Sr. Assassino

Dean Koontz · Capítulo 2 de 9 · parte 4/4

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Sr. Assassino

Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Por outro lado, talvez ele tivesse reagido por instinto a um a am eaça real além da percepção consciente. Com o pessoa que havia incorporado algum as teorias j unguianas à sua visão de m undo pessoal e profissional, Paige tinha espaço para conceitos com o inconsciente coletivo, sincronicidade e intuição.

Parada j unto às portas duplas da sala de estar, olhando o pátio escuro, ela perguntou-se que am eaça Marty podia ter sentido lá fora num m undo que, durante toda sua vida, tornara-se cada vez m ais perigoso.

16.

Sua atenção desvia-se da estrada à frente apenas para rápidas olhadas nas form as estranhas que surgem na escuridão e na chuva em am bos os lados da rodovia. Dentes de rocha quebrados, im pelidos pela areia e entulhos, com o se um hipopótam o abaixo da terra abrisse sua boca para devorar qualquer anim al infeliz que por acaso estivesse na superfície. Grupos bem espaçados de árvores raquíticas lutam para m anter-se vivos num a terra dura, onde as torm entas são raras e os aguaceiros m ais raros ainda; galhos torcidos saem da brum a, tão recortados e quitinosos com o os m em bros pontudos de im ensos insetos, ilum inados por breves m om entos pelos faróis, pendendo ao vento por um instante para logo depois desaparecer.

Em bora o Honda tenha um rádio, o m atador não o liga porque não quer se distrair do m isterioso poder que o im pele na direção oeste e com o qual ele procura com unhão. Quilôm etro por triste quilôm etro, aum enta a atração m agnética, e isso é a única coisa que o interessa; ele não pode afastar-se disso, assim com o a terra não pode reverter sua rotação e pôr o nascer-do-sol de am anhã no oeste.

Ele deixa a chuva para trás e, num dado m om ento, sai de baixo das nuvens esfarrapadas para um a noite clara com estrelas que não podem ser contadas. Ao longo de parte do horizonte, é possível vislum brar picos lum inosos e cordilheiras, tão distantes que podem definir a beira do m undo, com o plataform as de alabastro protegendo um reino de conto de fadas, as m uralhas de Xangrilá nas quais ainda brilha a luz da lua do m ês passado.

Ele vai para a vastidão do sudoeste, passando por colares de luz que são as cidades do deserto de Tucum cari, Montoy a, Cuervo e depois atravessando o Rio Pecos.

Entre Am arillo e Albuquerque, onde ele para com o obj etivo de conseguir óleo e gasolina, ele usa o sanitário de um posto cheirando a inseticida. Duas baratas m ortas estão caídas num canto. A luz am arela e o espelho suj o revelam um reflexo reconhecível com o seu, m as diferente de algum a form a. Seus olhos azuis parecem m ais escuros e m ais ferozes do que ele j á vira e as linhas de seu rosto em geral franco e am igável se haviam endurecido.

— Vou ser alguém — ele diz para o espelho, e o suj eito do espelho declam a as palavras de acordo com ele.

Às 11:30 da noite de dom ingo, quando chega a Albuquerque, ele abastece o Honda em outra parada de cam inhões e pede dois cheeseburgers para viagem . Depois, ele está no próxim o trecho de sua viagem — 520 quilôm etros até Flagstaff, Arizona — com endo os sanduíches nas sacolas de papel branco e nas quais pingam gordura cheirosa, cebolas e m ostarda.

Essa será sua segunda noite sem descanso; no entanto, ele não está com sono. Ele é abençoado com um a energia excepcional. Em outras ocasiões, ele ficou 72 horas sem dorm ir, m as perm aneceu com a m ente lúcida.

Por film es que assistiu em noites solitárias em cidades estranhas, ele sabe que o sono é o inim igo invencível dos soldados desesperados para vencer um a dura batalha. Dos policiais em batidas. Daqueles que precisam m ontar guarda contra vam piros até que o am anhecer traga o sol e a salvação.

Sua capacidade de dar um a trégua ao sono sem pre que desej a é tão incom um que ele se recusa a pensar nisso. Ele sente que há coisas nele que é m elhor não saber, e esta é um a delas.

Um a outra lição que ele aprendeu nos film es é que todo hom em tem segredos, inclusive aqueles que esconde de si m esm o. Que é exatam ente a condição que ele m ais desej a. Ser com o outros hom ens.

