Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 4 de 10

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Tieta do Agreste

Intermezzo

À MANEIRA DE DANTE ALIGHIERI,

AUTOR DE OUTRO FAMOSO

FOLHETIM (EM VERSOS),

OU O DIÁLOGO NAS TREVAS

 

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JÁ IA DISTANTE A LUA NO CAMINHO DA ÁFRICA, PEJADA

DE AIS DE AMOR, quando por fim houve pausa e respiração. Desamarradas as coxas, separaram-se a vida e a morte, cada uma para seu lado, deixando de ser uma única coisa o ato de morrer e o de ressuscitar. Antes compunham um corpo único, um só foguete explodindo no alto dos céus, desfazendo-se em luz sobre as vagas do mar. Antes, a noite de luar foi ao mesmo tempo dia de sol; sol e lua, dia e noite acontecendo juntos sem distâncias nem intervalos.

Quando por fim houve pausa e respiração, desapareceram o sol e a lua, as trevas cobriram o mundo, a noite despiu-se de calor e brilho, fez-se fria inimiga, ouviu-se na ressaca do oceano contra as dunas, na insana ventania transportando areia, a ata de acusação e a sentença. Mais além da vida, mais além da morte, ele pôde medir a extensão do crime. Para o castigo não havia medida humana, não se mede a eternidade. Num esforço que lhe rompeu a garganta e o peito, reencontrou o exercício da palavra:

— Ai, tia! O que foi que a gente fez? Que é que eu fiz?

Um dia, em voto solene, jurara castidade, consagrara-se a Deus. Prometera renegar os prazeres da carne, casto filho de Maria e de Jesus. Traíra o voto.

— Me desgracei e desgracei a senhora, tia. Me perdoe…

Escuta sons de riso, em surdina, nascente de água em meio à tempestade. Mão de areia e vendaval toca-lhe a face culpada, dedos de unhas longas roçam-lhe os lábios, contendo o soluço: um homem não chora e a partir dali, do sucedido, que era ele senão um homem igual aos outros, cravada no coração a marca do pecado? Igual aos outros? Pior, pois os demais não tinham assumido compromisso e o sangue de Cristo derramado na Cruz os resgatara a todos, até o fim dos séculos. Mas ele fizera voto, prometera, jurara, assumira compromisso. Traíra a confiança de Deus. No negrume enxerga as chagas se abrindo em pus no corpo perverso, a lepra. Dedos pressionando a pele dos lábios impedem o grito e o espanto.

— Tia, só quando houver gente, tolo. Não tendo, sou Tieta, tua Tieta. — Está rindo a infeliz, inconsciente, condenada por ele às penas do inferno. Rindo, alegre; não se dá conta do horror que cometeram.

O demônio o possuíra, o mais perigoso, o mais sagaz e sutil, o pior de todos, o demônio da carne. Não se contentando em levá-lo à perdição, utilizara-o como instrumento para tentar e corromper a tia, para perverter viúva honrada, fiel à memória do marido, e transformá-la em fêmea enlouquecida, animal em cio, a gemer e a ganir, a berrar como as cabras nos oiteiros de Agreste. Ai, tia, que desgraça! A mão percorre os lábios, as unhas arranham a pele, ameaçando pausa e distância.

Possuída pelo cão, ela também. Excomungada por culpa dele, exclusiva, que tanto lhe devia: gratidão, respeito e puro amor de sobrinho e protegido. Não lhe mandara presentes de São Paulo, não trouxera vara de pesca e molinete, não lhe dera dinheiro, camisa nova, pijamas que a mãe guardara para o seminário, não ofertara imagem e ostensório à igreja, piedosa criatura? Alegre, informal, arrebatada, sim, mas generosa ovelha do rebanho de Deus, como a classificara padre Mariano. Alma pura, inocente coração, digna da estima do Senhor, da recompensa divina, proclamara o padre no sermão, durante a missa. Merecedora de todo respeito e de muita gratidão, para pagar o terno afeto, a bondade, as generosas dádivas. A mãe recomendava cuidasse da tia, ficasse às suas ordens, fosse seu amigo. Por acaso obedecera? Buscara aproximá-la ainda mais de Deus e da Igreja, como era sua obrigação de sobrinho e seminarista? Falara-lhe dos santos e dos milagres, contara os prodígios da Virgem e do Senhor, descrevera as maravilhas do reino dos céus? Nada disso cumprira. Ao contrário, pusera-se às ordens de Satanás na conquista da alma da tia, solerte instrumento do maldito. Antes servo de Deus, anjo consagrado, depois escravo do cão, obediente comparsa, cúmplice ativo, anjo decaído.

