Sr. Assassino
Seis
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Você vai fazer isso? — perguntou o m aior dos dois.
— Problem a dem ais para arrastá-los de volta à cabana. Você não acha que essa igrej a esquisita é um cenário m elhor?
— Drew — disse o grandalhão —, tem um a série de coisas em você que eu gosto.
O hom em m enor pareceu confuso. Ele enxugou a neve que o vento lançou em seus cílios.
— O que você disse?
— Você é m uito esperto, m esm o para quem foi a Princeton e Harvard. Tem um bom senso de hum or, tem m esm o, você m e faz rir, m esm o quando é à m inha custa. Porra, sobretudo quando é à m inha custa.
— O que você está falando?
— Mas você é um filho da puta m aluco e doente — disse o grandalhão, levantando a arm a e atirando no parceiro.
Drew, se fosse esse seu nom e, chocou-se com o chão de ladrilhos com tanta força com o se fosse de pedra. Caiu de lado, encarando Marty. Sua boca estava aberta, assim com o seus olhos, em bora estivesse com olhar de cego e parecesse nada ter a dizer.
No centro da testa de Drew havia um feio buraco de bala. Enquanto conseguiu m anter a consciência, Marty ficou olhando fixo para o ferim ento, que não parecia estar se curando.
O vento soprava.
A neve caía.
Um frio m ais intenso descia — j unto com um a escuridão m aior.
7.
Marty acordou com a testa pressionada no vidro frio. A neve pesada batia no outro lado do painel.
Estavam estacionados perto de bom bas de gasolina. Entre as bom bas e a neve que caía, ele viu um pequeno superm ercado bem ilum inado, com j anelas grandes.
Ele virou a cabeça para longe do vidro e sentou-se m ais ereto. Estava no assento traseiro de um a perua tipo cam inhão, um a Explorer ou Cherokee.
Atrás do volante, o grandalhão do cam panário estava virado no assento, olhando para trás.
— Com o você está?
Marty tentou responder. A boca estava seca, a língua grudada no céu da boca e a garganta m achucada. O grasnido que escapou dele não foi um a palavra.
— Acho que vai ficar bom — disse o estranho.
A j aqueta de esqui de Marty estava aberta e ele ergueu a m ão trêm ula para o om bro esquerdo. Sob o suéter de lã m olhado de sangue, ele sentiu um a estranha m assa volum osa.
— Socorro m édico de cam panha — disse o hom em . — O m elhor que pude fazer na pressa. Quando sairm os dessas m ontanhas e atravessarm os a fronteira do condado, lim parei o ferim ento e trocarei o curativo.
— Está doendo.
— Não duvido.
Marty não se sentia apenas fraco, m as tam bém frágil. Ele vivia das palavras e nunca deixava de ter a palavra certa quando precisava, de m odo que foi frustrante ver-se com energia apenas para falar:
— Paige?
— Lá dentro com as m eninas — disse o estranho, indicando a com binação posto de gasolina e superm ercado. — As m eninas estão usando o banheiro. A Sra. Stillwater está pagando ao caixa, pegando um pouco de café quente. Acabei de encher o tanque.
— Você é...
— Clocker. Karl Clocker.
— Atirou nele.
— Claro que sim .
— Quem ... quem ... era ele?
— Drew Oslett. A questão m aior é... o que ele era?
— Hem ?
Clocker sorriu.
— Nascido de hom em e m ulher, m as não era m ais hum ano que o pobre Alfie. Se lá fora, em algum lugar, houver um a espécie alienígena m á saqueando a galáxia, j am ais se m eterá conosco se souber que podem os produzir um a espécie com o Drew.
* * *
Clocker dirigia e Charlotte ocupava o assento do carona. Ele se referia a ela com o “prim eiro piloto Stillwater” e incum biu-a do dever de “passar o café para o capitão quando ele precisasse de um outro gole e, fora isso, im pedir o derram am ento catastrófico que podia causar danos irreparáveis ao navio”.
Ao contrário de sua característica, Charlotte estava contida e sem vontade de brincar.
Marty estava preocupado com as cicatrizes psicológicas que aquela provação podia ter deixado nela — e com o traum a e problem as adicionais que eles podiam ter pela frente.
No assento traseiro, Em ily estava sentada atrás de Karl Clocker, Marty atrás de Charlotte e Paige entre os dois. Em ily não estava apenas quieta, m as em com pleto silêncio, e Marty tam bém se preocupava com ela.
Fora de Mam m oth Lakes, na Rota 203 e ao sul na 395, o avanço foi lento. Havia cinco ou sete centím etros de neve no chão, e a nevasca uivava a plenos pulm ões.
Clocker e Paige bebiam café e as m eninas tom avam chocolate. Os arom as deviam ser atraentes, m as aum entaram o enj oo de Marty.
Ele recebeu suco de m açã. No superm ercado, Paige adquirira um a caixa de seis latas de suco.
