Tieta do Agreste
Da egrégia figura
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Logo após a passagem pelas ruas de Agreste da volumosa e suarenta
imponência do dr. Hélio Colombo, os acontecimentos se precipitaram, adquirindo vertiginoso ritmo, envolvendo o pacato burgo em confusão e rebuliço.
Foi das mais breves, todavia, a estada da egrégia figura. Demorou-se apenas algumas horas, contados cidadãos travaram conhecimento com o grande jurisconsulto e souberam quais os motivos a conduzi-lo àquelas desprovidas lonjuras. Nem por isso se pode diminuir a significação e negar as conseqüências da histórica viagem, pois no encontro do dr. Colombo com Ascânio Trindade na sala de despachos da prefeitura reside a explicação de todo atropelo posterior, da pressa, da violência, do desespero. Dias de tumulto e espanto: em menos de duas semanas, o povo assistiu a eventos, tantos e tamanhos, que até pareceu ter chegado o fim do mundo, cumprindo-se afinal a profecia do beato Possidônio.
O ruído inusitado de um automóvel estancando em frente ao cartório trouxe o dr. Franklin à porta, a tempo de observar e reconhecer o glorioso mestre na rude tarefa de extrair do assento do carro o vasto corpanzil, com a ajuda do chofer. O tabelião arregalou os olhos: bendito coqueiral, valha-nos Deus! Dessa vez, quem se aventura nas precárias estradas do sertão não é nenhum reles advogado de Esplanada ou Feira, nenhum velho caxixeiro das terras do cacau. Diante do tabelião ergue-se, entre resmungos, a vasta humanidade do dr. Hélio Colombo, cento e tantos quilos de astúcia e saber. Dr. Franklin adianta-se, estende a mão, efusivo e bisbilhoteiro:
— Bem-vindo a Santana do Agreste, augusto mestre! Doutor Franklin Lins, tabelião, criado às ordens. A que devemos a honra de tão ilustre visita?
O catedrático emérito da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, chefe do maior escritório de advocacia do estado, corresponde ao aperto de mão mas, decepcionando a curiosidade do amável concidadão, não formula declaração sensacional, digna de sua fama, nem esboça gesto capaz de caracterizar o rumo dos acontecimentos que irão abalar a cidade e o município. Bufa e geme:
— Obrigado, caro colega. Sinto que depois desta viagem jamais voltarei a ser o mesmo. Tenho a alma envolta em poeira. Para sempre.
Sacode o paletó, metros e metros da melhor casimira inglesa, limpa o rosto inundado de suor, olha em volta com tristeza: os canalhas da Brastânio pagarão caro. Não se trata de ameaça vã. Tarefas desse tipo não estão incluídas no acordo de consultoria jurídica. Maldito Mirko, a exigir que ele viesse em pessoa examinar o problema e encontrar-lhe solução, prometendo atraente secretária para amenizar a viagem, elogiando a beleza do lugar. A atraente não apareceu na hora da partida, o lugar é uma tapera e a estrada, porra! Ah!, esse último trecho de caminho… Cobrará cada metro, cada buraco, cada solavanco, a ausência da secretária, o suor, a poeira, a sede, o acerbo desconforto.
Depois do aperto de mão, dr. Franklin arrisca:
— Se mal pergunto, a presença do mestre deve-se à amenidade do clima ou veio a Agreste trazido por interesses profissionais? Mas entre, por favor.
— Antes me esclareça, caro colega: cerveja gelada, existe por aqui? — parecia duvidar. — Se por milagre existe, indique-me onde. Estou morrendo de sede.
— No bar.
— Mostre-me o caminho.
— Entre e sente-se, mestre. Eu mando buscar a cerveja.
Volta-se para gritar por Bonaparte, descobre o filho atrás da porta, de ouvido atento.
— Corra ao bar, traga umas garrafas de cerveja, bem geladas. Num abrir e fechar de olhos. Voando.
Lento por natureza, o rotundo Bonaparte, na aurora dos novos tempos, revela-se à altura da situação. Seguido pelo chofer, parte em passo acelerado, retorna botando os bofes pela boca. Assim age não apenas em obediência ao pai mas sobretudo para não perder detalhe da visita do ínclito advogado, merecedor de tantos rapapés. Que outro interesse profissional poderia trazer a Agreste o famigerado causídico, a não ser o coqueiral de tantos herdeiros, quem poderia ser constituinte de mestre Colombo senão a Brastânio? Bonaparte é amigo leal, devotado cúmplice: dr. Marcolino colabora com louvável generosidade para os parcos vícios do jovem escrivão — cigarros, batidas, raparigas. Bonaparte busca corresponder a tais provas de consideração.
DAS PRECIOSAS RARIDADES
ENQUANTO A ESPOSA SE DESCULPA POR NÃO SERVIR
ALMOÇO digno do conviva famoso, dr. Franklin semeia verde para colher maduro:
— Para o mestre, evidentemente, não existe problema difícil. Mas esse, do coqueiral, é uma embrulhada dos demônios, pois não? Se não fosse a intransigência de Fidélio, ou melhor dito, do comandante… Já vislumbrou saída, mestre?
Dr. Hélio Colombo suspende a garfada:
— Minha cara senhora, se este banquete é o trivial da casa, como será um almoço de festa? Estou me regalando, minha senhora.
De toda a viagem, aquela foi a boa lembrança conservada pelo advogado: a mesa de fartura e requinte. Os pitus, o peixe ensopado, a frigideira de guaiamus, o lombo de cabrito assado. Ao atingir a sobremesa, o mau humor do grande homem se dissolvera; tornara-se amável e fitava o casal com simpatia (e o filho do casal, néscio e silencioso, cara de palerma porém respeitável parceiro). Sincero nos elogios ao almoço e nos agradecimentos à dona da casa, faz-se cauteloso na resposta ao indiscreto anfitrião:
— O problema, hum… Estou começando a formar opinião mas é cedo para qualquer afirmação. Quero refletir sobre alguns detalhes, antes de formular parecer.
Dr. Franklin não se deixa enganar. O mestre pedira-lhe relato minucioso, crivara-o de perguntas, não deixara fio solto, estudara os livros antigos e examinara os documentos recentes. Balançando a cabeçorra, encomendara certidões a Bonaparte, queria levá-las consigo. Por fim sorrira, ladino, e dr. Franklin ficou certo de que o mestre havia encontrado a solução, pois existe uma solução capaz de resolver o impasse, beneficiando a Brastânio e se ele, pobre tabelião do interior, a descobrira, como iria escapar à experiência do grande advogado? Não se surpreende com a reserva do conviva, por que haveria de pôr as cartas na mesa, revelar seus trunfos?