* * *

No sono, Marty está num lugar frio e varrido pelo vento, nas garras do terror. Ele tem consciência de que se encontra num a planície tão plana e sem traços característicos quanto o vasto vale do deserto Moj ave na estrada para Las Vegas, m as na verdade não conseguia ver a paisagem porque a escuridão era tão profunda quanto a m orte. Ele sabia que algum a coisa corria em sua direção através das trevas — algo inconcebivelm ente estranho e hostil, im enso e ‘ m ortal, porém com um silêncio extrem o —, sabia em seus ossos que estava vindo, m eu Deus, m as não tinha a m enor ideia da direção de sua aproxim ação. A esquerda, direita, na frente, por trás, pelo chão abaixo de seus pés ou do céu preto com o sable, a coisa estava vindo. Ele podia sentir, um obj eto de tam anho e peso tão colossais que a atm osfera se com prim ia em sua passagem , o ar engrossava enquanto o perigo desconhecido se aproxim ava. Vinha rápido, cada vez m ais rápido, e nenhum lugar para se esconder. Então, em algum lugar da escuridão infinita, ele ouviu Em ily pedindo socorro, cham ando seu pai, enquanto Charlotte tam bém cham ava, m as ele não conseguia saber a posição delas. Corria num a direção, depois na outra, m as suas vozes cada vez m ais frenéticas pareciam estar sem pre atrás dele. A am eaça desconhecida chegava m ais perto, m ais perto, as m eninas choravam de m edo, e Paige gritava seus nom es com um a voz tão assustada de terror que Marty com eçou a chorar de frustração por sua incapacidade de encontrá-las, ah m eu Deus, e a coisa estava quase em cim a dele, fosse o que fosse, tão im possível de ser detida quanto um a luz decrescente, m undos em colisão, um peso além da m edida, um a força tão prim itiva quanto a que criou o universo, tão destrutiva quanto a que um dia o extinguiria, Em ily e Charlotte gritando, gritando...

* * *

A oeste do Deserto Pintado, fora de Flagstaff, Arizona, pouco antes das cinco horas da m anhã de segunda-feira, raj adas de neve giram no céu e o ar frio é um bisturi penetrante que raspa seus ossos. A j aqueta de couro m arrom que ele pegou no arm ário do hom em m orto no motorhome há m enos de dezesseis horas atrás, em Oklahom a, não é pesada o bastante para m antê-lo aquecido na severidade do início da m anhã. Ele trem e enquanto enche o tanque do Honda num a bom ba de self-service.

Na Interestadual 40 de novo, ele com eça a viagem de 560 quilôm etros para Barstow, Califórnia. Sua com pulsão de continuar avançando para oeste é irresistível. Ele se sente tão desam parado em seu poder quanto um asteroide capturado pela trem enda gravidade da terra e arrastado de m aneira inexorável rum o a um im pacto cataclísm ico.

* * *

O terror ej etou-o para fora do sonho da escuridão e da am eaça desconhecida: Marty Stillwater sentou-se na cam a. Sua prim eira respiração para acordar foi tão explosiva que ele teve certeza de que havia despertado Paige, m as ela continuava dorm indo, im perturbável. Ele estava com frio, m as banhado em suor.

Pouco a pouco, seu coração parou de bater com tanta ferocidade. Com os núm eros de brilho verde do relógio digital, a luz verm elha da caixa do cabo em cim a da televisão e a luz am biente das j anelas, o quarto não estava tão preto quanto a planície de seu sonho.

Mas ele não conseguia deitar-se. O pesadelo havia sido m ais vivido e enervante do que qualquer outro que ele havia tido antes. O sono estava além de seu alcance.

Deslizando para fora das cobertas, ele se arrastou descalço até a j anela m ais próxim a. Exam inou o céu acim a dos telhados das casas do outro lado da rua com o se algum a coisa naquela abóbada escura fosse acalm á-lo.

Em vez disso, quando notou que o céu negro se ilum inava com um profundo cinza-azulado ao longo do horizonte oriental, a aproxim ação da alvorada fez com que ele detectasse o m esm o m edo irracional que sentira em seu gabinete na tarde de sábado. Quando as cores se m overam no céu, Marty com eçou a trem er. Ele tentou controlar-se, m as seu trem or ficou ainda m ais violento. Não era a luz do dia que ele tem ia, m as algum a coisa que o dia estava trazendo, um a am eaça indizível. Ele podia senti-la indo em sua direção, buscando-o — o que era um a loucura, droga — e trem eu com tanta violência que foi obrigado a colocar um a das m ãos no peitoral para firm ar-se.

— O que está errado em m im ? — ele sussurrou em desespero. — O que está acontecendo, o que há de errado?

* * *

Hora após hora, a agulha do velocím etro oscila entre 140 e 160 km . O volante vibra sob as palm as até suas m ãos doerem . O Honda trepida, chocalha. Com o não está acostum ado a ser acionado com tanta força, o m otor em ite um guincho agudo e resoluto.

Verm elho-ferrugem , branco-osso, am arelo-enxofre, a púrpura de veias dissecadas, seco com o cinza, tão estéril quanto Marte, areia pálida com saliências reptilianas de rochas sarapintadas, m anchadas com m oitas esbranquiçadas de algarobeira: a firm eza cruel do Deserto Moj ave tem um a aridez m aj estosa.

Com o seria inevitável, o m atador pensa em velhos film es sobre colonizadores m ovendo-se para o oeste em caravanas de carroças. E percebe pela prim eira vez quanta coragem era necessária para fazer essa viagem naqueles veículos frágeis, confiando suas vidas à saúde e energia dos cavalos de tiro.

Film es. Califórnia. Ele está na Califórnia, o lar dos film es.

Seguir, seguir, seguir.

