The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-prima do Pink Floyd

Prólogo: Janeiro de 2003

 

“NÃO SINTO FALTA DE DAVE, para ser sincero com você”, disse Roger Waters

com a voz pipocando numa linha telefônica transatlântica bastante

temperamental. “Nem um pouco. Não acho que temos o suficiente em

comum para que valha a pena reacender qualquer coisa entre nós. Mas seria

bom se pudéssemos tocar os negócios sem muitos ressentimentos. Quanto

menor a animosidade, melhor.”

Ele falava dos estúdios Compass Point, o suntuoso centro de gravações

nas Bahamas impossível de se descrever, cujo livro de hóspedes está repleto

de assinaturas de músicos veteranos e de grande sucesso comercial: Rolling

Stones, Paul McCartney, Eric Clapton, Joe Cocker. Waters estava ali

temporariamente para dar a palavra final sobre uma invenção com a qual

aquela geração de músicos começava a se familiarizar: o remix 5.1 com

som surround, uma daquelas inovações que fazem com que a indústria

musical convença milhões de pessoas a comprar de novo os álbuns que já

possuem.

Não importa que The Dark Side of the Moon já tivesse sido aprimorado

na ocasião de seu vigésimo aniversário, em 1993; haviam feito outra

mixagem, e o álbum estava pronto para ser embalado com novas ilustrações

e lançado outra vez. A “Edição Superaudio CD de 30º Aniversário”

apareceria dois meses depois, apoiada numa efusão de nostalgia e dados

estatísticos que há muito fazem parte da lenda de seus autores.

O fato de estar rodeado de clichês pouco importava; as façanhas

comerciais de Dark Side ainda eram espantosas. Nas três décadas que

sucederam seu lançamento, o disco teve cerca de 30 milhões de unidades

vendidas no mundo todo. Em sua primeira incursão nas listas de álbuns

mais vendidos dos Estados Unidos, permaneceu por nada mais que 724

semanas. No país natal da banda, estimava-se que uma em cada cinco

residências possuía o álbum. Num contexto global, como a revista britânica

Q declarou, com tantas cópias vendidas, era “virtualmente impossível que

se passe um minuto sem que Dark Side toque em algum lugar do planeta”.

Naquela tarde no Compass Point, Waters dedicou algumas horas a

refletir sobre a criação do álbum e sua persistência, aparentemente eterna.

“Suspeito de que parte da razão pela qual o disco ainda está aí sejam as

sucessivas gerações de adolescentes que parecem querer sair e comprar The

Dark Side of the Moon enquanto seus hormônios principiam a ferver nas

veias, e eles começam a se rebelar contra o status quo”, disse Waters.

Indagado sobre o que o disco dizia a cada safra de novos convertidos,

não perdeu tempo: “Acho que diz: ‘É legal se ocupar da difícil tarefa de

descobrir sua própria identidade. E é bom pensar por si mesmo.’”

Como explicou, Dark Side apresentava temas universais, como morte,

insanidade, opulência, pobreza, guerra e paz. O disco também tinha

vestígios de elementos autobiográficos que se referiam à criação de Waters,

à morte de seu pai na Segunda Guerra Mundial e ao destino que acometeu

Syd Barrett, o ocasionalmente criativo líder do Pink Floyd que sucumbiu a

problemas mentais e deixou seus colegas atordoados em 1968. O que

amarrava tudo isso, diz Waters, era a idéia de que a disfunção, a loucura e

os conflitos poderiam ser reduzidos quando as pessoas redescobriam a

única característica fundamental que tinham em comum: “O potencial que

os seres humanos possuem para reconhecer a humanidade do outro, e sua

resposta a isso, com empatia, e não antipatia.”

Nesse contexto, não havia traço de ironia sobre os termos com que

descreveu o lugar do álbum na carreira do Pink Floyd. Na visão de Waters,

as já mencionadas estatísticas ocultavam a história faustiana da banda, que

com Dark Side finalmente alcançou seus objetivos, mas também deu início

ao longo processo de separação. “Nos apegamos uns aos outros por muitos

anos depois, principalmente por medo do que poderia estar além, e também

por relutarmos em matar a galinha dos ovos de ouro”, disse ele. “Mas

depois do disco nunca mais houve a mesma unidade de propósitos.

Trabalhar juntos lentamente se tornou menos agradável e mais um veículo

para minhas idéias. Tinha pouco a ver com os outros, até isso se tornar

insustentável.”

