The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-prima do Pink Floyd
4. Em frente, ele gritou lá de trás: Rumo a Abbey Road
4.
Em frente, ele gritou lá de trás: Rumo a
Abbey Road
“PARECIA SEMPRE QUE FAZÍAMOS discos em meio a outras coisas”, diz David
Gilmour. “Trabalhávamos durante dois dias e então partíamos para uma
apresentação na Bélgica. Depois, mais três em Paris e voltávamos ao
estúdio após um mês. Considerávamos essa rotina normal.” “Era diferente
naquela época”, conta Nick Mason. “Não fazíamos turnês mundiais;
tocávamos, por exemplo, na Alemanha e na Holanda e voltávamos para
casa. Não costumávamos viajar por longos períodos e tampouco tínhamos
prestígio para partir em excursões mundiais. O custo de produção de uma
turnê era muito menor: hoje, você embarca numa turnê pelo mundo e fica
dois anos viajando, leva seis meses para cobrir o investimento, pois se
constroem um palco, um telão, uma coisa que gira, outra que se ergue do
chão e o equipamento de iluminação que pesa cem toneladas…. Você é
obrigado a fazer dessa maneira. Naquele tempo, nunca teríamos sonhado
em fazer assim.”
Graças ao esquema de shows vai e vem do Pink Floyd, embora as
gravações de The Dark Side of the Moon tenham durado cerca de 40 dias,
foram realizadas ao longo de sete meses. A primeira sessão em Abbey Road
começou no final de maio de 1972; um total de 18 dias, encerrados por uma
dúzia de apresentações na França e na Grã-Bretanha. Se o grupo mal
parecia se incomodar com a obrigação de voltar constantemente para a
estrada, por sorte as pessoas-chave com as quais trabalhavam em Dark Side
pareciam sentir-se da mesma maneira. “Acho que foi saudável”, diz Alan
Parsons, cuja pequena lenda se criou graças ao trabalho como engenheiro
de gravação do álbum. “Não sou a favor de passar semanas intermináveis
me concentrando em terminar alguma coisa. Acho que foi benéfico me
afastar do trabalho de vez em quando. E, quanto à banda, era muito
proveitosa a experiência de tocar as músicas ao vivo.”
Em junho de 1972, Alan Parsons tinha 23 anos. Seu currículo era
inevitavelmente breve, mas sem dúvida impressionante: após o primeiro
emprego numa fábrica de duplicação de fitas da EMI, rapidamente
ingressou na equipe de Abbey Road para trabalhar como engenheiro-chefe
no álbum Abbey Road, dos Beatles. Depois foi promovido a engenheiro-
principal em algumas faixas do trabalho solo inaugural de Paul McCartney,
o álbum de estréia dos Wings, Wild Life. Também havia trabalhado nas gravações de Ummagumma e Atom Heart Mother. Sua ficha
impressionante, porém, não se refletia no salário: por seus serviços, Parsons
recebia 35 libras (cerca de 60 dólares) por semana.
Comparadas às suas experiências com o Pink Floyd nos dois discos
anteriores, Parsons rapidamente percebeu que as novas sessões
representavam uma maneira diferente de trabalhar. “A distinção
fundamental”, diz ele, “era que eles tinham músicas que já vinham tocando
ao vivo, e por isso possuíam estrutura. Atom Heart Mother tinha alguma
base quando começou a ser gravado, mas The Dark Side of the Moon era
um fato consumado. Possuía muita organização, era coeso. Não precisaram
mexer muito nas composições, ainda que as aperfeiçoassem naturalmente
ao longo do processo de gravação. As canções já estavam ali.”
Mesmo que a banda tivesse voltado ao comportamento anterior que a
levava a adiar as coisas, Parsons ainda assim se empolgava por partilhar de
sua companhia. “O Pink Floyd era, por sua própria natureza,
audioexperimentalista”, diz ele com entusiasmo. “E ser o engenheiro de
som daquele tipo de grupo era um sonho que se tornara realidade. Os
Beatles eram a única banda que havia feito aquilo. O Pink Floyd tinha uma
tendência a passar muito tempo experimentando sons, e a gravadora possuía
o orçamento necessário. O Pink Floyd e os Beatles têm muito em comum
nesse aspecto, e ambos trabalharam nos maiores estúdios com alguns dos
melhores engenheiros de som. “Isso nem se discute. E não estou apenas
puxando a brasa para a minha sardinha em relação a The Dark Side of the
Moon; isso vale para uma porção dos discos que fizeram. Formávamos um
belo time; trabalhávamos muito bem juntos.” (À sua própria maneira, a
banda concordava com tudo isso: “A
EMI era um grande lugar para se trabalhar”, diz Nick Mason. “Havia
muita gente com boas idéias lá, que fazia as coisas funcionarem, uma
atitude do tipo ‘Que tal tentarmos isso?’”)
Enquanto Meddle fora gravado em uma variedade de estúdios de
Londres, o álbum seguinte seria gravado exclusivamente em Abbey Road,
tardiamente dotado com o equipamento de 16 canais que fazia falta em
1971. “Era melhor do que oito canais”, diz Parsons, “mas você tinha de
pensar com cuidado quantas camadas sonoras podiam ser fisicamente
alcançadas; não se tratava só de acrescentar e acrescentar, como se faz hoje
em dia. Chegamos no ponto em que acabávamos ocupando a fita toda na
maioria das canções, mas aí decidíamos partir para uma segunda geração e reduzir os 16 canais para sete ou oito, e assim ter mais espaço para enxertar
novos elementos. A desvantagem disso era que a fita de segunda geração
diminuía de qualidade. Perdíamos algo no processo de mixagem.”
