Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 10 de 10

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Tieta do Agreste

Posfácio

 

Dois mais dois são cinco

Lilia Moritz Schwarcz

 

“Para se viver bem é preciso antes de tudo abolir a consciência.” É dessa maneira que, já nos momentos finais deste livro, a heroína Tieta — ou melhor, Maria Antonieta, isto é, dona Antonieta Esteves Cantarelli, madrasta ou madrinha de Leonora, a cidadã benfeitora responsável pela chegada da luz de Paulo Afonso em Santana do Agreste, a Joana d’Arc e padroeira do sertão, bem servida de padaria e leiteria — desabafa acerca dos impasses que a vida sempre traz.

São muitos os nomes, assim como muitos são os papéis que essa personagem sedutora, mesmo sem querer, acaba por desempenhar. Ela é a um só tempo — e sempre — a mulher-dama, a piranha, mas também a redentora do Agreste, a santa que salva os velhos do fogo, a benevolente que ajuda a todos, a sábia que dá conselhos, a dadivosa para quem não há limite, a tia irada, a cabra: uma cabrita no cio. Mulher de caráter forte, esculpido pelas dificuldades que conheceu, Tieta volta ao interior da Bahia, após 25 anos vivendo em São Paulo. Expulsa pelo pai, ela retorna triunfante — mais sensual, poderosa e rica. Na cidade grande Tieta desposara um comendador, fizera a vida e, ainda que ninguém no Agreste soubesse, tornara-se uma grande cafetina — madame Antoinette, nascida na Martinica (“mesmo local de nascimento da imperatriz Josefina, a esposa de Napoleão”) — duma casa chique de raparigas, mais conhecida como Refúgio dos Lordes. O nome era imponente assim como o papel desempenhado por nossa personagem, que parece não se envergonhar de sua profissão, sábia que é dos segredos do amor e da carne.

Mas esse é mesmo um segredo de polichinelo, e o leitor desde o início da leitura percebe que o mistério será desvendado, mais cedo ou mais tarde. No entanto, é nessa falta de segredo que reside a graça do enredo, cujo desenlace fica logo estipulado: não se espera pela exceção; ao contrário, o grande mistério é justamente perceber como no cotidiano de uma cidade do interior, prestes a ser desvirginada pelo progresso e pela modernidade industrial, nada parece atrapalhar. Na breve experiência relatada no livro — o curto intervalo da estada de Tieta em Santana do Agreste — muito acontece mas nada decorre. Tudo acaba voltando para o lugar onde sempre esteve.

Publicado pela primeira vez em 1977, apenas cinco anos depois de Tereza Batista cansada da guerra, Tieta do Agreste logo se converteu em obra de sucesso certo, chegando às telas da televisão e do cinema. Um dos seus grandes trunfos é o excesso de vida que se apresenta em cada detalhe da obra: nas fofocas do dia-a-dia, nas receitas que dão água na boca, nas festas coloridas, nas dunas e cômoros de Mangue Seco, no bilhar e na disputa para acertar a carambola, nas casas de raparigas, na missa das seis, no cinema ao anoitecer, na praça e no coreto. Parece que cada pequeno detalhe serve para que Jorge Amado homenageie a Bahia e esse povo tão afeito, segundo ele, a diferentes formas de cordialidade.

Mas nem só de afeto e cordialidade são feitas as personagens deste romance. Todas elas carregam lá suas ambivalências, como ambivalente é o destino. E não é apenas Tieta que comporta muitas mulheres em uma. Leonora (sua afilhada) é puta da cidade grande, mas no Agreste é moça donzela de família rica e distinta. Elisa, irmã mais nova de Tieta — que só a conhece no momento em que ela volta ao sertão —, é rapariga bem casada que quer mesmo é ir para São Paulo trabalhar em casa de pensão. Dona Carmosina, solteirona inveterada, é a responsável pela agência dos Correios e pelas notícias filtradas que chegam à cidade, mas sabe conspirar e se meter em temas da vida pública e também privada. Astério é o bom marido de Elisa, mas jamais perdeu a fama de consolo de fiofó vitalino, por conta de suas preferências na cama. Comandante Dário de Queluz veio se aposentar no Agreste, mas veste a farda quando o dever o chama. Perpétua, a irmã carola de Tieta, lembra-se de Deus a todo instante, assim como nunca deixa de pensar nas finanças, dela e dos filhos — Ricardo e Peto. Fidélio, de ilustre desconhecido do Mangue Seco se converte no estimado “Taco de Ouro”, líder no jogo de bilhar e herdeiro rebelde do coqueiral. Ascânio Trindade é o prefeito impoluto, o namorado correto e compromissado de Leonora, mas que se deixa seduzir pelas novidades da cidade grande e do progresso que viria com as novas indústrias. Isso sem esquecer de Ricardo — o Cardo da tia — que apesar de vestir a batina de sacerdote é mesmo “um pedaço de homem” e descobre como ser homem nas dunas de Mangue Seco, tendo Tieta como guia experiente e segura.

