The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-prima do Pink Floyd
3. E se a sua banda começa a tocar em tons diferentes: The Dark Side of the Moon nasce
3.
E se a sua banda começa a tocar em
tons diferentes: The Dark Side of the
Moon nasce
A INDÚSTRIA DA MÚSICA moderna há algum tempo estabeleceu um ciclo
criativo para as bandas de rock de sucesso: espera-se que lancem álbuns a
cada dois ou três anos, seguidos por turnês e pequenos trabalhos
promocionais, e — quando necessário — períodos de recuperação
conhecidos como “fase de manutenção”. Em 1971, contudo, o ritmo de vida
dos músicos era bem mais frenético. Embora o furor hiperativo da primeira
metade dos anos 1960, quando os Beatles e os Rolling Stones lançavam
obrigatoriamente dois álbuns a cada doze meses, tivesse ficado para trás,
ainda se esperava que as bandas de rock lançassem uma nova coleção de
canções todos os anos. Além disso, a pressão para apresentações ao vivo
raramente esmaecia. Os admiradores de Bob Dylan podem ter proclamado
que ele inventou a Never Tour1 no final dos anos 1980, mas duas décadas
antes, uma agenda de concertos que parecia eterna fazia parte das vidas das
bandas de rock.
Em dezembro de 1971, o Pink Floyd era um perfeito exemplo do caso.
Menos de um mês após o lançamento de Meddle, o grupo se reuniu em
Broadhurst Gardens, a noroeste de Londres, para passar algum tempo num
de seus principais estúdios de ensaio. Às vésperas de uma turnê pela Grã-
Bretanha com 17 apresentações programadas para o novo ano, seguidas por
viagens ao Japão e aos Estados Unidos, a banda estava desesperada para
acrescentar material novo ao seu repertório. O Pink Floyd continuava a
recorrer a antigos sucessos como “Set the Controls for the Heart of the
Sun”, “Careful with that Axe, Eugene” e “A Saucerful of Secrets”. Até o
eternamente otimista Nick Mason não escapava à sensação de inércia:
estava, segundo disse a um jornalista britânico, “morrendo de tédio”.
Havia também a fantasmagórica perspectiva de gravar um novo álbum,
embora, naquele momento, a renovação do repertório de shows fosse a
prioridade. “Na época”, diz David Gilmour, “as turnês eram agendadas. E
antigamente elas não eram veículos promocionais, mas entidades com vida
própria. Não sei se realmente precisávamos de novas canções, mas é sempre
bom ter algo novo a fazer. A gênese desse material ocorria quando nos
juntávamos em um bom lugar para os ensaios e começávamos a botar idéias
para fora.”
Há muito o Pink Floyd havia conquistado a reputação de ser um grupo
cuja criatividade era estimulada de forma recorrente pela tecnologia
disponível no estúdio. Mesmo assim, a feliz experiência de “Echoes”
provou que sua música muitas vezes era mais bem trabalhada quando
incansavelmente tocada ao vivo num estúdio. E assim foi provado, ainda
que o trabalho inicial em Broadhurst Gardens caísse em alguns momentos
num torpor sem rumo. “Não sei ao certo o quanto compusemos ali”, disse
Roger Waters. “Era algo do tipo: ‘vamos tocar mi menor e lá por uma hora’.
‘Ah, tudo bem, isto vai dar para preencher uns cinco minutos.’”
Como muitas vezes fazia, a banda começou a análise do material que se
acumulara ao longo dos 18 meses anteriores — “examinando a coleção de
besteiras”, confessa David Gilmour. Em alguns casos, era apenas uma
questão de tirar o pó de fragmentos de música que permaneceram inativos,
como “The Violent Sequence”, a peça de piano escrita por Rick Wright que
Michelangelo Antonioni rejeitara para Zabriskie Point. A composição
incrivelmente serena de Wright foi radicalmente desacelerada e fundida,
sobretudo nas partes centrais, com um novo vigor: “Ela é bem harmônica e
graciosa se você prestar atenção ao refrão”, refletiu ele mais tarde. “Depois
há o contraste, um outro refrão grande e mais pesado.”
De maneira similar, a banda também voltou a uma seqüência de acordes
criada por Wright — tocada em som de órgão de igreja — que foi testada
como um interlúdio instrumental conhecido tanto como “Religious Theme”
quanto por “Mortality Sequence”.
Em outros casos, o material então mais recente foi usado como ponto de
partida, e não como fonte musical. O refrão de abertura de “Breathe” veio
de uma trilha sonora homônima que Roger Waters e Ron Geesin haviam
usado para The Body e apresenta um olhar popularesco sobre o problema da
poluição atmosférica. A nova configuração da música era a jam mencionada
anteriormente por Waters, baseada em acordes que podem ou não ter sido
surrupiados de “Down by the River”, de Neil Young, lançada em julho de
1969 (tocadas uma após a outra, a semelhança entre elas é engraçada). O
refrão, porém, foi fundamentado numa seqüência de acordes descendentes
— obra de Rick Wright — que levava a canção a outro lugar,
completamente diferente, em parte graças ao inspirado uso de um acorde
suspenso de piano tirado de Kind of Blue, de Miles Davis.
Inevitavelmente, à medida que os ensaios avançavam, composições
completamente originais foram sendo adicionadas aos trabalhos inacabados da banda. “Time” nasceu de uma fita demo caseira de Roger Waters, tocada
num violão desafinado. Mas quando exposta à banda, ganhou nova vida a
partir de uma cisão no arranjo entre versos dolorosos e deprimidos, uma
seção intermediária em atmosfera onírica e o uso de um conjunto de ratatãs:
tambores compactos, afinados com notas específicas usadas de maneira
brilhante por Nick Mason na introdução da música. A improvisação de
Waters sobre um riff cíclico de sete notas levou a outra demo caseira:
“Money”, inicialmente uma espécie aguda de blues acústico, transformada
depois, sobretudo por causa da contribuição de David Gilmour, numa
incomum e modernizada canção de rhythm & blues.
“Em The Dark Side of the Moon, todos tentávamos fazer o máximo que
podíamos”, diz Roger Waters. “Era algo bem comunitário. Qual é aquela
velha máxima marxista? ‘De cada um segundo suas capacidades; cada um
de acordo com suas necessidades’. Era mais ou menos assim que a banda
trabalhava naquela época.”
SE AS NOVAS CANÇÕES indicavam uma ruptura artística, o divisor de águas
decisivo veio quando Waters, retornando a seu apego a esquemas
grandiosos que definiram “Atom Heart Mother” e “Echoes”, surgiu com
uma sugestão surpreendente: por que não trabalhar as letras em torno de um
único tema? O projeto teve dois efeitos interligados: músicas em que já
haviam trabalhado repentinamente ganharam coerência, e Waters se
inspirou para escrever ainda um novo material.
