Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 3 de 10 · parte 1/5

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Tieta do Agreste

Segundo episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

DAS PAULISTAS

FELIZES EM SANTANA

DO AGRESTE

OU

A VIÚVA ALEGRE

 

COM LUTO FECHADO, MISSA DE DEFUNTO,

OS MENINOS DO CATECISMO, MINISSAIAS E CAFETÃS TRANSPARENTES,

BANHOS DE RIO, AREIAS E DUNAS DE MANGUE SECO,

INTRIGAS DIVERSAS, SONHOS PEQUENO-BURGUESES E AMBIÇÕES

MATERNAS, COXAS, SEIOS E UMBIGOS,

PASSEIOS E JANTARES, RECEITAS CULINÁRIAS,

O DISCUTIDO PROBLEMA DA LUZ ELÉTRICA, ORAÇÕES E TENTAÇÕES,

O TEMOR DE DEUS, AS ARTES DO DEMÔNIO, UM CASTO IDÍLIO,

OUTRO NEM TANTO; ONDE SE TRAVA CONHECIMENTO COM

O BEATO POSSIDÔNIO, PROFETA ANTIGO. DIÁLOGOS ROMÂNTICOS

E CENAS FORTES (PARA COMPENSAR)

 

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PRIMEIRO FRAGMENTO DE NARRATIVA, NA QUAL — DURANTE A LONGA

VIAGEM DE ÔNIBUS LEITO DA CAPITAL DE SÃO PAULO À DA BAHIA — TIETA

RECORDA E CONTA À BELA LEONORA

CANTARELLI EPISÓDIOS DE SUA VIDA. AQUI VAI A AMOSTRA: OUTROS LANCES, MAIS SUBSTANCIAIS, VIRÃO DEPOIS

 

— PENSO QUE AS CABRAS NÃO SENTIAM O SOL, não esse

calorzinho daqui, o calorão de lá, o sol em brasa nas pedras. Nem elas, nem eu.

Nas pedras, as cabras imóveis sob o sol; pedras, estátuas, elas também. De súbito saltam, disparam a correr, uma, logo outra, todas. Vão descobrir tufos de capim nos mais altos oiteiros.

— Eu ia atrás, pastoreando. As cabras me conheciam, eu botava nome, apelido em cada uma. Chamava, elas atendiam. Cuidava delas, quando uma se feria nos espinhos, eu tratava, punha mastruz nas feridas.

— Que idade você tinha, mãezinha?

— Acho que dez anos, quando comecei. Dez ou onze, tinha terminado o grupo escolar.

Preferira o sol cozinhando pedras, a terra árida, os cactos, as serpentes, os lagartos, o coaxar dos sapos na água do riacho, os calvos cabeços dos morros, as touceiras de capim, as cabras — enquanto a primogênita cuidava da casa.

— Perpétua nasceu velha, nem sei como conseguiu casar. Mocinha, se meteu na sacristia da igreja com as carolas, a mais beata de todas. Para ela eu era o diabo em pessoa… — Ri: — Tinha razão, eu não era gente. Desde pequena, vi o bode Inácio montando cabras.

Inteiro, sereno e majestoso, o bode Inácio, pai do rebanho, aparece, passo medido, cavanhaque longo, inhaca forte. De bagos assim de grandes, quase a tocar a terra, senhor da chibarrada, patriarca dos caprinos.

Lento e inexorável, vem vindo para o lado da cabrita irrequieta no primeiro cio, os quartos agitados à aproximação de Inácio, as patas traseiras escoiceando o ar, na idade de ser coberta e emprenhar. Caminha Inácio no rastro do aftim da fêmea, o saco balançando. Emite o berro, vibrante e límpido, anúncio, ameaça, declaração de amor.

— Primeiro eu via, não ligava, era nova demais. Mas depois, quando comecei a ter as regras, o berro de Inácio entrava por mim adentro. Passei a espiar, me estendia no chão para ver melhor.

A cabrita dispara, Inácio não se dá ao trabalho de correr, pára e espera; a menina aprende. Duas ou três escapadas mais e ele monta a indócil quando assim decide, dono, pai do rebanho.

