Tieta do Agreste
Terceiro episódio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
O PROGRESSO CHEGA
AOS CAFUNDÓS-DE-JUDAS
OU
A JOANA D’ARC DO SERTÃO
COM MARCIANOS E VENUSIANAS, SUPER-HERÓIS,
AERONAVES ESPACIAIS E FÊMEAS SUBLIMES;
ONDE SE TRATA DA PRODUÇÃO DE DIÓXIDO DE TITÂNIO
E DA SORTE DE ÁGUAS E PEIXES, COLOCANDO-SE
OS TERMOS DO DEBATE A DIVIDIR AGRESTE E A TERMINAR COM
O MARASMO E A PAZ, ASSISTINDO-SE AO
NASCIMENTO DA COBIÇA, DA SEDE DE PODER,
DA AMBIÇÃO DE MANDO E AO FLORESCER DO AMOR;
ACRESCENTANDO-SE AINDA REISADO,
BUMBA-MEU-BOI E OUTROS DETALHES FOLCLÓRICOS DE QUE
SE ENCONTRAVA CARENTE ESTE PATÉTICO FOLHETIM
OceanofPDF.com
DA PRIMEIRA APARIÇÃO DOS
SUPER-HERÓIS INTERROMPENDO
PECAMINOSA E AGRADÁVEL PRÁTICA
NA HORA CÁLIDA DO MORMAÇO
A PRIMEIRA APARIÇÃO DE SERES DE OUTROS PLANETAS,
DOS SUPER-HERÓIS, no território de Agreste, deu-se num começo de tarde, na hora do mormaço quando ninguém perturba a paz dos habitantes.
No comércio aberto por força do hábito, para cumprir o horário — das oito às doze, das catorze às dezoito — só no armazém de Plínio Xavier há certo movimento, aliás suspeito. Duas ou três vezes por semana, na mesma hora vazia de fregueses, o comerciante de secos e molhados, cidadão respeitável, casado e pai, escondido por detrás dos fardos de carne-seca, ocupa-se em meter as mãos sob a saia da solteirona Cinira, tocando-lhe as partes com a ponta dos dedos. Voltada para as prateleiras, ela faz como se não visse nem sentisse mas abre as pernas para facilitar. Plínio Xavier também age em silêncio, o suor pinga-lhe do rosto. De repente Cinira suspira fundo, estremece, leva a mão onde sabe estar fora das calças a ansiada arma, aperta-a forte e sai escarreirada e furtiva.
Naquele dia, quase ao chegar ao suspiro e ao estremeção, um abominável, sinistro ruído ecoou na rua, interrompendo bruscamente a deleitosa prática. Ao ver-se em fuga na calçada, Cinira não pode conter o terror e sufocar o grito: a máquina desconhecida e monstruosa vinha sobre ela, rugindo, imensas rodas afundando o chão. Lançava ao ar negra fumaça pestilenta através dos canos e orifícios e de súbito emitiu lancinantes sons, jamais ali ouvidos. Fechando o último botão da braguilha, Plínio Xavier chegou à porta a tempo de observar o estrambótico veículo passando em frente ao armazém, conduzindo no bojo os indescritíveis seres, ao parecer macho e fêmea, se bem não se diferenciassem muito um do outro nos atributos e nos trajes espaciais, idênticos.
Dias antes, haviam circulado rumores, trazidos de Mangue Seco, onde os pescadores afirmavam ter visto objeto não identificado, faiscante contra o sol, vindo do mar e nele desaparecendo após haver sobrevoado a praia e o coqueiral. Nem por isso o burgo estava preparado e a comoção foi imensa.
DA NAVE NA PRAÇA DA MATRIZ, QUANDO SE ESTABELECEM OS PRIMEIROS
CONTATOS ENTRE OS SUPER-HERÓIS E OS HUMANOS, COM REFERÊNCIAS A HOTÉIS E ASFALTO, ENQUANTO MISS VÊNUS FRETA CADA UM DOS HOMENS, INCLUSIVE SEU SMANUEL PORTUGUÊS
DESERTA E SILENCIOSA A PRAÇA DA MATRIZ QUANDO A
NAVE, num espaventoso clamor de gases soltos, ali se deteve e o ser provavelmente macho — em razão dos cabelos longos, sobrando do capacete, e das olheiras violetas, houve quem lhe discutisse o sexo — saltou por cima da porta da extravagante máquina, circulou o olhar em torno, não enxergou ninguém. Nas mãos, exibia grossas luvas de exótico material. Envergava flamante vestimenta, espécie de macacão azul com zíperes e bolsos nas pernas e braços, ilhoses e tachas de metal, a fulgurar. Observação mais detalhada, demonstrava tratar-se de calça e blusão, os bolsos repletos de objetos estranhos, armas mortais, imprevisíveis. Vestido de maneira absolutamente igual, sem outra diferença além do volume do busto, o ser fêmea suspendeu o capacete e revelou-se ótima. Retirando as luvas, com os longos dedos afofou a cabeleira ruiva — não mais longa que a do companheiro — com uma faixa platinada ao centro a denunciar-lhe a origem venusiana ou carioca, de qualquer forma apaixonante.
Do escondido do bar, Osnar observava, estupefacto; presentes apenas ele e seu Manuel Português.
— Oh! Luso almirante! Venha ver e me diga se é verdade ou delírio alcoólico o que estou vendo. Ontem bebi demais em casa de Zuleika.
Seu Manuel abandonou os copos nos quais passava água — também não precisa abusar da imundície, Vasco da Gama, dizia-lhe Aminthas apontando as marcas de sujeira em pratos, copos e talhares —, veio até a porta. Abriu a boca, coçou o queixo:
— Quem são esses valdevinos?
— De tanto Ascânio falar em turistas, eles apareceram… — arriscou Osnar. — A não ser que sejam os tripulantes do disco voador de Mangue Seco.
Constatada a ausência de terráqueos, o ser provavelmente macho retornou à nave, a venusiana enfiou as luvas; os abomináveis sinistros ruídos recomeçaram, a negra fumaça soltou-se pelos canos e orifícios, o veículo decolou num salto e se perdeu num beco. Durante certo tempo ouviu-se na cidade a barulheira, acordando em susto os que tiravam uma pestana como Edmundo Ribeiro, o coletor, e o árabe Chalita; trazendo à porta das casas os surpresos, assombrados habitantes. Houve comerciante a fechar portas de loja e de armazém, quem sabe Lampião voltara dos infernos, motorizado. Lampião nunca chegou a Agreste mas certa feita estivera perto, a três léguas de marcha, ainda hoje o fato é recordado.
Quando os super-heróis, percorridas ruas e becos, retornaram à praça da Matriz e outra vez aterrissaram, já Ascânio Trindade que os vira da janela do sobrado da prefeitura, descia a escada a correr, vindo-lhes ao encontro. Osnar falara em turistas gozando o amigo, mas Ascânio, se o tivesse ouvido, aprovaria: turistas, por que não? Os primeiros a atender ao convite redigido por ele (com a preciosa ajuda de dona Carmosina) e enviado ao jornal A Tarde, da capital, sugerindo aos turistas “esticar de Salvador até a mais saudável cidade do estado, Santana do Agreste, para conhecer a mais bela praia do mundo, a praia das dunas de Mangue Seco”. A gazeta publicara a carta na coluna dos leitores, lastimando, em pequena nota da redação, o péssimo estado da rodovia a impedir na prática a aceitação do convite. Ninguém de bom senso se disporia a jogar a sorte de seu automóvel nas crateras da estrada cada vez mais esburacada somente para conhecer Agreste, “recanto realmente paradisíaco”. Quem escapasse ileso da buraqueira da via principal teria de enfrentar ainda os “indescritíveis cinqüenta quilômetros de barro, a partir de Esplanada”.