“Suspeito de que a idéia geral veio antes que eu tivesse escrito muitas
das letras”, ele diz. “Recordo-me de explicá-la ao resto da banda. Nick
Mason tinha uma casa em St. Augustine’s Road, em Camden Town.
Lembro que estava sentado em sua cozinha, explicando a idéia; o álbum
inteiro poderia ser sobre pressões e preocupações que nos desviam de nosso
potencial para as atividades positivas, se quiser ver a coisa dessa maneira.”
Com as vantagens de falar depois que as coisas aconteceram, Waters
resumiu o tema como “uma expressão de empatia política, filosófica e
humanitária desesperada para se libertar”.
Explicações posteriores do conceito de Waters permanecem igualmente
vagas, questão pouco auxiliada pelas opiniões variadas de seus colegas a
respeito do que ele queria dizer. “Era a loucura, suponho; para expressar de
maneira sucinta”, fala David Gilmour. “As pressões da vida moderna e todos os elementos pelos quais a gente passa e que conspiram para tornar
algumas pessoas insanas.”
Na compreensão de Nick Mason, “o conceito original era sobre as
pressões da vida contemporânea: viagens, dinheiro e por aí vai. Mas depois
Roger o transformou numa meditação sobre a loucura”.
Rick Wright, enquanto isso, via o núcleo das letras de Waters como um
tratado “sobre negócios”, coberto de referências à vida de uma banda de
rock.
Ao explicar o que pretendia insinuar, o próprio Waters freqüentemente
se mostrava loquaz, embora não exatamente claro. “Se há uma mensagem
central”, disse em 2003, “é esta: a vida não é um ensaio. Pelo que sabemos,
você só tem uma chance e deve fazer suas escolhas baseado em qualquer
posição moral, filosófica ou política que vier a adotar… Você faz escolhas
durante sua vida, e elas são influenciadas por considerações políticas, por
dinheiro e pelo lado obscuro de nossas essências. Você tem, de certa forma,
a chance, por menor que seja, de tornar o mundo um lugar mais alegre ou
mais sombrio. Todos temos a oportunidade de transcender as tendências a
sermos complicados, cruéis e gananciosos. Todos fazemos uma pequena
marca na pintura da vida.”
O que juntou as canções do início de 1972, disse ele, foi “uma exortação
para tomar parte no fluxo da história natural, … para abraçar o positivo e
rejeitar o negativo”.
A justificativa soma-se a um leve e prolixo conjunto de metáforas
confusas e chavões vagos. Ainda assim, não é difícil avaliar as diversas
declarações de Waters sobre seu esquema grandioso e destacar um núcleo
central. O então novo ciclo de canções do Pink Floyd parecia se basear na
velha idéia do underground dos anos 1960, que afirmava que as doenças da
humanidade eram refletidas em vidas individuais que haviam se tornado —
para usar a frase de Richard Neville — “atormentadas, cinzentas, tolas e
envoltas em trivialidades”. Ao elevar as invenções humanas, como tempo e
dinheiro, a um plano em que elas acabaram por nos controlar, perdemos
nosso conceito do que é ser humano — empáticos, compassivos, sociáveis
—, e chegamos a uma maneira tão corrompida de pensar que a loucura
estava próxima de se tornar uma conseqüência lógica. Para evitar esse
destino, havia uma saída: nas palavras de Roger Waters, voltar para “uma
espécie de ser gestalt — o rebelde ou a criança dentro de todos nós — que
incorpora o que é valioso em nós, em nossa inocência, quando somos concebidos, e o que se torna subvertido com a vida”. Nesse sentido, os
versos de abertura da música eram uma espécie de manifesto compacto:
“Breathe, breathe in the air / Don’t be afraid to care.”2
Uma parte dessas questões começara a aflorar nas entrevistas de Waters
nos dois anos anteriores. “Tenho medo das pessoas”, disse ele em agosto de
1970. “Não acho que conheça alguém que não tenha medo de outras
pessoas. Todos sabem que, ao baixar sua guarda, alguém vai em cima de
você. Eu me vejo fazendo isso o tempo todo e me arrependo depois….
Ainda nem comecei a descobrir como me relacionar com o resto do mundo
e com os outros, o que fazer com eles.”
Três meses depois, Waters foi indagado sobre a origem da obsessão do
Ocidente com o sucesso e os ganhos materiais. “O interessante da questão é
saber se nascemos com isso ou não”, respondeu. “Se não, significa que isso
nos é imposto pelo sistema.” Ele questionava se havia uma perspectiva para
um modo de vida mais iluminado, antes de concluir, desoladamente, que era
“impossível em nossa sociedade, pois somos bombardeados com as
aquisições pessoais”.
Embora o pensamento temático de Waters fosse um tanto incompleto,
um aspecto do material que o Pink Floyd acabara de criar não deixava
dúvidas: dentro do conceito e das canções concebidas se escondia toda sorte
de entranhas autobiográficas. A idéia básica de que a era industrial afastou
os homens de seus atributos inatos, por exemplo, contribuiu para uma
abordagem reducionista do conceito marxista de alienação3 — um artigo de
fé no comunismo que fora abraçado pela mãe e pelo pai de Waters e coloriu
sua formação. Mais especificamente, à crítica à tirania do dinheiro sujo em
“Money” podia certamente se ligar crenças levemente ascéticas que herdara
dos pais.
Além disso tudo, Mary Waters também inspirou a letra de “Time”,
graças à sua própria maneira alienada de pensar. “Eu tinha 29 anos em
1972”, diz Waters, “e foi um momento muito poderoso na minha vida.
Repentinamente me veio: ‘Puta que pariu, é isso!’ Eu ainda não tinha
entendido, por causa da família em que nasci. Minha criação foi toda
baseada em ‘Você vai querer arranjar um bom emprego para não ficar
entediado e vai desejar constituir uma família. Então, precisa se preparar,
deve ter uma educação decente e fazer isso e aquilo’. Minha mãe falava
desse jeito. Tudo sempre era dirigido para uma preparação para a vida real
que iria começar em algum ponto da estrada. Foi um grande choque descobrir que não estava me preparando para nada. Estava bem no meio da
coisa, e sempre estivera.”
