Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 2 de 9 · parte 3/4

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Sr. Assassino

Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Em bora as vítim as sej am sem pre estranhas para ele — e, nesse caso, ele nem sequer sabe seus nom es —, a experiência pode ser tão intensa a ponto de encher seus olhos de lágrim as. Nessa noite, ele consegue perm anecer sob o total controle de si m esm o.

Relutando em deixar acabar a breve conexão, ele coloca a m ão num toque suave na face esquerda da m ulher, que não está m anchada de sangue e ainda tem um calor agradável. Ele torna a dar a volta na cam a e dá um leve aperto no om bro do m orto, com o se dissesse: adeus, velho amigo, adeus.

Ele se pergunta quem eram eles. E por que tinham que m orrer.

Adeus.

No andar de baixo, ele atravessa a espectral casa verde, cheia de som bras e radiantes form as verdes. Para no salão de entrada para desatarraxar o silenciador da arm a e colocar as duas peças no coldre.

Com desânim o, tira os óculos. Sem as lentes, é transportado daquela m ágica terra alternativa — onde por breves m om entos sentiu um a afinidade com outros seres hum anos — para esse m undo ao qual ele tanto se esforça para pertencer, em bora perm aneça para sem pre com o um hom em à parte.

Ao sair da casa, ele fecha a porta, m as não se dá ao trabalho de trancá-la à chave. Não esfrega a m açaneta de m etal, pois não está preocupado em deixar im pressões digitais.

O vento frio suspira e silva através do pórtico.

Com um raspar e roçar felinos, folhas m ortas enrugadas correm apressadas em bandos ao longo da estradinha de carros.

Agora, as árvores de sentinela parecem dorm ir em seus postos. O m atador sente que ninguém o vigia na j anelas negras e vazias da rua. E até m esm o a voz interrogativa da coruj a silenciou-se.

Ainda com ovido com o que havia com partilhado, ele não sussurra a pequena m elodia absurda no traj eto de volta ao carro.

No m om ento em que roda de volta para o hotel onde está hospedado, sente m ais um a vez o peso do opressivo apartheid em que existe. Separado. Evitado. Um hom em solitário.

Em seu quarto, ele se desvencilha do coldre de om bro e o coloca na m esinha-de-cabeceira. A pistola ainda está na m anga de couro revestido de linho. Durante algum tem po ele olha fixo para a arm a.

No banheiro, ele pega um par de tesouras na bolsa do aparelho de barbear, abaixa a tam pa da privada, senta-se ao desagradável brilho fluorescente e, com m ovim entos m eticulosos, destrói os dois cartões de crédito falsos que havia usado até ali na m issão. Pela m anhã ele voará para fora de Kansas City em pregando outro nom e e, no cam inho para o aeroporto, espalhará os m inúsculos fragm entos dos cartões ao longo dos quilôm etros da autoestrada.

Ele retorna à escrivaninha.

Olha fixo para a pistola.

Após ter deixado os corpos m ortos no local do trabalho, ele deveria ter quebrado a arm a na m aior quantidade de pedaços possível. Dever ter-se desfeito das partes em lugares bastante distantes uns dos outros: o cano talvez num cano coletor de chuva, m etade da estrutura num córrego, a outra m etade num a lixeira... até não sobrar nada. Esse era o procedim ento-padrão, e ele estava perplexo, sem com preender por que dessa vez fora tão negligente.

Um a culpa em baixo grau acom panha esse desvio da rotina, m as ele não vai sair de novo para se desfazer da arm a. Além da culpa, ele se sente... rebelde.

Tira a roupa e deita-se. Desvia-se do abaj ur ao lado da cam a e olha fixo para as som bras em cam adas no teto.

Não está dorm indo. Sua m ente está agitada, e seus pensam entos saltam de tem a em tem a com rapidez tão enervante, que em pouco tem po seu estado m ental hiperativo se traduz em agitação física. Ele se rem exe, puxa os lençóis, aj usta cobertas, travesseiros.

Lá fora, na rodovia interestadual, enorm es cam inhões rodam sem parar em direção a destinos distantes. O cantar dos pneus, o trovão dos m otores e o chiado do ar deslocado por sua passagem form am um puro ruído em segundo plano, que em geral funciona com o calm ante. Muitas vezes ele foi atraído para o sono pela m úsica cigana da estrada aberta.

Nessa noite, entretanto, ocorre um a coisa estranha. Por razões que ele não consegue entender, esse conhecido m osaico de sons não é um a canção de ninar, m as sim o canto de um a sereia. Ele não consegue resistir.

Ele sai da cam a e atravessa o quarto escuro em direção à única j anela. Tem um a obscura visão noturna de um a encosta de m orro coberta de ervas e de um a placa de céu — com o as m etades de um a pintura abstrata. No alto da ladeira, separando céu e colina, as firm es estacas do guardrail da estrada são ilum inadas por bruxuleantes faróis que passam .

Ele levanta a vista, m eio em transe, esforçando-se para vislum brar os veículos que se destinam ao oeste.