Ascânio arvora vitorioso sorriso no rosto em geral sério: mesmo assim, com a estrada de crateras e de sobra os quarenta e oito quilômetros — quarenta e oito e não cinqüenta — fatais, surgiam corajosos dispostos a atender ao chamado.
Empoeirados, suarentos, os estranhos seres acenaram gestos cordiais e sequiosos. A fêmea deu pressa, com a enorme pata de couro.
— Boa tarde… Sejam bem-vindos a Agreste! — saudou Ascânio alegremente.
— Bonjour, frère! — respondeu o espacial, tirando a luva para tomar de um lenço lilás e limpar a testa. — Que calorzinho, hein!
— Daqui a pouco refresca. As tardes, a partir das quatro, são fresquíssimas, de noite chega a fazer frio. Clima seco, ideal. — Ascânio Trindade inicia sua pregação.
— Vou acreditar em tudo que você me disser, paixão, se me arranjar alguma coisa para beber… — a voz do ser fêmea desmaia em promessas.
— O que quiserem, com prazer. Vamos até o bar.
Da mesa, Osnar constata:
— Estão vindo para cá, almirante. Me segure pois sou capaz de perder o juízo e agarrar essa visão aqui mesmo. Sempre tive vontade de comer uma marciana na falta de uma polaca, pois igual a uma polaca não existe em nenhum planeta. — A célebre história da polaca de Osnar.
O grupo aproxima-se, boas-tardes de lado a lado, tomam mesa. Manuel atende, solícito, enquanto Osnar não desgruda os olhos do ser fêmea que, à falta de água-de-coco — não pode faltar coco mole no bar, anota Ascânio —, aceita guaraná.
— Para mim uísque on the rocks… — pede o ser provavelmente macho. — Scotch, naturalmente… Quero dizer, escocês.
— Só tenho nacional mas é do legítimo — orgulha-se seu Manuel.
— Não, por favor, não! Traga-me então uma mineral sem gás. Bem gelada.
— A água daqui é melhor do que qualquer mineral, já foi examinada na Bahia e aprovada com os maiores elogios — esclarece Ascânio.
— Desde que seja gelada…
Seu Manuel serve o guaraná com canudinho, um requinte, e o copo com água e gelo. O marciano aprova: realmente muito boa água, dê-me um pouco mais, por favor, e diga quanto lhe devo.
A um sinal de Ascânio, seu Manuel curva-se:
— Não é nada… Foi um prazer…
— Muito obrigado… Aceito por essa vez mas de futuro… É o único bar da terra?
— Bem, no beco da Amargura tem uma espécie de boteco, do negro Caloca. Mas em qualquer armazém se pode beber um trago de cachaça.
— Precisa melhorar o sortimento, my friend… Boas marcas de uísque, bons vinhos… E hotel, frère — frère era Ascânio, caíra-lhe na simpatia —, tem algum bom? Com banho privativo?
— Hotel propriamente não. Mas tem uma pensão muito boa, a de dona Amorzinho, comida de primeira, quartos limpos. Não tem banho privativo. Mas o torneirão do banheiro vale uma ducha.
— Vai ser preciso construir logo um bom hotel… — falou o ser macho e o dizia como se construir ali, em Agreste, um hotel de primeira, fosse a coisa mais simples do mundo. Exatamente a partir dessa afirmação — dessa decisão do super-herói — Ascânio Trindade começou a divagar.
— O pior é a estrada — constatou o ser fêmea, miando. — Esse último pedaço, então… Nunca levei tanto tranco nem engoli tanta poeira… — afofa os cabelos poeirentos, ruivos com aquela mecha platinada. — Chego em Salvador, vou direta ao salão de Severiano lavar os cabelos e pentear…
— É só alargar e asfaltar, darling. Quantos quilômetros, frère?
— Daqui à Bahia, à capital?
— Não, só o último trecho, o carroçável.
— Quarenta e oito quilômetros…
— Amorzinho, não minta! — rogou Miss Vênus a Ascânio. — Tem mais de cem… Estou descadeirada. — Levou a mão à bunda espacial.
— Ai! — gemeu Osnar, mas se alguém ouviu não demonstrou.
— Deve ser isso mesmo, darling, uns cinqüenta quilômetros. Num instante se asfalta.
Hotel, estrada asfaltada, o sonho prossegue, o coração de Ascânio se dilata.
— Me diga uma coisa, frère: uma lancha para descer o rio até a praia de… Como é mesmo o nome?…
— Mangue Seco…
— C’est ça… É fácil alugar uma?
— Bem… Tem a lancha de Elieser. Não é de aluguel mas eu falo com ele, peço para levá-los. É um bom sujeito.
— Pode dizer que eu pago bem…
Ascânio sai em trote rápido em busca de Elieser. Terá de convencê-lo: em matéria de bom sujeito, Elieser é exemplo discutível, mas Ascânio tem prestígio. Nada dirá sobre hotéis e asfalto, o outro pode considerar tais planos grave ameaça a seus legítimos interesses. Ascânio já compreendeu que não se trata de simples visitantes ocasionais e sim de empresário estudando a possibilidade de inverter dinheiro grosso para fazer de Agreste o almejado centro turístico, projeto tantas vezes discutido na agência dos Correios e Telégrafos. Falta infra-estrutura, dizia dona Carmosina. Falta alguém com dinheiro para estabelecê-la, o município não tem condições, completava Ascânio. Pelo jeito, dinheiro ia sobrar.
Calados, sem tema de conversa, Osnar e seu Manuel sorriem bestamente para os estranhos. Não tarda, Aminthas se junta a eles, interrompera um concerto dos Rolling Stones. A rainha do planeta Vênus freta com o olhar os três humanos, um a um, e a cada um sorri em particular, a revelar que teria prazer enorme em dormir com ele — só com você, amorzinho, e mais ninguém no mundo. Osnar está em vias de perder o fôlego, Ascânio volta a tempo. Elieser passou direto para o pequeno ancoradouro onde a lancha espera.
— Thanks! Andiamo, bella, não temos muito tempo. Arivederci…
Quantas línguas falam no espaço? Osnar se engasga em português. O marciano estende a mão, Aminthas ainda está em dúvida se ele desmunheca ou não.
— É melhor deixar o veículo na praça, ir a pé, o caminho é ruim. Eu os acompanho…
Todos acompanham, mesmo seu Manuel, o bar vazio.
— Quanta gentileza… — agradece Miss Vênus num gemido.
No caminho, Ascânio busca comprovação:
— Diga uma coisa… O senhor pretende estabelecer-se aqui?
— Quem sabe? Vai depender dos estudos… É possível.
— Com um hotel? Pode-se explorar a água mineral, não há melhor.
— Hotel? Também. Vai ser indispensável. Água? Talvez. Mas serão apenas inversões secundárias, diversificação de capital. Água, depois pode-se pensar nisso.
Chegam ao ancoradouro. Projetos ambiciosos, reflete Ascânio, grande empreendimento turístico, está na cara. Os seres magníficos embarcam na lancha, Elieser ao leme.
— Mais uma vez, merci, frère. Ciao! — acena adeus.
— Ascânio Trindade, secretário da prefeitura, às ordens.
— Secretário da prefeitura? E o prefeito, quem é?
— Doutor Mauritônio Dantas. Está enfermo, eu respondo pelo expediente. Qualquer coisa, pode conversar comigo.
— Ok. Iremos conversar, com certeza. Brevemente e muito.
