The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-prima do Pink Floyd
2. À espera, em calmo desespero: Roger Waters e Pink Floyd, estágio II
2.
À espera, em calmo desespero: Roger
Waters e Pink Floyd, estágio II
NUM PRIMEIRO MOMENTO, com a saída de Syd Barrett, parecia que a
liderança criativa do Pink Floyd estava ao alcance de quem a agarrasse. O
primeiro trabalho gravado para lançamento, no despontar da partida de
Barrett, foi a quase insuportavelmente caprichada “It Would Be So Nice”,
um single cuja superficialidade pop-psicodélica — semelhante, talvez, à
música de pseudocontraculturais como Hollies e The Monkees — lhe
rendeu um “não-evento” que não sensibilizou as paradas britânicas. Como
lembrou posteriormente Roger Waters: “Ninguém ouviu porque era um
disco bastante ruim.” Os esforços de Waters para compor, entretanto,
dificilmente se mostravam mais promissores. O lado B do single, “Julia
Dream”, cristalizou o mesmo problema: embora estivesse evidente que a
banda queria manter a estética de Syd Barrett, as tentativas soavam
desesperadamente insignificantes.
À medida que 1968 avançava, embora Rick Wright tenha continuado a
acrescentar canções ao repertório do grupo, logo se tornou claro onde
passava a se situar o poder: em Roger Waters, a figura que, mesmo com Syd
Barrett ainda presente, alimentava pretensões de ser o chefe da banda.
“Desde o primeiro dia ele parecia ser o líder do Pink Floyd”, diz Aubrey
Powell. “Portava-se como comandante. Podia ser bem brusco e até
grosseiro.”
“Roger sempre foi o cara da organização”, diz Peter Jenner. “Se eu
quisesse algo feito, tinha que o escalar. Ele sempre dava as boas idéias e
sabia o que desejava fazer. Era o mandão, aquele que eu precisava sempre
persuadir, pois também podia cortar o barato. Possuía a personalidade mais
forte nesse sentido.”
Se tal esboço de temperamento sugere uma cabeça com ambições
onipotentes, Peter Jenner também achou fraca a contribuição inicial de
Waters para a banda, com um talento musical aparentemente atrofiado e
sem sucesso na tentativa de satisfazer os códigos do que era cool no
underground. “Roger era o pior músico”, ele diz. “Não conseguia afinar sua
guitarra, não tinha ouvido musical e pintou com roupas terríveis quando
eles começaram a se tornar psicodélicos. O pior eram as calças vermelhas
com penduricalhos dourados que ele colocava ao lado do traseiro — o tipo
de coisa que se bota em cortinas. E ainda punha o isqueiro numa espécie de coldre, pendurado no cinto. Era terrivelmente brega. Mas se achava
maravilhoso.”
Apesar da amizade, as diferenças entre Roger Waters e Syd Barrett
deixavam-nos parecidos com habitantes de mundos completamente
diversos. A personalidade de Barrett, por volta de 1967, era desapegada,
não materialista, crescentemente espiritual; Waters, em contraste, mostrava-
se mais cabeça-dura em sua conduta. Um se tornou a encarnação viva da
contracultura dos anos 1960; o outro escolheu manter-se cautelosamente a
distância. Talvez o mais revelador de tudo, considerando que o consumo de
drogas por parte de Barrett revelava-se desastrosamente excessivo — não
só pelo vício em ácido, mas também quando se tratava de maconha e do
sedativo Mandrix —, fosse o fato de Waters beber bastante, mas raramente
consumir algo ilícito.
Roger Waters, o psicodélico relutante.
“Lembro de uma noite no UFO”, recorda Aubrey Powell. “Syd e Roger
estavam lá nos bastidores quando entra Paul McCartney. Foi um momento
de grande surpresa: ‘Porra, um Beatle veio assistir ao Pink Floyd.’
Realmente era uma coisa do outro mundo. Paul estava fumando um baseado e passou para os outros. E Roger, que eu nunca tinha visto fumar antes, deu
uma imensa tragada. Ele sabia quando entrar no jogo.”
Roger Waters, como ele próprio admite, tomou ácido apenas em duas
ocasiões. Uma delas foi durante uma viagem à Grécia, em 1966, com um
grupo de amigos que incluía Rick Wright. “Eu não deixei de tomar
novamente porque vivi uma experiência particularmente ruim. Tinha mais a
ver com o poder daquilo”, diz ele. “Desde então ouvi meus filhos falarem
sobre tomar ácido e sair, o que me fez pensar: ‘Sair? Você não sai quando
toma um ácido!’ Você ingeria suas 600 miligramas ou o que fosse e
dispunha-se a ficar em casa. Era uma experiência suficientemente poderosa,
que se tornava sua única opção. Tomei ácido na Grécia e pensei que estava
saindo do outro lado. Então fui à janela da sala onde estava e fiquei lá
parado por mais três horas [risos]. Paralisado.”
A persona de Waters no palco lembrava a frieza de um jogador de
pôquer. Ao rememorar certa vez um concerto do Pink Floyd no UFO, em
1967, Pete Townshend, do grupo The Who, fez referência a “Roger Waters
e seu impenetrável olhar de soslaio”. Em seus primeiros embates com a
imprensa, Waters tentou amparar essa imagem insinuando ameaças: “Minto
e sou um tanto agressivo”, disse a um entrevistador. Por baixo de sua
carapaça, no entanto, havia uma dose considerável de medo.
“Eu era aquele cara de camisa preta, calça jeans e óculos escuros, parado
no canto, fumando cigarros e franzindo a testa para as pessoas, não queria
nada com ninguém por estar muito assustado. Acho que grande parte disso
veio do medo de ficar exposto, de ser descoberto. Principalmente a
exposição sexual, creio. Acho que tinha muito a ver com sexo. Ser um
adolescente inglês nos anos 1950… Havia muita repressão sobre o assunto.
Eu era envergonhado demais para ir a uma farmácia comprar um pacote de
camisinhas. Preferia morrer. Pode parecer ridículo, mas era assim. Deparava
com essa mistura de vergonha e receio quanto à gravidez. Era difícil ficar
indiferente a muitas dessas coisas”, diz Waters.
Talvez mais importante seja o fato de que, enquanto a história da
infância de Barrett é repleta de um afeto familiar idílico, refletido em
canções como “Matilda Mother”, a criação de Waters foi marcada pelo
trauma da morte do pai. Em janeiro de 1944, Eric Fletcher Waters foi morto
em Anzio, na Itália, durante uma batalha por uma cabeça-de-ponte que
durou quatro meses e posteriormente foi descrita como “a pior asneira dos
Aliados na Segunda Guerra Mundial”. Morreu aos 30 anos e deixou uma família que apenas começava: sua esposa, Mary, e duas crianças pequenas,
Roger, de cinco meses, e um filho mais velho chamado John. “Desde que
comecei a falar, perguntava onde estava meu pai”, refletia mais tarde
Waters. “Minha mãe me contou várias vezes que, aos dois anos e meio ou
três, a coisa ficou bem intensa. Em 1946, todo mundo foi desmobilizado.