— Me perdoe, tia…

A mão se alonga, cobre a boca inteira, a palma comprimida sobre os lábios, trincando os dentes.

— Não diga tia, diga Tieta.

Depois da morte próxima do leproso — primeira demonstração da ira divina —, o castigo eterno, as chamas do inferno, para todo o sempre, sem apelo, sem repouso, sem intervalo, sem direito à contrição, sendo demasiado tarde para o arrependimento. Arrependimento? A mão rodeia a boca, as unhas raspam de leve.

No inferno, para toda a eternidade, a carne pecadora e podre queimando e jamais acabando de queimar — salva ou condenada, a alma é imortal. Ouve o riso suave, nascido da ignorância, riso de quem não sabe da violência da cólera de Deus. Por detrás do manso balido satisfeito, ele escuta a gargalhada do diabo, sinistra, vitoriosa, insultante: duas almas ganhas de uma vez, numa só parada, duas a mais para a prática do pecado e para as chamas do inferno, boa colheita.

Tantos dias, tantas noites de batalha. Porque ele lutara e resistira; com pequenas forças e armas mínimas, não possuía a estatura dos santos verdadeiramente dignos de servir a Deus, fortaleza da lei, dos mandamentos. Ainda assim resistira, lutara, erguera trincheiras: na banca, curvado sobre os livros; nas águas do rio, mergulhando quando Peto, instruído pelo cão, dirigia-lhe a vista na bacia de Catarina; nas orações, antes de deitar-se na rede; em rogo e promessa, na missa — se a Virgem o salvasse, comprometia-se a dormir estendido sobre grãos de milho durante todo o ano letivo. Trincheiras conquistadas, destruídas uma a uma pelo coisa-ruim. Nos problemas de álgebra, nas páginas impressas, saltavam inteiros os seios entrevistos pela metade no decote do penhoar; os fios de pêlo apontados pelo irmão na fresta do biquíni alongavam-se rio adentro, atando pulsos e tornozelos, trazendo-o de retorno às pedras onde ela descansava, descontraída, as pernas abertas, inocente de tanta cobiça e ousadia. Até mesmo durante o sagrado sacrifício da missa, a fumaça do turíbulo ao evolar-se traçava a curva e o balouça da bunda, redonda, solta, morena, percebida sob a curta camisola.

Labutara nas noites inquietas, a adivinhar devassidões quando se esforçava por enxergar no sonho castas imagens, vidas santas, alegrias puras. Antes de perder-se por completo ali, em Mangue Seco, esteve à beira do pecado todas as noites, ora adormecido, ora acordado, e se jamais o completou foi por não saber como fazê-lo. Mal terminava as orações e cerrava os olhos, ainda com o nome de Deus nos lábios e o pensamento na salvação da alma, e já o Amaldiçoado enchia a rede de seios e coxas, de bundas e pêlos, a tia inteira e nua.

Nem os rogos, nem as preces, nem as promessas, nem a fuga. Transtornado, abrira o livro santo na página da fuga para o Egito, conselho de Deus. Montou no burro e se tocou no rastro do padre Mariano para Rocinha em vez de tomar a lancha para Mangue Seco onde poderia vê-la quase desnuda na praia, acompanhá-la mar adentro, salvando-a de morte certa quando a arrebentação da barra a estivesse afogando. Heróico, lutaria contra as vagas, tomando-a finalmente nos braços, trazendo para a praia o corpo inerte apertado de encontro ao peito.

