The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-prima do Pink Floyd
1. O lunático está na minha cabeça: Syd Barrett e a gênese do Pink Floyd
1.
O lunático está na minha cabeça: Syd
Barrett e a gênese do Pink Floyd
EM 22 DE JULHO DE 1967, os quatro integrantes do Pink Floyd estavam a
caminho de Aberdeen, na Escócia, o destino mais ao norte que a maioria
dos músicos britânicos chegam a atingir. Na noite seguinte estariam em
Carlisle, Cumberland, onde dividiriam o palco com dois grupos de nomes
pouco promissores, Lemon Line e Cobwebs. De meados até o final dos
anos 1960, assim era a vida de uma banda de rock britânica que há pouco
conquistara algum sucesso: uma jornada aparentemente incessante entre
salões cheirando a mofo, onde os habitantes locais eram atraídos pela
promessa de assistir às últimas sensações das paradas, e os músicos tinham
a certeza de serem recompensados em dinheiro. Se Londres estivesse longe
demais para voltar de carro, eles e seus camaradas ficariam aquartelados
num bed and breakfast, a pavorosa criação dos britânicos para substituir o
motel: um lugar em que os viajantes podiam descansar a cabeça numa casa
comandada por uma senhoria mal-humorada e, no café-da-manhã, provar
iguarias como chá morno, torrada mole e cogumelos enlatados.
Se esse aspecto da vida do Pink Floyd dificilmente sugeria algum tipo de
glamour, eles podiam se animar pelo fato de serem — naquele momento,
pelo menos — pop stars credenciados. Na semana em que chegaram a
Aberdeen, o segundo single da banda havia subido à sexta posição nas
paradas inglesas, colocando-se bem abaixo de “All You Need Is Love”, dos
Beatles, e “San Francisco (Be Sure to Wear Some Flowers in Your Hair)”,
de Scott Mackenzie. Assim como na primeira tentativa, “Arnold Layne”, a
canção “See Emily Play” era um exemplo perfeito das influências vindas da
Costa Oeste norte-americana que se infiltravam na Grã-Bretanha e eram
recicladas numa atmosfera bem inglesa de inocentes contos de fadas,
impressão reforçada pela elegância tipo Velho Mundo da letra, evidente no
verso de abertura: “Emily tries, / But misunderstand…”1
O sucesso do single foi impulsionado por uma série de matérias em
revistas que tratavam seus assuntos com extrema superficialidade — como
o Disc and Music Echo, semanário que geralmente encarava músicos como
itens passageiros numa linha de produção em série. No dia em que o Pink
Floyd estava em Aberdeen, a revista o honrou com sua reportagem de capa,
acompanhada por alguns retratos feitos a bico-de-pena, certamente
rabiscados em questão de minutos.
Roger Waters, dizia a revista, “gosta de pensar que é um homem rude, e
de fato pode ser muito malvado…. Só escuta música pop porque é obrigado
a isso”. Mantendo o tom agressivo e o ar de desmistificação, Nick Mason
era acusado de sentir prazer em ser grosseiro com as pessoas — “gosta que
o público tenha medo dele porque é alguém que ninguém nunca temeria”.
Rick Wright, por sua vez, era “o músico do grupo, e também muito
temperamental. Compôs centenas de canções que nunca serão ouvidas
porque acha que não prestam para nada”.
The Pink Floyd Sound, Stanhope Gardens, norte de Londres, 1965. Da esquerda para a direita: Rick Wright, Roger Waters, Nick Mason, o guitarrista Bob klose e Syd Barrett.
O mais longo esboço de personagem coube a Syd Barrett. O cantor,
guitarrista e principal compositor do Pink Floyd à época foi descrito como
“o homem-mistério do grupo — um cigano de coração…. ele adora música,
pintura e conversar com as pessoas, … totalmente artístico, … acredita na
liberdade total — detesta cortar ou criticar os outros e odeia que os outros o
cortem ou critiquem”. Barrett, dizia o semanário, “não liga para dinheiro e
não está preocupado com o futuro”.
Se tais palavras sugeriam certo contentamento, a realidade da vida de
Syd Barrett mostrava-se bem diferente. Dividia uma casa em Londres com
pessoas reputadas como “alucinados viciados em ácido”, que adoravam
apresentar seus conhecidos ao LSD sob o menor pretexto. A familiaridade de Barrett com as drogas datava de muito tempo atrás, mas seus colegas de
casa eram tudo, menos a companhia ideal: àquela altura, o uso de ácido por
Barrett começava a se manifestar em mudanças crônicas de humor, que
podiam levar a impetuosas crises de raiva — e violência ocasional — ou a
períodos catatônicos.
Tudo isso começava inevitavelmente a influenciar a vida e o trabalho do
grupo. Sete dias depois do espetáculo em Aberdeen, o Pink Floyd tocou
num imenso evento londrino pomposamente intitulado The International
Love-In. Poucos minutos antes de subir ao palco, Barrett saiu do ar; um
amigo da banda acabou por encontrá-lo “absolutamente pirado, totalmente
apático, sentado rígido, como uma pedra”. Empurrado para o palco, Barrett
ficou em silêncio a maior parte do tempo, exceto no momento em que
resolveu detonar rajadas de notas dissonantes na guitarra. Embora seus três
colegas fizessem o melhor para acobertá-lo, estava claro que havia algo de
errado: na ressaca do show, relatos da imprensa musical mencionaram
“exaustão nervosa”.
Apesar disso, o ritmo de trabalho do Pink Floyd não diminuiu. Em
setembro, o grupo estava na Escandinávia. Passadas seis semanas, depois de
outra série de apresentações na Grã-Bretanha, decolou para sua primeira
turnê nos Estados Unidos, durante a qual os problemas de Barrett se
agravaram. Os episódios mais documentados desse período são uma
apresentação no The Pat Boone Show, em que Barrett respondeu às
perguntas do apresentador com um olhar apático, fixo, e um longo silêncio;
e um comercial de três minutos no American Bandstand, no qual Barrett,
reagindo à instrução de fingir cantar “See Emily Play”, manteve a boca
firmemente cerrada.
