou no carro, fechou a porta.

Ele olhou por sobre o om bro através da j anela traseira, virou na direção oposta ao passar da cabana e então pegou os rastros de pneu deixados pelo j ipe em sua corrida kam ikaze.

— Aí vem ele! — gritou Paige.

Ainda voltando, Marty olhou pelo para-brisas e viu O Outro saltar da varanda, descer os degraus, atravessar o pátio, um a garrafa de vinho em cada m ão, m echas de pano nos gargalos, cham as saltando de am bas. Jesus. Elas queim avam furiosam ente, podiam explodir em suas m ãos a qualquer segundo, m as ele parecia não se preocupar com a própria segurança, com um ar selvagem e quase j ubiloso no rosto, com o se tivesse nascido para aquilo, para m ais nada a não ser aquilo. Ele parou patinando e ergueu o braço direito com o um zagueiro de futebol am ericano pronto para passar a bola para o receptor.

— Vam os! — gritou Paige.

Marty j á estava indo e não precisava de encoraj am ento para ir m ais rápido.

Em vez de virar para olhar pela j anela traseira, Marty usou o espelho retrovisor para assegurar-se de que perm anecia na entrada de carro e não virava na direção de algum a árvore, vala ou saliência de rocha, de m odo que teve consciência da prim eira garrafa que fez um arco através da neve e se espatifou contra o para-choque dianteiro do BMW A m aior parte do conteúdo foi derram ada, sem causar danos, no pavim ento onde um trecho da neve pareceu explodir em cham as.

A segunda garrafa bateu no capô, a quinze centím etros do para-brisas, bem diante de Paige. Ela espatifou-se, o conteúdo explodiu, o líquido em cham as lavou o vidro e, por um m om ento, a única visão que tiveram foi a agitação do fogo.

Na traseira, com os cintos de segurança engatados, abaixadas, abraçadas um a na outra, as m eninas gritaram de terror.

Marty não podia fazer nada para tranquilizá-las, a não ser continuar para trás o m ais rápido que ousasse, esperando que o fogo no capô se extinguisse e o calor não fizesse o para-brisas im plodir.

Metade da distância até a estrada do condado. Dois terços. Acelerando. Faltando cem m etros.

As cham as do para-brisas extinguiram -se quase de im ediato quando a fina película de gasolina no vidro foi consum ida, m as o fogo continuava saltando no capô e no para-lam as do lado direito. A tinta pegara fogo.

Através do fogo e da espiral da fum aça negra, Marty viu O Outro correndo de novo na direção deles, não tão rápido quanto o carro, m as não m uito m ais devagar, tam pouco.

Paige pegou duas balas de espingarda num bolso da j aqueta de esqui e enfiou no cano, substituindo as balas que disparara.

Sessenta m etros para a estrada do condado.

Cinquenta.

Quarenta.

Por causa das árvores e da vegetação no cam inho, Marty não podia ver m orro abaixo e estava com m edo de m eter-se na frente de algum veículo que passasse. No entanto, não se atrevia a dim inuir a velocidade.

O rugido do BMW im pediu-o de ouvir o tiro. Com um forte estalido, um buraco de bala apareceu no para-brisas abaixo do espelho retrovisor, entre ele e Paige. Um instante depois, um a segunda bala perfurou o para-brisas, oito centím etros à direita da prim eira, tão perto de Paige que foi um m ilagre ela não ser atingida. Com a segunda violação, um a reação em cadeia de m ilhões de m inúsculas fendas fizeram um a teia no vidro tem perado, produzindo um a opacidade leitosa.

A transição entre o final da pista de terra e o pavim ento não foi suave. Eles bateram de traseira na estrada do condado, com força suficiente para fazê-los saltar nos assentos, e o vidro de segurança fissurado sucum biu para dentro em gom os.

Marty girou o volante para a direita, m udando de posição para m orro abaixo e freou parando o carro quando ficaram de frente para a descida da estrada. Podia sentir o calor das cham as que com iam a tinta do capô, m as elas não lam biam o interior do carro.

Um a bala ricocheteou no m etal.

Ele desengatou a ré.

Pela j anela lateral, podia ver O Outro parado de pernas abertas, a quinze m etros do final da entrada de carro, com arm as em am bas as m ãos.