De repente surgiram todos estes homens… Eles pegavam seus filhos no
maternal, e eu me tornei bastante inquieto.”
Roger Waters em Abbey Road, trabalhando em A Saucerful of Secrets.
A longo prazo, a morte do pai de Waters pareceu nutrir uma
desconfiança instintiva quanto à autoridade, claramente perceptível em seu período escolar. “Não sei quem eu culpava pela morte do meu pai: muito da
minha acusação estava centrada nos alemães, os inimigos”, diz ele. “Mas
acho que, ao observar meu comportamento na escola, pode ser que haja um
elemento originado da ausência de uma figura de autoridade masculina em
minha vida familiar. Por essa razão, resistia à idéia de que outra pessoa
assumisse aquele papel. Este era provavelmente um dos fatores.” Quando
Waters se tornou estudante de arquitetura na Escola Politécnica de Regent
Street, sua irreverência foi associada a uma obstinada aura de
autoconfiança. Nas palavras de Nick Mason, “ele passava uma expressão de
escárnio pelo resto de nós, e até mesmo os funcionários achavam isso
desconcertante”.
As circunstâncias associadas ao serviço militar do pai de Waters
conferiram um aspecto particularmente trágico à sua história. Nos anos
iniciais da Segunda Guerra Mundial, o cristianismo de Eric Fletcher o fizera
se recusar a participar do combate, o que significava sua liberação do
destacamento em troca de um serviço como motorista de ambulância. À
medida que a guerra avançava, no entanto, ele começou a aderir à política
da esquerda e, por conseguinte, ao Partido Comunista Britânico. Pela
reconhecida oposição dos comunistas ao fascismo, mudou de idéia e entrou
no exército como oficial. Assim, sua recém-adquirida visão política lhe
custou a vida. “Ter a coragem de não ir, depois mudar de idéia e ter a
bravura de ir é algo misteriosamente heróico”, disse Waters mais tarde.
Nos anos seguintes à guerra, Mary Waters permaneceu comunista, até os
imprevisíveis acontecimentos que levaram milhares de esquerdistas da
Europa Ocidental a abandonarem o partido. “Minha mãe continuou até
1956, quando os russos invadiram a Hungria”, diz Waters. “Eu
particularmente não me recordo exatamente desse período, mas me
contaram depois. Aquele foi o ponto de ruptura para muitas pessoas. Mas
minha mãe era muito hostil em relação à América do Norte. Não aos norte-
americanos em si. Ela passou algum tempo nos Estados Unidos quando
jovem e disse ter sentido grande simpatia pelas pessoas que conheceu, mas
reprovava o sistema econômico da América do Norte e seu papel no mundo.
“Consigo lembrar de inúmeras reuniões da Associação de Amizade
Sino-Britânica e vários encontros na Quaker Meeting House em
Cambridge. Quanto daquelas idéias adotei? Assumi completamente tudo
aquilo. Indiscutivelmente. Acho que esta é a natureza da relação que temos
com os interesses partidários de nossos pais. É provavelmente a única coisa que a rebeldia juvenil deixa no lugar. Eu estava envolvido com a Juventude
Socialista, partilhava um monte de pensamentos com a organização.”
A história pessoal de Waters lhe forneceu uma boa dose de inspiração
criativa e uma voz lírica singular, profundamente inglesa. No início de
1968, no entanto, aqueles que acompanhavam o progresso do Pink Floyd
estavam pouco entusiasmados com a idéia de o grupo se submeter à sua
liderança. Para Peter Jenner e Andrew King, a saída de Syd Barrett
significava o fim das esperanças para a banda. Isso representou outro revés,
pois Jenner e King declararam que suas funções de administradores do Pink
Floyd haviam chegado ao fim. Dessa maneira, a condução dos negócios da
banda foi passada a seu agente, Bryan Morrison. Com o tempo, a
administração seria assumida por Steve O’Rourke, um funcionário
esporádico de Morrison, considerado por Roger Waters “um batalhador
incansável, … um homem num mundo de homens”.
“Pensávamos: ‘Que droga vamos fazer agora que Syd não está mais no
grupo?’”, diz Peter Jenner. “A resposta, pelo que me lembro, era um olhar
de sofrimento: ‘O que você quer dizer? Nós não valemos nada?’ ‘Bom, não
— não valem. Vocês não são bons, porra. Você não consegue afinar a
guitarra e nem cantar.’ A única esperança era Rick. Por isso, no período
inicial pós-Syd, ele compôs a maior parte das músicas. Mas Rick era mais
um arranjador. Nick não conseguia escrever canções, e Roger, na minha
opinião, era um não-músico. Eu certamente não achava que ele conseguiria
ter sucesso cantando. Mal entrava no tom. Eu não sabia o que fazer com
Dave [David Gilmour], ele estava ali apenas para fazer o papel de Syd.”
“Subestimamos a habilidade de Roger para entender o que estava se
passando, colocar mãos à obra e surgir com novas possibilidades”, conta
Jenner. “E falhamos em descobrir o que Dave poderia fazer.”
INTEGRANTE DA BOEMIA DE Cambridge na pós-adolescência, que também
incluía Roger Waters e Syd Barrett, David Gilmour obteve a admiração
discreta de seus pares ao tornar-se músico profissional enquanto seus
contemporâneos ainda davam os primeiros passos. Com um quinteto
chamado Jokers Wild — aficionado por fazer covers de “Beautiful Delilah”,
de Chuck Berry, e “Big Girls Don’t Cry”, do Four Seasons — ele havia se
estabelecido no limitado circuito de shows de Cambridge e até realizado a
vertiginosa transição para apresentações regulares em Londres. “Dave era
um bom guitarrista, tinha uma boa voz e havia se organizado”, diz Aubrey Powell, outro de seus colegas em Cambridge. “A banda dele era a mais
profissional em Cambridge, sem sombra de dúvida. Acho que o único outro
grupo profissional era Bern Elliott and the Fenmen [risos]. Então Dave era
respeitado, um pouco.”
Proezas musicais à parte, a posição social de David Gilmour foi
impulsionada por dois outros fatores: a precocidade, vinda do fato de que
seus pais se transferiram para os Estados Unidos, por causa do trabalho do
pai como geneticista, e Gilmour ter passado a morar num apartamento só
dele; e o poder de atração junto às mulheres mais antenadas de Cambridge.
“Dave sempre foi confiante: uma confiança discreta”, diz Aubrey Powell.
“É bastante bonito, e naquela época era incrivelmente bonito. Você sabia
que todas as garotas gravitavam ao redor dele.”