Uma prova de que a agenda da banda era frenética é que dois dias depois
de retornar ao Reino Unido já estava de volta às turnês, desta vez na
companhia de Jimi Hendrix. “Havia um pouco de ‘Syd vai se safar desta, é
só uma fase’”, diz Nick Mason. “Acho que estávamos preocupados em
fazer Syd se encaixar naquilo que desejávamos, em vez de dedicar nossos
esforços a ajudá-lo. Provavelmente pensamos: ‘Ok, vamos tentar e seguir
com o trabalho.’”
“Ainda hoje”, diz Mason, “fico perplexo. Como pudemos ser tão cegos,
tão inocentes ou tão estúpidos?”
QUANDO CONVERSAMOS COM ALGUÉM que conviveu com Syd Barrett, uma
faceta de sua história se torna clara: mais que o pária de olhar raso e cheio
de astral, foi inicialmente uma presença gregária e entusiástica. “Tinha um
espírito muito amável”, diz Nick Mason. “Quando o conheci, lembro dele
saltitando e dizendo ‘Olá, eu sou Syd’, numa época em que todos agiam de
forma indiferente e fitavam o ambiente de maneira bastante estudada, em
vez de se apresentarem.”
“Syd era bem divertido”, diz Peter Jenner, metade da equipe
administrativa inicial do Pink Floyd. “Ele e eu sentávamos e queimávamos
um fumo, ouvíamos discos, falávamos sobre coisas. Afiado? Sem dúvida.
Eu não imaginava que ele iria pirar. Não havia qualquer indício. Sentia um
enorme respeito por ele, a ponto de ser completamente dominado: ele fazia
aquelas pinturas, escrevia todas aquelas canções, tocava guitarra, … era
cheio de idéias.”
Barrett nasceu Roger Keith Barrett, em 6 de janeiro de 1946, e foi criado
na cidade universitária inglesa de Cambridge. Seu pai, o dr. Arthur Barrett,
era patologista; sua mãe, Winifred, era uma dona-de-casa que
compartilhava com o marido a paixão pela música clássica e o desejo de
incentivar o lado criativo dos filhos com regulares “noitadas musicais” em
família. O dr. Barrett morreu quando Syd tinha 15 anos. Àquela altura, tinha
dado ao caçula (Syd tinha dois irmãos e duas irmãs) uma guitarra, e Syd
havia começado a entrar em contato com cabeças semelhantes à sua. Em
1962, era guitarrista de uma banda de Cambridge — garotos fascinados
pelo arquétipo do momento, o grupo beat-padrão — chamada Geoff Mott
and the Mottoes, cujos ensaios costumavam acontecer na sala de visitas da
casa da família Barrett. No círculo de amigos íntimos da banda estava
Roger Waters: dois anos mais velho que Syd, porém feliz, naquele
momento, em deixar a incerta arte da musicalidade para seu colega mais
jovem. “Syd estava um pouco à minha frente”, diz Waters. “Eu estava
muito na periferia. Lembro de desenhar pôsteres para Geoff Mott and the
Mottoes, desejando discretamente estar um pouco mais próximo do centro
das coisas.”
As atividades musicais de Barrett, aliadas ao talento para a pintura, que
o levou a matricular-se na Faculdade de Arte e Tecnologia de Cambridge,
logo o arrastaram para a jovem turma de descolados da cidade: um seleto
grupo de boêmios no final da adolescência que se reuniam no Criterion, um
pub encardido no centro de Cambridge. Ele e Waters logo estavam entre os clientes regulares, partilhando a companhia de um guitarrista adolescente e
estudante de línguas chamado David Gilmour, de Storm Thorgeson e
Aubrey Powell, cujas ambições imediatas se concentravam vagamente em
cinema e fotografia.
“O que realmente me chamou atenção em Syd foi que ele parecia uma
espécie de personalidade élfica”, conta Aubrey Powell. “Andava levemente
na ponta dos pés o tempo todo, meio que num passo saltitante. Tinha
sempre um sorriso sarcástico no rosto, como se de alguma forma estivesse
rindo do mundo. E era sempre um tanto solitário: podíamos estar com um
grupo de pessoas e de repente Syd sumia. Simplesmente evaporava e dois
dias depois voltava. Estava sempre muito na dele. O que eu gostava em Syd
era aquela fantástica atenção aos detalhes. Um dia entrei em seu quarto e
ele disse ‘Olhe só isso’. Havia três grandes dodecaedros pendurados no teto,
todos impecavelmente confeccionados em pau-de-balsa: absolutamente
perfeitos. Lembro de pensar: ‘Deus, que paciência para fazer aquilo.’”
Na visão dos forasteiros, Cambridge possui uma forte identidade
própria, eternamente ligada à universidade, fundada no século XIII e
respeitada tanto pela excelência acadêmica como pelo esplendor de seus
prédios e jardins. Embora atraia milhares de turistas à cidade, a
universidade também é responsável pela divisão que separa a população
entre cidade e universidade. Para a maioria dos jovens nascidos e criados
em Cambridge, a universidade é uma instituição irrelevante e
estranhamente remota; muito mais importante é a proximidade de Londres.
Nos anos 1960, Syd Barrett, Roger Waters e seus amigos eram um
exemplo perfeito disso. No verão de 1964, o grupo que freqüentava o
Criterion começava a se dissipar rapidamente: Barrett conseguira uma vaga
na Escola de Arte Camberwell, situada nos arredores ao sul da capital
inglesa, enquanto Roger Waters se preparava para estudar arquitetura na
Escola Politécnica de Regent Street, bem no centro de Londres. Waters
levou pouquíssimo tempo para dar o passo que, nos tempos de Cambridge,
sempre o frustrara: contando com seu círculo de novos amigos, formou um
grupo chamado Sigma 6 e escolheu para si mesmo a guitarra solo.