Dr. Colombo suspira ao provar a primeira colherada de ambrosia: incomparável! Ainda no prazer da degustação, passa a comandar as perguntas, em busca de informações sobre os próceres de Agreste:
— O candidato a prefeito, que tal?
— Um moço honrado.
Fugaz sombra de dúvida transparece nos olhos do dr. Colombo, logo se apaga.
— Refiro-me ao rapaz que é candidato da Brastânio, chamado… — retira um papel do bolso, lê a anotação. — …Ascânio Trindade. Esteve recentemente em Salvador.
— Esse mesmo. Não sabia que fosse candidato da Brastânio.
— Maneira de falar. Assim me expressei porque esse moço, revelando-se administrador de visão, demonstrou publicamente ser favorável à instalação da Brastânio no município. É natural que a Brastânio veja sua candidatura com simpatia. Nada além disso.
A explicação não convence dr. Franklin, cada vez mais apreensivo: nos últimos dias ouvira surpreendentes comentários a respeito de Ascânio. Diziam-no muito mudado, após a viagem à capital. Falando grosso, cheio de si, ditando regras. Dr. Marcolino Pitombo se referira a golpe do baú. Realmente, segundo dr. Franklin apurara, Ascânio arrasta a asa à paulista rica, enteada de dona Antonieta Cantarelli. Que haverá de verdade em toda essa boataria? Falar da vida alheia sempre fora a diversão principal da cidade mas, com o debate sobre a indústria de titânio, os mexericos impregnaram-se de maldade, deixando de ser risonhos ou apimentados para se tornarem cínicos e impiedosos. Talvez Ascânio continuasse o mesmo de antes, moço honesto e direito, empolgado com a possibilidade de grandes progressos para o município resultantes da instalação da fábrica. Tendo sido amigo do falecido Leovigildo, pai de Ascânio, o tabelião estimava o rapaz entusiasta e trabalhador. Quando o coronel Artur da Tapitanga propusera seu nome para prefeito na vaga aberta com a morte do dr. Enoch, aplaudira a escolha. Não só ele, toda a população. De repente, Ascânio surge candidato da Brastânio e mestre Colombo parece ter razões para pôr em dúvida sua honestidade.
Repetindo farta porção de ambrosia, o eminente catedrático indaga:
— Segundo entendi, a eleição desse moço é coisa pacífica, concorre sozinho, não apareceram outros candidatos, não é mesmo?
— Até o momento, é o único. É verdade que candidatura propriamente dita não existe, pois a data da eleição ainda não foi marcada.
— Engana-se o caro amigo. A data da eleição acaba de ser marcada. Na reunião de ontem no Tribunal Eleitoral.
Um arrepio percorre a espinha do dr. Franklin. Lera num jornal da capital referência ao interesse da Brastânio pela eleição para a prefeitura de Agreste. Pressionava o tribunal para marcar a data. Antigamente ninguém se preocupava com as eleições no perdido município, feudo imemorial do coronel Artur da Tapitanga. Outra força política se levanta agora, tão poderosa a ponto de trazer a Agreste, a seu serviço, o próprio professor Hélio Colombo, invencível nos tribunais e, ao que se vê, na mesa.
Bonaparte, derrotado, abandona a competição, cruza os talheres. O egrégio mestre é parada: impávido, ataca o doce de araçá, guloseima hoje tão rara, tão difícil de encontrar-se quanto um homem honrado, meu caro tabelião.
DA NOTORIEDADE DE AGRESTE
DEPENDURADO EM LUGAR DE HONRA, NA ENTRADA DA
PREFEITURA, o vistoso desenho de Rufo, a “deslumbrante visão do futuro”, atrai curiosos. Balançam a cabeça, unânimes na admiração às qualidades artísticas do decorador, divergentes quanto ao conteúdo. Formidável!, apóiam alguns, com entusiasmo: Ascânio é um porreta, vai reerguer Agreste, transformar a região. Outros, mais prudentes, repetem argumentos do comandante e de dona Carmosina: fosse essa indústria assim tão benéfica, por que haveria de se instalar em área pobre e distante, desprovida de recursos? Dizem que apodrece a água, envenena o ar. Está nos jornais. Não a querem em lugar nenhum no mundo. Proibiram-na em São Paulo e no Rio. Tentaram situá-la entre Ilhéus e Itabuna, o povo se levantou. Ascânio, ou está sendo enrolado ou…
Ou o quê? Ascânio é homem íntegro, sua vida um livro aberto, cidadão acima de qualquer suspeita, de qualquer insinuação…
Ninguém está insinuando nada, mas é do domínio público que ele está de olho na paulista rica, herdeira do comendador, enteada de dona Antonieta. Postulante pobre, no caso paupérrimo, à mão de milionária, perde a cabeça com facilidade e nessas grandes empresas corre dinheiro a rodo. Para Ascânio, a instalação da fábrica no município vem a calhar, quem pode negar a evidência?
Azedam-se as discussões. Cresce o número dos leitores dos jornais da capital, antes reduzidos aos privilegiados assinantes de A Tarde. Por encomenda de Chalita, sempre disposto a aumentar suas fontes de receita, chegam pela marinete de Jairo exemplares dos diversos cotidianos de Salvador. Se o dono do cinema tem juízo formado sobre o problema da indústria de titânio, não o alardeia, expõe à venda o pró e o contra, recolhe os níqueis do lucro escasso. A polêmica em torno da Brastânio se alimenta de notícias e boatos, de maledicências, prossegue rua afora.
Leram e comentaram a entrevista de Ascânio, grandiloqüente: “A Brastânio significa a redenção de Agreste; riqueza e progresso para o litoral norte do estado”. As moças admiraram-lhe o retrato em duas colunas, o dedo em riste, jovem líder político de grande futuro, candidato do povo à prefeitura, no dizer do repórter. Causou igualmente sensação o ríspido suelto com que, na sessão editorial, A Tarde comentou tais declarações. Sob o título de “Candidato do povo ou da Brastânio?” classificava Ascânio de “playboy matuto, hóspede da Brastânio em hotel de luxo”. Quanto à riqueza e ao progresso anunciados pelo “leviano e faceto personagem”, não passavam de poluição e miséria na opinião responsável de intelectuais sergipanos que assinaram memorial de apoio ao telegrama do prefeito de Estância, figuras de proa: pintor Jenner Augusto, escritor Mário Cabral, professor José Calasans, jornalista Junot Silveira.
Espanto e incredulidade causaram as confusas notícias de ameaças à vida dos componentes de uma equipe de técnicos da Brastânio, impedidos de desembarcar em Mangue Seco. Pela população indignada, unida em defesa do meio ambiente — aplaudia Giovanni Guimarães. Por agentes internacionais da subversão a serviço do comunismo ateu, comandados por uma russa que outra não era senão a bolchevique Alexandra Kolontai, cuja presença no Brasil os serviços competentes haviam assinalado — denunciava a mesma gazeta onde saíra a entrevista de Ascânio.
