Sr. Assassino
Seis
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Vou esperá-lo aqui.
As m eninas protestaram :
— Mam ãe, não.
— Mam ãe, vem conosco, você tem que vir.
— Mam ãe, por favor.
— Estarei bem — disse Paige. — Estarei em segurança. Realm ente. Será perfeito. Vocês não entendem ? Marty, quando o bastardo sentir que vocês estão se afastando, vai entrar na igrej a. Ele vai esperar que estej am os j untos. — Enquanto falava, Paige colocou m ais duas balas no depósito da Mossberg para substituir as duas últim as que gastara. — Ele não vai esperar que eu o estej a aguardando bem aqui.
Marty lem brou-se de que havia tido a m esm a discussão antes, na cabana, quando ela quis sair para se esconder nas rochas. O plano dela não funcionara, m as não por ter falhas. O Outro passara por ela no j ipe, claro que sem saber que ela estava de tocaia. Se não tivesse feito aquela proeza im previsível, j ogando o j ipe direto na casa, ela poderia ter deslizado para trás dele e o derrubado.
Mesm o assim , Marty não queria deixá-la sozinha j unto à porta. Mas não havia tem po para discutir, porque ele suspeitava que em pouco tem po o ferim ento com eçaria a sugar a força que ainda tinha. Além disso, não tinha um plano m elhor para sugerir.
Na penum bra, ele m al conseguia reconhecer o rosto de Paige.
E esperava que aquela não fosse a últim a vez que a via.
Ele conduziu Charlotte e Em ily para fora do nártex, entrando na nave. Cheirava à poeira, à um idade e às coisas selvagens que se abrigaram ali, desde os anos em que os fiéis partiram para retom ar suas vidas espatifadas, em vez de se erguerem para sentar ao lado direito do Senhor.
No lado norte, o vento agitado j ogava neve através das j anelas quebradas. Se o inverno tivesse um coração, inanim ado e esculpido em gelo, não seria m ais frio que aquele lugar, nem a m orte poderia ser m ais ártica.
— Meus pés estão frios — disse Em ily.
— Sssshhh. Eu sei — replicou ele.
— Os m eus tam bém — acrescentou Charlotte num sussurro.
— Eu sei.
Ter algo tão com um de que se queixar aj udava a tornar a situação m enos bizarra, m enos assustadora.
— Frios m esm o — insistiu Charlotte.
— Continuem andando. Todo o traj eto até a frente. Nenhum deles estava de botas, só tênis. A neve saturara o tecido, solidificou-se em cada ruga e transform ou-se em gelo. Marty im aginou que por enquanto não precisavam se preocupar com ulcerações provocadas pelo frio. Isso levava algum tem po para se desenvolver. Talvez não vivessem o bastante para sofrer disso.
Em toda a nave som bras pendiam com o estandartes, m as essa enorm e câm ara estava m ais ilum inada do que o nártex. Janelas em arco ogival duplo, desde m uito tem po antes aliviadas do fardo do vidro, realçavam -se em am bas as paredes laterais e se elevavam a dois terços da distância até o teto abobadado. Elas adm itiam luz suficiente para revelar as fileiras de bancos, a longa aleia central que levava ao presbitério, ao grande coro e inclusive à parte do alto altar na frente.
As coisas m ais ilum inadas da igrej a eram as profanações dos vândalos, que haviam pintado suas obscenidades pelas paredes do interior em m aior profusão do que do lado de fora. Marty tinha suspeitado que a tinta era lum inosa quando a viu no exterior do prédio; de fato, nos recintos m ais escuros, os rabiscos em serpentina brilhavam em tons laranj a, azul, verde e am arelo, sobrepondo-se, enroscando-se, entrelaçando-se até quase parecerem verdadeiras cobras contorcendo-se nas paredes.
Marty estava tenso com a expectativa do disparo. A capela-m or não tinha o portão.
— Continuem andando — instou ele às m eninas.
Os três continuaram até a plataform a do altar, de onde haviam sido retirados todos os obj etos cerim oniais. Na parede do fundo estava pendurada um a cruz de m adeira de dez m etros de altura com grinaldas de teias de aranha.
Seu braço esquerdo estava dorm ente, m esm o assim ele o sentia inchado. A dor era com o de um dente com abscesso m al situado em seu om bro. Marty sentia náuseas — em bora não soubesse se era provocada pela perda de sangue, pelo m edo por Paige ou pela sobrenaturalidade desorientadora da igrej a.
* * *
Paige recuou da entrada para um a área do nártex, que continuaria escura m esm o se a porta fosse aberta ainda m ais.
Olhando para a abertura entre a porta e o batente, ela viu m ovim entos fantasm as na indistinta luz cinzenta e agitação da neve. Ergueu e baixou a arm a repetidas vezes. Cada vez que o confronto parecia ter chegado, sua respiração ficava presa na garganta.
Paige não teve que esperar m uito tem po. Ele entrou em três ou quatro m inutos e não foi tão circunspecto quanto ela esperava. Tendo sentido o m ovim ento de Marty em direção ao fundo do prédio, O Outro entrou, confiante e atrevido.