Em geral m elancólica, a cantata da rodovia agora o seduz, cham ando-o, fazendo um a prom essa m isteriosa que ele não com preende, m as sente-se forçado a explorar.

Ele se veste e guarda as roupas na m ala.

Lá fora, o pátio e as calçadas do hotel estão desertos. De frente para os quartos, os carros aguardam a viagem m atinal. Em um salão vizinho de venda por autom áticos, um a m áquina de refrigerantes estala e retine com o se estivesse fazendo reparos em si m esm a. O m atador sente-se com o se fosse a única criatura viva num m undo agora governado por — e para o benefício de — m áquinas.

Mom entos depois, ele está na Interestadual 70, dirigindo-se para Topeka, a pistola no assento a seu lado, m as coberta com um a toalha do m otel.

Algum a coisa a oeste de Kansas City o cham a. Ele não sabe o que é, m as sente um a atração inexorável em direção a oeste, da m esm a m aneira que o ferro é atraído por um ím ã.

Por m ais estranho que possa parecer, nada disso o alarm a e ele se perm ite levar por essa com pulsão de dirigir rum o ao oeste. Afinal de contas, desde que consegue lem brar-se, ele foi a lugares sem saber o obj etivo de sua viagem até chegar a seu destino, e m atou pessoas sem saber por que deviam m orrer ou para quem estava fazendo a m atança. Entretanto, ele está seguro de que não se espera dele essa súbita partida de Kansas City. Devia perm anecer no m otel até a m anhã e pegar um voo cedo para... Seattle.

Talvez em Seattle ele receberia instruções dos chefes, dos quais não consegue se recordar. Mas j am ais saberá o que teria acontecido, pois agora Seattle está riscada de seu itinerário.

Ele se pergunta quanto tem po se passará antes que seus superiores — quaisquer que sej am seus nom es e identidades — percebam que se tornou um renegado. Quando com eçarão a procurar por ele e com o o encontrarão se ele não estiver m ais operando dentro de seu program a?

Às duas da m adrugada, o tráfego é pequeno na Interestadual 70, a m aioria com posta de cam inhões, e ele dispara para o outro lado de Kansas na frente de alguns dos grandes carrões e na esteira ruidosa de outros, recordando um film e sobre Dorothy e seu cão Totó e um tufão que os pegou na terra plana da fazenda e os deixou num estranho lugar distante.

Deixando tanto a Kansas City /Missouri com o a Kansas City /Kansas para trás, o m atador percebe que está m urm urando para si m esm o: eu preciso, eu preciso.

Dessa vez, ele se sente próxim o de um a revelação que irá identificar a natureza exata desse desej o.

Eu preciso... ser... eu preciso ser... eu preciso ser...

Enquanto os subúrbios e por fim a pradaria escura passam num lam pej o nos dois lados, dentro dele a excitação aum enta sem parar. Ele trem e à beira de um conhecim ento que, ele sente, irá m udar sua vida.

Eu preciso ser... ser... eu preciso ser alguém.

Ele com preende, de im ediato, a im portância do que disse. Com “ser alguém ” ele não está querendo dizer o que um outro hom em poderia tencionar dizer com essas m esm as duas palavras: ele não quer dizer que precisa ser alguém fam oso, rico ou im portante. Apenas alguém . Alguém com um nom e verdadeiro. Apenas um Joe com um com o costum avam dizer nos film es dos anos 40. Alguém que tenha m ais substância que um fantasm a. A atração da desconhecida estrela-guia a oeste fica m ais forte a cada quilôm etro. Ele se inclina um pouco para a frente, curvando-se sobre o volante, espreitando a noite com atenção.

Além do horizonte, num a cidade que ainda não pode visualizar, um a vida espera por ele, um lugar para ser cham ado de lar. Fam ília, am igos. Em algum lugar há sapatos que ele pode calçar, um passado que pode usar confortavelm ente, um obj etivo. E um futuro no qual pode ser com o as outras pessoas — aceito.

O carro dispara na direção oeste, trespassando a noite.

11.

Meia-noite e m eia. No cam inho para a cam a, Marty Stillwater parou j unto ao quarto das m eninas, abriu a porta e atravessou a soleira em silêncio. No brilho am arelo-caram elo do abaj ur de Mickey Mouse, pôde ver as duas filhas dorm indo um sono pacífico.

De vez em quando, ele gostava de observá-las durante alguns m inutos enquanto dorm iam , só para se convencer que eram de verdade. Ele havia tido m ais que sua quota de felicidade, prosperidade e am or, de m odo que se deduzia que parte dessa bênção podia provar-se transitória ou m esm o ilusória; o destino podia intervir para equilibrar os pratos na balança.

Para os antigos gregos, o Destino era personificado na form a de três irm ãs: Cloto, que tecia a tram a da vida; Láquesis, que m edia a extensão da tram a; e Átropos, a m enor das três porém a m ais poderosa, que cortava a tram a à sua vontade.