Por fim, culminando o farto noticiário, o povo tomou conhecimento da data marcada para as eleições. Por que tão próximas? — perguntava o articulista de A Tarde. Porque a Brastânio tem pressa — respondia ele próprio. Em que pesem as divergências, resguardada a opinião de cada um sobre o problema da indústria de titânio, havia um ponto em torno do qual todos se punham vaidosamente de acordo: jamais Agreste merecera tanto destaque na imprensa. Não menos vaidoso sentia-se o Magnífico Doutor. Ângelo Bardi telefonara de São Paulo para cumprimentá-lo.
DOS MELINDRES DE CONSCIÊNCIA
(CONSTRANGEDORES E
IMPROCEDENTES)
AO OUVIR MESTRE COLOMBO, APOSSA-SE DE ASCÂNIO
SENSAÇÃO IDÊNTICA à que sentira na Bahia, na semana anterior. Importuno constrangimento, como se não marchasse por seus próprios pés, fosse conduzido, colocado diante de fatos consumados, sem opção, devendo executar decisões tomadas por outros, à sua revelia. Contudo, a vontade de opor-se, de exigir explicações, de não se deixar envolver, de tirar a limpo o porquê de cada coisa, não chega a se expressar. Sente-se desconfortável mas ouve e cala.
Constata mais uma vez o poderio da Brastânio, ao receber na prefeitura de Agreste o egrégio professor Hélio Colombo, do qual não chegara a ser aluno, mas em cujo escritório, igual aos demais colegas, sonhara iniciar-se quando formado. Ali estava o mestre, em pessoa, refeito após o almoço e a sesta, expondo e solucionando o terrível problema do coqueiral que tanta preocupação causara a Ascânio. Portador de auspiciosa notícia, a decisão do tribunal sobre a data do pleito, antes mesmo que o moço terminasse de lhe dizer quanto o admirava, o eminente advogado começou a colocar em pratos limpos a confusão causada por Fidélio, a ditar o procedimento de Ascânio.
Empunhando o tubo de metal e a pasta de couro, no bolso o anel de compromisso, o peito inflado de ambição e amor, Ascânio saltara vitorioso da marinete de Jairo. A decisão da Companhia Brasileira de Titânio, escolhendo Santana do Agreste para ali instalar suas fábricas, mudava a face do município e a vida do futuro prefeito. Com os argumentos do dr. Lucena e o feérico desenho de Rufo, contava conquistar a boa vontade da madrasta de Leonora. Sobrariam apenas os discursos do comandante, as objurgatórias de dona Carmosina, os versos, na maioria inéditos, de Barbozinha. Palavrório ruidoso e inconseqüente.
A euforia durou pouco. Em Mangue Seco, a firme negativa de Tieta foi um rude golpe. Depois, os motivos de apreensão e aborrecimentos se sucederam: obstáculos e injustiças, incertezas e mágoas.
Na agência dos Correios, dona Carmosina atirara-lhe nas fuças a opção concedida por Fidélio ao comandante, vingando-se do “conheceu, papuda?” com que ele se despedira ao embarcar no jipe. Escarnecendo:
— Quero ver como seus amigos vão fazer para instalar a fábrica no coqueiral. Felizmente, ainda há gente direita neste mundo.
Ascânio não respondeu, deixou dona Carmosina falando sozinha, queria evitar as discussões, capazes de levar a um rompimento com a velha amiga cada vez mais exaltada. Mas a informação, logo confirmada, demonstrava que nem tudo era palavrório. Não conseguiu resposta para a pergunta da agente dos Correios: como iria a Brastânio adquirir as terras do coqueiral? Questões de propriedade de terra costumam arrastar-se, intermináveis, nos tribunais, duram anos e anos, essa apenas se inicia: o juiz de Esplanada nem sequer dera seguimento ao mandado de posse, requerido pelo dr. Marcolino, em nome de Jarde e Josafá Antunes.
Dr. Hélio Colombo remove o obstáculo e declara que para encontrar a boa solução não teria sido necessário empreender aquela pavorosa viagem, amenizada apenas pelo almoço com que o tabelião o homenageara — o mestre ainda lambe os beiços. Na sala, Bonaparte ressona no torpor da tarde, arriado num banco. Ao lado, as certidões e uma lata de doce de araçá, presente para o mestre. Dr. Colombo fita com simpatia o dorminhoco: soneca merecida, o jovem sacrificara a sesta para aprontar as certidões. Palerma, porém gentil. Ordena a Ascânio:
— Guarde reserva acerca desta nossa conversa. Mirko disse-me que posso confiar no senhor.
Solução simples, perfeita. Ascânio, apenas eleito e empossado, desapropriará toda a área do coqueiral, medida de utilidade pública. Onde arranjar dinheiro para pagar a desapropriação? Os terrenos desapropriados serão vendidos à Brastânio. A prefeitura terá dinheiro para pagar e ainda encaixará algum, obtendo lucro na transação. Negócio limpo.
— E se os herdeiros não aceitarem?
— Como não vão aceitar? Ainda nem existem como herdeiros. A desapropriação, a preço razoável, é um verdadeiro presente para eles.
— Mas o comandante, esse não aceitará, por nenhum preço.
— Ele não tem como impedir a desapropriação por motivo de utilidade pública. Pode ir à justiça, depois. Perderá tempo e dinheiro. Não se preocupe com ele, vá em frente. Eu cuidarei de tudo. Por ocasião de sua posse, mandarei em mão, por um colega, um dos meus auxiliares no escritório, o decreto de desapropriação redigido, com os considerandos, toda a fundamentação. Seu único trabalho será assinar.
Seu único trabalho: assinar. Sensação desagradável, incômoda. Mete a mão no bolso, toca a pequena caixa onde está o anel de compromisso. Quando o colocará no dedo de Leonora? O tempo urge. Que pode fazer senão ir em frente? Ademais, colaborando para a instalação da Brastânio em Mangue Seco, está apenas servindo aos interesses do município e do povo. Pensando bem, onde os motivos para melindres de consciência?
AMOSTRA DAS CONSUMIÇÕES DE UM
CANDIDATO A LÍDER E A MARIDO OU DO CARÁTER SUJEITO A DURAS PROVAS
JOVEM, SAUDÁVEL, POTENTE, APAIXONADO.
