Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 2 de 10 · parte 1/3

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Tieta do Agreste

Primeiro episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

MORTE E RESSURREIÇÃO DE TIETA

OU

A FILHA PRÓDIGA

 

CONTENDO INTRODUÇÃO E PALPITES

DO AUTOR, INESQUECÍVEIS DIÁLOGOS,

FINOS DETALHES PSICOLÓGICOS,

PINCELADAS DE PAISAGENS, SEGREDOS,

ADIVINHAS, ALÉM DA APRESENTAÇÃO DE

ALGUMAS FIGURAS QUE DESEMPENHARÃO

DESTACADO PAPEL NOS ACONTECIMENTOS

PASSADOS E FUTUROS NARRADOS

NESTE APAIXONANTE FOLHETIM —

EM CADA PÁGINA A DÚVIDA, O MISTÉRIO,

A VIL TRAIÇÃO, O SUBLIME

DEVOTAMENTO, O ÓDIO E O AMOR

 

OceanofPDF.com

EXÓRDIO OU INTRODUÇÃO ONDE O

AUTOR, UM FINÓRIO, TENTA EXIMIR-SE DE TODA E QUALQUER RESPONSABILIDADE E TERMINA POR LANÇAR IMPRUDENTE

DESAFIO À ARGÚCIA DO LEITOR COM

SIBILINA PERGUNTA

 

COMEÇO POR AVISAR: NÃO ASSUMO QUALQUER

RESPONSABILIDADE PELA EXATIDÃO dos fatos, não ponho a mão no fogo, só um louco o faria. Não apenas por serem decorridos mais de dez anos mas sobretudo porque verdade cada um possui a sua, razão também, e no caso em apreço não enxergo perspectiva de meio-termo, de acordo entre as partes.

Enredo incoerente, confuso episódio, pleno de contradições e absurdos, conseguiu atravessar a distância a mediar entre a esquecida cidadezinha fronteiriça e a capital — os duzentos e setenta quilômetros de buracos no asfalto de segunda e os quarenta e oito de lama de primeira ou de poeira de primeiríssima, pó vermelho que se incrusta na pele e resiste aos sabonetes finos — indo ressoar na imprensa metropolitana.

Noticiário de começo entre galhofeiro e sensacionalista, logo após patriótico e discreto pois muito bem pago, dissolvendo-se rápido em anúncios, alguns de página inteira.

Certo semanário de tradições duvidosas — adjetivo mal-empregado: por que duvidosas? — meteu-se a valente em editorial de primeira página, com vermelha manchete agressiva, ameaçou enviar repórter e fotógrafo àqueles confins para esclarecer a gravíssima denúncia, o monstruoso conluio, o perigo estarrecedor, etc. e tal. Arrogância e indignação duraram apenas um número, a valentia o probo diretor a enfiou no rabo e esqueceu o escaldante tema. Ainda jovem mas já veterano nas lides da imprensa, arrotando em surdina ideologia radical e princípios explosivos, visando porém fins benéficos, Leonel Vieira afogou protesto e ameaças em uísque escocês, na grata companhia do dr. Mirko Stefano e de algumas apetitosas moças, todas elas relações-públicas de muita animação e pouca vestimenta. Pouca, em termos: duas entre as mais bem modeladas exibiam longas túnicas transparentes e por baixo nada ou quase nada, túnicas essas, na opinião de entendidos, mais excitantes que os curtos shorts ou os sumários biquínis. Amável tema de debate entre o doutor e o jornalista, única divergência a separá-los, no bar, à borda da piscina. No mais, acordo total. Quanto a mim, se me permitem opinar, prefiro os longos transparentes lambidos por uma réstia de luz, revelando volumes e sombras, ai! Mas que importa minha opinião?

A minha, a vossa, outra qualquer ante os potentes argumentos do dr. Stefano, argumentos em divisas, afirmam, se bem não haja absoluta certeza sobre a moeda original, dólares ou marcos ocidentais, as duas talvez. Tão irresistível dialética do simpático testa-de-ferro, levou o trêfego cronista social Dorian Gray Junior a proclamá-lo Mirkus, o Magnífico Doutor, em desbunde de adulação. Simples testa-de-ferro de ignotos patrões, conforme insinuou o semanário naquele exclusivo e atrevido editorial — atrevido, exclusivo e muito bem capitalizado; sendo, além do mais, uma garantia à esquerda pois que outro órgão da imprensa falada ou escrita ousou interpelar e ameaçar? Posição clara e definida, prova a ser exibida, se necessário; ninguém sabe o que pode acontecer no dia de amanhã, recente, aí está, o exemplo de Portugal, quem poderia prever? Ao demais, não hão de ser um simples cheque, por mais polpudo, garrafas de escocês e o ventre em flor das permissivas relações-públicas que abalarão as convicções ideológicas, os sólidos princípios do intemerato e dúctil jornalista: Leonel Vieira possui fibra e caráter capazes de digerir cheques, licores e beldades, conservando imutáveis princípios e ideologia. Embolsa o cheque, escorna no uísque, baba cangotes e xibius, manera o jornal e ao mesmo tempo proclama — baixinho — os princípios, radicalíssimo. Um porreta.

Quanto aos grandes patrões, esses não se mostram em bares, não brindam com jornalistas de cavação e preferem as formosas nuinhas de todo, no conforto e no recato, longe de qualquer exibição pública. Ai, quem me dera a honra, a glória suprema de que pelo menos um deles venha a aparecer nas mal alinhadas páginas deste relato; seria o máximo para o modesto escriba contar com tamanha personagem. Realista, os pés na terra, não espero aconteça esse milagre; onde forças capazes de arrastar um lorde estrangeiro àquele cu-de-mundo, através de lama e poeira? Caso tudo dê certo, aprovado o projeto, instalado o complexo industrial, quando o progresso chegar com asfalto sólido, estradas de mão única, motéis, piscinas, moças de túnicas transparentes, polícia de segurança, aí sim, talvez tenhamos o privilégio de enxergar, com nossos olhos que a terra há de comer, um desses grandes do mundo, envolto em ouro.

De qualquer maneira, vou em frente, mesmo sabendo que alguns detalhes dificilmente merecerão crédito de parte das pessoas sensatas, pespegá-los exige martelo russo e prego caibral, para usar expressão da velha Milu repetida cada vez que o bardo Barbozinha termina de narrar sobre o além e o passado ou, indômito, penetra futuro adentro, a voz eloqüente e empostada — empostada por uma embolia que o acometera anos atrás e por pouco não o desencarna. Não deu para tanto, suficiente porém para aposentá-lo do quadro de funcionários da prefeitura da capital, onde exerceu, com relativa capacidade e certo desleixo, funções de escriturário, e trazê-lo de volta às ruas poucas e pacatas de Santana do Agreste, cujos limites culturais, com tal retorno, logo de muito se ampliaram pois Barbozinha — Gregório Eustáquio de Matos Barbosa — é autor de três livros, publicados na Bahia, dois de poesia e um de máximas filosóficas.