Às vezes, para Marty, essa parecia ser um a m aneira lógica de ver as coisas. Ele podia im aginar os rostos dessas três m ulheres de robe branco com m ais detalhes do que se lem brava dos próprios vizinhos de Mission Viej o. Cloto tinha um rosto bondoso com olhos alegres, lem brando a atriz Angela Lansbury, e Láquesis era tão atraente quanto Goldie Hawn, m as com um a aura de santa. Era ridículo, m as era assim que ele as via. Átropos era um a puta linda porém fria — boca apertada, olhos negros com o antracito.

O truque era perm anecer nas boas graças das duas prim eiras irm ãs sem cham ar a atenção da terceira.

Cinco anos atrás, sob a m áscara de um a doença do sangue, Átropos havia descido de seu lar celestial para tom ar um pedaço da tram a da vida de Charlotte e, por sorte, não conseguira cortá-la por com pleto. Mas essa divindade respondia por m uitos nom es além de Átropos: câncer, hem orragia cerebral, trom bose coronária, incêndio, terrem oto, veneno, hom icídio e m uitos outros. Agora talvez ela estivesse fazendo um a visita a eles com um de seus m uitos pseudônim os — com Marty com o seu alvo em vez de Charlotte.

Muitas vezes, a im aginação vivida de um rom ancista era um a m aldição.

De repente, um barulho de zum bido e clique surgiu nas som bras no lado do quarto que pertencia a Charlotte, assustando Marty. Tão baixo e am eaçador quanto um chocalho de cascavel. Então, ele percebeu o que era: m etade da enorm e gaiola do gerbo era ocupada por um a roda de exercício, e o incansável roedor corria furiosam ente.

— Vai dorm ir, Way ne — ele disse em voz baixa.

Deu m ais um a olhada nas m eninas, depois saiu do quarto e fechou a porta sem fazer barulho.

12.

Ele chega a Topeka às três da m anhã.

Ainda é atraído em direção ao horizonte ocidental — assim com o um a criatura m igrante podia ser atraída incessantem ente para o sul com a aproxim ação do inverno —, respondendo a um cham ado que não tem som , um a boia lum inosa que não pode ser vista, apesar de ser o traço de ferro em seu sangue que responde ao ím ã desconhecido.

Ele sai da autoestrada nos subúrbios da cidade e procura outro carro.

Em algum lugar há pessoas que conhecem o nom e John Larrington, a identidade com a qual alugou o Ford. Quando ele não se apresentar em Seattle para qualquer trabalho que o estej a esperando, seus superiores estranhos e sem rosto irão, sem dúvida, procurar por ele. Ele suspeita que os superiores tenham recursos e influência substanciais; ele deve cortar cada ligação com seu passado e deixar seus caçadores sem m eios para seguir sua pista.

Ele estaciona o Ford alugado num bairro residencial e cam inha três quarteirões, experim entando as portas dos carros j unto ao m eio-fio. Apenas a m etade está trancada. Está preparado para fazer um a ligação direta num carro, se for preciso, m as num Honda azul encontra as chaves enfiadas atrás do visor de sol.

Após rodar de volta ao Ford e transferir suas m alas e a pistola para o Honda, ele parte em círculos cada vez m ais largos, à procura de um a loj a de utilidades aberta 24 horas.

Não tem nenhum m apa de Topeka na cabeça porque ninguém esperava que ele fosse ali. Desanim ado para olhar placas de rua nas quais todos os nom es são desconhecidos, ele não sabe para onde qualquer rota levará.

Ele se sente m ais proscrito que nunca.

Em quinze m inutos, localiza um a loj a e quase esvazia as prateleiras de Slim Jim , biscoitos de queij o, am endoim , rosquinhas em m iniatura e outros alim entos fáceis de com er enquanto dirige. Já está m orto de fom e. Se for ficar na estrada m ais dois dias — supondo-se que possa ser atraído por todo o traj eto até a costa —, vai precisar de um suprim ento considerável. Ele não quer perder tem po em restaurantes; no entanto, seu m etabolism o acelerado pede que ele com a refeições m aiores e m ais frequentes do que as outras pessoas.

Após acrescentar três pacotes de seis Pepsi à sua com pra, ele vai ao balcão onde o único em pregado diz:

— Você deve estar dando um a festa que vai durar a noite inteira ou algo parecido.

— E isso aí.

Quando paga a conta, percebe que os trezentos “m angos” que tem na carteira — o m ontante de dinheiro vivo que sempre leva consigo num trabalho — não o levarão longe. Já não pode m ais usar os cartões de crédito falsos, dos quais ainda tem dois, porque com certeza alguém poderá segui-los através das com pras. A partir de agora, terá de pagar em dinheiro.

Ele leva para o Honda as três enorm es sacolas de suprim ento e retorna à loj a com a Heckler & Koch P7. Dá um tiro na cabeça do em pregado e esvazia a caixa registradora, m as tudo que consegue é seu próprio dinheiro de volta m ais cinquenta dólares. Melhor do que nada.

Enche o tanque de gasolina do Honda em um posto de serviços Arco e com pra um m apa dos Estados Unidos.

Estacionado no canto do posto, ele com e Slim Jim sob um a lâm pada de vapor de sódio que colore tudo com um am arelo doentio. Está fam into.