APAIXONADO É POUCO DIZER: louco de amor e sabendo-se correspondido. Sem sombra de dúvida. Recebera prova indiscutível (e celestial) que outra não fora senão a maior de todas: a bem-amada abrira as pernas para ele, entregara-se, sem nada pedir em troca. Sendo pobre e ela rica, jamais ousara falar em casamento, não fizera propostas nem promessas. Prova de infinito amor, o gesto de Leonora nos cômoros.
Galã principal da história aqui narrada, no gozo de invejável saúde, de potência sexual recentemente comprovada à tripa forra na capital do estado, como explicar que esse jovem galhardo e varonil, ao ter à sua disposição, enleada e ardente, a mais desejada e inacessível das mulheres, a mulher de sua vida, não se aproveitasse, buscando inclusive evitar (ou pelo menos adiar) a repetição da exaltante noite de amor? Onde já se viu contradição tão flagrante, absurdo igual? Quais as razões dessa demência? Será que realmente existe, nos cafundós-do-judas, ou seja, em Agreste, bestalhão tamanho?
Desembarcando da lancha, no domingo, Ascânio acompanhou Leonora até à porta da casa de Perpétua. Tomando-lhe as mãos, a ternura esparramada nos olhos e na voz, disse:
— Vou para casa, por hoje me despeço. Você precisa descansar, quase não dormiu, está fatigada. Se me permite, amanhã, indo para a prefeitura, passo para lhe dizer bom-dia.
Permitirá quanto Ascânio peça e deseje — o ideal seria que a desejasse e possuísse naquela mesma noite, nos esconsos do rio. Não está assim tão cansada e, se estivesse, onde poderá repousar feliz, sem laivo de tristeza, senão nos braços dele? Cala, no entanto, novamente intimidada, à espera de que Ascânio tome a iniciativa, ouse e proponha. Aproveita, cabrita, faz tua reserva de saudade, o tempo é curto, recomendara mãezinha. Envolta em preconceitos e escrúpulos, esperdiça-se a noite do domingo.
Ele se aproxima para o beijo de despedida. Leonora atraca-se em seu pescoço, os seios túmidos. Os corpos se unem, as coxas se encontram, um calor cresce do beijo longo, desesperado, de lábios, línguas e dentes. Ascânio se desprende e foge rua afora, sob a fosca luz dos velhos postes.
Seus passos, em lugar de levá-lo à casa, conduzem-no à pensão de Zuleika Cinderela, onde, sorridente, Maria Imaculada o acolhe:
— Seu Ascânio… Faz tanto tempo que lhe espero… Que bom que veio.
Tomando da menina, linda e trêfega, Ascânio não se tranqüiliza, pois comprova que somente o corpo de Leonora, nenhum outro, pode lhe dar aquela sensação de plenitude e torná-lo invencível, dono do mundo.
Para merecê-la outra vez, deve esperar. O gesto de Leonora, prova de infinito amor, fora igualmente prova de desmedida confiança. Pura e íntegra, nem mesmo a dolorosa experiência anterior a fizera duvidar dos sentimentos e do caráter do novo pretendente: colocara-se em suas mãos por considerá-las limpas, honradas. O desejo consome o moço apaixonado mas ele se controla, deve comportar-se à altura da confiança de Leonora.
Guarda no bolso um anel de compromisso. Assim dona Antonieta volte a Agreste, ele a procurará para conversa franca e decisiva: amo sua enteada e a quero para esposa. Sou pobre mas tornei-me ambicioso. Confie em mim, serei alguém. Noivo, o anel no dedo de Leonora, a data do casamento marcada, então, quem sabe… Antes, porém, seria ignóbil abuso, comportamento vil.
Dona Antonieta negara-lhe apoio na campanha pela instalação da Brastânio. Como reagirá ao pedido de casamento? Parece olhar o namoro com simpatia, talvez por julgá-lo inconseqüente distração de férias. Daí a casamento a distância é grande. Como agir, se a onipotente madrasta se opuser?
Ascânio não admite sequer o pensamento de não voltar a ter nos braços, rendido e vibrante, o corpo de Leonora. Agora que o tocara e conhecera, não pode mais viver sem possuí-lo. É necessário esperar, porém. Não é fácil ser um homem digno, custa esforço.
DOS DIAS VENTUROSOS
OS DIAS QUE SE SEGUIRAM AO FRUSTRADO DOMINGO
DA INAUGURAÇÃO do Curral do Bode Inácio, à aflita noite dos chifres sagrados, foram os mais felizes das férias de Tieta, dos mais felizes de sua vida.
Ao projetar a volta a Mangue Seco, sonhava reencontrar a beleza e a paz. Sortuda, obteve de lambujem devoradora paixão, insólita em sua farta colheita de xodós. Pela primeira vez deixou de ser sestrosa chiva requestada e conquistada, rendendo-se submissa ao apelo, à cobiça, à sedução do macho. De súbito, restituída à paisagem de sua adolescência, cabra de pejado úbere, desejou com ânsia irreprimível, seduziu e conquistou cabrito apenas desmamado, derrubando-o nas dunas, violentando-o. Além da paz e da beleza, a timidez e a fúria do mancebo. Como se não bastasse, ainda por cima sobrinho e seminarista. Louca, absurda, incomparável aventura, disputando com Deus os preciosos minutos.
Dias de plenitude, de paixão decantada em amor único e imortal, quando a existência se faz inconcebível sem a presença do ser amado, seriam perfeitos não estivessem chegando ao fim. Ocorre a tentação de levar Ricardo para São Paulo. Sabe que não pode e não deve fazê-lo: mais cedo ou mais tarde a magia se romperá projetando no desejo a sombra do fastio e do tédio. Por isso mesmo, não admite perder um único instante da ventura sem par desse amor enquanto imenso e eterno. Proibidas as idas a Agreste, suspensos os encargos do coroinha, as obrigações do levita do Templo, o seminarista despiu a batina, exibe-se quase nu na sunga de banho.
Tieta não cogita cumprir as promessas feitas a dona Carmosina e ao comandante, disposta a permanecer em Mangue Seco até o dia da festa da luz, véspera do embarque. Na festa se despedirá de todo mundo, adeus minha gente, até outra vez, levo saudades, foi bom demais.
Não vê motivo para sacrificar-se. Nada pode fazer de válido para impedir a instalação da fábrica, sua presença em Agreste não passará de tempo e esforço perdidos, inúteis. Alegre e livre, vive dias incomparáveis, prosando com Pedro e Marta, com Jonas e os pescadores. Gemendo e rindo nos braços de Ricardo, no alto das dunas, na fímbria do mar, na rede, na cama, na areia, na espuma das ondas, no casco da canoa, de noite, de madrugada, ao cair da tarde, na barra da manhã. A lua crescente finca-se nos cômoros, entra pela janela do Curral.