De tudo isso se dará notícia no decorrer da ação. Aqui venho apenas livrar a cara, declinar de qualquer responsabilidade. Relato os fatos conforme me foram narrados, por uns e por outros. Se de quando em quando meto minha colher e situo opiniões e dúvidas, é que também não sou de ferro nem me pretendo indiferente às “agitações sociais, vendavais do século a convulsionar o mundo” (De Matos Barbosa, in Máximas e mínimas da filosofia — Dmeval Chaves Editor — Bahia, 1950). Sou apenas prudente, o que nos tempos de agora não é virtude nem mérito e sim necessidade vital.

De uma coisa desejaria realmente ter certeza no momento em que colocar o ponto final nas páginas deste folhetim, e para isso conto com a ajuda dos senhores, lanço-lhes um desafio: respondam-me quais os heróis da história, quem lutou pelo bem da terra e do povo. Em nome da terra e do povo todos falam, cada qual mais ardente e gratuito defensor. A gente vai ver descobre dinheiro pelo meio, no bolso dos sabidos, povo e terra que se danem.

Nesta embrulhada, cujos nós começo a desatar, quem merece nome em placa de rua, avenida ou praça, artigos laudatórios, homenagens, comendas, cidadania, ser proclamado herói? — digam-me os senhores. Aqueles que propugnam pelo progresso a todo custo — pague-se o preço sem reclamar, seja qual for — a exemplo de Ascânio Trindade? Se pagasse com a vida, teria pago menos caro. Se não forem eles, que outros? Não há de ser a Barbozinha ou a dona Carmosina, a Dário, comandante sem tropa a comandar, que se confira tais honrarias, muito menos a Tieta, melhor dito, à madame. As palavras também valem dinheiro, herói é vocábulo nobre, de muita consideração.

Agradecerei a quem me elucidar quando juntos chegarmos ao fim, à moral da história. Se moral houver, do que duvido.

 

CERIMONIOSO CAPÍTULO ONDE SE TRAVA CONHECIMENTO COM AS TRÊS IRMÃS, A POBRE, A REMEDIADA E A RICA;

ESTANDO A ÚLTIMA AUSENTE — QUEM SABE PARA TODO O SEMPRE; ONDE SE

CONHECE DA CARTA MENSAL E DO

CHEQUE IDEM, ANSIOSAMENTE

AGUARDADOS, SOBRETUDO O CHEQUE, COMO É NATURAL, E TAMBÉM DE

PEQUENAS MISÉRIAS E MÍNIMA

ESPERANÇA, NA HORA DO MORMAÇO;

ONDE EM RESUMO SE COLOCA

INQUIETANTE PERGUNTA: TIETA ESTÁ

VIVA OU MORTA? SINGRA OS MARES EM CRUZEIRO DE TURISMO OU JAZ EM

CEMITÉRIO PAULISTA?

 

EMPERTIGADA NA CADEIRA, AS MÃOS CRUZADAS SOBRE

O PEITO MAGRO, toda em negro dos sapatos ao xale, coberta assim de luto fechado desde a morte do marido, Perpétua baixa a voz, lança a fúnebre hipótese:

— E se sucedeu alguma coisa com ela? — Adianta a cabeça para onde está a irmã, sussurra: — E se ela bateu a caçoleta? — Mesmo sussurrada, a voz, sibilante e ríspida, é desagradável: — E se ela morreu?

Elisa estremece, solta o pano de prato, derrotada pelo mau presságio. Há dois dias e duas noites longas tenta arrancar da cabeça esse maldito pressentimento a persegui-la, a roubar-lhe o sono, a deixá-la com os nervos em ponta.

— Ai, Senhor meu Deus!

Perpétua descruza as mãos, alisa a saia de gorgorão bem passada, ratifica com um movimento de cabeça; não fez uma pergunta e sim uma afirmação. De comprovação fácil, aliás:

— Estamos a 28, praticamente no fim do mês. A carta sempre chega por volta de 5, nunca passa de 10. Para mim, ela bateu a caçoleta.

Mesmo no desalinho da manhã de ocupações domésticas, o rosto de Elisa é bonito: morena de tez pálida, olhos melancólicos, lábios carnudos. Sob o desleixo do vestido velho e amarfanhado, chinelas gastas, ergue-se o corpo esbelto, de ancas altas e seios rijos. Um lampejo de curiosidade brota nos olhos assustados. Elisa busca na face da irmã outro sentimento além da preocupação pelo dinheiro. Não encontra: a proclamada morte de Tieta não aflige Perpétua, teme somente pela sorte do cheque. A cessação da remessa mensal assusta igualmente Elisa: não só perderiam a ajuda indispensável como teriam de sustentar o pai e a mãe, onde arranjar o necessário? Um horror, Deus não permita!

Um horror, sem dúvida, porém havia mais e pior. Ao calafrio de medo sucede a tristeza, um aperto no coração. Se ela morreu, então tudo se acabou para sempre, não somente o cheque, também a tênue esperança; sobrará apenas o vazio. Essa irmã Antonieta — meia-irmã, aliás, pois Elisa nascera do segundo e inesperado casamento do velho Zé Esteves — de quem não conserva lembrança, a respeito de quem sabe tão pouco, é a razão de ser de Elisa.

Nos últimos anos, sobretudo após o casamento, começara a idealizar a figura da ausente, espécie de gênio bom, heroína de conto da carochinha, imagem fugidia, quase irreal, a se fazer concreta no auxílio mensal, nos esporádicos presentes. Reunindo frases ouvidas, narrativas de antigos enredos, comentários do pai e da mãe; a letra larga e redonda nas pequenas cartas — parcas em palavras e notícias, reduzidas às mesmas perguntas pela saúde dos velhos, das irmãs, dos sobrinhos, mas não secas e frias, contendo, além do cheque, abraços e beijos —, o perfume ainda a evolar-se do envelope após tantos dias de correio; os embrulhos de roupa usada, pouco usada, quase nova; o título de comendador ostentado pelo marido; a fotografia na revista, Elisa construíra pouco a pouco imaginário retrato da irmã, fada alegre, bela e bondosa, habitando um mundo rico e feliz. Nessa visão pensa e nela se apóia quando sonha com outra vida, mais além da pasmaceira e do cansaço. Morta Antonieta, que restará a Elisa? As revistas de fotonovelas, nada mais. Nem isso, meu Deus! Onde os níqueis, sobrados das despesas, com que comprá-las?

Tristeza por tudo quanto perderá, o dinheiro mensal, os presentes, o devaneio, o sonho, mas também tristeza simplesmente pela morte da irmã; gostará de alguém tanto quanto gosta dessa meia-irmã que não conhece? Reage, na necessidade de conservar pelo menos a esperança: Perpétua imagina sempre o pior, boca de agouro.