Montado no burro, fugira da tentação. De que adiantara? Durante todo o percurso para Rocinha ele a teve nos braços, apertada contra o peito no trote do animal. Ao roçar o cabeçote da sela, comprimia entre as coxas as ancas da tia.

Débeis forças, vontade fraca, armas frágeis para enfrentar o poder e as tramas do cão. Para tentá-lo na beira do rio, Belzebu utilizara Peto; para enviá-lo a Mangue Seco, por mais incrível possa parecer, servira-se da mãe, devota e rígida. Ele deveria ter se oposto, discutido, alegando a hora tardia, fingindo-se doente. Não o fez. A mãe não precisou repetir a ordem: saíra correndo em busca de Pirica para contratar o barco. Compreendeu que o Tinhoso escolhera Mangue Seco para local do crime e não obstante para ali partira de livre vontade. Durante a travessia, dava pressa a Pirica apesar de saber que, se lá desembarcasse, estaria perdido. Assim aconteceu: em Mangue Seco o cão o derrotara e possuíra.

Os dedos rumam para o queixo, deixando na boca um gosto de polpa fresca. As palavras, arrancadas do estômago, cortam o pulmão, estranguladas:

— Estou condenado e levo a tia comigo para o fogo do inferno. Sou ruim demais, me perdi e arrastei a tia.

A mão se espalma, toda ela de fogo, vindo do queixo para o pescoço. Na hora do pecado, até as labaredas são deleite, ninguém sente a dor das queimaduras. Mas outro é o fogo do inferno, tia, outro e eterno.

— Me leve, sim, cabrito. Novinho como os que eu carregava ao colo.

Viúva honesta, ele a fizera renegar o recato e a virtude da cativa condição, manchar a memória do marido, enlouquecer a ponto de dizer coisas assim, sem pé nem cabeça, murmurar frases sem nexo, aberta em riso de contentamento, não se dando conta do mal praticado, indiferente ao castigo.

Ele fora o único culpado mas a condenação atingia os dois, sobre a cabeça da tia cairá igualmente a cólera de Deus. Sobre as duas almas que não souberam resistir aos corpos vis, à carne podre. Ele, o único culpado. A tia lhe dissera que fosse embora, se quisesse, apontara para baixo dos cômoros, ele não quis, preferiu ficar. Consciente de que, se ficasse, iria desrespeitá-la, ofender a Deus, prevaricar, entregando-se de vez a Satanás, servindo-lhe de agente na degradação da alma da viúva, responsável por sua perdição.

— Quem me dera morrer.

— Nos meus braços.

A mão desce dos ombros para o peito. Ai, tia, não. Não vê que o demônio está solto, sobrevoa dunas e mar, morcego imenso a tapar a lua, a impor a noite negra e fria? O tentador está ali, presente, como sempre esteve, desde o momento em que a tia surgira na porta da marinete de Jairo. Fora ele, o demônio, quem falara pela boca de Osnar comparando-a a uma fruta madura, sumarenta. Naquela hora começara o combate, lá mesmo perdido. Perdido a cada momento mais, nos passos noturnos soando no corredor, nas rendas esvoaçantes do negligê, no biquíni minúsculo, na minúscula camisola, nas mãos untadas de creme, nas palavras truncadas do padre-nosso, nos sonhos prenhes de desejo quando a tinha nua junto a si, na rede, e não sabia o que fazer. Agora sabe e por isso pagará durante a eternidade. Pagarão os dois, o culpado e a vítima, ele e a tia. Quem sabe, Deus é justo, terá piedade da tia e lhe reduzirá a pena a um tempo de purgatório. Por mais longo seja, ainda que se estenda por milhões de anos, é tempo e não eternidade, tem limite e fim. Um dia a sentença termina, liberta-se o condenado, mas as penas do inferno, essas não acabam jamais. Nunca jamais, repete a cada segundo o relógio do inferno. Assim contara Cosme ao falar do castigo eterno.