Quando Marty pisou no acelerador, outra bala chocou-se contra sua porta, abaixo da j anela, m as não penetrou no interior do carro.

Quando o BMW disparou m orro abaixo, afastando-se dele, o Outro pôs-se a correr de novo.

Em bora o vento conduzisse a m aior parte da fum aça para a direita, subitam ente passou a haver m uito m ais fum aça, m ais preta do que antes, e um a quantidade significativa agitava-se no interior do veículo para estragar-lhes a vida. Paige com eçou a tossir, as m eninas respiravam com dificuldade no banco traseiro e Marty não podia ver com clareza a estrada à sua frente.

— O pneu está queim ando! — gritou Paige acim a do vento uivante.

Mais duzentos m etros m orro abaixo, o pneu em cham as explodiu e o BMW girou desgovernado no pavim ento com a cam ada de neve. Marty girou o volante na direção da derrapagem , m as dessa vez a física aplicada não se m ostrou confiável. O carro girou 180 graus, ao m esm o tem po em que se m ovia de lado. Só parou quando adernou fora da estrada e bateu na cerca de corrente de argola que m arcava o perím etro da propriedade da Igrej a Profética do Êxtase.

Marty saltou do carro. Abriu a porta traseira com um puxão, inclinou-se em seu interior e aj udou as assustadas m eninas a soltar-se dos cintos de segurança.

Ele nem olhou para ver se O Outro estava vindo, porque sabia que o bastardo estava vindo. Aquele suj eito não iria parar nunca, nunca, não até que eles o m atassem , talvez nem aí.

Enquanto Marty tirava Em ily do banco traseiro, Paige saía pela porta do m otorista, j á que seu lado estava bloqueado pela corrente de argola. Tendo retirado os envelopes de papel m anilha com o dinheiro debaixo do assento, ela enfiou-os dentro da j aqueta de esqui. Enquanto fechava o zíper, Paige olhou m orro acim a.

— Merda — disse ela, e a espingarda ribom bou.

Marty aj udou Charlotte a sair do carro, enquanto a Mossberg trovej ava de novo. Ele pensou ter ouvido tam bém o estalido seco de um a arm a leve, m as a bala deve ter passado longe dele.

Protegendo as m eninas, colocando-as atrás de seu corpo e afastando-as do carro em cham as, Marty olhou para o alto do m orro.

O Outro estava parado, de m aneira arrogante, no centro da estrada, a cerca de cem m etros de distância, convencido de que estava protegido contra o fogo da espingarda de caça pela distância, pela força desviante do vento uivante e talvez por sua própria capacidade sobrenatural de recuperar-se de danos sérios. Ele tinha a mesma altura de Marty, no entanto, m esm o à distância, parecia pairar sobre eles um a figura som bria e agourenta. Talvez fosse a perspectiva. De um m odo quase indiferente, ele abriu o tam bor do revólver e j ogou na neve os cartuchos disparados.

— Ele está recarregando — disse Paige, aproveitando a oportunidade para enfiar balas adicionais no depósito da espingarda de caça. — Vam os dar o fora daqui.

— Para onde? — perguntou Marty, olhando em volta, freneticam ente, para a paisagem açoitada pela neve.

Ele desej ava que um carro aparecesse de um a direção ou de outra.

Depois cancelou o próprio desej o, porque sabia que O Outro m ataria qualquer um que tentasse interferir.

Eles andaram m orro abaixo, contra o vento cortante, aproveitando o tem po para pôr algum a distância entre eles e seu perseguidor, enquanto pensavam no que fazer em seguida.

Marty descartou a tentativa de chegar a um a das outras cabanas espalhadas entre as árvores altas. A m aioria era casa de férias. Ninguém estaria em casa num a terça-feira de dezem bro, a m enos que, pela m anhã, a nova nevada trouxesse alguém para esquiar. E se encontrassem um a cabana que tivesse alguém , com O Outro seguindo seu rastro, Marty não queria a m orte de estranhos inocentes em sua consciência.

