The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-prima do Pink Floyd
6. Quando enfim o trabalho está pronto: The Dark Side of the Moon decola
6.
Quando enfim o trabalho está pronto:
The Dark Side of the Moon decola
EMBORA ROGER WATERS PRETENDESSE que The Dark Side of the Moon
desvinculasse o Pink Floyd dos clichês que cercavam a banda desde a
partida de Syd Barrett — psicodelismo, ficção-científica, rock-espacial —,
parece que a gravadora não havia captado bem a mensagem.
Presumivelmente, graças ao título, o álbum foi lançado no país natal do
grupo com uma opulenta festa no Planetário de Londres, atração turística
coberta por uma cúpula esférica na qual os visitantes podiam se maravilhar
com uma cintilante imitação do cosmo antes de serem encorajados a
comemorar suas visitas comprando uma seleção de novidades astrais.
Coquetéis foram servidos às oito horas, seguidos por uma audição do disco
“sob as estrelas” e “jantar, bebidas e diversões na arcada”. Para demonstrar
a irritação do Pink Floyd com o evento, Rick Wright foi o único integrante
do grupo a comparecer.
Entre a multidão de pessoas que ocupou um assento para a première
estava Roy Hollingworth, repórter do jornal Melody Maker. Pouco mais de
um ano antes, o mesmo periódico havia conjeturado afoitamente que o
modelo inicial de Dark Side se aproximava de uma “ópera-fantasia
espacial”. Naquela noite, sua empatia com a nova criação do Pink Floyd
não parecia ter aumentado. “Dez minutos depois de iniciada, a música
tornou-se tão confusa consigo mesma que era virtualmente impossível
segui-la”, escreveu Hollingworth, com certeza referindo-se à transição de
“On the Run” para a estrondosa abertura de “Time”. “Tornou-se cada vez
menos atraente e, depois de 15 minutos, decididamente desinteressante.” À
altura de “The Great Gig in the Sky” parecia que ele não era o único que
havia perdido o interesse. “Uma porção de pessoas começou a tagarelar e a
acender cigarros”, continuou. “Pareciam um pouco entediadas. E tinham
todo o direito de estar.”
Foi só no final do álbum que Hollingworth começou a sentir algum tipo
de ligação com o que ouvira. “Uma canção em particular era tão Syd
Barrettiana, que podia ter sofrido influência direta de qualquer das canções
de The Lost Hero”, disse ele, fazendo referência a “uma voz bem
empostada, ecoada e triste, com rimas maravilhosamente óbvias”. Seu
relato, desprovido, por algum motivo, dos títulos das canções, sugere que
ele podia estar se referindo a “Us and Them” ou a “Brain Damage”; se fosse à última, a decifração implícita do tema da canção sugeria um súbito
ataque de autêntico brilho crítico. “Barrett ainda existe”, concluiu, “e foi
agradável ver que a melhor faixa do disco é mais de 80% influenciada por
ele. Vou defender isso numa discussão com qualquer um.” Quando o
semanário publicou uma resenha completa do álbum, expôs a opinião um
tanto quixotesca de que Dark Side era “talvez o melhor álbum do Pink
Floyd desde Ummagumma”.
O New Musical Express, felizmente, mostrou-se um pouco mais
perceptivo. “Musicalmente, o álbum não é dessemelhante do estilo criado
com Atom Heart Mother e Meddle”, disse a crítica um tanto seca, “ainda
que tematicamente seja mais forte, no mais terreno dos assuntos: a loucura.”
Nas semanas seguintes, o pessoal do periódico amarrou melhor seu
entusiasmo, o que resultou numa extensa saudação ao grupo publicada um
mês depois do lançamento de Dark Side. “Eles emergiram de seu passado
psicodélico mostrando sabedoria, maturidade e consistência,” disse o NME.