A vida escorre, assim, misturando boas doses de sexo, política e a leveza do dia-a-dia, pois ninguém é de ferro. Uma Bahia alegre, inocente até, transparece nessas páginas, que, em forma de cordel, vão introduzindo cheiros, aromas, costumes, muito sol, mar e areia. Como sempre acontece nos livros de Jorge Amado, as inúmeras situações que envolvem os leitores deitam todas, e em comum, o louvor a essa terra de trato violento mas fácil; macio porém rude; fraterno mas também mesquinho.

Ambivalência é o nome dessa sociedade que recebe tão bem, como um dia foi capaz de expulsar. Nenhum drama acaba em tragédia: questões de política jamais levam a divisões sérias; novas medidas tendem a ser neutralizadas pelo cotidiano pacato, amantes desatam relações sem que o mundo por isso acabe. “Saudade é igual a amor […]. Não mata, ajuda a viver”, diz Tieta a Leonora, tentando justificar o seu caso rompido, ou mesmo o final da relação de Leonora com Ascânio. O que reiteradamente se anuncia é o retorno à antiga vida que parece mais forte do que o futuro ou a novidade. Tudo volta, tudo reencaminha...

Mas se esses temas fazem de Tieta do Agreste mais uma aventura dentro do grande romanceiro e do universo de Jorge Amado, há nessa obra questões que aparecem anunciadas pela primeira vez, ao menos de maneira tão direta, central e contundente. Se na época da publicação deste livro Jorge Amado há muito tempo abandonara o marxismo ortodoxo, não perdera por certo seu perfil humanista e o olhar crítico diante da violenta expansão do capitalismo no país. Estamos na época da chegada das grandes multinacionais e do começo do debate sobre os efeitos deletérios da poluição, e Tieta do Agreste, sem ser um livro evidentemente político, nesse caso “toma partido”. O problema se enreda na trama e é estratégico no seu desenlace.

Santana do Agreste aparece caracterizada como um local perdido, apartado do progresso: um pequeno paraíso na terra. As dunas, os peixes, as frutas, os pescadores e moradores surgem todos isolados do mundo e mantendo a vida como num precipitado. Mais do que realidade, Agreste é quase modelo de um tipo de vida que permanece no passado, mas pode se perder e desarranjar. É por isso que a entrada de uma indústria de dióxido de titânio — material que ninguém sabe (até o final do livro) o que de fato é, mas que por isso mesmo mais se parece com o demo da poluição — revela-se como uma tempestade que pode destruir esse pequeno oásis.

Jorge Amado joga a rede, e nesse longo romance (como o próprio autor reconhece ao final, com um pingo de ironia: “monumental, sim, basta atentar-se no número de páginas”) tudo se desenrola como se o povo fosse fraco e a indústria forte, a tradição frágil e o progresso avassalador. Mas engana-se aquele que se deixa levar, ingenuamente, pela trama bem contada do bardo Jorge ou acredita no discurso do herói secundário — o político Ascânio —, que, contaminado pela fúria dos industriais da cidade grande, se converte no defensor e principal candidato do terrível grupo industrial Brastânio; mais um nome, desta vez a assustar os leitores. “Não é fácil ser um homem digno, custa esforço”, reconhece o prefeito e namorado de Leonora, que ao final será a única e derradeira defensora da plataforma do político. Nesse romance, em que impera a lógica da lenda e de seu tempo circular e não ascendente ou progressivo, Amado inverte a ordem das coisas, e, depois de algumas agruras no meio do caminho, é o passado que se impõe por contraposição ao futuro, aqui representado pela idéia da indústria e da civilização.

No entanto, e enquanto durar a narrativa, o progresso afastará amigos, fará que a eleição seja, pela primeira vez, dividida no Agreste — terra onde coronel tudo pode — e as desavenças pareçam irreconciliáveis. “Luz é uma coisa, poluição é outra”, desconfia Tieta, que, conhecedora desse mundo do progresso, lamenta o futuro de Agreste: desenvolvimento sim, destruição é que não. Aí está o tema articulador da obra, sua face mais pública. Mas, em se tratando de romance, até o tempo do capitalismo será retardado pela “luz de Tieta”.

Em paralelo, como que para despistar o leitor, e bem ao estilo de Jorge, desenvolvem-se outras narrativas e pares amorosos. Drama particular é o amor impossível de Leonora e Ascânio. Nesse terreno se reafirma a antiga tragédia, que desde tempos imemoriais fazia o coração das leitoras românticas sofrer em vão. No relacionamento proibido que se constrói entre um dos casais centrais do livro impera o impedimento. Se o amor de Tieta pelo sobrinho Cardo parece impossível — mas não é —, já neste caso o namorado honrado jamais aceitará mulher-dama no seu leito de esposo comprometido. Bem que o autor tenta nos fazer esperar um desenlace bom. No entanto, vinga uma espécie de determinismo social: piranhas não se tornam moças casadoiras do dia para a noite, e por mais que a famosa personagem de Diderot em Jacques, o fatalista tente alegar já à beira da morte que “se pode ser vagabunda no passado sem ser no presente”, é como se a fatalidade fosse sempre soberana.

