Sr. Assassino
Um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Ele sentiu o corpo dela tenso contra o seu, enquanto ela percebia que ele não se engaj ara em algum a brincadeira com plicada. E quando ele abriu os olhos, viu que o sorriso j ocoso dela havia desaparecido.
— Talvez haj a um a explicação sim ples — disse ele. — Talvez não haj a nenhum a razão para ficar preocupado. Mas estou assustado, Paige. Sinto-m e estúpido, com o se devesse apenas encolher os om bros e esquecer tudo isso, m as estou assustado.
6.
Em Kansas City, um vento frio dá polim ento na noite até o céu parecer um a infinita placa de cristal claro na qual as estrelas estão suspensas e atrás da qual está confinado um vasto reservatório de escuridão.
Abaixo desse enorm e peso de espaço e escuridão, o Blue Life Lounge se aperta com o um a estação de pesquisa no fundo de um a vala oceânica, pressurizada para resistir à im plosão. A fachada é coberta por um revestim ento de alum ínio brilhante, rem iniscência dos trailers de viagem Airstream e dos j antares à beira da estrada dos anos 50. O neon verde e azul soletra o nom e em um a escrita preguiçosa e delineia a estrutura, reluzindo no alum ínio e acenando com tanta fascinação quanto as lâm padas de Netuno.
Lá dentro, onde um conj unto am plificado explode o rock das duas últim as décadas, o m atador m ove-se em direção ao gigantesco bar em form a de ferradura no centro do salão. O ar está denso de fum aça de cigarro, vapores de cervej a e calor corporal; o ar quase oferece resistência a ele, com o se fosse água.
A m ultidão oferece im agens radicalm ente diferentes das cenas tradicionais do Dia de Ação de Graças que inundam as telas de televisão durante esse feriado de fim de sem ana. Os fregueses são em sua m aior parte grupos de hom ens j ovens e roucos com excesso de energia e testosterona. Para serem ouvidos eles gritam acim a da m úsica trovej ante, agarram garçonetes para ter sua atenção, apupam de aprovação quando o guitarrista faz um a boa im provisação.
Sua determ inação de divertir-se tem a m esm a qualidade frenética do frenesi de insetos.
Um terço dos hom ens nas m esas está acom panhado de j ovens esposas ou nam oradas de cabelo grande e m aquiagem pesada. Elas são tão arruaceiras quanto os hom ens — e seriam tão peixes fora d’água em um a reunião fam iliar ao lado da lareira quanto papagaios berrantes de plum agem colorida estariam fora de lugar ao lado da cam a de um a freira m oribunda.
O bar em form a de ferradura circunda um palco oval, banhado em proj etores de luz verm elha e branca, onde duas j ovens m ulheres com corpos de firm eza excepcional se sacodem com a m úsica e cham am isso de dança. Usam traj es de vaqueira destinados a excitar, m ontes de franj as e lantej oulas, e um a delas provoca assobios e apupos quando tira o sutiã.
Os hom ens nos banquinhos do bar são de todas as idades e, ao contrário dos fregueses nas m esas, parecem estar sozinhos. Estão sentados em silêncio, os olhos fixos nas duas dançarinas de pele m acia. Muitos balançam de leve nos bancos ou m ovem a cabeça sonhadora de lado a lado num tem po que com binaria m ais com algum a outra m úsica m enos vigorosa do que essa que a banda está tocando; eles são com o um a colônia de anêm onas-do-m ar agitadas por profundas correntes lentas, esperando m udos que um pedaço de prazer os arraste.
Ele se senta em um dos dois bancos vazios e pede um a garrafa de Beck’s escura a um barman que podia esm agar nozes nas curvas dos braços. Todos os três barmen são altos e m usculosos, contratados sem dúvida por causa de sua habilidade em atuar com o leões-de-chácara caso haj a necessidade.
A dançarina na extrem idade do palco, aquela cuj os seios pulam livres, é um a m orena im pressionante com um sorriso de m il watts. Ela entrou na m úsica e parece estar realm ente gostando de atuar.
Em bora a dançarina m ais próxim a, um a loura de pernas com pridas, sej a ainda m ais atraente do que a m orena, sua rotina é m ecânica e ela parece estar entorpecida por drogas ou por desgosto. Ela não sorri nem olha para ninguém , m as fixa algum lugar distante que só ela consegue enxergar.
Ela parece arrogante, desdenhosa dos hom ens que a encaram , inclusive do m atador. Ele teria um bocado de prazer em sacar a pistola e despej ar vários cartuchos em seu corpo delicioso — e um de boa m edida no centro de seu rosto aborrecido.
Um a intensa vibração o sacode só de pensar em tirar a beleza dela. O roubo da beleza da dançarina o atrai m ais do que o desej o de tirar-lhe a vida. Ele dá pouco valor à vida, e se im porta m uito com a beleza, porque geralm ente sua própria vida é um deserto insuportável.
Por sorte, a pistola está na m ala do Ford alugado. Ele deixou a arm a no carro j ustam ente para evitar um a tentação com o essa, quando se sente im pelido para a violência.
