The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-prima do Pink Floyd
5. Equilibrado na maior onda: Dark side, fase três
5.
Equilibrado na maior onda: Dark side,
fase três
“ACHEI UMA IDÉIA INCRÍVEL”, diz Roger Waters. “Escrevi todas as perguntas
numa série de cartões e os arrumei em ordem determinada. Uma tonelada
de pessoas participou. Cada um lia o cartão de cima e respondia, sem que
houvesse mais ninguém na sala. Depois botava o cartão de lado e respondia
o seguinte. Assim, por exemplo, se a pergunta era: ‘Quando foi a última vez
que você foi violento?’ , a pessoa respondia; então o cartão que vinha a
seguir perguntava ‘Você tinha o direito?’. O objetivo era estimular as
pessoas a falarem de maneira a proporcionar um colorido essencial ao
disco.”
Foi quase no final das gravações de Dark Side que Waters apareceu com
um de seus esquemas mais inspirados: acentuou os temas que compunham
o conceito do álbum com vozes humanas que respondiam a perguntas que
tinham a ver com as preocupações expressas nas letras. Waters lembra de
umas 15 perguntas: para aquecer os entrevistados, as primeiras indagações
eram inócuas, como “Qual sua cor favorita?” e “Qual a comida de que mais
gosta?”, antes de se dirigirem para áreas mais delicadas. As perguntas sobre
violência eram ligadas a outras relativas à insanidade (“Já pensou que está
ficando louco?”) e à morte (“Tem medo de morrer?). A última era sobre o
disco em si: “The Dark Side of the Moon é sobre o quê, afinal?”
O elenco que a banda requisitou vinha de duas frentes: os funcionários e
ocupantes temporários de Abbey Road (“Eu agarrava as pessoas nos
corredores, quem quer que estivesse no prédio”, diz Waters) e da equipe
técnica e logística das excursões do Pink Floyd, alguns dos quais estavam
em Abbey Road para dar assistência à banda: seu road manager, Peter
Watts, a namorada dele (conhecida, por algum motivo, como Puddie), um
inglês do norte com voz áspera chamado Chris Adamson, figura conhecida
como Liverpool Bobby, e um lendário roadie1 chamado Roger “The Hat”
Manifold, cujo estilo de vida trapalhão e divertido sugeria ser um alvo
ideal.
Quando ele foi encontrado, Waters havia perdido os cartões, e por isso a
entrevista foi conduzida como um diálogo-padrão. Possivelmente
incrementada por um baseado ou dois, a conversa começou com Manifold
jovialmente estipulando os seus termos — “se eu participar dessa porra de
trabalho, espero que vá ganhar meu disco de ouro no final” —, antes que as perguntas começassem para valer. Os melhores momentos da fita,
transmitidos por um documentário radiofônico inglês em 1976, foram estes:
Roger Waters: Vamos ver… o que seria melhor, realmente… isto é, pode
ser que eu recorra a você de vez em quando. Poderia até ter que lhe fazer
uma pergunta… Mas o melhor seria realmente você falar a respeito… pois
eu já lhe disse do que se trata o disco.
Roger Manifold: Certo, mas falar pra você de que forma?
RW: Do jeito que você quiser.
RM: Aaaah…
RW: Quer que eu faça algumas perguntas?
RM: Acho que é melhor, cara.
RW: Você está na estrada há dez anos, não é? Um monte de coisas
aconteceu… Queremos saber o que você pensa a respeito de vários
assuntos…
RM: Saquei. Saquei!
RW: Como é o convívio com as bandas, a vida na estrada e o que acha
de outras coisas também.
RM: Certo.
RW: Veja, algo muito interessante, por exemplo… Qual é a sua opinião
pessoal… Por que você acha que muitas bandas se separam?
RM: Egotismo, eu diria. Bom… é principalmente pelo egotismo. Esta é
uma razão. Existem outras, cara, mas esta é a principal. Eu diria que…
bem… é a que me vem imediatamente à cabeça. Egotismo.
RW: Acho que concordo com isso.
RM: Ummmm. Quero dizer… Você deve saber como são os músicos.
RW: Como são os músicos?
RM: Bom, sabe como é, realmente eles deviam ser pessoas normais…
Mas alguém me disse certa vez que um artista de verdade tem o direito de
ser temperamental. Acho que tive o azar de conhecer todos os artistas
temperamentais dessa profissão. Ah! Eles são temperamentais, é tudo.
RW: Por que acha que são temperamentais?
RM: Por causa da natureza do trabalho que fazem.
RW: Acha que pode ser porque eles recebem muito poder?
RM: Não… definitivamente não. Eu diria que sofrem muitas pressões.
[Recebem] muitos ideais falsos… Como estamos indo?
RW: Bem.
RM: Chocante.
RW: Vou encampar um pouco disso para mim. Não se incomoda se eu
lhe repassar um pouco também?
RM: À vontade.
RW: Certo…
RM: O choque inicial passou!
RW: Ok. Foi uma resposta muito boa.
RM: Obrigado. Levo dez numa escala de um a dez?
RW: Leva.
RM: Chocante.
RW: Você leva 11 numa escala de um a dez por esta. [Acende o que
pode ou não ser um cigarro, tosse]. Certo, que mais havia a dizer? Eu lhe
digo que havia outra coisa, que [Liverpool] Bobby podia ter mencionado,
mas acho que não foi bem explicada na pergunta, então ele não chegou
realmente a falar a respeito… E se trata de uma faixa do disco sobre
violência, certo…
RM: Ah, sim. Estou por dentro.
RW: E se chama “Us and Them”, simplesmente porque quando você
está numa situação violenta existe sempre um você, que…
RM: Saquei.