Nas lembranças de Parsons e da banda, as apresentações ao vivo não
eram a única razão para interromper as gravações. O amor de Roger Waters
pelo futebol muitas vezes interferia no trabalho em Abbey Road. Torcedor
apaixonado do time londrino do Arsenal, que havia ganho não só o
campeonato inglês como a copa nacional em 1971, ele regularmente largava
as gravações para ir ao estádio do time, no norte de Londres, não muito
longe de sua casa. “Eu literalmente sonhava em jogar no Arsenal naqueles
dias”, diz Waters. “Morei na New North Road, em Islington, de 1968 até
1975. Quando estava em Londres, ia ver todas as partidas que o Arsenal
jogava em casa. Estava profundamente absorvido pelo futebol. Você pode
ouvir um pouco disso em ‘Money’: ‘Think I’ll buy me a football team.’”1
“As horas que trabalhávamos dependiam do dia da semana”, conta
Parsons. “Se era noite de futebol, terminávamos mais cedo; Roger estava
muito ligado nas grandes partidas daquela época. E também gostava de
jogar. Existia um time do Pink Floyd. E se passava Monty Python na TV,
fazíamos o mesmo: muitas vezes, parávamos para assistir e eles me
deixavam fazer uma mixagem bruta do que havíamos gravado até ali. Era
muito gratificante para mim. De certo modo eu punha minha própria marca
naquilo que estávamos fazendo.”
Quando estavam no estúdio, Alan Parsons — como muitos dos
assistentes e colaboradores do Pink Floyd — rapidamente percebeu um dos
mais notáveis atributos da banda: o espírito muito inglês de reserva e
comedimento. Tornou-se claro que não eram o tipo de músico que festejaria
uma gravação bem-sucedida com saudações em coro e espocar de rolhas.
“Era tudo muito calmo; sem entusiasmo”, diz ele. “Nunca davam pulos ou
cambalhotas de alegria quando algo funcionava bem. Depois de uma
impressionante tomada de um solo de guitarra, Roger dizia algo como: ‘Ei,
acho que podemos ficar com este, não, Dave?’ Era tudo muito tranqüilo.”
Alan Parsons, o engenheiro de som cujo trabalho em Dark Side valeu 60 dólares semanais.
Na primeira fase das sessões de Abbey Road, ao menos um integrante da
banda rompeu o comportamento taciturno usual do grupo: Nick Mason, que
exibia talvez os sintomas da recorrente doença do Pink Floyd, em que —
para usar suas próprias palavras — “começar era sempre o problema”.
“A primeira semana foi quase desastrosa”, conta Alan Parsons. “Nick
Mason não estava feliz com o som da bateria. Talvez ele sentisse que, para
conseguirmos o melhor resultado, devíamos dedicar muito tempo à bateria,
não sei… Mas, seja lá o que fosse, superamos aquilo. Ao entrarmos na
quarta ou quinta semana de gravações, ele nem se dava mais ao trabalho de
testar o som da bateria. Simplesmente seguíamos em frente e estava
valendo. A confiança entre nós melhorou à medida que o tempo passava.”
O jovem engenheiro de som parecia desempenhar o delicado papel de
equilibrar o trabalho, sem interferir nos processos de decisões da banda,
mas de vez em quando tomava a iniciativa de reivindicar uma atuação mais
criativa do que sugeria o título de sua função. “Simplesmente agi segundo
meus instintos. Não empurrei minhas idéias para eles: ocasionalmente fazia
sugestões e às vezes executava, sem perguntar, as coisas que achava
melhor.”
Em pouco tempo, Parsons começou a sentir-se entrosado com o trabalho
que colocavam em fita. “O negócio é que todos nós sabíamos que era algo
mais cuidadosamente elaborado que qualquer outro disco que a banda havia
feito antes: um álbum muito, muito especial.”
A primeira canção em que a banda começou a trabalhar foi “Us and
Them”, cujos elementos básicos — baixo, bateria, piano, órgão, guitarra e
os vocais de Rick Wright e David Gilmour — foram gravados a partir de 1º
de junho. Seis dias depois, começaram a trabalhar em “Money”, a música
que, nas apresentações ao vivo, havia sido reforçada — e ao menos
inicialmente perturbada — pelos efeitos sonoros do loop laboriosamente
manufaturado por Roger Waters.
“Fiz aquelas gravações num galpão no fundo do jardim, jogando moedas
dentro de um panelão industrial que minha mulher usava para misturar
argila”, diz Waters. “Gravei os efeitos sonoros no meu primeiro bom
gravador de fitas, picotei as fitas e depois as colei, enfiei-as na máquina,
usei um suporte de microfone para manter a fita bem esticada e lá foi ela
[imita os efeitos].” Quando chegou o momento de gravar em Abbey Road,
porém, as aspirações tecnológicas da banda exigiam que o loop fosse
regravado. O álbum, haviam decidido, seria lançado não só no estéreo
convencional, mas também em som quadrifônico — aquela invenção
peculiar dos anos 1970 pela qual os audiófilos podiam colocar um alto-
falante em cada parede de uma sala e supostamente desfrutar do que, na
época, mais se aproximava de um som surround.2
O Pink Floyd fotografado na cantina de Abbey Road. Em sentido horário: Roger Waters, David Gilmour, Rick Wright e Nick Mason.
“Como foram concebidos para funcionar em som quadrifônico”, explica
Alan Parsons, “e não gravado numa fita de um quarto de polegada, os
efeitos de ‘Money’ tinham de ficar num loop de 2,5cm, cada som gravado
em um canal diferente. A idéia era que, quando o disco fosse tocado, os
sons viajassem ao redor da sala. Em matéria de comprimento, cada som
durava cerca de um segundo, o que equivalia a cerca de 37cm de fita.
Multiplique isso por sete e você tem um bom tamanho de fita. E aquilo
tinha de passar por alguns obstáculos no estúdio.
“Seria incrivelmente fácil hoje em dia: podíamos fazer a coisa em 15
minutos. Mas precisávamos gravar os sons individualmente. Alguns deles,
como a caixa registradora, vinham dos efeitos sonoros guardados no
arquivo de fitas de Abbey Road. Um dos sons, o antepenúltimo, é algo
chamado de Uni-seletor, que você encontra numa linha telefônica: aquele
tipo de som ‘Brrr’. Tínhamos um saco de moedas, e gravamos elas sendo jogadas de uma altura de dois metros sobre o chão do estúdio. Havia um
som que representava dinheiro sendo rasgado: eram apenas pedaços de
papel. O Pink Floyd ainda não era tão rico na época.”
“Para os loops de fita de ‘Money’, instalamos suportes de microfone na
sala de controle, com metros de fita formando um círculo”, diz David
Gilmour. “Mas tinha de ficar bem esticada para não enrolar dentro da
máquina de gravar. Então ela ficava rodando ao redor daqueles suportes de
microfone. Tudo o que podemos fazer hoje digitalmente em segundos
representava um grande pesadelo logístico. Éramos todos peritos em cortar
e colar fitas, e fazer loops, porque tínhamos que ser.”