Duas ou três vezes por dia ele é possuído por um desej o de destruir alguém que por acaso estej a próxim o a ele — hom ens, m ulheres, crianças, não faz nenhum a diferença. Na escravidão desses ataques som brios, ele odeia até o últim o ser hum ano na face da terra — sej a ele bonito ou feio, rico ou pobre, inteligente ou estúpido, j ovem ou velho.
Por um lado talvez seu ódio surj a por saber que é diferente deles. Ele precisa viver sem pre com o um forasteiro.
Mas a sim ples alienação não é a razão prim ária pela qual pensa, com frequência, em m atanças ao acaso. Ele precisa de algum a coisa das pessoas que elas retêm e não estão dispostas a dar, por isso ele as odeia com tanta paixão que é capaz de qualquer atrocidade — em bora não tenha a m enor ideia do que espera receber delas.
Essa necessidade m isteriosa é às vezes tão intensa que se torna dolorosa. É um a fom e parecida com a inanição — m as não fom e de com ida. Muitas vezes, ele se vê à beira trem ulante de um a revelação; percebe que a resposta é de um a sim plicidade atordoante. Se ao m enos pudesse abrir-se para ela... m as a ilum inação sem pre escapa dele.
O m atador tom a um longo trago no gargalo da garrafa de Beck’s. Ele quer a cervej a, m as não precisa dela. Querer não é precisar.
No palco elevado, a loura tira o sutiã, expondo seios pálidos e curvados para cim a.
Se ele tirar a pistola e pentes expandidos de m unição da m ala do carro, terá noventa tiros. Quando a dançarina arrogante estiver m orta, ele poderá m atar a outra dançarina. Depois os três barmen m usculosos com três tiros na cabeça. Ele é bem treinado no uso de arm as de fogo — em bora não tenha nenhum a lem brança de quem o treinou. Com aqueles cinco m ortos, ele pode m irar na m ultidão em fuga. Muitos dos que não m orrerem pelo fogo da arm a, m orrerão pisoteados durante o pânico.
A perspectiva da carnificina o excita, e ele sabe que o sangue pode fazê-lo esquecer a necessidade dolorosa que o atorm enta pelo m enos durante um breve período de tem po; a frustração transform a-se em raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio gera a violência — e às vezes a violência conforta.
Ele bebe m ais cervej a e se pergunta se é louco.
Recorda-se de um film e no qual um psiquiatra assegura ao herói que só as pessoas saudáveis questionam sua própria sanidade. Os loucos autênticos estão sem pre firm em ente convencidos de sua racionalidade. Portanto, ele deve ser são, inclusive por ser capaz de duvidar de si próprio.
7.
Marty encostou-se no m arco da porta e observou enquanto as m eninas revezavam -se no banco da penteadeira do quarto para deixar Paige escovar seus cabelos. Cinquenta escovadas em cada.
Talvez tenha sido o tranquilo m ovim ento rítm ico da escova de cabelo ou a confortante dom esticidade da cena que aplacou a dor de cabeça de Marty. Qualquer que tenha sido a razão, a dor cessou.
O cabelo de Charlotte era dourado com o o da m ãe, e o de Em ily era tão castanho-escuro que quase chegava a ser preto, com o o de Marty. Charlotte não parou de falar enquanto Paige escovava seu cabelo; m as Em ily ficou em silêncio, com as costas arqueadas, os olhos fechados com um prazer quase felino em enfeitar-se.
As m etades contrastantes de seu quarto com partilhado atestava as outras diferenças entre as irm ãs. Charlotte gostava de posters cheios de m ovim ento: coloridos balões de ar quente sobre a m eia-luz de um deserto; um a bailarina em pleno salto; gazelas correndo. Em ily preferia posters de folhas outonais, sem pre-vivas penduradas com a neve pesada e ondas prateadas de luar quebrando em um a praia pálida. A colcha da cam a de Charlotte era verde, verm elha e am arela; a de Em ily era de chenille bege. A desordem reinava nos dom ínios de Charlotte, ao passo que Em ily dava valor à organização.
Depois havia a questão dos anim ais de estim ação. No lado do quarto de Charlotte, prateleiras em butidas abrigavam o viveiro que era o lar de Fred, a tartaruga; o j arro de boca larga onde Bob, o besouro, fez seu lar em folhas m ortas e gram a; a gaiola que abrigava Way ne, o gerbo; outro viveiro onde Sheldon, a cobra, era o arrendatário; um a segunda gaiola na qual Whiskers, o cam undongo, passava um bocado de tem po de olho em Sheldon, apesar do vidro e da tela que os separava: e um últim o viveiro ocupado por Loretta, o cam aleão. Charlotte rej eitara a sugestão de que um gatinho ou um a boneca era m ais apropriado para ter com o estim ação. “Cães e gatos andam soltos o tem po inteiro, você não pode guardá-los em um a bela casinha segura para protegê-los”, explicou ela.