Quando ele atravessava a soleira, com a silhueta na m inguante luz do dia, ela apontou no m eio do peito. A arm a trem ia em suas m ãos, antes m esm o de Paige apertar o gatilho, e saltou com o recuo. No m esm o instante, ela engatilhou a outra bala e disparou de novo.
A prim eira atingiu-o em cheio, m as a segunda provavelm ente estragou m ais o batente da porta do que a ele, porque O Outro recuou, saiu pela porta, sum iu de vista.
Ela sabia que causara m uito dano, m as não houve gritos nem berros de dor, por isso ela passou pela porta com esperança e cautela, preparada para a visão de um cadáver nos degraus. Ele sum ira e, de algum a form a, isso tam pouco era um a surpresa, em bora o seu rápido desaparecim ento fosse tão intrigante que ela se virou e exam inou a frente da igrej a com o se ele pudesse ter escalado aquela fachada pura com a vivacidade de um a aranha.
Ela podia procurar rastros na neve para tentar acossá-lo. Mas suspeitava que era isso que ele queria que ela fizesse.
Desanim ada, ela reentrou na igrej a correndo.
* * *
Matá-los, m atá-los, m atá-los agora.
Chum bo de caça. Na garganta, queim ando fundo a carne dele. Ao longo de um lado do pescoço. Inchaços duros cravam -se em sua têm pora esquerda. Ouvido esquerdo esfarrapado e pingando. Acne de chum bo cobre a carne abaixo da face esquerda e do queixo. Lábio inferior dilacerado. Dentes rachados e quebrados. Cuspindo bolas. Um a cham a de dor, m as nenhum ferim ento no olho, visão não enfraquecida.
Ele corre agachado pelo lado sul da igrej a, através de um a penum bra tão densa e cinza, tão envolta em gazes de neve, que ele não tem nenhum a som bra. Sem som bra. Sem m ulher, sem filhas, sem m ãe, sem pai, desaparecidos, sem vida, roubada, usada e j ogada fora, sem espelho no qual se olhar, sem reflexo para confirm ar sua substância, sem som bra, apenas pegadas na neve para apoiar sua reivindicação de existência, pegadas e seu ódio, com o Claude Rains em O Homem Invisível, definido pelas pegadas e pela fúria.
Ele procura freneticam ente um a entrada, fazendo um a rápida inspeção em cada j anela por que passa.
Na prática, todos os vidros desapareceram dos altos painéis dos vitrais, m as as barras de aço perm anecem . Grande parte do chum bo que definia os padrões originais ainda se encontram entre as fasquias, em bora em m uitos lugares estej a dobrado, torcido e caído, torturado pelo tem po ou pelas m ãos dos vândalos, tornando irreconhecíveis os contornos originais dos sím bolos e figuras religiosas, deixando em seu lugar form as teratogênicas tão sem sentido quanto as form as de velas derretidas.
A penúltim a j anela da nave está sem a arm ação de aço, as fasquias e o chum bo. A base de granito que m arca o peitoril da j anela está a l,5m do chão. Ele se alça com a agilidade de um ginasta e se senta nas coxas no peitoril baixo. Espia para inúm eras som bras entrefolhadas de estranhos j orros sinuosos de brilho laranj a, am arelo, verde e azul.
Um a criança grita.
* * *
Correndo na passagem central da igrej a destruída pelos grafiteiros, Paige teve a peculiar sensação de que estava debaixo d’água, im ersa num clim a tropical, abaixo de um a enseada do Caribe, em cavernas de coral espalhafatosam ente lum inescentes, com algas equatoriais balançando suas folhas em plum adas e radiantes em volta dela.
Charlotte gritou.
Tendo chegado ao presbitério, Paige se vira para encarar a nave. Girando a Mossberg para a esquerda e para a direita, procurando, em pânico, a am eaça, ela viu O Outro quando Em ily gritou:
— Na j anela, pega ele.
De fato, ele estava sentado num a das j anelas ao sul — um a form a escura que, contra a pálida luz e os j orros esbranquiçados de neve, parecia apenas m eio hum ana. Os om bros curvados, a cabeça abaixada, braços caídos, ele tinha o aspecto de um m acaco.
Os reflexos de Paige foram rápidos. Ela disparou a Mossberg sem nenhum a hesitação.
Mesm o que a distância não estivesse a seu favor, ele teria escapado incólum e porque, quando ela apertou o gatilho, ele estava se m ovendo. Com a graça fugidia de um lobo, ele pareceu ter deslizado do peitoril para o chão. O chum bo grosso passou inofensivo no espaço que ele ocupara e espatifou a om breira da j anela que o em oldurara.
Ele fugiu de quatro entre as fileiras de bancos, onde desapareciam as som bras m ais profundas da igrej a. Se ela fosse caçá-lo ali, ele a pegaria e m ataria.