De tem pos em tem pos, o m iado involuntário escapa dele. O som parece o de um anim al prestes a m orrer de desidratação avistando um bebedouro, arrastando-se em direção ao tanque que oferece salvação, m as com m edo de m orrer antes de poder satisfazer a sede.

* * *

Paige e Charlotte j á estavam na garagem , entrando no carro, quando am bas gritaram :

— Em ily, vam os!

Quando Em ily se afastou da m esa do café da m anhã e com eçou a andar em direção à porta aberta que ligava a cozinha à garagem , Marty pegou-a pelo om bro e virou-a para encará-lo.

— Espere, espere, espere.

— Oh — disse ela —, eu esqueci — e contraiu a boca para um beij o.

— Isso vem em segundo lugar — disse ele.

— O que vem em prim eiro?

— Isto — ele se agachou sobre um j oelho, descendo ao nível dela e, com um a toalha de papel, enxugou-lhe o bigode de leite.

— Oh, que indecência — falou ela.

— Estava atraente.

— Parece m ais a Charlotte.

Ele levantou as sobrancelhas.

— Com o?

— Ela é a bagunceira.

— Não sej a rude.

— Ela sabe disso, pai.

— Mesm o assim .

Paige cham ou de novo da garagem .

Em ily beij ou-o e ele disse:

— Não crie problem as para sua professora.

— Não m ais do que ela cria para m im — ela respondeu.

Num im pulso ele puxou-a contra seu corpo, abraçou-a com força, relutando em soltá-la. O odor lim po de sabonete e de xam pu de criança estavam aderidos nela; leite e arom a de aveia de Cheerios im pregnavam seu hálito. Ele nunca antes havia sentido cheiro m ais doce, m elhor. As costas da m enina eram assustadoram ente pequenas sob sua m ão. Ela era tão delicada que ele podia sentir o batim ento de seu j ovem coração tanto através de seu peito — pressionado contra ele — com o através da om oplata e da espinha em sua m ão. Ele estava tom ado pela sensação de que algum a coisa terrível iria acontecer e que j am ais a veria outra vez, se perm itisse que ela saísse de casa.

Ele tinha que deixá-la ir em bora, claro — ou explicar sua relutância, coisa que não podia fazer.

Querida, veja bem, o problema é que tem alguma coisa errada na cabeça do papai, e eu fico tendo esses pensamentos assustadores, como esse que vou perder você, Charlotte e mamãe. Bem, sei que nada vai acontecer, não de verdade, porque o problema todo está na minha cabeça, como um enorme tumor ou algo parecido. Você sabe soletrar “tumor”? Sabe o que é isso? Bem, vou procurar um médico e mandar cortar isso, cortar esse tumor mau, depois não ficarei mais assustado por motivo nenhum...

Ele não se atrevia a dizer nada parecido. Só iria assustá-la.

Deu-lhe um beij o na face quente e m acia e soltou-a.

Ela parou j unto à porta da garagem e olhou para trás na direção dele.

— Tem m ais poem a hoj e à noite?

— Pode apostar.

Ela disse:

— Salada de rena...

— ... sopa de rena...

— ... todo tipo de saborosas...

— ... com idas de rena — concluiu Marty.

— Sabe de um a coisa, papai?

— O quê?

— Você é bobo demais.

Em ily entrou na garagem dando um a risadinha. O catapum da porta se fechando atrás dela foi o som m ais derradeiro que Marty escutou

Ele olhou fixo para a porta, desej ando não correr até lá para abri-la e gritar para que elas voltassem para casa.

Ele ouviu a grande porta da garagem abrir-se rolando para cim a.

O m otor do carro foi acelerado, o escape explodiu, pegou, rodou um pouco enquanto Paige pressionava o acelerador antes de engrenar a ré.

Marty correu para fora da cozinha, atravessou a sala de j antar, entrou na sala de estar. Foi até um a das j anelas da frente, de onde podia ver a entrada de carros. As persianas estavam dobradas para fora da j anela, de m odo que ele pôde parar a alguns passos do vidro.

O BMW branco rodou de ré na estradinha, saiu da som bra da casa e entrou na luz do sol do fim de novem bro. Em ily viaj ava na frente com a m ãe e Charlotte no assento traseiro.

Enquanto o carro recuava ao longo da rua flanqueada de árvores, Marty aproxim ou-se tanto da j anela da sala de estar que a testa encostou no vidro frio. Ele tentou m anter a fam ília à vista o m aior tem po possível, com o se elas pudessem sobreviver a qualquer coisa — até m esm o a queda de aviões e explosões nucleares —, desde que ele não as perdesse de vista.

Sua últim a visão do BMW foi através de um súbito véu de lágrim as quentes, que ele m al conseguiu reprim ir.

Perturbado com a intensidade de sua reação em ocional à partida da fam ília, ele se afastou da j anela e disse em tom irado:

— Que droga está acontecendo com igo?

Afinal de contas, as m eninas estavam apenas indo à escola e Paige ao escritório, para onde iam todos os dias da sem ana. Seguiam um a rotina que nunca antes fora perigosa, e ele não tinha nenhum a razão lógica para acreditar que fosse perigosa hoj e — ou algum dia.