Além dos efeitos — que, como na fita do Rainbow, sofreram um fade
out,3 ao longo dos primeiros compassos da abertura da canção — “Money”
também foi notável por causa do empenho da banda em criar uma música
repleta de atmosfera, como já havia feito em “Echoes” e “Atom Heart
Mother”. Desta vez, porém, as idéias estavam um pouco mais
desenvolvidas: assim como o estridente riff principal de Roger Waters, os
versos da canção eram parcialmente impulsionados pela interação entre o
piano elétrico de Rick Wright e a guitarra funkeada de David Gilmour.
Além disso, o segmento em quatro por quatro durante o qual Gilmour fazia
um solo improvisado (depois aprendido de cor e fielmente executado nos
shows da banda) traía a forte influência dos músicos norte-americanos que
eles adoravam na juventude.
“Eu sempre tentava colocar um pouco daquilo nas nossas músicas”, diz
Gilmour. “Estava sempre buscando fazer com que Nick aprendesse novas
batidas e ficasse um pouco mais funky. É difícil dizer especificamente quem
e o que influenciou o quê, mas eu era um grande fã de Booker T. Ouvia
muito o álbum Green Onions na adolescência. Em minha banda anterior [a
Jokers Wild], já estávamos juntos há dois ou três anos e gostávamos
bastante dos Beatles, dos Beach Boys, da Stax e da onda soul: músicos
como Otis Redding. Tocamos ‘Green Onions’ no palco. Eu já havia tocado
muito de tudo aquilo; era algo que eu achava que podíamos incorporar ao
nosso som sem que ninguém detectasse de onde viera a influência.
“Para mim, funcionou. Você podia combinar todo esse outro tipo de som
com aquele estilo ligeiramente mais funky. Ingleses brancos, bem-
comportados e que estudavam arquitetura fazendo um som funky é uma
idéia um tanto estranha”, ele ri. “E não chega a ser tão funky assim.”
Se a banda aspirava ao estilo enxuto que associamos aos MGs, havia
uma falha clamorosa: o entrosamento rítmico um tanto vacilante. “Na
gravação da base, todo mundo tocava junto: um piano Wurlitzer com efeito
ua-ua, baixo, bateria e guitarra”, lembra Roger Waters. “Uma das maneiras
como se percebe que foi feito ao vivo é que o andamento muda muito do
começo ao fim. Há uma grande aceleração.”
A faixa seguinte a ser atacada foi “Time”, cujas gravações básicas
começaram no dia seguinte ao início dos trabalhos em “Money”. Nesse
momento, a sensação de letargia que travou as primeiras gravações ao vivo
havia desaparecido: os versos — entoados por David Gilmour em tons
agressivos e ásperos que estavam a anos-luz do timbre abafado que ele
usara em canções como “Breath” e “Us and Them” — crepitavam com uma
energia que explodia na passagem reservada para um solo de guitarra. “Os
solos de guitarra foram todos improvisados”, conta Alan Parsons. “Dave
costumava tocar em volumes ensurdecedores…. Eu usava só um microfone,
a uns 30cm de distância.”
Gilmour acreditava piamente — e continua a crer — na magia do acaso
na invenção espontânea: “É só você tocar o que sente e ouvir no que
resultou”, refletiu ele depois, “e geralmente é a primeira tomada que sai
melhor.”
Rick Wright, em contraste, passou muitas horas aperfeiçoando o
interlúdio instrumental que ainda era conhecido alternadamente como
“Mortality Sequence” ou “Religious Theme”. A parte tocada no órgão nos
shows iniciais de Eclipse, porém, foi colocada de lado: em vez disso,
Wright surgiu com uma peça tocada no piano que era um pouco mais
convencionalmente floydiana, com espaço para bateria, baixo e órgão.
Como forma de juntá-la à música que a cercava, a passagem mais longa
ecoava “Breathe”. Sua mudança entre os acordes de sol-menor com sétima
e dó com nona evocava sutilmente a fundação inicial da canção em mi-
menor com baixo em lá, uma semelhança sublinhada apenas por uma breve
mas exuberante passagem de violão com cordas de aço nos compassos de
abertura.
Por sua vez, aquela parte assumia um crescendo tumultuoso e depois
cedia para sua passagem mais impressionante: o período de calma
portentosa que chegava depois de dois minutos e meio. Se inicialmente
tencionava evocar a morte, Wright sugeriu depois que tal idéia estava longe
de seu pensamento: “Quando a compus, não pensei: ‘Isso é sobre a morte’. [Se o tivesse feito] não creio que teria composto aquela estrutura de
acordes.”
Segundo Alan Parsons, Rick Wright gravou a sua parte isolado do
restante dos colegas. “Rick estava no estúdio nº 1, tocando num daqueles
pianos de cauda, e a banda estava no estúdio nº 2. Nós o enganamos: em
vez de a banda tocar de verdade, tocamos a gravação em fita de uma
tomada anterior. Não havia meios de Rick notar a diferença. Então botamos
a fita para rolar e ficamos à espreita atrás da porta. Quando ele ergueu os
olhos depois de terminada a tomada, todo mundo estava parado lá, olhando
para ele. Pareceu um bocado surpreso. Éramos realmente um bando de
garotos, e fazendo travessuras.”
Àquela altura, a peça foi considerada um sucesso — “uma das melhores
coisas que Rick já fez”, na estimativa de Roger Waters —, embora houvesse
a suspeita de que ela necessitava de um elemento adicional. Em um
primeiro momento, a banda ficou com a idéia provisória de acompanhar a
música de Wright com as fitas de vozes que vinham usando nos shows.
Como alternativa, porém, Alan Parsons enxertou uma parte de uma
gravação do arquivo da Nasa, mas sentiu que o grupo, já meio ressabiado
diante de novas associações com a ficção científica, não demonstrou grande
entusiasmo. “Coloquei alguns diálogos de uma caminhada espacial em ‘The
Great Gig in the Sky’. Achei que funcionaram muito bem”, lembra, antes de
abrir um sorriso afetado. “Mas eles não concordaram comigo.”