A rota 203 ficava ao fundo da estrada do condado. Mesm o as prim eiras horas de um a nevasca, haveria um tráfego constante entre os lagos e Mam m oth Lakes. Se houvesse m uitas testem unhas, O Outro não poderia m atá-los. Teria que bater em retirada.

Mas o fundo da estrada do condado ficava longe dem ais. Jam ais chegariam lá antes de esgotar as balas de espingarda para m anter o inim igo ao largo — ou antes que a m aior precisão e alcance do revólver perm itissem que ele os pegasse um por um .

Eles chegaram num a abertura da cerca de corrente de argolas danificadas.

— Aqui, vam os — disse Marty.

— Esse lugar não está abandonado? — obj etou Paige.

— Não tem os nenhum outro lugar — disse ele, pegando Em ily e Charlotte pela m ão e levando-as para a propriedade da igrej a.

Sua esperança era de que alguém aparecesse logo, visse o BMW sem iqueim ado e inform asse ao departam ento de xerife. Em vez de abanar o fogo que se alim entava da tinta, o vento abafou-o, m as o pneu ainda queim ava e seria difícil de ignorar o carro batido. Se aparecesse um par de agentes bem arm ados para verificar a área e pudesse entrar na briga, eles não iriam com preender o quão form idável O Outro era, m as tam pouco seriam tão ingênuos e desam parados quanto os cidadãos com uns.

Após um a breve hesitação, durante a qual olhou preocupada para seu Nêm ese no alto do m orro, Paige seguiu Marty e as m eninas através do buraco na cerca.

* * *

O carregador rápido desliza de seus dedos e cai na neve, quando ele o tira da bolsa do cinto. É o últim o dos dois que ele pegou do m orto da cam ionete de vigilância.

Ele se abaixa, pega o carregador na neve e o esfrega no suéter verm elho-cerej a debaixo da j aqueta de universidade. Leva-o ao revólver aberto, desliza-o para dentro, gira, deixa cair e fecha o tam bor com um estalo.

Terá que usar sua últim a carga com cuidado. Não será fácil de m atar os replicantes.

Agora ele sabe que a m ulher é tão replicante quanto o falso pai. Carne alienígena. Inum ana. Ela não pode ser sua Paige, pois é agressiva dem ais. Sua Paige seria subm issa, ávida por dom inação, com o as m ulheres da coleção de film es do senador. Sua Paige está m orta, sem dúvida. Ele precisa aceitar isso, por m ais difícil que sej a. Aquela coisa só está fantasiada de Paige, e não bem disfarçada. Pior ainda, se Paige se foi para sem pre, o m esm o aconteceu com suas adoráveis filhas. As m eninas, graciosas e convincentem ente hum anas, tam bém são replicantes — dem oníacas, extraterrestres e perigosas.

Sua antiga vida é irrecuperável.

Sua fam ília se foi para sem pre.

Um abism o negro de desespero se abre debaixo dele, m as ele não deve cair no abism o. Deve encontrar forças para ir lutar até chegar à vitória em nom e de toda a hum anidade — ou ser destruído. Deve ser tão coraj oso quanto Kurt Russel e Donald Sutherland quando se encontraram em sem elhantes dificuldades som brias, um a vez que ele é um herói, e os heróis devem perseverar.

Morro abaixo, as quatro criaturas desapareceram por um buraco da cerca de corrente de argola. Tudo que ele quer agora é vê-los m ortos, estourar seus m iolos, desm em brá-los e decapitá-los, arrancar-lhes as vísceras, incendiá-los, tom ar todas as precauções contra a ressurreição deles, j á que não são apenas os assassinos de sua verdadeira fam ília, m as tam bém um a am eaça para o m undo.

Ocorre-lhe o pensam ento de que, se sobreviver, essas terríveis experiências fornecerão o m aterial para um rom ance. Com certeza, ele conseguirá ir além da frase de abertura, feito que não conseguiu ontem . Apesar de sua esposa e filhas estarem perdidas para sem pre, talvez ele possa salvar a carreira das ruínas de sua vida.

Escorregando e derrapando, ele corre na direção do buraco na cerca.

* * *

Os lim padores de para-brisas estavam endurecidos de neve, que se solidificava em gelo. Eles gaguej avam e batiam com violência no vidro.