Muitos de seus leitores pareciam ser da mesma opinião: na primeira semana
nas paradas britânicas, Dark Side aterrissava com estrépito no número
quatro da lista de álbuns mais vendidos, entre Slayed?, do Slade, e Billion
Dollar Babies, de Alice Cooper.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, as primeiras notícias davam a
entender que o álbum era perfeitamente adequado ao tipo de sucesso que
seus autores até então não tinham alcançado. Na visão da revista Billboard,
Dark Side “era um tour de force para o letrista Roger Waters”. E
prosseguia: “A banda está imersa num programa de densas declarações
introspectivas, bem equilibradas pela execução bastante intensa. Isto é
música para ser ouvida intensamente.” Como dica para os vendedores de
discos que exigiam uma luz instantânea, a Billboard declarou que Dark Side
era “rock de vanguarda feito por uma das mais aventurosas bandas
britânicas”.
A revista Rolling Stone, por algum motivo, só foi abordar The Dark Side
of the Moon em maio. Uma resenha de 400 palavras ficou espremida entre
um comentário de Lester Bangs sobre The Best of Bread (“Eles têm muito
sexo em suas canções… Não deixem ninguém lhes dizer que são crianças”)
e um tratado um tanto evasivo sobre Thirty Seconds over Winterland, do
Jefferson Airplane (“um álbum de rock ‘n’ roll muito bom”). A crítica de
Dark Side foi escrita por Loyd Grossman,1 um bostoniano de 22 anos cujo
estilo de prosa era um pouco mais convencional que a reputação contracultural da revista. E mesmo que ele evidentemente gostasse muito do
álbum, uma visão retrospectiva faz com que pelo menos alguns de seus
pensamentos pareçam um tanto bizarros.
“Parece tratar basicamente da fugacidade e da corrupção da vida
humana, tema incomum no rock” disse. “‘Time’, ‘Money’ e ‘Us and Them’
podem ser vistas como chaves para compreender o significado (se de fato
existe algum significado definido) de The Dark Side of the Moon….
Embora seja um álbum conceitual, algumas faixas se impõem isoladamente.
‘Time’ é um belo rock com influência country e um poderoso solo de
guitarra de David Gilmour…. A não cantada ‘On the Run’ é um
destaque…. O som é luxuriante, com múltiplas camadas, mas permanece
claro e bem estruturado…. Existem alguns pontos fracos. Os vocais de
Gilmour são às vezes frágeis e sem brilho, e ‘The Great Gig in the Sky’
talvez pudesse ser encurtada ou suprimida. Mas são detalhes…. Existe uma
certa grandeza que excede o puro melodrama musical que raramente é
tentada no rock. The Dark Side of the Moon tem brilho, o verdadeiro brilho
que vem da excelência de uma interpretação soberba.”
Qualquer músico teria ficado entusiasmado por esse tributo, mas àquela
altura o blablablá dos críticos tinha se perdido na distância. No verão de
1973, o sucesso de The Dark Side of the Moon era expressado em termos
muito mais excitantes: shows com bilheteria esgotada, discos de ouro e
muitos dólares.
LANÇADO NOS ESTADOS UNIDOS em dez de março, The Dark Side of the
Moon entrou nas paradas da Billboard na posição nada empolgante de
número 95. No entanto, logo começou a subir, impulsionado pela turnê do
Pink Floyd pelo país, cujo oportunismo na escolha do momento a ser
realizada dizia muito da crença do grupo de que um estouro era iminente.
Haviam começado em quatro de março no Dane County Memorial
Coliseum, em Madison, Wisconsin. Quando tocaram o último concerto da
excursão, no Bayfront Center, em St. Petersburg, Flórida, o álbum tinha
subido para o 42º lugar. E assim continuou até que, em 28 de abril, chegou
ao topo, um degrau acima de um disco ao vivo de grande vendagem, Aloha
from Hawaii. O fato teria dado um tremor na espinha em qualquer jovem
inglês que tivesse começado a pegar numa guitarra nos primeiros dias do
rock ‘n’ roll: naquela semana, o Pink Floyd era, literalmente, maior que
Elvis.