Paige recuou no presbitério e passou pelo santuário em direção a Marty e as m eninas, m antendo a espingarda preparada.
Os quatro retiraram -se para um quarto contíguo, que podia ter sido a Sacristia. Um par de j anelas de caixilho m al adm itia luz para revelar três portas além daquela pela qual entraram .
Paige fechou a porta do santuário e tentou trancá-la. Mas ela não estava equipada com um a fechadura. Não havia nenhum m óvel disponível para bloquear ou fixar a porta.
Marty tentou um a das outras portas.
— Fechada.
O vento estridente e a neve entraram pela porta que Charlotte abriu, de m odo que ela fechou-a com um a batida.
Ao exam inar a terceira possibilidade, Em ily disse:
— Escada.
* * *
Entre os bancos de igrej a. Rastej ando. Cauteloso.
Ele ouve um a porta ser batida.
E espera.
Presta atenção.
Fom e. A dor forte logo se dissipa em calor fraco. O sangram ento dim inui para um gotej am ento, um pingar. Agora a fom e o dom ina enquanto seu corpo exige enorm es quantidades de com bustível para facilitar a reconstrução do tecido danificado.
Ele j á está m etabolizando a gordura e a proteína do corpo para fazer reparos urgentes nos vasos sanguíneos rasgados ou rom pidos. Seu m etabolism o acelera-se de m aneira im piedosa, é um a função inteiram ente autônom a sobre a qual ele não tem nenhum poder.
O dom que o torna tão m enos vulnerável do que os outros hom ens logo com eçará a reclam ar um a taxa. Seu peso declinará. A fom e se intensificará até tornar-se tão excruciante quanto a agonia de ferim entos m ortais. A fom e se tornará um a ânsia. A ânsia se tornará um a necessidade desesperada.
Ele pensa em bater em retirada, m as está tão perto. Tão perto. Eles estão em fuga. Cada vez m ais isolados. Não podem opor resistência a ele. Se perseverar, em m inutos todos estarão m ortos.
Além disso, seu ódio e sua raiva são tão grandes quanto sua fom e. Ele está desvairado pela doce satisfação que só a extrem a violência pode garantir.
Na tela de cinem a de sua m ente, im agens hom icidas trem eluzem de form a sedutora: crânios espatifados à bala, rostos m artelados com brutalidade, olhos arrancados, gargantas dilaceradas, dorsos cortados, facas reluzentes, m achetes, m achados, m em bros cortados, m ulheres em fogo, crianças gritando, gargantas m achucadas de j ovens prostitutas, a carne se dissolvendo sob um spray de ácido...
Ele rastej a para fora dos bancos, entra no corredor central, fica agachado.
As paredes estão cheias de hieróglifos extraterrestres que brilham .
Ele está no ninho do inim igo.
Alienígena e estranho. Hostil e inum ano.
Seu m edo é grande. Mas só serve para alim entar sua raiva.
Ele corre para a frente do salão, atravessa um a abertura no corrim ão em direção à porta atrás da qual se retiraram .
* * *
Luz tão fraca quanto caldo de peixe penetrava através de j anelas não vistas acim a e em volta dos giros da escada em espiral.
O prédio ao qual a igrej a estava ligada tinha dois andares. Podia haver um a passagem de ligação entre essa escada e um a outra estrutura, m as Marty não tinha a m enor ideia de para onde se dirigiam . Por essa razão, ele quase desej ava que eles tivessem saído pela porta que dava no exterior.
Entretanto, a dorm ência no braço o tolhia bastante e a dor no om bro, que piorava a cada m inuto, drenava seriam ente a sua energia. O prédio não estava aquecido, era tão frio quanto o m undo lá fora, m as pelo m enos oferecia abrigo contra o vento. Entre seu ferim ento e a tem pestade, ele não pensava que duraria m ais atrás das paredes da igrej a.
As m eninas subiam na frente dele.
Paige vinha por últim o, externando sua preocupação em voz alta porque a porta aos pés da escada, assim com o a da Sacristia, não tinha um a fechadura. Ela subia de costas, passo a passo, protegendo o território atrás deles.
Em pouco tem po, eles alcançaram um a j anela de m últiplas abas, encravada na parede externa, que era a fonte da fraca ilum inação abaixo. A m aior parte do vidro claro estava intacta. A luz na escada espiralada tinha a m esm a qualidade lúgubre e, com toda probabilidade, entrava por outra j anela do m esm o tam anho e m odelo.
Marty m ovia-se m ais devagar e sua respiração ficava m ais trabalhosa quanto m ais alto subiam , com o se estivessem atingindo altitudes em que o conteúdo de oxigênio no ar sofria um drástico declínio. A dor em seu om bro esquerdo intensificava-se e a náusea adensava-se.
As paredes de reboco pintado, os degraus de m adeira cinzenta e a luz opaca lem bravam a ele os film es suecos depressivos dos anos cinquenta e sessenta, film es sobre desesperança, desespero e destino som brio.