No m om ento em que m uda das salsichas para as rosquinhas, com eça a exam inar o m apa. Ele poderia continuar na Interestadual 70 em direção a oeste ou, em vez disso, dirigir-se ao sul para Wichita na autoestrada de Kansas, indo para Oklahom a City, e depois virando de novo para oeste, na Interestadual 40.

Ele não está acostum ado a ter opções. Em geral, faz aquilo que está... program ado para fazer. Agora que tem alternativas, acha inesperadam ente difícil tom ar decisões. Ele fica irresoluto, cada vez m ais nervoso, correndo o perigo de ficar paralisado pela indecisão.

No final, sai do Honda e fica parado no frio ar da noite, procurando orientação.

O vento vibra os fios de telefone — um som fantasm agórico, tão tênue e débil quanto o choro de m edo de crianças m ortas passeando num além escuro.

Vira-se para oeste de m aneira tão inevitável quanto um a agulha de bússola que busca o norte m agnético. A atração é sentida com o psíquica, com o se um a presença lá longe o cham asse, m as a ligação é m enos sofisticada, é m ais biológica, reverberando em seu sangue e em sua m edula.

De novo atrás do volante do carro, ele encontra a autoestrada de Kansas e se dirige a Wichita. Ainda não está com sono. Quando é preciso, ele consegue ficar duas ou três noites sem dorm ir e sem perder o vigor m ental ou físico, o que é apenas um a de suas forças especiais. Está tão excitado com a perspectiva de ser alguém que pode dirigir sem parar até encontrar seu destino.

13.

Paige sabia que Marty j á esperava ser atingido por outro lapso, dessa vez em público, por isso adm irou sua capacidade de m anter um a fachada despreocupada. Parecia tão alegre quanto as filhas.

Do ponto de vista das m eninas, o dom ingo era um dia perfeito.

No final da m anhã, Paige e Marty as levaram ao Ritz-Carlton Hotel em Dana Point para o alm oço-lanche do fim de sem ana da Ação de Graças. Aquele era um lugar que eles só iam em ocasiões especiais.

Com o sem pre, Em ily e Charlotte ficaram encantadas com a paisagem exuberante, com as lindas salas públicas e com o pessoal im pecável em seus uniform es engom ados. Com suas m elhores roupas e fitas nos cabelos, as m eninas se divertiram m uito, fingindo ser j ovens senhoritas cultas — quase tão divertido quanto atacar o bufê de sobrem esa duas vezes cada.

À tarde, com o estava m ais ou m enos quente, trocaram de roupa e visitaram o Irvine Park. Cam inharam nas trilhas pitorescas, deram com ida aos patos no lago e visitaram o pequeno j ardim zoológico.

Charlotte adorava o zoológico porque, com o sua coleção de bichos selvagens, os anim ais eram m antidos em recintos fechados, a salvo de algum dano. Não havia nenhum a espécie exótica — todos os anim ais eram nativos da região —, m as em sua exuberância típica Charlotte achou cada qual a criatura m ais interessante e atraente que j á havia visto.

Em ily entrou num a briga de olhar com um lobo. Grande, com olhos cor de âm bar, com um pelo lustroso cinza-prateado, o predador encontrou e sustentou com atenção o olhar da m enina em seu lado da cerca de elos de corrente.

— Se vocês desviarem o olhar prim eiro — inform ou Em ily em tom calm o e som brio —, então o lobo vai com er vocês todos.

O confronto durou tanto tem po que Paige ficou nervosa, apesar da cerca forte. Depois o lobo baixou a cabeça, cheirou o chão, bocej ou com esm ero — para m ostrar que não tinha sido intim idado, m as apenas perdera o interesse — e afastou-se saracoteando.

— Se ele não conseguiu pegar os três porquinhos com toda sua rabugice e bafo — disse Em ily —, então eu sabia que ele não podia m e pegar, porque sou m ais esperta do que os porcos.

Ela estava referindo-se ao desenho anim ado de Disney, a única versão do conto de fadas com a qual estava fam iliarizada.

Paige resolveu nunca deixá-la ler a versão dos irm ãos Grim m , que falava de sete pequenas cabras em vez de três porquinhos. O lobo devorou seis delas, que foram salvas da digestão no últim o m inuto, quando sua m ãe cortou a barriga do lobo para tirá-las das vísceras fum egantes.

Quando ele se afastara, Paige tornou a olhar para o lobo. O anim al observava Em ily de novo.

14.

O dom ingo é um dia cheio para o m atador.

Em Wichita, pouco antes do am anhecer, ele sai da autoestrada. Em outro bairro residencial bastante parecido com o de Topeka, ele troca a placa de licença do Honda pela de um Chevy, tornando m ais difícil de localizar seu veículo roubado.

Pouco depois das nove da m anhã de dom ingo, ele chega em Oklahom a City, Oklahom a, onde para o tem po suficiente para encher o tanque de gasolina.