RW: Certo… e existem eles. E são duas coisas muito diferentes. E uma
das perguntas que fizemos aos outros foi: qual a última vez que você deu
porrada em alguém? Por que fez isso? Acha que estava certo?
RM: Ah, sim. A última vez que dei porrada em alguém foi há bem
pouco tempo, na verdade. Eu rodava de carro para Northwood Hills, onde
meu irmão mora, e um cara na minha frente dirigia seu carro e, de repente,
parou, abriu a porta e, de onde eu estava, no meu caminhão, pude ver que
ele nem olhou pelo espelho retrovisor. Simplesmente abriu a porta, o que
me obrigou a dar uma guinada para o outro lado da rua. Por pouco não bati
num carro que vinha no sentido contrário. Então encostei e, como um bom
cavalheiro, fui até ele e disse “Ei, cara, saca só… isso não foi legal. A coisa
certa, se você vai parar o carro, você pára, mas olha no espelho e olha bem
antes de abrir a porta. Mas você não fez isso e, cara, quase custou a minha
vida.” Ele foi muito grosseiro… Na verdade, suas últimas palavras para
mim foram “seu cabeludo imbecil”. Então me senti forçado. Bom, vendo que ele era rude, eu tinha de… A retribuição estava à mão. Essa foi a última
vez que fui violento, uns três dias atrás.
Roger “The Hat” Manifold, o roadie cujas opiniões cristalizaram alguns dos temas-chave do álbum. (Acima) Gerry O’Driscoll, o zelador de Abbey Road, atraído para uma entrevista em Dark Side. (Abaixo)
RW: Acha que você tinha justificativa? Deu um soco nele…
RM: Definitivamente, sim, definitivamente. Porque quando você está
dirigindo, quero dizer, se você encontra uma pessoa que é grosseira… elas
podem até te matar. Então se você dá nelas um choque rápido, curto e
grosso, não voltam a fazer aquilo. Sacou? Quero dizer, ele se safou numa
boa, porque eu podia ter-lhe dado uma surra… Só acertei um soco! [Risos]
RW: Certo. Outra coisa que nos interessa… Tem uma faixa no álbum
sobre… ir desta para melhor.
RM: Xô… agourento!
RW: Como se sente a respeito disso? Tem medo?
RM: Da morte? Uau. O que é isso… cara, me diga. Não sei. Uma vez
tive minha cabeça lida por uma garota que estava nessa transa de astrologia.
Dei a ela minha data de nascimento e tudo mais. Você saca isso? Cara, ela
me disse para onde minha energia estava canalizada e falou que um destes
canais eram “experiências”. Assim, quando você der de cara com a morte vai ser uma nova “viagem”, não vai? Como nunca experimentei isso antes,
então vai ser legal. [Risos.] Não me chateia de maneira alguma. Vivo hoje,
morto amanhã. Sou assim. Não há com o que se preocupar. Nunca me
preocupei. É uma coisa nova, não é?
RW: Acha que um dia vai… quero dizer, quando estiver mais perto dela?
RM: Não, não… Bom, é uma coisa que nunca sai de moda, não é?
[Risos]
Além da equipe que trabalhava com o Pink Floyd, as perguntas de
Waters também foram respondidas por um número de pessoas fora do
círculo da banda. Gerry O’Driscoll, um irlandês de meia-idade que era um
dos “casacos marrons” (zeladores) de Abbey Road, contribuiu com uma
série de respostas simples e diretas que culminaram com a indagação sobre
o título do álbum: “Não existe lado escuro da Lua, na verdade. Se querem
saber, lá é tudo escuro. A única coisa que a faz parecer iluminada é o Sol.”
Alguns nomes mais famosos concordaram também em participar. O
grupo de Paul McCartney nos anos 1970, Wings, também estava em Abbey
Road, trabalhando no álbum que se chamaria Red Rose Speedway. Waters
aproveitou para agarrar o guitarrista irlandês da banda, Henry McCullough
— que respondeu às perguntas sobre violência com a lembrança de um
incidente do Ano-Novo de 1972, quando estava “bêbado demais” para saber
se tinha razão — e Paul McCartney. Na lembrança de David Gilmour, o ex-
Beatle foi evasivo demais para oferecer qualquer material satisfatório. “Era
muito esperto, muito fechado. Não queria dar nada. Nós queríamos pessoas
que fossem abertas e diretas.”
Roger Waters com os roadies Alan Stilles (esquerda) e Peter Watts (centro), cuja risada maníaca foi um perfeito acréscimo ao álbum.
Roger Waters, porém, alega que a inadequação de McCartney se baseava
inteiramente em outro problema. “Ele foi a única pessoa que achou
necessário interpretar, o que era inútil, obviamente. Achei realmente
interessante que ele fizesse aquilo. Estava tentando ser engraçado, mas não
queríamos nada daquilo.”
McCartney não foi o único entrevistado cujas contribuições foram parar
na lata de lixo da sala de edição. Alan Parsons também concordara em
participar, sentado, sem jeito ao longo das perguntas de Waters até pegar o
último cartão e ser forçado a pensar no que significavam as músicas em que
havia se ocupado durante grande parte dos últimos sete meses. “Fiz papel
de bobo”, diz ele. “A pergunta era: ‘Na sua opinião, Dark Side of the Moon
tem a ver com o quê, afinal?’ Eu realmente não tinha a menor idéia. Não dei
uma resposta suficientemente interessante para ser usada no álbum.”