No início, o corrim ão ao longo da parede externa não foi essencial para seu progresso. Entretanto, logo se tornou um a m uleta necessária. Ao longo de um tem po desanim adoram ente curto, Marty descobriu que não poderia contar com a força das pernas, que ficavam cada vez m ais trêm ulas, e que tam bém precisava im pulsionar-se para cim a com o braço direito bom .
No m om ento em que chegaram à segunda j anela com m últiplas abas, com m ais degraus e lum inosidade cinzenta pela frente, Marty soube onde estavam : num a torre de sino.
A escada não levaria a um a passagem que os ligasse ao segundo andar de algum outro prédio, porque j á estavam m ais alto do que dois andares. Cada passo adicional para cim a era um com prom isso irreversível com essa opção única.
Agarrando o corrim ão com a m ão direita boa, com eçando a sentir-se tonto e com m edo de perder o equilíbrio, Marty parou para advertir Paige de que seria m elhor pensar em voltar. Talvez a perspectiva inversa dela no poço da escada a im pedisse de com preender a natureza da arm adilha.
Antes que ele pudesse falar, a porta lá em baixo se abriu com estardalhaço, fora do cam po de visão, do outro lado das prim eiras voltas.
* * *
Seu últim o pensam ento claro é a súbita percepção de que j á não tem m ais seu Chief ’s Special 38, que deve ter perdido depois de ter sido alvej ado na entrada da igrej a; a arm a caiu na neve e ele não notou a perda até esse m om ento. Ele não tem tem po para recuperá-la, m esm o sabendo onde procurar. Agora, sua principal arm a é seu corpo, suas m ãos, suas habilidades hom icidas e sua força excepcional. Seu ódio feroz é um a arm a, tam bém , porque o m otiva a correr qualquer risco, confrontar o perigo extrem o e suportar o sofrim ento cruel que incapacitaria um hom em com um . Mas ele não é com um , é um herói, é j ulgam ento e vingança, é a fúria recom pensadora de j ustiça, vingador de sua fam ília assassinada, Nêm ese de todas as criaturas que não são desta terra, m as que tentariam reivindicá-la com o sua, salvador da hum anidade. Essa é a razão de sua existência. Enfim , sua vida tem sentido e propósito: salvar o m undo daquele flagelo inum ano.
* * *
Pouco antes de a porta abrir-se abaixo de Paige, a estreita escada em espiral trouxe à m ente faróis que ela vira em film es. Da im agem de um farol, ela pulou para a percepção de que se encontravam na torre do sino da igrej a. Então, a porta m ais baixa se abriu, fora do cam po de visão, do outro lado das paredes em curva do poço da escada em espiral, e eles não tinham outra escolha a não ser continuar até o topo.
Durante um breve m om ento, ela pensou em atacar escada abaixo, abrindo fogo quando estivesse bem em cim a dele. Mas ao ouvir os seus passos descendo, ele poderia retirar-se para a Sacristia, onde o grosso fio do crepúsculo j á tecia a escuridão, onde ele poderia aproxim ar-se dela no escuro e atacá-la quando sua atenção fosse desviada para o grupo errado de som bras.
Ela tam bém podia esperar onde estava, deixá-lo ir até ela e estourar-lhe a cabeça tão logo ele aparecesse no cam po de visão. Entretanto, se ele sentisse que ela estava esperando, e se abrisse fogo ao fazer a curva, não erraria o alvo naquele recinto apertado. Ela poderia estar m orta antes de conseguir apertar o gatilho ou, na m elhor das hipóteses, podia, ao cair, disparar um tiro no teto da escada, causando dano apenas no reboco.
Ao recordar a silhueta preta no peitoril da j anela da nave e a estranha rapidez com que se m overa, ela suspeitou que os sentidos do Outro eram m ais aguçados do que os dela. Ficar deitada esperando com a esperança da surpresa talvez fosse um j ogo de tolo.
Ela continuou subindo, tentando convencer-se de que eles estavam na m elhor de todas as posições possíveis: defendendo terreno alto contra um inim igo que dispunha apenas de um a aproxim ação estreita. Era com o se a plataform a da torre do sino devesse ser um reduto inexpugnável.
* * *
Inundado por agonias de fom e, suando de necessidade e raiva, com pelotas de chum bo estourando em sua carne, ele se cura degrau a degrau, m as com um custo. A gordura do corpo m íngua e até parte do tecido m uscular e da m assa de ossos são sacrificadas para acelerar a em enda dos ferim entos do chum bo grosso. Ele range os dentes com a necessidade com pulsiva de m astigar, m astigar e engolir, despedaçar e rasgar, alim entar-se, alim entar-se, em bora não haj a nenhum alim ento que satisfaça a terrível dor cruciante que o tortura.
* * *
No topo da torre, m etade do espaço tinha um a parede com pleta, proporcionando um patam ar para a escada. Um a porta com um dava acesso desse vestíbulo para um a outra parte da plataform a, que era exposta aos elem entos em três lados. Charlotte e Em ily abriram a porta sem dificuldade e saíram apressadas do poço da escada.