Nas palavras de Rick Wright, à época em que Dark Side foi composto,

“parecia que toda a banda trabalhava unida. Foi um período criativo.

Estávamos todos muito abertos”. Depois disso, Waters se tornou tão

autoritário que a possibilidade de qualquer esforço conjunto foi se

encerrando aos poucos.

Naturalmente, podia-se notar isso na música. A personalidade coletiva

da banda em Dark Side é atenuada – qualidade incorporada na delicada

combinação vocal de Wright e David Gilmour –, e a maioria dos

sentimentos expressos é intencionalmente universal: dentro do mar de

pronomes pessoais das letras de Waters, nenhum aparece tanto quanto

“você”. Porém, do álbum Wish You Were Here, de 1975, em diante, Waters

repetidamente desafogou as inquietações bem específicas de uma estrela do

rock cada vez mais conturbada. Sublinhando a mudança a partir do álbum

seguinte do Pink Floyd, o bilioso Animals, de 1977, os vocais de Gilmour

foram empurrados para o fundo, enquanto as inconfundíveis lamúrias de

Waters se tornaram a assinatura da banda.

Tudo isso chegou a uma conclusão em The Wall, o espetacular ciclo de

canções que se tornaram o confessionário e o show de 1979, que, ao menos

em termos financeiros, realizou proezas que nem mesmo Dark Side havia

alcançado. Para alguns, o maior feito de Dark Side é “Us and Them”, um

lamento pela eterna tendência da raça humana a se dividir em facções

opostas. Com o lançamento deste então novo projeto, que Waters ainda

acredita estar no mesmo nível dos melhores trabalhos da banda (“Acho The

Wall tão bom quanto The Dark Side of the Moon – estes são os dois grandes

álbuns que fizemos juntos”), a música do Pink Floyd sugeria o seguinte:

Roger Waters versus o resto do mundo.

Enquanto Dark Side destilava uma tocante generosidade de espírito, The

Wall era amargamente misantrópico. O primeiro combinava a melancolia

com indícios de um otimismo redentor, o último parecia incessantemente

depressivo. E se o modelo de 1973 do Pink Floyd tinha sido um esforço

coletivo genuíno, em 1979, Gilmour, Wright e Nick Mason não passavam

de meros assistentes (de fato, Wright foi demitido durante as sessões de The

Wall). Tudo chegou ao ápice com The Final Cut, de 1983 – segundo os

créditos, “Um réquiem para o sonho do pós-guerra, por Roger Waters,

executado por Pink Floyd”. Logo depois, Waters manifestou a opinião de

que, em termos criativos, a banda era “uma força esgotada”. Anunciou sua

saída e admitiu que a história deles chegara ao fim. Pelo menos um relato

desse período afirmava que as palavras de despedida de Waters a seus

colegas foram: “Seus merdas – vocês nunca vão se dar bem”.

Para surpresa de Waters – e tendo como horizonte uma grande dose de

disputa judicial –, Gilmour finalmente decidiu prolongar a vida da banda,

criando seu próprio e genuíno álbum solo, A Momentary Lapse of Reason, de 1987, recrutando em seguida Mason e Wright – este como músico

contratado, e não um parceiro em condições de igualdade – para uma turnê

mundial que fez o grupo quebrar recordes de receitas e se estabelecer como

uma atração de lotar estádios. Em 1994, lançaram o segundo disco pós-

Waters, The Division Bell, e deram início a uma imensa turnê mundial

parcialmente patrocinada pela Volkswagen. “Não vejo razão para pedirmos

desculpas por querer fazer música e ganhar dinheiro”, disse Gilmour. “É o

que fazemos. Sempre tivemos intenção de alcançar o sucesso e tudo aquilo

que o acompanha.”

Waters, observando a distância, não conseguia acreditar que o Pink

Floyd agora era um grupo que se apresentava ao vivo com uma banda de

oito músicos e cujo último álbum incluía canções creditadas a Gilmour e

sua esposa, uma jornalista e escritora inglesa chamada Polly Samson.

“Fiquei levemente irritado por eles conseguirem manter o nome”, disse em

2004. “Fiquei perturbado e um tanto desiludido porque a massa não

conseguiu ver a porra da diferença… Bom, na verdade ela vê. Estou sendo

indelicado. Existe um grande número de pessoas que consegue enxergar a

diferença, mas havia também outras muitas que não conseguiam. Mas

quando o segundo disco saiu… Bom, já tinham se tornado o Spinal Tap1

àquela altura. Letras escritas pela nova esposa. E foram mesmo! Quero

dizer, dá um tempo, porra! Qual é! E que ousadia: chamar aquilo de Pink

Floyd. Era um disco horroroso.”