Entre os colegas de Roger Waters estavam um baixista chamado Clive
Metcalf, os vocalistas Keith e Sheila Noble, um baterista e guitarrista que
eram seus companheiros da faculdade de arquitetura. Foi nessa época que
Nick Mason e Rick Wright entraram em cena. Depois que Waters foi
deslocado para o baixo, Wright assumiu os teclados, e os integrantes mais periféricos foram excluídos. Syd Barrett também se juntou ao grupo. Barret
sugeriu que sua nova banda, depois de ter passado por nomes como T-Set,
Megadeaths e Abdabs, adotasse o nome The Pink Floyd Sound, em
homenagem a dois de seus cantores favoritos de blues, Pink Anderson e
Floyd Council.
Syd Barrett e Peter Jenner no meio das gravações de The Piper at the Gates of Dawn.
Roger Waters e Syd Barrett em Stanhope Gardens.
O grupo fez seu primeiro show no final de 1965 e começou a seguir a
trajetória musical que definiria o primeiro capítulo de sua carreira. Como a
maioria das bandas da época, apreciava os standards de grupos beats, como
“Louie, Louie” e “Roadrunner”. Mas usava essas canções como base para
longas improvisações, quando, liderados por Barrett, se afastavam da
ortodoxia dos três acordes e começavam a inventar. Não é difícil associar
esses vôos de fantasia musical ao uso de drogas por Barrett. Certamente,
embora seus colegas não fossem tão rápidos na ingestão de substâncias
ilegais, deve-se registrar que, à altura das primeiras evoluções do Pink
Floyd Sound, Barrett já estava bastante familiarizado com a maconha e o
LSD.
No verão de 1966, Peter Jenner, jovem graduado em economia, assistiu
por acaso a um show do Pink Floyd Sound no Marquee, clube londrino
onde o The Who aprendeu a tocar. “Eu era muito ligado na idéia de uma
vanguarda jovem e vibrante”, lembra. “Achei que este seria um show com
tais características. Cheguei lá, vi o Floyd e adorei, porque não conseguia
detectar de onde vinha cada barulho. O Marquee tinha um palco que de
certa forma se projetava, e fiquei andando sem parar ao redor dele, tentando decifrar a charada. Estavam tocando aquelas canções realmente
ultrapassadas, como ‘Louie, Louie’ e todos aqueles blues sem originalidade.
Não era muito coisa do Syd. Mas no meio da interpretação surgiam todos
aqueles lances estranhos: descobri depois que eram improvisos de um
acorde. Em vez de um solo de blues, ouvíamos um solo esquisito. Gostei
daquilo. Não podia sacar de onde vinha o som: da guitarra, do órgão…
Simplesmente pensei: ‘Isso é interessante.’”
POR VOLTA DE 1966, uma pequena multidão de londrinos com muita
identidade entre si começava a se unir no que ficaria conhecido como
underground. Formavam uma rede de pessoas jovens e criativas,
sintonizadas numa variedade de acontecimentos e alternativas culturais: a
emocionante possibilidade, corporificada pelo recente e inédito sucesso dos
grupos de rock ingleses, liderados pelos Beatles e os Rolling Stones; a
florescente cultura das drogas; o questionamento de determinadas
imposições sociais que logo levaria à legalização do aborto e do
homossexualismo; e uma situação econômica que fazia crescer as
oportunidades de emprego. Não menos importante era a grande quantidade
de influências vindas dos Estados Unidos: os beats, Bob Dylan e, mais
importante de tudo, a recém-nascida contracultura da Costa Oeste — suas
novidades tinham acabado de cruzar o Atlântico.
Devidamente inspirados, aqueles que se encontravam no centro da
boêmia de Londres começavam a criar seus próprios equivalentes. O
primeiro número de um jornal semanal de contracultura, o International
Times (também conhecido como IT), seria publicado em outubro de 1966.
Pouco depois, um evento semanal realizado de madrugada, chamado UFO,
teve início no improvável ambiente com temática irlandesa do bar londrino
Blarney Club. Por toda parte, galerias de arte, livrarias e acontecimentos
musicais intensificavam a sensação de uma iminente explosão cultural.
As linhas filosóficas que mantinham essa trama coesa eram tão variadas
quanto seus elementos constituintes, mas o underground se caracterizava
indiscutivelmente pelos temas comuns. Enquanto os movimentos radicais
anteriores haviam se concentrado no desejo de mudança em grande escala
— no caso da Grã-Bretanha, a classe social persistia como elemento
integral na maioria das críticas à sociedade —, a geração dos anos 1960
colocou nova ênfase na libertação do indivíduo, que seria emancipado,
segundo as vozes mais exaltadas do underground, pela adoção do hedonismo multicolorido que definia os círculos sociais mais antenados de
Londres.
Segundo Richard Neville, o imigrante australiano que contribuiu para a
contracultura londrina com a publicação da revista Oz: “O objetivo da
cultura alternativa era abalar a situação existente, romper as barreiras entre
sexos, raças e sabe-se lá o que mais, e era também curtir os bons momentos,
… ampliar o elemento lúdico de que cada um gozava ocasionalmente na
vida e tornar isso mais presente — não só para si mesmo como para todo
mundo. Eu, particularmente, batalhava para abolir a distinção entre trabalho
e diversão. Havia algo incrivelmente oprimido na cinzenta massa de
cidadãos nas ruas. Eu achava que as pessoas em geral pareciam infelizes,
atormentadas, sombrias e tolas, enredadas em ninharias. Acreditava que o
que acontecia em Londres traria cor para aquelas faces pálidas e aqueles
quartos fúnebres. Com um pouco de sexualidade, músicas excitantes e
flores, … de certo modo o rumo da sociedade poderia ser alterado.”