TALVEZ TENHA SIDO UM sinal da serenidade bem inglesa do Pink Floyd o fato
de eles aproveitarem ao máximo o verão de 1972 tirando dois meses de
férias. O trabalho no estúdio foi suspenso, enquanto a banda curtia com
suas esposas, namoradas e famílias — e calmamente se preparava para a
turnê pelos Estados Unidos que começaria em setembro.
A excursão foi iniciada com uma apresentação discreta no Municipal
Auditorium, em Austin, Texas — um show que, mesmo sem chamar muita
atenção, marcou um progresso crucial no novo ciclo de canções da banda.
A partir desse momento, os 40 minutos de música que vinham elaborando
há dez meses começariam a ser conhecidos como The Dark Side of the
Moon. Na lembrança de David Gilmour, a ameaça do álbum de mesmo
nome do Medicine Head já havia passado: “Não vendeu bem, então
deixamos para lá… Eu era contra Eclipse, e nos sentíamos um tanto chateados porque já tínhamos pensado no título antes que o disco do
Medicine Head fosse lançado…. Queríamos usá-lo.”
Entretanto, o velho apelido ainda estava em uso: o Dark Side do Pink
Floyd permanecia “uma peça para lunáticos variados”.
Depois de Austin, a banda percorreu cidades como Tucson, Wichita e
Tempe — exemplos do que a indústria fonográfica chama hoje de
“mercados secundários” —, antes da espetacular apresentação, que
lembram com apreço, no Hollywood Bowl, o santuário musical californiano
que, desde que os Beatles haviam tocado lá em 1964, se tornou um símbolo
para as ambições dos grupos britânicos de rock em ascensão. “Em nossos
dias pré-Dark Side of the Moon, estávamos passando por um aumento
gradual de popularidade na América do Norte”, diz David Gilmour, “e
começávamos a lotar grandes auditórios, salas com 12 mil lugares….
Alguém sugeriu que seria divertido tocar no Hollywood Bowl, e foi. Uma
noite fantástica. Tínhamos aqueles imensos refletores do lado de fora:
quatro deles, a cem metros de distância um do outro, criavam uma pirâmide
sobre o palco — e ainda outro conjunto de luzes coloridas como um leque
atrás do palco. Ficamos maravilhados.”
As últimas apresentações da viagem foram na costa noroeste do
Pacífico, onde a banda tocou em Portland, Seattle e Vancouver. Nesta
última cidade, o primeiro de seus espetáculos no Gardens Arenas foi
resenhado por um correspondente do Vancouver Free Press, publicação
assumidamente contracultural, que ficou muito impressionado com a
música da banda, mas se entusiasmou profundamente pelo espetáculo de
luzes e o impacto que exercia sobre o público. “Havia muita droga
circulando”, ele escreveu, “e alguns poucos viajantes iniciados em
concertos do Pink Floyd que urravam de empolgação…. O cara ao meu
lado de repente se empinou na cadeira como se alguém o tivesse feito
cheirar um monte de ampolas de nitrato de amila.”
Dez dias depois, o Pink Floyd voltava a Abbey Road para a segunda
etapa de trabalho em The Dark Side of the Moon. Tinham dois objetivos
extensos: começar a trabalhar nas músicas que não haviam sido iniciadas
nas sessões de junho, aprimorar e completar as que já haviam sido
gravadas. Começaram a gravar “Brain Damage”, “Eclipse”, “Any Colour
You Like” e “The Travel Section”, que logo ficaria conhecida como “On
the Run”. Para a segunda finalidade, convocaram uma admirável equipe de
vocalistas, cujo papel podia remontar talvez à trilha sonora de Roger Waters e de Ron Geesin para The Body, quando a colaboração com cantoras
influenciadas pelo soul resultou na canção suave e de alto astral chamada
“Give Birth to a Smile” (cujas imagens bucólicas e naturalistas parecem
também ter influenciado o clima de “Breathe”).
Na Londres dos anos 1970, qualquer artista de rock que precisasse de
um apoio vocal feminino — dos ex-Beatles até sensações recém-lançadas
como Queen, T-Rex, e mesmo os visitantes norte-americanos — acabava
recorrendo a um pequeno círculo de cantoras que não chegavam a mais de
dez. Dada a amplitude de sua contribuição a alguns dos discos mais
cultuados do cânone do rock, o papel dessa pequena e coesa comunidade na
história musical tem sido lamentavelmente subestimado. “Éramos todas
grandes amigas”, diz Barry St. John (seu nome verdadeiro era Eliza
Thomson; a primeira metade do nome artístico veio de Barrie Chase, antiga
parceira de dança de Fred Astaire), que, entre outras participações, figurou
nos vocais de apoio de discos de Elton John, Rod Stewart e Mott the
Hoople. “Gostávamos de verdade umas das outras. Não comparecíamos
simplesmente a uma gravação e depois nos despedíamos dizendo ‘a gente
se vê por aí’. Gostávamos realmente de conversar entre nós. Muitas de nós
eram da classe operária. Ficávamos unidas e ajudávamos umas às outras.”
Barry St. John juntou-se a três outras cantoras reunidas pelo Pink Floyd
para uma sessão vespertina em Abbey Road. Liza Strike havia começado
sua carreira de estúdio participando do álbum solo de 1970 de Stephen
Stills, gravado em Londres, e se tornara uma das vocalistas do Reino Unido
mais requisitadas para gravações. Doris Troy (também conhecida como
Doris Payne) era uma cantora de soul e gospel nascida em Nova York.
Instalara-se em Londres e fora por pouco tempo contratada do selo Apple,
dos Beatles. “Doris era uma figura”, diz Lisa Strike. “Morávamos perto
uma da outra. Ela me ligava e dizia: ‘E aí, vai circular hoje? Então me dê
uma carona, baby.’ Era uma típica pessoa do Harlem. Veio da barra-pesada
de Nova York e não abandonou suas raízes. Doris era bárbara.”4
As vocalistas de apoio de Dark Side. No sentido horário: Liza Strike, Barry St. John, Lesley Duncan e Doris Troy.
O quarteto era completado por Lesley Duncan, cantora e compositora de
estúdio de 29 anos cuja canção mais famosa era “Love Song”, que ganhou
uma versão de Elton John no álbum Tumbleweed Connection, de 1970. Ela
também dera apoio vocal a hits britânicos como “Everlasting Love”, dos
Love Affairs, e “Goo Goo Barabajagal (Love Is Hot)”, colaboração de
Donovan e Jeff Beck de 1969.