— Se ela tivesse morrido, a gente já tinha sabido, alguém havia de dar a notícia. Em casa dela tem nosso endereço, todo mês ela escreve, não é? Haviam de avisar… — há dois dias, na labuta da casa, na cama de insônia, repete esses argumentos para si mesma.

— Avisar? Quem? Só se o marido dela e a família dele forem malucos.

— Malucos? Não vejo por quê.

Perpétua estuda a irmã em silêncio, a se perguntar se deve ou não contar, decide-se por fim, de qualquer maneira ela terá de saber:

— Porque, com a morte dela, a gente tem direito a uma parte da herança. Nós três: o velho, eu e você.

Elisa volta a enxugar os pratos, de onde Perpétua tirara aquela idéia de herança? Cada bobagem!

— Quem vai herdar é o marido dela, o comendador. Por que a gente havia de herdar? Pro pai, pode ser que ela deixe alguma coisa, tem sido boa filha, boa até demais. Mas, pra nós duas, por quê? Quando ela saiu de casa, eu tinha menos de um ano. E tu, não foi por tua culpa que ela foi embora?

— Ela foi embora porque quis. Não me cabe culpa.

— Não foi tu que xeretou ao pai? Abriu o bico, ele quebrou a pobre no pau, tocou ela rua afora, não foi? Mãe me contou como se deu e pai confirmou, disse que tu foi a culpada.

— Dizem isso agora, para adular. Depois que ela começou a mandar dinheiro, virou santa. Por que tua mãe não tomou as dores na ocasião? Quem foi que deu a surra, quem botou ela pra fora de casa? Eu ou o velho?

Elisa estende sobre a mesa a toalha manchada de azeite, de feijão, de café — Astério tem mão podre, não sabe se servir sem derramar caldos e molhos, o infeliz. Encolhe os ombros, não responde à pergunta de Perpétua, o pai e a irmã que decidam entre eles de quem a culpa; dela, Elisa, é que não foi, não completara um ano de idade quando denúncia, expulsão e fuga aconteceram.

Perpétua semicerra os olhos gázeos, por que Elisa se empenha em recordar o passado? A própria Antonieta não esquecera, há muito, agravos e injustiças? Não envia dinheiro, presentes? Não ajuda nas despesas? Ademais, há males que vêm para bem, não é mesmo? Se ela não tivesse sido posta no olho da rua, em vez de partir para o sul e triunfar em São Paulo, bem casada, cheia de dinheiro, feliz da vida, teria ficado ali, naquele buraco, vegetando na pobreza, sem direito a noivado e casamento pois a história com o caixeiro-viajante logo se tornara de domínio público. Sem direito a nada, mera criada do pai e da madrasta.

— Se ela não lembra essas coisas por que tu há de lembrar?

— Não fiz por mal, só para mostrar que ela não tem motivo pra querer deixar herança pra nós duas.

— Não depende dela querer ou não querer… — Perpétua descerra os olhos, compõe a saia, retira invisível cisco da blusa: — Quando ela morrer, metade da fortuna fica para o marido e, como ela não tem filhos, a outra metade é dividida entre os parentes, os parentes próximos, o velho e nós, o pai e as irmãs.

— Como é que tu sabe?

— Doutor Almiro me disse…

— O promotor? E tu foi falar isso com ele?

— Propriamente falar, não falei. Ele estava conversando com padre Mariano, eu e outras zeladoras de junto, ouvindo. Estavam falando da herança de seu Lito, que deixou o dinheiro todo para o padre dizer missa pela salvação da alma dele na igreja da Senhora Sant’Ana. Pois já vai para mais de seis meses que ele morreu e até agora o padre não viu a cor do dinheiro. Está depositado na mão do juiz, em Esplanada, porque os parentes botaram questão, com advogado e tudo. Doutor Almiro disse que, pela lei, metade é deles. Daí eu fui perguntando, como quem não quer nada…

— Tu quer dizer que quando uma pessoa morre, metade do que ela tem fica pros parentes?

— É isso mesmo… — Perpétua busca no bolso da saia um lenço para enxugar o suor fino na testa, com o lenço aparece um terço de contas negras.

— Quer dizer que, se tu morrer, metade do que é teu fica pra mim e pro pai…

— Tu não presta atenção no que se fala. Só quando o falecido não tem filhos; é o caso dela, mas não o meu. O que eu deixar quando morrer vai ser repartido entre Ricardo e Peto, meus filhos, meus únicos herdeiros. Já foi assim quando o major morreu — faz o sinal-da-cruz, eleva os olhos murmurando Deus o tenha em sua glória —, a herança foi dividida, metade para mim, metade para os meninos. O doutor Almiro…

— Tu perguntou isso também?

— Sempre vale a pena saber.

— Tu pensa que ela morreu e que o marido não diz nada para ficar com tudo?

— E não pode ser? Por que ela nunca deu o endereço para nós? Mandou a gente escrever para a caixa postal, onde já se viu? Proibição do marido, para a gente não saber. Você sabe o sobrenome dele? Nem eu. É comendador pra cá, comendador pra lá, e acabou-se, nada de sobrenome. Por quê? Tu não atina nessas coisas mas eu tenho pensado muito nisso e tirei minhas conclusões.

Também Elisa havia atentado naquelas esquisitices. Em sua opinião, porém, outro era o significado da falta de endereço, de sobrenome, da ausência de maiores detalhes sobre vida e família: Antonieta perdoara os agravos, não guardara mágoa, mas não esquecera o passado, não queria maior aproximação com os parentes, gente mesquinha do interior, não desejava misturá-los a seu mundo maravilhoso. Ajudava pai e irmãs como cumpre às filhas quando em boa situação. Obrigação cumprida, a consciência em paz, ponto final: reserva e distância. Se querem saber, faz ela muito bem! Era isso e nada mais, não passando o resto de invenção de Perpétua, a cachola sempre a pensar malfeitos e desgraças. Se Antonieta decidisse deixar alguma coisa para o pai e as irmãs, após a morte, tomaria as medidas necessárias com antecedência, estaria tudo disposto e estabelecido.

— Não acredito, não. Se ela tivesse morrido, a gente havia de saber.

Termina de botar a mesa, fica parada, o olhar perdido:

— Está é viajando, gozando a vida. Toda vez que sai a passeio, a carta atrasa. Atrasa mas chega. Lembra quando foi a Buenos Aires e mandou aquele cartão tão bonito? Vida é a dela: viagens, passeios, festas. Tieta é muito boa de pensar na gente no meio de tanta animação. Se fosse comigo que tivesse acontecido, nunca mais, nunca mais mesmo, eu havia de dar notícias.