Deitada no chão, a moleca aprecia, não perde detalhe. De bruços contra a terra sáfara, sente um calor subindo pelas pernas até os gorgomilos, vontade, moleza. Inácio era um bodastro, um bodastro e tanto, a chiba se debateu quando ele a fez cabra e a emprenhou. Um berro final de dor e acolhimento. Ecoando no ventre da menina. Conjugados cabra e bode na altura sobre as pedras, petrificados, rocha única, penhasco, capricórnio.

— Assim eu aprendi. Vi mais que isso, nos meus começos. Mais.

Não só assiste ao bode Inácio montar as cabras. Acontece-lhe ver, escondida nos oiteiros, moleques se pondo nelas. Osnar e seu bando de perdidos. Homens-feitos também. O próprio pai, imaginando-a ausente.

— Em casa, um deus-nos-acuda, austero, moralista por demais, mandando todo mundo para a cama nem bem a gente se levantava da mesa do jantar. Em namoro, era proibido se falar.

Namorado de filha minha se chama palmatória e taca de tanger burro; bordão de marmelo é o nome completo, roncava Zé Esteves. Punha-se nas cabras quando julgava o pasto vazio. Existiam cabras viciadas.

— Eu era uma cabrita, igual a elas. A primeira vez não teve diferença.

— Com que idade, mãezinha, a primeira vez?

— Sei lá. Treze, catorze anos, botei sangue cedo.

— Depois?

— Fui cabra viciada, não havia homem que me desse abasto.

 

ONDE O AUTOR REDIGE CONCISA

NOTÍCIA SOBRE O PRÓSPERO E

LONGÍNQUO PASSADO DO MUNICÍPIO DE SANTANA DO AGRESTE E SUA

DECADÊNCIA ATUAL

 

ENQUANTO O POVO COMENTA A EXCITANTE NOVA DO

PRÓXIMO RETORNO da filha pródiga, as beatas na igreja, os ociosos no bar, os comentários fervendo, a agência dos Correios engalanada em festa, aproveito para constatar desde logo a benéfica influência de Tieta. Ainda na rodagem para a Bahia e já influindo no burgo natal, retirando-o do marasmo no qual mergulhara havia tantos anos.

A notícia não atinge e comove somente a população urbana; espalha-se por todo o município, despertando curiosidade e interesse das mansas margens do rio às encapeladas vagas do mar atlântico, segundo revela Barbozinha em estado de poesia. Elabora um poema em versos livres e ático sabor, onde Vênus surge das ondas, nua, coberta de espumas e conchas, rediviva. Atualíssimo e um tanto erótico.

Ninguém ficou indiferente, em toda a população de alguns milhares de pessoas — nem mesmo dona Carmosina pode fornecer o número exato de habitantes de Agreste; no censo de 1960 somavam nove mil, setecentos e quarenta e dois cidadãos prestáveis e imprestáveis, pois vários passavam dos noventa e muitos dos oitenta anos; no último lustro após o recenseamento, a população diminuíra, não em conseqüência de mortes ainda mais raras que os nascimentos e sim da sistemática partida dos jovens em busca de oportunidades noutras terras.

O visitante, chegado a essas ruas mortas nos dias de hoje, exausto com a travessia na marinete de Jairo, entupido de poeira, hóspede da pensão de dona Amorzinho, não acreditará que, antes da construção da estrada de ferro ligando Bahia a Sergipe, Agreste foi terra de muito progresso e muito movimento comercial, entreposto da maior importância para todo o sertão dos dois estados. Naquela época, a prosperidade presidia os destinos do atual cafundó-de-judas. A situação privilegiada do município, às margens do rio, estendendo-se até o mar, fizera de Santana do Agreste o centro de abastecimento de toda uma enorme região. Navios e escunas vinham até à altura da barra de Mangue Seco, paravam ao largo, as alvarengas recolhiam a carga. De Agreste, no lombo dos burros, as mercadorias partiam no rumo do sertão.