Porém, no romance de Amado até nesse momento extremo o desespero é superado pela vida, que parece sempre mais forte. Enquanto Ascânio apenas lamenta sua sorte — “Duas vagabundas e um palhaço” —, já Leonora volta para o seu destino, de onde, na verdade, nunca se afastou: a lembrança é “carga de saudade para as horas de solidão”.

Como vemos, as pequenas dicotomias marcam o livro de um modo geral: São Paulo × Agreste, progresso × natureza, ingenuidade × malícias, moralidade × amoralidade, conhaque × pinga, tolos × espertos, tabacudos × sabichões da cidade, poluição × limpeza, e até no terreno da cama e da sexualidade as divisões se afirmam: se Tieta liderava o Refúgio dos Lordes em São Paulo, já em Agreste — lugar onde Antoinette é só Tieta — impera soberana a famosa pensão de Zuleika Cinderela (para os íntimos, apenas Cinderela).

Mas as dicotomias fáceis aí estão para ser superadas no Brasil de Jorge Amado, cuja soma de dois mais dois é inclusive maior que cinco. Tudo volta a seu lugar e reaparece em outro paradeiro. Depois que descobre a traição de Cardo, Tieta perdoa e acaba por empregar a antiga rival. Leonora, após uma tentativa dramática de dar cabo à vida, aceita seu fardo com galhardia. Até mesmo a fábrica de dióxido de titânio que seria instalada no coqueiral toma outro rumo, com os empresários decidindo investir em novo local. Esse é um mundo que contém violência, mas não se limita a ela. Também o tempo da Bahia surge no limite sincrônico e avesso à ruptura. Tieta volta sabendo-se expulsa, mas agora bem-vinda, e parte como quem quer e pode voltar.

O fato é que aos poucos, e a partir dos detalhes, vai se criando uma espécie de “nós” comum, matéria da identidade baiana e também, segundo a versão amadiana, brasileira. É como se “fôssemos assim”, para além de um local previsível e de um tempo marcado. Por isso, ninguém sabe ao certo que fábrica é essa e quem são seus empresários: dr. Rosalvo Lucena e dr. Mirko Stefano. Não se imagina, pela narrativa, como chegam ou como desaparecem, mas eles são sempre “outros”: galãs de televisão, mal parecendo gente de carne e osso da Bahia. Os outros são outros, e nós, leitores, ficamos irmanados com os habitantes do interior da Bahia, que passam a lembrar nós mesmos, que nos identificamos com os moradores do sertão e torcemos por eles. Interessante é que Jorge Amado faz acreditar que somos iguais aos habitantes de Santana do Agreste e que aí estaria, disposta em pequenas drágeas, a essência deste país, afeito a violências sem maiores decorrências, à comunhão das raças, aos bons presságios e à calmaria.

Exemplo maior é Ricardo, uma espécie de bom selvagem baiano. O menino cumpre papel simbólico e exemplar. Cardo é seminarista, o bom filho de Perpétua, a quem a civilização não corrompeu. Mas é um pecado de homem e mal sabe disso, a despeito dos suspiros de moças novas e das mulheres-feitas. Seu futuro ninguém conhece: se o espera a igreja ou a vida boa da comunidade. Ricardo pode repetir o exemplo da tia, a rebelde de Agreste, ou se transformar no seguidor da tradição, bem representada por sua mãe, Perpétua. Oscila entre pólos opostos, e não será o autor a desempatar esse jogo destinado mais ao desequilíbrio que à paridade — o fato é que ele toma seu destino nas mãos e não se resigna ao papel que todos insistem em lhe reservar. Afinal, o Brasil de Jorge Amado é assim: repleto de contrários que se equilibram, bem na tradição de Gilberto Freyre e de sua versão tropical da identidade.

Identidade não é matéria para essência ou destino rígido. Identidade é fenômeno político, feito da diferença e do contraste. Por isso, Santana do Agreste nunca foi tão perdida no tempo e no espaço, mas corresponde a uma maneira específica de entender, ler e traduzir a Bahia e quiçá os brasileiros. O Brasil de Jorge Amado e a Bahia mais se parecem com uma reserva de identidade e de pureza cultural, política e social. Se sabemos que a desigualdade sempre existiu entre nós e que práticas de exclusão fazem parte de nossa história pregressa, é muito bom ter à mão uma utopia em que acreditar. Tieta é quase um paradigma dessa utopia, dessa realidade que sempre dá um jeito, e sem pressa. Mas nem sempre nossa heroína se contenta (ou pode se contentar) em apenas deixar estar. Por vezes, o “dever cívico”, diz Tieta, fala mais alto, e até a mais relaxada das criaturas é obrigada a sair do sério. Conforme desabafa Jorge Amado, mais uma vez travestido de Tieta, mas agora com nova conclusão: “Para se viver bem é preciso antes de tudo abolir a consciência. [O que] nem sempre se consegue”.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo.

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