Em ily tinha um a coisa de estim ação. Seu nom e era Peepers. Era um a pedra do tam anho de um lim ão pequeno, alisada por décadas de água corrente do córrego Sierra, de onde ela a tirou nas férias de verão um ano atrás. Em pintou dois olhos com ovedores na pedra e insistia: “Peepers é o m elhor anim al de estim ação de todos. Não preciso alim entar nem ficar lim pando ele. Com o sem pre esteve andando por aí, ele é esperto e sábio de verdade, e quando estou triste ou talvez só furiosa, é contar pra ele por que estou m agoada e ele pega tudo e fica preocupado, e assim não preciso m ais pensar na coisa e posso ser feliz.”
Em ily era capaz de expressar ideias que eram , na superfície totalm ente infantis m as, observando-se m elhor, pareciam m ais profundas e m ais m aduras do que qualquer coisa que se poderia esperar de um a m enina de sete anos. As vezes, quando Marty olhava em seus olhos escuros, sentia que ela estava com sete havia 400 anos, e m al podia esperar para ver o quão interessante e com plexa ela seria quando fosse adulta.
Depois que o cabelo delas foi escovado, as m eninas subiram nas cam as gêm eas. A m ãe colocou as cobertas sobre elas, beij ou-as e desej ou-lhes sonhos doces.
— Não deixe os percevej os m orderem — ela advertiu Em ily, porque a brincadeira sem pre provocava um a risadinha.
Quando Paige retirou-se para o vão da porta, Marty tirou um a cadeira de espaldar reto de seu lugar habitual e posicionou-a aos pés — e exatam ente entre — das duas cam as. Ele apagou todas as lâm padas, exceto um a m iniatura para leitura com energia de bateria, presa em seu caderno de apontam entos, e um a lum inária de qualidade inferior de baixa voltagem , ligada num a tom ada de parede próxim a ao chão. Sentou-se na cadeira, segurou o caderno de notas à distância de leitura e aguardou até que o silêncio adquirisse a m esm a qualidade de expectativa agradável que abrangia um teatro no m om ento em que a cortina com eçava a subir.
Estava instalado o estado de ânim o.
Essa era a parte m ais feliz do dia de Marty. Hora de história. Não im portava o que m ais pudesse acontecer depois de levantar para enfrentar a m anhã, ele sem pre poderia ansiar pela hora da história.
Ele próprio escrevia os contos em um caderno de notas intitulado Histórias para Charlotte e Emily, que talvez ele publicasse um dia. Ou talvez não. Cada palavra era um presente para suas filhas, de m odo que a decisão de com partilhar as histórias com outras pessoas seria inteiram ente delas.
Essa noite m arcava o com eço de um prazer especial, um a história em verso que continuaria durante o dia de Natal. Talvez ela fosse boa o bastante para aj udá-lo a esquecer os perturbadores acontecim entos em seu gabinete.
Bem, agora que a Ação de Graças passou pela segurança, com mais perus comidos neste ano do que numa festança...
— Ele rim a! — disse Charlotte encantada.
— Psiu! — Em ily repreendeu a irm ã.
As regras da hora da história eram poucas, porém im portantes. E um a delas era que a plateia form ada pelas duas m eninas não podia interrom per no m eio de um a frase ou, no caso de um poem a, no m eio de um a estrofe. O retorno que davam era apreciado, suas reações eram estim adas, m as um contador de história precisa receber o devido respeito.
Ele com eçou de novo:
Bem, agora que a Ação de Graças passou em segurança,
com mais perus comidos neste ano do que numa festança,
com mais recheio recheado, mais inhame empurrado
dentro de nossas bocas, e usando as duas mãos,
salada de repolho de montão, biscoitos de dois,
todos nós gordos demais para entrar em nossos sapatos.
As m eninas riam no ponto exato em que ele queria que elas rissem , e Marty m al pôde im pedir-se de girar na cadeira para ver o que Paige estava achando até ali, j á que ela não ouvira nada daquilo até esse m om ento. Mas ninguém responderia a um contador de história que não pudesse esperar até o final para ter os aplausos; um ar inabalável de confiança, sentida de m aneira falsa ou autêntica, era essencial para o sucesso.
Assim, vamos aguardar o grande feriado
que está vindo, vindo, vindo em nossa direção.
Tenho certeza de que vocês sabem a que dia me refiro.
Não é o Domingo de Páscoa, nem o Dia das Bruxas.
Não é um dia para ficar triste e indiferente.
Eu lhes pergunto, jovens senhoritas, o que é...?
— É o Natal! — Charlotte e Em ily responderam em uníssono, e a resposta im ediata confirm ou que ele as envolvera em sua m agia.
Algum dia, em breve, vamos levantar uma árvore.
Por que apenas uma? Talvez duas, talvez três!
Enfeitá-la com lantejoulas e bugigangas coloridas.
Será uma cena surpreendente e maravilhosa.
Fio de luzes coloridas lá fora no telhado...
rezem para que nenhuma tenha sido quebrada por alguma pata.
Salguem as telhas finas para derreter o gelo.
Se Noel cair não vai ser bonito.