— Deve ser a única coisa que você pode segurar no estôm ago — disse Clocker. — E m esm o que lhe dê ânsias de vôm ito, você tem que tom ar o m áxim o que puder porque, com esse ferim ento, com toda certeza está se desidratando perigosam ente.
Marty estava tão trêm ulo que, m esm o com a m ão direita, não conseguiu segurar o suco sem derram ar. Paige pôs um canudo na lata, segurou-a por ele e enxugou-lhe o queixo sem pre que o suco escorria.
Marty sentia-se desam parado. Perguntava-se se o ferim ento seria m ais grave do que lhe disseram ou perceberam .
Intuitivam ente, ele sentia que estava m orrendo — m as não sabia se essa era um a im pressão exata ou a m aldição da im aginação de um escritor.
* * *
A noite estava cheia de flocos brancos, com o se o dia não apenas houvesse se dissipado, m as sim se espatifado num a infinidade de pedaços que flutuariam para sem pre através de um a escuridão infinita.
Clocker contou-lhes sobre a Rede, falando m ais alto que o chilrear das correntes dos pneus e o rosnar do m otor, enquanto desciam das Sierras num com boio de carros atrás de um lim pa-neve e de um cam inhão de cinzas.
Era um a aliança de pessoas poderosas no governo, negócios, j ustiça e m eios de com unicação, reunidas através da percepção com partilhada de que a tradicional dem ocracia ocidental era um sistem a ineficiente e inevitavelm ente catastrófico para ordenar a sociedade. Elas estavam convencidas de que a im ensa m aioria dos cidadãos era com odista, procurava a sensação, não tinha valores espirituais, era gananciosa, preguiçosa, invej osa, racista e deploravelm ente ignorante de todas as questões im portantes.
— Eles acreditam — disse Clocker — que a história registrada prova que as m assas sem pre foram irresponsáveis e que a civilização só progrediu por sorte e pelos esforços diligentes de alguns poucos visionários.
— Eles acham que essa ideia é nova? — perguntou Paige com desdém . — Já ouviram falar de Hitler, Stalin, Mao Tse-tung?
— O que eles acham que é novo — disse Clocker — é que chegam os a um a era em que as escoras tecnológicas da sociedade são tão com plexas e tão vulneráveis, por causa dessa com plexidade, que a civilização... de fato, o próprio planeta... não pode sobreviver se o governo tom a decisões baseadas nos caprichos e m otivações egoístas das m assas, que puxam as alavancas nas cabines de votação.
— Merda — disse Paige.
Marty teria apoiado a opinião dela caso se sentisse forte o bastante para entrar na discussão. Mas só tinha forças para chupar e engolir o suco de m açã.
— O que eles são m esm o — disse Clocker — é o poder bruto. A única coisa nova neles, não im portando o que pensem , é que estão trabalhando j untos a partir de extrem os diferentes do espectro político. As pessoas que querem banir Huckleberry Finn das bibliotecas, e as pessoas que querem banir os livros de Anne Rice, podem parecer m otivadas por interesses diferentes, m as do ponto de vista espiritual são irm ãos e irm ãs.
— Certo — disse Paige. — Elas com partilham a m esm a m otivação... o desej o não apenas de controlar o que outras pessoas fazem , m as tam bém o que pensam.
— Os ecologistas m ais radicais, aqueles que querem reduzir a população do m undo com m edidas extrem as em um a ou duas décadas, porque acreditam que a ecologia do planeta está em perigo, são de certa m aneira sim páticos com as pessoas que gostariam de reduzir drasticam ente a população m undial apenas porque acham que há negros e m ulatos dem ais.
— Um a organização com tais extrem os não pode m anter-se intacta durante m uito tem po — explicou Paige.
— Concordo — disse Clocker. — Mas se desej am o poder com m uita intensidade, o poder total, podem trabalhar j untos o tem po suficiente para obtê-lo. Depois, quando estiverem no controle, apontarão as arm as uns contra os outros e atingirão o resto de nós no fogo cruzado.
— Qual o tam anho da organização de que estam os falando? — perguntou ela.
— Grande — disse Clocker depois de um a hesitação.
Marty chupou o canudo, sentindo um a gratidão exagerada pelo nível de civilização que perm itia a sofisticada integração da agricultura, do processam ento de com ida, em balagem , marketing e distribuição de produtos tão côm odos com o um frio e doce suco de m açã.
* * *
— Os diretores da Rede acham que a tecnologia m oderna encarna um a am eaça para a hum anidade — explicou Clocker, ligando os lim padores de para-brisas num a velocidade m ais baixa —, m as não são contra usar o lado do corte dessa tecnologia para perseguir o poder.
O desenvolvim ento de um a força de clones totalm ente controláveis para servir com o policiais e soldados obedientes do próxim o m ilênio era apenas um dos inúm eros program as de pesquisa, que visavam aj udar a pôr em m ovim ento o novo m undo, apesar de ser um dos prim eiros a dar frutos. O prim eiro indivíduo da prim eira — ou Alfa — geração de clones operáveis.