Em 1967, os Jokers Wild tinham evoluído — após um período de
apresentações sob o acanhado nome psicodélico de Flowers — para um trio
chamado Bullitt, uma aventura efêmera que acabou quando Gilmour foi
chamado a exibir seu talento num Pink Floyd cada vez mais desesperado.
Ele estava sutilmente a par dos apuros do grupo: apesar de ter sido próximo
o suficiente de Syd Barrett para ter se apresentado a seu lado pelas ruas do
sul da França, ele visitou o compadre em maio de 1967 e encontrou Barrett
tão desorientado que a amizade não parecia ser nem uma lembrança
distante. “Eles estavam gravando, e Syd me disse para ir ao estúdio. Fui lá e
ele nem me reconheceu”, lembra Gilmour.
De acordo com Peter Jenner, pelo menos um pouco da aceitação de
David Gilmour pelo Pink Floyd se devia ao fato de que ele era capaz de
fazer uma imitação sinistramente precisa de seu amigo desmemoriado.
“Lembro de Dave fazendo testes em Abbey Road”, diz ele. “Alguém falou:
‘Vamos lá, Dave, toque Hendrix’. Aí veio aquele som extraordinário,
completamente excitante. No entanto, essa era a questão: Dave era um
grande imitador. Podia tocar como Hendrix e, mais importante, conseguia
copiar Syd tanto no vocal quanto no instrumental.”
A necessidade imperativa de substituir Syd Barrett, contudo, se dissipou
com sua saída da banda, e gradualmente o Pink Floyd percebeu que a
presença de David Gilmour suavemente levava o grupo a um novo lugar.
Ao passo que Barrett os tornara frágeis e caóticos, Gilmour introduziu nas
canções mais longas da banda uma nova sensação de confiança e beleza.
Como resultado disso, recuaram dos afastados limites da vanguarda e se
tornaram um pouco mais acessíveis, dando forma a uma música ao mesmo tempo exploratória e ilimitada, mas firmemente enraizada em algum tipo de
ortodoxia. “Depois de Syd, Dave era a diferença entre luz e escuridão”,
disse Nick Mason posteriormente. “Ele apreciava estilo e forma, e
introduziu isso nas canções mais extravagantes que criamos. Nos tornamos
bem menos difíceis de ser apreciados.”
No que diz respeito à química interna do grupo, David Gilmour possuía
virtudes que nitidamente complementavam Roger Waters e Rick Wright.
Tinha exatamente o tipo de apuro musical que muitos diziam faltar a
Waters. Com Wright, formou um vínculo apoiado numa comum
compreensão natural de melodia e estrutura. Assim como na formação com
Syd, o papel de Nick Mason tinha menos a ver com criatividade — estava,
afinal, a certa distância de ser virtuoso —, e mais com qualidades pessoais
que davam à banda o calor humano necessário. “Nick era colega de Roger e
sempre foi bastante educado”, diz Peter Jenner. “Encantador. Não criava
caso, passava sempre despercebido.”
“É muito difícil analisar o que faz as coisas funcionarem”, diz David
Gilmour. “Tínhamos Rick, que não era uma pessoa muito direcionada mas
tinha uma boa cabeça musical: ele sentava e começava a tocar; muitas vezes
tocava peças muito bonitas. Roger era fantasticamente concentrado e
escrevia letras muito boas. Possuía uma força criativa bastante focalizada.
Funcionava muito bem.”
Se o novo Pink Floyd, logo em seguida à partida de Syd Barrett,
começava a ter coesão criativa, levou um bom tempo até que a banda
decididamente escapasse da sombra dele. Os roteiros dos shows ainda
apresentavam um punhado de originais da época de Barrett. “Interstellar
Overdrive” era escolha certa nas apresentações, e “Astronomy Domine” e
“Pow R Toc H” eram tocadas com regularidade. De vez em quando, porém,
alguns promotores forçavam o grupo a fingir ser algo que não era mais;
como em fevereiro de 1968, quando um canal de televisão belga insistiu em
que uma série de apresentações em playback incluísse canções gravadas no
ano anterior. Assim, David Gilmour se curvou à inevitável e obediente
dublagem de músicas essenciais de Syd Barrett, como “Scarecrow”, “See
Emily Play” e “Apples and Oranges”.
O fantasma de Barrett também estava presente em A Saucerful of
Secrets, o álbum gravado, de maneira intermitente, do final de 1967 em
diante, lançado em junho de 1968 e apresentado com eficácia num grande
concerto grátis no Hyde Park, em Londres. Até uma composição de Syd Barrett, “Jugband Blues”, foi desenterrada e usada como encerramento do
álbum, o que trouxe um ar de adeus atrasado. Os cronistas dos aspectos
mais enigmáticos da história do Pink Floyd discutiram à exaustão sobre os
rumores quanto à inclusão de trechos da guitarra de Barrett em “Remember
a Day”, de Rick Wright, e “Set the Controls for the Heart of the Sun”, de
Roger Waters. Além disso tudo, só é preciso ouvir os vocais nasalados,
intencionalmente britânicos, de David Gilmour em “Let There Be More
Light”, canção de Waters que abre o álbum — e se apóia num trecho de
baixo pinçado da seção intermediária de “Interstellar Overdrive” — para
observar que o Pink Floyd ainda se sentia compelido a seguir o exemplo de
Barrett.
Com sua ausência, no entanto, podiam-se detectar as mudanças por vir.
Embora as duas canções de Rick Wright no disco fixassem uma leve
relação com o tipo de sensibilidade melódica que fora um dos selos de
qualidade de Barrett, seus esforços foram para o brejo, em função das
vastas dimensões da nova música. A florescente liderança de Waters
possuía um resultado particularmente claro: ou o novo Pink Floyd não tinha
vontade alguma de escrever canções pop, ou então era incapaz de fazê-las.
Em vez disso, havia um evidente desejo de criar climas, busca percebida
com mais sucesso em “Set the Controls”, “Let There Be More Light” e na
faixa-título instrumental de 12 minutos — tão abstrata e atonal que algumas
partes se dispersavam e se tornavam quase inaudíveis, apesar de David
Gilmour tê-la identificado como a semente da música que viria um pouco
mais tarde. “Aquele foi o primeiro indício de nossa direção daí para a
frente”, disse ele depois. “Se você pegar A Saucerful of Secrets e as músicas
‘Atom Heart Mother’ e ‘Echoes’, tudo levaria de maneira lógica a Dark
Side of the Moon.”
Com a intenção de estabelecer outra faceta do novo Pink Floyd, a
apresentação gráfica do álbum foi retirada dos designers da EMI e entregue
aos velhos contatos de Waters e Gilmour em Cambridge, Storm Thorgeson
e Aubrey Powell, recém-estabelecidos como desenhistas de capas de discos
sob o nome penosamente contracultural de Hipgnosis (felizmente,
decidiram não adotar o nome de Consciousness Incorporated). O desenho
continha apenas uma minúscula imagem da banda. Muito mais importante,
aparentemente, era uma série sortida de elementos exóticos. “Como parte
da era psicodélica inicial, estávamos interessados em drogas, histórias em quadrinhos da Marvel, zodíacos, montagens, colagens e toda a essência
oriental que se infiltrara no movimento hippie”, refletiria Powell mais tarde.