E foi assim que Gilmour e Waters chegaram ao impasse que definiu suas

relações no início do século XXI. O resultado era bastante claro em 2003:

um disco parcialmente baseado no desejo de ampliar a compreensão

humana era promovido por dois homens que não se falavam há pelo menos

15 anos.

 

NA SEMANA EM QUE Waters chegou a Compass Point, David Gilmour –

durante muito tempo chamado de Dave por amigos e parceiros, antes de

começar a insistir em ser tratado pelo nome completo, a certa altura dos

anos 1990 – estava em casa, no condado inglês de Sussex, aparentemente

envolvido em negociações a distância com seu velho amigo e colega.

“Estamos em contato indireto”, explicou. “James Guthrie, nosso engenheiro

de som, está remixando o álbum. Roger ouve o disco, eu ouço o disco, e

ambos fazemos nossos comentários; graças a um intermediário, travamos

nossas pequenas batalhas sobre como achamos que deve ser. Simplesmente não falo com Roger desde 1987, ou algo assim. Nem ele demonstra que

queira falar comigo. Tudo bem.”

Gilmour respondeu a perguntas sobre The Dark Side of the Moon com

sua reserva habitual, e tudo o que dizia era muito embalado numa espécie

de modéstia planejada. O disco poderia ter figurado na lista dos nove ou dez

álbuns que de certa forma vieram a definir o que é o rock (ou talvez o que

costumava ser): Highway 61 Revisited, Revolver, Pet Sounds, The Band,

Led Zeppelin IV e outros. Continuava, sem dúvida, a levar milhares de

ouvintes ao êxtase absoluto. Mesmo assim, Gilmour ainda parecia surpreso

com o que tinha acontecido. Quando perguntavam sobre suas lembranças da

primeira audição do disco em sua totalidade, disse: “Não acho que algum de

nós tivesse qualquer dúvida de que estávamos na direção desejada e que

alcançávamos algo brilhante. Imaginávamos também que seria mais bem-

sucedido em termos de crítica e vendas que tudo que havíamos feito

antes… Sabia que estávamos subindo um degrau, mas ninguém pode prever

tamanha longevidade e um sucesso comercial dessa natureza.”

Uma vez ou outra, ele se permitia soltar uma gargalhada com relação aos

absurdos que acompanham um êxito tão grande. Havia uma gigantesca

ironia, por exemplo, no fato de Roger Waters ter planejado que as letras de

Dark Side fossem indiscutivelmente diretas e simples, apenas para ver todos

os tipos de interpretações errôneas recaírem sobre elas, o que inclui a teoria

esdrúxula, em circulação em meados dos anos 1990, de que o álbum teria

sido criado como trilha sonora secreta para O mágico de Oz. “Acho que

Roger ficou farto de ver as pessoas interpretando tudo errado”, disse

Gilmour. “Naqueles dias ele falava sempre em nos desmistificar. The Dark

Side of the Moon foi feito para isso. Para ser simples e direto. Quando as

cartas começaram a chegar aos montes, dizendo ‘isso significa determinada

coisa e aquilo quer dizer não sei o quê’, foi um deus-nos-acuda. Mas com o

passar dos anos você percebe que está preso a isso. E trinta anos depois

você tem O mágico de Oz para lhe surpreender. Alguém me mostrou uma

vez como funcionava, ou não funcionava. Como me senti? Exausto.”

Como se tornara obrigatório em suas entrevistas, Gilmour também

refletiu sobre a química criativa que certa vez definiu sua relação com

Waters e deu ímpeto à criação das melhores músicas do Pink Floyd. “Onde

Roger nos faz falta”, disse em 1994, “é no seu empenho, sua capacidade de

concentração, no brilho lírico – em muitas coisas. Mas não acho que

alguém diria que música fosse o seu forte… Ele não é um grande músico.”

Nove anos depois, conservava o mesmo discurso: “Eu tinha uma noção

muito maior de musicalidade que ele. Eu certamente conseguia cantar mais

afinado [risos]. Então funcionou muito bem.”

Nas Bahamas, Roger Waters havia furiosamente esvaziado tal idéia.

“Isto é merda! É claro que Dave precisa de um veículo para exibir o melhor

de suas habilidades na guitarra. É um ótimo guitarrista. Mas a idéia, que ele

tentou propagar ao longo dos anos, de que seria mais musical que eu é uma

besteira sem cabimento. É uma idéia absurda, mas as pessoas parecem

contentes em acreditar nisso.”