Bom seria ficar para sempre, ali envelhecer e esperar a morte, sem preocupações nem compromissos. Por que há de abandonar o paraíso? Urge regressar a São Paulo, reassumir a direção do Refúgio, ganhar dinheiro e empregá-lo bem. Ademais, dentro de muito pouco tempo, Mangue Seco será apenas triste e podre paisagem de cimento, fumaça e detritos. Melhor não pensar nisso, aproveitar enquanto ainda existem paz, beleza, amor.
A plenitude dura desde a manhã de segunda-feira, quando por fim Ricardo chegou e Tieta o recebeu com quatro pedras na mão:
— Se fez de propósito para aguar minha festa, conseguiu. Por que não ficou de vez?
— Mas a tia disse que não ia haver mais festa.
— Desde quando sou de novo tia? Estamos cercados de gente, por acaso?
— Desculpe, mas nunca lhe vi tão zangada assim. Padre Mariano me prendeu por causa do inventário. O cardeal…
— Quero que o cardeal vá se estourar no inferno. Ele, o padre e toda sua laia. A que horas terminou esse tal de inventário?
— Em cima da bênção.
— E por que você ficou por lá, não veio ontem mesmo?
— Quando a bênção acabou, já era de noite, não me ocorreu — o que não lhe ocorre é uma boa desculpa. — Comi, rezei o terço com a mãe, fui deitar. Sonhei… — levanta os olhos para Tieta: — … sonhei com você a noite inteira. Cada sonho!
Justamente por ele não haver dado uma desculpa, Tieta acreditou:
— Se me fizer outra dessas, tu vai ver. De agora em diante, tu não sai mais daqui nem pra missa nem pra porcaria nenhuma. Até eu ir embora, Deus se acabou. — A voz se adoça: — Tu sonhou mesmo comigo?
— Sonhei com você mocinha, mais moça do que eu, antes de ir embora. Igualzinha como você me contou, igualzinha, sem tirar nem pôr, meninota. — Não era por acaso verdade? Faltava a Maria Imaculada apenas o cajado de pastora.
— Me conte, cabrito, tintim por tintim.
ONDE A FORMOSA LEONORA CONHECE FINALMENTE OS ESCONSOS DO RIO
LEONORA SE DÁ CONTA, CONFUSAMENTE, DOS
SENTIMENTOS DE ASCÂNIO. Nas agruras da vida nunca tratou com homem parecido com ele e teme magoá-lo, desiludi-lo, perdê-lo. Intimida-se sem coragem para defender o tempo medido que lhe resta.
Primeiro, o rapaz a julgara moça donzela, casta filha de família, de esmerada educação, riquíssima, à espera de casamento condizente com sua situação social. Depois, mãezinha inventara aquela história do noivo calhorda, desmascarado antes de abiscoitar os cobres da milionária mas depois de lhe ter papado os tampos. Para converter em audácia o acanhamento de Ascânio, colocando a seu alcance paulista evoluída, sem preconceitos provincianos nem cabaço, e assim transformar o platônico e depressivo namoro de caboclo em exaltado xodó, lírico e ardente, agradável passatempo de férias. Mãezinha a trouxera na viagem para curar-lhe o peito e o coração. No sertão irás respirar ar puro e apreciar o prazer de um amor romântico, desses que deixam a gente pejada de saudade. Sabes lá o que é trepar ouvindo versos? Só mesmo em Agreste, cabrita. Ar puro para os pulmões debilitados pela poluição da metrópole, sentimento para o coração crestado pela aridez e a violência. Carga de saudade para as horas de solidão.
A trama de mãezinha obteve êxito apenas parcial. Ascânio continuou a imaginá-la ingênua filha de família, ainda mais digna e necessitada de respeito por enganada e sofrida. Enganada, sim, meu amor, sofrida por demais. Mas, ai!, não ingênua filha de família, digna de respeito. O segredo não lhe pertence, não pode abrir a boca e dizer: leva-me para a cama sem vacilar, nada te peço, nada mereço, sou mulher da vida, uma qualquer. Uma infeliz. Além dos fregueses, esses não contam, tive outros homens antes de ti, mas somente agora, aqui em Agreste, amei como se deve amar. Eu te amo, quero ser tua e quero que sejas meu. Por quanto tempo, não importa!
Não pode contar a verdade, contudo nada a impede de estender-lhe os braços e pedir: vamos até a beira do rio, derruba-me no escuro, na sombra dos chorões. Agarra teu bode pelos chifres, ensinara mãezinha. No alto dos cômoros, Leonora seguira o conselho. Dera-se bem.
Palmilhando a calçada da praça da Matriz, no recorrido habitual dos namorados, de olhares ternos, fugazes apertos de mão, beijos rápidos, vendo o tempo passar sem que Ascânio se atreva, mais uma noite ameaçada de ir para o brejo, Leonora vence o receio, supera a inibição e se decide:
— A gente nunca sai daqui, da praça. Eu tinha vontade de ir à bacia de Catarina. É um passeio tão bonito.
— É bonito, sim. Iremos um dia desses…
— Por que não vamos hoje?
— Não tem ninguém para nos fazer companhia.
— Companhia, para quê? Quero ir contigo, nós dois.
— Sozinhos? — Acaricia-lhe a face. — Agreste não é São Paulo, Nora. Amanhã teu nome estaria na boca do mundo.
Dando o assunto por encerrado, Ascânio volta a discorrer sobre seus projetos de administrador e as perspectivas abertas para o município com a vinda da Brastânio. Leonora escuta desatenta, ouvindo ressoar ao longe a voz de mãezinha: agarra teu bode pelos chifres, cabrita. Interrompe o passeio e o discurso:
— Tu me amas, Ascânio? De verdade?
— Duvidas? Eu…
— Então, por que foges de mim? Ou não te agradei?
— Fujo de ti? Não me agradaste? Não digas isso nunca mais. Eu te amo e não quero que falem mal de ti, entendes?
Leonora sorri e prossegue, mansa e firme:
— Entendo, sim, era o que eu pensava. Deixa que falem, não me importo, não tira pedaço. — Toma-o pela mão: — Me leva, amor, para a beira do rio. Lá ou onde tu quiseres, meu senhor.
Ascânio sente o suor escorrendo pelo corpo, pensamentos e sentimentos se atropelam, impossível ordená-los.
DE COMO A PAZ FOI PERTURBADA POR UM SANTO HOMEM
COM O ENGENHEIRO E BUDIÃO, RICARDO SAÍRA DE
CANOA PARA PESCAR. Tieta descansa na rede quando percebe ruído de passos na areia. Ergue o busto, um forasteiro se aproxima. Sem nunca tê-lo encontrado, reconhece frei Timóteo, coberto por um chapéu de palha, sorridente. Tieta corre a enfiar um vestido em cima do maiô. Volta a tempo de pedir a bênção ao franciscano.