Um dos aspectos mais proféticos de Saucerful raramente atrai
observações. “Corporal Clegg” pode ter sido um comentário burlesco meio
desorientado de Roger Waters sobre um herói de guerra inglês que “tinha
uma perna de pau”, impressão reforçada por um trecho profundamente
irritante tocado por kazoos. Mas também servia para tecer um comentário
ao qual voltaria com freqüência: que por trás da jovialidade estóica da vida
inglesa jazia um lodaçal de disfunção e tristeza (implicação particularmente
acentuada na seção intermediária, em que oferecem friamente à sra. Clegg
“outra dosezinha de gim”). A letra da canção data a perda da perna do herói
também em 1944 — ano em que foi morto Eric Fletcher Waters. Mesmo
com todo o seu absurdo pantomímico, Waters dava sinal de que estava
preparado para enraizar suas canções em fontes absolutamente
autobiográficas.
A tentativa fracassada em “Corporal Clegg” de contar uma história
também colocava em forte relevo uma das principais limitações de
Saucerful. Em The Piper at the Gates of Dawn, o Pink Floyd havia criado
uma identidade estética distinta, baseada não só nos aspectos da improvisação, mas também nos elementos singulares que Syd Barrett havia
trazido à sua música — principalmente com letras que de certa maneira
fundiam a mentalidade alucinatória do psicodelismo aos fantasmas da
infância. Em seu lugar, havia realmente muito pouco: o novo Pink Floyd
tinha dominado as questões de forma e contorno, mas no interior da maioria
das músicas ocultava-se um vazio intelectual.
“Nick e Roger conceberam A Saucerful of Secrets como um diagrama
arquitetônico, em formas dinâmicas, com picos e vales”, lembra David
Gilmour tempos depois. “O lance era esse. Não era música para ser bela ou
emocional.”
“NÃO ACHO ERRADO QUE alguém de renome use sua posição para passar
adiante suas crenças ou influenciar as pessoas”, disse David Gilmour em
novembro de 1969. “Por que não deveria fazê-lo? O problema é que não
somos muito bons em escrever esse tipo de canção. Não começamos com o
intuito específico de protestar contra a violência ou qualquer outra coisa.
Não queremos ser compreendidos por alguma mensagem fantástica. Como
eu definiria nossa música? Não há muito a explicar. Não sei por que
funciona desse jeito. Não elaboramos deliberadamente nenhum elemento
especial. Tentamos só seguir adiante, deixar tudo terminado.”
Em suas palavras podemos perceber o problema principal da era pós-
Syd Barrett: uma obstinada tentativa de manter a força viva da banda,
comprometida pelo fato de que a ausência de idéias rigorosas os deixara um
tanto desorientados. O talento de Roger Waters para compor ainda florescia,
o que ainda deixava as idéias da banda em relação às letras
inquietantemente vagas. Para piorar o problema, David Gilmour e Rick
Wright pareciam pouco interessados em lidar com a questão. “Rick
costumava dar entrevistas afirmando que não se importava com as letras”,
diz Waters. “Eu lia essas coisas e pensava: ‘Ele fala por si próprio.’ Aquilo
se tornou muito frustrante. Acho que ele gostava de se ver como um purista
da música. Assim como Dave”. Quase 40 anos depois, a frustração de
Waters com seus colegas ainda volta à tona. “Eles não tinham a menor idéia
de para que servia a banda.” Nesse sentido, as primeiras gravações do
grupo, em 1969, jogavam com sua força limitada: as canções para o filme
More, de Barbet Schroeder, criadas em apenas oito dias, reuniam uma
divertida mistura de rock vigoroso e ambiência etérea, mas careciam de
consistência, como qualquer trilha para filmes de baixo orçamento.
Para ser justo com os demais componentes da banda, Waters tampouco
transmitia a impressão de ter uma idéia clara sobre o que exatamente tinha a
dizer para o mundo. As deficiências de A Saucerful of Secrets
estabeleceram o padrão: por ora, o conteúdo ficava em segundo plano, atrás
de uma série de grandes planos que lidavam com questões de forma e
estrutura. Em abril de 1969, por exemplo, o Pink Floyd fez seu primeiro
show com uma aparelhagem pomposamente batizada de coordenador
Azimuth, uma configuração de som em 360 graus elaborada para envolver
o público em música. As entrevistas da banda logo foram cercadas por
declarações entusiasmadas sobre assuntos vazios, como o que colaborava
para um sistema de PA envenenado.1 “A idéia”, dizia Waters, “é envolver o
público em som, enquanto nós ficaremos no centro…. É como o estéreo, só
que 40 vezes mais eficaz.”
O coordenador Azimuth.
Uma explicação habitual para o evidente interesse do Pink Floyd em
tecnologia — aliado aos sons secundários de canções como “Set the
Controls for the Heart of the Sun” — era caracterizá-los como uma banda
que se especializou no equivalente musical da ficção científica, um
estereótipo que eles se mostraram mais que satisfeitos em aceitar. “Nós
todos lemos ficção científica e adoramos 2001”,2 disse Gilmour. “Não há
nada que eu queira fazer mais do que a música para o próximo roteiro de
Arthur C. Clarke”, afirmou Waters. Em julho de 1969, o grupo apareceu
num especial de televisão da BBC transmitido para celebrar a iminente
aterrissagem da Apollo-11 na Lua.
De vez em quando, contudo, eles pareciam tatear rumo a músicas que,
de algum modo, refletiam as provações da existência terrena. Em abril de
1969, promoveram a estréia de duas séries de composições intituladas The
Man e The Journey, constituídas de algumas músicas já familiares ao
público da banda e de muitas ainda a serem lançadas. A última era uma
peça um tanto vaga, que fechava com uma suíte em três partes constituída
por “The Labyrinths of Auximenes”, “Behold the Temple of Light” e “The
End of the Beginning”; a primeira, com segmentos pirantes nos quais o
grupo cortava pedaços de madeira e ouvia rádio, mostrava a tentativa de
Waters representar o desgaste desumano da vida cotidiana.
The Man, segundo Waters, foi ao menos parcialmente baseada em
grafites que via todos os dias no metrô de Londres. “Foi inspirada”, diz com
entusiasmo. “Os grafites diziam: ‘Levante-se, vá para o trabalho, faça o
serviço, volte para casa, vá para a cama, levante-se, vá para o trabalho…’
Estava na parede lateral e parecia não ter fim. À medida que o trem
aumentava a velocidade, as palavras passavam cada vez mais rápidas, até
que — bang! — você subitamente entrava num túnel. Achei aquilo uma
obra de arte brilhante. Algo do que fizemos em The Man foi um pouco
inspirado por aquilo; a parte da madeira foi posta para representar o
trabalho. Havia outro elemento que incluía ligar um rádio transistor e
conectá-lo ao PA. O que estivesse passando explodia no ar. O público
amava. Não sei se as bandas de hoje pensariam em fazer algo assim.”