Na lembrança de Duncan, a visita das cantoras a Abbey Road refletiu
uma curiosa ironia: embora as novas canções da banda reclamassem da falta
de entendimento mútuo e generosidade emocional da humanidade, o Pink
Floyd parecia, em seu cotidiano, ser parte do problema. “Não eram muito
amistosos”, diz ela. “Eram frios, um tanto clínicos. Não irradiavam
nenhuma espécie de calor. Normalmente nos divertíamos em gravações
com outros músicos — não que chegássemos a ir a um pub ou coisa
parecida, mas em geral dávamos umas boas risadas e havia uma sensação
de que todo mundo estava no mesmo barco. Nada disso aconteceu. Eles simplesmente diziam o que queriam e nós fazíamos. Lembro muito bem de
estar na sala de controle, ouvindo o que tínhamos gravado, sentindo aquela
atmosfera gélida e pensando: ‘Fizemos algo errado? Obviamente não
gostaram.’ O máximo que recebemos foi um ‘É o suficiente’. Não houve
sorrisos e ficamos muito aliviadas de sair dali.”
“Era tudo muito sério”, conta Liza Strike. “Na maioria das sessões
sempre rolavam algumas brincadeiras. Esta foi muito quieta; não havia
nenhum diálogo que fugisse ao trabalho. Dave Gilmour dirigia e sabia
exatamente o que desejava. Não éramos muito solicitadas. Mesmo quando
improvisei, ele me disse o que deveria cantar. Geralmente as pessoas diziam
‘Você pode improvisar aqui?’ — e deixavam a coisa em aberto. Mas ele
tocava o que queria.”
Os vocais do quarteto foram acrescidos a “Us and Them” (sendo
dobrados em três canais) e “Brain Damage”, juntamente com “Eclipse”, na
qual Doris Troy e Lisa Strike fizeram uma breve série de maravilhosas
improvisações em estilo gospel. Foram utilizadas de um modo mais
impressionante, porém, em “Time”, em que seus vocais passaram pelo
Frequency Translator, um dispositivo pioneiro de distorções de tom. O
resultado foi uma gloriosa atmosfera de fundo que permitiu que as
passagens cantadas por Rick Wright assumissem uma graça que as versões
ao vivo insinuavam, mas nunca chegaram a alcançar. “Estas invenções
nunca foram usadas da maneira que se tencionava”, disse Alan Parsons
depois. “Fizemos esta descoberta, de que se você a alimentasse de novo
sobre si mesma, a gravação adquiria um ruído sibilante maravilhoso.”
As vocalistas — referidas nas fichas de gravação como “garotas” — não
foram as únicas adições extras. Em duas das canções gravadas em junho, o
grupo decidira acrescentar partes de saxofone. Em vez de contatar um
músico de estúdio londrino, convocaram um amigo de Cambridge. Dick
Parry era um pouco mais velho do que o pessoal que se reunia no Criterion,
mas integrava a turma da qual saíra metade do Pink Floyd, sendo que ele e
David Gilmour eram velhos conhecidos.
“Eu havia tocado com ele”, lembra Gilmour. “Era um músico de jazz.
Meu grupo em Cambridge raramente tinha um compromisso para tocar na
noite de domingo, e Dick tinha um programa regular num salão de baile
justamente aos domingos. Criamos essa espécie de trio de jazz. O Pink
Floyd era tão insular, por falar nisso. Não conhecíamos ninguém. Realmente não sabíamos como descobrir um saxofonista. Queríamos tentar
um sax em “Us and Them” e “Money”, por isso chamamos Dick.”
Parry tocou dois solos diferentes. Para “Us and Them”, o ponto de
referência sugerido por David Gilmour foi o papel desempenhado por Gerry
Mulligan em Gandharva, um álbum parcialmente ao vivo dos pioneiros
norte-americanos em eletrônica Paul Beaver e Bernie Krause, lançado no
ano anterior. O resultado foi uma série de toques melódicos calorosos e
suaves que finalizavam os versos. Eram usados nos refrões e pairavam
sobre uma passagem instrumental antes das últimas estrofes vocais (nas
primeiras tomadas, eram mais espalhadas, pontuando quase todas as frases).
Em “Money”, no entanto, Parry contribuiu de maneira bem mais vigorosa,
em sintonia com o desejo de Gilmour de se aproximar dos seus músicos
favoritos de rhythm & blues.
Finalmente, foi por volta dessa época que se enxertou um novo elemento
na introdução de “Time”: uma rajada de relógios, gravada então
recentemente por Alan Parsons para um disco da EMI destinado a
demonstrar as maravilhas do som quadrifônico. Depois de uma enxurrada
de tiquetaques, a banda queria que os vários carrilhões e despertadores de
Parsons soassem simultaneamente. O estúdio, então, ficou de novo
engrinaldado de várias fitas, enquanto o Pink Floyd e seus comparsas
conseguiam um novo pequeno feito de engenhosidade.
EM POUCO TEMPO, o Pink Floyd estava de volta às turnês: desta vez, tocando
The Dark Side of the Moon para uma série de platéias na Europa
continental. Começaram em Copenhague, antes de viajar para o sul e se
apresentar nas cidades alemãs de Hamburgo, Düsseldorf, Frankfurt e
Boblingen, um subúrbio de Stuttgart onde havia um ginásio coberto
chamado de Sporthalle.
O saxofonista Dick Parry, chamado a Abbey Road graças à sua amizade com David Gilmour.
Uma fita pirata desse show mostra a banda à vontade em Dark Side
como nunca antes, traindo sua familiaridade com o material ao acrescentar
freqüentemente novos toques, alguns deles improvisados na hora. A
introdução de “Breathe” destaca um inesperado solo de guitarra de David
Gilmour. “The Travel Section”, ainda tocada segundo o modelo de uma jam
de guitarra, traz Roger Waters resvalando para o riff de baixo de três notas
que servia tanto de base para “Let There Be More Light”, de A Saucerful of
Secrets, como para a passagem intermediária de “Interstellar Overdrive”.