— Dona Antonieta Cantarelli? Todos falam na senhora, eu não quis ir embora sem conhecê-la. Muito prazer.
— Eu também desejava muito conhecer o senhor. Meu sobrinho Ricardo diz que o senhor é um santo.
— Santo? — ri, achando graça. — Sou um pobre pecador. Onde anda Ricardo? Não o tenho visto nos últimos dias.
— Estava em Agreste, ajudando padre Mariano, mas já voltou. Foi pescar, não tarda.
— É um bom menino. Deus há de lhe indicar o caminho certo. Se a senhora permite, vou esperá-lo para me despedir. Minhas férias terminaram, amanhã estarei de novo em São Cristóvão.
— A casa é sua. Vou buscar uma cadeira.
O frade recusa a cadeira, senta-se ao lado de Tieta na balaustrada da varanda, ainda ágil apesar dos cabelos brancos. Os olhos postos nos cômoros:
— São Cristóvão é uma cidade antiga, bonita, os homens que a construíram honraram o Senhor…
— Não conheço mas já ouvi falar.
— Nada, porém, pode se comparar a Mangue Seco. Esta região é privilegiada, é bela demais, um dom de Deus aos homens. Sei que a senhora tem feito o que pode para impedir o crime que querem cometer, instalando aqui uma fábrica de dióxido de titânio.
Tieta sente-se enrubescer. Não merece os elogios. O comandante a reclamar sua presença em Agreste e ela ali no bem-bom, a regalar-se com o sobrinho.
— Não fiz nada ou quase nada. O comandante Dário vive me pedindo para ir a Agreste dar uma ajuda mas vou ficando por daqui, aproveitando esta maravilha enquanto posso. Carmosina me acusa de egoísta mas, me diga, frei Timóteo, de que adianta eu me tocar para Agreste, pedir ao povo que assine contra a fábrica, que proteste? A fábrica termina por se instalar da mesma maneira, não depende de mim, nem de Carmô, nem do comandante. Não tenho razão?
— Acho que não, dona Tieta. Permite que a trate assim, não? Dificilmente os protestos do povo de Agreste, sozinhos, poderão impedir a instalação da fábrica, é certo, mas podem ajudar. De qualquer maneira devemos fazer tudo que esteja ao nosso alcance para impedir o crime, sem perguntar se vamos obter sucesso ou não. — Uma breve pausa, antes de acrescentar: — A senhora, quando entrou na lancha, com Jonas e os pescadores, não perguntou se valia a pena.
Pegada de surpresa, Tieta tenta explicar:
— Lembrei meus tempos de menina levada, era doida por uma briga…
— Não estou julgando nem acusando, de que outra maneira poderão eles protestar? Mas a senhora tem muito como ajudar, sem recorrer à violência. O povo de Agreste precisa ser esclarecido, uma palavra da senhora é capaz de convencer os indecisos. Deus nos confiou a guarda desses bens, nossa obrigação é defendê-los. Sem o que, estaremos sendo cúmplices dos criminosos: os índices de poluição dessa indústria são terríveis. Desculpe, dona Tieta, eu falar assim, mas pediu minha opinião…
Na infinita paz da tarde, a voz do frade, branda e fervorosa, o sorriso tímido e aliciador, perturbam Tieta. Não chega a responder — responder, o quê? — devido à aparição de Ricardo. Ao avistar o frade, o seminarista deixou o engenheiro para trás, surge correndo:
— Por aqui, frei Timóteo? Que surpresa!
— Vim me despedir, meu filho, e tive o prazer de conhecer e de conversar com dona Tieta. Regresso amanhã ao convento.
Carregando um samburá com peixe, o engenheiro se incorpora ao grupo:
— Também eu e Marta já estamos de malas arrumadas, temos apenas mais dois dias. Mangue Seco, agora, só para o ano, se para o ano não já estiver tudo podre por aqui. Quando penso nisso, me dá uma revolta…
— Estávamos falando nesse assunto, dona Tieta e eu. Estão planejando um crime, um grande crime.
Ricardo acompanha o frade até a canoa. Frei Timóteo deita-lhe a bênção:
— Pessoa simpática, a sua tia. Sei quanto você a estima, vai sentir sua falta. Quando ela for embora, venha passar uns dias comigo, no convento.
Na cama, à noite, Tieta comenta a visita:
— Será que ele desconfia de nós dois?
— Nunca deu a entender.
— Sabia da história das lanchas, me falou mas não repreendeu. Diabo de frade. Acabou com meu sossego.
— O quê?
— Com essa história que a gente tem obrigação a cumprir. Não quero sair daqui a não ser para a festa e o embarque…
Felipe costumava dizer que para se viver feliz era preciso antes de tudo abolir a consciência. Tu e teus problemas de consciência, ainda vais te dar mal… prevenia ao sabê-la preocupada por causa de uma das meninas do Refúgio. Tieta prende Ricardo contra o peito, tentando esquecer as palavras do frade, não percebe o vislumbre de esperança nos olhos do rapaz.
DO MISTERIOSO CORRESPONDENTE
COMO PUDERA SUCEDER INCONFIDÊNCIA DE TAL
MONTA? MESTRE HÉLIO COLOMBO não falara a ninguém a propósito de desapropriação, a não ser ao moço candidato. Ascânio Trindade, por sua vez, guardara absoluto sigilo acerca da conversa com o advogado. Não obstante, poucos dias depois, A Tarde publicava uma “Correspondência de Agreste”, relatando a estada do ilustre jurisconsulto, na qualidade de patrono da Brastânio. Referia-se à manhã no cartório, debruçado sobre livros e documentos, e ao encontro à tarde, no sobrado da prefeitura, com Ascânio Trindade, quando ordenara ao candidato a prefeito desapropriar a imensa área do coqueiral, para revendê-la, no todo ou em parte, à Companhia Brasileira de Titânio S. A., obtendo imediata aquiescência do obediente funcionário. A desapropriação por motivo de utilidade pública fora a solução encontrada pelo advogado para garantir a seu constituinte a posse da área, diante da intransigência de alguns herdeiros, irredutíveis na disposição de se absterem de qualquer negócio com a controvertida empresa, considerando que os eflúvios poluentes da indústria de titânio poderiam causar irreparável dano à região. O correspondente usara o verbo ordenar e o adjetivo obediente. Os exemplares da gazeta passaram de mão em mão.