Logo a seguir surgiu o primeiro disco propriamente dito da era pós-Syd
Barrett: Ummagumma, lançado em outubro de 1969. Nele, os problemas
que haviam atormentado A Saucerful of Secrets ainda estavam mal curados.
Graças parcialmente à imprudente idéia de dividir a composição entre os
quatro integrantes, muitas partes se aproximavam perigosamente do
suicídio comercial: a suíte abstrata, pseudoclássica, que Rick Wright
intitulou “Sysyphus”; a bocejante peça de percussão de Nick Mason, “The
Grand Vizier’s Garden Party”; a instável tentativa de Roger Waters em
enveredar pela comédia, “Several Species of Small Furry Animals Gathered
Together in a Cave and Grooving with a Pict”3 (se Waters não fumava muita
maconha, certamente passava a impressão oposta). Como para admitir que a
idéia atrairia pouco a atenção dos fãs, metade do espaço foi cedido para um
disco ao vivo, no qual o espectro de Syd Barrett fazia uma inevitável
aparição: para lembrar o público que aquele era o mesmo grupo que criara
canções tão inspiradas poucos anos atrás, o álbum começava com uma interpretação de “Astronomy Domine”, um atestado do admirável talento de
David Gilmour para o mimetismo.
Para ser justo, havia muitas produções mal realizadas e incompletas por
volta de 1969. Este foi o ano em que John Lennon e Yoko Ono lançaram os
inaudíveis Life with the Lions e Wedding Album, e Bob Dylan começou a
trabalhar no intencionalmente horroroso Self-Portrait — álbuns que
procuravam, à sua maneira desajeitada, testar as expectativas de seus
públicos e os limites da ortodoxia musical. Lennon e Dylan, no entanto,
tinham reputação artística suficiente para arriscar um desvio momentâneo
rumo à extravagância criativa. Se um grupo na posição do Pink Floyd pós-
Barrett deveria tentar o mesmo, essa é outra questão. Assim, o aroma
fragrante da psicodelia ainda pairava sobre grande parte de seu público, o
que significava que mesmo a música mais quixotesca tendia a ser recebida
com uma generosidade de espírito que outros tempos lhe teriam negado.
Com relação a Ummagumma, por exemplo, o DJ britânico e monarca hippie
John Peel entrou em transe com seus “sons incrivelmente melódicos, que se
entrecruzam e soam como aglomerados de galáxias agonizantes perdidas
em corredores de tempo e espaço”.
O Pink Floyd também foi abençoado por trabalhar numa cultura musical
em que o processo de uma banda para encontrar sua identidade artística
podia ser apressado pela velocidade alucinante dos prazos. No início de
1970, Ummagumma não era mais que uma lembrança: a música que acharia
seu espaço em Atom Heart Mother estava em desenvolvimento, e o grupo
havia passado algum tempo em Roma trabalhando na trilha sonora do filme
Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni, uma tentativa de cristalizar a
crença do diretor no fato de que, no final dos anos 1960, época da Guerra
do Vietnã, os Estados Unidos estavam em meio a um conflito cultural sem
precedentes. Apesar do grande empenho, os quatro ingleses que escolheu
para a missão não parecem ter suprido seus desejos: “Fizemos muitas coisas
boas”, lembrou depois Waters, “mas ele dava uma escutada e dizia ‘Isstá
muito bonito mas é muito trisste’, ou ‘Isstá muito pesado’. A coisa estava
sempre errada, invariavelmente. Mudávamos o que estava errado, e ele
continuava insatisfeito.”
Ouvindo muito do que foi gravado, é difícil evitar a conclusão de que
Antonioni possuía pouco senso musical. Entre as idéias que rejeitou estava
uma peça solo de piano composta por Rick Wright para uma cena de
tumulto num campus: seis minutos belamente serenos, tocados com um perfeito sentido de suavidade, que funcionavam como atraente contraponto
às imagens. A chamada “The Violent Sequence” era um teste inicial da
música que posteriormente formou a base de “Us and Them”, do álbum The
Dark Side of the Moon. Mesmo em sua forma embrionária, a canção
transpirava muito da mesma magia intensa que seria alcançada de forma
espetacular dois anos depois. O grupo certamente confiava no potencial
dela: a partir de janeiro de 1970, era tocada regulamente nos shows.
Por volta do mesmo período em que a banda colidia com Antonioni,
Roger Waters advertia quanto ao próximo passo do grupo. “Queremos
escrever uma obra completa para nós e uma orquestra”, disse à revista New
Musical Express (NME), “de modo que o grupo seja outra parte da
orquestra”. A obsessão mecânica do Pink Floyd com sistemas de som logo
mostrou seu lado desastroso: “Então”, prosseguiu Waters, “a orquestra seria
desmembrada e posicionada ao redor do salão, junto aos alto-falantes, de
maneira que o público ficasse sentado no meio da música.”
O resultado de tais ambições foi “Atom Heart Mother”, música de 23
minutos que tomaria a maior parte do álbum seguinte do Pink Floyd.
Iniciadas as gravações na primavera de 1970, logo se tornou uma
colaboração com Ron Geesin, um compositor e arranjador experimental,
cria do underground dos anos 1960. Geesin e Waters tinham se identificado
um com o outro durante o trabalho na trilha sonora de The Body, um filme
documentário experimental sobre biologia humana (além das atividades
musicais, os dois também eram parceiros ocasionais no golfe). Enquanto o
grupo se preparava para uma turnê pelos Estados Unidos, em abril de 1970,
uma trilha de fundo chamada provisoriamente de Epic foi entregue a
Geesin, a quem também encarregaram de acrescentar uma orquestra. No
processo, acabou contribuindo muito mais, animando o aspecto melódico da
peça e — na volta da banda — tutelando-a no uso de efeitos sonoros e
aspectos criativos da edição de som. Não era trabalho dos mais fáceis: o
estresse, combinado a um abafado verão britânico, levou Geesin a executar
pelo menos algumas de suas tarefas vestido apenas com a roupa de baixo.
O resultado, batizado aleatoriamente em homenagem a uma manchete de
jornal, ainda soa superficialmente impressionante — suntuoso, ambicioso,
constrangedor, imprevisível. Porém, é um tanto ofuscado pela falta de
qualquer senso real de substância. A ausência de letras pode ser o principal
problema, mas os elementos musicais exagerados — metais bem ingleses,
uma passagem de coral excessivamente longa, uma erupção de
experimentalismo de vanguarda que soa incrivelmente como “Revolution
9”, dos Beatles — não conseguem se entrosar e parecem menos o produto
de um pensamento inspirado que um exercício preguiçoso de esperteza.