Eric Fletcher Waters, enquanto isso, fez uma aparição em “Us and
Them”, a deslumbrante canção que Waters e Wright extraíram de “The
Violent Sequence”. De acordo com Waters, os segundo e terceiro versos
lidavam respectivamente com “direitos civis, racismo e preconceito de cor”,
e “passar por um mendigo na rua e não ajudar”. No entanto, mais cruciais
eram as estrofes de abertura que falavam sobre “ir à guerra — como, na
linha de frente, não temos muita chance de nos comunicar porque outro
alguém decidiu que não deveríamos”. “Forward he cried from the rear /
And the front rank died”, dizia a letra, “and the General sat / As the lines on
the map moved from side to side”.4 Nesta parte, ao que parece, Waters
buscava transportar o ouvinte de volta a Anzio, em janeiro de 1944.
Como Rick Wright havia pressentido, pelo menos algumas das letras de
Waters estavam enraizadas num local um pouco mais efêmero: a existência
de um grupo de rock na ativa, repleto de tentações contínuas e ansiedades.
Esses elementos não se encaixavam bem com as preocupações mais
filosóficas de Waters, mas representaram alguns dos momentos mais
comoventes das músicas. A reprise de “Breathe”, por exemplo, falava da
exaustão dos músicos voltando extenuados de mais uma turnê: “Home,
home again / I like to be here when I can”.5 “Money”, por sua vez,
satirizava as pretensões dos milionários do rock: “I’m in the high-fidelity
first-class traveling set / And I think I need a Lear Jet.”6 A seu próprio
modo, a letra fornecia uma visão irônica sobre algo que Waters dissera na
época da gravação de Meddle: “Acho que é um grande perigo se envolver
nesse negócio de carros esporte. É tudo muito traiçoeiro e difícil, e temos
grandes discussões na banda sobre isso. Defendo princípios vagamente
socialistas e falo muito sobre a preocupação de ter bastante grana. E
estamos ganhando um monte de dinheiro agora. Não poderia ser feliz num
Jaguar E-Type, simplesmente porque me parece, de alguma forma, errado.
Quero dizer, quem precisa de um motor de 4.2 litros e um grande capô
lustroso?”
Mais sinistra, “Mortality Sequence”, de Rick Wright, junto a um
interlúdio instrumental frenético intitulado “The Travel Section” —
inicialmente baseado em um trecho hipnótico de guitarra tocado por David
Gilmour —, era sobre o medo originado pelas travessias mundiais das
turnês do Pink Floyd. “Passávamos muito tempo em aviões”, diz Roger Waters. “Não havia muitas profissões em que, numa idade tão jovem, você
passasse aquele tempo todo no ar. Há algo quanto a voar que encanta a
todos nós, mas também é bastante assustador. ‘The Travel Section’ era
sobre o terror das viagens e a preocupação de estar a ponto de morrer — o
que no final acontece. Era para representar um acidente.”
Se as letras de Waters combinavam sua sensibilidade discordante e
questionadora a alguns dos aspectos mais inescapáveis da vida, o meio
político e social que o envolvia apenas servia para encorajá-lo. A Guerra do
Vietnã, conflito que havia de tal maneira captado a imaginação e despertado
a ira da contracultura nos anos 1960, não só estava a todo vapor como
descarregava seus efeitos políticos nefastos de forma nunca antes vista. Em
junho de 1971 foram publicados os Documentos do Pentágono, a “história
secreta” do papel dos Estados Unidos no Vietnã, que expunham as fraudes e
a desonestidade do governo. Isso fez com que ainda outros norte-
americanos se opusessem ao conflito, disseminou uma sensação de pânico e
paranóia na Casa Branca, então comandada por Nixon, e desembocou, no
rastro da eleição presidencial de 1972, no caso Watergate.
No país natal de Roger Waters, enquanto isso, o sentimento de
autoconfiança nacional que fortalecera milhares de ingleses ao longo da
década anterior começava a murchar, à medida que as realidades mais duras
de uma nova era — que, analisando hoje, atiçaria o surgimento do punk-
rock britânico — começaram a deitar suas raízes. Waters era um leitor
diário do Guardian, jornal inglês liberal de esquerda. Ao se examinarem as
páginas do periódico a partir do final do verão de 1971 em diante, obtém-se
uma visão clara do contexto em que ele escrevia. Naquele mês de agosto foi
anunciado que o desemprego britânico alcançara a taxa de 904 mil, o nível
mais alto desde os tempos tenebrosos nos anos 1930. O terrorismo
praticado por republicanos irlandeses também ocupava regularmente as manchetes: em outubro houve uma explosão na Post Office Tower, um
ícone londrino; em janeiro de 1972 o Exército britânico assassinou 13
manifestantes no dia que veio a ser conhecido como Domingo Sangrento; e
menos de um mês depois o Exército Republicano Irlandês (IRA) revidou
matando seis membros das Forças Armadas britânicas em Aldershot, cidade
do sul da Inglaterra.
Diante desse horizonte, os ideais que haviam definido a contracultura da
década de 1960 também sofriam novos ataques. Em setembro de 1971
ocorreu o comício de lançamento do Festival da Luz, organização britânica
liderada pela já notória militante chamada Mary Whitehouse, que se
dedicava a tentar reverter as atitudes permissivas da década anterior
valendo-se de um ataque à “poluição moral” e à afirmação dos “valores
cristãos”. Roger Waters estava silenciosamente horrorizado: “Fiquei
enfurecido com Mary Whitehouse”, disse, “como também fico com todos
os que queimam livros ou atacam a Bíblia; que promovem culpa e vergonha
quanto às relações sexuais, que tentam negar às pessoas qualquer
oportunidade de seguir seus destinos no que diz respeito ao sexo.”7
No mesmo mês, o Guardian publicou um artigo sobre um relatório do
governo que examinava o estresse relacionado ao trabalho, fenômeno que
apenas começava a adquirir um lugar no imaginário da mídia popular, e
iniciava assim a viagem que duraria três décadas até o centro da consciência
contemporânea. Se Waters estava prestes a expressar seus pensamentos
sobre “as pressões da vida moderna”, a prova da temática de suas
preocupações residia nos seguintes argumentos: “Os casos de psicose,
psiconeurose e também de queixas menos preocupantes de debilidade,
nervosismo e dores de cabeça estão crescendo”, dizia a reportagem. “De
acordo com o relatório, a melhor maneira de evitar problemas é assegurar
que o trabalhador esteja satisfeito com o seu trabalho e seja levado até seu
limite, mas não além dele.”