Fora isso, para o suposto e continuado aborrecimento de Waters,

Gilmour ainda era o detentor efetivo da marca Pink Floyd. A última

performance de David Gilmour sob esta bandeira foi em 29 de outubro de

1994, no ambiente carregado de eco do Earl’s Court Arena, em Londres. De

forma poética, e ignorando descaradamente a contínua ausência de seu

arquiteto-chefe, a apresentação foi construída em torno de uma versão de

The Dark Side of the Moon.

Ao falar sobre as possibilidades de novos álbuns ou apresentações do

Pink Floyd, Gilmour parecia totalmente descomprometido. “No momento, é

algo tão remoto na minha lista de prioridades que realmente não penso no

assunto. Não tenho uma boa resposta para você quanto a isso. Prefiro fazer

um álbum próprio e seguir adiante com outros projetos, por enquanto. Eu

descartaria a possibilidade? Não completamente. A gente nunca sabe aonde

a vaidade pode nos levar.”

 

EM JUNHO DE 2005 surgiram notícias tão improváveis que sem dúvida

pareciam surreais. Após um período de duas décadas de desavenças, Roger

Waters e David Gilmour anunciaram que participariam de uma reunião do

Pink Floyd no concerto londrino do Live 8, um evento organizado para

pressionar os líderes das nações mais ricas do mundo a adotar uma nova

posição diante da África. “Como a maioria das pessoas, quero fazer tudo

que possa para persuadir os líderes do G-8 a assumir grandes compromissos

para aliviar a pobreza e aumentar a ajuda ao Terceiro Mundo”, dizia a

declaração divulgada por Gilmour (que, segundo informações posteriores,

se mostrara inicialmente muito relutante em participar). “Quaisquer rixas

que Roger e a banda tiveram no passado são insignificantes nesse contexto.

Se nossa reunião para esse concerto ajudar a chamar atenção, então valerá a

pena.”

Enquanto isso, Waters divulgou um comunicado oficial que parecia uma

nota um pouco mais gozadora do que sugeria sua reputação como um dos

mais sofisticados intelectuais do rock. “É ótimo ser chamado para ajudar

Bob [Geldof] a conscientizar a população mundial com relação às questões

das dívidas e da pobreza do Terceiro Mundo. Os cínicos irão zombar. Que

se danem! Além disso, ter a oportunidade de reunir a banda, nem que seja

para algumas poucas canções, é um grande brinde.”

O retorno de Waters, ainda que temporário, parecia confirmar que o Pink

Floyd que gerou A Momentary Lapse of Reason e The Division Bell não era

o artigo genuíno, embora a declaração de Gilmour tenha vindo com um

enfoque levemente diferente: “Roger Waters se juntará ao Pink Floyd para a

apresentação no Live 8”, dizia a manchete da página oficial da banda na

internet.

O show do grupo no Hyde Park de Londres – em que tocaram

“Breathe/Breathe Reprise”, “Money”, “Wish You Were Here” e

“Comfortably Numb” – foi um deleite, imbuído de equilíbrio e beleza que

só aumentaram o impacto musical. As poucas palavras ditas à platéia

serviram para sublinhar a improbabilidade da reunião e seu papel na

labiríntica história da banda. “É realmente emocionante estar aqui com

esses três caras depois de tantos anos”, disse Waters. “De qualquer maneira,

fazemos isso por todos aqueles que não estão aqui, em particular, é claro,

por Syd.”

A apresentação levou inevitavelmente às alturas o interesse pela música

do Pink Floyd. Segundo um jornal britânico, no dia seguinte ao Live 8, as

vendas da coletânea Echoes aumentaram em 1.343%. Especulações sobre

uma reconciliação duradoura, no entanto, foram rapidamente desmentidas

(apesar de todas as maravilhas, Gilmour disse que a experiência foi tão

embaraçosa quanto “dormir com a ex-mulher”). Por ora, a história criativa

do Pink Floyd permanece selada, há muito enrijecida num panorama de

picos, vales e sucessos qualificados.