Com o a sociedade estava cheia de pensadores incorretos em posições de autoridade, os prim eiros clones deviam ser em pregados para assassinar os líderes nos negócios, no governo, nos m eios de com unicação e na educação, que eram retrógrados dem ais em sua atitude para serem persuadidos da necessidade de m udança. O clone não era um a pessoa real, m as m ais ou m enos um a m áquina feita de carne; portanto, era o assassino ideal. Ele não tinha nenhum a consciência de quem o criara e instruíra, de m odo que não podia trair seus operadores ou revelar a conspiração em que servia.
Clocker reduziu a m archa quando o com boio de veículos dim inuiu de velocidade num declive m uito varrido pela neve.
— Com o não é reprim ido pela religião — continuou ele —, pela filosofia, por algum sistem a de crença, por um a fam ília ou um passado, não há m uito perigo de que um clone assassino com ece a duvidar da m oralidade das atrocidades que com ete, de que desenvolva um a consciência ética ou apresente algum vestígio de livre-arbítrio que possa interferir no desem penho de suas m issões.
— Mas claro que algum a coisa deu errado com Alfie — disse Paige.
— Sim . E j am ais saberem os exatam ente o quê.
Por que ele se parecia comigo?, Marty queria perguntar, m as em vez disso sua cabeça refestelou-se no om bro de Paige e ele perdeu os sentidos.
* * *
Um corredor de espelhos num labirinto carnavalesco de um parque de diversões. Frenético, procurando um a saída. Reflexos o fitavam com raiva, invej a, ódio, sem conseguir im itar suas expressões e m ovim entos, saindo de um espelho após o outro, perseguindo-o, um exército sem pre crescente de Martin Stillwater, tão parecidos com ele na aparência externa, tão som brios e frios por dentro. Agora, tam bém na frente dele, estendendo a m ão para fora dos espelhos pelos quais ele passa correndo e nos quais se atrapalha, agarrando-o, todos falando com um a só voz: eu preciso de minha vida.
Os espelhos se espatifaram com o um só e ele acordou.
Luz artificial.
Teto com som bras.
Deitado na cam a.
Frio e quente, trem endo e suando.
Ele tentou sentar-se. Não conseguiu.
— Querido?
Quase sem forças para virar a cabeça.
Paige. Em um a cadeira. Ao lado da cam a.
Um a outra cam a atrás dela. Form as sob cobertas. As m eninas. Dorm indo.
Cortinas nas j anelas. Noite nos cantos das cortinas. Ela sorriu.
— Você com igo, baby?
Ele tentou passar a língua nos lábios. Estavam rachados. A língua estava seca, peluda.
Ela pegou um a lata de suco de m açã num balde de gelo de plástico, onde ela esfriava, levantou a cabeça de Marty do travesseiro e guiou o canudo para seus lábios.
Depois de beber, ele conseguiu dizer:
— Onde?
— Um m otel em Bishop.
— Bastante longe?
— Tem que ser, por enquanto — disse ela.
— Ele?
— Clocker? Vai voltar.
Marty estava m orto de sede. Ela lhe deu m ais suco.
— Preocupado — sussurrou ele.
— Não. Não se preocupe. Está tudo bem agora.
— Ele.
— Clocker?
Ele concordou com um aceno de cabeça.
— Podem os confiar nele.
Mesm o o ato de beber o deixava exausto. Ele tornou a baixar a cabeça no travesseiro.
O rosto de Paige parecia de um anj o. E desapareceu.
* * *
Escapando do corredor de espelhos para um longo túnel negro. Luz no fim , correndo para lá, passos atrás, um a legião o perseguia, avançando sobre ele, os hom ens saídos dos espelhos. A luz é sua salvação, um a saída do labirinto do parque de diversões. Ele explode para fora do túnel, sai na claridade que se revela com o o cam po de neve diante da igrej a abandonada, onde ele corre para a porta da frente, com Paige e as m eninas, O Outro atrás deles, e um tiro explode, um a lança de gelo lhe trespassa o om bro, o gelo transform a-se em fogo, o fogo...
A dor era insuportável.
Sua visão turva pelas lágrim as. Ele piscava, desesperado para saber onde estava.
A m esm a cam a, o m esm o quarto.
As cobertas haviam sido puxadas para o lado.
Ele estava nu da cintura para cim a. O curativo sum ira.
Um a outra explosão de dor no om bro arrancou um grito dele. Mas ele não teve forças suficientes para gritar, e o gritou saiu com o um baixo “ahhhhh”.
Ele piscou para afastar m ais lágrim as.
As cortinas ainda estavam fechadas nas j anelas. A luz do dia substituíra a escuridão dos cantos.
Clocker assom ava sobre ele. Fazendo algum a coisa em seu om bro.
A princípio, a dor foi m artirizante, ele pensou que Clocker estava tentando m atá-lo. Então, viu Paige com Clocker e soube que ela não deixaria acontecer nada ruim .
Paige tentou explicar-lhe algo, m as ele só captou um a palavra aqui e ali:
— Enxofre em pó... antibiótico... penicilina.