De modo ainda mais estranho, é concluída com uma breve parte em boogie-
rock. O mais esquisito de tudo, porém, é uma interpretação prolongada de “Any Colour You Like”, em que Gilmour temporariamente se reinventa e
lembra George Benson, imitando com a voz as frases de sua guitarra. A
idéia foi tirada de gravações anteriores em estúdio — um canal da fita fora
reservado para os vocais, e seu título provisório era “Scat” —, mas por sorte
não é audível na versão lançada.
Outros aspectos da fita indicam que Dark Side era uma obra em
gestação. A letra de “Time” ainda inclui o verso “lying supine in the
sunshine”, depois emendado para “tired of lying in the sunshine”.5 “The
Great Gig in the Sky” é radicalmente diferente da versão final: a cacofonia
de vozes cristãs ainda está presente, e a passagem em que toda a banda toca
junta é prejudicada por um baixo horrendamente canhestro de Roger
Waters, em que ele tropeça nas escalas mais rudimentares. Em “Us and
Them”, a conclusão de cada verso é marcada por David Gilmour, que emite
um “Aaaah” bastante piegas — sensatamente cortado quando finalizaram
Dark Side.
Cinco dias depois, o grupo trouxe a público um de seus mais insólitos
projetos até aquela data: uma colaboração com Roland Petit, o coreógrafo
de vanguarda que na época tinha 45 anos e acabava de fundar uma
companhia de balé em Marselha. Discussões esporádicas sobre o projeto
estavam em andamento há quase dois anos, tempo em que as ambições de
Petit haviam murchado gradativamente. No início, ele queria fazer um balé
e um filme baseados em À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust,
traduzido para o inglês, alternadamente, como Remembrance of Things Past
e In Search of Lost Time.6 Extenso romance autobiográfico começado em
1913, algumas de suas versões publicadas tinham se alongado em
assustadores 18 volumes. Rogers Waters depois disse ter lido até a segunda
parte do livro I (O caminho de Swann), antes de chegar a uma conclusão
ligeiramente frustrada: “Dane-se. Não consigo ir adiante. É muito lento para
mim.”
Nas primeiras discussões, o grupo havia compartilhado fugazmente de
companhias de alto prestígio: Roland Petit, o icônico bailarino Rudolph
Nureyev e o cineasta Roman Polanski, talvez à procura de um sucessor
adequado para sua versão de Macbeth, de 1971. “Foi muito engraçado”,
disse Waters. “Era na verdade um almoço com os três. Íamos fazer a
música, Petit ia coreografá-la, Nureyev dançá-la e Polanski filmá-la. Houve
muito roçar de joelho debaixo da mesa, gesticulação — e, naturalmente,
não deu em nada: não tinha a menor chance.”
Em contrapartida à frustração de Roger Waters com Proust, Roland Petit
aparentemente sugeriu que tentassem uma versão do anônimo — e não
menos difícil — livro das Mil e uma noites, a seqüência de histórias que
inclui personagens como Ali Babá, Sinbad o Marujo e Aladim. Waters
lembra também que o coreógrafo sugeriu uma base mais moderna para o
seu dourado projeto multimídia. “Lembro de Polanski dizer para Nureyev:
‘Podíamos fazer Frankenstein e, Rudy, você poderia ser a porra do
monstro’”, conta Waters. “Mas ficou nisso, e foram todos deitar de cuecas
no jardim.”
Com Roland Petit e sua companhia de balé em Marselha, novembro de 1972.
No final, Polanski abandonou o projeto e a companhia de Roland Petit
acabou produzindo um balé baseado em cinco canções do Pink Floyd: “One
of These Days”, “Careful with that Axe Eugene”, “When You’re In”,
“Obscured by Clouds” e “Echoes”. “Começou com grandes expectativas e
acabou com o balé de Marselha saltitando ao som de algumas velhas
canções que havíamos ajeitado para a ocasião”, diz David Gilmour. “Para
ser honesto, foi uma idéia grandiosa que encolheu: uma espécie de
enganação.”
O balé estreou em Marselha em novembro, compondo o final de uma
produção em três atos que também incluía partes de duas peças de balé
convencionais de Prokofiev, Shostakovich, Mussorgsky e Mahler.
Fotos do evento captaram a incongruência da empreitada: a banda,
debruçada sobre seus instrumentos num palco elevado, enquanto figuras de malhas brancas rodopiavam abaixo deles. “Como era tudo coreografado,
embora pudéssemos improvisar o quanto quiséssemos, tinha de ser com a
mesma duração toda noite, caso contrário eles ficariam fora do passo.
Assim, quando tocávamos “Careful with that Axe Eugene”, um assistente
de produção nos bastidores, com uma série de cartões numerados, contava
os compassos. Então sabíamos que no compasso 108 eu berrava, e no
compasso 256 tínhamos que encerrar porque era o final da coreografia”, diz
Roger Waters.
Foram cinco noites em Marselha, seguidas, no início de 1973, por uma
série de apresentações em Paris, durante as quais os jornalistas,
acostumados a ver o grupo tocar em auditórios universitários e teatros
enfumaçados, apareciam para lavrar seu julgamento sobre o estranho
projeto. Entre eles estava o correspondente da Sounds, revista semanal
britânica de rock dirigida a jovens sérios, que formavam o principal público
do Pink Floyd e ansiavam por notícias sobre suas últimas criações. Naquela
noite, porém, a apreciação da arte parecia assumir segundo lugar diante da
apresentação de Danielle Jossi, uma bailarina que fazia parceria com outro
protegido de Roland Petit, Rudy Bryans.
“‘Echoes’ foi o encerramento”, escreveu o repórter do semanário, “de
uma seqüência cambiante de pequenas peças, sendo as mais espetaculares
uma entrada de Rudy no túnel e uma dança em que ele arrastava Danielle
por toda a extensão do palco.”
AS APRESENTAÇÕES DE BALÉ em Paris marcaram a última etapa do trabalho
em Abbey Road, quando o Pink Floyd se lançou para projetar o novo disco
em território distintamente futurista. Por alguns anos eles mantiveram
contato regular com o dr. Peter Zinovieff, fundador de uma pequena
empresa chamada Electronic Music Studios (EMS), que havia
desempenhado papel essencial no Laboratório Radiofônico da BBC: as
experiências com sons eletrônicos desenvolvidas pela companhia
radiofônica estatal da Grã-Bretanha. O quartel-general da EMS ficava na
casa de Zinovieff, em Putney, sudoeste de Londres, onde ele havia
construído uma instalação computadorizada de 12 bits com uma memória
sem precedentes de 1K — o tipo de tecnologia que era em geral privilégio
do governo e do exército. “Costumávamos dar um pulo até a casa dele de
vez em quando”, diz David Gilmour. “Ele tinha um sintetizador que
ocupava um galpão inteiro no jardim. Era imenso.”