A lancha parte, a da ruiva crina, da mecha platinada, lança um beijo, com o olhar se entrega; Elieser nem assim desamarra a cara. Ascânio Trindade sorri, parece um sonho: finalmente eles haviam desembarcado.
DOS COMENTÁRIOS E DA PRIMEIRA
DISCUSSÃO, AINDA AMÁVEL
CRESCE A CONCENTRAÇÃO NA PRAÇA, PEQUENA
MULTIDÃO acotovelando-se em torno ao veículo.
— Veja os pneus. Que brutalidade!
— Que beleza!
— Você ouviu a buzina? Tocou o começo de “Cidade maravilhosa”.
— Cada coisa!
No bar, é grande o movimento. Os comerciantes abandonaram lojas e armazéns. Plínio Xavier orgulha-se de ter sido o primeiro a ver a máquina e a perceber os pilotos.
— Estava bem do meu, fazendo contas de uns fiados…
O riso de Osnar, ri de quê? Os olhares se desviam: na porta da igreja, Cinira conversa com as beatas. Ainda não assentou praça no batalhão mas não vai tardar.
— … quando ouvi aquele barulho horrível, larguei tudo…
Astério e Elisa somam-se ao grupo. Na hora do perigo, ele fora correndo para casa, preocupado com a esposa: Elisa, na lua-de-mel da chegada da irmã, anda nervosa, aflita, num pé e noutro. Juntos vieram para a praça, espiar a máquina, ela tão nos trinques a ponto de quase botar no chinelo a Rainha do Espaço de mancha platinada nas ruivas melenas. A mancha platinada alucina Osnar que confidencia a Seixas e a Fidélio:
— Eu juro a vocês que se eu pegasse aquela marciana, começava a lamber da ponta do dedo grande do pé. Levava bem três horas até chegar no umbigo… Dava-lhe uma surra de língua…
— Porcalhão!
Seu Edmundo Ribeiro não é exatamente um puritano mas certos hábitos sexuais lhe parecem indignos de homem macho e honrado. Pegar mulher na cama, montá-la, muito que bem. Mas pôr a língua… Beijos, só na boca, e em boca limpa.
— Edmundinho, meu filho, não venha me dizer que você nunca fez um minete na vida… Nunca chupou um favo…
— Me respeite, sou homem sério e asseado.
Na agência dos Correios e Telégrafos, ferve a discussão. Ascânio Trindade apresenta minucioso relatório a dona Carmosina, na presença do comandante Dário de Queluz que prevê, a voz de lástima:
— Você, meu querido Ascânio, com essa mania de turismo em Agreste, ainda vai pagar caro, você e todos nós. Um dia, um maluco qualquer lê essas bobagens que você e Carmosina mandam para os jornais, leva a sério, bota de pé um negócio para explorar a praia de Mangue Seco, a água e o clima de Agreste e nós vamos terminar mal. Em dois tempos, isso vira um inferno.
— Um inferno, por quê, comandante? Nunca ouvi dizer que uma estação de águas fosse um inferno. Ao contrário, é um lugar de descanso, de repouso — intervém dona Carmosina. — Você bem sabe que ninguém defende mais do que eu a natureza, a atmosfera, a beleza de Agreste. Mas que mal existe numa estação de águas?
— Uma estação de águas na cidade, vá lá. O pior é a praia que Ascânio quer entupir de gente, de toda espécie de porcaria…
Salta Ascânio:
— Que porcaria? Casas de veraneio para turistas, hotel, restaurantes. A praia de Acapulco, a de Saint-Tropez, a de Arembepe, são por acaso porcarias, infernos? O futuro de Agreste, comandante, está no turismo.
— São infernos, sim, são porcarias. Ainda outro dia A Tarde publicou uma reportagem sobre Arembepe: virou a capital dos hippies, a capital sul-americana da maconha. Você já pensou Mangue Seco repleto de cabeludos e maconheiros? Deixe nosso paraíso em paz, Ascânio, pelo menos enquanto a gente viver.
— Quer dizer que o senhor prefere, comandante, que Agreste continue a ser um bom lugar para se esperar a morte?
— Prefiro, sim, meu filho. A morte aqui tarda e retarda, não desejo mais do que isso. O ar puro, sem contaminação. A praia limpa.
Ascânio olha para dona Carmosina, aliada, ela toma a palavra:
— Quem falou em contaminar? Hippies não digo, se bem a filosofia deles seja também a minha, paz e amor, a coisa mais bonita que se inventou nesse século! O diabo é a droga. Mas turistas com dinheiro, não vejo o mal, comandante. Boas casas de veraneio, comércio animado, bons filmes, e então? Ninguém pode ser contra.
— Arranha-céus, hotéis, a corrida imobiliária, o fim do coqueiral, das árvores, do sossego, da paz! Deus me livre e guarde! Felizmente isso não passa de delírio de vocês…
Peto chega correndo, a lancha está de volta. Antes de ir, Ascânio convida, contente:
— Pois eu creio, comandante, que muito em breve teremos o turismo implantado em Agreste. O maluco já apareceu. Venha comigo, vamos conversar com ele.
— Vamos lá… — concorda o comandante.
Mas quando chegam à praça, já o casal de super-heróis, cercado de curiosos, está de partida, na máquina refulgente. Ascânio ainda tenta dialogar mas eles levam pressa, vão chegar a Salvador tarde da noite.
— Em breve voltarei e aí então conversaremos. Quero tomar nota de seu nome. — Extrai uma caderneta de misterioso bolso na perna da calça, a caneta pendurada no pescoço parece um microfone de romance de espionagem. A máquina de retrato, pequeníssima e potentíssima, funciona nas mãos finas, de dedos longos, libertas de luvas, de Miss Vênus.
— Meu nome? Ascânio Trindade. Este aqui é o comandante Dário de Queluz.
— Comandante?
— Sim, da marinha de guerra.
— Reformado — esclarece o comandante.
— Ah! — depois de uma pausa, credencia-se: — Doutor Mirko Stefano. A bientôt. So long.
— Adeus, paixão! — chora Miss Vênus, os olhos em orgasmo.
Parte a máquina, levantando poeira, o ruído estourando os ouvidos mais sensíveis. Doutor? Parece um astronauta, um capitão de nave espacial, um moderno empresário desses que transformam a terra e a vida. Sobre o veículo, a informação exata foi dada por Peto — ainda não conseguiu terminar o primário, não tem pressa, já sabe tudo sobre carros e pistas. Trata-se de um buggy, com rodas de magnésio, tala larga, kits 1600, dupla carburação, a buzina incrementada. Todo incrementado, aliás, motor envenenado, o entusiasmo de Peto não tem limites. Corre para casa, vai contar as novidades a tia Antonieta e a Leonora.
Sobre os seres superiores, souberam pela boca de Elieser, de mau humor.
— O tipo estava interessado era nas áreas da beira do rio, no coqueiral, nas terras devolutas. Me perguntou de quem eram, eu disse que ninguém nunca soube que tivessem dono. Fizeram fotografias às pampas. Em Mangue Seco, tiraram a roupa e tomaram banho nus…
— Nus?
— Os dois… Como se eu não estivesse ali. A tipa é ousada, enfrentou a arrebentação.
— Vê você, Ascânio? Nudismo, para começo de conversa. Graças a Deus eu não estava lá, não iria permitir. — Igual a Edmundo Ribeiro, o comandante Dário também não é puritano mas nudismo em Mangue Seco, ah!, isso jamais! Não, enquanto ele viver!
Ascânio vai responder mas Elieser não lhe dá tempo:
— O tipo perguntou quanto me devia, eu disse que não era nada, como você mandou. Quem vai pagar meu trabalho e a gasolina, Ascânio? Tu ou a prefeitura?