O material que foi combinado com a música, porém, operou uma
espécie brilhante de magia. O tema subjacente da insanidade foi perfeitamente cristalizado pela risada maníaca de Peter Watts, pelas
palavras de Chris Adamson — “Sou louco há caralhadas de anos,
absolutamente, anos” — e por uma contribuição maravilhosamente enfática
de Gerry O’Driscoll: “Sempre fui louco. Sei que sou louco como a maioria
de nós. É muito difícil explicar por que você ficou louco, mesmo que não
seja louco.” Driscoll também se supera novamente em “The Great Gig in
the Sky”: “Não tenho medo de morrer. Qualquer hora serve. Não me
importo. Por que deveria ter medo de morrer? Não há motivo para isso.
Você tem de ir um dia.”
O lamento de “Us and Them” diante do fato de que o conflito humano é
tão comum a ponto de parecer extremamente trivial se reflete na música por
uma colagem de citações dos já mencionados Henry McCullough, Puddie,
O’Driscoll e Chris Adamson, trazida à cena no meio do fade-out de
“Money”. Seis minutos depois surge a voz de Roger Manifold: “Quero
dizer, elas podem até te matar. Então se você dá nelas um choque rápido,
curto e grosso, não voltam a fazer aquilo. Sacou? Quero dizer, ele se safou
numa boa, porque eu podia ter-lhe dado uma surra… Só acertei um soco…
Boas maneiras não custam nada, custam?”
Talvez o principal motivo por que tais momentos foram tão bem-
sucedidos resida no fato de refletirem a intenção mais importante de Roger
Waters. Ao escrever sobre os aspectos fundamentais da vida moderna e os
articular com uma ausência deliberada de artifício e afetação, pretendia
claramente resumir experiências verdadeiramente universais. Nesse sentido,
o coro de pensamentos, anedotas e declarações salpicados no disco fazem
um sentido perfeito, estendem implicitamente o seu alcance para além da
vida de quatro músicos ingleses e entram nos domínios do homem comum.
Segundo a própria avaliação de Waters, as vozes são “humanas e
verdadeiras… têm uma pungência e poder genuinamente suas”.
À ALTURA EM QUE os elementos falados foram acrescentados à música, o
Pink Floyd e Alan Parsons tinham ganho um novo cúmplice criativo. Chris
Thomas era um produtor de 26 anos que tinha entrado na profissão graças
ao respeitado George Martin, com quem trabalhara em The Beatles, mais
conhecido como “O Álbum Branco”. Além do trabalho na sala da técnica,
ele tocou mellotron na faixa “The Continuing Story of Bungalow Bill”, e
cravo em “Piggies”, de George Harrison. Depois disso, seguiu para
aperfeiçoar seu talento trabalhando com Procul Harum, antes de produzir Paris 1919, álbum admirado pela crítica que marcou um divisor de águas
para John Cale, fundador do Velvet Underground —, gravado pouco antes
da chegada de Thomas a Abbey Road.
Alan Parsons, cujas opiniões sobre as contribuições de Thomas ainda se
caracterizam por um fino traço de ressentimento, depois descreveu os
motivos por trás da sua contratação: “A banda achava que precisava de um
par de orelhas fresco… o que era provavelmente uma idéia justificada.”
Roger Waters depois afirmou que a contratação de Thomas diminuiu o
simples problema da exaustão. A banda, disse ele, havia “ficado sem
energia.” David Gilmour, em contrapartida, há muito acredita que Thomas
foi recrutado como um meio de apaziguar a divisão crucial entre ele e
Waters, baseada parcialmente no apego de Waters ao ambiente enxuto que
tanto admirara no disco John Lennon/Plastic Ono Band. “Roger e eu, como
sempre, discutíamos e brigávamos sobre como deveriam ser as coisas na
mixagem geral”, disse Gilmour mais de 30 anos depois. “Eu era a favor de
um som mais úmido, com mais eco, e de coisas como as vozes aparecendo
mais sutilmente dentro da massa da mixagem. Roger queria tudo mais seco,
mais limpo e claro.”
Abbey Road, janeiro de 1973. Richard Wright vai buscar a sobremesa de Nick Mason, e Roger Waters faz charme para a câmera.
Suas lembranças batem com as de Nick Mason: “Dave queria um pouco
mais de eco, e Roger gostava das coisas mais secas. Um dos motivos por que Dave ficou particularmente satisfeito com a idéia de usar Chris Thomas
para fazer a mixagem do álbum foi porque ele sabia que Chris gostava
daquele som com mais eco. Achou que as coisas penderiam para o seu
lado.”
Thomas, que só aumentou a confusão, afirmou depois que tais relatos
tinham pouca base na realidade: “Não havia diferença de opinião entre
eles”, disse. “Não lembro de ter ouvido Roger uma só vez dizer que queria
menos eco. Na verdade, não havia nenhum indício de que depois eles se
separariam. Era uma atmosfera muito criativa. E muito divertida.”
Qualquer que fosse a razão por trás da indicação de Thomas, Nick
Mason testemunha sobre o que realmente importava: o trabalho do novato
nas gravações assegurou que os dois lados ficassem contentes. “O legal foi
que nunca ouvi Dave ou Roger dizerem: ‘O problema é que teria ficado
melhor se houvesse um pouco mais, ou um pouco menos, de eco’. Chris
acertou na medida”, diz Mason.
A banda pode ter rapidamente apreciado o trabalho de Thomas, mas, de
início, ele ficou pelo menos um pouco desapontado com o que ouviu. The
Dark Side of the Moon, afirmou mais tarde, parecia uma admirável
coletânea de peças individuais. Thomas esperava algo mais dentro das
linhas das experimentações esparramadas e floridas em que o grupo baseara
tanto do seu trabalho pós-Syd Barrett. “O álbum anterior era o Meddle, que
tinha ‘Echoes’. Esperava que fossem explorar algo nessa linha”, refletiu
depois. “Mas Dark Side era apenas um punhado de canções. Punhado de
canções foi o que sempre fiz, por isso pensei: ‘Que bom, Pink Floyd. Vou
fazer algo fora do comum.’ Mas não era realmente o caso.”