Marty seguiu-as. Estava com um a fraqueza desalentadora, porém m ais tonto do que fraco. Ele agarrou o um bral da porta e depois o coroam ento de concreto da parede da altura da cintura — o parapeito — que encerrava os outros três lados da plataform a externa do cam panário.
Acentuada pelo vento frio, a tem peratura devia estar cinco ou dez graus abaixo de zero. Marty estrem eceu quando a forte ventania chicoteou seu rosto — e não ousou pensar o quanto m ais frio seria dez m inutos ou um a hora depois.
Em bora Paige pudesse ter balas de espingarda em quantidade suficiente para im pedir que O Outro os alcançasse, eles não sobreviveriam à noite.
Se a previsão do tem po estivesse certa e a tem pestade durasse até m uito depois do am anhecer, eles não conseguiriam usar a Mossberg para tentar cham ar atenção para sua situação até de m anhã. O vento uivante dispersaria o estrondo do tiro antes que o barulho revelador pudesse chegar além da propriedade da igrej a.
A plataform a exposta tinha quase quatro m etros, piso de ladrilhos e calhas para esgotar a água da chuva. Dois postes de canto, com cerca de l,80m de altura, pairavam acim a da parede e, com a aj uda da parede inteira do lado leste, sustentavam o teto pontudo do cam panário.
Não havia nenhum sino no cam panário. Quando Marty olhou de olhos sem icerrados para os recessos som brios do espaço cônico, viu as form as negras do que podiam ser alto-falantes que antes transm itiam as badaladas gravadas.
Parecendo ficar ainda m ais branca enquanto o dia escurecia sem parar, a neve caía inclinada no cam panário com o vento noroeste. Um a pequena corrente se form ava ao longo da base da parede sul.
As m eninas haviam fugido pela cobertura para o lado oeste, o m ais longe possível da porta, m as Marty sentia-se inseguro dem ais para atravessar m esm o aquela curta distância sem apoio. Enquanto dava a volta na plataform a para ir j untar-se a elas, apoiando a m ão direita no parapeito da altura da cintura, os ladrilhos do chão pareceram escorregadios, em bora tivessem um a textura para ser m enos traiçoeiros quando estivessem úm idos.
Ele com eteu o erro de olhar por sobre a beirada do parapeito, para o fosforescente m anto de neve no solo, seis ou sete andares abaixo. A visão incitou um ataque de vertigem tão forte que Marty quase desm aiou antes de desviar os olhos da longa queda.
Quando alcançou as filhas, Marty sentia m ais náuseas do que antes, e trem ia com tanta força que qualquer tentativa de falar resultaria em cadeias trêm ulas de sons vagam ente sem elhantes a palavras. Por m aior que fosse seu frio, ainda assim o suor gotej ou em sua coluna dorsal. O vento uivava, a neve rodopiava, a noite caía e o cam panário parecia estar girando com o um carrossel.
A dor do ferim ento no om bro se havia espalhado por seu dorso, até que o ponto de fogo passou a ser apenas o centro de um a dor m ais generalizada que latej ava com cada batida de seu coração. Ele sentia-se desam parado, ineficaz, e xingou-se por ser tão inútil no m om ento em que sua fam ília m ais precisava dele.
Paige não se reunira a Marty e às m eninas na plataform a. Ficou parada ao lado da porta aberta, no patam ar cercado, espiando a escada curva abaixo.
Cham as j orraram do cano da arm a, fazendo as som bras dançarem . O bum do tiro — e os ecos — soaram do outro lado da plataform a do cam panário, e da escada veio um grito de dor e de raiva que quase não era hum ano, logo seguido por um segundo tiro e m ais agudos e guinchos estranhos.
Aum entaram as esperanças de Marty — e sucum biram um instante depois quando o grito agonizante do Outro foi seguido pelo berro de Paige.
* * *
Ao longo da parede curva, passo a passo, queim ando de fom e, cheio de fogo, a fornalha do corpo atiçada num fogo incandescente, torturado pela necessidade, alerta para qualquer som , m ais alto, m ais alto, m ais alto na escuridão, queim ando por dentro, fervendo, desesperado e im pelido, im pelido pela necessidade, depois a coisa assom ando, a coisa-Paige no patam ar acim a, um a silhueta enrolada em som bras, m as reconhecível com o a coisa-Paige, repulsiva e m ortal, um a sem ente alienígena. Ele cruza os braços sobre o rosto, protegendo os olhos, absorvendo o prim eiro golpe duro, m il ferrões de dor, um a profunda m artelada, quase j ogado para trás escada abaixo, balançando nos calcanhares, os braços paralisados por um instante, sangrando e rasgado, pegando fogo de necessidade, necessidade, um a dor interna pior do que a externa, mover-se-mover-se-enfrentar-desafiar-lutar-e-vencer, investindo para a frente, para cim a, gritando sem querer, o segundo tiro um a m arreta no peito, o coração gaguej a, gaguej a, a escuridão cai, o coração gaguej a, o pulm ão esquerdo estoura com o um balão, sem respiração, sangue na boca. A carne rasga, o sangue j orra, a carne se une, o sangue vaza. Ele inspira, inspira e ainda está se m ovendo para cim a, para cim a e para a m ulher, nunca teve que suportar tam anha agonia, um m undo de dor, um caldeirão de fogo, lava em suas veias, o pesadelo de um a fom e que tudo consom e, testando os lim ites de seu corpo m ilagroso, oscilando na beira da m orte, cair sobre ela, j ogá-la para trás, as garras na arm a, arrancá-la dela, arrem essar para o lado, ir na garganta dela, em seu rosto, bater em seu rosto, m order seu rosto, ela o m antém recuado, para trás, m as ele precisa de seu rosto, rosto, o m acio rosto pálido dela, carne alienígena, substância para saciar a necessidade, a terrível necessidade que queim a sem parar.