Ele poderia quebrar uma perna ou se cortar,
talvez até quebrasse sua enorme cabeça.
Ele deu um rápido olhar nas m eninas. Seus rostos pareciam brilhar nas som bras. Sem falar um a palavra, elas lhe disseram : não pare, não parei
Deus, ele adorou. Ele adorava aquelas duas.
Se o paraíso existia, era exatam ente com o aquele m om ento, aquele lugar.
Oh, esperem! Acabei de ouvir notícias terríveis.
Espero que não vá deixar seu Natal deprimido.
Noel foi drogado, amarrado e amordaçado,
teve os olhos tapados, os ouvidos arrolhados e foi ensacado.
Seu trenó espera lá fora, no pátio,
e alguém roubou o cartão do banco de Noel.
Em breve farão uma limpeza em sua conta,
usando os bancos automáticos de rua.
— Oh, hum — disse Charlotte, aconchegando-se m ais fundo nas cobertas. — Vai ser assustador.
— Bem , claro que é — disse Em ily. — Foi papai que escreveu.
— Vai ser assustador demais? — perguntou Charlotte, puxando os cobertores até o queixo.
— Você está usando m eias? — perguntou Marty.
Geralm ente, Charlotte usava m eias na cam a para não sentir frio nos pés, exceto no verão.
— Meias? — disse ela. — Sim ? E daí?
Marty reclinou-se para a frente na cadeira e baixou a voz ao nível de um sussurro fantasm agórico:
— Porque essa história só term inará no Dia de Natal, e até lá você vai suar as m eias de susto talvez um as doze vezes.
Ele fez um a cara de m au.
Charlotte puxou o cobertor até o nariz.
Em ily deu um a risada e pediu:
— Vam os, papai, o que vem depois?
Ouça, o som dos sinos de prata de trenó
ecoa sobre as colinas e vales estreitos.
E olhem... as renas lá em cima no céu!
Algum ganso bobo as ensinou a voar.
O cocheiro dá risadinhas como um estúpido...
louco, pateta, um sicário e capanga.
Alguma coisa está errada... qualquer tolo poderia dizer.
Se esse for Noel, então Noel não está bem.
Ele pia, algaravia, casquina e cospe,
e parece estar tendo algum tipo de ataque.
Seus olhinhos ariscos giram como piões.
Portanto, é melhor alguém chamar rápido os tiras.
Um olhar mais perto confirma sua psicose.
E... oh, meus caros... é de fato uma péssima halitose.
— Minha nossa! — disse Charlotte, puxando o cobertor para cim a dos olhos. Ela alegava não gostar de histórias assustadoras, m as era a prim eira a se queixar caso não acontecesse, m ais cedo ou m ais tarde, algum a coisa que m etesse m edo.
— E então, quem é ele? — perguntou Em ily. — Quem am arrou Noel, roubou seu dinheiro e fugiu em seu trenó?
Tomem cuidado quando o Natal chegar este ano,
porque há algo novo a se temer.
O gêmeo de Noel... que é malvado e mesquinho
roubou o trenó, vai fazer um escândalo
fingindo ser seu irmão bom.
Proteja seus filhos amados, mãe!
Descendo pela chaminé, entrando em seu lar,
lá vem aquele vil e psicótico gnomo!
— Uai! — gritou Charlotte e puxou a coberta acim a da cabeça.
— O que deixou o gêm eo de Noel tão m au assim ? — perguntou Em ily.
— Talvez ele tenha tido um a infância ruim — respondeu Marty.
— Talvez ele tenha nascido desse j eito — disse Charlotte por baixo do cobertor.
— As pessoas podem nascer m ás? — perguntou novam ente Em ily. Depois respondeu sua própria pergunta antes que Marty pudesse fazê-lo. — Bem , claro que podem . Com o algum as pessoas nascem boas, com o você e m am ãe, então algum as pessoas têm que nascer m ás.
Marty absorvia as reações das m eninas, adorando. Em um certo nível, ele era escritor, guardando as palavras delas, o ritm o de suas falas, as expressões, para o dia em que pudesse precisar deles para utilizar num a cena de um livro. Ele supunha que não era adm irável estar tão constantem ente atento a ponto de usar suas próprias filhas com o m aterial; podia ser repugnante do ponto de vista m oral, m as ele não conseguia m udar. Ele era o que era. No entanto, tam bém era pai e reagia, antes de tudo, nesse nível, preservando aquele m om ento na m ente, j á que um dia as lem branças seriam tudo que ele teria da infância delas. Queria ser capaz de recordar tudo, os m om entos bons, os m aus e os sim ples, assim com o os grande acontecim entos, em tecnicolor e som dolby e com perfeita clareza, pois tudo era precioso dem ais para ele perder.
— O gêm eo m au de Noel tem um nom e? — perguntou Em ily.
— Tem — disse Marty —, ele tem , m as você terá que esperar um a outra noite para ouvir. Chegam os ao nosso prim eiro ponto de parada.