Há um shopping mall do outro lado da estrada do posto. Em um canto do gigantesco estacionam ento deserto há um pavilhão autom ático da Goodwill Industries do tam anho de um abrigo de j ardim . Após encher o tanque, ele deixa as m alas e seus conteúdos com a Goodwill. Fica apenas com as roupas que está usando e a pistola.

Durante a noite, na estrada, ele teve tem po para pensar em sua existência peculiar — e para perguntar-se se podia estar carregando um transm issor com pacto que aj udasse seus superiores a localizá-lo. Talvez tivessem previsto esse dia em que ele os renegaria.

Ele sabe que um transm issor m ais ou m enos potente, operando com um a bateria m inúscula, pode ser escondida num lugar extrem am ente pequeno. Com o as laterais de um a m ala.

Quando vira direto para oeste na Interestadual 40, um a borra de nuvens negras com o carvão se derram a do céu. Quarenta m inutos depois, quando a chuva chega, ela é prata derretida e, no m esm o instante, varre todas as cores da vasta terra deserta que flanqueia a rodovia. O m undo é vinte, quarenta, cem m atizes de cinza, sem um relâm pago que sej a para aliviar a lugubridade opressiva.

A paisagem m onocrom ática não proporciona nenhum a distração, de m odo que ele tem tem po para continuar se preocupando com os caçadores sem rosto que podiam estar bem atrás dele. É paranoia perguntar-se se um transm issor poderia ter sido costurado em sua roupa? Ele duvida que o aparelho pudesse ser escondido no tecido de suas calças, cam isa, suéter, roupa de baixo ou m eias sem ser detectado pelo próprio peso ou num a inspeção casual. O que deixa de sobra os sapatos e a j aqueta de couro.

Ele deixa a pistola de fora. Eles não m ontariam coisa algum a na P7 que pudesse interferir em suas funções. Além disso, esperavam que ele se desfizesse da arm a logo depois dos assassinatos para os quais ela foi fornecida.

Na m etade do cam inho entre Oklahom a e Am arillo, a leste da fronteira com o Texas, ele sai da interestadual e entra num a área onde dez carros, dois enorm es cam inhões e dois motorhomes se refugiaram da tem pestade.

Em um arvoredo vizinho de sem pre-vivas, os galhos das árvores se curvam com o se estivessem encharcados de chuva, e parecem cinza carvão em vez de verde. As enorm es pinhas estão inchadas e estranhas.

Um bloco baixo de sanitários em construção. Ele corre através do aguaceiro para o banheiro dos hom ens.

Enquanto o m atador está no prim eiro dos três m ictórios, com a chuva tam borilando barulhenta no telhado de m etal e o ar úm ido pesado com o cheiro pegaj oso de concreto m olhado, entra um hom em no início da casa dos sessenta. Em um a olhada: cabelo branco grosso, rosto cheio de rugas, nariz bulboso com desenhos de vasos capilares rom pidos. Ele vai para o terceiro m ictório.

— Que tem pestade, hem ? — diz o estranho.

— Um verdadeiro afogam ento de ratos — responde o m atador, tendo ouvido essa frase num film e.

— Espero que passe logo.

O m atador nota que o velho tem m ais ou m enos seu peso e estatura. Enquanto fecha o zíper de suas calças, ele diz:

— Você está indo para onde?

— Neste exato m om ento, Las Vegas, m as depois para algum outro lugar e de novo para um outro lugar. Eu e m inha m ulher som os aposentados, gostam os m uito de m orar naquele motorhome. Sem pre quisem os conhecer o país e garanto que agora estam os conhecendo. Nada com o a vida na estrada, novas paisagens a cada dia, pura liberdade.

— Parece genial.

Enquanto lava as m ãos na pia, o m atador fica paralisado, perguntando-se se ousa pegar o velho bobão e tagarela agora m esm o, enfiar o corpo num banheiro. Mas com toda aquela gente no estacionam ento, alguém pode entrar de repente.

O estranho diz, enquanto fecha a braguilha:

— O único problem a é Frannie... é a m inha m ulher... ela odeia que eu dirij a na chuva. Qualquer coisinha m aior que a garoa m ais fina e ela quer estacionar e esperar que passe — ele suspira. — Este não vai ser um dia que farem os um bocado de quilôm etros.

O m atador seca a m ão debaixo de um aparelho de ar quente.

— Bem , Vegas não está indo a lugar nenhum .

— Verdade. Mesm o quando o bom Senhor aparecer no Dia do Juízo Final, haverá m esas abertas de vinte-e-um .

— Espero que você quebre a banca — o m atador diz e sai quando o velho vai para a pia.

No Honda de novo, m olhado e trem endo, ele liga o m otor e aciona o aquecedor. Mas não engrena o carro.

Três motorhomes estão estacionados em espaços abertos ao longo do m eio-fio.

Um m inuto depois, o m arido de Frannie sai do banheiro dos hom ens. Através da chuva encrespada no para-brisa o m atador observa o hom em de cabelo branco correr para um enorm e Road King prata e azul, no qual ele entra pela porta do m otorista. Há o contorno de um coração pintado na porta e dentro dele dois nom es com letra caprichada: Jack e Frannie.