Se o estilo de vida de Syd Barrett implicitamente o aliava ao pensamento
do underground, Peter Jenner estava intimamente associado a alguns de
seus representantes mais cruciais. Com John “Hoppy” Hopkins, co-
fundador do International Times, criou o selo de discos DNA. Empolgado
pelo que viu no Marquee, Jenner logo abordou o Pink Floyd Sound com a
proposta de lançar seus discos. Liderados por Roger Waters, eles, em vez
disso, o persuadiram a assumir o papel de empresário da banda. Em
parceria com seu velho amigo — e ocasional funcionário da British
Airways — Andrew King, Jenner fundou uma empresa de nome pomposo,
a Blackhill Enterprises, e começou a prestar assistência a seus novos
clientes. Sua primeira iniciativa foi inspirada: suspeitando que The Pink
Floyd Sound dava ao grupo um ar brega e inoportuno de vaudeville, ele os
convenceu a se chamarem simplesmente The Pink Floyd.
Graças aos contatos de Jenner, o grupo foi rapidamente alçado ao
coração do underground. Em setembro de 1966, tocaram no primeiro dos
vários concertos beneficentes para a Notting Hill Free School — uma
experiência contracultural educativa na qual Jenner estava integralmente
envolvido —, realizados no Tabernacle, um templo no oeste de Londres. No
mês seguinte, se apresentaram na festa de lançamento do International
Times. Dois dias antes do Natal, foram a atração principal da primeira noite
do UFO, inaugurando uma relação pela qual o Pink Floyd se tornaria a banda da casa. Com músicas que pareciam feitas sob medida, fornecia a
trilha sonora para a escuridão perfumada do ambiente.
A estética do Pink Floyd parecia planejada para atingir um ajuste
perfeito entre a banda e seu novo público. À medida que as versões cover
convencionais eram substituídas por composições originais de Syd Barrett,
as longas improvisações dos shows se tornavam elaboradas a ponto de
serem classificadas com a palavra da moda: “psicodélica” (os anúncios das
apresentações da Free School tinham como fio condutor a máxima do dr.
Timothy Leary: “Turn on, tune in, drop out”2 ). Inspirado pelo pouco que
conhecia dos incrementados shows de rock nos Estados Unidos, o grupo
agora se apresentava em palcos tomados por projeções de luz saídas de
equipamentos improvisados.
O resultado, segundo os que haviam acompanhado a evolução desde o
início, se aproximava de uma revelação. “Eles começavam uma canção
como ‘Astronomy Domine’”, diz Aubrey Powell, “construíam um clima de
frenesi que depois se esvaziava. Então surgiam aqueles momentos
demorados e quase constrangedores: não se chegava a saber o que estava
acontecendo. Syd tirava sons estranhos e gerava verdadeiros momentos de
tensão. Aí, subitamente, voltavam à canção e a finalizavam. Era incrível o
que Syd conseguia fazer. Havia algo muito perturbador. Não era como
assistir a qualquer outra banda.”
Visto de fora, o Pink Floyd parecia integrado à aristocracia do
underground. Com exceção de Syd Barrett, se mantinham cautelosamente a
distância — felizes por fazer os shows, mas surpreendentemente
desinteressados pelas substâncias ou crenças que em geral acompanhavam o
movimento. “Nossas apresentações, graças a tudo que as envolvia, eram
notáveis”, diz Roger Waters.
“Era muito divertido ir ao Tabernacle e tocar ‘Louie, Louie’ por 15
minutos. Algumas das primeiras canções de Syd foram tocadas nessa fase,
mas muito do que fazíamos era resultado da quantidade de tempo que
deveríamos permanecer no palco: às vezes tínhamos três apresentações por
noite. Mas nunca conheci qualquer daquelas pessoas tão bem assim. E até
hoje não sei exatamente o que era a maior parte daquilo tudo. Falava-se em
revolução, mas nunca era algo específico. Não sei…. Li o International
Times algumas vezes. O que era afinal a Notting Hill Free School? O que
ela deveria fazer?”
“Há uma ótima frase daquela época: ‘Eles estavam todos drogados e nós
bêbados’”, diz Nick Mason. “Na minha opinião, a associação com o
underground era certamente uma conveniência. Acredito que todos
concordávamos com isso. Mas, como ocorre com esse tipo de coisa, havia
algo bom no lance, misturado a um bocado de conversa fiada. Surgiam
algumas boas idéias, e certas opiniões generosas bem fundamentadas. Mas
havia também um número igual de pessoas com cartas de tarô e cristais. A
quantidade de rosários de amor que acumulávamos… Nunca cheguei a
acreditar que fosse uma boa maneira de projetar nosso futuro.”
EM FEVEREIRO DE 1967, o Pink Floyd assinou contrato com a EMI e recebeu
um adiantamento de cinco mil libras. O primeiro single, lançado em 11 de
março, foi gravado no início do ano sob a supervisão de Joe Boyd, o
imigrante norte-americano responsável pelas apresentações musicais no
UFO.
“Arnold Layne” incorporava uma economia voltada para o pop que
estava no pólo oposto da abordagem artística da banda. Ainda assim
conseguiu preencher seus três minutos com a sensação de que seus autores
conduziam sua música para um terreno inexplorado. A combinação do
vocal rascante e perturbado de Barrett, a sutil rejeição de uma estrutura
rígida entre introdução e refrão, e sua temática — o estilo de vida de um
travesti cleptomaníaco no centro de uma Inglaterra picaresca — davam a
impressão de uma engenhosa subversão do formato pop. Quando começou
a subir nas paradas e ficou lado a lado com singles dos Monkees, dos
Turtles e do Dave Clark Five, a idéia ficou explícita.
Enquanto isso, o grupo era alvo das atenções da imprensa, centrada
principalmente no tema do single (“Meet the Pinky Kinkies!”3, dizia uma
das manchetes) e a suposta natureza transgressora dos seus shows. “O Pink
Floyd oferece um espetáculo completo, com 700 watts de amplificação,
música com zumbidos estranhos (com longas improvisações) e projeções de
luzes e slides de pinturas a óleo em dissolução”, disse o Disc and Music
Echo. “No palco, o Floyd se torna completamente entregue à sua música e
quer absorver as mentes de sua platéia também, o que não é fácil na
habitual atmosfera fria de Londres.”