O PINK FLOYD, OBVIAMENTE, testemunhara pelo menos um colapso mental
bem de perto. E, talvez, o aspecto mais fascinante das letras escritas por
Waters na época fosse a presença sub-reptícia de Syd Barrett. No geral, o
caso dele com certeza alimentou a noção de Waters sobre uma sociedade
gananciosa e fria que bloqueava o potencial do indivíduo, a ponto de levar
alguém mais suscetível à ruína. Mas havia outras referências intencionais ao
colega afastado. O principal exemplo era uma canção que parece ter sido a centelha inicial para todo o conceito de Waters: “Brain Damage”, iniciada
por ele durante o final das gravações de Meddle e claramente inspirada em
“Dear Prudence”, de John Lennon.
Os versos de abertura combinavam alusões a Syd Barrett com uma
narrativa referente à juventude de Waters em Cambridge. “Na primeira
estrofe de “Brain Damage”, diz ele, “o gramado ao qual me refiro é o que
fica entre o King’s College Chapel e o rio. Posso vê-lo na minha cabeça de
maneira muito viva.” Como em muitos dos jardins da cidade, este fora há
muito salpicado com avisos bem ingleses de “Não pise na grama”. Na letra
de Waters, talvez faça uma homenagem furtiva à mente singular e
desafiadora de Barrett no verso “the lunatic is on the grass” (sua referência
a drogas parece ter sido acidental).”8 De forma intencional, há versos cujas
alusões a Barrett são absolutamente transparentes: “If the dam breaks open,
/ many years too soon; / If the band you’re in starts playing different
tunes.”9
“Havia um resíduo de Syd em tudo isso”, diz Waters. “Era algo muito
recente. Ele era a principal força criativa da banda no início; talvez eu tenha
fornecido alguns dos mecanismos. Assim, quando ele sucumbiu à
esquizofrenia, foi um golpe muito duro. E também, quando você vê aquilo
acontecer com alguém íntimo, de quem você conhece quase a vida inteira,
sua mente se pergunta como podem ser as sensibilidades e capacidades
mentais humanas. Eu pensava o seguinte: ‘Se não pela graça de Deus, lá
vou eu.’ Isso foi certamente expressado em “Brain Damage”: a sensação de
que a pessoa não é necessariamente mestre de sua própria identidade; que
somos todos marionetes, e as cordas de nossas vidas são manipuladas por
nossas histórias, experiências, pais, ancestrais e daí por diante.
O mentalizador-mor de Dark Side nos bastidores de Brighton Dome, janeiro de 1972.
“Eu mesmo algumas vezes me senti próximo à loucura. Lembro-me de
estar na cantina de Abbey Road, sentado à mesa com todo mundo, e
subitamente não havia dor: tudo — a mesa, as pessoas em volta —
desapareceu. Os sons tornaram-se pequeninos, e a sala parecia como se eu a
estivesse vendo pelo lado contrário de um binóculo. Pensei comigo mesmo
‘Opa, espere um minuto’. Não estava drogado. ‘Uau, é assim que se sentem
os loucos.’ Lembro claramente de pensar isso. Então levantei da mesa e
resisti àquilo. Subi as escadas, fui ao Estúdio 3 e comecei a tocar piano.
Lentamente, tudo começou a voltar a uma perspectiva mais normal. Não
aconteceu de novo, mas na época eu estava certo de que era o começo de
um colapso. Um colapso ao qual resisti e que nunca ocorreu de fato.”
Em “Brain Damage”, Waters claramente fazia uma emocionada
homenagem a Syd Barrett, embora as letras — ao lado de muitos dos temas
das novas canções — também abrangessem uma visão mais intelectual
sobre os apuros de seu ex-colega. Em sua própria maneira redutiva, Waters
parecia valer-se da obra de Ronald Laing, o “antipsiquiatra”, que chegou
perto de tratar Barrett em 1967. As opiniões sobre loucura expressadas em
“Brain Damage” são similares às idéias da obra de Laing. O mesmo podia
ser notado em declarações posteriores de Waters sobre a noção de um “ser
gestalt” cuja inocência é comprometida e distorcida pelo mundo adulto.
“Do momento do nascimento”, escreveu Laing em The Politics of
Experience, de 1967, “quando o bebê da Idade da Pedra confronta a mãe do século XX, ele é sujeito a essas ações de violência chamadas de amor, como
também o foram seu pai e sua mãe…. Essas forças estão preocupadas
principalmente em destruir a maior parte de seus potenciais. Esse
empreendimento, no conjunto, é bem-sucedido.” Pode ou não ser
coincidência que um capítulo do mesmo livro tenha o título “Us and
Them”, e aborda as mesmas preocupações da primeira estrofe da canção:
“A irmandade humana é evocada por homens particulares de acordo com
suas circunstâncias. Mas raramente se estende a todos. Em nome de nossa
liberdade e irmandade estamos preparados para explodir a outra metade da
humanidade ou ser explodidos por ela.”
Mesmo que tais influências pudessem facilmente ter levado a algo
vistoso, elaborado e aberto à acusação de pretensioso — uma acusação que
poderia certamente ser feita a trabalhos posteriores de Waters —, o
compositor era precavido o suficiente para se assegurar de que o
vocabulário de suas novas canções fosse propositalmente acessível. Mesmo
nas letras que acabara de escrever, as raízes do Pink Floyd na psicodelia
inglesa ainda eram evidentes — os aspectos “barrettianos” de “Echoes” são
um exemplo perfeito —, mas passaram a estar direcionadas a um rumo mais
direto. “Acho que todos pensamos, e Roger com certeza pensou, que muitas
das letras que vínhamos usando eram um pouco indiretas demais”, diz
David Gilmour. “Havia o sentimento de que as palavras seriam muito claras
e específicas. Este foi um salto adiante. As coisas significariam o que estava
escrito. Aquele foi um notório passo para além do que fizéramos antes.”
Ronald D. Laing, o“antipsiquiatra” cuja influência pode ser ouvida em “Us and Them” e “Brain Damage”.
A explicação de Gilmour reflete uma recorrente e conhecida marca
registrada do Pink Floyd: a noção de que o progresso da banda é visto
basicamente em seus próprios termos, e cada álbum concebido reflete uma
reação ao passado do grupo. É uma visão fortalecida pelo conceito geral do
Pink Floyd como uma espécie de entidade fechada e auto-suficiente, que
pouco se importava com as novidades exteriores. Na realidade, eram tão
sujeitos à influência contemporânea quanto a maior parte de seus pares —
como prova a linha que pode facilmente ser traçada entre as composições
da banda, por volta de 1971 e 1972, e o primeiro trabalho solo de um dos
heróis de Roger Waters, John Lennon. Waters já havia admitido sua dívida
inspiracional em “Echoes”: as palavras “Inviting and inciting me to rise”10
pegavam carona diretamente em “Accross the Universe”, dos Beatles.