Hoje, existe apenas a pensão de dona Amorzinho, no começo do século existiam para mais de dez, repletas sempre de comerciantes e caixeiros-viajantes, as lojas e armazéns não davam abasto à freguesia. Casa de mulher-dama, nem se conta, uma animação, um correr de dinheiro. As melhores residências da cidade datam dessa época, também o calçamento de pedras da praça da Matriz e das ruas do centro. Os ricos mandavam vir pianos e gramofones, encomendavam retratos coloridos a firmas do sul, para pendurar nas paredes das salas. Construíram o sobrado da intendência, ergueram a nova matriz de Sant’Ana, deixando a velha capela para a devoção de são João Batista, cuja festa em junho, precedida pela de Santo Antônio e seguida pela de São Pedro, trazia a Agreste forasteiros até de Sergipe, além dos numerosos estudantes em férias, libertos por quinze dias dos internatos na capital. Agreste em junho era uma alegria só, danças e foguetório todas as noites, após as trezenas e novenas.

Das primeiras cidades a instalar eletricidade, das últimas a conservar a vacilante luz amarela e fraca do cansado motor, ainda não substituído pela ofuscante luz da usina de Paulo Afonso. Quem adquiriu o motor e iluminou o então florescente burgo foi o intendente coronel Francisco Trindade, avô de Ascânio. Deve-se ao neto, em dias recentes, obstinada luta para trazer até ali os fios de alta voltagem da hidrelétrica do São Francisco que, como a estrada de ferro e a rodovia, haviam passado longe dos limites do município.

Nos últimos decênios, o progresso só fizera desfechar golpes contra Agreste. O primeiro, o mais terrível: a construção da estrada de ferro, trilhos a ligar a capital baiana a Sergipe, chegando às ribanceiras do rio São Francisco, em Propriá; deixando nossa cidadezinha à margem, órfã de trem de ferro e de estação onde as moças namorarem. Tentou manter-se Agreste no convívio dos navios e escunas mas o transporte de mercadorias fez-se mais fácil e muito mais barato nos vagões da ferrovia. Dispersaram-se as tropas de burros, as alvarengas apodreceram junto aos mangues, de raros navios e escunas desembarca apenas contrabando e mesmo assim sem outro lucro para Agreste além da paga recebida pelos pescadores de Mangue Seco, pois não é do município que os gêneros tomam destino. As lanchas nem escalam em Agreste, indo diretas para o porto do Crasto, em Sergipe. Só Elieser, morador na cidade, ali ancora, de volta da entrega, vem dormir em casa. Não se pode considerar comércio digno de tal nome a garrafa de uísque escocês, de gim inglês, de conhaque espanhol que Elieser surrupia e vende a Aminthas ou a Seixas, a Fidélio; nem o vidro de perfume com destino certo: Carol, a retraída moça de Modesto Pires. Essa moça, aliás, precisa aparecer mais nas páginas deste folhetim para proveito e gáudio de todos nós.

As esperanças do retorno à prosperidade concentraram-se durante longo tempo na rodagem, anunciada com ruidoso espalhafato, a vir do sul cruzando o país inteiro pela costa. Enquanto isso, Agreste diminuíra a olhos vistos, os caixeiros-viajantes desertaram das ruas: restando poucas lojas e armazéns, os pedidos não pagavam as custas da viagem. Fecharam-se as pensões, já ninguém vinha de longe para as festas de junho, apesar da água continuar a fazer milagres, do clima manter-se digno de sanatório, da insólita beleza ribeirinha e da audácia da praia de Mangue Seco, incomparável.

A rodovia, como se sabe, passou a quarenta e oito quilômetros de poeira e lama. Novo e definitivo golpe do progresso, Agreste entregou-se de vez, reduzida à mandioca e às cabras. Nem trem de ferro, nem caminhões, nem sombra de estação, ferroviária ou rodoviária, onde as moças namorarem. No ancoradouro, meia dúzia de canoas, o barco de Pirica, a lancha de Elieser e os caranguejos, gordos, gordíssimos. Em matéria de comida, nada se compara a um escaldado de caranguejo com pirão de farinha de mandioca, verde-escuro, pirão de lama como se chama aqui. Nunca comeram? Uma lástima, não sabem o que é bom. Manjar a exigir tempo e paciência para catar a carne dos caranguejos, pata por pata, faz-se raro até mesmo em Agreste onde sobram o tempo e o gosto. Mas vale a pena, eu asseguro. É de se lamber os dedos; come-se com a mão, ensopando-se o pirão na gordura verde do molho, na lama incomparável do caranguejo.