Jamais se tirou a limpo quem tivesse sido o misterioso correspondente. Dr. Hélio Colombo, recordando a curta visita a Agreste, a pavorosa travessia de ida e volta, o caminho de mulas, a poeira e a sede, a mesa farta, o sabor e o tamanho dos pitus, a cor doirada e o incomparável paladar da ambrosia, reflete sobre as manhas e espertezas da gente do interior — caipiras, tabaréus. Parecem ingênuos e tolos, uns tabacudos. Vai-se ver, são uns finórios, enrolam os sabichões das metrópoles, na maciota. O mestre rememora a evidente curiosidade do tabelião, as perguntas capciosas durante o almoço. Pensara tê-lo engambelado. Volta a ouvir o ressonar do simpático gorducho, inexpressiva cara de lua cheia, o ar apalermado, semimorto na sala da prefeitura, portador das certidões e da lata de doce de araçá. Pai e filho, que dupla!
DO BRINDE COM LICOR DE VIOLETAS
O QUE AUMENTA A DEPRESSÃO DE DONA CARMOSINA É
O FATO de todos pensarem nela quando tentam identificar o anônimo e informado correspondente, Aminthas vem lhe dar os parabéns:
— Prima, você é a maior. Como descobriu a trama?
Não descobrira nada, não lhe cabe mérito na denúncia, nem sequer soubera da passagem do professor Colombo pela cidade, está completamente por fora da jogada, acabrunhada. Além do abalo causado pela notícia — lá se foi por água abaixo o trunfo conquistado com o nobre gesto de Fidélio —, viu-se posta à margem dos acontecimentos. Antes não se movia uma palha em Agreste sem seu conhecimento. Agora, era tomada de surpresa, um absurdo. Os olhos miúdos de dona Carmosina fazem-se opacos:
— Soube pelo jornal, como você. E dizer que ri na cara de Ascânio… Agora não tem mesmo jeito. Estou desmoralizada.
Murcho, arrasado, junta-se a eles o comandante, larga em cima do balcão as folhas de papel com as assinaturas no memorial de protesto. Quem tem razão é Tieta: memorial e nada, a mesma coisa. O comandante chega do cartório onde conversou com dr. Franklin e obteve confirmação da notícia. Mesmo agindo em representação de herdeiro presuntivo, nada poderá fazer para impedir o ato de desapropriação por motivo de utilidade pública. Qualquer ação na justiça terá de ser posterior, de que adianta? Questão liquidada, a do coqueiral. Um clima de desolação se estende sobre a agência dos Correios. Apenas Aminthas não se deixa abater e, com seu jeito gozador, tenta levantar o ânimo dos amigos:
— O navio ainda não naufragou, comandante! Cadê sua fibra, Carmô? Nunca vi ninguém entregar os pontos tão depressa. Apesar de que eu continuo a pensar que essa tal fábrica não vai se instalar aqui…
— Não vai? Trazem a Agreste um advogado da envergadura de Hélio Colombo, levam Ascânio à capital…
— Pleibói matuto… — diverte-se Aminthas.
— … acertam os pauzinhos com ele, marcam a eleição e você ainda duvida da intenção deles?
— Concedo que existem razões para acreditar. De qualquer maneira, temos de agir como se fosse certo…
Muda repentinamente de assunto à aproximação de bisbilhoteiros vindos do bar e do comércio, interessados na conversa: Agreste anda de orelha em pé e a notícia da próxima desapropriação das terras despertou interesse incomum. Primeiro a chegar, Chalita encosta-se na porta, esgravata os dentes:
— Bom dia, meus fidalgos.
— Bom dia, paxá dos pobres. — Aminthas não se embaraça: — Como estava dizendo, na minha opinião os Beatles ainda não encontraram substitutos… Depois do almoço passo em sua casa, Carmô, levo o disco, vocês vão ver que tenho razão. Até logo, comandante.
Cruza na porta com Edmundo Ribeiro. O coletor pergunta:
— Que me dizem da notícia? Será mesmo verdade? Pelo jeito como as coisas marcham, daqui a dois anos ninguém vai conhecer Agreste.
Em casa de dona Carmosina, enquanto dona Milu serve doce de casca de laranja-da-terra, Aminthas assume pose de orador:
— Respondam-me os nobres correligionários: para poder decretar a desapropriação da área, Ascânio precisa ser eleito, não é?
— A data da eleição já foi marcada.
— Sei disso, leio os jornais e ouço o falatório. Mas, ao que saiba, o nosso pleibói rural ainda não está eleito.
— Pouco falta — constata o comandante.
— Falta pouco ou falta muito, tudo depende.
— Depende de quê? Você duvida por acaso de que ele seja eleito?
A voz do comandante Dário reflete desânimo e impotência, dona Carmosina ouve em silêncio.
— Posso vir a duvidar, por que não? Dependendo das circunstâncias, posso até apostar que ele não será eleito.
— Como não há de ser eleito? Candidato único, candidato do coronel Artur…
— Basta que ele não seja candidato do coronel ou, em último caso, não seja candidato único…
— Você está querendo dizer… — interrompe, interessada, dona Carmosina.
— Que basta surgir outro candidato, capaz de derrotar Ascânio, seja na preferência do coronel, seja nas urnas…
— Estava me dando conta de onde você ia chegar. Mas não vejo jeito. O coronel é padrinho de Ascânio, confia nele, no dia do enterro de Enoch disse que o novo prefeito ia ser Ascânio e todo mundo ficou de acordo. Não vejo por que há de mudar.
— Sei lá… O velho anda biruta, ninguém ainda procurou saber o que o cacique pensa sobre a instalação da fábrica, se é a favor ou contra. Não custa conversar, tentar convencê-lo. Mas se ele mantiver Ascânio, então nós iremos para as urnas.
— Nas urnas, Ascânio é imbatível.
— Imbatível? Talvez tenha sido, Carmô, não é mais. Antes todos viam nele um rapaz trabalhador e honesto, não havia duas opiniões sobre Ascânio e todos o queriam para prefeito. Hoje, justa ou injustamente, para muitos ele se transformou num homem a soldo da Brastânio, de olho no dinheiro de Leonora. Aqui para nós, a meu ver, Ascânio não passa de um bobo alegre. Mas por aí, o menos que dizem dele é que está de cabeça virada. Você não se deu conta, Carmô, que a unanimidade acabou? Começando por nós, que estamos aqui. Antes, éramos todos eleitores de Ascânio, eleitores de cabresto. Hoje, meu voto ele não tem.
— Nem o meu — concorda o comandante.
— Ainda assim não vejo quem possa competir com ele.
— Ficou cega de todo, prima.
— Quem? Me diga!
— O cidadão eminente, preclaro filho de Agreste, oficial de nossa gloriosa armada, comandante Dário de Queluz!
— Eu? Você está maluco? Não sou político e não pretendo ser.