Colocaram outra bandagem em seu om bro.
Clocker aplicou-lhe um a inj eção no braço bom . Ele assistiu. Com todas as suas outras dores, não pôde sentir a picada da agulha.
Durante algum tem po, ele esteve de novo no corredor de espelhos.
Quando se encontrou m ais um a vez na cam a de m otel, virou a cabeça e viu Charlotte e Em ily sentadas na beirada da cam a adj acente, observando-o. Em ily segurava Peepers, a pedra na qual pintara um par de olhos, seu anim al de estim ação.
As duas m eninas tinham um ar terrivelm ente solene.
Ele conseguiu sorrir para elas.
Charlotte saiu da cam a, foi até ele, beij ou-lhe o rosto suado.
Em ily tam bém beij ou-o e depois colocou Peepers em sua m ão direita boa. Marty conseguiu fechar os dedos em torno da pedra.
Mais tarde, vagando num sono sem sonhos, ele ouviu Clocker e Paige falarem :
— ...não acho que sej a seguro m ovê-lo — disse Paige.
— Você tem que m ovê-lo — replicou Clocker. — Ainda não estam os bastante longe de Mam m oth Lakes e há poucas estradas que poderíam os pegar.
— Você não sabe se alguém está à nossa procura.
— Tem razão, não sei. Mas é um a aposta segura. Mais cedo ou m ais tarde alguém estará procurando... e é provável que pelo resto de nossas vidas.
Ele vagava entrando e saindo, entrando e saindo, e quando viu Clocker ao lado da cam a de novo, perguntou:
— Por quê?
— A eterna pergunta — disse Clocker e sorriu.
Refinando a eterna pergunta, insistiu Marty :
— Por que você?
Clocker acenou com a cabeça.
— Você ficaria adm irado, claro. Bem ... eu nunca fui um deles. Eles com eteram o grave erro de acreditar que eu era um verdadeiro crente. Toda a m inha vida eu quis aventuras, feitos heroicos, m as isso nunca aparecia nas cartas para m im . Depois, isso. Im aginei que, se eu ficasse fazendo o j ogo, surgiria o dia em que eu teria a chance de causar um sério dano à Rede, isso se não a vaporizasse, bum , com o um a arm a de raio de plasm a.
— Obrigado — disse Marty, sentindo que a consciência fugia e desej ando expressar sua gratidão enquanto ainda podia.
— Ei, ainda não saím os da floresta — disse Clocker.
* * *
Quando Marty recuperou a consciência, não estava suando nem trem endo, m as ainda se sentia fraco.
Eles estavam dentro de um carro, num a estrada solitária ao pôr-do-sol. Paige dirigia e ele estava preso pelo cinto de segurança no banco do carona.
— Você está bem ? — perguntou ela.
— Melhor — disse ele e sua voz estava m enos trêm ula do que antes. — Com sede.
— Tem suco de m açã no chão entre seus pés. Vou achar um lugar para estacionar.
— Não. Eu posso pegar — disse ele, sem saber com certeza se podia.
Quando reclinou-se para a frente, estendendo a m ão direita para o assoalho do carro, percebeu que o braço esquerdo estava num a tipoia. Conseguiu pegar um a lata e soltá-la do pacote de seis em que estava presa.
Prendeu-a entre os j oelhos, puxou o anel e abriu-a.
O suco quase não estava frio, m as nunca algo teve m elhor sabor — em parte porque ele conseguira pegá-lo sem aj uda. Marty acabou com a lata em três longos goles.
Quando virou a cabeça, viu Charlotte e Em ily afundadas nos cintos de segurança, cochilando na traseira.
— Elas quase não dorm iram nas últim as duas noites — disse Paige. — Sonhos m aus. E preocupadas com você. Mas acho que se sentem m elhor porque estam os andando, e o m ovim ento do carro aj uda.
— Noites? Plural? — ele sabia que tinham fugido de Mam m oth Lakes na noite de terça-feira. E supunha que era quarta-feira. — Que pôr-do-sol é esse?
— De sexta-feira.
Ele ficara fora de órbita durante quase três dias.
Marty olhou em volta para a vastidão de planícies que desapareciam rapidam ente no cair da noite.
— Onde estam os?
— Nevada. Rota 31 ao sul de Walker Lane. Vam os pegar a estrada 95 e rum ar para o norte até Fallon. Vam os passar a noite de hoj e num m otel de lá.
— E am anhã?
— Wy om ing, se você estiver em condições.
— Estarei. Suponho que haj a um a razão para Wy om ing, não?
— Karl conhece um lugar onde podem os ficar. — Quando ele perguntou sobre o carro, que nunca tinha visto antes, Paige disse: — Karl de novo. Com o o enxofre em pó e a penicilina com que venho tratando você. Parece que ele sabe onde conseguir o que precisa. Ele é um a figura.
— Na verdade, nem cheguei a conhecê-lo — disse Marty, estendendo o braço para pegar outra lata de suco de m açã —, m as o am o com o um irm ão.