O povo já perdeu as derradeiras esperanças, os moços partem na marinete de Jairo, moços e moças, porque nos últimos anos também as mulheres começaram a buscar vida melhor em terras mais ricas. Vão ser copeira ou cozinheira, costureira ou bordadeira, grande número acaba na zona, em Salvador, em Aracaju, em Feira de Santana. Muito apreciadas, por sinal.

 

DE ASCÂNIO TRINDADE, INTEMERATO

PATRIOTA E LUTADOR, COM AS DURAS PENAS QUE EM SINA LHE COUBERAM

 

SÓ ASCÂNIO TRINDADE NÃO PERDE O FÔLEGO DE

LUTADOR NEM a esperança de um milagre a salvar Agreste — ama a terra onde nasceu e à qual a doença do pai o fizera regressar, abandonando o curso de direito. Já não tem obrigação a cumprir em Agreste, pois seu Leovigildo finalmente morrera após infindáveis cinco anos, preso à cama, sem movimentos, apenas um olho aberto a fitar o vazio. Ascânio fora enfermeiro e ama-seca, pai e mãe, dando banho naquele corpo inerte, limpando-o, pondo-lhe o de-comer na boca, duras tarefas. Rafa, a escura mãe-de-leite, mal podia ajudar, por mais quisesse, velha e reumática, sem forças. Ascânio tomava nos braços o corpo do pai, levando-o para deitá-lo ao sol sob a goiabeira, no quintal, fazendo-lhe muda companhia horas e horas. Sempre tranqüilo, sem uma queixa, nem dos estudos interrompidos, nem da longa provação. O olhar do pai, um único olho, a acompanhá-lo agradecido, basta ao filho. Esse já ganhou o reino dos céus, diziam as beatas.

Após o enterro de seu Leovigildo, havia dois anos, Ascânio, se quisesse, poderia ter-se demitido do cargo de secretário da prefeitura, onde o pusera o padrinho, coronel Artur da Tapitanga, quando o viu sozinho com o pai paralítico e sem tostão. Demitir-se, para quê? Para voltar à cidade da Bahia, recomeçar a faculdade? Maior do que a falta de recursos, era a falta de vontade. Na capital, Astrud, casada, ria a inesquecível, cristalina gargalhada — aqui, em meu desterro, carregando a cruz de meu calvário, ouço teu riso de cristal e reencontro forças; nos dias mais penosos a recordação de teus olhos verdes me sustenta o ânimo. Dona Carmosina derramara lágrimas lendo as violadas cartas, quanto amor!

Noutra coisa não pensou Ascânio no primeiro ano, senão no dia do retorno. Mas quando, abrupta, Astrud lhe comunicou o próximo casamento, sem sequer ter desfeito o noivado, ele jurou não pôr mais os pés na cidade onde habitava a traição. Sobretudo depois que Máximo Lima, seu colega de faculdade, advogado a prosperar na justiça do trabalho, lhe informara haver a inocente, a imaculada Astrud, casado de bucho inchado, não fosse solto o vestido de noiva e se enxergaria o volume da barriga de quase quatro meses. Já de menino e ainda escrevendo cartas de amor para Ascânio, prosseguindo no casto idílio, cândida menina, puta sem rival! Isso lhe doía mais que tudo: acreditara na pureza, no firme sentimento, deixara-se iludir como uma criança tola, ingênuo paspalhão.

Ademais, habituara-se à vida de Agreste, no que ela tinha de melhor: a água, o ar, a paisagem, a convivência dos amigos. Só não aceitara a passividade do atraso, da pobreza, o marasmo. A cabeça repleta de planos, não se deixa abater.

Terra tão mísera e largada, Agreste não interessa nem mesmo aos políticos, raça aliás em extinção. Entregue a prefeitura ao dr. Mauritônio Dantas, cirurgião-dentista de forças reduzidas pelos desgostos e pela esclerose, trancado em casa a bem da moralidade pública, quem realmente manda e desmanda é Ascânio. Há um consenso geral: quando o doutor bater as botas, colocarão Ascânio no cargo vago, se possível prefeito para a vida inteira.