Oslett consultou o m apa elaborado pelo com putador, depois apontou para um desvio à frente.

— Ali, à direita.

Clocker ligou a seta.

* * *

Com o o navio fantasm a Mary Celeste, que se m aterializava silenciosam ente, saindo de um a estranha neblina, com as esfarrapadas velas desfraldadas e os conveses desertos de tripulação, a igrej a abandonada assom ou na neve que caía.

A princípio, na obscura torm enta e à pálida luz cinzenta do final da tarde, Marty pensou que o prédio estava em bom estado de conservação, m as essa im pressão foi fugaz. Quando se aproxim aram , ele viu que faltavam m uitas telhas do telhado. Seções da calha de cobre de chuva haviam desaparecido, enquanto outras partes bam boleavam de m aneira precária, balançando e rangendo ao vento. A m aioria das j anelas estava quebrada e vândalos tinham pintado obscenidades nas paredes de tij olo anteriorm ente bonitas.

Com plexos desconexos de prédios — escritórios, oficinas, um a creche, dorm itórios, um salão-refeitório — ficavam logo atrás e em am bos os lados da estrutura principal com cam panário. A Igrej a Profética do Êxtase fora um culto que exigia que seus m em bros doassem todos os seus pertences terrenos para serem adm itidos e para viver num a com unidade de governo rígido.

Eles correram na neve de quase três centím etros de profundidade, tão rápido quanto as m eninas podiam , em direção à entrada da igrej a, e não para um dos outros prédios, porque a igrej a era o m ais próxim o. Precisavam sair de vista o m ais rápido possível. Em bora O Outro pudesse rastreá-los através de sua conexão com Marty, não im portando aonde fossem , pelo m enos não poderia atirar neles se não os visse.

Doze degraus largos levavam a um duplo conj unto de portas de carvalho de três m etros de altura, com claraboias de 1,80m acim a de cada par. Todo o vidro das claraboias fora quebrado, à exceção de alguns fragm entos am arelos e rubis, deixando buracos escuros entre a grossa estrutura de chum bo. As portas eram encaixadas num arco de rosácea pentagonal de seis m etros de altura, acim a do qual havia um a enorm e j anela redonda com padrões elaborados que ainda continha 20% de seu vidro original, m uito provavelm ente porque era um alvo difícil para as pedras.

As quatro portas de carvalho entalhado tinham sido castigadas pelo tem po, estavam cicatrizadas, rachadas e pintadas de spray com m ais obscenidades que brilhavam à luz cendrada do crepúsculo prem aturo. Em um a das portas, um vândalo desenhara, de m aneira grosseira, a form a branca de am pulheta de um a m ulher com pleta com seios e um a virilha definida pela letra Y e ao lado havia a representação de um falo tão grande quanto um hom em . Letras inclinadas, cortadas por um m estre escultor de pedra, faziam a m esm a prom essa no lintel de granito acim a de cada conj unto de portas, ELE NOS ERGUEU AO CÉU; entretanto, por cim a dessas palavras, vândalos picharam BABAQUICE em tinta verm elha.

O culto era repugnante e seu fundador — Jonathan Caine — era um a fraude e pederasta, m as Marty ficou tão desalentado com os vândalos com o com as pessoas m al orientadas que seguiram Caine. Pelo m enos, os fiéis ao culto acreditavam em algum a coisa, não im portava o quão m al orientados, m ereciam ser dignos da graça de Deus e tinham se sacrificado por sua crença, m esm o que no final os sacrifícios tenham se revelado estúpidos; eles ousaram sonhar, m esm o que o sonho tenha term inado em tragédia. O ódio estúpido que inform ava os garranchos dos grafiteiros era o trabalho de gente vazia, que não acreditava em coisa algum a, incapaz de sonhar, e que prosperava com a dor dos outros.

Um a das portas estava entreaberta quinze centím etros. Marty agarrou a borda e puxou. As dobradiças estavam corroídas, o carvalho deform ado, m as a porta rangeu, abrindo-se outros trinta ou quarenta centím etros para fora.

Paige entrou, Charlotte e Em ily seguiram logo atrás dela.

Em nenhum m om ento Marty ouviu o tiro que o atingiu.