— Deus é bom e sábio, terá piedade, sabe que a tia não teve culpa.

Cresce o riso alegre e inconsciente, a mão desce pelo peito agoniado.

— Não diga tia, diga Tieta.

A mão no peito sufocado de vergonha, de remorso, roto de medo; como fitar a face de Deus na hora do Juízo Final? A mão acalma o pesadelo, transforma os sentimentos, desata o nó, rompe a treva, mas não apaga as fogueiras da ira celeste pois toda ela, palma, punho e dedos, é brasa ardida, calor divino. Divino? Assim Satanás engana e condena os homens. Esse calor divino se transformará em dor insuportável nas profundas dos infernos, consumindo lenta e eternamente os pecadores.

— Só eu tenho culpa, Deus há de lhe perdoar, tia.

— Tia, não. Tieta, sua Tieta.

Como não percebera a voz de Deus na voz da tia apontando-lhe a descida, o caminho certo, o sendeiro a conduzi-lo à salvação, ao sacerdócio, ao paraíso?

Paraíso? Qual deles? A mão conduz ao paraíso: ainda há pouco ele enxergara a beleza, a doçura do céu em cada detalhe do corpo exposto ao luar. A mão brinca com os cabelos nascendo no peito jovem e másculo. O major orgulhava-se do tronco cabeludo, peito e costas, prova de macheza. Um macho, o pai. O filho, castrado pelo voto feito, pela promessa da mãe, impedido. Mas o demônio o levara a levantar-se contra a lei, despertara-lhe a carne morta, pervertendo-o. Fizera do mancebo casto, que desconhecia desejos e maus pensamentos, macho impuro sem controle sobre o corpo e a alma, um bode.

Não apenas: utilizara-o para conquistar a tia, perdê-la, condená-la.

— O purgatório dura uns tempos e acaba, tia. A culpa é minha, somente minha; Deus é justo, não mandará a tia para o inferno.

— Cabrito tolo, sou cabra velha. Me chame de cabra, diga minha cabra.

Jamais, mesmo se quisesse; nem sequer na hora do pecado, quando a cabeça não pensa e a boca geme e grita. Cabra dissera Osnar, voz do demônio, quando a vira deslumbrante na porta da marinete de Jairo, acrescentando indecente comentário sobre a fartura do ubre, o Imundo. E ele? Onde mergulhara a cabeça, pousara os lábios, onde, desvairado, mordera?

— Me perdoe, tia. Jure que me perdoa.

— Diga Tieta.

Na barriga de músculos rijos navegam os dedos em descoberta. O dedo mínimo enfia-se no umbigo, faz cócegas, a brasa cresce em labareda, consumindo o pecado, cobrindo o crime, acendendo o luar.

— Quero lhe dizer, tia…

— Tieta.

— Quero lhe dizer que mesmo tendo de pagar durante a eternidade no fogo do inferno, ainda assim…

— Diga, meu cabrito…

— …ainda assim, não me arrependo. E se o castigo pudesse ser pior, mesmo assim…

— Diga…

— …mesmo assim eu queria…

Onde a mão? A chama queima da ponta dos pés à ponta dos cabelos, percorre o corpo, a testa lateja, abre-se a boca, cresce o cão.

— Queria o quê, cabrito? Me diga…

— Estar aqui com a tia.

— Tieta.

A mão procura, encontra, apalpa, empunha. Desmedido demônio.

— Tieta, não me arrependo, ai não, Tieta!

— Diga cabra, meu cabrito.

Onde estão as trevas e o inferno, o temor de Deus? Sob o luar, o paraíso se abre para o cão, estreita porta de mel e rosa negra. Vale o inferno e muito mais. Vem, meu cabrito! Ai, cabra, minha cabra, sou bode inteiro, em fogo me consumo.

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