A verdade é que, praticamente sem receita além da cota federal do imposto de renda, da escassa ajuda estadual, Ascânio mantém a cidade limpa, calçou, com pedras do rio, ruas e becos, inaugurou duas escolas municipais, uma na Rocinha, outra em Coqueiro, e busca obter, à custa de ofícios, petições às autoridades, cartas aos jornais e às estações de rádio, que se estendam a Agreste os fios da hidrelétrica. Até agora, infelizmente, não teve sucesso. Postes e fios alteiam-se nos municípios vizinhos. Agreste é um dos poucos deixados de lado no plano recente de expansão dos serviços da hidrelétrica. Ascânio não desanima, porém. Prossegue em sua luta. Acredita que um dia, fatalmente, a fama do clima, a qualidade da água, a beleza da paisagem trarão às artérias e às praias de Agreste turistas ávidos de paz e natureza.

Ao ouvi-lo falar há quem sorria do ardente entusiasmo, Agreste não tem jeito: mas há quem se empolgue e por um momento sonhe com ele, veja realidade nessa fantasia; como sempre, as opiniões se dividem. Somam-se unânimes, sem divergência, ao julgar o próprio Ascânio. Não há, em todo o município, cidadão mais estimado, mais bem-visto. As moças casadoiras não tiram os olhos dele. Ascânio completou vinte e oito anos, o que espera para escolher noiva? Quando prefeito não poderá continuar freguês da casa de Zuleika.

Por mais de uma vez, dona Carmosina lhe colocou o problema, na agência dos Correios. Tanta moça bonita e prendada em Agreste e todas desejosas. Ele sorri apenas, sorriso triste. Dona Carmosina não insiste: leu a correspondência toda, linha por linha, repete de memória trechos da derradeira missiva, resposta à comunicação do próximo casamento — quem te escreve, Dalila, é um morto, frígido coração que, da sepultura onde o enterraste apunhalado, vem te desejar felicidade; que o remorso não turve tua vida e que Deus me conceda a graça de esquecer-te, arrancar do peito tua imagem… Um poeta, Ascânio Trindade, se escrevesse versos, nada ficaria a dever a Barbozinha. Pelo visto não esqueceu, não pensa em noiva.

Sorri apenas um sorriso triste. Outra? Jamais. Nem que um dia desembarque da marinete de Jairo a mais formosa das donzelas, a mais pura e sedutora. Coração morto para o amor, minha querida dona Carmosina.

 

DA VOLTA DA FILHA PRÓDIGA A AGRESTE, ONDE, NO PONTO DA MARINETE,

A AGUARDAM A FAMÍLIA EM LUTO PELA MORTE DO COMENDADOR, OS MENINOS DO CATECISMO, PADRE MARIANO,

ASCÂNIO TRINDADE, COMANDANTE

DÁRIO, POETA DE MATOS BARBOSA,

O ÁRABE CHALITA, DIVERSAS OUTRAS FIGURAS GRADAS, SEM ESQUECER A

MALTA DO BILHAR, MUITO MENOS DONA CARMOSINA, NA MÃO UM BUQUÊ DE

FLORES COLHIDAS NO JARDIM DE CASA POR DONA MILU, O CLERO, A BURGUESIA E O POVO, ESTE REPRESENTADO PELO

MOLEQUE SABINO E POR BAFO DE BODE

 

AGRUPADOS EM QUATRO OU CINCO LOCAIS, NAS

VIZINHANÇAS do cinema, ponto de parada da marinete de Jairo, esperam ouvir a buzina rouquenha na curva da entrada da cidade. Na igreja, sob a batuta do padre Mariano, os meninos do catecismo, nas roupas domingueiras, além de Perpétua e do filho seminarista, de batina e livro de missa, risonho mocetão em férias. No adro, movimentam-se as beatas, bando de urubus a grasnar; prontas para o magno acontecimento, o desembarque da viúva rica: querem vê-la em luto e em pranto nos braços da família, e de quebra, a enteada, a forasteira. Dia gordo.

No Bar dos Açores, à exceção do proprietário em mangas de camisa, todos engravatados: Osnar, Seixas, Fidélio, Aminthas, guarda de honra do cunhado Astério, sufocado no terno negro, empréstimo de Seixas, magricela. Perpétua concordara com que, durante a semana, Astério reduzisse o nojo à braçadeira preta, ao fumo no chapéu e na lapela. Mas, para a cerimônia das boas-vindas, exige luto fechado, traje, gravata e compunção.