Charlotte apontou a cabeça para fora das cobertas e as duas m eninas insistiram para que ele lesse de novo a prim eira parte do poem a, com o ele sabia que elas fariam . Mesm o durante a segunda vez, elas ficariam envolvidas dem ais para conseguirem dorm ir. Pediriam um a terceira leitura, e ele concordaria, pois só então elas estariam suficientem ente fam iliarizadas com as palavras para sossegar. Mais tarde, no final da terceira leitura, elas enfim estariam em sono profundo ou na beira sonolenta do sonho.
Quando Marty com eçou a reler a prim eira linha, ouviu Paige sair do vão da porta e cam inhar na direção da escada. Ela ficaria esperando por ele na sala de estar, talvez com as cham as crepitando na lareira, talvez com vinho tinto e algum tipo de com ida, e os dois se enroscariam e cada um contaria seu dia para o outro.
Quaisquer cinco m inutos da noite, agora ou m ais tarde, seria m ais interessante para ele do que um a viagem em volta do m undo. Ele era um incorrigível hom em caseiro. Os encantos da lareira e da fam ília eram m ais fascinantes do que as enigm áticas areias do Egito, o feitiço de Paris e o m istério do Extrem o Oriente com binados.
Piscando os olhos para cada um a das filhas, recitou novam ente.
— Bem , agora que a Ação de Graças passou em segurança — nesse m om ento, ele havia esquecido que algum a coisa perturbadora acontecera antes em seu gabinete e que a santidade de seu lar tinha sido violada.
8.
No Blue Life Lounge, ela passa esbarrando no m atador e desliza no banquinho de bar ao seu lado. Não é tão bonita quanto as dançarinas, m as é atraente o bastante para seus propósitos. Vestida com jeans m arrom e um a apertada cam iseta verm elha, ela poderia ser apenas outra freguesa, m as não é. Ele conhece seu tipo — um a Vênus barata com as habilidades de contadora nata.
Eles entabulam um a conversa, reclinando-se para perto um do outro a fim de serem ouvidos acim a da banda, e pouco tem po depois suas cabeças estão quase se tocando. O nom e dela é Heather ou é o que diz. Tem o hálito de hortelã de inverno.
No m om ento em que as dançarinas se retiram e a banda faz um a pausa, Heather havia decidido que ele não era um tira da Delegacia de Costum es fazendo um a batida, de m odo que fica m ais audaciosa. Ela sabe o que ele quer, tem o que ele quer e faz com que ele saiba que é um com prador num m ercado vendedor.
Heather diz a ele que do outro lado da estrada do Blue Life Lounge tem um m otel em que, se a m oça é conhecida da gerência, os quartos podem ser alugados por hora. O que não é surpresa para ele, pois existem leis do tesão e da econom ia tão im utáveis quanto as leis da natureza.
Ela veste a j aqueta forrada com pele de cordeiro e os dois saem j untos na noite fria, onde seu hálito de hortelã de inverno transform a-se em vapor no ar revigorante. Atravessam o estacionam ento e depois a estrada de m ãos dadas, com o se fossem nam orados de universidade.
Em bora ela saiba o que ele quer, não sabe que ele precisa m ais do que faz. Quando ele conseguir o que quer, e quando isso não saciar a ardente necessidade dele, Heather irá conhecer o padrão de em oção que agora é tão conhecido dele: a necessidade alim enta a frustração; a frustração transform a-se em raiva; a raiva leva ao ódio; o ódio gera a violência — e a violência às vezes conforta.
O céu é um a placa m aciça de gelo claro com o cristal. As árvores estão desfolhadas e cauterizadas no final do enfadonho novem bro. O vento faz um som frio e triste enquanto varre a vasta cam pina vizinha atravessando a cidade. E às vezes a violência conforta.
* * *
Mais tarde, tendo-se consum ido em Heather m ais de um a vez, j á não m ais no poder da luxúria, ele acha que a pobreza do quarto de hotel é um a lem brança intolerável da natureza baixa e suj a de sua existência. Seu desej o im ediato foi saciado, m as seu desej o de m ais vida, direção e sentido não foi dim inuído.
A j ovem m ulher nua, em cim a da qual ainda está deitado, agora parece feia e até odiosa. A lem brança de intim idade com ela lhe causa aversão. Ela não pode ou não quer dar-lhe o que ele precisa. Vivendo à m argem da sociedade, vendendo seu corpo, ela própria é um a proscrita e, portanto, um sím bolo enfurecedor da alienação dele.
Ela foi pega de surpresa quando ele a socou no rosto. O soco foi forte o bastante para atordoá-la. Quando Heather am olece, quase inconsciente, ele desliza as duas m ãos em volta de seu pescoço e a sufoca com toda a força de que é capaz.
A luta é tranquila. O soco, seguido da extrem a pressão em sua traqueia e a dim inuição do fornecim ento de sangue ao cérebro através da carótida, deixa-a incapaz de opor resistência.
Ele está preocupado em não cham ar a atenção indesej ada de outros hóspedes do m otel. Mas um m ínim o de barulho tam bém é im portante, porque um assassinato silencioso é m ais pessoal, m ais íntim o, m ais profundam ente satisfatório.