Osnar, a ouvir em silêncio, comenta escandalizado:
— Tu vê um mulherão daquele nua em pêlo e ainda quer dinheiro, Elieser? Pois eu pagava para espiar… Tu é um degenerado!
DA LUZ E DAS VIRTUDES DE TIETA,
COM CITAÇÕES EM LATIM
PLANTADORES DE MANDIOCA, CRIADORES DE CABRAS,
OS PESCADORES e os contrabandistas, na cidade de Agreste e nos povoados vizinhos, das margens do rio às encapeladas vagas da barra, ninguém deixou de tomar conhecimento do espantoso evento e o beato Possidônio, em Rocinha, anunciou o apocalipse e o fim do mundo, assuntos de sua particular predileção. Apoiava-se nas Escrituras, no Velho Testamento.
Eis que de repente, conforme constataram os habituês no Areópago, começavam a suceder coisas em Agreste, arrancando o burgo da pasmaceira habitual, provocando agitados comentários, suscitando discussões.
Os fios elétricos, suspensos sobre postes colossais, caminhavam pelo sertão no rumo do município e, em obediência às ordens superiores, o faziam com rapidez anormal em obras públicas. De quando em quando um jipe com engenheiros e técnicos desembocava nas ruas tranqüilas, o bar de seu Manuel ganhava animação. O engenheiro-chefe garantia que dentro de mês e meio, dois meses no máximo, os fios chegariam à cidade, trabalho concluído, podendo-se marcar a data para a festa de inauguração. Em se tratando de município de tanto prestígio federal, talvez comparecessem figuras da alta direção da Companhia do Vale de São Francisco, quem sabe até o diretor-presidente vindo especialmente de Brasília.
Já não duvidava de nada o engenheiro-chefe depois que lhe informaram ter sido uma viúva em férias na terra natal quem obtivera, por intermédio de amigos do finado, em vida milionário e influente, as ordens preferenciais mandando reformar o projeto para que nele coubesse, com prioridade absoluta, o município de Santana do Agreste. Difícil de acreditar mas sendo a afirmação unânime, o engenheiro terminara demonstrando interesse em conhecer e saudar a ilustre dama capaz de modificar projetos aprovados, removendo postes, determinando rotas para luz e força.
Pessoa dada e simples, conforme lhe informou Aminthas. Nem por ser riquíssima viúva de comendador do papa e freqüentar a alta sociedade do sul, possuindo as melhores relações — das quais a prova mais concreta era o falado engenheiro estar ali no bar do lusitano, bebericando cerveja —, nem por tudo isso carrega o rei na barriga. Com dois telegramas resolvera o assunto, dera uma fubecada no diretor cheio de si que tratara o representante da cidade, Ascânio Trindade, secretário da prefeitura, como se ele fosse um joão-ninguém e Agreste não passasse de terra esquecida por Deus. Sem levar em consideração as credenciais de Ascânio, o fato do moço encontrar-se em Paulo Afonso em defesa de interesses legítimos de sua terra, o diretor-presidente deixara-o mofar à espera antes de despachá-lo com redonda negativa, recusando-se a ouvir seus argumentos. Agreste, para ele, não passava de árido pasto de cabras e assim o disse. Indignou-se dona Antonieta ao saber do acontecido, telegrafou. Foi tiro e queda.
Aminthas enfeitara a história ao contá-la ao engenheiro-chefe, rindo-lhe nas fuças:
— Dona Antonieta Esteves Cantarelli, é o nome dela. Naturalmente o amigo já ouviu falar no comendador Cantarelli, grande industrial paulista. Empacotou recentemente.
O engenheiro, vencido, escondeu o desconhecimento: o nome lhe soava, disse, com o mesmo acento dos Matarazzo, dos Crespi, dos Filizzola. Ergueu o copo de cerveja, em respeitoso brinde à senhora Cantarelli. Não só Aminthas o acompanhou, todos os presentes associaram-se à homenagem. O povo, agradecido, ainda no espanto da dádiva inesperada, ao referir-se à nova iluminação não a designava “luz de Paulo Afonso”, “luz da hidrelétrica” ou “luz da Companhia do Vale do São Francisco”, como seria justo e correto e em toda parte se dizia. Para a gente de Agreste era a “luz de Tieta”.
Quando, na quarta-feira seguinte aos festivos acontecimentos do domingo, Tieta viera de Mangue Seco para assinar no cartório a escritura dos terrenos, fora surpreendida com uma faixa colocada na praça da Matriz, entre dois carunchosos postes da iluminação antiga, nas proximidades da casa de Perpétua: o povo de agreste saúda agradecido dona antonieta esteves cantarelli. Apenas um senão: a palavra Esteves havia sido acrescentada, por exigência de Perpétua e Zé Esteves, depois da faixa concluída. Colocaram-na entre os dois outros nomes mas acima deles, defeito pequeno, não empanava o efeito impressionante das letras vermelhas sobre o fundo branco do madrasto.
Idéia de Ascânio, contara com o apoio geral, na boca do povo Tieta era a heroína da cidade. Não a tinham colocado ainda no altar-mor da matriz, ao lado da Senhora Sant’Ana, como previra Modesto Pires, mas pouco faltava. Ao passar na rua, no princípio da tarde, em companhia de Leonora e de Perpétua, em caminho do cartório onde marcara encontro com o dono do trapiche, das casas saíam pessoas para cumprimentá-la, para lhe agradecer: houve quem lhe beijasse a mão. Ao sabê-la em Agreste, o coronel Artur da Tapitanga abandonou a casa-grande da fazenda, andando o quilômetro a separá-lo da rua, veio abraçar a benemérita cidadã:
— Minha filha, Deus escreve certo por linhas tortas. Quando Zé Esteves lhe tocou daqui, era porque Deus queria fazer você voltar como rainha. — Punha-lhe uns olhos de bode velho e lúbrico, já sem forças nos ovos mas ainda com apetite no coração. — Quando vai me visitar, ver minhas cabras?
Também Bafo de Bode a homenageou à sua maneira, ao vê-la na porta do cinema:
— Viva dona Tieta que manda um bocado e é um pedaço de mau caminho!
Tieta, ao passar, colocou-lhe na mão negra de sujo o necessário para uma semana de cachaça farta e ao adiantar-se, na intenção de alegrar-lhe os olhos, soltou as cadeiras em requebro de proa de barco em meio a vendaval.
Concluída a escritura, lavrado o termo da compra do terreno, completado o pagamento em moeda viva, Tieta, antes de voltar para casa, passou na agência dos Correios para abraçar dona Carmosina e despachar uma carta. Já agora acompanhada também por Ascânio e pelo bardo De Matos Barbosa, atacado de saudade e reumatismo: tua presença, Tieta, é sol e medicina, basta-me fitar teu rosto para me sentir curado.
Dona Carmosina anunciou:
— De noite, vou lhe ver para a gente conversar. Tenho muitas novidades… — os olhos indicavam Leonora e Ascânio, assunto predileto.
— Não estarei. Volto hoje mesmo, daqui a pouco, para Mangue Seco. Passei para lhe ver e saber notícias de dona Milu.
— Volta hoje? Por que toda essa pressa?
— Estou levantando minha choupana, já comecei. Tu me conhece: quando quero uma coisa, quero logo, tenho pressa. Desejo ver as paredes de pé antes de ir embora.
— Você não pode ir embora tão cedo. Nem fale nisso.
— Por que não?
— Antes da inauguração da luz? O povo não vai deixar.