Nesse momento, baseava ao menos parte de sua tentativa de simplificar
suas letras em John Lennon/Plastic Ono Band, o álbum confessional e
notavelmente austero que o ex-Beatle lançara no fim de 1970. “Aquele é
um dos verdadeiros grandes momentos da história do rock’n’roll ou da
história das composições”, diz Waters. “É um trabalho extraordinário. É tão
cru.”
Todavia, em sua busca para levar a estética do Pink Floyd a um lugar
novo, Waters também estava parcialmente se posicionando contra a história da banda — e a era de Syd Barrett em particular. Dada a autoria de Waters
para “Set the Controls for the Heart of the Sun” e seu desejo antigo de fazer
trilhas para filmes de ficção científica, as palavras seguintes podem parecer
um tanto dissimuladas, mas dão uma idéia de seu estado de espírito no
começo do trabalho em The Dark Side of the Moon: “Esta sempre foi minha
grande luta no Pink Floyd: tentar arrastá-lo, à força, de volta dos limites do
espaço, dos caprichos de Syd, por mais bonitos que fossem, para minhas
preocupações, que eram muito mais políticas e filosóficas. Mesmo hoje as
pessoas falam de espaço. Que porra é essa? Nada tinha a ver com as minhas
questões. Espaço: de que estavam falando? Espaço interior, talvez. Fiz um
esforço consciente quando escrevia as letras de Dark Side of the Moon para
tirar o enorme risco de ser banal em relação a muitos aspectos, de maneira
que as idéias fossem colocadas da forma mais simples e clara possível.”
Isso, inevitavelmente, trouxe seus próprios perigos. “Escrever ‘Breathe,
breathe in the air / Don’t be afraid to care’ deixa você sujeito a escárnio”,
diz Waters. “As pessoas atacam: ‘Seu punheteiro de merda! Como é
patético!’ É algo bem juvenil em sua intensidade, mas hoje fico bem feliz
em ter arriscado.”
O NOVO CICLO DE CANÇÕES inicialmente tomou seu nome emprestado do
verso conclusivo de “Brain Damage”. The Dark Side of the Moon parecia
perfeito, não apenas pela aura de importância que transmite, mas também
pela cristalização de alguns temas-chave de Waters. “Quando digo: ‘Vejo
você no lado escuro da lua’”, observou ele posteriormente, “o que quero
dizer é: ‘Se você sente que é o único… que parece louco, pois pensa que
tudo é maluco, você não está sozinho.’” Havia, entretanto, um problema: a
banda britânica de blues e rock Medicine Head estava para lançar um álbum
chamado Dark Side of the Moon. O novo trabalho do Pink Floyd foi então
preparado para a première pública com o título de Eclipse, e — mantendo
os elementos que lidavam com a insânia — recebeu o subtítulo “uma peça
para lunáticos variados”.
A série inicial de apresentações, numa turnê britânica que começou em
20 de janeiro de 1972, fora claramente planejada para elevar os padrões
técnicos dos shows da banda. Nada menos que nove toneladas de
equipamento — o que incluía uma mesa de mixagem de 28 canais e um
sistema quadrifônico de som, cuja intenção era ir além do célebre
coordenador Azimuth — foram reunidas em três imensos caminhões, e montou-se uma equipe de apoio com sete integrantes bem treinados. Como
parte do pacote, o grupo encomendou um equipamento de iluminação feito
sob medida (o primeiro desde 1968), destinado a realçar o aspecto musical
do espetáculo com efeitos visuais sem precedentes.
No contexto atual, a idéia de um grupo pegar a estrada para fazer uma
pré-estréia, de 40 minutos, de um material novo que só seria lançado em
disco mais de um ano depois poderia parecer um tanto bizarra. No Reino
Unido, porém, o Pink Floyd era reverenciado como baluarte de uma
subcultura — nascida nos anos 1960 e fixada como peça musical-chave no
começo da década seguinte — em que os shows freqüentemente mereciam
o quieto respeito destinado a saldar os recitais clássicos. O contraste com as
experiências iniciais no circuito britânico das salas de baile não poderia ser
mais pronunciado: naquele momento, qualquer idéia de uma apresentação
de rock como uma experiência de massa hedonista e barulhenta passava a
segundo plano frente à importância de se escutar silenciosamente (processo
geralmente ajudado, deve-se observar, pela companhia do perfume
marcante de um cigarro enrolado a mão).
O suporte humano de tudo isso era uma multidão de jovens obcecados
por música, cujos traços identificáveis foram habilmente resumidos por um
músico britânico da seguinte maneira: “Um sobretudo, uma caneca [de
cerveja], um disco debaixo do braço, sentado no chão.” O público da banda,
que crescia lentamente, não era lá tão diferente na América do Norte: com
certeza, as gravações dos concertos norte-americanos da época sugerem
uma atmosfera similar de reverência silenciosa. Naquele contexto, o Pink
Floyd poderia ficar certo de que assistir à pré-estréia de suas novas canções
seria encarado como um autêntico privilégio.
Durante os preparativos finais para a turnê britânica, o grupo se mudou
para uma propriedade dos Rolling Stones, em Bermonsdey, sul de Londres
— na lembrança de David Gilmour, “um armazém encardido com uma sala
de ensaios”. Os últimos ajustes foram feitos no Rainbow, uma sala com
capacidade para cinco mil pessoas localizada no norte da cidade. Além de
questões simples, como novas canções e arranjos, a banda tinha também de
se familiarizar com novos efeitos de áudio — entre eles um loop utilizado
em “Money” e uma narração adicional para a “Mortality Sequence”, de
Rick Wright, construída a partir de trechos da Carta aos Efésios, de São
Paulo, e de um monólogo de Malcolm Muggeridge, um socialista que se
tornou cristão devoto, de 70 anos, que havia desempenhado papel importante no Festival da Luz, aquele evento cristão moralista que Waters
tanto desprezara.
Diversos relatos sobre a época — principalmente a autobiografia de
Nick Mason, Inside Out — caracterizam a estréia pública do novo trabalho
como uma série de shows em Londres que começou em 17 de fevereiro. De
fato, o novo ciclo de canções — ao lado de sucessos já estabelecidos, como
“One of These Days”, “Echoes”, “Careful with that Axe Eugene” e “Set the
Controls for the Heart of the Sun” — foi apresentado pela primeira vez
numa seqüência de apresentações na Inglaterra que incluíram Coventry,
Bristol, Manchester e Liverpool, e começou em 20 de janeiro na cidade
costeira de Brighton. O primeiro show, por falta de sorte, não chegou bem a
ser a noite de estréia de Eclipse: depois de 26 minutos no palco, enquanto a
banda tentava desajeitadamente manter o mesmo andamento da fita de
apoio de “Money”, uma falha elétrica subitamente provocou uma
interrupção. Essa parte da apresentação não foi retomada: em pânico, o
grupo rapidamente decidiu substituir Eclipse por Atom Heart Mother e
deixou o trabalho em andamento para ser revelado na íntegra na noite
seguinte, no litoral do sul da Inglaterra, em Portsmouth.