A sorte não está com Jack, o aposentado com destino a Vegas. O Road King só está quatro vagas distante do Honda, e essa proxim idade torna fácil para o m atador fazer o que tem de ser feito.

O próprio céu está se derram ando num oceano inteiro. A água cai direto para baixo no dia sem vento, espatifando sem parar as poças que parecem espelhos no pavim ento negro, j orrando nas sarj etas em torrentes que parecem infinitas.

Carros e cam inhões saem da rodovia, estacionam por algum tem po, partem e são substituídos por novos veículos que param entre o Honda e o Road King.

Ele é paciente. A paciência é parte de seu treinam ento.

O m otor do motorhome trabalha em ponto m orto. Colunas de fum aça cristalizada erguem -se nos canos gêm eos. Um a cálida luz âm bar brilha nas j anelas com cortinas, nos dois lados.

Ele sente invej a do confortável lar sobre rodas, que parece m ais aconchegante do que qualquer casa que ele ainda pode esperar ter. Tam bém invej a o longo casam ento deles. Com o seria ter um a esposa? Com o seria ser um esposo am ado?

Após quarenta m inutos, a chuva ainda não dim inuiu, m as um bando de carros deixa o local. O Honda é o único veículo estacionado ao lado do m otorista do Road King.

Ele pega a pistola, sai do carro e cam inha rápido para o motorhome, vigiando as j anelas laterais para o caso de Frannie ou Jack abrir a cortina e olhar para fora no m om ento m ais inoportuno.

Ele olha de soslaio para os sanitários. Ninguém à vista.

Perfeito.

Ele agarra a m açaneta da porta de crom o frio. A trava não está arriada. Ele entra com dificuldade, sobe os degraus e olha para o assento do m otorista.

A cozinha fica logo atrás da cabine aberta, um recanto de j antar do outro lado da cozinha, depois a sala de estar. Frannie e Jack estão com endo no canto de j antar, a m ulher de costas para o m atador.

Jack o vê prim eiro, ao m esm o tem po com eça a levantar-se e desliza para fora da estreita cabine, e Frannie olha para trás por cim a do om bro, m ais curiosa do que alarm ada. As duas prim eiras balas atingem Jack no peito e na garganta. Ele tom ba sobre a m esa. Salpicada de sangue, Frannie abre a boca para gritar, m as a terceira bala de ponta oca rem odela drasticam ente seu crânio.

O silenciador está atarraxado no cano, m as j á não é m ais eficaz. Os abafadores haviam sido com prim idos. O som que acom panha cada tiro só é um pouco m ais abafado do que um tiro norm al.

O m atador fecha a porta do m otorista. Olha para a calçada, a área de piquenique varrida pela chuva, os sanitários. Ninguém à vista.

Ele sobe pelo console com a alavanca de m archa, vai para o assento do carona e olha para fora da j anela desse lado. Apenas quatro veículos com partilham o estacionam ento. O m ais próxim o é um cam inhão Mack, e o m otorista deve estar no banheiro dos hom ens, porque não há ninguém na cabine.

Não é provável que alguém pudesse ter escutado os tiros. O rugido da chuva proporciona a cobertura ideal.

Ele gira a cadeira de com ando, levanta-se e cam inha de volta através do motorhome. Para j unto ao casal m orto, toca as costas de Jack... depois a m ão esquerda de Frannie, que está caída na m esa num a poça de sangue ao lado do prato com seu alm oço.

— Adeus — ele diz em voz baixa, desej ando ter m ais tem po para dividir com eles esse m om ento especial.

Entretanto, tendo chegado até ali, ele m al espera para trocar de roupa com o m arido de Frannie e cair na estrada de novo. Está convencido de que há um transm issor escondido de fato no salto de borracha de seu sapato Rockport, e que seu sinal está, m esm o nesse m om ento, m andando gente perigosa atrás dele.

Do outro lado da sala de estar há um banheiro, um arm ário grande apinhado com as roupas de Frannie, e um quarto com um arm ário m enor cheio de roupas de Jack. Em m enos de três m inutos ele fica nu e veste roupa de baixo nova, m eias brancas, jeans, um a cam isa com padrão verm elho e m arrom , um par de alpargatas batido e um a j aqueta de couro m arrom para substituir sua preta. A costura interna das calças está no tam anho certo; a cintura é 5 cm m aior, m as ele aperta com um cinto. Os sapatos estão um pouco folgados, m as dá para usar, e a cam isa e a j aqueta se aj ustam à perfeição.

Ele leva os sapatos Rockport para a cozinha. Para confirm ar sua suspeita, pega um a faca de pão com serra e corta várias cam adas do salto de borracha de um sapato até descobrir um a cavidade rasa cheia de equipam ento eletrônico. Um transm issor m iniaturizado está ligado a um a série de baterias de relógios, que parece estender-se por toda a volta do salto e talvez da sola tam bém .

Afinal de contas, não era nenhum a paranoia.

Eles estão vindo.