Tieta riu:
— Até me sinto candidata a deputado… Você me representa na festa. — Refletiu durante uns segundos, o olhar perdido. — Mas, quem sabe, talvez eu fique, prolongue as férias, não tanto pela festa mas para ver minha casinha de pé, em Mangue Seco.
— Fica, sim, com certeza. Ficam as duas… — Fitando a face melancólica de Leonora, dona Carmosina não resistiu: — Sei de alguém que talvez fique para sempre. — Os olhos miúdos faiscavam malícia.
Em casa, a sós com Perpétua, Tieta dera-lhe notícias de Ricardo: menino bom, sobrinho querido, estava sendo de inestimável ajuda. Sob a orientação do comandante, tomava iniciativas e providências, atravessara duas vezes para o Arraial do Saco onde contratara o pessoal necessário, pedreiros e carpinas, mestre-de-obra, gente habituada a trabalhar com troncos de coqueiros sobre a areia movediça. Adiantara todos os detalhes, a construção iniciara-se na véspera. Ela o prenderia em Mangue Seco ainda uns dias, nomeara-o seu lugar-tenente.
— O tempo que você quiser, mana, ele está de férias.
Por falar em férias, Ricardo mandara pedir os livros de estudo, nem na praia se descuidava dos deveres escolares. Dormia na sala da Toca da Sogra, numa rede. Menino de ouro, Tieta queria ajudá-lo e para tanto decidira abrir uma caderneta de poupança em nome dele, num banco de São Paulo. Na carta que deixara na agência dos Correios, dava ordens à sua gerente para abrir a caderneta em nome do sobrinho com considerável depósito inicial — Perpétua estremeceu ao ouvir a quantia — aos quais todos os meses ela acrescentaria determinada importância, ainda não decidira quanto. Assim, quando Ricardo se ordenasse padre, somando capital, juros e correção monetária, teria um bom pecúlio. Perpétua elevou os olhos gratos para o céu, o Senhor começava a cumprir sua parte no trato feito. Depois de agradecer a Deus, fitou Tieta e a ela se dirigiu:
— Não sei nem o que lhe dizer, mana. Deus há de lhe pagar. — Tomou, num gesto inopinado, da mão da irmã, levou-a ao peito, apertando-a contra o coração. Usava corpete de tecido grosso, duro como um peitoril. Com o lenço negro enxugou os olhos lacrimosos.
Antes de regressar no fim da tarde a Mangue Seco, fugindo às manifestações de seus conterrâneos, cercada pela família, Tieta ainda recebeu a visita do padre Mariano. O reverendo agradeceu-lhe, em nome dos fiéis, a graça da iluminação nova que ia modificar a fisionomia da cidade, mudar-lhe os hábitos, imenso serviço prestado à comunidade. Beneficiando a todos, dona Antonieta criara, no entanto, sério problema para a paróquia, pois a instalação elétrica da matriz encontrava-se em petição de miséria, incapaz de suportar o impacto da energia de Paulo Afonso. Um engenheiro da hidrelétrica a quem ele consultara dissera-lhe ser absolutamente necessário mudar toda a instalação para impedir curto-circuito, evitar grave perigo de incêndio. Onde buscar o dinheiro necessário? A quem recorrer senão a ela? Muito já lhe devia a matriz, a começar pela imagem nova da padroeira, o ostensório trazido de São Paulo, o padre era quem mais sabia mas sabia também da generosidade de dona Antonieta, alma de escol, ademais, viúva de comendador do papa, ou seja, pessoa graduada na hierarquia da Igreja. Com um sorriso ambíguo, Tieta ouviu em silêncio, na presença do pai, da madrasta, das irmãs e de Leonora. Perpétua repetiu as palavras do pároco, pensando na caderneta de poupança:
— Alma de escol, o senhor disse tudo, padre Mariano.
O reverendo não conseguia ler resposta positiva no sorriso equívoco a entreabrir os lábios carnudos; apenas podia constatar que Tieta remoçara nesses dias em Mangue Seco, o ar satisfeito, bonita como nunca, o sol pusera tons de ouro no cobre da pele.
— Não se aflija, padre, pode mudar os fios.
Tranqüilizado, ia o cura agradecer quando ela prosseguiu, a voz se abrindo em riso, em tom de brincadeira:
— Faço isso em pagamento à Senhora Sant’Ana por lhe ter roubado o sacristão por alguns dias, meu sobrinho Ricardo que está em Mangue Seco me ajudando.
Estremeceu Perpétua dentro do vestido negro, do luto fechado, da compostura devida ao sacerdote, não conseguindo esconder a satisfação de súbito refletida do rosto carrancudo, num olhar de vitória. Ligando o sobrinho aos donativos feitos à igreja, designando-o intermediário nas suas relações com Deus e os santos, Tieta dava largo passo no caminho a conduzir à adoção e à herança. Deus acabara de passar à categoria de devedor, ao receber, pela mão de Ricardo, a doação das novas instalações elétricas da matriz.
Igualmente radiante, padre Mariano ergueu a voz, escolhendo os termos do louvor:
— Deus não esquece quem ajuda a Santa Madre Igreja, multiplica cada óbolo em perenes benesses. As bênçãos da Virgem, dona Antonieta, protegerão a si e aos seus familiares — elevou a mão, abençoando os Esteves e as Cantarelli, sorriu beatificamente. — De parte da Senhora Sant’Ana, posso adiantar que ela lhe cede de bom grado o escudeiro. Estando Ricardo em companhia tão sacrossanta, só poderá aprender a praticar o bem.
Ao despedir-se, o reverendo referiu-se à aparência de Tieta: louçã, garbosa. Os dias na praia, disse, tinham sido para ela um verdadeiro tônico, ressumbrava saúde e júbilo, aprazimento, a beleza do rosto refletindo a pureza da alma, tota pulchra, benedicta Domini. Que Deus assim o preserve.
Zé Esteves foi o único a demonstrar insatisfação, remoendo críticas ao peditório e ao atendimento!
— Esse urubu de batina é um sabido: com a língua doce e o latinório vai arrecadando um dinheirão para a igreja, os tolos caem como patinhos. Me perdoe, minha filha, mas você precisa prestar mais atenção a seu dinheiro. Não se esqueça que vai comprar casa, não pode estar desperdiçando.
Somente uma semana depois Tieta regressou a Agreste, atendendo exatamente a um chamado de Zé Esteves, transmitindo apelo urgente de dona Zulmira disposta a rebaixar o preço da casa, a entrar em acordo. Deixara Ricardo à frente das obras, as paredes subindo, sozinho na Toca da Sogra pois havia três dias o comandante voltara com dona Laura para o bangalô na cidade. Três dias, ou melhor, três noites durante as quais a tia e o sobrinho trocaram o romântico areal das dunas pelo conforto do colchão de crina da cama de casal no quarto do marujo.
Prosseguindo na educação do sobrinho, a lhe ensinar o bem — o bem e o bom —, o colchão chegara na hora exata, quando atingiam um estágio superior no estudo da matéria em que Tieta era mestra competente, emérita catedrática, doctor honoris causa, como diria em latim o padre Mariano. Ensinava-lhe em aulas práticas e intensivas quanto sabia, ou seja, tudo, o alfabeto inteiro, incluindo o indescritível ipsilone.
Tieta voltou a Agreste na manhã do dia do primeiro desembarque dos seres de espanto projetados do espaço, mas não os viu e deles só veio a ter notícias no fim da tarde por Ascânio exaltado, no auge do entusiasmo:
— Capitalistas do sul, estudando as possibilidades de empregar capital aqui, no município, em empresa de turismo, coisa de grande vulto, querem asfaltar a estrada e construir hotéis. Que lhe parece, dona Antonieta? Que diz a isso, Leonora?