Ele olhou para o relógio de pulso. 7:48.

Faltavam pouco m ais de cinco horas para seu encontro com o Dr. Guthridge, m as isso pareceu um a extensão de tem po interm inável. Qualquer coisa podia acontecer em cinco horas.

* * *

Setas para Ludlow, para Daggett.

Seguir, seguir, seguir.

9:04, horário padrão do Pacífico.

Barstow. Um a cidade seca e descorada num a terra seca e dura. Diligências pararam aqui há m uito tem po. Pátios da estrada de ferro. Rios sem água. Estuque rachado, pintura descascando. O verde das árvores desaparecendo pela perpétua cam ada de pó nas folhas. Motéis, restaurantes de fast food, m ais m otéis.

Um posto de com bustíveis. Gasolina. Sanitário. Balas confeitadas. Duas latas de Coca.

Em pregado am igável dem ais. Conversador. Lento para dar o troco. Olhinhos de porco. Bochechas gordas. Odeio ele. Cale a boca, cale a boca, cale a boca.

Devia ter atirado nele. Devia ter explodido sua cabeça. Satisfatório. Não posso correr esse risco. Gente dem ais em volta.

Na estrada de novo. Interestadual 15. Oeste. Balas confeitadas e Coca a 130 por hora. Planícies desoladas. Colinas de areia, xisto. Rochas vulcânicas. Árvores-da-pureza de m uitos braços fazendo sentinela.

Com o um peregrino rum o a um lugar sagrado, com o um lem ingue para o m ar, com o um com eta em seu curso eterno, para oeste, para oeste, tentando correr m ais que o sol em busca do oceano.

* * *

Marty tinha cinco arm as.

Não era um caçador ou colecionador. Não praticava tiro ao prato nem fazia tiro ao alvo para se divertir. Ao contrário de m uitas pessoas que conhecia, não se arm ara por m edo do colapso social — em bora às vezes visse sinais disso em toda parte. Nem ao m enos poderia dizer que gostava de arm as, m as reconhecia a necessidade delas num m undo problem ático.

Havia adquirido as arm as um a a um a com propósitos de pesquisa. Com o rom ancista de m istério que escrevia sobre tiras e m atadores, ele acreditava ter a obrigação de conhecer o assunto sobre o qual escrevia. Com o não possuía o hobby da arm a, dispunha de um a quantidade de tem po lim itada para pesquisar todos os aspectos e tem as que um rom ance abordava — sendo inevitáveis pequenos enganos de vez em quando —, m as ele se sentia m ais confortável escrevendo sobre um a arm a se j á tivesse atirado com ela.

Em sua m esinha-de-cabeceira, ele m antinha um revólver Korth .38 descarregado e um a caixa de balas. Produzido na Alem anha, o Korth era um a arm a feita à m ão da m ais alta qualidade. Depois de aprender a usá-la para um rom ance intitulado O Crepúsculo Mortal, ele a conservara para a defesa da casa.

Ele e Paige haviam levado as m eninas várias vezes a um stand de tiro fechado para assistir tiro ao alvo, instilando nas filhas um profundo respeito pelo revólver. Quando Em ily e Charlotte tivessem idade suficiente, ele as ensinaria a usar um a arm a, em bora m enos potente e com m enos recuo do que o Korth. Os acidentes com arm as de fogo sem pre resultam da ignorância. Na Suíça, onde cada cidadão do sexo m asculino era requisitado a possuir um a arm a de fogo para defender o país em tem pos de crise a instrução de tiro era universal e os acidentes trágicos extrem am ente raros.

Ele tirou o .38 da m esinha-de-cabeceira, carregou-o e levou-o para a garagem , guardando-o no porta-luvas de seu segundo carro, um Ford Taurus verde. Ele o queria para proteção e para o encontro às 13:00 com o Dr. Guthridge.

Um a espingarda Mossberg cano 12, um rifle Colt M16 A2 e duas pistolas — um a Beretta m odelo 92 e um Sm ith & Wesson 5904 — estavam guardados em suas caixas originais dentro de um arm ário de m etal trancado num canto da garagem . Tam bém havia caixas de m unição em todos os calibres requeridos. Ele desem balou cada arm a, que havia sido lim pa e lubrificada antes de ser guardada, e carregou-as.

Colocou a Beretta na cozinha, num arm ário alto ao lado do fogão, em frente a um par de pratos de cerâm ica. As m eninas não encontrariam a arm a por acaso, antes que ele convocasse um a conferência fam iliar para explicar as razões dessas precauções extraordinárias — se pudesse explicar.

O M16 foi para um a prateleira superior no arm ário da saleta de entrada, ao lado da porta da frente. Colocou o Sm ith & Wesson na escrivaninha de seu gabinete, na segunda gaveta à direita, e deslizou a Mossberg para baixo da cam a no quarto de dorm ir.

Durante esses preparativos, ele se preocupou com a possibilidade de estar perturbado, arm ando-se contra um a am eaça que não existia. Considerando-se a fuga de sete m inutos que experim entara no dom ingo, m eter-se com arm as era a últim a coisa que ele devia estar fazendo.