Os shows que em parte projetaram Dark Side para um lugar tão
estonteante foram bem mais ambiciosos do que tudo o que a banda já havia
levado ao palco. Além de David Gilmour, Nick Mason, Roger Waters e
Rick Wright, o grupo era acompanhado por três cantoras que faziam
backing vocals — duas das quais, Carlena Williams e Vanetta Fields, depois
se denominaram Blackberries — e Dick Parry, cooptado pela turnê para
reprisar seus solos de sax em “Money” e “Us and Them”. O sistema de som
era um equipamento quadrifônico de tamanho sem precedentes, e a
operação das fitas de efeitos foi ensaiada e treinada como nunca. Os
elementos visuais do espetáculo eram projetados numa escala que antes
teria sido inimaginável: o clímax de “On the Run”, por exemplo, tinha uma
réplica de um aeroplano que mergulhava suspenso por um par de cabos de
aço paralelos e aparentemente caía sobre o palco.
Se tudo isso às vezes parecia chegar à beira do delírio, a natureza
espetacular do novo show podia certamente colocar em relevo as fraquezas
do grupo. Uma fita da mesa de som do concerto de 15 de março no
Spectrum, na Filadélfia, atesta o domínio magistral da banda sobre as novas
músicas, embora também sejam perceptíveis uma ou duas limitações
óbvias: em particular o baixo ocasionalmente ruidoso de Waters e os vocais
sem potência de Rick Wright nas partes intermediárias de “Time”.
Holofotes percorriam o auditório enquanto imagens de relógios eram
projetadas no palco, e as vocalistas contribuíam com suas vozes sensuais;
no meio de tudo, porém, Wright encontrava-se melancolicamente achatado.
Naturalmente, estas eram preocupações menores. Dark Side vendia cada
vez mais e acontecimentos ainda mais auspiciosos estavam para se
materializar. Muito do sucesso, por certo, estava amarrado à música e ao
impacto espetacular das apresentações da banda — mas uma grande parte
da exaltação inicial do álbum podia ser atribuída aos esforços concentrados
da sua gravadora norte-americana.
Na época do lançamento do disco nos Estados Unidos pela Capitol, o
recém-nomeado presidente da companhia era Bhaskar Menon, um
imigrante indiano diplomado pela Universidade de Oxford. Tendo
trabalhado em Londres como diretor da Divisão Internacional da EMI, fora
enviado a Los Angeles para assumir um novo cargo e enfrentar problemas
que infernizavam a sede norte-americana da EMI. A companhia perdia
dinheiro sobretudo por causa do seu elenco inchado de artistas: na lembrança de Menon, ele rapidamente cortou o número de contratados do
selo de cerca de 400 para 83.
O comportamento polido de Menon fazia parte dos códigos
cavalheirescos daqueles aspectos mais antigos da indústria musical inglesa
— ainda hoje ele se refere aos quatro membros do Pink Floyd como “os
rapazes” —, mas ele também dirigia os negócios com obstinação. Em
consonância com tudo isso, se dedicou à tentativa de superar o parco
sucesso comercial que havia caracterizado as vendas no país dos álbuns do
Pink Floyd até Meddle. “Tinha convicção de que os discos anteriores
haviam conseguido menos do que deviam. Ali estavam aqueles grandes
artistas fonográficos, e não havia razão para que os Estados Unidos não
estivessem prontos para eles. Era difícil saber por que as coisas não os
haviam favorecido — marketing inapropriado, questões de oportunidade
—, mas eu estava absolutamente decidido a fazer com que agora
funcionassem.”
Só havia um problema. No final de 1972, o Pink Floyd — e
particularmente Steve O’Rouke — estava suficientemente desapontado com
o trabalho da Capitol em seu favor e quase havia fechado um acordo com a
Columbia, por ter simpatizado com o presidente da CBS, Clive Davis.