Assim, a peça dá alguns sinais de esperança, como indica a deliciosa
guitarra slide de David Gilmour (cheirava tanto a Dark Side que chegava
quase a parecer um trailer), e uma passagem desprovida de recursos
especiais — chamada “Funky Dung” —, na qual ele e Rick Wright
alcançam uma virtuosidade leve e fluida. O grupo, entretanto, permanece
incerto quanto aos méritos de Atom Heart Mother. “Era um verdadeiro
monte de baboseiras fragmentadas”, admite Gilmour. “Eu não deveria dizer
isso, mas não havia muita clarividência em nossas cabeças.”
“Atom Heart Mother” era a principal música do álbum de mesmo nome,
embalado numa maravilhosa capa da Hipgnosis, ao mesmo tempo banal e
surreal, que estampava uma fotografia colorida de uma solitária vaca
inglesa. Se, apesar de seu charme distorcido, exibia um Pink Floyd ainda atormentado pela falta de objetividade que os acometia desde a partida de
Barrett, havia ao menos a sugestão de uma saída do atoleiro. Tão logo a
faixa-título chega ao fim, seu sabor levemente extenuado é expulso por uma
composição de Roger Waters simplesmente chamada “If”, lançada sobre a
mais reduzida trilha de fundo na meia-voz frágil e lamentosa do compositor.
“‘If’ tem a ver com ocultar o seu lado afetivo, mesmo para os amigos e
pessoas queridas”, diz Waters. “Há versos como ‘If I were a swan, I’d be
gone / If I were a train I’d be late / If I were good man I’d talk to you more
often than I do’4. Há também outros versos como ‘If I were alone I’d cry / If
I were with you I’d be home and dry / If I go insane please don’t put your
wires in my brain’5. Posso ouvir algo do que fiz em Dark Side of the Moon
nesta canção.”
Se, em retrospecto, sua compreensão de Atom Heart Mother sugere que
a banda fazia progressos constantes rumo a sua obra-prima, os
pronunciamentos de Waters naquele tempo deixam com freqüência
transparecer um verdadeiro pessimismo, como se a vida no Pink Floyd
fosse um crescente desgaste nada gratificante, e ele começasse a questionar
a qualidade da banda. Ao entrar em seus vinte e tantos anos, parecia às
vezes acreditar que, apesar de todas as suas grandes invenções artísticas,
estava perigosamente próximo de apenas simular, como declarou mais
tarde, apenas “preenchendo o tempo de maneira burocrática”.
Bem no fim de 1970, um jornalista do Melody Maker visitou Waters na
casa no norte de Londres que o músico dividia com a esposa, Judy —
professora, escultora e (de acordo com pelo menos um dos agregados do
grupo) extremamente de esquerda, com quem havia se casado em 1969 — e
seis gatos da Birmânia. “Ser casado”, explicou, “torna as coisas mais
simples. Fica mais fácil avaliar o que é importante e o que não é. Ajuda a
colocar suas prioridades em ordem.”
De fora, a casa não parecia diferente das outras construções vitorianas da
vizinhança. Lá dentro, no entanto, estavam claros os indícios de uma mente
afinada com os pensamentos mais em voga. “Tudo é modernidade”,
escreveu o jornalista, “aquele esquema da moda, com assoalhos de madeira
nus, brilhantes, e móveis escandinavos que imediatamente chamam a
atenção por suas linhas simples e despojadas. O senhor Waters estudava
arquitetura e possui bom-gosto, pode-se ver.” No jardim havia um galpão de
ferramentas que abrigava o estúdio caseiro de Waters e acolhia também diversos objetos e equipamentos que sua esposa utilizava para fins
artísticos.
O Pink Floyd estava para sair em turnê pela Europa. Passaria pela
Holanda, Alemanha Ocidental, Suíça, Áustria e França. Os shows
planejados incluíam velhos e cansados cavalos-de-batalha, como
“Astronomy Domine”, “Set the Controls for the Heart of the Sun” e “A
Saucerful of Secrets”, ao lado de versões mais despidas de “Atom Heart
Mother” e de uma então recente composição de Gilmour, “Fat Old Sun”.
Infelizmente, a inclusão de músicas relativamente novas — para não
mencionar o sucesso que, havia pouco, fizera Atom Heart Mother,
chegando ao topo das paradas britânicas — mal parecia aliviar o sentimento
de tédio em Waters. “Estou de saco cheio da maioria das coisas que
fizemos”, disse ele. “Estou cansado da maior parte das coisas que
tocamos… Não há muito de novo, há?”
No meio da entrevista, ele se mostrava inequivocamente saturado. “É
um emprego, uma porra de um emprego bem-pago, com as massagens de
ego e tudo mais. Acho que se torna muito mecânico. Estou partindo amanhã
para uma turnê com dez apresentações, certo? Frankfurt, Viena,
Montreux… Mas para que estou indo? Para propagar o evangelho, para
fazer as pessoas felizes ao tocar músicas maravilhosas?
“Não, isso não é verdade”, concluiu Waters. “Estou indo para ganhar
uma grana e porque estou preso a esse mecanismo de negócios da música
pop.”
ANTES DE SE MUDAR PARA o norte de Londres, Roger Waters morou em
Pennard Mansions, uma quadra fechada de apartamentos na extremidade
leste de Goldhawk Road, uma surrada pista cosmopolita que liga a
vizinhança decadente londrina de Shepherd’s Bush ao mais valorizado
enclave de Chiswick. A região, inserida na mitologia do rock graças à sua
associação com a banda The Who, há muito tempo tinha uma atmosfera
alvoroçada sobretudo pela imensa feira livre em plena rua. Para o jovem
Waters, que ocupou um minúsculo apartamento ali durante a fase inicial do
Pink Floyd pós-Syd Barrett, a área cristalizou seus sentimentos quanto à
fascinação e o terror silencioso da vida na cidade — e ao que poderia dizer
sobre a condição humana.
“Morei lá com minha namorada de infância que depois se tornaria minha
esposa”, diz Waters. “E, com o afastamento de Syd, quando eu começava a escrever… Tenho uma imagem mental muito forte de uma janela do
apartamento, com a luz do sol entrando e um sentimento poderoso de estar
na cidade. Eu era mesmo um garoto do campo; não estava em Londres há
tanto tempo. Tinha uma espécie de preocupação obscura para saber quanto
os seres humanos alimentam ou não sua capacidade de empatia. Morar em
Londres pareceu realçar aquilo ainda mais.”