Empresa de turismo? Em Agreste, aproveitando a água, o clima, a praia de Mangue Seco? Quem sabe, tudo é possível, por que não? Fizera bem em comprar o terreno na praia, devia aceitar a proposta de dona Zulmira, abandonando a posição intransigente, os preços da terra e dos imóveis podem sofrer súbita valorização, em São Paulo Tieta assistiu a coisas de espantar. Com seu faro único, Felipe adquirira a preço de banana terrenos e mais terrenos em áreas pelas quais ninguém oferecia nada. Poucos anos depois, ganhava fortunas na revenda. Tieta pediu a Perpétua papel e caneta, escreveu um bilhete a dona Zulmira fechando o negócio, mandou Peto levar.
Decidiu demorar-se em Agreste o tempo necessário para concluir o trato, lavrar escritura, tomar posse da casa. Mesmo sentindo o apelo ardente do corpo a reclamar urgência no retorno, sabendo que o moço sofreria o fogo do inferno na noite insone, ainda assim resolveu cuidar antes do negócio. Aprendera a não perder a cabeça, a não permitir que xodó por mais forte e exaltante lhe cause prejuízo.
Ascânio prosseguia a traçar as vias do radioso futuro de Agreste. A mudança começara com a chegada das duas paulistas à cidade, tudo se fazendo agora mais fácil, devido à decisão da Companhia do Vale do São Francisco de incluir Agreste entre os municípios com a energia de Paulo Afonso, a luz de Tieta.
CAPÍTULO ONDE TIETA BUSCA
DEFINIR O AMOR E NÃO CONSEGUE
TIETA DEIXA OS NAMORADOS NA PORTA DA RUA,
SOZINHOS, livres para a despedida. Da sombra do corredor, porém, espicha o olho para ver o que se passa, onde as mãos vão parar, a força dos beijos, os lábios vorazes, as línguas se enrolando, aqueles primeiros passos no caminho do resto. Decepção completa e inquietante. Viu apenas um roçar dos lábios de Ascânio na face de Leonora, receoso e apressado, aquilo não era beijo coisíssima nenhuma, perdera o tempo a espionar o mais completo e acabado par de idiotas. Da porta, onde demora até perdê-lo de vista, Leonora acena longo adeus, certamente respondido por Ascânio. Mau sinal, não agrada a Tieta o rumo do idílio.
Leonora não correrá perigo maior se terminarem, ela e Ascânio, na bacia de Catarina, em noite sem lua, por entre a penedia, no bem-bom. Depois, é lavar o xibiu bem lavado, acabou-se. Quando chegar a hora do retorno a São Paulo, derramará algumas lágrimas de tristeza e saudade no ônibus de volta — c’est finie la comédie, como dizia madame Georgette e madame Antoinette repete quando enfrenta xodós e rabichos das meninas.
O perigo reside exatamente nos leves beijos medrosos, nesse namoro tonto, de caboclo, que já não se usa mais. Em Agreste, quando se namora assim, no respeito, contendo os impulsos, é porque se tem em mira noivado e casamento. Casamento, vida em Agreste: ilusões absurdas, sonhos delirantes. Em tais casos, não basta lavar a xoxota bem lavada. A separação custa duro sofrimento, não se reduz a umas poucas lágrimas no ônibus de volta.
Naquele dia, quando Tieta chegara de Mangue Seco, estuante de vida, vibrando de animação ao falar do terreno e da casa na praia, mais magra, o corpo no ponto exato, Leonora caíra-lhe nos braços, murmurando-lhe ao ouvido, ansiosa:
— Preciso muito conversar com você, mãezinha.
Durante o dia não tiveram ocasião, porém, de ficarem a sós. Perpétua sempre presente, a adular a irmã, já não lhe regateava louvores. Antigo poço de iniqüidades, Antonieta passara a ser poço de Jacó, misericórdia dos sedentos, turris eburnea. Para gabá-la gastava até as poucas expressões latinas que decorara em tantos anos de sacristia, antes reservadas à exaltação do Senhor e dos santos, sendo turris eburnea exclusiva da Virgem Maria. Agora tudo era pouco para as virtudes de Tieta.
Na hora do almoço, a mesa completa: Zé Esteves e Tonha, Elisa e Astério, Peto a pedir a bênção à tia, a regalar os olhos saudosos da carnação morena e farta. Fazendo-lhe companhia na praia, quem estava bem situado para brechar até fartar-se, para bispar os mínimos detalhes, a tia à la vontê no biquíni ínfimo, despreocupada, era Ricardo; mas o idiota do irmão desviava a vista para não enxergar, tirado a ermitão, a místico. Devia estar de venda nos olhos em Mangue Seco, o bobalhão; Deus dá nozes a quem não tem dentes, queixara-se Osnar. Falou, pô!
À tarde, foram à casa de dona Zulmira para confirmar o acerto e de lá ao cartório, deixar os dados para a escritura e marcar o dia de assiná-la — quanto antes melhor, pedira Tieta, com pressa de voltar a Mangue Seco. As paredes da choupana — assim designava a pequena casa da praia — começavam a subir, ela curtia cada tijolo, cada pá de massa, em companhia do sobrinho contagiado por seu entusiasmo. De noite, a sala de visitas se enchera: dona Carmosina, dona Milu, Barbozinha, a tropa do bilhar escoltando Astério; Ascânio tinha aparecido no fim da tarde, ficara para jantar, não desgrudava de Leonora.
Também dona Carmosina anunciara necessidade imperiosa e urgente de longa conversa reservada com Tieta. Marcaram para o dia seguinte. Amanhã sem falta! — recordara a agente dos Correios, ao despedir-se. — Mil coisas a comentar. Com os olhos apontava o par de namorados no sofá, distanciados um do outro pelo menos um palmo, a paulista com um sorriso babado de admiração, ouvindo o discurso de Ascânio sobre o radioso futuro de Agreste.
Ascânio, o último a sair, quando já Perpétua se recolhera: às seis em ponto, ajoelhada na primeira fila, a devota ouve missa na matriz, não pode dormir tarde. Tieta abandona-os na porta, à vontade para a despedida apaixonada. Que fracasso!
Leonora vem sentar-se na cama da alcova, enquanto Tieta desfaz a maquiagem. Abre o coração: apaixonada, que fazer? Paixão roxa, não banal aventura, simples chamego, ela não era disso, mãezinha a conhecia, nesses três anos de Refúgio jamais tivera um caso. Amor, pela primeira vez.
— Me diga como agir, mãezinha. Contar a verdade, não posso.
— Não pode mesmo, nem pense nisso. Só se ficasse doida e me tivesse ódio.
— Nunca pensei, como poderia contar? Mas estou desarvorada, sem saber o que fazer. Me ajude nesse transe, mãezinha. Só tenho você no mundo.
Tieta abandona os cremes de limpeza e o espelho, toma das mãos da moça, acaricia-lhe a crina loira, nem às irmãs queria tanto quanto àquela desditosa recolhida no trotoar, a pequena Nora, marcada pela má sorte e todavia capaz de sonho e esperança.
— Eu sei que tu nunca vai contar, conheço minhas cabritas, ai de mim se não as conhecesse. O que tu deve fazer? Aproveitar as férias, divertir-se. Namore o rapaz, ele é simpático e bonitão, um pedaço de homem. Um pouco ingênuo para meu gosto mas direito. Durma com ele se tiver vontade. Tu deve estar morta de vontade, não é?