Alguns relatos da história da banda atribuem a esse lance termos de
extremo sigilo (“A Capitol era de fato mantida no escuro em relação aos
planos do Pink Floyd”, diz um deles). Bhaskar Menon, no entanto, alega
que foi notificado da decisão da banda bem antes do final de 1972, e a partir
de então começou a negociar com o objetivo de garantir que o álbum no
qual trabalhavam — o último que seriam obrigados a lançar antes de
formalmente assinarem um novo contrato — permanecesse de propriedade
da Capitol. Menon estava animado pelo sucesso calmo nos Estados Unidos,
de Obscured by Clouds, um disco cuja arrancada surgira da sua insistência
de que o selo logo fizesse da banda uma prioridade.
O presidente da Capitol Records, Bhaskar Menon, e o Pink Floyd em 1972.
A conversa decisiva acontecera em novembro de 1972, quando Menon
tomou um avião para Marselha a fim de falar com o grupo num intervalo de
suas apresentações com a companhia de balé de Roland Petit. “Nada podia
ser feito em relação ao acordo com a
CBS”, diz ele. “Mas também tive conversas com O’Rourke sobre abrir
mão de Dark Side. Acho que ele provavelmente esperava que eu dissesse
‘Sim, em que termos?’ Mas havia três coisas que me deixavam decidido a
trabalhar no disco. A primeira é que seria uma espécie de teste de
credibilidade da Capitol, para ver se a companhia podia torná-lo um
sucesso. O segundo tinha a ver com o fato de que eu admirava muito a
música. E, por último, este disco era nossa jóia. Não era minha prática de
gerir negócios abandonar voluntariamente bens que eram de nossos
acionistas — como mais um álbum do Pink Floyd.”
O entusiasmo de Menon por Dark Side, compartilhado por seus colegas
em Los Angeles, fora aceso ao testemunhar as apresentações ao vivo que a
banda fizera na primavera e no outono de 1972. “Era absolutamente único:
tocou-me como um disco que seria tão crucial como Sgt. Pepper”, diz ele
enfaticamente. “O fato de que eles haviam tocado as músicas do disco em
shows era muito importante: eu e muitas pessoas que trabalhavam na
Capitol sabíamos a respeito dele muito antes do lançamento. E o mero
espetáculo de sua apresentação o tornava incrível. Quando os vi tocar em
1972, fiquei com a sensação de que era como assistir a uma das grandes
óperas de Verdi pela primeira vez. Tive aquele tipo de impacto.”
Como a comparação operística de Menon sugere, na apreciação dele, a
nova música do Pink Floyd se baseava em algo que ia um pouco mais fundo
do que o imenso potencial de vendas; mesmo em seu contato inicial com
Dark Side, ele alega ter detectado os contornos básicos dos temas que
definiam o álbum. “A música era incrivelmente estimulante”, diz. “No
início dos anos 1970 — depois da época das drogas e daquele clima tenso e
engajado do final dos anos 1960 —, havia um toque maravilhoso de
inteligência e sensibilidade. E transmitia uma espécie de desencanto adulto,
mas também uma preocupação com o estado do mundo.”
Menon resolveu rapidamente investir nas matérias entusiásticas da
imprensa e no devotado público norte-americano que o Pink Floyd havia
angariado ao longo do início da década de 1970 para desencadear um
movimento sem precedentes: “Uma campanha de marketing mais ampla do
que tudo o que a gravadora já fizera.” Se o modus operandi do Pink Floyd
havia em algumas ocasiões transmitido a idéia de “a arte pela arte”, o lance
comercial agora desenvolvia-se com entusiasmo, embora Menon se lembre
de que o grupo mostrava-se um pouco menos reticente do que sua reputação
sugeria. “Eram quatro pessoas muito ciosas de sua privacidade: não eram
do tipo que adorava festas de Disco de Platina”, diz ele. “Mas organizamos
uma festa para a imprensa em Nova York, num restaurante, e perguntei a
Steve O’Rourke se os rapazes gostariam de comparecer. Não tinha muita
esperança de que topassem. Mas vieram. Eram ambiciosos. Viam no disco
uma obra crucial. Definitivamente.”