Ele não tinha nenhum a prova de perigo im inente. Operava apenas por instinto, era um a form iga-soldado construindo fortificações de m aneira descuidada. Nada disso acontecera com ele antes. Por natureza, era um pensador, um planej ador, um hom em que m editava e, por últim o, um hom em de ação. Mas aquilo era um dilúvio de respostas instintivas e ele tinha sido arrastado.

Depois, tão logo term inou de esconder a espingarda debaixo da cam a do quarto, as preocupações sobre sua condição m ental foram repentinam ente superadas devido a um a outra consideração, A atm osfera opressiva de seu sonho recente se instalava nele de novo, a sensação de que algum peso terrível caía sobre ele a um a velocidade assassina. O ar pareceu engrossar-se. Foi quase tão ruim quanto no sonho. E estava ficando pior.

Deus, aj udai-m e, ele pensou — e não sabia se pedia proteção contra algum inim igo desconhecido ou contra im pulsos som brios dentro dele.

* * *

— Eu preciso...

Dem ônios do pó. Dançando no deserto alto.

A luz do sol brilhando em garrafas quebradas ao longo da estrada.

A coisa m ais rápida na estrada. Carros e cam inhões passavam . A paisagem era um borrão. Cidades espalhadas, todas borrões.

Mais rápido, m ais rápido. Com o se estivesse sendo sugado por um buraco negro.

Passando por Victorville.

Passando por Apple Valley.

Através do Desfiladeiro Caj on a 1.200 m etros acim a do nível do m ar.

Depois descendo. Passando por San Bernardino. Pegando a Riverside Freeway.

Riverside. Carona.

Através das m ontanhas Santa Ana.

— Eu preciso ser...

Ao sul. A Costa Mesa Freeway.

A cidade de Orange. Tustin. No labirinto suburbano do sul da Califórnia.

Um m agnetism o poderoso atraindo, atraindo de m aneira im placável.

Mais do que m agnetism o. Gravidade. Descendo ao vórtice do buraco negro.

Mudança para a Santa Ana Freeway.

Boca seca. Um am argo gosto m etálico. O coração batendo feroz, o pulso latej ando nas têm poras.

— Eu preciso ser alguém .

Mais rápido. Com o se estivesse am arrado a um a âncora m aciça num a corrente infinita, m ergulhando direto nas profundezas sem luz da vala de um oceano sem fundo.

Passando Irvine, Laguna Hills, El Toro.

Para o centro negro do m istério.

— ... preciso... preciso... preciso... preciso... preciso...

Mission Viej o. Isso existe. Sim .

Para fora da autoestrada. Procurando o ím ã. A atração enigm ática.

Todo o traj eto desde Kansas City para descobrir o desconhecido, para descobrir esse futuro estranho e m aravilhoso. Lar. Identidade. Sentido.

Virar à esquerda aqui, dois quarteirões, virar à direita. Ruas desconhecidas. Mas para encontrar o cam inho, ele só precisa entregar-se ao poder que o atrai.

Casas m editerrâneas. Gram ados cuidados com esm ero. Som bras de palm eiras nas paredes de estuque am arelo-claro.

Aqui.

Aquela casa.

Para o m eio-fio. Parar. Meio quarteirão de distância.

Apenas um a casa com o as outras. Exceto que. Algum a coisa lá dentro. O que ele sentiu na distante Kansas. O que o atrai. Algum a coisa.

A atração.

Lá dentro.

Esperando.

Um atônito grito de triunfo escapou de sua boca e ele trem eu violentam ente de alívio. Já não precisa m ais procurar seu destino. Em bora ele ainda não saiba o que pode ser, tem certeza de que encontrou e se curva no assento, com as m ãos suadas deslizando para fora do volante, contente por estar no fim da longa j ornada.

Ele está m ais excitado do que j á esteve antes, cheio de curiosidade; entretanto, finalm ente liberto do férreo aperto da com pulsão, ele perde o senso de urgência. O coração que m artelava desacelera, voltando a um núm ero norm al de batim entos por m inuto. Seus ouvidos param de zum bir, e ele consegue respirar de m aneira m ais profunda e ritm ada do que nos últim os cinquenta quilôm etros. Num tem po espantosam ente curto, ele está tão calm o e contido quanto esteve na enorm e casa de Kansas City, onde com partilhou agradecido das suaves intim idades da m orte com o hom em e a m ulher na antiga cam a georgiana.