As multidões na capital inglesa, porém, logo se revelaram ser a menor
de suas preocupações. Com o sucesso velado de “Arnold Layne” — chegou
ao 21º lugar na parada de singles do Reino Unido, apesar de reprimida nas
rádios, pela letra ousada —, o Pink Floyd embarcou no circuito de salões de
baile regionais da Inglaterra, que definiria muito de suas vidas nos seis
meses seguintes. Fora de Londres, a proposta musical do grupo nada
contava: embora os freqüentadores do UFO e do Tabernacle pudessem se
entusiasmar com as incursões experimentais da banda, em outras regiões, as
pessoas esperavam um tipo mais ortodoxo de diversão — música para
dançar e o simples prazer de ouvir os mesmos sucessos que os rádios
berravam.
O Pink Floyd no UFO, 1967.
“A indústria era muito diferente naqueles tempos”, diz Peter Jenner.
“Basicamente, você só fazia dinheiro com shows. Aquele era o trabalho deles. Tocar num grupo significava fazer seis apresentações por semana, ou,
com sorte, nove, com rodadas duplas no fim de semana. O negócio era
entrar na caminhonete, partir com o equipamento e se apresentar. Depois
você faria um disco — caso se saísse bem, faria também um single. Se
tivesse sorte, este se tornava um sucesso, e seu cachê aumentava.”
“Fazíamos qualquer coisa, íamos a qualquer lugar”, conta Roger Waters.
“Entrávamos na caminhonete e aguardávamos ansiosamente pelas 50 libras.
Era um trabalho duro. Lembro-me de uma série de shows que começou em
Douglas, na ilha de Man, depois partiu para Norfolk, e no dia seguinte
estávamos tocando em Elgin, na Escócia. Isto é bastante. Havia concertos
com platéias raivosas também: sacadas que davam em cima do palco e
pessoas que nos jogavam copos de cerveja. E, obviamente, todos queriam
ouvir os sucessos. Freqüentemente nos recusávamos a tocá-los.”
“O show que realmente permanece na minha cabeça é o do Queen’s
Hall, em Barnstaple, um antiquado salão que recebia bandas pop”, diz Peter
Jenner. “O lugar tinha uma sacada em volta do palco, e as pessoas jogavam
cerveja neles. Precisávamos do dinheiro, mas havia um conflito entre o
mercado para o qual estavam tocando — um mercado de top 20 — e o que
a banda tocava: um verdadeiro material de vanguarda. Tínhamos os
mesmos problemas todas as vezes que eles saíam de Londres. Ficava tudo
bem quando se apresentavam nas universidades: todo mundo aparecia com
sinos no pescoço e carregando incensos. Mas quando iam para outro lugar,
era difícil. Passaram maus bocados.”
Por ora, a força viva do grupo se mantinha, embora as pressões do
cronograma da banda, exacerbadas pelo uso de drogas, começassem a
causar danos em Syd Barrett. Em março de 1967, o grupo entrou nas dependências sagradas dos estúdios de Abbey Road, da EMI, para trabalhar
em seu primeiro álbum, The Piper at the Gates of Dawn. De acordo com os
termos do contrato, deveriam trabalhar com um produtor da casa chamado
Norman Smith, cujo currículo pelo menos apresentava uma recomendação
implícita: tinha sido engenheiro-chefe em todos os discos dos Beatles até
Rubber Soul. Graças sobretudo a Barrett, entretanto, a relação de Smith
com seus novos protegidos rapidamente se mostrou bem estressante. “Era
um inferno” — recordou Norman Smith depois. “Não há lembranças
agradáveis. Eu sempre saía com dor de cabeça. Syd era indisciplinado,
jamais cantava a mesma coisa duas vezes. Tentar falar com ele era como
conversar com uma parede de tijolos, pois seu rosto não demonstrava
qualquer expressão…. Era uma criança em muitos aspectos: para cima num
minuto, para baixo no outro.”
Mesmo com todo o sofrimento, na avaliação de Peter Jenner, Norman
Smith alcançou uma louvável proeza artística: extrair o sentido de estética
pop de Barrett da maçaroca instrumental que definia as performances do
Pink Floyd. “O que ele fez”, declara Jenner, “foi dizer: ‘Ok, você escreveu
estas boas canções pop. Vamos a elas, com alguns intervalos instrumentais
esquisitos.’ Então, em vez de blues com intervalos instrumentais esquisitos,
havia canções pop com intervalos instrumentais esquisitos.”
Um sinal da idéia-mestra era percebido na faixa de abertura,
“Astronomy Domine”: do sinistro rugido de guitarra inicial de Barrett, fica
evidente o rompimento que está prestes a se fazer no padrão das normas
musicais daquela época. Mas o núcleo de improvisação e exploração do
tema é amparado por trechos que denunciam um sentido firme de controle
musical e um domínio intuitivo das demandas melódicas do pop. Mesmo
“Interstellar Overdrive”, a missão-declaração que representou o espírito das
apresentações da banda transposto para fita, é, afinal, uma vitrine para a
habilidade do grupo, deixando o caos solto apenas para pegá-lo pelas
rédeas. Apesar de toda a informalidade lisérgica enraizada no primeiro
minuto — pontuada pela tensão musical que Aubrey Powell achou tão
atraente nos shows da banda —, seu riff central é a essência do controle e
de um vigor enxuto: seguramente quando, de forma gloriosa, retorna à cena
após oito minutos e meio, tem-se a sensação de que a banda está
decididamente voltando à Terra.
Outro aspecto notável de Piper eram as letras de Barrett. Ao mesmo
tempo que a música revelava poder e sofisticação, as palavras eram recorrentemente originárias da simplicidade frágil da infância, com
freqüência manifestada de maneira tão inocente que era difícil não se
chegar a uma explicação bruta para o colapso de Barrett. A pergunta é:
como poderia o tipo de mente que surgiu com “The Gnome” (“Look at the
sky, / look at the river — / isn’t it good?”4) ou com a rósea e autobiográfica
“Matilda Mother” — uma recordação enternecida de Winifred Barrett lendo
contos de fadas para seu filho — se adaptar às duras demandas da vida
adulta, sem falar nas pressões que sucedem o despertar do sucesso
comercial? O rock, mesmo naquele tempo se baseava apenas parcialmente
em talento e criatividade. Se um músico quisesse sobreviver, precisava
também de astúcia, flexibilidade e determinação: resumindo, um mordaz
sentido de ambição.