Volta a vista para Perpétua, agora a passar as contas do terço:

— Vou dizer uma coisa, acredite se quiser. Mesmo se fosse para herdar o dinheiro todinho, sem ter que dividir com ninguém, nem assim eu desejo a morte dela.

— E quem deseja? — Perpétua suspende a reza, a conta negra entre os dedos: — Mas, se não chegar mais cartas, então é sinal que Antonieta morreu. Aí eu vou mover mundos e fundos até descobrir o marido dela e tomar minha parte.

— Tu acaba lesa de pensar tanta maluquice. Ela está é passeando, se divertindo. Por que agourar criatura tão direita? A carta não passa de amanhã.

— Tomara mesmo. Fui em casa do velho, ele está nos azeites. Sabe o que me perguntou? Se Astério não tinha metido a mão no dinheiro e pago alguma dívida, como fez daquela vez que usou o cheque para resgatar a letra vencida. O velho pensa que a gente vive roubando ele. — Volta a dedilhar o terço, os lábios sem pintura movem-se em silêncio.

Com Perpétua é assim, taco a taco: Elisa fizera referência à intriga que resultara na partida de Antonieta, Perpétua, na volta da conversa, deu o troco, desentocou o malsinado assunto da duplicata, velho de cinco anos. A voz cansada, Elisa revida sem veemência:

— Tu sabe que, se ele não pagasse a letra, a loja ia à falência. Tu sabe, o pai sabe…

Não cresce o tom de voz, monótono:

— Mas que a gente vive roubando, ah!, isso vive, não adianta tu ficar aí sentada de terço na mão, mastigando padre-nosso com esse ar de santa.

— Nunca toquei num tostão do velho…

— Nem ele ia deixar. É dela que a gente rouba. Para que ela manda o cheque todo mês?

— Para as despesas do velho.

— E para que mais?

— Para ajudar na educação dos sobrinhos.

— Isso mesmo. Para ajudar na educação dos filhos da gente. O meu não chegou a completar dois anos e eu nunca mais peguei menino. Nunca mais, Deus não quis…

Os olhos vão da sala de jantar para o quarto de dormir, pela porta aberta vê a cama de casal ainda por arrumar. Deus não quis? Nem pra isso Astério serve… A voz neutra, prossegue:

— E tu? Será que tu mandou dizer a Tieta que Peto está no grupo escolar, não paga nem um vintém? Que padre Mariano arranjou com o bispo o seminário de graça para Cardo? Eu sei o que tu mandou dizer: o preço da escola de dona Carlota, a mensalidade do seminário. Isso, sim, tu mandou dizer, pro resto boca trancada. Por que tu puxa de novo essa história de letra que Astério resgatou, se cada um de nós tem seus podres?

— Foi o velho que falou, só repeti o que ele disse.

— Um dia eu ainda tomo coragem, escrevo a ela contando a verdade: que não tenho mais filho nenhum, o que tinha a doença levou mas que a gente precisa tanto do dinheiro que ela manda, mas tanto a ponto de me ter faltado forças para comunicar a morte de Toninho. Era capaz dela ficar com pena e mandar até mais do que manda. Só que não tenho coragem de arriscar… Por que a gente é assim, Perpétua? Por que a gente não presta? É por isso que ela não quer aproximação, não manda endereço, ajuda de longe.

A voz se faz pesada, áspera, quase desagradável como a de Perpétua:

— E ela age muito bem porque, se eu tivesse o endereço…

Os olhos fitam o vazio:

— Ah!, se eu soubesse o endereço já tinha arribado pra lá!

Perpétua chega ao fim do terço, beija a pequena cruz:

— Tem horas que tu nem parece mulher-feita e casada, fala o que não deve. O que tu precisa é ir ajudar na igreja em vez de ficar em casa lendo revista e ouvindo rádio, gastando o tempo com essas porcarias.

Elisa deixa cair os braços, a voz novamente neutra:

— Amanhã, logo que a marinete chegue, passo no correio. Vem amanhã, tu vai ver.

— Deus te ouça. Com a desculpa da doença, Lula Pedreiro há três meses não paga aluguel. Agora mandou a chave, foi morar com o filho, deixou a casa imunda, um chiqueiro. Para alugar, vou ter que dar pelo menos uma demão de cal.

— Tu te queixa sem razão. Mora em casa própria e ainda tem mais duas para alugar, fora a pensão do falecido. A gente, se não fosse pelo dinheiro que ela manda pro anjinho, nem numa sessão de cinema podia ir.

— Amanhã, me avise logo se chegou ou não. Se não chegar, vou tomar minhas providências.

— Por que não fica para almoçar? O que dá pra dois, dá pra três.

— Eu? Comer carne em dia de sexta-feira? Tu bem sabe que é pecado. É por isso que vocês não vão para a frente. Não cumprem a lei de Deus.

Ergue-se da cadeira, guarda o terço no bolso da saia. Toda em negro, a blusa de mangas compridas, sem decote, fechada no pescoço, o coque alto coberto pela mantilha, o rosto severo, virtuosa e devota viúva. Benze-se ao ouvir o sino da matriz nas badaladas do meio-dia, encaminha-se para a porta. Na rua deserta, ressoam os passos de Astério. O mormaço sobe do chão, desce do céu. Elisa suspira, dirige-se para a cozinha.

 

DE ELISA, LINDA DE MORRER,

DIANTE DO ESPELHO, E DO MARIDO

ASTÉRIO, BOM DE TACO —

CAPÍTULO ONDE NADA ACONTECE

 

QUANDO NO DIA SEGUINTE A MARINETE DE JAIRO

BUZINOU NA CURVA PRÓXIMA à entrada da cidade, Elisa, sentada à mesa antiga, quem sabe de valor, a servir de penteadeira, terminara de passar batom nos lábios e sorriu para a imagem refletida no espelho barato pendurado na parede. Achou-se bonita. A negra, bravia cabeleira, agora cuidada, solta sobre os ombros, emoldura-lhe a face pálida, o langor dos olhos, a boca de lábios gulosos, acentuados pelo batom. “Linda de morrer”, como diz, ao referir-se a estrelas de rádio, tevê e cinema, o admirado locutor Mozart Cooper — pronuncia-se Cu…u…per —, “voz de veludo nas ondas hertzianas a embalar os corações solitários.” Coração solitário, linda de morrer.

Durante alguns minutos esqueceu-se de tudo quanto a afligia e ensaiou poses e trejeitos, imitados das cenas das fotonovelas: um muxoxo com os lábios, olhar apaixonado, sorriso tentador, desmaio de paixão, a boca se abrindo para o beijo, a ponta da língua a surgir entre os lábios, vermelha e úmida. Beijar a quem? Num gesto cansado, encolheu os ombros, os olhos cobriram-se de sombra. Volta a pensar na carta, busca tranqüilizar-se: está chegando na mala do correio, trazida pela marinete, de hoje não passa. E se não chegar?