Leonora abana a cabeça afirmativamente e logo esconde o rosto nas mãos, Tieta vem sentar-se a seu lado na cama, prossegue:
— Durma com ele, passeie, namore, goze a vida mas não se prenda. Tome cuidado para evitar escândalo. Só não entendo por que tu ainda não dormiu com ele.
— Ele pensa que sou virgem, mãezinha. Nunca vi ninguém tão crédulo e respeitador. Não tenho coragem nem palavras para contar que não sou donzela. Tenho medo que ele se desiluda, não queira mais me ver.
— É capaz. Agreste não é São Paulo, é o cu-do-mundo, parou no século passado. Aqui, ou bem se é moça cabaçuda ou rapariga de porta aberta. Não viu o que se passou comigo? Pai me mandou embora, me mandou ser puta longe daqui. Faz muito tempo mas continua sendo a mesma coisa hoje. Quem sabe, com jeito…
— Que jeito, mãezinha? Ele pensa que sou donzela e que sou rica, filha e herdeira do comendador Felipe. Fica inibido até para me pegar na mão porque ele é um pobre de Jó e eu sou milionária. Sabe que ele ainda nem se declarou? Insinua umas coisas, suspira, parece que vai falar, engole em seco, fica calado, segura em minha mão, não sai disso. Em Mangue Seco fui eu quem beijou ele. Fora daí, roça os lábios no meu rosto quando se despede e nada mais.
— Eu vi, estava espiando, é de não se acreditar. Coitado do rapaz, deve estar desperdiçando o ordenado na casa de Zuleika para se desforrar, ou gastando a mão se lhe faltar dinheiro. — Sorri para Leonora: — Siga meu conselho: deixe o barco correr, dê tempo ao tempo, vá se divertindo. Pelo menos assim você não se chateia.
— Me chatear? Mãezinha, vou lhe dizer: esses dias aqui foram os únicos felizes de minha vida. Estou amando. Pela primeira vez, mãezinha. Com Pipo e Cid foi outra coisa, nem de longe se parece. Já lhe contei, se lembra?
Diante da adolescente massacrada no sórdido cortiço, Pipo, com o nome repetido nos rádios de pilha, a fotografia nos jornais, aparecia como a personificação dos invencíveis heróis das histórias de quadrinhos, dos filmes de aventuras, das séries de televisão. Ser sua garota causava inveja a todas as demais chivetas da rua. Quando ele a chutou, sofrera principalmente na vaidade. Vez por outra podemos dar uma metida, se quiser, dissera Pipo, cheio de si. Isso jamais. Não aceitara a humilhação, pretendendo-se a única, a inspiradora dos gols marcados pelo craque nos matches de futebol. Chorara a semana inteira com a gozação da vizinhança mas dele mesmo não sentira falta.
Quando, no inferninho asqueroso onde caçava o michê que lhe garantisse a comida do dia seguinte, encontrou Cid Raposeira na solidão, na droga, no abandono, amarfanhado rosto de Cristo, tão necessitado de companhia e ajuda, vibrara o coração de Leonora, sensível e solidário. Iniciou-se o trajeto do interminável desespero, alternando-se os raros dias de carinho e humildade, com os de loucura e violência desatadas. Menos que companheira e amante, sentira-se enfermeira, samaritana, irmã a cuidar de alguém ainda mais desgraçado do que ela. Casal de párias perdido na metrópole fechada em pedra e em fumaça, sem condições de alegria e felicidade. Um e outro, o glorioso Pipo e o contraditório Cid, nada tinham a ver com o renitente sonho de lar e paz, de carinho, de amor.
— É amor, sabe, mãezinha? Uma coisa diferente. Tudo que eu queria era poder ficar aqui, com ele, nunca mais ir embora.
Comove-se Tieta, pobre Leonora, escorraçada cabrita. Afaga-lhe os cabelos, belisca-lhe a face:
— Não é que eu seja contra, minha filha, é que não vejo jeito.
No jantar em casa de dona Milu, observando Leonora e Ascânio em idílio, Tieta já se preocupara. Fosse simples aventura, beijos, apertos, umas quedas na beira do rio, nos esconsos das rochas, nas areias cálidas de Mangue Seco, bons lugares para descarregar a natureza, não teria maior importância, bastando manter discrição para evitar a língua do povo de Agreste, longa e afiada. Se caísse na boca do povo, paciência. Nora partiria em breve para nunca mais voltar, pouco lhe interessava a imagem que dela guardassem aqueles tabacudos. Mas a moça pretende vida em comum, lar estabelecido, filhos. Ouvindo certa vez Tieta relatar os problemas da protegida, a insatisfação, o desejo de largar o ofício, trocando as larguezas do Refúgio dos Lordes por medíocres limites de casa e marido — de amor, como ela repetia exaltada —, Felipe, experiente e blasê, a classificara de pequeno-burguesa delirante, sem solução.
— Do meio dessa pequena burguesia desesperada é que surgem os marginais, os drogados, os que matam sem razão e os que se matam, os suicidas. Não provocam minha simpatia.
Tieta ouvira a explicação, balançara a cabeça, tolice discutir com Felipe, homem de saber e entendimento, merecedor de crédito — não por acaso subira tão alto. Nem por isso deixava de simpatizar com o sonho de Leonora, romântico e piegas. Não chegava a entender inteiramente a ânsia a consumir a rapariga, esse arrebatamento, a inconformidade com a situação — aliás privilegiada — em que vivia. Tais problemas jamais se haviam colocado para Tieta, pelo menos de idêntica maneira. Mas, ao contrário de Felipe, sentia ternura e simpatia pela insatisfação da moça, dava-lhe atenção e afeto. Entre as colaboradoras da casa — cabritas escolhidas a dedo para alegrar o ócio de bodes ricos, poderosos, exigentes, muitos deles cheios de manias e taras —, Leonora era a sua predileta. Talvez porque sobrasse a Tieta carinho a dar, devotamento disponível, tinha para com a infeliz rapariga desvelos de mãe para filha. Ao ver de Felipe, pequeno-burguesa desesperada, sem solução, na opinião de Tieta, tola, sonhadora, sentimental. Como jamais conseguira ser sentimental e tola, apesar de sonhadora, por isso mesmo estimava a atitude da moça agarrada à ilusão de um dia poder mudar a vida, construí-la conforme seus modestos desejos.
Quando, ainda há pouco, da sombra do corredor, espionava a frustrada despedida, Tieta deixara escapar um suspiro: Deus do céu, por que tanta tolice, tanta ânsia inútil? A vida pode ser simples e fácil, agradável, excitante, quando se sabe levá-la com audácia e prudência: um marchante, um protetor para companhia permanente, para fornecer dinheiro à farta, para garantir sólido pecúlio na velhice, e xodós para a cama, quantos o corpo reclamar, a boa vida, alegria e riso que tristezas não pagam dívidas.
Na bacia de Catarina ou nos cômoros de Mangue Seco, no escuro das grutas ou diante da imensidão do mar, poderia Nora saciar a sede de amor nos braços de Ascânio. Assim Tieta estava fazendo nos braços de Ricardo, no areal, na cama do comandante. A seu modo, também ela andava apaixonada, e como! Apenas, ao contrário do que sucedia com Leonora, a paixão pelo sobrinho não a perturbava, dando-lhe apenas alegria. Paixão roxa, também: estava devorando o seminarista, esfomeada, sequiosa — não era amor, por acaso?
Mas, depois, quando passasse a fúria do desejo, bastaria lavar o xibiu bem lavado para esquecer, até que novamente crescesse em labareda dentro dela a brasa acesa, inapagável, da paixão. Paixão, amor, que diferença existe? Com Felipe fora diferente. Durara tantos e tantos anos, felizes sempre, ele superior e generoso, ela dedicada e sabida, ternos amigos, cálidos amantes, senhor e serva. Serva ou rainha? Seria isso o amor tão falado. Provavelmente. Não impedira, não obstante, as paixões, nem sabe quantas. Mundo complicado, difícil de entender, uma confusão.