Abriu a lata e bebeu pelo m enos um terço dela.
— Tam bém gosto do chapéu dele.
Paige deu um a risada desproporcional ao parco hum or da observação, m as Marty riu com ela.
— Deus — disse ela, rum ando para o norte através de terra cinzenta e despovoada. — Eu te am o, Marty. Se você tivesse m orrido, eu j am ais o perdoaria.
* * *
Nessa noite, eles ocuparam dois quartos num m otel de Fallon, usando um nom e falso e pagando adiantado em dinheiro. Jantaram pizza e Pepsi no m otel. Marty estava m orto de fom e, m as duas fatias de pizza deixaram -no saciado.
Enquanto j antavam , brincaram de Olha Quem é o Macaco Agora, onde o obj etivo era pensar em todas as palavras para com ida que com eçassem com a letra P As m eninas não estavam em sua m elhor form a para brincadeiras. Na verdade, estavam tão subj ugadas que Marty ficou preocupado.
Talvez estivessem apenas cansadas. Após a j anta, apesar do cochilo no carro, Charlotte e Em ily adorm eceram segundos depois de ter pousado a cabeça nos travesseiros.
Eles deixaram a porta aberta entre os quartos vizinhos. Karl Clocker conseguira para Paige um a subm etralhadora Uzi, que fora convertida ilegalm ente para pleno fogo autom ático. A arm a foi guardada na m esinha-de-cabeceira ao alcance da m ão.
Paige e Marty dividiram um a cam a. Ela deitou-se à direita dele, de m odo a poder segurar sua m ão boa.
Enquanto conversavam , Marty soube que ela descobrira a resposta para a pergunta que ele não teve oportunidade de fazer a Karl Clocker: por que ele se parecia comigo?
Um dos hom ens m ais poderosos da Rede, principal proprietário de um im pério de com unicação, perdera o filho de quatro anos, de câncer. Quando o m enino estava m orrendo no Hospital Cedars-Sinai, cinco anos antes, am ostras de sangue e de m edula foram retiradas dele porque a decisão em ocional do pai foi que os clones da série Alfa fossem desenvolvidos a partir do m aterial genético de seu filho perdido. Se os clones funcionais se tornassem realidade, seriam um m onum ento duradouro para o garoto.
— Jesus, que coisa m aluca — disse Marty. — Qual o pai que acharia que um a raça de m atadores proj etados geneticam ente poderia ser um m em orial adequado? Deus Todo-poderoso.
— Deus não tem nada a ver com isso — disse Paige.
O representante da Rede incum bido de obter essas am ostras de sangue e m edula no laboratório se confundiu e acabou pegando as am ostras de Marty, que foram tiradas para determ inar se ele seria um doador adequado para Charlotte, caso ela precisasse de um transplante.
— E eles querem governar o m undo — disse Marty, assom brado. Ele ainda estava longe da recuperação e precisava de m ais sono, m as tinha que saber m ais um a coisa antes de adorm ecer. — Se eles só com eçaram a proj etar Alfie há cinco anos... com o ele podia ser um adulto?
— De acordo com Clocker, eles “aperfeiçoaram ” o desenho hum ano básico de várias m aneiras.
Haviam dado a Alfie um m etabolism o incom um e aceleraram trem endam ente o poder de cura. Tam bém proj etaram sua m aturação de rapidez fenom enal com horm ônio hum ano de crescim ento, criando-o de feto a adulto na faixa dos trinta anos com alim entação intravenosa sem pausa e desenvolvim ento m uscular estim ulado por eletricidade, durante um período de m enos de dois anos.
— Com o um m aldito legum e hidropônico ou algo parecido — com entou ela.
— Deus do céu — exclam ou Marty, olhando de soslaio para a m esinha-de-cabeceira para assegurar-se de que a Uzi estava ali. — Eles não tiveram nenhum a dúvida quando o clone não se pareceu com o garoto?
— Para com eçar, o garoto foi consum ido pelo câncer entre as idades de dois e quatro anos. Eles não sabiam com o seria a aparência dele, caso se m antivesse saudável durante esses anos. E, além disso, eles haviam editado o m aterial genético de m aneira tão extensiva que não poderiam ter certeza de que a geração Alfa se pareceria tanto assim com o m enino. Ensinaram a ele o idiom a, m atem ática e outras coisas em grande parte através de m eios sublim inares, enquanto ele dorm ia e crescia.
Paige tinha m ais coisas para contar a Marty, m as sua voz desapareceu aos poucos, enquanto ele se entregava a um sono cheio de estufas nas quais form as hum anas flutuavam em tanques com líquido viscoso...
... eles são conectados a um a confusão de tubos de plástico e a m áquinas de sustentação vitais, crescendo rápido de fetos para a idade adulta, todos sósias dele e, de repente, os olhos se abrem para m ilhares dele de um a só vez, ao longo de filas e filas de tanques em prédios após prédios, e todos falam com o que com um a só voz: eu preciso de minha vida.
8.