À medida que o álbum era apresentado ao público norte-americano,
anúncios (“The Dark Side of the Moon — um soberbo disco de ouro que
está no primeiro lugar das paradas”) cobriam a imprensa do país. “Us and
Them” e “Time” foram editadas em versões condensadas para facilitar a
execução pelos programadores de rádio. A partir do momento em que os
ouvidos dos DJs foram capturados pelo novo som da banda,
admiravelmente compatível com a FM, o resto foi fácil. Alan Parsons
assinalou depois: “O álbum era um alimento notável para as rádios dos
Estados Unidos. Era muito programável. Se um disc-jóquei quisesse tocar
duas ou três músicas, uma após a outra, ele tinha o seu trabalho
perfeitamente facilitado porque as transições das faixas foram
cuidadosamente trabalhadas.”
O resultado de tudo isso ficou logo evidente na ascensão da banda ao
topo das paradas. Mas Menon, mancomunado com Steve O’Rourke (“Steve era determinado; tinha uma boa cabeça, nunca ficava ansioso demais”, diz
ele), possuía planos ainda mais ambiciosos: romper uma das regras tácitas
do Pink Floyd e promover Dark Side com o lançamento de um single. “Foi
preciso uma quantidade considerável de persuasão; eles foram muito
difíceis de convencer”, diz Menon. “Na primeira fase, o álbum subiu ao
número um e vendeu uma quantidade imensa de cópias. Aquela foi a parte
inicial da carreira do disco, por assim dizer. Precisava-se de um
‘catalisador’ que rapidamente o projetasse no tipo seguinte de audiência.
Isso implicava penetrar na AM, a Rádio dos top 40, que tocava todo tipo de
música e onde não havia nada parecido com Dark Side.”
O Pink Floyd não lançava um single desde a distribuição pela Grã-
Bretanha de “Point Me at the Sky”, composição de Roger Waters, que ficou
encalhado no final de 1968. Agora havia uma opção óbvia, tão indiscutível
que era unanimidade. Assim, “Money” (“uma escolha quase automática”,
segundo Menon) foi reeditada em versão menor e enviada para as estações
de rádio, tendo sido despida da palavra bullshit2 e acompanhada por “Any
Colour You Like” no lado B. Foi lançado em 12 de maio; em 30 de junho
estava no número 26, um lugar abaixo do meloso tributo de Tony Orlando
and Dawn às tropas que voltavam do Vietnã, “Tie a Yellow Ribbon Round
the Old Oak Tree”. No fim, conseguiu subir mais 13 posições.
Earl´s Court Arena, Londres, maio de 1973.
Àquela altura, após retornar ao Reino Unido para fazer dois shows na
Earl’s Court Arena, em Londres, com capacidade para 20 mil pessoas, o
Pink Floyd voltou aos Estados Unidos para uma turnê com 12
apresentações, abertas e fechadas por concertos que marcavam sua relutante
inclusão ao mundo do que ficou conhecido como “rock-de-estádios”. A
viagem começou com um espetáculo no Roosevelt Stadium, em Jersey City,
e, depois de uma série de shows em auditórios, terminou no Tampa
Stadium, com capacidade para 74 mil pessoas. Nesse momento o Pink
Floyd trombava com um dos elementos mais absurdamente circulares de
seu novo sucesso. Havia se livrado com alívio do circuito de salões de baile
graças à aquisição pós-Barrett de um tipo de público mais culto,
distintamente cerebral, e passava a se defrontar com uma multidão que,
novamente, queria simplesmente ouvir o grande sucesso. Em Carlisle,
Dunstable e Aberdeen, o público não chegava a mais de 200 espectadores;
agora, o Pink Floyd se via de frente a milhares intermináveis.