* * *
O Outro arrancou a espingarda da m ão de Paige, j ogou-a para o lado, bateu com força nela e j ogou-a para trás pelo vão da porta.
A área sob o cam panário parecia estar m ais ilum inada pela fosforescência natural da neve caindo do que pela luz que se dissipava no dia que m orria. Marty viu que O Outro tinha sofrido ferim entos horríveis e passara por estranhas m udanças — ainda estava passando — em bora a penum bra cendrada encobrisse detalhes dessa m etam orfose.
Paige caiu na plataform a do cam panário. O Outro j ogou-se em cim a dela com o um predador sobre sua presa, rasgando-lhe a j aqueta de esqui, soltando um assobio seco de excitação, rangendo os dentes com a ferocidade de um a criatura selvagem que sai do bosque na m ontanha.
Agora era um a coisa. Não um hom em . Estava acontecendo algo terrível, em bora não identificável de todo.
Im pelido pelo desespero, Marty encontrou dentro de si um a últim a fonte de força. Superou a tontura que beirava à total desorientação e deu um chute naquela coisa odiosa que queria sua vida. Atingiu direto na cabeça. Em bora estivesse usando tênis, o chute teve um trem endo im pacto, espatifando todo o gelo que se form ara no tênis.
O Outro uivou, tom bou para fora de Paige, rolou contra a parede sul, m as no m esm o instante pôs-se de j oelhos, depois levantou-se nos pés, rápido com o um gato e im previsível.
Quando a coisa ainda tom bava, Paige arrastou-se até as m eninas, colocando-as atrás de seu corpo.
Marty investiu sobre a arm a descarregada no patam ar a centím etros do outro lado da porta aberta. Agachou-se e, com a m ão direita, pegou a Mossberg pelo cano.
Paige e um a das m eninas gritaram um a advertência.
Marty não tinha tem po para reverter a posição da arm a e enfiar um a bala na câm ara. Levantou-se e girou num m ovim ento, soltando um grito selvagem não diferente daqueles de seu adversário, e girou a espingarda de caça pelo cano.
A coronha da Mossberg m artelou o lado esquerdo do Outro, m as não com força suficiente para quebrar as costelas. Marty fora forçado a bater com um a das m ãos, incapaz de usar a esquerda, e o recuo do golpe voltou para ele, fazendo seu peito doer, m achucando-o m ais do que ao Outro.
Arrancando a Mossberg de Marty, o sósia não m udou a arm a para seu uso próprio, com o se tivesse atingido um estado subum ano no qual só reconhecia a arm a com o um a clava. Em vez disso, j ogou a Mossberg fora, girando-a por sobre a parede da altura da cintura, na noite nevada.
A palavra “sósia” j á não se aplicava m ais. Marty ainda podia ver alguns aspectos de si m esm o naquela fisionom ia deform ada, m as m esm o naquela penum bra ninguém os confundiria com o irm ãos. Não era o dano do tiro que fazia a principal diferença. O rosto pálido estava estranham ente fino e pontudo, a estrutura óssea proem inente dem ais, os olhos afundados em círculos escuros, cadavéricos.
A Mossberg ainda girava na neve que caía quando a coisa atacou Marty, lançando-o na parede norte. A parede de concreto da altura da cintura atingiu-o nos rins com tanta violência que arrancou dele a pouca força que conseguira j untar.
O Outro agarrava-o pela garganta. Reprise do corredor do andar de cim a, ontem , em Mission Viej o. Dobrando-o para trás com o o dobrara sobre o corrim ão da galeria. Dessa vez, m ais para a queda, num a escuridão m ais negra que a noite, num frio m ais intenso que as torm entas de inverno.
As m ãos em volta de seu pescoço não pareciam m ãos, em absoluto. Duras com o garras m etálicas de um a arm adilha de lobo. Quentes apesar da noite gélida, tão quentes que quase o cham uscavam .