A cabana de m adeira situava-se em alguns hectares de bosque, a poucos quilôm etros de Jackson Hole, Wy om ing, que ainda não desfrutara de sua prim eira nevasca da estação. As instruções de Karl foram excelentes e eles encontraram o lugar com pouca dificuldade, chegando no final da tarde de sábado.
A cabana precisava ser lim pa e arej ada, m as a despensa estava estocada com m antim entos. Quando a ferrugem dos canos se esgotou, a água da pia teve um gosto doce e lim po.
Na segunda-feira, um Range Rover saiu da estrada do condado e rodou até a porta da frente. Eles ficaram observando tensos pelas j anelas. Paige segurava a Uzi com o pino de segurança destravado e só relaxou quando viu Karl saltando pela porta do m otorista.
Ele chegara a tem po de alm oçar com eles, alm oço que Marty preparara com a aj uda das m eninas. A refeição consistia em ovos reidratados, linguiças em lata e biscoitos.
Enquanto os cinco com iam na grande m esa de pinho da cozinha, Karl apresentou-lhe suas novas identidades. Marty ficou surpreso com o núm ero de docum entos. Certidões de nascim ento para os quatro. Um diplom a de secundário para Paige de um a escola em Newark, Nova Jersey, e outro para Marty de um a escola em Harrisburg, Pensilvânia. Um a dispensa honrosa do exército dos Estados Unidos para Marty, em itida após três anos de serviço. Eles tinham licenças para dirigir de Wy om ing, cartões do seguro social e outros m ais.
Seu nom e era Gault. Ann e John Gault. A certidão de nascim ento de Charlotte dizia que seu nom e era Rebecca Vanessa Gault, e Em ily era agora Suzie Lori Gault.
— Nós tínham os que escolher nosso prim eiro e segundo nom es — disse Charlotte com m ais anim ação do que m ostrara em dias. — Sou Rebecca com o no cinem a, um a m ulher de beleza e m istério, perseguindo Manderley para sem pre.
— Nós não pegam os exatamente os nom es que quisem os — disse Em ily. — Claro que não tivem os a prim eira escolha.
Marty estava ferido, em sono profundo, em Bishop, Califórnia, quando os nom es foram escolhidos.
— Qual foi sua prim eira escolha? — perguntou ele a Em ily.
— Bob — disse ela.
Marty riu e Charlotte deu um a risada explosiva.
— Gosto de Bob — com entou Em ily.
— Bem , você tem de adm itir que realm ente não é apropriado — disse Marty.
— Suzie Lori é bastante bonito pra gente vom itar em cim a — opinou Charlotte.
— Bem , se não posso ser Bob — concluiu Em ily —, então quero ser Suzie Lori e todo m undo vai ter sem pre que usar os dois nom es, não apenas Suzie.
* * *
Enquanto as m eninas lavavam os pratos, Karl trouxe um a m ala do Range Rover, abriu-a em cim a da m esa e discutiu o conteúdo com Marty e Paige. Havia um a grande quantidade de disquetes de com putador contendo arquivos da Rede, que Karl copiara escondido no decorrer dos anos, m ais pelo m enos cem fitas de gravador com conversas que ele gravara, inclusive um a no Ritz-Carlton, em Dana Point, envolvendo Oslett e um suj eito cham ado Peter Waxhill.
— Essa — disse Karl — explicará em poucas palavras toda a crise dos clones — ele com eçou a devolver os artigos para a m ala. — Tudo é cópia, os disquetes e as fitas. Você está recebendo dois conj untos com pletos. Além disso, estou com outras duplicatas.
Marty não com preendeu.
— Por que quer que fiquem os com elas?
— Você é um bom escritor — disse Karl. — Li alguns de seus livros desde a noite de terça-feira. Pegue e escreva um a explicação para tudo isso e para o que aconteceu a você e sua fam ília. Vou deixar-lhe o nom e do proprietário de um grande j ornal e de um suj eito no alto da hierarquia do FBI. Tenho certeza de que nenhum dos dois faz parte da Rede, porque estavam na lista de futuros alvos de Alfie. Envie sua explicação e um conj unto de disquetes e fitas para cada um deles. Coloque no correio sem endereço do rem etente, claro, e em um outro estado que não Wy om ing.
— Não devia ser você a fazer isso? — perguntou Paige.
— Tentarei de novo se não conseguir o tipo de reação que espero que você tenha. Mas é m elhor partir prim eiro de você. Seu desaparecim ento, a ação em Mission Viej o, os assassinatos de seus pais, os corpos que m e assegurei de serem encontrados naquele cam panário perto da cabana de seus pais... tudo isso m anteve sua história quente. A Rede agiu para m antê-la quente, porque estavam desesperados que alguém encontrasse vocês para eles. Vam os usar sua notoriedade para fazer com que o tiro saia na culatra deles, se puderm os.
* * *
O dia estava fresco m as não frio. O céu era de um azul cristalino.
Marty e Karl foram dar um a cam inhada no perím etro do bosque, sem pre m antendo a cabana à vista.