“Syd era um verdadeiro hippie em muitos aspectos”, diz Aubrey Powell.
“Se ele tivesse uma guitarra, pudesse tocar algumas canções e cantar um
pouco de suas maravilhosas partículas de poesia, e alguém lhe fornecesse
um bom espaço onde pudesse ouvir seus discos do Bo Diddley, aquilo era o
bastante. Mesmo quando começou a ganhar dinheiro, Syd não vivia de
forma extravagante. Estava bem contente em morar num flat sem nenhuma
mobília. Nesse sentido, era um verdadeiro boêmio. Nunca senti que
possuísse as características de um popstar; não foi feito para isso.”
The Piper at the Gates of Dawn foi precedido por “See Emily Play”, que
lançou o Pink Floyd em território vertiginoso, escalando para o número seis
da parada inglesa de singles, e confirmou a necessidade de excursionar
incessantemente pelo país para prolongar o sucesso. Na ocasião do
lançamento, entretanto, Syd Barrett começava a sucumbir. “Ele foi ficando
constantemente mais afastado”, diz Peter Jenner. “Era difícil falar com ele.
De casualmente introvertido passou a muito estranho. Sua vida se tornou
cada vez mais autocentrada, até que raramente o víamos. Aí comecei a me
preocupar, achando que algo muito errado estava acontecendo.”
A MAIORIA DAS CANÇÕES DE PIPER foi escrita durante um estouro de
criatividade no final de 1966 e início de 1967, quando Barrett morava num
apartamento na rua Earlham, na região central de Londres. Segundo as
lembranças de seu colega de quarto e técnico de iluminação do grupo, Peter
Wynne-Wilson, “aqueles foram dias prósperos. Ele se sentava com enormes
quantidades de haxixe e maconha, e escrevia aquelas canções incríveis. Não há dúvida de que elas foram compostas de maneira meticulosa e
deliberada”.
Em abril de 1967, Syd Barrett havia mudado sua base de operações para
Cromwell Road 101, uma residência na área de Earl’s Court, oeste de
Londres. Entre os habitantes que dividiam a casa estava um certo Brian
“Scotty” Scott, lembrado por um dos integrantes do Pink Floyd como “um
dos missionários originais do ácido na caixa d’água e do vamos mudar a
cara do mundo”. Para Barrett, o resultado de tal companhia foi bem claro.
“Ele parecia estar sob a influência do ácido todo dia”, conta Peter Jenner.
“Ouvíamos rumores de que ele punha ácido no chá todas as manhãs. Este,
seguramente, não era o estilo de vida ideal para alguém que se mostrava
cada vez mais sensível, mas até aí nem a banda nem seus amigos acharam
conveniente interferir.”
“Tudo vinha para cima de nós, de todas as direções”, diz Peter Jenner.
Nos primórdios, quando Syd morava na Earlham Street, eu aparecia por lá
muitas vezes para vê-lo. À proporção que o grupo se tornou maior, ele se
mudou para seu próprio ambiente social. Encontrávamos ele cada vez
menos, se tornou mais distante. Percebemos que havia algo de estranho
acontecendo em Cromwell Road, mas eu não conhecia as pessoas que
andavam por lá. Também nunca achei que fosse trabalho meu descobrir. Só
ficou claro que havia um problema com os shows, com o trabalho….
Naqueles dias, era careta — bicho — se meter na vida de alguém.”
Quando o grupo e sua equipe tentaram lidar com a complicada situação
de Syd Barrett, fizeram isso, inicialmente, no contexto de uma invenção
fundamental dos anos 1960 conhecida como antipsiquiatria, uma das muitas
linhas de pensamento adoradas nos altos escalões do underground. Com
relação a outras crenças da época, era um ajuste perfeito: assim como
insiders do underground como Richard Neville acreditavam que a chave
para a mudança social estava na liberação moral e emocional do indivíduo,
a antipsiquiatria pregava que as fraquezas da civilização do século XX eram
refletidas em casos isolados de supostos colapsos mentais. O principal
pioneiro de tudo isso foi um médico escocês chamado Ronald D. Laing,
nascido em 1927, radical o suficiente em seu meio a ponto de ser cooptado
para o underground por seus jovens admiradores.
Laing encontrava-se transitoriamente envolvido na Notting Hill Free
School, tornou-se presença regular nos eventos do underground e estava
decididamente ligado à atmosfera de 1967 quando, no mesmo ano, publicou A política da experiência, livro baseado em uma polêmica extraída de suas
palestras. A esquizofrenia, afirmava a publicação, originava-se de um
desejo racional de escolher ficar fora de circunstâncias impossíveis de
serem evitadas: “A experiência e o comportamento classificados como
esquizofrênicos são uma estratégia especial que a pessoa cria para viver
numa situação não vivível.” Além disso, o suposto esquizofrênico seria, na
verdade, capaz de perceber e realizar coisas mais notáveis que os
considerados sãos. Na visão de Laing, perguntar se essa condição se devia
totalmente a uma deficiência da parte do sofredor era o mesmo que “supor
que um homem que se apoiasse sobre as mãos numa bicicleta em cima de
uma corda bamba, a 30 metros do chão e sem rede de segurança, esteja
sofrendo de incapacidade de ficar de pé. Poderíamos também perguntar por
que essas pessoas têm de ser, muitas vezes de maneira brilhante, tão
erráticas, ardilosas, evasivas e capazes de se mostrar tão incessantemente
incompreensíveis”. Tudo isto era sublinhado pela crença de que a sociedade
esmagava tanto o potencial de um indivíduo que a desarticulação mental era
inevitável. “A pessoa comum”, escreveu Laing, “é um fragmento murcho,
dissecado, do que uma pessoa pode ser.”