Inspecionando o tráfego humano de Goldhawk Road dos confins de seu
quarto, Waters escreveu uma letra poética, ainda que um tanto excêntrica,
que lidava com a possibilidade de duas pessoas, ao menos, estabelecerem
um contato momentâneo no meio do tumulto impessoal de Londres:
“Strangers passing in the street, by chance two separate glances meet / And
I am you, / and what I see is me”.6 De cara, os versos parecem tangenciar
perigosamente os chavões hippies, mas assim mesmo serviram para
introduzir um aspecto do universo do Pink Floyd que permaneceria ali por
boa parte da década seguinte. “Eles expressavam uma preocupação que eu
tinha e continuaria a ter”, conta Waters, “com o potencial dos seres
humanos para reconhecer a humanidade de cada um e responder a isso com
empatia, e não com antipatia. É dessa idéia fundamental que a letra trata.”
Se as palavras serviram para demonstrar tardiamente as principais
preocupações de seu autor, a música à qual foram destinadas alcançava
feitos ainda maiores: arrancou o Pink Floyd do desempenho insatisfatório
que arruinara muito de sua obra após a saída de Syd Barrett, permitiu que
finalmente o grupo firmasse uma identidade, combateu o crescente
sentimento de exaustão e, desse modo, o impulsionou rumo às maravilhas
de The Dark Side of the Moon. Tamanha era a importância da canção de 16
minutos que a banda lhe deu o título de “Echoes”, e a utilizou como base
para Meddle, de 1971.
Se tudo isso sugere um triunfo faiscante, no entanto, essa fase do
desenvolvimento do Pink Floyd foi inicialmente marcada por uma
dificuldade bastante familiar: um assustador sentimento de confusão e
paralisia à medida que a banda se preocupava com o passo a ser dado a
seguir. “Lembro de uma irritação porque parecia que não conseguíamos nos
prender a nada”, diz Nick Mason. “Havia o sentimento de que não tínhamos
a capacidade para dar início às coisas. Uma vez começado, acontecia. Mas
iniciar era sempre o problema.”
O Pink Floyd ao vivo, pré-Dark Side. Página da esquerda: Roger Waters e Rick Wright. Página da direita: David Gilmour e nick mason.
EM JANEIRO DE 1971, John Leckie era um engenheiro de som júnior de 21
anos contratado pelos estúdios Abbey Road. Ganhara experiência como
operador de fita em álbuns como All Things Must Pass, de George Harrison,
e Sentimental Journey, de Ringo Starr, e também trabalhando como
engenheiro em John Lennon/Plastic Ono Band. Ele era o modelo de uma
nova cultura que se enraizava em Abbey Road à medida que seus
funcionários deixavam para trás as antiquadas e irritantes práticas que se
instalaram bem antes do advento do rock and roll e tornavam-se mais
afinados com o estilo de vida dos músicos com os quais trabalhavam. “Foi
assim que consegui o trabalho”, diz Leckie. “Eles gostaram do fato de eu ter
cabelos compridos. Se você aparecesse num sábado e visse um engenheiro de som mais velho, em vez de terno e gravata, ele vestiria um casaco
esportivo e uma camisa de gola aberta. Você pensava: ‘Uau, nunca vi você
sem gravata.’ Um monte de gente lá era bem… careta.”
Integrante da nova escola de Abbey Road, Leckie acabou empregado
como operador de som nas gravações de Meddle, em grande parte pelo
hábito do Pink Floyd de trabalhar até a madrugada. “Qualquer sessão
depois das 17h30 era considerada hora extra”, conta John Leckie. “Muitas
vezes os caras mais velhos recusavam, porque não queriam ficar acordados
a noite toda. É claro que eu queria.”
O Pink Floyd — pelo menos a princípio — acabou não promovendo a
explosão criativa noturna que Leckie parecia ansiar. “As sessões do Pink
Floyd ganharam a reputação de serem chatas”, refletiu ele mais tarde. “Você
podia começar às duas da tarde e não terminar até as quatro da manhã, e
mesmo assim nada ficava pronto. Não havia contato algum com a
gravadora, exceto quando, às vezes, o gerente do selo deles aparecia com
umas garrafas de vinho e alguns baseados. Era isso. Eles tinham um
pequeno bar no estúdio, com uma geladeira. Bebia-se uma quantidade
considerável de tequila e Southern Comfort, mas não havia muito abuso
químico. A atmosfera não era hostil, mas passavam-se longos minutos em
silêncio; períodos de tédio.”
“Em alguns dias”, diz Leckie, “eles ficavam um bom tempo apenas
trabalhando em cima de um som ou de um simples riff de guitarra. E muitas
vezes não diziam nada um ao outro. De repente ficavam muito empolgados
com algo e você não entendia bem por quê. Ou então eles gravavam alguma
coisa e não gostavam, o que fazia você pensar: ‘Ei, que há de errado com
isso?’ Esse tipo de coisa acontecia bastante… E havia uma sensação
generalizada de frustração.”
Na lembrança de Leckie, as sessões de Meddle começavam com a banda
“buscando novos caminhos”. Em janeiro de 1971, enclausurados em Abbey
Road, decidiram preencher fitas com tudo que parecesse promissor, de sons
únicos — como uma nota de piano, alimentada por um alto-falante
repetidor Leslie — a pedaços aleatórios de música. No fim, esses projetos
incompletos recebiam um nome. Talvez indicando uma preocupante
escassez de inspiração, o Pink Floyd batizou seu trabalho em andamento de
“Nada: Partes 1 a 24”. Em março, David Gilmour levou o conceito um
pouco além: o próximo álbum do grupo, disse ele a um jornalista britânico,
tinha o título provisório de Return of the Son of Nothing7.
Contribuindo para a sensação de que não faziam progresso algum, o
grupo realizou algumas sessões nos estúdios Air — um complexo no centro
de Londres, de propriedade do ex-produtor dos Beatles, George Martin, que
possuía máquinas de 16 canais, enquanto Abbey Road contava apenas com
equipamentos de oito canais — para experimentar idéias espantosas que
talvez tivessem mais lugar em Ummagumma: música feita com a utilização
de uma variedade de objetos domésticos. “Uns quatro dias foram gastos
com aquilo”, diz John Leckie. “Inventavam acordes, batiam garrafas de
cerveja, rasgavam papéis, esvaziam latas de aerossol… Aquelas coisas
deveriam soar como uma bagunça. Não pareciam levar a lugar algum.”
Além disso, as sessões eram constantemente interrompidas quando o
Pink Floyd arrumava as malas e saía de Londres. “Estavam sempre fora, em
excursão, e tinham de empacotar o equipamento para fazer uns shows e
depois voltar”, conta Leckie. “Era uma banda que estava sempre na
estrada.”