Tendo deixado passar essa sensação de anticlímax, Thomas começou a
trabalhar. A capa do disco lhe daria um modesto crédito de “Mixagem
supervisionada por”, embora ele sempre alegasse que seu papel foi um
pouco mais amplo. “Fui chamado no final do disco, mas como produtor”,
disse. “Não foi só mixagem, foi mixagem e gravação.”
No período em que Thomas esteve no estúdio houve grandes mudanças
nas músicas que a banda havia gravado. Por exemplo: a sensação inata de
espaço do material foi desenvolvida ainda mais por momentos inspirados de
enxugamento das canções. Passagens iniciais de “Brain Damage” e “Us and
Them” eram um tanto sobrecarregadas pela uivante guitarra solo de Dave
Gilmour e pelo saxofone de Dick Parry; à medida que tais adornos foram
reduzidos, as canções assumiram um novo ar de imediatismo. Melhor ainda, o vocal em “Us and Them” foi tratado com uma batida em eco perfeita
(“Us… us… us… us… us / And them… them… them…) que servia para
sublinhar o alcance universal desses sentimentos. Nos concertos seguintes
ao lançamento do álbum, um filme acompanhando grandes massas de
londrinos deslocando-se de trem para o trabalho tornava a mensagem
explícita.
Por sugestão de Thomas, “Money” foi reforçada com o acréscimo de
outra guitarra. “Achei que era um riff tão fabuloso que sugeri que
gravassem as guitarras para injetar mais potência.”
Ele também trabalhou na criação de última hora de “Speak to Me”, a
abertura de um minuto que foi novamente trabalhada para a introdução de
Dark Side, mas que vigorava desde o início e recebeu esse nome por causa
das instruções iniciais de Roger Waters para seus entrevistados. Com alguns
elementos das canções já gravadas (os relógios de “Time”, o loop de
“Money”), também recorria a três outros sons: batidas de um coração,
simuladas por um loop a partir do bumbo de Nick Mason, que também
conduziria o álbum ao final; retalhos de falas e risadas de Gerry O’Driscoll,
Chris Adamson e Peter Watts; e um som de helicóptero — sombras do
Vietnã, talvez? — extraído do Synthi A. A peça foi creditada a Nick Mason,
que reivindicou crédito por “uma montagem que fiz com a música
existente”. Roger Waters depois defendeu que a autoria era dele e justificou
o crédito ao colega como um acesso de generosidade.
David Gilmour fotografado enquanto trabalhava em acréscimos finais, não utilizados, para “Brain Damage”.
TALVEZ O MAIS NOTÁVEL seja que foi exatamente enquanto Chris Thomas
estava em Abbey Road que a banda gravou um dos elementos mais
transcendentais de Dark Side. “The Great Gig in the Sky” ainda estava
inacabada: apresentava, assim como nas interpretações ao vivo, as vozes
cristãs que datavam da sua primeira encarnação como peça para órgão e
necessitava algo um pouco mais atraente. Não se sabe ao certo quem
sugeriu que uma cantora completasse a música. (“Não lembro de quem foi a
idéia de ter alguém uivando em ‘The Great Gig in the Sky’”, diz Waters).
Mas a sugestão de trazer uma vocalista de estúdio chamada Clare Torry —
cujos vocais também definiriam o momento climático de “Speak to Me” —
foi com certeza de Alan Parsons.
Clare Torry. Sua contribuição para “The Great Gig in the Sky” foi o golpe de mestre final em Dark Side.
“Ela havia feito um álbum de covers”, diz ele. “Recordo-me de que fez
uma versão para “Light my Fire”, mas não lembro de mais nada do disco.
Era popular na época fazer covers e colocá-los em compilações: isso foi
antes que as pessoas se dessem conta de que podiam ter as gravações
originais. Eu achava que Clare tinha uma grande voz. Quando a banda
começou a coçar a cabeça e perguntar ‘Quem é que vamos chamar?’, eu disse: ‘Tenho uma idéia. Conheço uma garota. Acho que ela seria realmente
boa para fazer isso.’”
Clare Torry, com 22 anos na época, dividia seu tempo entre o trabalho
como cantora de estúdio e os deveres de compositora contratada por um
selo chamado Valley Music. Ela tinha realmente aparecido numa
quantidade de coletâneas baseadas em covers — ao lado de cantores de
estúdios como o então ainda desconhecido Elton John —, mas não tem
nenhuma lembrança da canção mencionada por Parsons. “Não me lembro
de ter jamais cantado “Light my Fire”, diz. “E se era uma compilação, os
rapazes sempre faziam os vocais masculinos. Eram discos com versões bem
semelhantes. Uma coisa da qual nunca fui acusada é de cantar como Jim
Morrison.”
Pelo que se lembra, ela havia conhecido Parsons quando participava de
uma gravação anterior em Abbey Road.
Seja como for, Clare Torry foi convocada inicialmente em meados de
janeiro. Perguntaram se podia comparecer ao estúdio o mais rápido
possível. “Não sabia muito sobre o Pink Floyd. Conhecia ‘See Emily Play’,
mas não havia me atraído muito. Não era minha banda favorita. Se fossem
os Kinks, me sentiria nas nuvens.”
Seus outros compromissos — somados, talvez, à indiferença pelo Pink
Floyd — fizeram com que a banda tivesse de esperar ao menos uma
semana: tendo negociado um cachê de 30 libras (cerca de 50 dólares), Torry
apresentou-se em Abbey Road no começo da noite de 21 de janeiro, um
domingo.