Há uma gravação do show de Brighton claramente feita na própria
platéia. Tem início com a conhecida simulação de batidas cardíacas,
acompanhada por oscilações de volume atonais do teclado, efeitos sonoros
esquisitos gravados em fita — com destaque para o loop da caixa
registradora em “Money” — e pelo tipo de reação do público, que falava
entusiasmado sobre os novos efeitos de iluminação. “Que beleza”, vibrava
uma voz. “Veja só aquilo! Brilhante. Jesus!” Chegam as canções, e uma
coisa se torna bem clara: boa parte do que conhecemos como The Dark Side
of the Moon estava lá, mas ainda a alguma distância de sua plena
concretização. Comparados ao álbum (e, naturalmente, a interpretações
posteriores), os cinco números apresentados em Brighton soam bastante
irregulares, canhestros e descompassados — e um tanto maculados pelo
fato de que a banda ainda tentava dominá-los.
Brighton Dome, janeiro de 1972. Da esquerda para a direita: Rick Wright, Nick Mason, Roger Waters e David Gilmour.
“Breathe” chega após dois minutos e meio. A tranqüilidade suave da
versão gravada no álbum soa como se estivesse ao alcance do grupo. Mas
nesse primeiro momento a fluidez da canção é um tanto comprometida por
David Gilmour, que marca as passagens entre os acordes na estrofe com um
riff ascendente um pouco sem graça, claramente com a intenção de imitar a
primeira seção de “Echoes”. O ar meio desajeitado da execução ainda é
potencializado pela linha vocal: em contraposição à graça e à autoridade do
dueto consigo mesmo gravado em dois canais e depois registrado em fita,
Gilmour recita a canção inteira em um semi-urro hesitante, muitas vezes
parecendo quase perdido no cenário musical que o cercava.
Roger Waters soa o gongo em Brighton, onde a première de Dark Side foi suspensa pelo mau funcionamento das fitas de apoio.
Depois o ouvinte depara com a principal falha do Dark Side
embrionário: a chamada “The Travel Section”. Como o ciclo de canções
mal havia começado, ligar o intervalo entre “Breathe” e “Time” com uma
improvisação de sete minutos, na maior parte conduzida por David Gilmour
e Rick Wright, representa um senso de dinâmica completamente enganado
— impressão evidenciada por volta do quinto minuto. Rápidas sucessões de
acordes descendentes colidem com trêmulos jazzísticos do teclado de
Wright — que evocava, bem ou mal, Ray Manzarek (do The Doors) em
L.A. Woman —, enquanto Nick Mason procura bravamente infundir alguma força na confusão reinante. Se era para causar “algum tipo de impacto”,
com certeza era demorado demais. Parecendo dar à banda um sinal de que o
tiro saíra pela culatra, o público saúda a conclusão — uma passagem lenta
rumo a um meio-silêncio inconclusivo — sem que se ouvissem aplausos.
“Time”, felizmente, sai um pouco melhor. Suas duas pontes, marcadas
pelo vocal principal de Rick Wright, seguramente dão mostras das
maravilhas por vir, embora em sua forma primitiva ainda soasse bastante
inexpressiva. Há um problema em particular: a dinâmica enxuta e funkeada
que definiu as estrofes da versão gravada não é ouvida em lugar algum. Em
vez disso, Gilmour e Wright — que fazem dueto nos versos — cantam as
palavras de Roger Waters com uma entonação fatalista e exausta que reflete
os sentimentos da canção, mas deixam a música um pouco monótona. Além
dessas dificuldades, os dois vocalistas toda hora esqueciam a letra.
“Time”, após a breve retomada de “Breathe”, dá lugar à “Mortality
Sequence”, de Rick Wright: uma mistura de quatro minutos e meio que
junta uma parte tocada num órgão de igreja e efeitos sonoros de falas que
recitam os últimos versos da música anterior, e evocações de sinos de igreja
conclamando “os fiéis a se ajoelharem”. Em The Dark Side of the Moon,
tais imagens são rapidamente tratadas em “The Great Gig in the Sky”,
canção em que a banda claramente tenta fazer uma espécie de observação
difusa sobre o cristianismo, repleta de fragmentos de orações (“By our
father, we confess to thee / We confess to thee with our whole heart”11),
trechos bíblicos e os já mencionados clipes de Malcolm Muggeridge,
aparentemente agradecendo a reação do público à sua doutrinação religiosa:
“Gostaria de poder mostrar-lhes a quantidade de cartas de apoio que
recebi.” No fechamento, uma espécie de cacofonia devota toma conta da
música, antes de um zumbido eletrônico atravessar o som, e então ouvirmos
o loop de sete batidas por compasso que dá início a “Money”.
Na superposição do órgão tocado por Wright ao som de caixas
registradoras e moedas caindo, o Pink Floyd poderia estar endossando uma
visão cética e bem inglesa do ritual das manhãs de domingo, na qual cada
visita à igreja acaba por testemunhar a circulação da temida caixinha. Mas
qualquer questão como esta logo se perdia no meio de um percalço infeliz.
“Money” começa com a batida da linha de baixo de Waters: um som
laborioso, especialmente não-groovy, ainda mais insatisfatório pela ausência
da sutil guitarra de David Gilmour, que a pontua no álbum. Seus colegas
acabam por aparecer, a princípio tocando mais rápido que a fita e desajeitadamente se ajustando num ritmo que mais sugeria uma espécie
afetada de marcha. Após pouco mais de 20 compassos, o grupo caminha
para o caos; dois golpes intensos na bateria e uma batida no prato de Nick
Mason indicam que as coisas já deram errado o suficiente, e que a única
coisa que resta é terminar o número. Após 22 segundos que mais pareceram
minutos, o público oferece ao grupo uma salva de palmas encorajadoras e
caridosas.
Na fita, outros dois minutos se passam, entremeados pela interrupção e
retomada da gravação, até Roger Waters se dirigir ao microfone: “Aquilo
foi lamentável”, e dá de ombros.
Mais alguns minutos se passam até que a gravação volte à vida com
outra explosão de aplausos e o som da banda afinando os instrumentos.