Na véspera, na mesa do almoço, Astério, comilão e apressado, a boca cheia, mastigando feijão e palavras, repetira pergunta e lamúria:

— Por que tanta demora? Logo em novembro, mês de pouca venda, quase nenhuma. Que diabo pode ter acontecido?

Elisa trancara os lábios, se lançasse a suspeita a lhe queimar o peito o marido entraria em pânico. Esmorecido de natureza, incapaz de esforço e luta, o dia inteiro encostado ao balcão da loja à espera da minguada freguesia, animando-se apenas quando um dos parceiros do bilhar — Seixas, Osnar, Aminthas ou Fidélio — aparece para comentar apostas e jogadas; se Ascânio Trindade treinasse, Astério teria adversário pela frente. Osnar, desocupado, faz ponto na loja, o cigarro de palha pendurado no lábio. Infalível aos sábados, quando o movimento cresce por causa da feira. Após vender a farinha, a carne-de-sol, o feijão, as frutas, o cultivo das roças e o barro cozido em pequenos fornos rudimentares — moringas e quartinhas, cavalos e bois, jagunços e soldados, o padre-cura e os noivos de mãos dadas, potes e panelas —, os sitiantes e roceiros enchem a loja a comprar fazendas, sapatos, calças e camisas, quinquilharias, vez por outra um rádio de pilha. Na moita, equilibrado numa velha cadeira, Osnar espreita as caboclas novas, puxando conversa quando lhe parece valer a pena. Nos sábados, o moleque Sabino ganha cinco cruzeiros para ajudar, atendendo a maioria dos rudes fregueses — cinco cruzeiros e o que rouba no troco.

Se Elisa contasse a conversa com Perpétua, Astério era capaz de ter um daqueles vexames repetidos a cada aperto maior de dinheiro, a cada problema com os fornecedores; suores frios, fraqueza nas pernas, tontura, vômitos. Recolhe-se à cama, batendo o queixo, tiritando, a loja entregue a Sabino. Só Osnar consegue levantá-lo, arrastando-o para o bilhar, no Bar dos Açores, de seu Manuel Português.

No bilhar transforma-se, vira outro homem. Ri e graceja, arrota valentia, aposta sem medo, manda desafiar Ascânio, certo da vitória. Bom no taco. No taco do bilhar, somente no bilhar taco de ouro, surpreende-se Elisa a resmungar. Censuráveis resmungos, pensamentos ruins, surgiam assim de repente, perseguiam-na os malditos, cruz-credo.

A face pensativa no espelho. Linda de morrer, ali perdida, a envelhecer naquelas ruas paradas, à espera da carta e do cheque. Não fossem o rádio de pilha e as revistas, que seria de Elisa?

Se revelasse a Astério o tema debatido com Perpétua, a probabilidade — para a irmã, a certeza — da morte de Tieta, ele vomitaria o feijão, o arroz, a carne, os pedaços de manga, ali mesmo em cima da mesa do almoço. Tirante o bilhar, um molengas, sem ânimo, sem ambição, sem conversa, sem alegria. As raras prosas, as poucas risadas provinham ainda do bar, picantes histórias dos parceiros, de Seixas e Aminthas, raramente Fidélio, reservado de natureza e por cálculo, quase sempre Osnar, abastado, obsceno e mulherengo. As histórias de Osnar, entre as quais figura o notável caso da polaca, são de morrer de rir, em geral têm a ver com o descalibrado tamanho de seus órgãos sexuais. Estrovenga de jumento, afirma Astério, distanciando as mãos para indicar a medida espantosa: daqui para maior.

O cansado motor da eletricidade deixa de trabalhar às nove da noite, marcando a hora de dormir, confirmada pelas badaladas do sino da matriz. Astério conclui a partida, encosta o taco, recolhe ou paga as apostas, toma o caminho de casa. Vez por outra, se Elisa ainda não pegou no sono, Astério, ao despir-se, repete a mesma frase, prólogo do caso a narrar: “Acontece cada uma!”.

Osnar ou Aminthas, Seixas ou Fidélio, fosse qualquer dos quatro o personagem, fosse outra figura da cidade, o enredo era quase sempre escabroso, envolvendo mulher e cama — cama ou mato, na beira do rio. Elisa ouve em silêncio, tensa, atrevendo-se de raro em raro a pedir detalhes, tão necessários no entanto à construção do imaginado mundo em que se trancara para subsistir, onde cada elemento importava; a grandeza de Antonieta, o postal de Buenos Aires, o perfume no envelope, as tramas de Seixas, os segredos de Fidélio, as patifarias de Aminthas, a anatomia de Osnar. Durante o dia, o rádio ligado sem parar, Elisa passa e remenda roupa, lava pratos, cozinha, lê e relê revistas, visita dona Carmosina no correio, suporta, após o jantar, a lengalenga da vizinha, dona Lupicínia, cujo marido se mandara há mais de um lustro para as bandas do sul da Bahia e não tinha previsão de regresso; vai ver não volta nunca.

Linda de morrer, só mesmo para morrer, para que outra coisa, qual? A boca ante o espelho abre-se ávida para o beijo. Que beijo? Elisa levanta-se, ai quem lhe dera possuir espelho onde pudesse se ver de corpo inteiro! Linda de morrer, no fino da moda.

Afinal, pergunta-se a encolher os ombros novamente, por que gasta esse tempão em pintar-se, em ajeitar a negra cabeleira, em fazer-se tão elegante no vestido restaurado, presente de Tieta como todos que possui, cada qual de melhor fazenda e de padrão mais moderno — usados mas pouco, quase novos. Para que tanto apuro, tanto cuidado com a maquiagem, para que o decote a mostrar os ombros, o nascer dos seios?

Para atravessar as ruas desertas, de raros passantes, perceber o peso do olhar do árabe Chalita, a bigodaça de sultão, a barba por fazer, eterno palito entre os dentes, dono do Cinema Tupy e da sorveteria, velho e descuidado, ou sentir sem ver a mirada matreira do moleque Sabino fixa nos meneios das ancas da inacessível mulher do patrão, ouvir o assovio do pestilento Bafo de Bode, mendigo e bêbado? Tão podre e miserável, pode-se dar a todos os atrevimentos sem temer represálias. Esses três infelizes e acabou-se. Além disso, um boa-tarde, dona; um chapéu levantado em muda saudação; a bênção do vigário e a incontida inveja das mulheres: “Até parece que se vestiu para um baile, querida”.