* * *

No m om ento em que Marty pegou as chaves do Taurus no quadro da cozinha, cam inhou para a garagem , trancou a porta da casa e apertou o botão para levantar a porta autom ática da garagem , sua consciência do perigo im inente era tão aguda e angustiante que ele estava à beira de um pânico cego. Na servidão febril da paranoia, ele se convencera de que era caçado por um inim igo m isterioso, que em pregava não apenas os cinco sentidos habituais, m as tam bém m eios Paranorm ais, conceito bastante m aluco, pelo am or de Deus, direto da National Enquirer, m aluco m as inevitável porque, de fato, podia sentir um a presença... um a violenta presença à espreita que tinha conhecim ento dele, o pressionava, sondava. Ele sentiu com o se um líquido viscoso esguichasse com trem enda pressão em seu crânio, com prim indo seu cérebro, tirando-lhe a consciência. Um efeito físico m uito real tam bém fazia parte disso, pois ele estava tão pesado quanto um m ergulhador de fundo de oceano sob a esm agadora tonelagem de água, as j untas doendo, m úsculos queim ando, pulm ões relutando em expandir e aceitar outra respiração. Um a extrem a sensibilidade a qualquer estim ulante quase o incapacitava: o m atraquear duro da porta da garagem subindo era de arrebentar os ouvidos; a luz do sol intrusa queim ava seus olhos; e um odor de m ofo — em geral fraco dem ais para ser detectado — explodiu com o um a venenosa nuvem de esporos num canto da garagem , tão penetrante que o deixou com náuseas.

O acesso passou num instante, e ele recuperou o pleno controle de si m esm o. Em bora tivesse parecido que seu crânio iria explodir, a pressão interna cessou de form a tão abrupta quanto surgira, e ele j á não m ais oscilava à beira da inconsciência. Desaparecera a dor em suas j untas e m úsculos, e a luz do sol não furava seus olhos. Foi com o sair de um pesadelo de um estalo — só que ele estava desperto em am bos os lados do estalo.

Marty recostou-se no Taurus. Receava acreditar que o pior tinha passado, esperando tenso que um a outra onda inexplicável de terror paranoico caísse sobre ele.

Olhou para fora da garagem som bria, para a rua que era ao m esm o tem po fam iliar e estranha, quase esperando que um fantasm a m onstruoso saísse do pavim ento ou descesse do ar encharcado de sol, um a criatura desum ana e im placável, feroz e inclinada à sua destruição, espectro invisível de seu pesadelo agora tornado carne.

Sua confiança não retornou e ele não conseguia parar de trem er, m as aos poucos sua apreensão caiu a um nível tolerável e ele se perguntou se teria o atrevim ento de dirigir. E se um espasm o de m edo igualm ente desorientador o atingisse quando estivesse atrás do volante? Ele não tom aria conhecim ento de sinais verm elhos, do tráfego correndo em sentido contrário e de riscos de todos os tipos.

Mais do que nunca, ele precisava ver o Dr. Guthridge.

Ele considerou se devia voltar para casa e cham ar um táxi. Mas ali não era Nova York, com ruas abarrotadas de táxi; no sul da Califórnia, as palavras “serviço de táxi” eram frequentem ente um oxím oro. No m om ento em que pudesse chegar de táxi ao consultório do Dr. Guthridge, talvez j á tivesse perdido a consulta.

Ele entrou no carro, ligou o m otor. Com cautelosa concentração, saiu de ré da garagem e alcançou a rua, m anej ando o volante com tanta firm eza quanto um velho de noventa anos consciente da fragilidade de seus ossos e do fio tênue de sua existência.

Durante todo o traj eto até o consultório do m édico em Irvine, Marty Stillwater pensou em Paige, Charlotte e Em ily. Por traição de sua própria carne fraca, podia lhe ser negada a satisfação de ver as m eninas se tornarem m ulheres, o prazer de envelhecer ao lado da esposa. Em bora acreditasse num m undo depois da m orte, onde a certa altura poderia reunir-se com aqueles que am ou, a vida era tão preciosa que m esm o a prom essa de um a eternidade feliz não com pensaria a perda de alguns anos deste lado da cortina.

* * *

A m eio quarteirão de distância, o m atador observa o carro sair devagar da garagem .

Quando o Ford se afasta e desaparece aos poucos na luz do sol outonal cor de vinagre dourado, ele percebe que o ím ã que o atraiu de Kansas estava naquele carro. Talvez sej a o hom em visto de m odo obscuro atrás do volante — em bora possa não ser um a pessoa, m as sim um talism ã escondido em algum lugar do veículo, um obj eto m ágico além de sua com preensão e ao qual seu destino está ligado por razões que, por enquanto, ainda não estão claras.

O m atador quase liga o Honda para seguir a atração, m as decide que o estranho no Ford irá retornar m ais cedo ou m ais tarde.

Ele coloca o coldre de om bro, enfia a pistola dentro dele e veste a j aqueta de couro.

Retira do porta-luvas o estoj o de couro com zíper que contém seu conj unto de ferram entas de arrom bador. O estoj o inclui sete pinças com m ola de aço, um tensor em form a de L e um a lata de aerossol em m iniatura com lubrificante de grafite.

Ele sai do carro e avança ousado pela calçada em direção à casa.

No final da estradinha de carros há um a caixa de correios branca na qual está escrito um único nom e — STILLWATER. Essas dez letras pretas parecem possuir poder sim bólico. Still water. Água tranquila. Calm a. Paz. Ele encontrou águas tranquilas. Enfrentou m uita turbulência, correntezas violentas e redem oinhos, e agora encontrou um lugar onde pode descansar, onde sua alm a será aliviada.