“Ok”, diz Waters. “Em conseqüência de inúmeros horrores mecânicos e
eletrônicos não devemos tocar mais nada daquele pedaço, e então faremos
outra coisa.”
A versão de “Atom Heart Mother” que a segue é quase
insuportavelmente cansativa: o som, talvez, de uma banda que relutava em
voltar para a música que julgava estar a caminho de ser deixada para a
história.
FELIZMENTE, OS SETE SHOWS seguintes — em Portsmouth, Bournemouth,
Southampton, Newcastle, Leeds, Coventry e Bristol — tiveram Eclipse em
sua totalidade. Na última apresentação, além disso, a obra deu um pequeno
passo rumo à sua realização completa quando Roger Waters, ao acordar na
manhã de folga de 4 de fevereiro, mostrou ao grupo o epílogo, escrito
apressadamente, do ciclo de canções, que serviu, pelo menos naquele
momento, como faixa-título. “Acho que cheguei ao concerto com a canção
no bolso”, diz ele. “Falei algo como ‘Aqui está, rapazes, escrevi o final.’”
Cantada por Waters, na maior parte sozinho, “Eclipse” era uma criação
de dois minutos em batida 6/8, aparentemente amarrada aos elementos das
novas músicas que lidavam com a morte, na qual uma lista de experiências-
chave da vida (“All that you touch / And all that you see”12) culminava na
evocação da Lua eclipsando o Sol. Com “Brain Damage” como final, as
coisas terminavam num tom de calor empático. Waters aparentemente tinha
surgido com uma conclusão muito mais desoladora — embora ele há muito
reforce que suas intenções eram no geral mais benignas. “De maneira
estranha,” comentou depois, “levou-me de volta à adolescência e aos sonhos da juventude…. É um recital das idéias que precederam Dark Side,
dizendo: ‘Aí está você, isso é tudo: o que você experimenta é o que isso [a
vida] é’. O final um tanto depressivo, ‘And everything under the sun is in
tune / but the sun is eclipsed by the moon’13, é o conceito de que todos
temos o potencial para ficar em harmonia… Para levar vidas felizes,
significativas e corretas.”
Com o cancelamento do show do dia seguinte em Plymouth, o novo
número foi trabalhado e adicionado a “Eclipse”, estreando no De Montfort
Hall, em Leicester, a 10 de fevereiro. Uma semana depois, o Pink Floyd
chegou a Londres para quatro noites no Teatro Rainbow, às quais a
imprensa musical britânica compareceria em massa, assim como piratas
ocasionais: na época, cerca de 120 mil cópias das gravações ilícitas das
apresentações londrinas foram vendidas para os fãs mais vorazes da banda.
Como prova uma dessas fitas — uma gravação da mesa de som, feita no
último dos quatro shows em Londres —, muitos dos problemas de Brighton
ainda eram evidentes, em particular a natureza sem rumo e debilitada de
“Travel Section” e “Mortality Sequence” (em “Money”, diminuía-se o
volume dos loops problemáticos assim que a banda começava a tocar).
Assim, The Dark Side of the Moon começava a mostrar-se coerente aos
ouvidos. “Breathe” foi executada com uma serenidade que diz tudo sobre a
crescente confiança da banda. Quando “Money” entra em sua frenética
parte intermediária em 4/4, o grupo — liderado, é claro, por David Gilmour
— atinge um poder e uma energia empolgantes. “Brain Damage”, à sua
própria maneira, talvez seja o número mais impressionante da fita: os
vocais frágeis de Roger Waters se encaixam perfeitamente nos sentimentos
da canção, e sua transição para “Eclipse” é simplesmente maravilhosa. De
forma impressionante, o fim dessa canção é seguido por 30 segundos de
aplausos furiosos.
No geral, os jornalistas reunidos estavam tão entusiasmados quanto o
resto do público, embora suas interpretações sobre o conceito temático de
Waters fossem divertidamente variadas. Para a NME, The Dark Side of the
Moon era “uma investida contra a corrupção da mídia — desferida,
ironicamente, com todos os recursos de mídia ao seu dispor: torres de luz
gigantescas, montes de autofalantes quadrifônicos, arengas gravadas de
Muggeridge e sua laia; tudo girando, flutuando e movendo-se de um espaço
para outro, o que deixou os ouvintes atordoados, mas não desnorteados”. O
jornalista prosseguia: “No final da apresentação, sirenes de polícia ecoaram pelo Rainbow, … e a torre de luz principal, acompanhada por gemidos
mecânicos agonizantes, saudou de forma zombeteira a mídia, o Pink Floyd
e a nós. Extraordinário.”
O jornal Melody Maker, preguiçosa e equivocadamente, voltou aos
clichês de ficção científica. Dark Side, afirmavam, era “uma espécie de
ópera sobre a fantasia espacial em que o sistema envolvente de auto-
falantes, fitas pré-gravadas (incluindo a voz de Muggeridge) e colunas de
luz espetaculares desempenham papel tão importante quanto o trabalho
instrumental no palco”. A conclusão do repórter sugeria que, apesar de todo
o êxtase do público no Rainbow, havia algumas pessoas que provavelmente
nunca compreenderiam a obra: “Musicalmente, havia algumas idéias
fabulosas, mas os efeitos sonoros muitas vezes me faziam perguntar se eu
estava numa jaula do zoológico de Londres”.
A crítica que chegou mais próximo de compreender as intenções da
banda veio do respeitável e burguês Sunday Times. “Parece o inferno”,
escreveu um tal de Derek Jewell. “O cenário é dominado por três torres
prateadas de luz que propagam tons misteriosos de vermelho, verde e azul
sobre o palco. Uma neblina de fumaça de explosões ofuscantes que
estouram e morrem é soprada por toda parte…. Se tudo isso soa como O
inferno (de Dante) retrabalhado, você está apenas parcialmente correto. As
ambiciosas intenções artísticas do Pink Floyd são agora vastas.” Elogiava
de maneira simpática “um sentimento incrível para a melancolia de nossa
época”. E concluía: “Em seus próprios termos, o Pink Floyd
admiravelmente obtém êxito. Eles são extraordinários dramaturgos.”
TRÊS DIAS APÓS O ÚLTIMO dos shows de Londres, o grupo encontrava-se do
outro lado do Canal da Mancha. Dava início a uma semana de estada no
Chateau D’Herouville, o estúdio residencial francês que Elton John
homenageou no título de Honky Chateau, álbum ali gravado poucas
semanas antes da chegada do Pink Floyd. A banda estava lá sob o comando
de Barbet Schroeder, mesmo diretor que os havia contratado para gravar a
trilha sonora de filme More, de 1969. Desta vez, foram incumbidos de criar
o acompanhamento musical para La Vallée, mais um filme-estereótipo da
contracultura que narrava as tentativas de uma turba de hippies franceses
para encontrar uma verdade maior, numa aventura em Papua-Nova Guiné.