“Havia muita gente assim, acreditando que era bom ser louco e que os
outros é que não faziam sentido algum”, lembra Roger Waters. “Pode até
ser que exista algo de pertinente na idéia de que as pessoas consideradas
loucas tenham a capacidade de ver coisas que os demais não conseguem, e
que suas experiências possam iluminar a vida para nós. Mas ele parecia
pensar que a insanidade era uma idéia totalmente subjetiva; que talvez a
loucura pudesse dar às pessoas uma espécie de percepção mais apurada. No
caso de Syd, talvez se pudesse dizer que a tendência para a esquizofrenia
foi que lhe deu o talento para externar coisas levemente intangíveis. Mas
confesso que sinto muito menos isso agora do que posso ter sentido naquela
época.”
Syd Barrett em Abbey Road, primavera de 1967.
Syd Barrett no final de 1967.
Abbey Road, 1967. Da esquerda para a direita: Roger Waters, Nick Mason, Syd Barrett e Rick Wright.
“Com os problemas mentais de Syd bem evidentes”, diz Peter Jenner,
“havia um sentimento de ‘Foi culpa nossa ou dele? Quem de fato está
louco: ele ou todos nós? Será que o maluco está falando a verdade?’ Para
alguém como eu, que era muito jovem, pretensioso e intelectual, que lia
muitos livros, era bem difícil enfrentar a situação. Sabíamos que algo estava
um tanto esquisito. Mas, de certa forma, toda a aventura do Floyd havia
sido bastante fora dos padrões. Estávamos todos caminhando no limite,
então, o que havia de errado em Syd andar sobre o limite? Em que ser
original, novo e diferente significava ser biruta? Parecia impossível dizer. É
um círculo vicioso.”
Em determinada ocasião, os colegas de Syd Barrett arranjaram um
encontro com Laing, mas Syd decidiu no último momento que não desejava
ir adiante. “Ele não queria sair do carro”, diz Roger Waters, que o
acompanhou à casa de Ronald Laing. “Não acho que isso tenha sido
necessariamente ruim. Laing era um velho desagradável e maluco àquela
época. [Pausa] Na verdade, ‘desagradável’ é um pouco forte. Mas ele
andava bebendo bastante.”
Ao contrário dos pensamentos em moda na época — e de forma
coerente com sua relação distanciada do underground —, Waters alega ter
chegado rapidamente a um diagnóstico convencional para os problemas de
Barrett. “Syd era um esquizofrênico”, diz ele. “Estava bem claro para mim
que este era o seu caso. Mas nem todos aceitavam isso. Eu tinha laços com
a família de Syd que vinham de longa data, e me lembro de ligar para um de
seus irmãos e pedir que o viesse buscar, pois Syd estava totalmente perdido
e precisava de ajuda. Nós três nos sentamos, e realmente Syd deu uma
demonstração bastante convincente de sanidade. Seu irmão falou: ‘Roger
diz que Syd está doente, mas não é o que parece.’”
“Houve muito bate-boca com a família de Syd e muita discussão sobre
de quem era a culpa”, afirma Waters. “A mãe dele me responsabilizava
completamente por sua doença. Achava que eu o teria levado para os clubes
de striptease de Londres e enchido sua cabeça de drogas. A verdade é que
nunca tive nada a ver com o uso de drogas. Certamente não com Syd, ainda
que ele tenha se entregado completamente ao ácido, o que, tratando-se de
um esquizofrênico incipiente, obviamente era a pior coisa no mundo para
acontecer. Entretanto, as mães têm seus filhos prediletos — e, se algo dá
errado, precisam encontrar alguém para culpar.”
O declínio de Syd Barrett teve como ambiente um ritmo frenético de
atividades: a já mencionada turnê norte-americana, uma série de shows na
Inglaterra com o Jimi Hendrix Experience e The Nice, e tentativas de gravar
um novo single para capitalizar em cima do sucesso de “See Emily Play” e
The Piper at the Gates of Dawn. O fato de que Barrett conseguira honrar a
grande maioria de seus compromissos parece um pouco milagroso, embora
seu comportamento levasse a uma crescente tensão dentro do grupo.
Enquanto Roger Waters, Nick Mason e Rick Wright tentavam conferir
algum sentido de estrutura aos shows da banda, Barrett estava propenso a
instaurar a anarquia musical, regularmente desafinando sua guitarra e
freqüentemente mostrando-se relutante em cantar. Em pelo menos um show
da turnê com Hendrix ele não foi nem persuadido a subir ao palco: e assim
o guitarrista do grupo The Nice, David O’List, foi convencido a assumir
temporariamente seu lugar.
“Ficamos irritados”, diz Nick Mason. “Havia muito muxoxo: um monte
de ‘Ó Deus!’ E até certa altura ignorávamos aquilo. Minha lembrança é a
seguinte: não rolava nenhuma encrenca nos camarins. Nunca houve
qualquer confronto, era algo como ‘temos de evitar atritos a todo custo — pelo amor de Deus, vamos tentar fingir que está tudo bem. Não podemos
entrar em crise. Talvez as coisas fiquem numa boa se conseguirmos levar
elas em frente’. Acho que é uma característica peculiarmente inglesa. Mas
não tínhamos aquelas habilidades em termos de [pausa] recursos humanos.
“Em nenhuma noite tínhamos idéia do que iria acontecer. Não é como se
todo show ou canção fossem um desastre. Não lembro de estar no palco e
pensar ‘Lá vamos nós de novo’. Cada momento reservava uma nova
surpresa.”
No estúdio, a inconveniência da atitude de Syd Barrett ficou ainda mais
visível na gravação de um novo single composto por ele, “Apples and
Oranges”. Na visão de Roger Waters, “uma puta canção… destruída pela
produção”. O resultado pareceu um esboço incompleto do que poderia ter
sido lapidado, não estivesse seu autor tão frágil. O público da banda
certamente pensou assim. Ainda que a EMI estivesse desesperadamente à
espera de um terceiro sucesso, “Apples and Oranges” emperrou.