— Faz questão porque não tem de comprar, vive de luto. Mas onde vou arranjar dinheiro para fazer terno?

— Tive de comprar para Peto.

— Um par de calças curtas, ora.

— Por que não toma emprestado? Seixas aliviou o luto.

Boa lembrança, não fosse a diferença de peso entre os dois. A duras penas, com o auxílio de Elisa, conseguiu enfiar as calças. O paletó não abotoa e abriu sob os dois sovacos mas o descosido só aparece quando Astério levanta os braços.

Peto foge da igreja e da mãe, vem para o bar. Cara lavada, cabelos penteados, coisas raras; camisa branca de mangas compridas, gravata-borboleta, antigüidade do falecido major. O pior são os sapatos. Os pés, livres nas ribanceiras e na correnteza do rio, não se adaptam. Osnar goza a figura e as caretas do menino:

— Sargento Peto, você está uma tetéia. Se eu fosse chegado a comer menino, hoje era seu dia. Sua sorte é que não sou apreciador.

— Não chateie.

Apesar dos sapatos, Peto não esconde a satisfação: durante a permanência da tia dormirá em casa de Astério, no quartinho dos fundos, longe das vistas e dos horários estritos da mãe, poderá acompanhar Osnar e Aminthas, Seixas e Fidélio pelas ruas, à noite, nas escusas caçadas a provocar comentários e risos:

— Passa fora, moleque, isso é conversa de homem…

Só Osnar abre-lhe perspectivas!

— Um dia desses, sargento, eu lhe levo pra caça. Tá chegando a idade. Vá preparando a espoleta.

Perpétua decidira que no quarto de Peto ficará a enteada de Antonieta. Como o resto da casa, foi lavado com creolina, esfregado, varrido até a última partícula de pó, folhas de pitanga no chão, para perfumar. Há uma semana a pequena Araci, emprestada por Elisa pelo tempo que durar a estadia das paulistas, se entrega a uma faxina em regra.

Residência confortável, na esquina da praça da Matriz com o beco das Três Marias, Peto não necessitaria mudar-se, caso Perpétua tivesse aceito a opinião de Astério: as duas hóspedes no quarto de Ricardo, os dois meninos no de Peto. Mas Perpétua, num desparrame de cortesia — fora atacada da mania de grandeza ou tinha algum plano armado na cabeça? Dona Carmosina ainda não chegara a uma conclusão —, decidira colocar Antonieta na alcova fresca e ampla, deixando-lhe, por mais inacreditável possa parecer, o uso da cama de casal com colchão de lã de barriguda, onde rebolara com o major durante o tempo feliz e curto do matrimônio. Contado não se acreditaria: o quarto dela e do major? Impossível! Como as coisas mudam, Deus do Céu! Dona Carmosina arregala ao máximo os olhos miúdos, num espanto.

Cama de casal, colchão de barriguda, penteadeira, armário enorme, móveis pesados, de jacarandá. O major comprara a casa mobiliada nas vésperas do casamento, uma pechincha. O único herdeiro de dona Eufrosina, falecida aos noventa e quatro janeiros, um sobrinho, vivia em Porto Alegre, nunca pusera os pés em Agreste, mandou vender casa e móveis por qualquer oferta, desde que à vista. Tampouco havia outro candidato, nem à vista nem a prazo.

Da sala de visitas, enorme, oito janelas dando para a rua, sai o corredor até a sala de jantar. De cada lado, dois quartos, um dos quais, em frente à alcova, desde priscas eras transformado em gabinete de leitura pelo finado dr. Fulgêncio Neto, esposo de dona Eufrosina, médico de fama nos idos do progresso. A secretária, com dezoito gavetas, sendo uma delas cofre com segredo; a estante com livros de medicina em francês e obras de Alexandre Dumas e Victor Hugo. O major não buliu no gabinete, gostava de nele permanecer após o almoço, sentado em frente à escrivaninha, lendo jornais da Bahia, atrasados de uma semana, ou tirando uma pestana na rede. Ali Ricardo faz banca, mesmo em férias, uma hora por dia. A seguir, face a face, os quartos de Ricardo e Peto, ambos requisitados por Perpétua. No de Ricardo, onde fica o oratório, dormirá ela própria; no de Peto, a tal de Leonora. Ricardo ocupará o gabinete onde já estão seus livros de estudo. Acomoda a moleca Araci no depósito de frutas, no quintal, sobre improvisada enxerga. Perpétua comandou a arrumação e a limpeza da casa. Comandou tudo quanto se referiu à chegada e estadia de Tieta.