Ele abre o ferrolho de gravidade de um portão de ferro forj ado entre a garagem e a cerca que lim ita a propriedade. Segue um a calçada flanqueada pela garagem à sua esquerda e um a sebe de eugênia da altura de um hom em , à sua direita, por todo o traj eto até os fundos da casa.

O insípido pátio dos fundos está cheio de plantas viçosas. Ele ostenta fícus m aduros e um a continuação de sebe de eugênia do pátio lateral, que o defende dos olhos curiosos dos vizinhos.

O pátio é protegido por um a coberta de m adeira verm elha trançada de galhos espinhosos de buganvília. Mesm o nesse últim o dia de novem bro, grupos de flores verm elho-sangue guarnecem o telhado do pátio. O chão de concreto está salpicado de pétalas caídas, com o se ali tivesse sido travada um a dura batalha.

Um a porta de cozinha e um a outra corrediça de vidro proporcionavam duas entradas possíveis do pátio. Am bas estão trancadas.

A porta corrediça, atrás da qual ele pode ver um a sala de estar vazia, com m obília confortável e um a enorm e televisão, ainda tem a segurança de um a estaca de m adeira travada no trilho interior. Se ele passar pela fechadura, ainda assim terá que quebrar o vidro e estender a m ão lá dentro para rem over a estaca.

Ele dá um a batida forte na outra porta, em bora a j anela ao lado revele que não há ninguém na cozinha. Com o não há resposta, ele bate de novo, com o m esm o resultado.

Ele tira a lata de grafite do estoj o com pacto de ferram entas de arrom bador. Agacha-se diante da porta, borrifa o lubrificante na fechadura. Suj eira, ferrugem ou outra contam inação pode cegar as tranquetas.

Ele troca o spray do grafite pelo tensor e pela ferram enta conhecida com o “ancinho”. Insere prim eiro a chave em form a de L para m anter a tensão necessária no centro da fechadura. Enfia o ancinho no canal da chave o m ais fundo que pode, depois leva-o para cim a até senti-lo pressionar as cavilhas. Inclinando a fechadura, ele tira rápido o ancinho, m as este não levanta todas as tranquetas até o ponto de soltura, portanto ele tenta de novo e de novo e, finalm ente, na sexta tentativa, o canal parece livre.

Ele gira a m açaneta.

A porta se abre.

Ele quase espera que um sinal dispare, m as não há nenhum a sirene. Um rápido exam e do um bral e do batente não revela nenhum interruptor m agnético, de m odo que tam pouco deve haver um alarm e silencioso.

Após guardar as ferram entas e fechar o zíper do estoj o de couro, ele atravessa a soleira e fecha a porta com um m ovim ento suave.

Durante algum tem po, fica parado num a cozinha fria e escura absorvendo as vibrações, que são boas. Essa casa lhe dá boas-vindas. Aqui com eça seu futuro, que será incom ensuravelm ente m ais brilhante do que o passado confuso e em baraçado pela am nésia.

Quando ele sai da cozinha para explorar a casa, não saca a P7 do coldre do om bro. Está seguro de que não há ninguém em casa. Não sente nenhum perigo, só oportunidade.

— Eu preciso ser alguém — ele diz para a casa, com o se ela fosse um a entidade viva com poder para garantir seus desej os.

O andar de baixo não oferece nada interessante. Os quartos habituais estão cheios de m obília confortável m as sem nada de singular.

No andar de cim a, ele para apenas por breves m om entos em cada quarto, obtendo um quadro geral da planta do segundo andar antes de tom ar tem po para um a investigação porm enorizada. Há o quarto dos donos da casa, com banheiro contíguo, arm ário em butido... um quarto de hóspede... o quarto das crianças... outro banheiro...

O últim o quarto de dorm ir no final do corredor — que o coloca na frente da casa — é usado com o gabinete. Ele contém um a enorm e escrivaninha e um sistem a de com putador, m as é m ais aconchegante do que com ercial. Um sofá gordo está debaixo da j anela com persianas, um abaj ur com vitral em cim a da escrivaninha.

Um a das duas paredes m ais longas é coberta de pinturas penduradas em fila dupla, com as m olduras quase se tocando. Em bora sej a evidente que as peças da coleção sej am de m ais de um artista, o tem a é, sem exceção, som brio e violento, realizado com habilidade im pecável: som bras torcidas, olhos separados do corpo e arregalados de terror, um quadro de Quij a sobre o qual está um tripé m anchado de sangue, palm eiras negras com o tinta com silhueta no agourento pôr-do-sol, um rosto deform ado por um espelho de parque de diversões, brilhantes lâm inas de aço de facas e tesouras afiadas, um a rua pobre onde figuras am eaçadoras espreitam do outro lado o brilho am arelo frio de lâm padas de rua, árvores desfolhadas com galhos pretos, um corvo de olhos ardentes aboletado sobre um crânio descorado, pistolas, revólveres, espingardas, um picador de gelo, um cutelo de carne, m achadinha, um m artelo com estranha m ancha tom bado obscenam ente sobre um a cam isola de seda e lençol com laços...