Syd Barrett e Roger Waters a caminho da Dinamarca, em setembro de 1967, época em que Syd decaía rapidamente.
As sessões que produziram “Apples and Oranges” também deram
origem a três outras músicas escritas por Barrett, e todas atestavam seu
declínio. Em “Jugband Blues”, uma canção que cambaleava à beira de um
colapso antes de ser abrupta e inexplicavelmente invadida por uma banda
do Exército da Salvação, ele chegou perto de expressar uma sensação crônica de auto-alienação (“I’m not here… / And I’m wondering who could
be writing this song”5). “Scream Thy Last Scream”, na qual Barrett era o
tempo todo acompanhado por um apressado e irritante backing vocal, era
tudo menos classificável, principalmente por causa da cacofonia de ruídos
da platéia. Mais reveladora talvez seja “Vegetable Man”. Se a letra sugeria
de maneira superficial uma piada de auto-reprovação, também denunciava
um senso evidente de autoaversão, destacado pela música confusa e
destoante que compunha a camada sonora de fundo.
Nas quatro canções, o sentido de inspirada exploração que fora o
carimbo de qualidade em The Pipers at the Gates of Dawn tinha evaporado.
Nesse momento, ao que tudo indicava, o Pink Floyd mergulhava no caos.
No final de 1967, Pink Floyd (o “The” continuaria a aparecer em
pôsteres e panfletos até a metade de 1969, embora seu uso estivesse em
claro desvanecimento) encontrava-se num momento crítico e não invejável
de sua carreira. Era evidente que a situação de Barrett se tornara
insustentável. Mesmo assim, a administração do grupo mostrava firmeza ao
declarar que um futuro sem sua colaboração criativa era inconcebível. A
única composição de Roger Waters até então era “Take Up Thy Stethoscope
and Walk”, uma embromação musical que resultou na única falha berrante
de Piper; Rick Wright havia contribuído com “Paintbox”, que entrou como
lado B de “Apples and Oranges”, uma narrativa leve sobre uma noite na
cidade que não tinha nada do experimentalismo habitual do grupo e beirava
perigosamente a pavorosa categoria de easy listening.
Para Peter Jenner e Andrew King, tudo isso resultou na evidência de que
de algum modo deveriam manter Barrett na banda. Roger Waters,
entretanto, era irredutível quanto à saída de Barrett. “Roger era o líder do
partido ‘Syd deve sair’”, diz Peter Jenner. “Ele falava: ‘Não podemos mais
trabalhar com esse cara. É impraticável irmos para um show sem saber se
ele vai aparecer ou não, ou se vai manter o roteiro das canções — isso está
nos deixando com cara de tacho’. Ele estava na linha de frente, ao passo
que eu ficava no escritório bancando o intelectual. Mas Roger tinha
consciência de que estavam acabando com suas carreiras ao fazer aqueles
shows com Syd. Não sabíamos o que fazer. E o partido de Syd — eu e
Andrew — não tinha confiança de que pudesse compor sem ele.”
Para que chegassem a um acordo foi sugerido que o grupo recrutasse um
segundo guitarrista e deixasse Syd Barrett aparecer com a banda quando
estivesse suficientemente em forma, além de continuar a escrever as canções. Assim, eles travaram contato com um velho conhecido da época
de Cambridge, David Gilmour, até então pouco notado num trio londrino
chamado Bullit. Ele aceitou a oferta de um novo trabalho, lembra-se depois,
basicamente graças à perspectiva de “fama e garotas”. Comparado ao
passado do grupo antes de sua entrada, pelo menos, ele não teve um início
dos mais promissores. O prestígio da banda despencava de tal maneira que
seu recrutamento não foi exatamente uma manchete: o NME6 concedeu um
pequeno parágrafo e registrou o sobrenome do novo integrante como
“Gilmur”.
Em janeiro de 1968, a encarnação do Pink Floyd em quinteto fez quatro
shows em Birmingham, no refúgio costeiro de Weston-Super-Mare e em
duas cidades de Sussex — Lewes e Hastings. Aubrey Powell recorda de ter
visto pelo menos um desses shows e rapidamente ter sucumbido ao
desapontamento. “Syd não estava fazendo nada. Apenas sentava à frente do
palco e balançava as pernas. Era muito, muito esquisito.”
“Minha ambição inicial era colocá-los em forma de alguma maneira”,
lembrou Gilmour depois. “Parece ridículo agora, mas achei que a banda
estava péssima quando entrei. Os shows que vi com Syd eram
incrivelmente desorganizados. O líder caía aos pedaços e,
conseqüentemente, o grupo também.”
Não demorou muito para que o Pink Floyd se curvasse ante o inevitável.
Segundo recorda David Gilmour, a expulsão de Barrett do grupo foi
confirmada enquanto se dirigiam de Londres para um compromisso em
Southampton. “Alguém perguntou: ‘Devemos pegar Syd?’; e outra pessoa
disse: ‘Não, não vamos nos incomodar’. E esse foi o fim.”
Assim, então, o Pink Floyd prescindiu da figura sobre cujo talento sua
reputação havia se construído. “Seguimos em frente sem pensar duas
vezes”, diz Nick Mason. “Não nos ocorreu que não iria funcionar.
Analisando hoje, acho isso bastante curioso.”
David Gilmour junta-se à nova formação do Pink Floyd como quinteto, em janeiro de 1968. Da esquerda para a direita: Syd Barrett, David Gilmour, Rick Wright, Nick Mason e Roger Waters (abaixado).
1 Emily tenta, / Mas se engana… (N.T.)
2 “Se ligue, sintonize, fique fora.” (N.T.)
3 “Conheça os Tarados Rosados.” (N.T.)
4 “Olhe para o céu, olhe para o rio — não é bom?” (N.T.)
5 “Não estou aqui… / E me pergunto quem poderia estar escrevendo esta canção.” (N.T.)
6 New Musical Express, periódico britânico. (N.T.)
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