No fim, entretanto, conseguiram dar um passo adiante. Ao escutar
novamente os fragmentos de “Nada”, decidir juntar alguns dos pedaços em
uma peça contínua e aproveitar as letras que Roger Waters tinha escrito em
Pennard Mansions, a banda criou uma composição de poder e imaginação
sem precedentes. Quase todos os segmentos pulsavam na medida certa: a
sessão inicial suave, flutuante, na qual o enredo de Waters sobre dois
estranhos (junto a imagens “barrettianas” de “cavernas de corais” e “ondas
que quebravam”) recebeu um apropriado horizonte de sonhos; o interlúdio
mais pesado, com toques de rhythm & blues e coberto por magníficos solos
de Gilmour, que desenvolvia o lado da música da banda que viera à tona em
“Funky Dung”, de Atom Heart Mother; e uma passagem imediatamente
antes da retomada final da primeira seção, na qual o Pink Floyd alcançava
uma síntese inédita de destreza e poder musical absoluto. “Fiquei perplexo
quando eles apareceram um mês depois com aquilo tudo junto. Era
incrível”, diz John Leckie.
“Echoes”, inicialmente intitulada “Return of the Son of Nothing”, foi
executada ao vivo pela primeira vez em 22 de abril de 1971, num show em
Norwich, cidade no leste da Inglaterra. A grande estréia, porém, ocorreu
menos de um mês depois, quando o Pink Floyd foi a principal atração de
uma Garden Party — que teve também Faces, Quiver e Mountain — no
Crystal Palace Bowl, no sul de Londres. Os semanários musicais britânicos
foram quase unânimes ao exaltar a então última criação do grupo; a única voz discordante vinha de um repórter um tanto dissimulado do Croydon
Advertiser, alegando que a canção “não havia se destacado na primeira
audição como algo particularmente notável”.
De volta ao estúdio, John Leckie lembra que o grupo retomou o trabalho
com uma energia e uma perspectiva que não estavam lá em janeiro. “O
controle se concentrava claramente em Roger. Ele sentava atrás da mesa o
tempo todo. Dave era o segundo no comando, o mais criativo em termos
musicais. Mas Roger efetivamente assumiu o papel de produtor. Rick
Wright não falava muito, e Nick Mason estava mais para o comediante. Ele
aliviava o clima.”
“Echoes” foi gradualmente completada. Beneficiou-se não só dos
múltiplos ensaios e apresentações ao vivo, mas também do tipo de
engenhosidade tecnológica que a banda vinha afiando desde o período com
Syd Barrett. “Tínhamos duas máquinas estéreo em cada lado da sala”, conta
John Leckie. “Colocamos a fita na primeira máquina e depois a puxamos,
talvez um metro e meio, até a segunda máquina, e ambas gravavam. O sinal
começou na primeira máquina e uns oito ou nove segundos mais tarde saiu
da máquina seguinte, depois era realimentado. Você podia ficar ali por
horas, tudo o que se tocava era repetido. Depois de um tempo, coisas
incríveis começavam a acontecer. O pedaço abstrato no final de “Echoes”, a
parte que se parece com uma espécie de coral, foi feita assim.
Londres, outono de 1971. Da esquerda para a direita, de pé: Rick Wright e David Gilmour; agachados: Nick Mason e Roger Waters.
O grupo não tem dúvidas quanto à importância de “Echoes” para sua
história. “Em termos de temática, de letra e de música, mas também quanto
à construção. Foi um aperitivo do que estava por vir”, diz Roger Waters.
“‘Echoes’ foi um projeto bem-sucedido”, concorda David Gilmour.
“Para mim, há um grande salto de Atom Heart Mother para Meddle, e para
‘Echoes’ em particular. Dali para Dark Side of the Moon foi outro grande
salto. Mas já era possível ver a direção que estávamos seguindo.”
A composição ocupava um lado inteiro de Meddle, o espaço restante
ficou para as irregulares atrações secundárias. Os dois outros pontos altos
do álbum eram “One of These Days”, baseada no som brilhantemente
potente de uma frase do baixo de Roger Waters alimentada por uma unidade
de eco; e a lânguida “Fearless”, que passeava pela mesma ambientação
ensolarada que Gilmour captara em “Fat Old Sun”. Lançado em novembro
de 1971, Meddle chegou ao terceiro lugar da parada britânica de discos,
embora nos Estados Unidos seu destino deixasse clara a distância comercial
que o Pink Floyd ainda teria de percorrer. Enquanto Atom Heart Mother
subiu até um promissor 55º lugar, Meddle chegou apenas ao número 70.
Estas, ao que pareciam, eram as desvantagens decorrentes de fazer o que o
Washington Post definiu como “o mais próximo que o rock tem a oferecer
em matéria de vanguarda”.
Pouco antes do surgimento do álbum, o Pink Floyd fez uma
apresentação que apenas confirmava suas credenciais artísticas. Seguindo a
sugestão de Adrian Maben, um diretor de cinema francês, percorreram o
trajeto — junto com enormes cargas de equipamento — até as ruínas da
antiga cidade romana de Pompéia, no sul da Itália. Lá tocaram no anfiteatro,
cuja atmosfera era de fazer cair o queixo. Foram observados apenas pela
equipe de filmagem de Maben e pelo próprio pessoal. “Eu achava que já
havia muitos filmes de concertos”, explicou posteriormente o diretor.
“Então, a idéia central era fazer uma espécie de filme anti-Woodstock, no
qual não haveria público presente, e a música, o silêncio e o anfiteatro vazio
falariam, se não mais, tanto quanto uma multidão de espectadores.”
O cenário de Live at Pompeii, outubro de 1971.
Embora o filme, apoiado por seqüências adicionais rodadas em Paris,
não tenha cumprido seus ambiciosos planos, ao menos provou uma questão:
sem nenhum elenco de apoio, o Pink Floyd — que não era das bandas de
rock mais agitadas — podia carregar o filme com o poder elementar de sua
performance. Nos momentos altos de Live at Pompeii — “One of These
Days”, “Careful with that Axe Eugene” e uma versão comovente de
“Echoes” — habilmente atendiam a essas demandas: davam mostras, ao
que parecia, de como tinham evoluído depois da saída de Syd Barrett.
O salto decisivo para fora de sua sombra, no entanto, estava logo ali na
esquina.
1 Sistema de som próprio para apresentações no palco. (N.T.)
2 2001, uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, filme de 1968. (N.T.)
3 Diversas espécies de pequenos animais peludos reunidos numa caverna e se divertindo com um picto (habitante celta da antiga Escócia). (N.T.)
4 “Se eu fosse um errante teria partido / Se fosse um trem estaria atrasado / Se fosse um homem bom falaria mais vezes com você.” (N.T.)
5 “Se eu estivesse sozinho choraria / Se estivesse com você estaria em casa protegido / Se eu ficar maluco por favor não coloque suas fiações no meu cérebro.” (N.T.)
6 “Estranhos passando pela rua, ao acaso dois olhares de relance separados se encontram / E eu sou você / e o que vejo sou eu.” (N.T.)
7 Retorno do filho do nada. (N.T.)
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