Ele gosta desse trabalho de arte.

Significa algo para ele.

Aquilo é a vida com o ele conhece.

Ele se afasta da parede de galeria, acende o abaj ur com vitral e se m aravilha com sua beleza lum inosa m ulticolorida.

No vidro claro que protege o tam po da escrivaninha, os círculos, ovais e gotas de lágrim as da im agem do espelho ainda são encantadores, porém m ais escuros do que quando vistos diretam ente. De algum a m aneira indefinível, eles tam bém são agourentos.

Reclinando-se para a frente, ele vê as ovais gêm eas de seus olhos fitando-o no vidro polido. Brilhando com os m inúsculos reflexos do abaj ur-m osaico, eles não parecem ser olhos de fato, m as sim sensores lum inosos de um a m áquina — ou, se são olhos, os olhos febris de algum a coisa sem alm a. Com um m ovim ento rápido, ele desvia o olhar antes que um autoexam e exagerado atraia pensam entos terríveis e conclusões intoleráveis.

— Eu preciso ser alguém — ele diz em tom nervoso.

Seu olhar recai sobre um a fotografia com m oldura de prata em cim a da escrivaninha. Um a m ulher e duas m oças pequenas. Um lindo trio. Sorrindo.

Ele pega a foto para exam inar com m ais atenção. Pressiona a ponta de um dedo contra o rosto da m ulher e desej a poder tocá-la de verdade, sentir sua pele quente e flexível. Desliza o dedo pelo vidro, tocando prim eiro a criança de cabelo louro e depois a fada de cabelo escuro.

Após um ou dois m inutos, quando se afasta da escrivaninha, está levando a foto consigo. Os três rostos são tão atraentes que ele precisa poder olhar para eles de novo sem pre que surgir a vontade.

Enquanto investiga os títulos nas lom badas dos volum es nas estantes, faz um a descoberta que lhe dá um a com preensão, ainda que incom pleta, do m otivo pelo qual foi atraído das cinzentas planícies outonais do Meio Oeste para o sol pós-Ação de Graças da Califórnia.

Em algum as das prateleiras, os livros — rom ances de m istério — eram do m esm o autor: Martin Stillwater. O sobrenom e que ele viu na caixa de correios lá fora.

Ele põe de lado o retrato com m oldura prateada e retira alguns desses rom ances das prateleiras, surpreso por ver que algum as das ilustrações das capas eram conhecidas, j á que as pinturas originais estavam penduradas na parede da galeria que tanto o fascinou. Cada título aparece num a variedade de traduções: francês, alem ão, italiano, holandês, sueco, dinam arquês, j aponês e várias outras línguas.

Mas nada é tão interessante quanto a foto do autor nas costas de cada capa. Ele as observa durante um longo tem po, seguindo as feições de Stillwater com um dedo.

Intrigado, exam ina a cópia nas sobrecapas. Depois lê a prim eira página de um livro, a prim eira página de outro e de outro.

Na frente de um dos livros, ele se depara com a página de dedicatória e lê o que está im presso: Esta obra é para minha mãe e meu pai, Jim e Alice Stillwater, que me ensinaram a ser um homem honesto — e que não podem ser culpados por eu ser capaz de pensar como um criminoso.

A m ãe e o pai. Atônito, ele olha fixo para os nom es. Não tem nenhum a lem brança deles, não pode im aginar seus rostos ou recordar onde poderiam m orar.

Ele retorna à escrivaninha para consultar o Rolodex. Descobre Jim e Alice Stillwater em Mam m oth Lakes, Califórnia. O endereço de rua nada significa para ele, que se pergunta se aquela é a casa onde cresceu.

Ele deve am ar seus pais. Ele lhes dedicou um livro. No entanto, eles são cifras para ele. O quanto se perdeu.

Ele retorna às prateleiras de livros. Abrindo a edição am ericana ou inglesa de cada título da coleção para estudar sua dedicatória, ele descobre em dado m om ento: Para Paige, minha mulher perfeita, em quem são baseados todos os meus melhores personagens femininos — exceto, claro, as psicopatas homicidas.

E dois volum es depois: Para minhas filhas, Charlotte e Emily, com a esperança de que um dia leiam este livro, quando forem crescidas e souberem que o pai desta história fala ao meu próprio coração quando fala com tanta convicção e emoção sobre seus sentimentos por suas menininhas.

Põe os livros de lado e torna a pegar a fotografia, segurando-a com am bas as m ãos num a espécie de reverência.

Com certeza a loura atraente é Paige. Um a m ulher perfeita.

As duas m eninas são Charlotte e Em ily, em bora ele não tenha nenhum m eio de saber quem é quem . Elas parecem doces e obedientes.

Paige, Charlotte, Em ily.

Pelo m enos ele encontrou sua vida. O lugar a que pertence. Aquele é seu lar. O futuro com eça agora.

Paige, Charlotte, Em ily.

Essa é a fam ília para a qual o destino o levou.

— Eu preciso ser Martin Stillwater — ele diz excitado, porque enfim encontrou seu lar nesse m undo frio e solitário.