“Não disseram muita coisa”, lembra ela. “Dave Gilmour era o único que
realmente se comunicava comigo. É a lembrança que persiste. Cheguei, e
eles falaram: ‘Estamos gravando este álbum e temos uma faixa em que não
sabemos exatamente o que fazer.’ Explicaram-me do que tratava o álbum:
nascimento, morte e tudo o que vem entre os dois. Achei uma coisa um
tanto pretensiosa, para ser franca. E disse: ‘Muito bem, toquem a música
para mim.’ Depois de ouvi-la, perguntei: ‘O que vocês querem?’ Falaram:
‘Não sabemos.’”
Na lembrança de Clare Torry, o tema da canção, a morte, não entrou na
conversa. A instrução muito genérica de Gilmour era assegurar que sua
participação fosse de certo modo “emocional”. “Eu disse: ‘Deixem-me ir ao
estúdio, colocar os fones de ouvido e fazer uma tentativa.’ Comecei no
estilo ‘Ooh-aah, baby, baby… yeah, yeah.’ Eles disseram: ‘Não, não… Se a gente quisesse isso, chamava a Doris Troy. Tente notas mais longas.’
Enquanto prosseguíamos, eu me familiarizava mais com a música. Houve
outras conversas, e me lembro de pensar: ‘Realmente, não sei o que fazer.
Talvez seja melhor eu agradecer e desistir.’ Não estávamos progredindo:
não tínhamos chegado a nada.
“Foi quando pensei: ‘Talvez eu devesse fingir que sou um instrumento.’
Então falei: ‘Rolem a fita de novo.’ Uma das minhas lembranças mais
duradouras é que havia um adorável equilíbrio no playback que ouvia pelos
fones. Alan Parsons conseguiu um maravilhoso som na minha voz: com
eco, mas não muito. Era tudo bastante envolvente, o que, para uma cantora,
traz sempre inspiração.
“Comecei a encontrar aquela seqüência de notas”, conta ela, “e eles
disseram: ‘Muito bem, esse parece o caminho certo.’ Pedi para tocarem a
fita de novo. No final da primeira tomada, Dave Gilmour disse: ‘Faça
outra… porém ainda mais emocional.’ Então gravei uma segunda tomada.
E ele disse: ‘Acho que podíamos fazer outra ainda melhor.’ Comecei e, no
meio do caminho, percebi que estava me tornando repetitiva; derivativa.
Começava a soar forçada. Então disse: ‘Acho que vocês já têm o
suficiente.’ Na verdade, achei que soava como miados de uma gata no cio.
“Creio que Rick Wright falou depois que eu estava aborrecida. E estava.
Falei ‘Muito obrigada a todos’ e me mandei. Às dez horas estava jantando
com meu namorado.”
Se o relato de Clare Torry sugere uma eficiência bem profissional, ela
também lembra que sua interpretação no estúdio foi mais que exaustiva.
“Foi extremamente cansativo”, diz ela. “Gotas de suor escorriam por meu
corpo. Eu não poderia fazer aquilo hoje: precisaria de um intervalo de meia
hora entre cada tentativa.”
Embora a reação do grupo ao que ela gravara pareça estar suavizada
pelo habitual comedimento, eles ficaram no íntimo entusiasmados. “Ela não
parecia ser capaz daquilo”, diz David Gilmour. “Tivemos de encorajá-la um
pouco. Passamos algumas dicas de dinâmica: ‘Talvez você gostasse de fazer
esta passagem mais calma e aquela outra mais alta.’ Mas ela foi fantástica.”
Seu elogio não poderia ser mais justo. A contribuição de Clare Torry
vingou gloriosamente onde os efeitos de fita com falas e as gravações de
Parson da Nasa tinham até então fracassado. Explorava o drama tumultuoso
a que o grupo aspirava — o que não diminuiu quando ela emitiu uivos que
poderiam ser interpretados como orgásticos, ou aterrorizantes (ou ambos). A questão de semanas para que Dark Side fosse prensado, ela havia
contribuído com o último trunfo que faltava ao disco.
Ao se afastar a pé de Abbey Road, porém, Torry supôs que sua gravação
seria rejeitada. “Parecia esganiçada”, diz ela. “Achei realmente que ela
nunca veria a luz do dia.”
Desde 1968, as sessões de gravação do Pink Floyd abrigavam um ritual
recorrente: Storm Thorgeson e Aubrey Powell (também conhecido como
Po) iam ao estúdio se colocar a par das maravilhas planejadas para o
próximo álbum da banda e a partir daí começar o trabalho de arte da capa
que acompanharia o disco. A informação que recebiam era acrescentada a
uma rede de idéias que era constantemente aumentada e atualizada. Na
lembrança de Powell, os velhos companheiros de Cambridge do Pink Floyd
eram criativamente tão hiperativos como a banda. “Eu acabava sendo o cara
que fazia a parte dos negócios e da fotografia. Storm, sem nenhuma
discussão, era o principal designer. Tinha um grande talento para imagens e
design; eu trabalhava na execução da idéia, o estilo para o seu conteúdo.
“A Hipgnosis funcionava assim: geralmente, trabalhávamos o dia inteiro
no estúdio e, duas vezes por semana, nos encontrávamos às nove horas da
noite e trabalhávamos até as três da manhã, encarando uma maratona de
idéias. Talvez só Storm e eu, às vezes alguns amigos se juntavam a nós, ou
o cara da gráfica que fazia a nossa impressão também podia estar lá.
Sentávamos e digeríamos a informação por um momento: ‘Há um álbum
novo do Pink Floyd para sair. Temos algumas letras aqui. O que acham?’