“Sentamos numa sala, escrevemos e gravamos como em uma linha de
montagem”, disse Dave Gilmour. “É muito bom trabalhar desta forma algumas vezes: sob limites extremos de tempo e tentando atender às
necessidades de outra pessoa.”
O álbum que daí resultou, ainda que longe de estar entre os discos mais
importantes da banda, merece muito mais que uma reles nota de rodapé.
Analisado separadamente, é uma coletânea de músicas sutilmente polida, na
qual o Pink Floyd ocasionalmente revela aspectos de sua personalidade que
não combinam bem com seu estereótipo de rock artístico — como ocorre
em uma colaboração de Rick Wright e Roger Waters, “Stay”, uma balada
convencional que renuncia ao experimentalismo em favor de uma canção
de amor bem amarrada; e “The Gold is in the…”, na qual a banda injeta
melodias de um blues-rock subjetivo, mas engajado (um parente próximo,
há de se dizer, do compacto Wham Bam Thank You Mam,14 dos Small
Faces, de 1969), que parece tão em desacordo com o grupo que chega a ser
engraçado, em especial quando David Gilmour tenta subverter seus vocais
ingleses refinados com um desleixado sotaque norte-americano.
The Rainbow, Londres, fevereiro de 1972. Bilhete de ingresso.
Rick Wright e Roger Waters com o engenheiro Roger Quested, trabalhando nas gravações adicionais de Obscured by Clouds.
Seguindo o contexto de The Dark Side of the Moon, parte das músicas
forma um conjunto claro de números relacionados. Há alusões a canções
que vinham tocando ao vivo no mês anterior: a delicada guitarra slide de
Gilmour em “Burning Bridges”; o clima sereno — à la “Breathe” e “Us and
Them” — de “Mudmen”; os aspectos afiados e rígidos de “Childhood’s
End”, de Gilmour, que apontam o tratamento final dado aos versos de
“Time”. A composição solo de Waters chamada “Free Four”, entretanto,
talvez seja a mais explicativa: a julgar pela aparência, extravagante demais
para ser considerada parecida a qualquer parte de Dark Side, e ainda assim
construída a partir dos mesmos tipos de temas que ele havia utilizado para a
obra até então conhecida como Eclipse. Os primeiros dois versos, apesar de
toda a jovialidade afetada da música, tratam das mesmas idéias que “Time”:
“Life is a short warm moment… / you get your chance to try, / in the
twinkling of an eye”.15 A estrofe seguinte mostra o narrador lamentando a
chegada de mais uma turnê pelos Estados Unidos, antes da canção se
aproximar do fim, com uma referência elíptica a Eric Fletcher Waters.
Tivesse o autor pensado em desenvolver a canção um pouco além — um
refrão, por exemplo, poderia ser uma idéia —, e ela poderia figurar entre as
melhores composições que havia escrito até então. De maneira
completamente inesperada, a canção acabou encampada pelas estações de FM norte-americanas, o que impulsionou o álbum — lançado em junho de
1972 com o título de Obscured by Clouds — ao top 50 do país, território até
então virgem para seus autores.
Enquanto isso, o Pink Floyd se curvou ao inevitável e continuou a
excursionar. No início de março, Eclipse — ao lado de músicas
consagradas, como “Echoes” e “Careful with that Axe Eugene” — foi
apresentado para platéias japonesas em Tóquio, Osaka, Kyoto e Sapporo.
Em meados de abril, a banda havia começado uma turnê norte-americana de
15 shows, que chegou ao auge com dois concertos no Carnegie Hall, em
Nova York. Em maio houve três apresentações na Alemanha e na Holanda
— nos dois últimos, por alguma razão, Eclipse foi deixado de lado, em
favor de Atom Heart Mother —, até o grupo finalmente voltar para casa no
dia 23 de maio. Eles não tinham show algum programado durante um mês.
Sem perder tempo, o Pink Floyd se aprontava finalmente para voltar aos
estúdios.
1 Turnê sem fim. (N.T.)
2 “Respire, inale o ar / Não tenha medo de se importar.” (N.T.)
3 O verbete no The Penguin Dictionary of Politics (1985) contém a seguinte explicação: “Para Marx, alienação é uma condição … na qual a natureza humana do homem é diferente do — estranha ao — que o homem realmente é capaz de ser…. O homem pode se alienar de si mesmo, de outros homens, de sua vida profissional e do produto de seu trabalho, … todos estão interligados, e, para Marx, todos derivam do sistema de produção capitalista.”
4 “Em frente, gritou da retaguarda / E a fileira da frente morreu.” “E o general sentou-se / Enquanto as linhas no mapa se mexiam de um lado para o outro.” (N.T.)
5 “Em casa, novamente em casa / Gosto de estar aqui quando posso.” (N.T.)
6 “Estou no grupo de alta-fidelidade que viaja na primeira classe / E acho que preciso de um Lear Jet.” (N.T.)
7 O desdém de Waters por Mary Whitehouse rendeu uma referência posterior em “Pigs (Three Different Ones)”, de Animals, lançado em 1977: “Hey you, Whitehouse… / You house-proud town mouse… / You gotta stem the evil tide.” (“Ei, Whitehouse… / sua ratinha caprichosa… / você tem que lutar contra a maré maligna.”). Ela morreu em 2001, aos 91 anos.
8 “O lunático está na grama.” (A palavra grass, que significa “grama” em português, também é uma gíria para se referir à maconha). (N.T.)
9 “Se a represa estourar / muitos anos antes do esperado; /Se sua banda começa a tocar em tons diferentes.” (N.T.)
10 “Convidando-me e incitando-me a ascender”. (N.T.)
11 “A vós, Deus Pai, nos confessamos / Nos confessamos de todo coração.” (N.T.)
12 “Tudo o que você toca / E tudo o que vê.” (N.T.)
13 “E tudo sob o Sol está afinado / mas o Sol é eclipsado pela Lua”. (N.T.)
14 Há pelo menos mais uma ligação específica entre as duas bandas na tipologia miúda da história do Pink Floyd. Seamus, o cão que late na faixa de mesmo nome em Meddle, pertencia ao ex-vocalista do Small Faces, Steve Marriott.
15 “A vida é um momento curto e cálido… / Você tem sua chance de tentar, / num piscar de olhos.” (N.T.)
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