Fotos do equipamento de Zinovieff — claramente instalado em um lugar
maior e mais imponente que um “galpão” — sugerem algo saído de
Jornada nas estrelas.
No início dos anos 1970, os sintetizadores se tornavam acessíveis aos
músicos de rock graças também ao equipamento do qual Robert Moog foi
pioneiro. O Pink Floyd, cujo aspecto “tecnófilo” é desnecessário mencionar,
estava entre aqueles que buscavam sons novos e inéditos. Por volta de
1972, compraram dois exemplares de novos tipos compactos de máquinas,
ambos feitos pela empresa de Zinovieff. O primeiro era um VCS3, um
sintetizador controlado por voltagem embutido num gabinete de aparência
kitsch que era vendido por cerca de 330 libras (500 dólares). Foi levado até
a França para as sessões de Obscured by Clouds, ainda que, como prova sua
presença na faixa-título, em “Childhood’s End” e em “Absolutely
Curtains”, o grupo a princípio tivesse dificuldades para extrair música
daquilo. “Para ser franco, estávamos tão perdidos em relação a ele que
quando recebemos o primeiro não conseguíamos tirar notas diferentes.
Ninguém nos havia ensinado. Era preciso programá-lo, mexendo em vários
botões. Exigia um esforço terrível para obter qualquer som. Canções como
“Obscured by Clouds” mostram tudo o que conseguimos fazer”, diz David
Gilmour.
Waters e o Synthi A, Abbey Road, janeiro de 1973.
À altura da terceira sessão de gravações de Dark Side, ao VCS3 se
juntara uma das recém-lançadas máquinas da EMS: Synthi A. Era uma
versão compactada do VCS3 — alojada numa pequena mala — que custou
198 libras (cerca de 350 dólares). Tinha a vantagem de ser compatível com
um seqüenciador primitivo e abria uma nova série de possibilidades.7
Segundo Alan Parsons, a experiência com um sintetizador Moog que
pertencia a George Harrison — cujas dimensões lembravam uma pequena
mesa telefônica — tivera alguma importância para levar a banda a entender
os rudimentos das duas máquinas. “Tive a vantagem de trabalhar com o
Moog com os Beatles, em Abbey Road”, diz ele. “Era preciso ter uma boa compreensão de controle de voltagem para fazê-lo funcionar. Eram vários
painéis com pequenos pinos e botões.”
O Synthi A seria depois utilizado em “Time” e daria à introdução um
aspecto robusto e prodigioso, enquanto o VCS3 foi usado em “Brain
Damage”. Rick Wright também lançou mão dessa máquina, embora mais
melodicamente, em “Any Colour You Like”, o interlúdio instrumental que
ligava “Us and Them” e “Brain Damage”, e reciclou a seqüência harmônica
básica que amarrava “Breathe” e “The Great Gig in the Sky” (desta vez, foi
transposta para uma progressão de ré-menor com sétima e baixo em sol).
De maneira mais perceptível, o Synthi A tornou-se o principal
instrumento da versão drasticamente remodelada de “The Travel Section”.
Até as sessões de janeiro, ela havia sido uma tentativa bocejante de algo
próximo da fusão jazz-rock, carregada de Sturm und Drang,8 mas
desprovida do poder evocativo que a banda buscava. “Vínhamos tocando-a
daquele jeito ao vivo há algum tempo, como uma espécie de jam de
guitarra”, diz David Gilmour. “Nenhum de nós estava satisfeito com ela.”
No passado, Gilmour também demonstrara incerteza em relação à
música pela presença adicional de “Any Colour You Like”; duas jams
independentes provavelmente eram demais.
Por algum motivo, “The Travel Section” foi refeita a partir do zero e
tornou-se uma canção instrumental enxuta, programada no Synthi A.
“Coloquei uma seqüência de oito notas no Synthi A e as acelerei”, lembrou
Gilmour. “Roger não achou muito legal. Colocou outra, parecida com a
minha e, detesto dizer isso, era um pouco melhor.”
A música resultante era ao mesmo tempo hipnótica e freneticamente
rápida. Melhor ainda, a seqüência de notas era acompanhada por um som
staccato semelhante ao de um címbalo, que lhe conferia ainda mais energia.
“A coisa toda, o som da percussão e a seqüência do baixo, era um som
mono quando saía do Synthi A”, diz Alan Parsons.
Ainda assim, ganhou vibração extra quando Nick Mason acrescentou
uma parte tocada no contratempo. Uma quantidade de efeitos foi adicionada
também na gravação, amarrando a intenção da banda de evocar tanto uma
viagem como — nas palavras de Roger Waters — “algum tipo de colisão.”
Uma gravação de chamadas de alto-falantes de aeroporto foi descoberta no
arquivo de fitas de Abbey Road. Alan Parsons gravou os passos de Peter
James, seu engenheiro assistente, caminhando no estúdio. Gilmour arrancou
ruídos fantasmagóricos da guitarra tocando-a com um suporte de microfone e executando a gravação depois de trás para a frente. O Synthi A também
foi usado para criar explosões de sons que viajavam entre a esquerda e a
direita, sugerindo movimento — “um efeito Doppler”, como define David
Gilmour. Finalmente, colocou-se uma explosão infernal que encerrava a
música, novamente pinçada da fitoteca de Abbey Road.
Rick Wright tocando piano em “Us and Them”.
Enquanto o trabalho prosseguia, a banda também recebia convidados: o
diretor de cinema francês Adrian Maben e uma pequena equipe, equipada
com uma câmera de 35mm, estava lá para filmar novas cenas para uma
versão remontada de Live at Pompeii.9 A idéia de adicionar elementos ao
filme fora tramada por Maben e Roger Waters enquanto faziam uma breve
excursão de pesca. Com a bênção de Waters, Maben se empenhou em
filmar a banda no estúdio para aumentar seu filme sobre o concerto com
uma noção de como o Pink Floyd criava sua música.