“O que mais me lembro desse período é da incrível chateação nos
shows”, diz David Gilmour. “Nos apresentávamos em lugares onde a
garotada toda berrava ‘Money!’ durante todo o espetáculo. Estávamos
acostumados com aqueles fãs reverentes…. Em alguns momentos
queríamos um pouco de calma, especialmente no começo de ‘Echoes’, e
todos gritavam ‘Money!’”
“Levei dez anos para deixar de me incomodar com as pessoas que
assobiavam durante números calmos”, disse Roger Waters em 1987. “Eu
parava e dizia: ‘Ei! Quem está assobiando? Vamos parar com isso —
silêncio!’”
“Quando você cresce tanto assim, não há como garantir que todos
estejam lá porque amam sua música”, diz David Gilmour. “Uma porção está
ali para se divertir, e não necessariamente porque comprou o disco da banda
e o adorou. Pagaram o ingresso, a escolha é deles. Aquela foi a grande
mudança na ocasião: havia um monte de gente que queria que tocássemos
algo que não queríamos. Pediam músicas mais agitadas, para se sacudir e
dançar, gritar, beber cerveja e ter bons momentos. Tivemos de modificar um
pouco as coisas que fazíamos. Sentíamos que estávamos fazendo
concessões? Sim. Mas o que se pode fazer? A gente fica meio preso.”
O novo público do Pink Floyd, maior e mais barulhento, saúda a banda na sua volta ao Rainbow, em Londres, novembro de 1973.
Se a experiência de divertir as novas e imensas audiências parecia dar a
sensação de que os shows escapavam ao controle da banda, algumas das idéias que eram vinculadas a The Dark Side of the Moon só serviam para
aumentar o sentimento de impotência. Na consciência popular, empatia,
insanidade e todo o resto da temática de Roger Waters pareciam ter menor
importância que os simples usos que se podia fazer do disco, o que inclui
sua amplamente aclamada adequação à cama. “Ouvi muita gente dizer que
gosta de transar ao som do álbum”, diz David Gilmour. “Phil Everly me
disse que era seu disco favorito para ouvir enquanto fazia sexo.”
David Gilmour e Roger Waters aproveitando uma folga durante turnê em 1974.
Houve outra associação comum que logo ficou irrevogavelmente
amarrada a Dark Side, expressa na idéia de que era “o álbum definitivo dos
drogados”. O fato de que as letras de Roger Waters eram tão diretas e
articuladas a ponto de se situarem a anos-luz do material arquetípico do
rock-maconha — e de que os músicos da banda não chegavam a ser
usuários compulsivos da cannabis — importava pouco: dentro da
ambiência envolvente do som de “Breath”, “The Great Gig in the Sky” e
“Brain Damage” havia seguramente uma trilha sonora ideal para aqueles
que gostavam de passar o seu tempo numa névoa de fumaça.
“Rick e eu dávamos uns tapinhas num baseado de vez em quando, mas
Roger e Nick não”, diz David Gilmour. “Não fazíamos nossos discos sob a
influência de drogas, mas tínhamos saído daquilo que se chamava a era
psicodélica, e nenhum de nós ficava chocado com tais rótulos. Acho que
nossa música induzia muito mais àquele tipo de lance do que as outras;
estávamos há muito tempo envolvidos em fazer música para a mente, assim
como para o coração. Mas não era uma parte essencial de nós.”
“Fazer amor e fumar maconha são atividades perfeitamente aceitáveis a
meu ver”, diz Roger Waters. “Acho que a pessoa pode levar o uso da
maconha a extremos que não lhe fazem muito bem. Pode gastar uma porção
terrível de tempo. E acho que é difícil fazer sexo demais.”
“Para ser franco”, diz Roger Waters, “assumo que, àquela época, me
tornei um capitalista. Você pode se chamar do que quiser, mas se você de
repente ganha um monte de dinheiro, a impressão é de que virou um
capitalista. Não dá para fingir…. Pode expor idéias humanitárias, o que eu
ainda faço, mas as coisas se tornam bem mais complicadas.”