Quando com eçava a seguir as m eninas, um a lança de gelo em palou-o, penetrando pelo quadrante esquerdo superior de suas costas, saindo do m esm o lado por entre m úsculos e tendões abaixo da clavícula. O frio perfurante era tão intenso que, com parado com ele, a nevasca que m artelava a igrej a parecia um a perturbação tropical, e ele trem eu de m aneira violenta.

A próxim a coisa que Marty soube foi que estava caído no chão de tij olo coberto de neve, na frente da porta, perguntando-se com o chegara ali. Quase se convencera de que recém se deitara para tirar um cochilo, m as a dor de seus ossos indicava que ele caíra com força naquela cam a im provável.

Ele olhou para cim a, por entre a neve que caía e a luz invernal, vendo as letras em granito, letras de granito.

ELE NOS ERGUEU AO CÉU.

BABAQUICE.

Só percebeu que fora alvej ado quando Paige saiu correndo da igrej a e caiu de j oelhos ao seu lado, gritando:

— Marty, oh Deus, m eu Deus, você foi atingido, o filho da puta atirou em você.

E ele pensou: Ah, sim, claro, é isso, fui atingido, não fui furado por uma lança de gelo.

Paige levantou-se a seu lado, ergueu a Mossberg. Ele ouviu dois tiros que fizeram um barulho excessivo, ao contrário da bala furtiva que o fez tom bar sobre os tij olos.

Curioso, Marty virou a cabeça para ver a que distância seu infatigável inim igo chegara. Esperava descobrir o sósia investindo contra eles a apenas alguns m etros, sem ser incom odado pelo chum bo da espingarda.

Ao invés disso, O Outro perm aneceu a um a certa distância da igrej a, fora do alcance das duas balas que Paige disparara. Era um a figura negra sobre um cam po branco, sem que os detalhes de seu rosto conhecido dem ais fossem revelados pela pálida luz cinzenta. Movendo-se para a frente e para trás na neve, para a frente e para trás, rápido e delgado, ele parecia um lobo se aproxim ando de um rebanho de ovelhas, vigilante e paciente, deixando o tem po passar até chegar o m om ento da derradeira vulnerabilidade.

O punhal de gelo que trespassou Marty tornou-se, de um segundo para o outro, um estilete de fogo. Com o calor veio um a dor lancinante que o fez ofegar. Pelo m enos, o conceito abstrato de um ferim ento de bala foi traduzido para a linguagem da realidade.

Paige tornou a levantar a Mossberg.

Recuperando a clareza da m ente com a dor, Marty disse:

— Não desperdice a m unição. Deixe-o por enquanto. Aj ude-m e a levantar.

Com o auxílio dela, ele conseguiu pôr-se de pé.

— Está m al? — perguntou ela preocupada.

— Não estou m orrendo. Vam os entrar antes que ele decida dar outro tiro em nós.

Ele seguiu-a pela porta até o nártex, onde a escuridão só era aliviada por pálidos raios que penetravam a porta parcialm ente aberta e as claraboias sem vidro.

As m eninas choravam , Charlotte m ais alto do que Em ily, e Marty tentou tranquilizá-las.

— Está bem , eu estou bem , foi só um corte. Tudo que eu preciso é de um Band-Aid com um a foto do Snoopy, aí vou m e sentir m elhor.

Na verdade, seu braço esquerdo estava sem idorm ente, Marty só tinha uso parcial dele. Quando flexionava a m ão, não conseguia fechá-la por com pleto.

Paige foi até a abertura de quarenta centím etros entre a enorm e porta e o batente, onde o vento silvava e gritava. Ela olhou para O Outro lá fora.

Tentando com preender m elhor o dano causado pela bala, Marty enfiou a m ão direita dentro da j aqueta de esqui e, com cuidado, explorou a frente de seu om bro esquerdo. Mesm o um toque leve causou um a labareda de dor que o fez trincar os dentes. O suéter de lã estava saturado de sangue.

— Leve as m eninas m ais para os fundos da igrej a — sussurrou Paige em tom urgente, em bora seu inim igo não pudesse ouvi-la na tem pestade lá fora. — Lá na outra ponta.

— O que você está falando?

Continuar: parte 3 de 4