Não estava apenas estrangulando-o, m as tam bém tentava m ordê-lo com o havia tentado m order Paige, golpeando com o um a cobra, assobiando. Rosnando no fundo da garganta. Os dentes trincados no ar a dois centím etros do rosto de Marty. Hálito am argo e grosso. O fedor da decadência. Ele tinha a sensação de que, se pudesse, o Outro o devoraria, rasgaria sua garganta e beberia seu sangue.
A realidade superava a im aginação.
Toda razão desaparecia.
Os pesadelos eram reais. Os m onstros existiam .
Com a m ão boa, Marty agarrou um punhado do cabelo do Outro e puxou com força, j ogando-lhe a cabeça para trás, ansioso para m anter aqueles dentes brilhantes longe dele.
Os olhos do Outro brilharam e reviraram -se. Voou um a saliva espum ante quando ele gritou.
O calor derram ou-se em seu corpo, tão quente quanto o toque no assento de vinil de um carro aquecido pelo sol do verão.
O Outro soltou a garganta de Marty, m as ainda fixando-o contra o parapeito, esticou o braço para trás e pegou a m ão que agarrava seu cabelo. Dedos ossudos. Inum anos. Garras duras. Pareciam sem carne, quebradiças, m as m uito ferozes e fortes, e quase esm agou sua m ão antes de ele soltar o cabelo. Então, ele j ogou a cabeça para o lado e m ordeu o antebraço de Marty, rasgando a m anga da j aqueta m as não a carne. Mordeu-o de novo, afundou os dentes em sua m ão, e Marty gritou. A coisa agarrou-lhe a j aqueta de esqui, puxando-o do parapeito enquanto Marty inclinava-se no vazio para escapar da coisa, m ordeu seu rosto, com os dentes fechando-se um a fração de centím etro de sua face. A coisa grunhiu um a única palavra torturada, preciso, e tentou dar um a dentada em seu olho, m ordendo, m ordendo seu olho.
— Estej a em paz, Alfie.
Marty registrou as palavras, m as no início não ouviu com clareza suficiente para com preender o que significavam , ou para perceber que nunca antes tinha ouvido aquela voz.
O Outro j ogou a cabeça para trás, com o se estivesse prestes a dar a estocada final contra seu rosto. No entanto, m anteve essa postura, com os olhos selvagens, o rosto esquelético de um a lum inosidade tão suave quanto a neve, os dentes de fora, rolando a cabeça de lado a lado, soltando um som fino e sem palavras, com o se não soubesse ao certo por que hesitava.
Marty sabia que devia aproveitar o m om ento para j ogar o j oelho contra a virilha da coisa, tentar j ogá-la para trás na plataform a, para o parapeito oposto, para cim a, para fora e para longe. Podia im aginar o que fazer, ver com seus olhos de escritor um m om ento de ação de um rom ance ou film e totalm ente pensado, m as não lhe sobravam forças. A dor latej ava em seu ferim ento à bala, a garganta e a m ão m ordida inchavam , a vertigem e a náusea o possuíam , e Marty soube que estava à beira de um desm aio.
— Estej a em paz, Alfie — repetiu a voz com m ais firm eza.
Ainda segurando Marty, desam parado em suas m ãos ferozes, O Outro girou a cabeça na direção da pessoa que falou.
Um a lanterna elétrica piscou, dirigida para o rosto da criatura.
Piscando para a fonte de luz, Marty viu um hom em com j eito de urso, alto e com peito de barril, e um hom em m enor em traj e de esqui preto. Os dois eram estranhos.
Dem onstravam um pouco de surpresa, m as não o choque e horror que Marty teria esperado.
— Minha nossa! — disse o hom em m enor —, o que está acontecendo com ele?
— Fusão m etabólica — respondeu o m aior.
Marty olhou para a parede oeste do cam panário, onde Paige estava agachada com as m eninas, protegendo-as, m antendo suas cabeças em seu peito para im pedir que vissem m uito a criatura.
— Estej a em paz, Alfie — repetiu o hom em m enor.
O Outro grunhiu num a voz torturada pela raiva, dor e confusão:
— Pai. Pai. Pai?
Marty ainda estava sendo segurado com firm eza, e sua atenção fora novam ente atraída pela coisa que antes se parecia com ele.
O rosto ilum inado pela lanterna era m ais hediondo do que parecera na escuridão. Tufos de vapor subiam em alguns lugares, confirm ando sua sensação de que era quente. Um a grande quantidade de ferim entos à bala se abria num lado da cabeça, m as não sangravam e, de fato, pareciam quase curados. Enquanto Marty olhava, um a pelota de chum bo preto saiu da têm pora da criatura e escorreu por sua face num a trilha fina de fluido am arelado.
Os ferim entos eram seus traços m enos repulsivos. Apesar da força física que ele ainda possuía, tinha tão pouca carne quanto algo que saía de um caixão depois de um ano debaixo da terra. A pele estava toda esticada em seus ossos faciais. Suas orelhas estavam enrugadas em nós duros de cartilagem e encostavam na cabeça. Lábios ressecados haviam encolhido para dentro das gengivas, dando m aior proem inência aos dentes, criando a ilusão de um a focinheira e o bico m alvado de um predador.