Levando em conta a letra de Waters para “Money” (“I’m in the high-
fidelity first-class travelling set / And I think I need a Lear jet”), o sucesso
de The Dark Side of the Moon representou um caso flagrante de vida que
imita a arte. Os rendimentos da banda antes deste álbum eram bons, porém,
segundo os padrões da aristocracia do rock nos anos 1970, eles,
comparativamente, ainda mantinham estilos de vida frugais. “Até Dark
Side, não tínhamos muito dinheiro”, diz Nick Mason. “Estávamos sempre
pagando dívidas de equipamento. Só depois do disco é que tivemos casas,
em vez de apartamentos.”
História em quadrinhos de Dark Side.
À medida que 1973 passava, porém, suas contas bancárias começaram a
inchar, também por causa do novo contrato com a CBS, que lhes teria
trazido, segundo rumores, um adiantamento de um milhão de libras. No que
dizia respeito a Roger Waters, a prosperidade crescente da banda não
causava alegria desmesurada. Ao analisar os pensamentos que haviam sido
abordados durante a criação de Dark Side, ele lembra que os ganhos
astronômicos chegaram a lhe causar certa apreensão. “Quando você
subitamente ganha muito dinheiro, tem de decidir se dá aos pobres ou se
investe. Decidi doar um pouco e investir o resto.
“Fiquei diante daquele dilema, vindo do meio social de que viera. Não
podia mais fingir que era um verdadeiro socialista, mas 25% do dinheiro ia
para um fundo beneficente que mantenho desde então. Não faço muito
alarde disso; atua sobretudo na Inglaterra e tem a ver com crianças. Nada
que seja inovador. Uma das vantagens de ser capitalista é que você se torna
filantropo, até certa medida.”
Se as palavras de Roger Waters insinuam uma solução delicada para os
problemas apresentados pela fortuna recém-adquirida, outros integrantes da
banda lembraram episódios um pouco mais estranhos. “Depois de The Dark
Side of the Moon”, disse Rick Wright em 1994, “ganhamos um bocado de
dinheiro, e então comprei uma casa no campo. Tinha dois filhos pequenos.
Roger chegou e me disse: ‘Não posso acreditar que tenha feito isso… Você
se vendeu, acho revoltante.’ Seis meses depois ele comprou uma casa de
campo muito maior. Eu disse: ‘Está lembrado do que falou?’ Ele disse: ‘Ah, sim… mas foi porque minha mulher quis, não eu.’ Mentira absoluta. Eu o
achei um tanto hipócrita. Foi o que me deixou zangado com ele.”
Para o caracteristicamente descolado Nick Mason, que logo se tornaria
um ávido colecionador de carros de luxo, não parecia haver muito com que
se preocupar. “O dinheiro entrava com uma boa regularidade”, diz ele.
“Mas houve um momento em que pensei: ‘Poxa, posso comprar aquele
carro.’ Comprei uma Ferrari 275 GTB, porque não podia me dar ao luxo de
pagar por uma GTO na época.”
O Pink Floyd só começaria seu álbum seguinte em janeiro de 1975.
Como acontecera com The Dark Side of the Moon, as canções eram
trabalhadas em ensaios e tocadas ao vivo nos shows — desta vez na França
e no Reino Unido. Entre elas estava “Shine On You Crazy Diamond”, um
apaixonado hino para Syd Barrett em que Roger Waters desenvolveu alguns
dos temas que havia sugerido em “Brain Damage” — e, embora esta canção
em si não transmita a idéia de um impasse criativo, sua realização não
alcançou muita energia. Algo se extraviara: aquela sensação de força e
propósito que propelira a banda de Broadhurst Gardens para os Estados
Unidos, Japão e Europa, e também para os triunfos gravados em Abbey
Road. Ao transformar o seu próprio universo, o sucesso os levara a
questionar todos os seus aspectos: o grupo, seus talentos, os laços que
duravam, em alguns casos, desde meados dos anos 1960. Talvez,
inevitavelmente, essa sensação de ver esfaceladas certezas que pareciam
sólidas se estendia muito além de suas vidas profissionais. Foi neste
período, por exemplo, que terminou o primeiro casamento de Roger Waters.