— Aquele Alfie — m urm urou Marty.
— O que tem ele?
— Ele era o único?
— O prim eiro e único clone operante. Outros estão sendo criados.
— Tem os que parar isso.
— Nós vam os parar.
— Está bem . Suponha que nós estourem os a Rede. O castelo de cartas deles desaba. Depois disso... vam os poder voltar para casa, retom ar nossas vidas?
Karl sacudiu a cabeça.
— Não tenciono fazer isso. Não ousaria. Alguns deles vão escapar da arm adilha. E são pessoas que desde o dom ingo guardam um rancor de ida e volta ao inferno. Sabem odiar. Se você arruína suas vidas ou apenas as vidas de pessoas de suas fam ílias, elas o m atarão m ais cedo ou m ais tarde.
— Quer dizer que o nom e Gault não é apenas um disfarce tem porário?
— É a m elhor identidade que vocês podem ter. Tão boa quanto um docum ento de verdade. Consegui em fontes que a Rede não conhece. Ninguém j am ais verá essas carteiras de identidade... nem vocês serão rastreados por elas.
— Minha carreira, os direitos de m eus livros...
— Esqueça — disse Karl. — Você está num a nova viagem de descobrim ento, em direção a m undos desconhecidos.
— E você tam bém tem um nom e novo?
— Tenho.
— Não é problem a m eu saber qual é, hem ?
— Exato.
* * *
Karl partiu nessa m esm a tarde, um a hora antes de anoitecer.
Quando eles o acom panharam até o Range Rover, ele tirou um envelope de um bolso interno do paletó de tweed e entregou-o a Paige, explicando que era a escritura da cabana e da propriedade na qual ela se encontrava.
— Eu com prei e preparei duas propriedades de fuga, cada qual num extrem o do país, de m odo a estar preparado para quando este dia chegasse. Possuo as duas com nom es que não podem ser rastreados. Transferi esta para Ann e John Gault, j á que só posso usar um a delas.
Ele pareceu em baraçado quando Paige abraçou-o.
— Karl — disse Marty —, o que nos teria acontecido sem você? Nós lhe devem os tudo.
Na verdade, o grandalhão estava corado.
— De algum a form a, vocês se sairiam bem . Vocês são sobreviventes. O que fiz por vocês, qualquer um teria feito.
— Não nos dias de hoj e — disse Marty.
— Mesm o nos dias de hoj e — declarou Karl —, há m ais pessoas boas do que m ás. Acredito m esm o nisso. Tenho que acreditar.
Junto ao Range Rover, Charlotte e Em ily deram um beij o de despedida em Karl, porque todos sabiam , sem precisar dizer, que j am ais o veriam de novo.
Em ily deu Peepers para ele.
— Você precisa de alguém — disse ela. — Você é sozinho. Além disso, ele j am ais se acostum aria a m e cham ar de Suzie Lori. É seu bicho de estim ação agora.
— Obrigado, Em ily. Cuidarei bem dele.
Quando Karl sentou-se atrás do volante e fechou a porta, Marty reclinou-se na j anela aberta.
— Se dem olirm os a Rede, você acha que algum dia eles a rem ontarão de novo?
— A Rede ou algo parecido — disse Karl sem hesitação.
— Acho que saberem os se rem ontaram — disse Marty perturbado — ... quando cancelarem as eleições.
— Ah, as eleições j am ais serão canceladas, pelo m enos não de um a m aneira que fosse evidente — disse Karl enquanto ligava o Rover. — Vão continuar com o de praxe, com partidos políticos com petidores, convenções, discussões, cam panhas duras, com todo o blablablá e gritos. Mas todos os candidatos serão escolhidos por fiéis da Rede. Isso se assumirem, John, e só eles saberão.
De repente, Marty ficou tão frio quanto esteve na nevasca da noite de terça-feira.
Karl ergueu um a das m ãos com a saudação dos dedos em V, que Marty reconheceu de Jornada nas Estrelas.
— Vida longa e próspera — disse ele, partindo.
Marty continuou na estrada de cascalho, observando o Rover até ele chegar à estrada do condado, virar à esquerda e desaparecer do cam po de visão.
9.
Naquele dezem bro e durante todo o ano seguinte, quando as m anchetes gritaram o escândalo da Rede, sua traição, conspiração política, assassinatos e um a crise m undial depois da outra, John e Ann Gault não prestaram tanta atenção nos j ornais e noticiários de tevê quanto esperavam . Eles tinham novas vidas a construir, o que não era um em preendim ento sim ples.
Ann cortou curto os cabelos louros e tingiu-os de castanho. Antes de conhecer os vizinhos que m oravam em cabanas e ranchos espalhados na área rural, John deixou a barba crescer; não foi surpresa que m ais da m etade estivesse grisalha. Aliás, com eçava a aparecer um bocado de cinza em seus cabelos.
Um a tintura sim ples m udou o cabelo louro de Rebecca para castanho averm elhado, e Suzie Lori foi suficientem ente transform ada com um estilo novo e m uito m ais curto. As duas m eninas cresciam rápido. Logo o tem po dissiparia a sem elhança entre o que eram e as pessoas que um dia foram .