Era a m orte personificada, O Ceifeiro Som brio sem sua volum osa túnica preta e a foice, a cam inho de um baile à fantasia, num traj e de carne tão fino e barato que em nenhum m om ento era convincente.
— Pai? — disse a coisa de novo, olhando para o estranho de traj e de esqui preto. — Pai?
Com insistência:
— Estej a em paz, Alfie.
O nom e “Alfie” era tão inadequado para a grotesca aparição que ainda segurava Marty, que este suspeitou que a chegada dos dois hom ens era um a alucinação.
O Outro afastou-se do feixe de luz e lançou outro olhar feroz para Marty. Ele parecia não saber ao certo o que fazer em seguida.
Então, a coisa aproxim ou seu rosto de cem itério do rosto de Marty, em pinando a cabeça com o se estivesse curioso.
— Minha vida? Minha vida?
Marty não sabia o que ele perguntava e estava tão fraco pela perda de sangue, pelo choque ou por am bos, que só conseguiu em purrar a coisa com a m ão direita fraca.
— Solte-m e.
— Preciso — disse a coisa. — Preciso, preciso, preciso, preciso, PRECISO, PRECISOOOO.
A voz espiralou num grito estridente. Sua boca escancarou-se num sorriso sem hum or e atacou o rosto de Marty.
Soou um tiro. A cabeça do Outro foi j ogada para trás. Marty curvou-se contra o parapeito, enquanto a criatura o soltava e seu grito de fúria dem oníaca abafava gritos de terror de Em ily e Charlotte.
O Outro fechou as m ãos esqueléticas no crânio espatifado, com o se tentasse m antê-lo inteiro.
O feixe da lanterna oscilou, encontrou-o.
As fissuras no osso curaram e o buraco de bala com eçou a fechar-se, im pelindo a bala de chum bo para fora do crânio. Mas o custo dessa cura m ilagrosa ficou evidente quando o crânio do Outro com eçou a ter um a m udança m ais dram ática, ficando m enor e m ais estreito e m ais lupino, com o se os ossos se dissolvessem e reform assem sob o fino revestim ento de pele, tom ando m assa num lugar para reconstruir danos em outro.
— Está se canibalizando para fechar o ferim ento — disse o grandalhão.
Mais tufos fantasm agóricos de vapor se erguiam da criatura, que com eçou a rasgar as roupas que estava usando, com o se não conseguisse tolerar o calor.
O hom em m enor atirou de novo. No rosto.
Ainda segurando a cabeça, O Outro girou na plataform a do cam panário, indo colidir com o parapeito sul. Quase passou por cim a, caindo no vazio.
A coisa caiu de j oelhos, soltando as roupas rasgadas com o se fossem farrapos de um casulo, contorcendo-se num a form a m ais som bria e inum ana, contraindo-se, inquietando-se.
Não estava m ais berrando ou sibilando. Soluçava. Apesar de sua aparência cada vez m ais m onstruosa, os soluços deixavam -no m enos am eaçador e até digno de pena.
Infatigável, o atirador deu um passo à frente e disparou um terceiro tiro.
Os soluços abateram Marty, talvez porque havia algo de hum ano e patético nele. Fraco dem ais para ficar de pé, ele deslizou para o chão, as costas apoiadas no parapeito da altura da cintura, e teve que desviar o olhar da criatura que se debulhava em lágrim as.
Passou-se um a eternidade antes que O Outro ficasse totalm ente im óvel e quieto.
Marty ouviu as filhas chorarem .
Relutante, ele virou os olhos para o corpo caído do outro lado da plataform a, agora banhado pelo im piedoso feixe revelador da lanterna. O cadáver era um quebra-cabeça de ossos e carne brilhante, a m aior parte de sua substância havia sido consum ida nas frenéticas tentativas de se curar e ficar vivo. Os restos torcidos e rasgados m ais pareciam os de um a form a alienígena do que de um hom em .
O vento soprava.
A neve caía.
Descia um frio m ais intenso.
Depois de algum tem po, o hom em de traj e de esqui preto afastou-se dos restos e falou com o hom em com cara de urso.
— De fato, um m enino m uito m au.
O hom em m aior não disse coisa algum a.
Marty queria perguntar quem eram eles. Entretanto, sua consciência era tão tênue que ele pensou que o esforço para falar poderia fazer com que desm aiasse.
O hom em m enor disse para seu parceiro:
— O que você achou da igrej a? Tão esquisita quanto qualquer coisa com que Kirk e a tripulação se depararam , não? Todas essas obscenidades lum inosas nas paredes. Vai tornar nosso pequeno cenário m ais convincente ainda, não acha?
Em bora estivesse tão tonto com o se tivesse bebido e sentisse dificuldade para m anter os pensam entos concentrados, agora Marty confirm ara o que suspeitara quando os dois hom ens chegaram : eles não eram salvadores, m as apenas novos executores, e só m arginalm ente m enos m isteriosos do que O Outro.