“Nick Mason e Roger Waters eram os mais sintonizados com o que
fazíamos”, ele continua. “Estavam sempre atentos. Nick sempre tinha
comentários bem-humorados sobre as coisas e Roger era muito direto sobre
o que achava que iria funcionar. Mas nunca mudaram nenhum dos nossos
designs. Nunca havia sugestões do tipo ‘Você não podia colocar uma casa
suburbana atrás da vaca?’ Eram muito bons em saber delegar esse trabalho
para nós.”
Embora a banda permitisse numa boa que Thorgeson e Powell tivessem
algo próximo da autonomia artística, os designs que elaboravam capas para
o Pink Floyd geralmente incorriam na ira certa das mentalidades mais
convencionais da gravadora da banda. No início dos anos 1970, a idéia de
que capas de disco podiam também se impor como exemplos de arte de
qualidade ganhava rapidamente terreno, mas uma grande parte do pessoal
da EMI em Londres esperava desenhos de capa que simplesmente ajudassem a vender o disco que vinha dentro. A vaca solitária na frente de
Atom Heart Mother, portanto, não causou pouca inquietação. “A gravadora
ficou apoplética”, diz Powell. “A reação foi ‘Que porra é essa?’ Não
conseguiam compreender que era algo original e diferente.”
“Havia um cara chamado Ron Dunton: sujeito grande, gordo e jovial que
era encarregado do departamento de capas de álbuns. E sempre que alguém
ia lhe apresentar algo, ele dizia: ‘E como você descreveria isso? Que coisa é
essa?’ Ele odiava o Storm e a mim. ‘Onde estão os dizeres? Que quer dizer,
não vai haver nada escrito na capa? É melhor eu falar com alguém da
direção a respeito disso.’ Mas como éramos empregados pela banda,
tínhamos poder. Era maravilhoso ficar na minha e dizer: ‘Vai ser isso aí
mesmo.’”
Se uma visão retrospectiva mostra Ron Dunton como o incurável careta
opositor dos designs que se tornariam ícones, não se pode desconsiderar
que, mesmo intencionalmente, às vezes alguns trabalhos da Hipgnosis
ficavam um pouco abstratos demais. O período imediatamente anterior a
The Dark Side of the Moon ofereceu dois exemplos perfeitos: a arte de capa
de Obscured by Clouds, uma fotografia indecifrável de um personagem
masculino do filme de Barbet Schroeder; e a imagem que adornava Meddle
— uma orelha humana coberta por gotículas de água. “A água é variável e
ainda assim controlável”, explicou Thorgeson, lembrando tempos depois.
“A água se deixa iluminar muito bem. É evocativa, serena, misteriosa,
poderosa.”
Roger Waters e David Gilmour compartilham suas idéias com Storm Thorgeson, principal designer da Hipgnosis.
Aubrey “Po” Powell nos bastidores em Birmingham, na Inglaterra, com Waters e Gilmour.
Powell, no entanto, tinha uma opinião muito mais negativa. “Meddle foi
uma mixórdia. Odiei aquela capa. Não acho que fizemos justiça ao grupo
nessa ocasião, absolutamente. É um trabalho sem convicção.”
Na época, ele julgava que suas frustrações também eram compartilhadas
pela banda. “Acho que era o tipo de coisa da qual queriam se afastar.
Acredito também que alguma coisa lhes foi soprado no ouvido pela
gravadora e sua direção.”
No início de 1973, portanto, era imperativo para o Pink Floyd escapar
finalmente das sombras da era Syd Barrett, por isso Thorgeson e Powell
tinham a sensação de que era hora de um lance maior e definitivo. “O Pink
Floyd se tornaria uma banda medíocre se continuasse a fazer as coisas que
havia feito no passado…. Porque, é preciso lembrar, a onda hippie estava
começando a passar àquela altura”, diz Powell. “Tinham que partir para
algum lugar ou sair de cena. Era crucial que algo saísse do álbum. O mesmo
se aplicava ao design.”
O que se fazia necessário foi rapidamente cristalizado numa instrução de
uma fonte deveras improvável: Rick Wright disse a Powell e Thorgeson que
eles deveriam tentar uma coisa “mais esperta, mais enxuta — com mais
classe”.
AUBREY POWELL E STORM THORGESON puseram-se a pensar sobre o tipo de
tema que poderia ilustrar o design. “Tive várias conversas com a banda
sobre o que eles queriam na capa”, lembra Thorgeson. “Roger explicou o
lance intelectual da música; o tema da loucura. A maluquice do rock ‘n’ roll
e a loucura em geral.”
“Quando The Dark Side of the Moon era mencionado,” diz Aubrey
Powell, “isso sempre se dava no contexto do fundo da mente; algo a ver
com o desconhecido. Porque na época o lado escuro da Lua não era
conhecido. Sempre fora considerado uma metáfora para o outro lado da
loucura. Para mim, isso sempre esteve claro.”
O que Thorgeson e Powell criaram, porém, tinha uma ligação muito
tênue, quando não inexistente, com tais preocupações. A imagem de um
prisma estava em suas cabeças havia muito tempo, graças — na lembrança
de Powell, pelo menos — a um livro que Thorgeson trouxera para uma das
sessões de maratona intelectual deles. “Nas reuniões que fazíamos, Storm
sempre trazia montes de livros. Freqüentemente separávamos imagens para
idéias iniciais. Um dos livros que tínhamos, publicado nos anos 1940 ou 1950, estava cheio de fotos em preto-e-branco e uma ou duas em cores.
Uma das imagens era de um prisma de vidro, pousado sobre uma partitura
de música, sendo atravessado por uma luz. E do outro lado dele, através da
partitura, estava o espectro. Lembro-me de Storm ter dito ‘Não é uma
imagem fabulosa?’ Um design prismático da Hipgnosis foi logo proposto
para ser o logotipo de um novo selo de discos britânico chamado Clearlight,
mas não deu em nada.”