Alcançou seu objetivo, embora as cenas do grupo nas gravações —
Waters acrescentava partes de Synthi A na introdução de “Time” e
demonstrava a construção de “On the Run”; Gilmour colocava uma parte de
guitarra em “Brain Damage” que depois foi descartada; uma seqüência
maravilhosamente suave em que Rick Wright grava uma passagem de piano
para “Us and Them” — sejam muito menos emocionantes que aquelas em
que Maben conversa com a banda e a filma na cantina de Abbey Road
(onde eles demonstram sua condição típica de classe média inglesa “ceando”). Nessas tomadas são captados rapidamente os traços de caráter
que definem cada um dos integrantes da banda e a maneira como as
personalidades do grupo se entrelaçam num todo.
Roger Waters é a presença dominante. Responde às perguntas de Maben
com uma impaciência levemente petulante e contribui com estridência para
a conversação durante o jantar. “Todos nós sabemos que você é o Deus
todo-poderoso, Roger”, diz uma voz desencarnada, pouco antes de Waters
tentar invalidar o argumento de alguém que achava que o conhecimento
detalhado de música não precisava ser um pré-requisito para uma carreira
bem-sucedida como produtor de discos, numa referência ao empresário do
Pink Floyd. “Um produtor de discos”, diz Waters, com o tom ranheta de um
professor exasperado, “é um cara encarregado de uma gravação. Certo? E,
para exercer essa função, é preciso ter um conhecimento extenso do
equipamento, da música e do que é o rock ‘n’ roll… Steve [O’Rourke] sabe
o que é o rock ‘n’ roll, mas não tem nenhuma idéia a respeito do
equipamento e pouquíssima noção, em termos técnicos, da música que está
sendo feita. Ele sabe do que gosta.”
Waters toca o baixo em “Brain Damage/Eclipse”.
“Muitas pessoas produziram discos nessa base”, diz outra voz. “Álbuns
de grande sucesso.”
“Os quais?”, pergunta Waters antes de se corrigir. “Quais pessoas?”
A gramática é incorreta, ainda que apenas sublinhe sua característica
superconfiança alfa-masculina.
Enquanto isso, David Gilmour é bem menos belicoso. Seu tipo de
autoconfiança se manifesta num ar de distanciamento desdenhoso,
exemplificado por uma resposta sobre o elo indissociável entre o Pink
Floyd e o que permanece da cultura das drogas. “É uma imagem que
gostaríamos de desfazer. Acho que era bem pesada há alguns anos… Não
está tão ruim desde então, mas ainda acho que a maioria das pessoas nos vê
como um grupo orientado para as drogas.”
Faz uma pausa. “Claro que não somos”, ele acrescenta. E abre um
grande sorriso. “Podem confiar em nós.”
Rick Wright não foi entrevistado. O eternamente suave Nick Mason,
porém, encara com bom humor as inquisições de Maben e dá respostas
temperadas com uma ironia atraente e uma ocasional visão penetrante. “Nós
compartilhamos até certo ponto do mesmo tipo de humor”, diz a Maben.
“Desejamos o dinheiro também, até certo ponto. E temos muito interesse
pelo que estamos fazendo juntos.”
No contexto da história posterior do Pink Floyd, seu pensamento
seguinte demonstra uma notável capacidade de previsão: “Acho que a coisa
realmente chega a um ponto de ruptura quando uma pessoa acha que o que
está fazendo não lhe interessa, ou sente que poderia fazer algo melhor
sozinho.”
Olhando para trás, o início de 1973 foi uma ocasião auspiciosa para o
Pink Floyd: estavam, afinal, prestes a completar o álbum que romperia suas
últimas associações com os dias passados de psicodelismo e firmaria sua
reputação como um grupo de rock muito moderno. Nick Mason, porém,
evidentemente se preocupava em saber se eles conseguiriam realmente dar
esse grande salto.
“Infelizmente, marcamos uma determinada era”, diz ele mais adiante no
filme. “Corremos o risco de nos tornar uma relíquia do passado. Para
algumas pessoas, representamos suas infâncias: 1967, a Londres
underground, o concerto grátis no Hyde Park e assim por diante.”
Embora o sucesso de The Dark Side of the Moon viesse finalmente
exorcizar tal fantasma, pelo menos um dos integrantes do Pink Floyd ainda
podia sentir sua gélida presença.
1 “Acho que vou comprar um time de futebol pra mim.” (N.T.)
2 Uma versão quadrifônica de The Dark Side of the Moon, mixada por Alan Parsons, foi lançada pouco depois da versão estéreo convencional do álbum, mas acabou sendo recolhida. “O som quadrifônico teve uma morte horrível”, diz Parsons. “Ninguém acreditava nele; realmente, não era grande coisa. O equipamento não funcionava, e o vinil não era suficientemente robusto para reproduzi-lo.”
3 Redução gradual do som até desaparecer. (N.T.)
4 Os vocais de Doris Troy, Liza Strike e Barry St. John podem ser ouvidos no single de John Lennon de 1971, “Power to the People”.
5 “Deitado inerte ao sol” e “Cansado de ficar deitado ao sol”. (N.T.)
6 “Lembrança das coisas passadas” e “Em busca do tempo perdido”. (N.T.)
7 A EMS também fabricava uma unidade de efeitos de guitarra chamada Hi-Fly, usada por David Gilmour em The Dark Side of the Moon. Segundo Alan Parsons, “ela introduziu alguns efeitos de distorção, tinha uma boa fase e ADT [Automatic Double Tracking].” Pode-se ver Gilmour usando o dispositivo em Abbey Road nas seqüências de Live at Pompeii.
8 Em alemão, “tempestade e impulso”, título de um drama do alemão Klinger, de 1775, que deu o lema ao movimento romântico germânico.
9 A primeira versão de Live at Pompeii estreou no Festival de Cinema de Edimburgo, em setembro de 1972. A versão seguinte, com o acréscimo de cenas rodadas em Abbey Road, foi distribuída em 1974 e depois lançada em vídeo. Em 2003, foi lançado um DVD intitulado Live at Pompeii — The Director’s Cut, incluindo seqüências substanciais em preto-e-branco filmadas em Paris, em dezembro de 1972.
OceanofPDF.com