Ele abandona os sapatos num m onte de borracha cortada no balcão da cozinha e, com m ovim entos apressados, revista o corpo de Jack e tira o dinheiro da carteira do velho. Sessenta e duas “pratas”. Ele procura a bolsa de Frannie e a encontra no quarto de dorm ir. Quarenta e nove dólares.

Quando sai do motorhome, o céu com m anchas cinzas e negras está convexo, inclinado para baixo pelo peso de cúm ulos de trovoadas. Megatons de chuva bom bardeiam a terra.

Rolos de serpentina de fum aça entre os troncos de pinheiro parecem estar indo atrás dele enquanto ele patinha em direção ao Honda.

De volta à interestadual, correndo através do perpétuo crepúsculo abaixo da torm enta, ela liga o aquecedor do carro na posição m ais quente e logo depois atravessa a fronteira com o Texas, onde a terra plana se torna m uitíssim o m ais plana. Tendo se desvencilhado dos últim os parcos pertences de sua velha vida, ele se sente liberado. Encharcado pela chuva fria, trem e de m aneira incontrolável, m as tam bém trem e de expectativa e excitação.

Seu destino fica em algum a parte a oeste.

Ele rasga o envoltório de plástico de um a Slim Jim e com e enquanto dirige. O sabor sutil no m eio do gosto prim ário de carne em conserva faz com que ele se lem bre do cheiro m etálico de sangue na casa em Kansas City, onde ele deixou o anônim o casal m orto em cim a de sua enorm e cam a georgiana.

O m atador dirige o Honda o m ais rápido que se atreve na estrada escorregadia de chuva, pronto para m atar qualquer tira que o abordar. Ao chegar em Am arillo, Texas, pouco depois do crepúsculo da noite do dom ingo, ele descobre que o Honda está andando virtualm ente de tanque vazio. Ele entra num a parada de cam inhões o tem po suficiente para encher o tanque, usar o banheiro e com prar m ais com ida para levar no carro.

Depois de Am arillo, voando na noite em direção a oeste, ele passa por Wildorado, com a fronteira do Novo México à frente, e de repente percebe que está atravessando as terras áridas, no centro do Velho Oeste, onde tantos film es m aravilhosos foram rodados. John Way ne e Montgom ery Clift em Rio Vermelho, com Walter Brennan roubando cenas a torto e a direito. Onde Começa o Inferno. E Os Brutos Também Amam foi encenado lá no Kansas — não foi? —, com Jack Palance varrendo Elisha Cook Jr. para longe, décadas antes de Dorothy pegar o tufão para Oz. No Tempo das Diligências, O Matador, Bravura Indômita, O Homem que Luta Só, O Passado Não Perdoa, Cavaleiro Solitário, Céu Amarelo, tantos film es geniais, nem todos rodados no Texas, m as pelo m enos no espírito do Texas, com John Way ne e Gregory Peck, Jim m y Stewart e Clint Eastwood, lendas e lugares m ísticos tornados reais agora, esperando lá fora na rodovia, escurecidos pela chuva, a neblina e a escuridão. Quase era possível acreditar que essas histórias aconteciam nesse exato m om ento nas cidades fronteiriças pelas quais ele passava, e que ele era Butch Cassidy ou Sundance Kid ou algum outro pistoleiro de um século anterior, um m atador m as de fato não um m au suj eito, incom preendido pela sociedade, forçado a m atar por causa do que lhe fizeram , com um bando arm ado em seu rastro...

Lem branças de telas de cinem a e film es de tevê de fim de noite — que de longe constituem a m aior parte de suas m em órias — inundam sua m ente preocupada, tranquilizando-o, e durante algum tem po ele fica tão perdido nessas fantasias que presta m uito pouca atenção na direção do carro. Aos poucos, ele se dá conta de que a velocidade caíra para 60 km por hora. Carros e cam inhões passavam explodindo por ele, com o vento de sua passagem golpeando o Honda, j ogando água suj a no para-brisa, as lanternas verm elhas traseiras dissipando-se rapidam ente na escuridão.

Ele acelerou, assegurando-se de que seu m isterioso destino acabaria sendo tão genial quanto qualquer um que John Way ne perseguia em seus film es.

Em balagens de com ida vazias e sem ivazias, am assadas, engorduradas e cheias de m igalhas, estão em pilhadas no banco do carona. Caem em cascata no chão debaixo do painel de instrum entos, enchendo por com pleto o espaço da perna desse lado do carro.

Do m eio dessa confusão ele tira um a caixa nova de rosquinhas. Para aj udá-las e descer, ele abre um a Pepsi quente.

Para oeste. Sem pre para oeste.

Um a identidade espera por ele. Ele vai ser alguém .

15.

No final de dom ingo, em casa, após gigantescos cestos de pipoca e dois vídeos, Paige cobriu as m eninas na cam a, deu-lhes um beij o de boa-noite, e recuou para o vão da porta aberta para observar Marty, que se preparava para esse m om ento do dia que ele m ais gostava. Hora de história.

Ele continuou com o poem a sobre o irm ão m au de Noel, e no m esm o instante as m eninas foram arrebatadas.