Cheia, a agência dos Correios e Telégrafos: o comandante Dário e dona Laura, Barbozinha de barba feita, homenagem à antiga namorada, Ascânio Trindade, representando a prefeitura — dr. Mauritônio cada vez pior, vendo mulheres nuas — e Elisa num negro, vaporoso e esvoaçante vestido de gaze, dos enviados por Antonieta nos pacotes de roupa usada. Exibira antes audacioso decote: agora composto, fechado no pescoço, exigência de Perpétua, fiscal de trajes e modos para o desembarque.

— Pelo menos tape os peitos. Isso é vestido mais para baile do que para luto, mas sendo o único preto que você tem, vá lá, desde que o arrume. Ela vai chegar de luto fechado, a gente tem de estar de acordo. Imagine que o velho queria que se fizesse uma festa, convidasse meio mundo. Ela chega chorando a morte do marido e em vez de luto encontra festa, já pensou?

Para que as flores não murchem, dona Carmosina colocou o buquê dentro de um copo com água. Sob a influência da dialética de Perpétua, discutira com a mãe, talvez flores não caíssem bem por ocasião da chegada da viúva aflita, em nojo recente. Dona Milu não quis conversa: entregue as flores a ela e diga que fui eu quem mandou. Se a gente manda flores até para defunto, por que viúva não há de ter direito? Ora essa…

— Meu Deus, não chega nunca! — Elisa, por mais que se esforce para manter-se compungida, não consegue conter a agitação, misto de alegria e medo.

Alegria sem medida de conhecer a irmã, a fada, a rica, a elegante, a grã-fina, a paulista, a protetora. Receio por causa da louca mentira, da omissão da morte de Toninho com o fim de embolsar a ajuda mensal. Dona Carmosina fizera o possível para acalmá-la.

— Quando ela perguntar por Toninho, o que é que eu vou dizer?

— Diga a verdade. Diga que eu lhe aconselhei a não contar e deixe o resto por minha conta.

— Será que ela me perdoa?

— Conheço Tieta, não vai fazer caso. Pode deixar comigo.

Persiste outra nuvem a turvar sua alegria: a vinda da enteada, quase filha, dona de um lugar no coração de Tieta que Elisa deseja todo inteiro para si.

Na entrada do cinema, o árabe Chalita palita os dentes, perdido em recordações: Tieta era mais bonita ainda do que a irmã, a mulher de Astério. Bonita e atirada, um fogo a lhe comer as carnes. Na porta lateral, a sorveteria: um pequeno balcão, uma gaveta e a catimplora que o moleque Sabino maneja, enchendo-a diariamente de sorvete de fruta para ganhar uns níqueis, pagos pelo árabe. Também Sabino se botou de calça e camisa limpas, sapatos e meias. Por seu gosto, teria posto fumo no braço, considerava-se da família; pau-mandado de Astério, caixeiro, moço de recados, tirador de cocos. Só não usou braçadeira negra com medo de dona Perpétua, uma peste. Sentado no passeio, Bafo de Bode curte a cachaça em silêncio. Curioso de ver a estampa dessa falada filha de Zé Esteves, que ele não conhece: quando chegou a Agreste, havia vinte e cinco anos, em busca de remédio e de aguardente, ela já partira, coube-lhe recolher esmaecidos ecos da surra nos últimos comentários, gastos e vasqueiros.

No ponto exato onde a marinete pára, junto ao poste diante do cinema, na calçada, Zé Esteves e a esposa Tonha. Para o casamento de Elisa o velho mandara tingir de preto, em Esplanada, antigo e desbotado traje azul. Não o veste desde então. O paletó parece um saco, as calças frouxas. Zé Esteves já não é o gigante de outrora, um pé de jacarandá, uma fortaleza, mas ainda se mantém firme, ali, de pé, há quase duas horas, mascando fumo, apoiado no bastão. Tonha, se pudesse, pediria uma cadeira ao árabe; onde a coragem de expor ao velho seu cansaço? Usa luto aliviado, apenas saia preta e faixa de crepe na blusa branca. Também remoto é o parentesco, como fez notar Perpétua, marcando diferenças e distâncias.