Em retrospecto, a banda pode ter chegado perto de se separar, ainda que,
levando em conta o que poderia ser caridosamente encarado como a reserva
inglesa, ou malvisto como uma eterna incapacidade de se comunicar
genuinamente com o outro, muito pouco dos atritos internos fosse trazido à
tona. “Não é que pensássemos que estávamos para implodir ou explodir.
Simplesmente, falando com as pessoas depois, parecíamos um pouco
desanimados”, diz Nick Mason. “Certamente, eu não conseguia ver muito
bem o que iríamos fazer a seguir.”
Uma vez mais, para usar sua própria frase, “começar era um problema”.
Dificuldade por certo piorada pelo mesmo constrangimento emocional que,
lá atrás, em 1967, tornara o declínio de Syd Barrett ainda mais
problemático. Se The Dark Side of the Moon defendia a empatia e a compreensão, seus autores ainda pareciam ter absorvido muito pouco da sua
mensagem.
Assim, quando eles tardiamente se reagruparam em Abbey Road, havia
uma sensação silenciosa de crise. “Nas sessões de gravação de Wish You
Were Here”, Waters lembrou depois, “a maioria de nós não queria estar ali
de modo algum. Desejávamos estar em algum outro lugar. Não me sentia
feliz ali porque tinha a sensação de que não estávamos juntos.”
Talvez seja sintomático que David Gilmour, nunca tão otimista quanto
Nick Mason mas também não tão autocrítico como Roger Waters, tenha
afirmado que se sentia, ao chegar às sessões, como se houvesse passado
pelo processo de deslindar quem ele era e que rumo sua vida estava
tomando. “Suponho que gradualmente cheguei à conclusão de que era
músico e que gostava de fazer música”, diz ele. “Mas o sucesso teve um
efeito marcante sobre nossas personalidades e um efeito decisivo sobre a
gênese e criação de Wish You Were Here. Está bem documentado o fato de
que Roger achou que nós estávamos muito ausentes durante a gravação do
álbum e que ninguém queria realmente estar no estúdio fazendo aquele
trabalho. Acho que todos pensávamos isso um do outro naquela época. Mas
depois daquela sensação de ligeiro vazio veio outro grande álbum. Tão
bom, na minha opinião, senão melhor.”
Ainda assim, algo havia mudado. No contexto da década que se escoaria
antes que Roger Waters formalmente pedisse um tempo no seu
envolvimento com o Pink Floyd, a idéia de que Dark Side representou o
começo do fim poderia parecer um tanto errônea. Bem além dos
compromissos de turnês que definiriam muito dos seis anos que viriam a
seguir, mais três álbuns foram gravados, inclusive um disco climático que,
em termos financeiros, ao menos, ultrapassaria as conquistas de Dark Side.
Ainda mais em seus momentos conturbados, esta é a imagem precisa da
figura estridentemente ambiciosa que havia pilotado a banda até um ponto
tão alto que ela se viu sem outra opção a não ser gradualmente descer. “The
Dark Side of the Moon acabou com o Pink Floyd de uma vez por todas”,
afirmou certa vez Roger Waters. “Alcançar aquele tipo de sucesso é a meta
de todo grupo. Uma vez que você chegou lá, está tudo acabado.”
1 Grossman depois mudou-se para o Reino Unido, onde há muito tempo é apresentador de TV especializado em gastronomia. Em 1995, lançou sua própria linha de produtos alimentícios baseados numa variedade de molhos indianos, asiáticos e de massas.
2 “Asneira”, “bobagem”; literalmente, “merda de boi”. O som agressivo do shit doía aos ouvidos mais puritanos. (N.T.)
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