Discreta e comedida, esposa honesta e virtuosa, ao passar Elisa recolhe no decote o cúpido olhar do levantino: ao vê-la certamente recorda tempos de antanho e corpos de mulheres; a cobiça do moleque acentua-lhe o requebro da bunda, assim de noite Sabino sonhará com ela. Não despreza sequer o assovio fétido do esmoler. Quanto à inveja das mulheres, tem igualmente merecimento e sabor. Modesta, Elisa responde: “Vestido mandado por minha irmã Tieta, é dela o gosto e a elegância, hei de botar fora?”. Louvam então em coro a ausente Antonieta, irmã generosa, filha exemplar, a infalível ajuda mensal, os presentes régios — régios, sim senhora, cada vestido desses vale um dinheirão!

Elisa recomenda à pequena Araci atenção na casa, fecha a porta da rua, dirige-se para o correio. Atravessará a feira, passará pelo árabe, pelo moleque, pelo maluco, pelas comadres no adro da igreja. O rosto sério, como cumpre a uma senhora casada, bem casada. O coração apertado, lá dentro a certeza de que a carta não chegou.

 

BREVE EXPLICAÇÃO DO AUTOR

PARA USO DAQUELES QUE

CATAM PULGAS EM ELEFANTE

APENAS INICIO O RELATO E JÁ RECEBO CRÍTICAS. AMIGO

ÍNTIMO, colega de trabalho e de letras, cultivando-as como eu ainda em amargo anonimato, Fúlvio d’Alambert (José Simplício da Silva, na vida civil) tem a primazia da leitura dos meus originais que, em geral, me devolve entre elogios, agradáveis de ouvir, e uma ou outra correção ortográfica ou gramatical — vírgulas e pontos, tempos de verbo. Desta vez, porém, atreveu-se mais longe e eu retruco de imediato, enquanto Elisa marcha em direção ao correio.

Fúlvio considera um absurdo o uso da palavra marinete, por ultrapassada, para designar veículo automotor para transporte de passageiros. Ônibus, autobus, pullman seriam termos modernos, corretos, próprios para a época desenvolvimentista em que nos cabe o privilégio de viver. Acusa-me de subdesenvolvido e argumenta. Quando rasgamos novas rodovias comparáveis às melhores do estrangeiro; quando são implantadas indústrias a granel; quando, atendendo às clarinadas do progresso, desperta um novo nordeste redimido das secas, das epidemias, daquela fome centenária, e — não esqueçamos — do analfabetismo rapidamente erradicado; quando a imprensa, o rádio, a televisão uniformizam costumes, moral, modas e linguagem, varrendo como lixo os hábitos regionais, as expressões, os folguedos, quando os monumentais arranha-céus unificam a paisagem citadina, erguendo-se de sob os escombros da história e de casarios de pretenso valor artístico; quando nossa música popular se baseia por fim em melodias e temas universais, sobretudo ianques, abandonando ritmos de um desprezível folclore nacional; quando o misticismo hindu (e adjacentes) ilumina a alma dos jovens na fumaça da maconha alagoana; quando avançados ideólogos se esforçam para liquidar os princípios da mestiçagem e implantar o racismo entre nós, o branco, o negro e o amarelo, para que nada fiquemos a dever às nações realmente civilizadas e a violência marque nossa face, lavando-a da antiga cordialidade brasileira, sinal de atraso; quando a arte consciente de seu papel desconhece a terra e o homem e faz-se concreta, abstrata, objeto, igualzinha sem tirar nem pôr à européia, à norte-americana, à japonesa; quando criamos uma linguagem nova para a escrita dos literatos, esotérica mas extremamente revolucionária na forma e no conteúdo, tanto mais atuante quanto mais ininteligível; quando, na base da censura e da porrada, criamos a democracia, a verdadeira, não aquela antiga a conduzir o país ao abismo; quando entramos milagrosamente na época da prosperidade ao ritmo das nações ricas, produtoras de petróleo, de trigo, da bomba atômica e dos satélites, do uísque e das histórias em quadrinhos, ápice da literatura; quando passamos a ocupar nosso posto entre as grandes potências e, em fábricas aqui instaladas, produzimos veículos nacionais — Mercedes-Benz, Ford, Alfa-Romeo, Volkswagen, Dodge, Chevrolet, Toyota, etc. e tal e etc. e tal — como se atreve um autor a apelidar de marinete o bus a conduzir passageiros de Santana do Agreste para Esplanada e vice-versa? Um quadrado, o autor, perdido no tempo, nas calendas gregas.

Perdoe-me D’Alambert, perdoem-me também os eméritos críticos universitários, com mestrado e doutorado, mas, no caso, trata-se mesmo de marinete. A última talvez — a fazer companhia às secas, às epidemias, à obstinada fome que, sertão afora, resistem, subversivas, à patriótica ofensiva dos artigos e dos discursos.

A última, sem dúvida, a trafegar em estrada brasileira mas trafegando impávida. Jamais ultrapassando a velocidade de trinta quilômetros por hora — média obtida no trecho dos cuidados seis quilômetros que cortam a fazenda do coronel Vasconcelos, na saída de Esplanada. Nos outros quarenta e dois, arrasta-se aos trancos e barrancos pois a estrada é apenas carroçável e nela não se aventuram veículos modernos, não possuem para tanto audácia e competência. Só o longo hábito permite o prodígio cotidiano — de segunda a sábado, com descanso aos domingos — praticado pela marinete de Jairo, familiar das crateras, dos lamaçais, dos mata-burros apodrecidos, das rampas e curvas impossíveis. A marinete de Jairo data da Segunda Grande Guerra Mundial, foi viatura moderna, de molejo macio, bancos confortáveis e até possuía vidros nas janelas. Naquele então, por mais incrível que pareça, cumpria ela o trajeto de ida e volta, Agreste— Esplanada—Agreste, num só dia, saindo manhãzinha, regressando ao entardecer.

Tanto tempo depois ainda vale a pena vê-la, peça digna de museu, tudo nela é substituição e remendo. No motor e na carcaça coexistem peças de marcas e procedências as mais estranhas, inclusive um rádio russo. Engenhosas adaptações, inovações mecânicas, arames, pedaços de corda. Jornais velhos são úteis para tapar as janelas quando a poeira se faz insuportável. Os fregueses assíduos, experientes, levam almofadas para os bancos e lanches reforçados, garrafas de refrigerantes.

Velha e batida, imbatível, última e eterna, parte nas segundas, quartas e sextas de Agreste para Esplanada, nas terças, quintas e sábados regressa de Esplanada para casa. Bufando, tossindo, rateando, parando, parando muito, ameaçando pane definitiva, jamais definitiva, prosseguindo em atenção à capacidade de Jairo, aos pedidos, juras e adulações — Jairo trata o desmantelado veículo com ternuras de amante, a marinete é seu ganha-pão, seu único bem e a única ligação entre Santana do Agreste e o mundo.