Quando a idéia foi reavivada e aplicada ao disco que seria lançado pelo
Pink Floyd, Thorgeson alegou que via todo tipo de conexão. “Representava
tanto a diversidade como a clareza do som da música. De maneira mais
consciente, trabalhava a favor de uma banda com reputação por seus shows
de luzes.”
Havia também idéias mais conceituais em jogo. “O triângulo é um
símbolo da ambição, um dos temas com que Roger se preocupava…. Havia
várias idéias convergindo ao mesmo tempo.”
Além da relevância para o grupo, Aubrey Powell enxergava uma vaga
ligação com o público. “As cores do arco-íris eram de longe as preferidas
da nação hippie”, diz ele. “A banda não era de hippies àquela altura, mas
aquilo era definitivamente característico do tipo de pessoa que comprava os
discos do Pink Floyd. Acho que a idéia de um ponto singular refratando-se
naquelas belas cores era também simbólico: de um grupo único saíam todas
aquelas cores multíplices.”
Apesar das forças da imagem do prisma, num esboço em cartolinas
pretas com faixas de papel colorido, Thorgeson e Powell ofereceram ao
grupo uma variedade de idéias, com dez opções de design. A maioria delas
se perdeu para a história. “A única coisa de que lembro é que nenhuma
delas envolvia a Lua”, diz Powell. “Acho que falamos de queijo por algum
tempo, mas não passou da prancheta.”
Trinta e três anos depois, ele só se recorda de uma idéia alternativa: uma
capa construída em torno do personagem dos quadrinhos Marvel, o Surfista
Prateado, ecoando de certo modo a presença do Dr. Estranho em A
Saucerful of Secrets. “Todos nós curtíamos os quadrinhos da Marvel e o
Surfista Prateado parecia outra imagem fantástica e singular. Nunca
teríamos permissão para usá-lo. Mas gostávamos da imagem de um homem
prateado, numa prancha prateada, deslizando pelo Universo. Tinha
propriedades místicas e míticas.” Ele ri e acrescenta: “Muito cósmico,
cara.”
As várias alternativas foram finalmente apresentadas à banda. “Foi em
Abbey Road”, conta Powell. “Havia uma certa atmosfera, eu lembro. O
ambiente estava à meia-luz. Storm e eu colocamos as artes, esboços em
30x30 cm, em torno dos instrumentos. Roger bateu o olho no desenho do
prisma e disse: ‘É este.’ Nick imediatamente fez a mesma escolha, seguido
por Dave e Rick.”
“Não sei bem por que aquela tinha tudo a ver”, diz David Gilmour.
“Quando Storm mostrou-nos todas as idéias, não havia dúvida: era aquela.
Uma capa brilhante. A gente podia olhar para ela depois daquele primeiro
momento de brilho e pensar: ‘Ora, é uma idéia muito comercial: é muito
seca e simples; vai ficar ótima nas vitrines das lojas.’ Não era uma bela foto
de quatro garotos saltitando pelos campos. Aquele fato não nos escapou.”
Não houve arte original para The Dark Side of the Moon. O desenho do
prisma — executado por um funcionário da Hipgnosis chamado George
Hardie — foi rascunhado numa série de instruções para os impressores da
EMI, que trataram a capa com uma “camada mecânica de tinta”. “Não foi
nada difícil de criar”, diz Aubrey Powell. “Na verdade, eu era contra.
Porque, sendo um cara voltado para a fotografia, queria fotografar o prisma
e fazer a coisa para valer. Parecia algo frio, quase sem espírito. Mas me
venceram no grito.”
À medida que a idéia progredia, as mentalidades geralmente bolorentas
da gravadora informaram à banda que talvez ela tivesse mais dinheiro
disponível. Roger Waters pôde assim, sutilmente, fazer uma emenda no
plano da Hipgnosis, o que permitiu a inclusão de um elemento que viria
refletir o som de abertura e de fechamento do álbum. “No começo”, diz
Waters, “era apenas uma capa quadrada. Depois a companhia nos falou que
pagaria por uma capa dupla. Então eu disse: ‘Por que não fazemos as cores
correrem no meio e botamos a imagem de uma batida cardíaca atravessando
a parte interna?’ E foi o que ficou.”
Por sugestão de Storm Thorgeson, outro desenho de prisma foi
acrescentado à contracapa e permitiu uma imagem circular, na qual a luz
entrava por um prisma e se dividia no espectro, depois penetrava em outro
prisma, tornava-se um raio único de novo, e assim por diante. Thorgeson
rapidamente percebeu que a idéia permitiria que as lojas de discos criassem
mostras contínuas, simplesmente colocando a capa, o interior da capa dupla
e a contracapa lado a lado. “Que arranjo fabuloso, estendido por toda a
vitrine, até o interior da loja e saindo pela porta para a rua”, ele escreveu em 1997, no seu livro de memórias e portfólio, Mind over Matter. “Todo esse
raciocínio comercial concentrado não nos levou a lugar algum. Nunca vi
esse atributo ser utilizado na venda e na promoção de The Dark Side of the
Moon.”
Em matéria de vendagem, porém, a Hipgnosis bolou um outro esquema.
The Dark Side of the Moon viria acompanhado de pequenos adesivos com
imagens, em estilo cartum, de pirâmides egípcias e uma lua vermelha, além
de dois pôsteres. Um deles se basearia em diversas fotos da banda tocando
ao vivo, e o outro traria monumentos egípcios captados em filme
infravermelho. Esta última idéia, para deleite de Thorgeson e Powell,
implicava uma viagem ao exterior: em vez de procurar imagens adequadas
num arquivo fotográfico, estavam muito empenhados em tirar suas próprias
fotos.