Ela sucum be com tanta suavidade que ele se lem bra de film es sobre a natureza, nos quais certas aranhas e m antídeos m atam seus parceiros logo depois de um a prim eira e derradeira relação sexual, sem pre sem nenhum ruído, nem do assaltante nem da vítim a. A m orte de Heather é caracterizada por um ritual frio e solene sem elhante à selvageria estilizada desses insetos.
Minutos m ais tarde, depois de tom ar um banho de chuveiro e de se vestir, ele atravessa a estrada do m otel em direção ao Blue Life Lounge e entra em seu carro alugado. Tem negócios a fazer. Não foi m andado a Kansas City para m atar um a prostituta cham ada Heather. Ela foi um a m era diversão. Novas vítim as esperam por ele, e agora ele se sente relaxado e concentrado o suficiente para tratar dos outros.
9.
Paige estava de pé no gabinete de Marty, à luz cor partida da lâm pada com vitral, olhando fixo para o pequeno gravador, ouvindo o m arido cantar as duas palavras perturbadoras num tom de voz que ia do sussurro m elancólico a um rosnar baixo de raiva.
Menos de dois m inutos depois, ela j á não pôde m ais tolerar. A voz dele era ao m esm o tem po fam iliar e estranha, o que tornava a coisa m uito pior do que se ela não fosse capaz de reconhecê-la.
Ela desligou o gravador.
Ao perceber que ainda segurava o copo de vinho tinto na m ão direita, ela tom ou um longo gole. Era um bom cabernet da Califórnia, que m erecia ser sorvido devagar, m as, de repente, ela ficou m ais interessada em seu efeito do que em seu gosto.
Marty disse do outro lado da escrivaninha:
— Há pelo m enos m ais cinco m inutos da m esm a coisa. Sete m inutos no total. Fiz algum a pesquisa depois que isso aconteceu, antes de você e as m eninas chegarem em casa. — Ele acenou na direção das estantes de livros alinhadas num a parede. — Em m inhas referências m édicas.
Paige não queria ouvir o que ele iria contar. A possibilidade de algum a doença séria era inconcebível. Se acontecesse algo de sério com Marty, o m undo seria um lugar m uito m ais som brio e m enos interessante.
Ela não sabia ao certo se poderia lidar com a perda dele. Percebia que sua atitude era peculiar, considerando-se que era um a psicóloga infantil que, em sua clínica particular e durante as horas que doava aos grupos ligados ao bem -estar da criança, havia ensinado m uitas delas a superar a dor e a seguir em frente depois da m orte de um ente am ado.
Marty deu a volta na escrivaninha e foi em sua direção, j á com seu próprio copo de vinho vazio:
— Um a fuga pode ser sintom a de várias coisas — disse ele. — O estágio inicial da doença de Alzheim er, por exem plo, m as acredito que podem os descartar isso. Se fiquei com a doença de Alzheim er aos 33 anos, é provável que eu sej a o caso m ais j ovem nos registros de um a década.
Ele colocou o copo em cim a da escrivaninha e foi à j anela para olhar a noite por entre as frestas da persiana.
Paige estava chocada com a vulnerabilidade que ele aparentou de repente. Um m etro e oitenta e dois de altura, 81 quilos, com seus m odos fáceis de lidar e entusiasm o ilim itado pela vida, Marty sem pre a im pressionou com o sendo m ais sólido e perm anente do que qualquer coisa no m undo, inclusive m ontanhas e oceanos. Agora ele parecia tão frágil quanto um a peça de vidro.
Com as costas voltadas para ela, ainda exam inando a noite, ele disse:
— Ou pode ter sido um a indicação de um pequeno derram e.
— Não.
— Em bora de acordo com as referências que exam inei, a causa m ais provável sej a um tum or no cérebro.
Ela ergue o copo. Estava vazio. Mas não conseguiu lem brar-se de ter term inado o vinho. Um a pequena fuga sua.
Ela colocou o copo na escrivaninha. Ao lado do odioso gravador. Depois foi até Marty e pôs a m ão em seu om bro.
Quando ele se virou, ela o beij ou de leve, rápido. Ela encostou a cabeça em seu peito, abraçando-o, e ele envolveu-a com os braços. Por causa de Marty, ela aprendeu que os abraços eram tão essenciais para um a vida saudável com o a com ida, a água, o sono.
Antes, quando o flagrava exam inando sistem aticam ente as trancas de j anelas, ela insistia, com apenas um olhar zangado e um a única palavra — então? —, que ele não escondesse coisa algum a. Agora desej ava não ter insistido em ouvir sobre o m au m om ento que ele vivera num dia que, fora isso, tinha sido ótim o.
Ainda abraçada a ele, ela levantou a vista e no final encontrou os olhos dele.
— Pode não ser nada.
— É algum a coisa.
— Nada físico, eu quero dizer.
Ele sorriu um sorriso triste.
— É tão confortador ter um a psicóloga em casa.
— Bem , poderia ser algo psicológico.