Acarinha Leonora, a cabeça da moça repousando em seu colo, a cabeleira desnastra rolando sobre o lençol. Tieta necessita tomar providência rápida para colocar nos trilhos certos a vida de Leonora, para que as férias terminem alegremente como começaram, para que esse namoro bobelo se transforme em arrebatada paixão, saia do atoleiro onde se afundou para erguer-se em chamas na beira do rio, nos cômoros de Mangue Seco. Para que o amor, como deseja Barbozinha, seja motivo de vida e não de morte.
A mão materna nos cabelos e a voz de acalanto nos ouvidos acalmam a agitação de Leonora.
— Pode dormir tranqüila, cabrita, que eu vou cuidar de tua vida.
DA FAMÍLIA REUNIDA NO CARTÓRIO
PARA A SOLENIDADE DA ESCRITURA
PARA ASSISTIR À SOLENE CERIMÔNIA DA ESCRITURA
DEFINITIVA DE COMPRA e venda da casa antes de propriedade de dona Zulmira, que passará a pertencer, após tais formalidades e o respectivo pagamento, a dona Antonieta Esteves Cantarelli, a família Esteves encontra-se reunida no cartório do dr. Franklin Lins, à exceção do moço Ricardo, seminarista em férias em Mangue Seco, ocupado com encargos da tia paulista e rica (e louca).
Apoiado no bordão, a mascar fumo de corda, de tão contente, o velho Zé Esteves não cabe no larguíssimo terno de festa, feito sob medida nos distantes tempos de abastança, cortado em boa casimira azul de contrabando, mandado tingir de negro para o casamento de Elisa, retirado do baú para a chegada de Tieta. Pela segunda vez o veste em poucos dias, volta a ser alguém. Muito em breve estará habitando casa de qualidade, em artéria central, retirado pela filha pródiga do casebre de canto de rua, de moradia e endereço desmoralizantes.
Se dependesse dele, mudaria hoje mesmo, apenas dona Zulmira acabasse de retirar seus teréns. Antonieta, porém, decidira fazer alguns reparos na casa, consertar banheiro e latrina, pintar as paredes, retelhar, luxos de paulista; ele resmungara mas não discutira: quem paga, manda.
Sob o comando da filha, sua vida se refaz. No cartório, ouvindo dr. Franklin ler os termos da escritura, controlando as horas no relógio de ouro, marca Omega, sinal de sua restaurada importância, Zé Esteves escuta berro de cabras que se aproximam aos saltos sobre os cabeços dos morros, enxerga terra e rebanho. Junto a ele, humilde sombra do marido, Tonha, silenciosa e conformada. Casebre acanhado e pobre, vivenda ampla e rica, rua de frente ou beco lamacento, tudo lhe serve e basta, desde que esteja em companhia do amo e senhor. Há muito aprendeu a obedecer e conformar-se.
Perpétua, rígida no luto inapelável, traja vestido caro, reservado para a festa da Senhora Sant’Ana; na cabeça a mantilha trazida por Leonora. Atenta, disposta a impedir que na escritura seja introduzida cláusula capaz de prejudicar os interesses de seus filhos, sobretudo os de Ricardo, herdeiro presuntivo. Com o velho, todo cuidado é pouco: passa o tempo bajulando Tieta, insinuando misérias contra as duas outras filhas, pedinchando. Ainda na véspera, a arrastara para um canto da casa, fora murmurar segredos, intrigas certamente, na tentativa de jogá-la contra as irmãs. Perpétua não perde uma palavra sequer das cláusulas e adendos.
Pela mão, mantém seguro o filho Peto. Esgrouvinhado, maldizendo os sapatos — usa alpargata aberta quando não pode andar descalço — o menino não entende por que motivo a mãe o obriga a estar ali, parado, envergando meias, camisa limpa, a ouvir o dr. Franklin ler, com a voz mais descansada do mundo, um rol de páginas de nunca acabar. Se a tia e a prima Nora ao menos estivessem à vontade, nos robes colantes, mal fechados, a vista ajudaria a passar o tempo. Mas uma e outra puseram-se nos trinques, tão compostas nunca as vira. Um saco!
Elisa e Astério escutam, reverentes; ela, o olhar de adoração posto em Tieta; ele, de cabeça baixa, fitando o chão. Nem mesmo Leonora, semi-escondida no fundo da sala, pode competir com o porte majestoso de Elisa: a massa de cabelos negros, o busto erguido, as ancas altaneiras, elegante como se fosse desfilar numa passarela, o ar entre modesto e altivo, um deslumbre. Casa em Agreste, tenha quem quiser, ela não. Da generosidade da irmã rica, aguarda mercê muito diferente: convite para acompanhá-la a São Paulo, para ir de muda, para irem ela e o marido, pois sozinha Tieta não a levará. Emprego para Astério numa das empresas da família Cantarelli; para Elisa, um lugar no coração e no apartamento da irmã, se possível o ocupado até agora pela enteada Nora.
Tudo quanto Elisa deseja é dar as costas a Agreste, limpar no caminho a poeira dos sapatos, nunca mais voltar. Há de conseguir: Tieta veio para ajudar a todos eles, transbordante de bondade e compreensão. Ademais, Elisa recorrera aos bons ofícios de dona Carmosina, amiga provada, a protegê-la desde menina, e íntima de Tieta. Pedira-lhe para interceder junto à irmã, possibilitando a realização do projeto de mudança. Em São Paulo a vida a aguarda, a verdadeira, repleta de acontecimentos e sensações, não essa apatia de Agreste, esse cansaço do sem jeito. O dr. Franklin emposta a voz nos termos jurídicos, Elisa ouve o excitante rumor das ruas atulhadas de automóveis luxuosos, num frêmito escuta a fala cariciosa dos homens elevando-se à sua passagem quando à tarde comparece à rua Augusta, indo de compras com Tieta.
Astério ouve pensativo, um tanto contrafeito. O sogro vai ter onde habitar com decência e conforto, na casa da filha; será como se possuísse casa própria. Filha magnânima, Tieta. Outra qualquer guardaria ressentimento do pai que a pusera no olho da rua, da irmã que a delatara. Ela, não. Regressara com as mãos pejadas de dádivas para cada pessoa da família. Durante dias e dias, Astério se perguntara por que, na distribuição dos benefícios, naquele esbanjamento, a cunhada ainda não se fixara na irmã mais moça e no cunhado, reduzidos aos presentes da chegada. Sendo eles os mais precisados, no entanto, pois Zé Esteves, se nada tinha de seu, recebia farta mesada e praticamente não gastava dinheiro, barraco e comida custando-lhe ninharia, enquanto ele e Elisa viviam em eterno aperto, a loja e a ajuda dando na exata. Perpétua não precisa de auxílio, tem de um tudo, mansão onde residir, casas de aluguel, pensão do marido, dinheiro na Caixa Econômica, em Aracaju, e a proteção de Deus. A proteção de Deus, sim, ria quem quiser — não lhe tem faltado. Ao que Elisa soube e lhe contou, a ricaça abrira em banco de São Paulo caderneta de poupança para os dois sobrinhos. Ele e Elisa nem filhos possuem, sobrinho a merecer a proteção da tia milionária, Toninho morrera e, não fosse dona Carmosina gostar tanto de Elisa, não se sabe como teria terminado aquele assunto: a mentira vil, a notícia surrupiada, chantagem suja.