As renas deslizam na noite.

Vê como cada qual está cheia de medo?

Sacudindo a cabeça, revirando os olhos,

esses animais gentis são tão sábios —

sabem que esse Noel não é seu amigo,

mas sim um impostor e muito ruim inimigo.

Elas vão debandar com toda sua força,

derrubando esse maluco no canto da terra.

Mas o irmão mau de Noel carrega um chicote,

um porrete, um arpão, um revólver na cintura,

um cassetete, uma Uzi — é melhor você correr! —

e uma terrível, horrível arma de raios.

— Arm a de raios? — Charlotte disse. — Então ele é um extraterrestre!

— Não sej a boba — repreendeu-a Em ily. — Ele é o irm ão gêm eo de Papai Noel. Portanto, se for um extraterrestre, Noel tam bém é um extraterrestre, coisa que ele não é.

Com a presunçosa condescendência de um a m enina de nove anos que j á descobriu que Papai Noel não existe, Charlotte disse:

— Em , você precisa aprender um bocado de coisa. Papai, o que a arm a de raios faz? Transform a a gente em m ingau?

— Em pedra — disse Em ily. Ela tirou um a das m ãos de debaixo da coberta e m ostrou a pedra polida na qual havia pintado um par de olhos. — Foi isso que aconteceu com Peepers.

Eles aterrissam no telhado, em silêncio e às escondidas.

Oh, mas esse Noel é muito esquisito.

Ele sussurra uma advertência para cada rena,

reclinando-se para perto a fim de que ouçam:

“Vocês têm parentes lá no Polo —

almas com chifres, gentis e bastante inocentes.

Assim, se fugirem voando enquanto estou lá dentro,

vou voltar para o Polo de avião.

Farei um piquenique no sol da meia-noite:

bolo de rena, patê, rena no bolo de passas,

salada de rena e sopa quente de rena,

oh, todos os tipos de saborosa comida de rena.”

— Eu odeio esse cara — anunciou Charlotte em tom enfático. Puxou as cobertas até o nariz, com o havia feito na noite anterior, m as não sentia um m edo genuíno, apenas se divertia fingindo estar assom brada.

— Esse suj eito, ele j á nasceu m au — decidiu Em ily. — Com certeza, não pode ser desse j eito só porque sua m ãe e seu pai não foram tão bons para ele com o deveriam ser.

Paige se encantava com a capacidade de Marty de achar o tom certo para obter o total envolvim ento das crianças. Se ele lhe tivesse dado o poem a para rever antes de com eçar a leitura, Paige teria dito que ele era um pouco forte dem ais e som brio para atrair m eninas pequenas.

Dava no m esm o a pergunta do que era superior — o discernim ento do psicólogo ou o instinto do contador de histórias.

Na chaminé, ele olha tijolo abaixo,

mas essa entrada é estrita para caipiras.

Com todas as suas ferramentas, um caminho para dentro pode ser

encontrado para um arrombador gordo e barbudo de

fora da cidade.

Do telhado ao pátio e à porta da cozinha,

ele dá uma risada pelo que tem em estoque

para a adorável família que dorme lá dentro.

Ele arreganha um de seus sorrisos mais sórdidos.

Oh, que arrepio, um refugo e um piolho.

Ele está arrombando a casa dos Stillwater.

— Nossa casa! — gritou Charlotte.

— Eu sabia! — disse Em ily.

— Você não sabia — replicou Charlotte.

— Sabia, sim .

— Não sabia.

— Sabia. É por isso que estou dorm indo com Peepers, para que ele possa m e proteger até depois do Natal.

Elas insistiram para que o pai lesse tudo desde o com eço, todos os versos das duas noites. Quando Marty com eçou a fazer esse favor, Paige desapareceu do vão da porta e foi ao andar de baixo para j ogar fora o resto de pipoca e arrum ar a cozinha.

No que dizia respeito às crianças, o dia havia sido perfeito até ali, e para ela tam bém . Marty não havia sofrido outro episódio, o que lhe perm itiu convencer-se que a fuga fora um a singularidade — assustadora, inexplicável, m as não um a indicação de séria condição degenerativa ou doença.

Sem dúvida, nenhum hom em poderia acom panhar o passo de duas crianças tão ativas, entretê-las e im pedi-las de ficar aborrecidas durante todo um dia agitado, a m enos que tivesse um a saúde extraordinária. Falando com o a outra m etade da Fabulosa Máquina de Pais Stillwater, Paige estava exausta.

Curiosam ente, após ter j ogado fora a pipoca, ela se viu exam inando trancas de portas e j anelas.

No noite anterior, Marty não conseguira explicar o aum ento de sua necessidade de segurança. Afinal de contas, seu problem a era interno.

Paige im aginou que fora sim ples transferência psicológica. Ele relutara em lidar com a possibilidade de tum ores no cérebro e hem orragias cerebrais porque essas coisas estavam fora de seu controle, por isso ele se voltou para fora a fim de procurar inim igos contra os quais podia em preender um a ação concreta.

Continuar: parte 4 de 4