— De certa form a, o fato de talvez eu estar louco não aj uda em nada.
— Não louco. Estressado.
— Ah, sim , o estresse. A desculpa do século XX, o em buste favorito das falsas licenças m édicas, dos políticos que tentam explicar por que estavam bêbados em um m otel com adolescentes peladas...
Ela se soltou dele e virou-se, furiosa. Não estava exatam ente preocupada com Marty, m as sim com Deus ou com o destino ou com qualquer outra força que subitam ente trouxe correntes turbulentas para suas vidas que fluíam sem dificuldades.
Ela andou em direção à escrivaninha para pegar o copo de vinho, antes de se lem brar que j á o havia bebido. Tornou a virar-se para Marty.
— Está bem ... exceto quando Charlotte esteve m uito doente naquela vez, você sem pre esteve tão tenso quanto um torno. E nos últim os tem pos você tem sofrido um bocado de pressão.
— Tenho? — perguntou, levantando as sobrancelhas.
— O prazo final para esse livro é m ais apertado do que de praxe.
— Mas consegui três m eses, e acho que só vou precisar de um .
— Todas as novas expectativas da carreira... seu editor, o agente e as pessoas do ram o que agora o observam de um a m aneira diferente.
A reim pressão em brochura de seus dois rom ances m ais recentes o colocara na lista de best-seller do New York Times, cada qual por oito sem anas. Ele ainda não havia desfrutado de um best-seller de capa dura, m as esse novo nível de sucesso parecia im inente com a publicação de seu novo rom ance em j aneiro.
O súbito crescim ento das vendas era excitante, m as tam bém assustador. Em bora Marty desej asse um público m aior, tam bém estava determ inado a não costurar sua escrita para obter um a atração m ais am pla e assim perder aquilo que tornava seus livros estim ulantes. Ele sabia que corria o perigo de m odificar seu trabalho de m aneira inconsciente, de m odo que nos últim os tem pos vinha sendo m uito m ais rígido consigo m esm o, apesar de ter sido sem pre seu crítico m ais ferrenho e sem pre ter revisto cada página de um a história vinte ou trinta vezes.
— Depois tem a revista People — disse ela.
— Isso não é estressante. Já passou e acabou.
Um j ornalista da People tinha ido à casa algum as sem anas antes, e um fotógrafo o seguiu dois dias depois para um a tom ada de dez horas. Sendo Marty quem era, sim patizou com eles e vice-versa, em bora a princípio houvesse resistido desesperadam ente aos pedidos de seu editor para fazer a m atéria.
Devido a seu relacionam ento am igável com o pessoal da People, ele não tinha nenhum a razão para pensar que o artigo seria negativo, m as em geral m esm o a publicidade favorável o fazia sentir-se desconcertado e sôfrego. Para ele, o que im portava eram os livros, não a pessoa que os escreveu, e ele não queria ser, com o o próprio Marty expressou, “a Madonna do rom ance de m istério posando nu em um a biblioteca com um a cobra entre os dentes para inchar as vendas”.
— Não passou nem acabou — discordou Paige. A edição com o artigo sobre Marty só chegaria às bancas na segunda-feira. — Sei que você está com m edo.
Ele suspirou.
— Não quero ser...
— Madonna com um a cobra entre os dentes. Eu sei, garoto. O que estou dizendo é que você está m ais estressado com essa revista do que pensa.
— Estressado o bastante para apagar sete m inutos?
— Claro. Por que não? Aposto com o é isso que o m édico vai dizer.
Marty pareceu cético.
Paige m oveu-se para dentro de seus braços de novo.
— Tudo tem dado tão bem para nós nos últim os tem pos, quase bem dem ais. Há um a tendência a se ficar um pouco supersticioso com isso. Mas nós trabalham os duro e m erecem os tudo isso. Nada vai dar errado. Está m e ouvindo?
— Estou — disse ele, abraçando-a.
— Nada vai dar errado — ela repetiu. — Nada.
10.
Depois da m eia-noite.
A vizinhança ostenta grandes lotes de terra e as grandes casas estão assentadas bem para trás das linhas frontais da propriedade. Arvores im ensas, tão antigas que quase parecem ter adquirido inteligência nascente, m ontam sentinela ao longo das ruas, vigiando os prósperos residentes, os galhos negros riscados de outono eretos com o antenas de alta tecnologia, colhendo inform ações sobre am eaças potenciais ao bem -estar daqueles que dorm iam do outro lado dos m uros de tij olos e pedras.
O m atador estaciona na volta da esquina da casa na qual seu trabalho espera. Ele cam inha o resto do traj eto, sussurrando em voz baixa um a m elodia alegre de sua própria criação, agindo com o se j á houvesse pisado naquela calçada m il vezes antes.
O com portam ento furtivo sem pre é notado e, quando isso acontece, provoca um inevitável alarm e. Por outro lado, um hom em que age de m odo audaz e direto é visto com o honesto e inofensivo, não é percebido e, m ais tarde, é esquecido por com pleto.
Um frio vento noroeste.
Um céu sem lua.