Se tudo marcha à perfeição, a viagem dura três horas, com a excelente marca de tempo de dezesseis quilômetros por hora. No inverno, com as chuvas, a travessia torna-se mais prolongada, de horário imprevisível. Exato na partida, Jairo não admite atraso; a chegada, quando Deus quiser. Já aconteceu a marinete de Jairo dormir na estrada, enterrada na lama, à espera de juntas de boi. Para tais ocasiões Jairo conta com razoável repertório de anedotas familiares e com a colaboração do rádio russo. Fanhoso, rabugento, indolente, de humor instável, com apitos e descargas, o insólito aparelho concorre para matar o tempo com fragmentos de músicas e notícias. Isso de passar a noite na estrada se conta nos dedos da mão, raridade. Habitualmente, no inverno, o trajeto demora de cinco a seis horas.

Boa viagem, confortável e rápida, pelo menos na opinião expressa pelo coronel Artur da Tapitanga, octogenário plantador de mandioca e criador de cabras, chefe político, há mais de trinta anos sem pôr os pés fora das roças e currais e das ruas de Agreste. Após quase sete horas de caminho — a marinete rebentou três vezes — o fazendeiro, pondo-se de pé, declarou:

— Bicho mais ligeiro, essa marinete de Jairo. Um viajão!

— Ligeiro, coronel?

— No meu tempo se gastava dois dias a cavalo e olhe lá…

Seca, bexiga, maleita, lepra e fome, menino morrendo que dá gosto, isso eu sei que ainda sobra sertão afora. Agora marinete, penso não existir outra além dessa de Jairo. Ele a trata de condessa, minha negra, estrela-d’alva, dengosa, Mae West, beleza do Agreste, meu amor. Quando se dana, perde a cabeça e a xinga de puta para baixo.

 

ONDE SE TRAVA CONHECIMENTO COM DONA CARMOSINA, CIDADÃ

IMPORTANTE, AGENTE DOS CORREIOS, E SE TEM NOTÍCIAS DOS FILHOS DE

SEU EDMUNDO PACHECO, COLETOR,

COMPENSANDO A FALTA DE CARTA

E CHEQUE DE TIETA SOBRE CUJO ESTADO DE SAÚDE CRESCE O PESSIMISMO

 

AINDA DE LONGE, ANTES DE TRANSPOR A PORTA DOS

CORREIOS, Elisa lê, na atitude de dona Carmosina, a comprovação do que já sabia com certeza: a carta não chegara. Braços caídos, semicerrados os olhos miúdos, o ar grave, a ativa funcionária vive, ela também, o drama do inexplicável atraso. Faz-se mais pálida a face de Elisa, os pés de chumbo, a voz inarticulada, quase um gemido:

— Nada?

Cinqüentona, sarará, corpulenta, cara larga, voz rouca, dona Carmosina indica a correspondência do dia, escassa, espalhada no balcão:

— Nada! Hoje não veio nenhuma carta registrada. Por via das dúvidas, passei as malas duas vezes, carta por carta. O que chegou está aí, pouca coisa. Ainda não entreguei nada, você é a primeira a aparecer. Vieram jornais e revistas, isso sim, hoje é sábado. — Repara na palidez da amiga: — Quer um pouco dágua?

— Não, obrigada. — As palavras saem estranguladas.

— Que demora, hein? Em todos esses anos, nunca atrasou tanto…

— Mais de dez anos… — gemeu Elisa.

— Onze anos e sete meses — corrigiu dona Carmosina, escrupulosa nos detalhes. — Inda me lembro da primeira carta, como se fosse hoje. Quando abri o saco, senti logo o cheiro, naquele tempo ela usava um perfume mais forte que o de agora, encheu a sala. Que carta será essa?, perguntei a mim mesma e li correndo o sobrescrito e o nome do remetente. Estava dirigida a seu pai ou a qualquer membro da família Esteves e quem enviava era Antonieta Esteves, caixa postal 6211, São Paulo, capital. Vou buscar água para lhe dar, com esse calorão e nada de carta, coitadinha…

Enquanto, de costas, dona Carmosina toma da moringa e enche o copo, Elisa curva-se sobre a correspondência, não por manter esperanças, mas por desencargo de consciência.

— Botei duas gotas de água-de-flor. Faz bem pros nervos.

Elisa bebe em pequenos goles, dona Carmosina retoma a narrativa:

— O envelope cor-de-rosa, lindo, parece que estou vendo. Pelo falecido seu Lima mandei recado para seu marido na loja, vocês estavam casadinhos de novo. Ele veio com Osnar, entreguei, leu aqui mesmo. Carta mais bonita, pedindo notícias do pai, das irmãs, como iam de saúde e de vida, se precisavam de ajuda. Até colaborei na resposta, se lembra?

— Me lembro… o major era vivo, foi ele quem escreveu…

— Era burro como uma porta mas tinha a letra bonita… Letra dele, redação minha. De lá pra cá nunca mais falhou. Todo mês a carta com o cheque, com o rico dinheirinho…

Empolgada, dona Carmosina nem sente o mormaço a entrar pelas duas portas, asfixiante. Pensativa, a olhar para Elisa:

— Nunca demorou desse jeito… esquisito mesmo.

Elisa percebe, na voz da amiga, inquietante sinal de alarme. Tenta acalmá-la e acalmar-se:

— Uma vez, quando ela estava passeando em Buenos Aires…

— Chegou no dia 17… 17 de fevereiro, exatamente. Hoje estamos a 28 de novembro. A que você atribui? Doença? — Os olhos pequeninos de dona Carmosina observam Elisa que segura o copo vazio sem encontrar resposta, o choro preso na garganta.

Felizmente aparece seu Edmundo, Edmundo Ribeiro, o coletor, enfarpelado, paletó, gravata e chapéu, deseja boa tarde:

— Alguma coisa para mim, Carmosina?

— Duas cartas, uma do filho, outra do genro… — Ri com os lábios descorados, divertida: — Aposto que os dois estão pedindo dinheiro…

O coletor recolhe as cartas, olha através dos envelopes contra a luz, quem pode impedir que dona Carmosina saiba e comente a vida alheia, não passam por suas mãos (e vistas) telegramas e cartas? Carmosina, quase albina, mais que ladina, voz masculina, língua ferina, doce assassina — declamava Aminthas, seu primo segundo e comensal assíduo. Dona Carmosina é de bom tempero, famosa no pirão de leite e no molho pardo. E o cuscuz de milho?

— Como se eu fosse um saco sem fundo, entupido de dinheiro… — seu Edmundo suspira, sem pressa de abrir os envelopes apesar do desejo de saber dos filhos. Dirige-se a Elisa: — Feliz é Zé Esteves, seu pai, dona Elisa. Tem filha rica que manda em vez de pedir. Comigo é o contrário…

Dona Carmosina relanceia a vista, considera Elisa, informa:

— Este mês a carta de Tieta ainda não chegou. Esquisito, não acha, seu Edmundo? Um atraso desses…

O coletor não esconde a surpresa, um dos envelopes aberto:

— Ainda não? Que é que houve, dona Elisa?