Tomando alguns exemplos ao acaso, The Piper at the Gates of Dawn, de

1967, é carinhosamente adorado por um devotado culto de fãs e descansa

sob o semitrágico termo de uma aventura artística encerrada cedo demais;

Ummagumma, de 1969, é apreciado apenas por discípulos incondicionais;

Wish You Were Here freqüentemente parece ser tão idolatrado quanto The

Dark Side of the Moon. Animals, de 1977, e Meddle, de 1971, são o tipo de

álbum que aqueles que se colocam um pouco acima do consumidor médio de discos habitualmente dizem ser subestimados e negligenciados. E

quando The Wall entra na discussão, seus defensores gritam tão

apaixonadamente que qualquer visão contrária é abafada.

Para realçar a visão de Waters sobre a história da banda, os dois álbuns

guiados por Gilmour – e na ausência de Waters – hoje são raramente

mencionados. A visão mais comum de seus méritos é que seriam

“floydilites”, uma invenção que funcionou muito bem como forma de

anunciar megaturnês milionárias, mas que dificilmente se equipara aos

melhores trabalhos da banda. Dito isso, a idéia de que a maior parte do

brilhantismo do Pink Floyd residia sobretudo na mente de Roger Waters foi

minada por sua inexpressiva carreira solo, que começou em 1984, com The

Pros and Cons of Hitchhiking – sintoma, apesar dos ocasionais vislumbres

de brilhantismo, de que ele também está destinado a navegar à mercê da

música que criou nos anos 1970.

O disco com o legado mais difícil de escapar é, sem dúvida, The Dark

Side of the Moon – um álbum cuja reputação é enriquecida pela fascinante

história de sua criação. Longe de ser gerado nas cercanias acolhedoras dos

estúdios de gravação, foi um álbum que viveu no mundo exterior bem antes

de ser registrado em fita: foi tocado durante seis meses para platéias de

cidades norte-americanas e inglesas, casas de espetáculos européias e

arenas japonesas, enquanto era editado, ampliado e aprimorado por um

grupo que sabia estar a caminho de algo importante.

Mais interessante talvez seja o fato de se tratar de um disco povoado por

fantasmas – principalmente o de Syd Barrett. Ao procurar lidar com o tema

da loucura e questionar se a suposta insanidade de alguns indivíduos

poderia ser equacionada com o nebuloso aparato emocional dos

supostamente sãos, Roger Waters certamente revisitava um dos capítulos

mais traumáticos da história do Pink Floyd, quando seu líder e principal

compositor, impulsionado pelo excessivo consumo de drogas, separou-se de

um grupo que parecia ter poucas chances de sobreviver à sua partida.

Mesmo quatro anos após a saída de Barrett, com álbuns como A Sourceful

of Secrets, Atom Heart Mother e Meddle, a banda não conseguia escapar de

sua sombra. Há algo particularmente fascinante no fato de que o álbum que

permitiu que o Pink Floyd se libertasse tenha sido parcialmente inspirado

no destino de Barrett.

À parte isso, Dark Side exibe uma música indiscutivelmente magistral.

Poucos discos contêm tantos elementos de arrepiar: o instante em que o caos inicial de “Speak to Me” subitamente dá lugar à calma lânguida de

“Breathe”; cada segundo de “The Great Gig in the Sky” e “Us and Them”;

os seis minutos que começam com “Brain Damage” e chegam ao clímax de

maneira espetacular com “Eclipse”.

Também não existem muitos exemplos de álbuns definidos por um

conceito central que tenham se tornado tão duradouros. Outros grupos

criaram ciclos de canções baseadas em lendas antigas, no crepúsculo do

Império Britânico, em distopias futuristas e messias jogadores de pinball. O

Pink Floyd, para seu reconhecimento eterno, optou por tratar de temas que,

por suas características, iriam manter sua longevidade muito depois que o

disco foi finalizado – e o elo da banda desfeito.

O fato de Dark Side ter acelerado esse processo apenas soma novos

componentes à condenada aventura. “Com aquele álbum, o Pink Floyd

alcançou seu sonho”, disse Roger Waters, enquanto a ligação telefônica

pipocava e ele se preparava para voltar ao novo remix de Dark Side. “De

certa forma, chegamos lá.”

Na Inglaterra, David Gilmour deu voz aos mesmos sentimentos: ainda

que por um único tema, ele e seu desafeto pareciam unidos. “Depois

daquele tipo de sucesso você tem de olhar tudo e considerar o que aquilo

significou para você e o que se deve esperar: chega então àquele estranho

impasse em que não se tem certeza de mais nada. É fantástico, mas ao

mesmo tempo você começa a pensar: ‘Que diabo vamos fazer agora?’”

 

1 Banda imaginária lançada por um falso documentário que levou as pessoas a acreditarem que ela realmente existia. (N.T.)

 

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