— Exatamente. Os políticos andam muito por baixo, quem manda atualmente no país são os militares, não é? Comandante, assuma seu posto!
— Eu? Jamais!
Aminthas não lhe dá atenção:
— Vai ser dureza mas eu considero que poderemos ganhar, se…
— Se?
— Se a gente contar com o apoio de dona Antonieta. Tendo santa Tieta do Agreste de nosso lado, pedindo votos para o comandante, é barbada.
— Não aceitarei de maneira nenhuma… — recomeça o comandante, erguendo-se para sublinhar sua decisão.
Dona Carmosina volta-se para ele, novamente esfogueada, em pé de guerra:
— Como não aceita? Patriotismo se prova é nessas horas, comandante.
Dona Milu traz cálices, serve licor de violetas. A ocasião impõe um brinde. A velha senhora, em priscas eras, foi eficiente cabo eleitoral:
— Saúde, comandante! Vou começar a propaganda hoje mesmo. Já tenho um mote para a campanha: abaixo a podridão. — Dona Milu saboreia o licor, estala os lábios.
CAPÍTULO DE EVENTOS MEMORÁVEIS
DURANTE OS QUAIS ASCÂNIO
TRINDADE PERDEU A ELOQÜÊNCIA
E A CARAMBOLA — PRIMEIRA PARTE:
O CASO DO DISCURSO
ENTRE A PASSAGEM DO DR. HÉLIO COLOMBO POR
AGRESTE E A PUBLICAÇÃO da notícia em gazeta da capital, por duas vezes Ascânio Trindade esteve a ponto de perder a cabeça — na primeira perdeu o fio do discurso, na segunda, a carambola.
O caso do discurso sucedeu no comício improvisado para saudar a chegada às ruas do burgo dos postes da hidrelétrica. Quando o engenheiro-chefe desceu do jipe e subiu a escada da prefeitura, Ascânio Trindade, na sala de despachos, sozinho, busca digerir recentes e embaraçosas atitudes, tomadas à sua revelia, impostas por terceiros sem que sobre elas lhe houvessem permitido opinar ou discutir. Satisfatórias, entretanto.
Ignorando-lhe os escrúpulos, pisoteando os preconceitos locais, o atraso sertanejo, Leonora o transporta cada noite ao paraíso, ou seja, à bacia de Catarina. Solucionando intrincado problema, o famoso advogado ordenou-lhe desapropriar as terras do coqueiral, apenas assuma o cargo de prefeito. Acatara as duas soluções, ambas o comprazem. Persiste todavia dentro dele um laivo de descontentamento como se, ao concordar com tais iniciativas e delas participar, cometesse ato reprovável. Analisando-as, nelas não encontra nada de sujo ou desonesto. Por que então o medo e a dúvida? Exclusivamente por lhe faltar estofo de líder. Enredado em melindres, em relutâncias e suceptibilidades provincianas, mentalidade estreita, assusta-se e vacila quando a conjuntura exige firmeza e audácia. Mestre Colombo e Leonora representam a mentalidade aberta e avançada das grandes cidades. Surpreendente Leonora, tão frágil e tão disposta, tão discreta e tão atrevida!
A voz do engenheiro interrompe suas matutações:
— Vim lhe convidar para assistir à colocação do primeiro poste na cidade. Gostaria de chamar também a tal ricaça, a que manda no governo. Assim, terei o prazer de conhecê-la.
Empolgado com a notícia, Ascânio salta da cadeira, enfia o paletó.
— Ela está em Mangue Seco, o senhor vai conhecê-la no dia da festa. Já podemos marcar a data?
— Digamos, o primeiro domingo daqui a quinze dias.
Ascânio faz as contas, dezessete dias exatamente. Ao fixar a data para a grande festividade, o engenheiro determina o dia do regresso a São Paulo das Cantarelli, a viúva e a herdeira. Ascânio estremece: o curto tempo tão falado e repetido deixa de ser expressão vaga, transformando-se em prazo fatal. Daí a dezoito dias, na marinete de Jairo, partirá de Agreste a mais bela e pura das mulheres.
Célere, espalha-se a notícia, movimentando a cidade. Nas mãos festeiras de Vavá Muriçoca, o sino da matriz badala alvíssaras. Padre Mariano surge no átrio. Por obra e graça de devota paroquiana, generosa ovelha do rebanho do Senhor, comendadora papalina, meritíssima, foi instalada nova rede elétrica no templo, cuja fachada, recoberta de lâmpadas coloridas, aguarda a luz de Paulo Afonso. Padre Mariano acelera o passo para alcançar Ascânio e o engenheiro-chefe.
Manejando pás e picaretas, operários cavoucam o buraco onde se erguerá o primeiro poste, no antigo Caminho da Lama, futura rua Dona Antonieta Esteves Cantarelli. Dos becos e ruas, desemboca gente. Os últimos céticos rendem-se à evidência: mais duas semanas e Agreste estará consumindo força e luz da hidrelétrica do São Francisco. Energia capaz de mover indústrias, luz forte e brilhante, vinte e quatro horas por dia, não mais a fosca e débil iluminação do motor, limitada a três horas, quando não há pane. A luz de Tieta. O nome da benfeitora passa de boca em boca, em louvor e admiração. Todos sentem orgulho da riqueza e importância, do prestígio e poderio da conterrânea, patrona da cidade e do município, filha pródiga e predileta. A ela, apenas a ela, deve-se aquele milagre — verdade proclamada pelo próprio engenheiro-chefe.
Inacreditável milagre, define ele, de cima do caixão de querosene. Vendo dezenas de cidadãos comprimidos em torno aos engenheiros e aos operários, comentando, prontos para o aplauso, Ascânio manda o moleque Sabino em busca de um caixote; momento tão solene da vida de Agreste não pode transcorrer em branca nuvem. Improvisa tribuna e comício e, para iniciá-lo, convida o engenheiro-chefe, “comandante invicto dessa épica batalha do progresso, a quem manifestamos nossa gratidão”. Falto de dotes oratórios, o engenheiro reduz-se a quatro rápidas frases. Parabeniza o povo da região mas recusa agradecimentos, ele e sua equipe cumpriram apenas ordens da companhia, ordens que de início lhe pareceram absurdas pois a extensão dos fios elétricos a Agreste fora um “autêntico, inacreditável milagre”. Deviam agradecer exclusivamente à poderosa personagem que o proporcionara e a quem não tivera ainda o prazer de conhecer. Ao descer, é apresentado a alguns familiares da poderosa personagem: a irmã Perpétua, o sobrinho Peto, a enteada Leonora, a quem despe com olhos gulosos e competentes. Material de primeiríssima, papa-fina.