Um a suspeita coruj a repete em tom m onótono sua única pergunta.
A casa é em estilo georgiano, tij olo com colunas brancas. A propriedade é rodeada por um a cerca de ferro com pontas de lança.
O portão da estradinha de carro está aberto e parece ter sido deixado nessa posição durante m uitos anos. O ritm o e a qualidade pacífica da vida em Kansas City não podem sustentar a paranoia por m uito tem po.
Com o se fosse dono do lugar, ele segue a estradinha circular até o pórtico da entrada principal, sobe os degraus e para diante da porta da frente para abrir o zíper do pequeno bolso do peito de seu casaco de couro. E tira um a chave do bolso.
Até esse m om ento, ele não estava consciente de que a carregava. Ele não sabe quem lhe deu, m as sabe de im ediato qual seu propósito. Isso j á lhe aconteceu antes.
A chave se aj usta na fechadura de cavilha m orta.
Ele abre a porta para um vestíbulo escuro, atravessa a soleira e entra na casa quente, retirando a chave da fechadura. E fecha a porta suavem ente atrás dele.
Após afastar a chave, ele se vira para o painel de program ação do sistem a de alarm e ao lado da porta. A partir do m om ento em que abriu a porta, tem sessenta segundos para digitar o código correto a fim de desarm ar o sistem a; caso contrário, a polícia será convocada. Ele se lem bra dos seis dígitos da sequência de desarm e no m om ento que é preciso e digita.
Retira outro artigo da j aqueta, dessa vez de um bolso fundo de dentro: um par de óculos de visão noturna, bastante com pacto, de um tipo fabricado para os m ilitares e que não se encontra à venda para cidadãos civis. Mesm o a luz m ais fraca é am pliada com m uita eficiência em um fator de dez m il, de tal m odo que ele pode m over-se através de quartos escuros com absoluta confiança, com o se todas as luzes estivessem acesas.
Subindo a escada, ele tira a Heckler & Koch P7 do enorm e coldre do om bro, sob a j aqueta. O pente am pliado contém dezoito balas.
Um silenciador está enfiado em um a pequena m anga do coldre. Ele o libera e depois o atarraxa em silêncio no cano da pistola. Isso garantirá de oito a doze tiros relativam ente silenciosos, m as se deteriorará rápido dem ais para perm itir que ele gaste o pente inteiro sem acordar outras pessoas da casa e da vizinhança.
Oito tiros seriam m ais do que ele precisa.
A casa é grande e dez quartos se abrem no corredor em form a de T do segundo andar, m as ele não precisa procurar seus alvos. Ele é tão fam iliarizado com a planta desse andar quanto com o m apa das ruas da cidade.
Através dos óculos, tudo tem um m atiz esverdeado, e os obj etos brancos parecem brilhar com um a espectral luz interior. Ele se sente com o se estivesse em um film e de ficção científica, um herói intrépido explorando outra dim ensão ou um a terra alternativa em tudo idêntica à nossa, exceto em poucos aspectos cruciais.
Ele abre a porta do dono da casa. Aproxim a-se da cam a tam anho gigante com sua elaborada cabeceira ao estilo georgiano.
Duas pessoas estão dorm indo sob os lençóis esverdeados, um hom em e um a m ulher na casa dos quarenta. O m arido está deitado de costas, roncando. Seu rosto é facilm ente identificado com o sendo o alvo prim ário. A m ulher está a seu lado, o rosto sem ienterrado no travesseiro, m as o m atador pode ver o bastante para se certificar que ela é o alvo secundário.
Ele coloca o cano da P7 contra a garganta do m arido.
O aço frio desperta o hom em , e seus olhos se abrem com o se tivessem as pálpebras com contrapeso dos olhos de um a boneca.
O m atador puxa o gatilho, explodindo a garganta do hom em ; levanta o cano e dispara dois diretos em seu rosto. A arm a de fogo soa com o a leve cuspidela de um a cobra.
Ele dá a volta na cam a, sem fazer nenhum barulho no tapete de pelúcia.
Duas balas na têm pora esquerda exposta da m ulher com pletam sua m issão, e ela j am ais desperta, em absoluto.
Ele fica parado ao lado da cam a durante algum tem po, desfrutando a suavidade incom parável daquele m om ento. Estar presente na m orte é com partilhar um a das experiências m ais íntim as que um a pessoa terá neste m undo. Afinal de contas, ninguém , a não ser m em bros estim ados da fam ília e os am igos queridos, são bem -vindos num leito de m orte para testem unhar o últim o sopro de um m oribundo. Portanto, o m atador é capaz de erguer-se acim a de sua existência cinzenta e m iserável apenas no ato da execução, pois então ele tem a honra de com partilhar da m ais profunda de todas as experiências, m ais solene e im portante do que o nascim ento. Nesses m om entos m ágicos e preciosos, quando seus alvos m orrem , ele estabelece relacionam entos, vínculos significativos com outros seres hum anos, conexões que banem por breves m om entos sua alienação, fazendo-o sentir-se necessário, incluído, am ado.