Lem brar de usar os novos nom es foi fácil com parado com a criação e o envolvim ento com a m em ória de um passado falso, sim ples porém crível. Eles tornaram isso um j ogo, parecido com Olha Quem é o Macaco Agora.
Os pesadelos foram persistentes. Em bora o inim igo que haviam conhecido fosse tão confortável quanto o nada na luz do dia, eles viam , de m aneira irracional, cada cair da noite com a intranquilidade que as pessoas sentiam em tem pos m ais antigos e supersticiosos. E barulhos súbitos faziam todo m undo saltar.
A noite de Natal foi a prim eira vez que John ousou ter esperança de que eles conseguiriam , de fato, im aginar um a vida nova e reencontrar a felicidade. Foi quando Suzie Lorie perguntou pela pipoca.
— Que pipoca? — perguntou John.
— O gêm eo m au de Noel pôs cinco quilos no m icroondas — disse ela —, em bora tanta pipoca assim não coubesse. Mas, m esm o se coubesse, o que aconteceu quando com eçou a estourar?
Nessa noite, houve a hora de história pela prim eira vez em m ais de três sem anas. Depois, tornou-se rotina.
No final de j aneiro, eles se sentiram suficientem ente seguros para m atricular Rebecca e Suzie Lori no sistem a de escola pública.
Na prim avera, havia novos am igos e um núm ero crescente de lem branças da fam ília Gault que não eram fabricadas.
Com o tinham setenta m il dólares em dinheiro e possuíam a hum ilde casa, estavam sob pouca pressão para encontrar trabalho. Tam bém tinham quatro caixas cheias das prim eiras edições dos prim eiros rom ances de Martin Stillwater. A capa da revista Time fez um a pergunta que j am ais seria respondida — Onde está Martin Stillwater — e as prim eiras edições, que antes valiam duzentos dólares cada no m ercado de colecionadores, com eçaram a ser vendidas na prim avera por cinco vezes esse preço; era provável que continuassem valorizando m ais rápido do que os investim entos blue chip nos anos seguintes. Vendendo um a ou duas de cada vez, em cidades distantes, eles m anteriam cheio o pé de m eia da fam ília durante os anos m agros.
John apresentou-se para os vizinhos e conhecidos novos com o ex-vendedor de seguros da cidade de Nova York. Ele afirm ou ter recebido um a herança substancial m as não gigantesca. Ele estava se concedendo o sonho de toda a vida: viver no cam po, esforçando-se para ser poeta.
— Se dentro de alguns anos não com eçar a vender alguns poem as, talvez eu escreva um rom ance — dizia às vezes. — E, se isso não der certo, então vou com eçar a m e preocupar.
Ann se contentava em ser vista com o dona-de-casa; entretanto, liberta das pressões do passado — clientes preocupados e o trânsito da estrada —, ela redescobriu o talento para o desenho que não dom inava desde o secundário. E com eçou a fazer ilustrações para os poem as e histórias no caderno em espiral do m arido, de com posições originais que ele vinha escrevendo havia anos: Histórias para Rebecca e Suzie Lori.
Havia cinco anos que eles m oravam no Wy om ing quando O Gêmeo Mau de Noel, de John Gault com ilustrações de Ann Gault, tornou-se um trem endo best-seller de Natal. Eles não perm itiram nenhum a foto de capa do autor e da artista. Declinaram , educadam ente, das ofertas de viagens prom ocionais e entrevistas, preferindo um a vida tranquila e a oportunidade de fazer m ais livros para crianças.
As m eninas continuaram saudáveis, cresceram , e Rebecca com eçou a escolher garotos para nam orar, todos os quais Suzie Lori achava estúpidos de um a m aneira ou de outra.
As vezes, John e Ann achavam que viviam dem ais num a fantasia, e faziam força para m anter-se a par dos acontecim entos, observando sinais e portentos que nem sequer gostavam de discutir. Mas o m undo era infinitam ente problem ático e tedioso. Muito poucas pessoas pareciam capazes de im aginar a vida sem a m ão esm agadora de um ou outro governo, um a ou outra guerra, um a ou outra form a de ódio, de m odo que os Gault sem pre perdiam o interesse pelas notícias e voltavam para o m undo que im aginaram para si.
Um dia, chegou um rom ance em brochura pelo correio. O envelope pardo sim ples não indicava nenhum endereço de rem etente, e não estava incluída no livro nenhum tipo de nota. Era um rom ance de ficção científica, passado num futuro distante, quando a hum anidade havia conquistado as estrelas, m as não dom inara todos os seus problem as. O título era A Rebelião dos Clones. John e Ann leram . Acharam adm iravelm ente bem im aginado, e sentiram tristeza porque j am ais teriam a oportunidade de expressar sua adm iração ao autor.
FIM.
Você terminou Sr. Assassino
Dean Koontz
Livros como este
Depois do livro
Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.