Assim, Aubrey Powell e Storm Thorgeson — acompanhado da
namorada, Libby, e do filho deles, Bill — viajaram ao Egito. “Foi muito
estranho”, contou ele. “Naquela época não havia uma grande indústria
turística no Egito. Era preciso alugar um carro velho e surrado, rodar até as
pirâmides e escolher uma ou duas pessoas estranhas com camelos em troca
de algum dinheiro para que servissem de guia…. Sempre me lembro de que
fui para lá de noite. Fazia um frio terrível, e a Lua estava visível. Era
realmente sinistro. Não havia absolutamente ninguém no lugar.
The Dark Side of the Moon era vendido com pequenos adesivos.
“Nos dois primeiros dias e noites, Storm e eu fomos até lá e tiramos
centenas de fotografias de todos os ângulos. De perto, de longe, com
diferentes luzes, com infravermelho, em preto-e-branco, em cores. No
segundo dia, subitamente fui acometido por uma das piores diarréias que se
pode imaginar. O Nilo escorria pelo meu rabo. Então tive de ficar para trás
naquela noite e Storm foi lá sozinho e fez as fotos em infravermelho que
foram usadas nos pôsteres.”
A doença de Powell também atacou a namorada e o filho de Thorgeson,
o que significa que este enfrentou o resto da missão só. “Acabei sozinho no
meio da noite, parado diante das aterradoras pirâmides sob a Lua cheia,
nenhuma alma nas imediações. Estava cagando de medo”, ele escreveu em
Mind over Matter. “Então, na calada da noite, três figuras se
aproximaram… três soldados árabes com armas. Todos os meus medos
xenófobos estereotipados vieram rapidamente à minha cabeça. Eu podia ver
as manchetes: ‘Com a garganta cortada de orelha a orelha, jovem fotógrafo
é encontrado no deserto, seviciado até a morte, espancado e torturado…’ Os
soldados foram, naturalmente, muito amistosos e me informaram que estava
em território militar egípcio e deveria pensar em partir para casa
imediatamente. Mas eu precisava continuar tirando aquelas fotos…. Um pouco de dinheiro resolveu, e eles se foram, resmungando algo sobre esses
ingleses malucos.”
De volta aos limites mais seguros de Abbey Road, o trabalho em The
Dark Side of the Moon chegou ao fim em 19 de fevereiro de 1973. Pelos
padrões modernos, foi a conclusão de um processo penoso em que os vários
elementos da música deviam ser manualmente trabalhados enquanto as
transições entre cada canção tinham as arestas aparadas e eram
arredondadas e suavizadas. Não à toa, David Gilmour comentou depois que
“uma mixagem naqueles dias era uma atividade quase tão dura como
encarar um concerto”. Acima de tudo, levando em conta que o Pink Floyd
atuava na era do vinil, Dark Side tinha de ser secionado nos lados A e B: a
divisão crucial caía no final de “The Great Gig in the Sky” e deixava o loop
de “Money” para abrir o segundo lado do disco.
Em conformidade com os motivos para a sua contratação, a
responsabilidade pela mixagem final cabia principalmente a Chris Thomas,
que, na lembrança de David Gilmour, cumpriu a tarefa com sucesso e
administrou as tensões entre ele e Roger Waters (“Thomas nos ajudou a
encontrar uma conciliação entre a minha visão das coisas e a de Roger.”)
Até certo ponto, um meio-termo entre a suposta preferência de Gilmour por
um som “molhado”, carregado de ecos, e o gosto mais austero de Waters
definiu o som da versão final do disco: as dimensões aurais de Dark Side
foram incrementadas pelo magistral uso da reverberação por Chris Thomas,
mas a economia musical exibida — corporificada pelo senso inato de
comedimento da banda e pelo enxugamento que Thomas fez em faixas
como “Us and Them” e “Brain Damage” — o impediu de assumir qualquer
espécie de grandiosidade. The Dark Side of the Moon era, assim, ao mesmo
tempo impressionante e acessível; o tipo de combinação que uma grande
quantidade de grupos de rock ambiciosos havia tentado, mas nunca chegara
a alcançar.
“Não tenho certeza de que estávamos lá para a mixagem final do disco”,
diz Roger Waters. “Parece esquisito hoje; não posso imaginar não me
envolver. Acho que teve a ver simplesmente com o cansaço. Ou talvez
Dave e eu já tivéssemos começado a brigar em relação a quase tudo, e
coubera a um terceiro arrumar a situação. E Chris Thomas a ajeitou mesmo.
Fez um disco com um som muito suave. Fiquei feliz com o resultado? É.
Lembro de ouvir e pensar: ‘Céus, ficou realmente bom.’”
Storm Thorgeson viajou ao Egito para sacar o clima das pirâmides.
David Gilmour, porém, alega ter demonstrado maior admiração:
“Lembro-me claramente do momento: sentei-me, ouvi toda a mixagem do
começo ao fim pensando: ‘Meu Deus… fizemos algo realmente
fantástico.’”
Roger Waters conseguiu que uma cópia da mixagem final fosse
reproduzida em seu próprio rolo de fita, que levou para casa no norte de
Londres. “Minha lembrança mais forte de ouvi-la”, diz ele, “foi quando eu a
toquei para Judy, minha mulher na época. Ela ouviu tudo do começo ao fim
e, quando terminou, caiu em lágrimas. Ficou muito comovida com a
música. Pensei: ‘É um ótimo sinal. Decididamente, temos algo aqui.’”
1 Os roadies são os responsáveis por transportar e montar os equipamentos das bandas quando estão “na estrada”. (N.T.)
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