— Quem sabe, seu Edmundo? Para mim, ela está viajando, esses passeios que faz todos os anos, de navio…

— Cruzeiros marítimos… — esclarece dona Carmosina mas o olhar sob as sobrancelhas ruças exprime dúvida. Seu Edmundo balança a cabeça, não encontra comentário a fazer, retorna à carta do genro.

Elisa despede-se, uma fraqueza nas pernas que nem Astério:

— Obrigada, Carmosina.

— Agora, querida, só terça-feira. — Para levantar-lhe o ânimo, não deixá-la partir tão por baixo, acrescenta: — Você hoje está uma tetéia. Esse vestido eu ainda não conhecia…

— Foi Tieta quem mandou…

Seu Edmundo suspende a leitura da carta, escapa-lhe o desgosto da notícia:

— Suzana está esperando menino outra vez…

Elisa reúne forças:

— Parabéns, seu Edmundo. Quando escrever a Suzi, mande um abraço meu…

— O quarto, não é? O senhor ainda tão moço e já cheio de netos. Bonito, acho isso bonito. — A voz rouca de dona Carmosina, sincera ou gozadora?

— Bonito? Eu é que sei quanto me custa… falta de juízo.

— Que é caro, lá isso é… Logo agora, tão fácil de evitar, com a pílula. Na Bahia, se encontra em qualquer farmácia, a venda é livre… até a Igreja já aprova o uso — acentua dona Carmosina, doce assassina.

Elisa diz até breve, atravessa a feira barulhenta, em direção à casa de Perpétua. Não sente o peso do olhar do árabe, não lhe alisa a bunda a mirada de nenhum moleque nem lhe fere o ouvido o assovio do mendigo. Doença, insinuara Carmosina, para não falar no pior. Morta, sim. Elisa já não duvida, Perpétua sabe o que diz.

Há vinte e três anos na agência dos Correios, dona Carmosina emite julgamentos definitivos sobre pessoas e fatos:

— Moça boa e séria está aí, seu Edmundo. Conheço Elisa de menina, sempre direita, cumpridora. Faz tudo no capricho. Trabalhadeira, a casa dela é um brinco e gosta de se vestir, de se arrumar, não é como outras por aí, que vivem no desmazelo. Só que agora, pobrezinha…

Seu Edmundo, para melhor ouvir, interrompe a leitura da carta do filho estudante:

— A que atribui tanta demora?

— Se Tieta não morreu, deve estar muito doente. O marido dela bem podia dar notícia mas ele nunca quis conversa com os parentes daqui. Vou aconselhar Elisa ou Perpétua a telegrafar.

De volta à carta, o coletor explica:

— Idiota! Só serve para isso…

— O que é que Leléu fez dessa vez, seu Edmundo?

— Pegou uma carga de gonorréia; desculpe, Carmosina, quero dizer blenorragia, e pede dinheiro urgente para médico e remédios…

— Com duas doses de penicilina fica bom. É tiro e queda. Tratamento barato, nem precisa de médico.

Dona Carmosina lê os jornais, antes de entregá-los, sabe do que vai pelo mundo, entende de cinema, política, ciência. Acumula o cargo nos Correios com a representação de A Tarde, da Bahia, de revistas do Rio e de São Paulo.

— Coitada de Elisa, ficou tão transtornada, nem levou as revistas. Depois deixo em casa dela.

Separa a carta endereçada a Ascânio Trindade pois o vê do outro lado da rua; carta de Máximo Lira, um amigo da capital, sem interesse. Antigamente, sim, tão romântico: quando Astrud escrevia cartas de amor e Ascânio em resposta enchia laudas de juras e saudades. Um poeta, Ascânio, pena não escreva versos, seriam lindos. Retorna dona Carmosina ao silêncio de Tieta:

— Quer saber minha opinião, seu Edmundo? Antonieta já não pertence a este mundo. Mortinha da silva.

 

ONDE RICARDO, SOBRINHO E

SEMINARISTA, ACENDE VELAS

CONTRADITÓRIAS AOS PÉS DOS SANTOS; CAPÍTULO BANHADO EM LÁGRIMAS,

ALGUMAS DE CROCODILO

— ENTÃO? CADÊ? — INTERROGA PERPÉTUA E ELA

PRÓPRIA RESPONDE VITORIOSA, aflita vitória: — Carta e cheque, babau, minha miss Bahia! — Derrama sobre a irmã o fel a lhe amargar a boca: — Se eu fosse Astério, você não saía para a rua nesses trajes indecentes, de peitos de fora. Mas agora tudo vai acabar, esse desbarate de vestidos. Vai acabar tudo. Vai começar o tempo da pobreza.

Elisa deixa-se cair na cadeira, cobre o rosto com as mãos, não retruca: poderia lembrar que, na hora da divisão dos presentes, Perpétua não critica os vestidos, trata de empalmar os mais finos e ousados para vendê-los a bom preço em Aracaju, a senhoras ricas. Cala-se, porém; gostaria, isso sim, de tapar os ouvidos para não escutar; a voz avinagrada da irmã torna as palavras mais cruéis.

Antes Elisa passara na loja, naquela hora já repleta, Osnar escornado na cadeira. Trocara apenas um olhar com o marido, suficiente para Astério largar o metro e a peça de madrasto. Osnar pusera-se de pé: bom dia, dona Elisa. Bom dia, patroa — Sabino brechou rápido do decote no alto às ancas embaixo, salve salve quem inventou esses vestidos justos, colados ao corpo, marcando até as pregas da bunda, moda mais jeitosa. Um felizardo, o patrão.

— Três metros… — reclamou a freguesa a reparar também na elegância de Elisa, aquilo sim era fazenda.

Astério voltara a medir, mal sustendo metro e tesoura.

— Vou até a casa de Perpétua, daqui a pouco mando Araci com a marmita — avisara, despedindo-se: — Até logo, seu Osnar, esteja a gosto.

Durante o percurso, não pudera impedir as lágrimas. Cada palavra, na loja, custara-lhe esforço e contenção. Agora, arreia na cadeira, sob a voz de Perpétua a criticar-lhe o decote como se não bastassem as mãos vazias de carta e cheque.

— Bateu a caçoleta, eu te disse. Tu ainda duvida? — além da voz sibilante, o dedo em riste.

Elisa descobre a face, balança a cabeça, vencida, as lágrimas escorrem. Lágrimas, de que adiantam? Não resolvem nenhum problema, não substituem o cheque, não ressuscitam a morta, não determinam as medidas a tomar. Perpétua, no entanto, conhece e respeita as conveniências, exigente nas formalidades. Do bolso da saia negra retira o lenço e com ele toca o canto dos olhos — nem por invisíveis deixam de ser lágrimas de luto. Coloca um acento de dor na rispidez da voz, ao gritar pelo filho mais velho:

Continuar: parte 2 de 3