Com duas horas e dez minutos de atraso, soa na curva a buzina da marinete de Jairo, correria geral. Perpétua e padre Mariano ordenam as tropas. A marinete desponta no começo da rua. Ouve-se um primeiro soluço, antes da hora.

 

MINUCIOSA DESCRIÇÃO DO CONFUSO

DESEMBARQUE DE TIETA, A FILHA

PRÓDIGA, OU ANTONIETA ESTEVES

CANTARELLI, A VIÚVA ALEGRE

NA PRIMEIRA FILA, A FAMÍLIA, TRISTEZA EXPRESSA NOS

 

OLHARES, nas lágrimas, nos trajes. Um passo à frente dos demais, o velho Zé Esteves, mascando fumo. Em seguida aos enlutados parentes, o reverendo, os meninos do catecismo, as pessoas gradas, dona Carmosina, buquê em punho, o colorido alegre das flores destoando do crepe e do choro — essa criatura para aparecer passa por cima dos sentimentos mais sagrados, indigna-se Perpétua, por baixo do véu preso ao coque, a lhe cobrir o rosto. Depois, as beatas e o resto da população.

A marinete se aproxima, Jairo ao volante, poucos passageiros. Para Jairo dia magro, para Agreste dia gordo, dia de matar o carneiro pascoal, de foguetório e festa em honra da filha pródiga, não fosse ela viúva em nojo e dor. Cabem somente luto e lágrimas, cantoria de igreja.

As conversas cessam, Peto se alteia na ponta dos pés, assim a tia desembarque ele cairá fora, arrancará os sapatos. A marinete estanca num rumor cansado de juntas e molas. Peto conta os passageiros que descem: seu Cunha, um, o casal de roceiros, dois, três, dona Carmelita, quatro, a criada, cinco, esse eu nunca vi, seis, nem esse, sete, seu Agostinho da padaria, oito, a mulher dele, nove, a filha, dez, a tia Antonieta e a moça vão ser os últimos. Mesmo Jairo salta antes, carregado de maletas e bolsas das esperadas viajantes. Com Jairo fazem onze, agora doze, é ela, por fim.

Será ela? Peto fica em dúvida. Não pode ser, a tia deve estar de luto, véu fúnebre tapando o rosto, igual à mãe, não pode ser de maneira alguma essa artista de cinema, Gina Lollobrigida. Na porta, sobre o degrau, majestosa, Antonieta Esteves — Antonieta Esteves Cantarelli, faça o favor, exige Perpétua. Deslumbrante. Alta, fornida de carnes, a longa cabeleira loira sobrando do turbante vermelho. Vermelho, sim, vermelho igual à blusa esporte, de malha, simples e elegante, marcando a firmeza dos seios volumosos dos quais se vê apreciável amostra através da gola de botões abertos. A calça Lee azul colada às coxas e à bunda, valorizando volumes e reentrâncias, que volumes!, que reentrâncias! Os pés calçados com finos mocassins havana. O único detalhe escuro em todo o traje da viúva são os óculos esfumaçados, lentes e armação quadradas, o podre do chique, assinados por Christian Dior. O espanto dura uma fração mínima de tempo, um tempo imenso, uma eternidade.

Peto, vitorioso, exclama:

— A tia não está de luto, mãe. Posso tirar os sapatos e a gravata?

Antonieta, paralisada sobre o degrau, na porta do ônibus: diante dela a família de luto pela morte de Felipe, o inolvidável esposo, e ela em tecnicólor, em azul e vermelho, blusa aberta, esportivas calças Lee, ai, meu Deus, como não pensara em luto? Estudara cada pormenor e os discutira com Leonora, meticulosamente. Esquecera o mais importante. Mas já Zé Esteves cospe o pedaço de fumo e estende os braços para a filha pródiga:

— Minha filha! Pensei que não ia mais te ver mas Deus quis me dar essa consolação antes da morte.

De cima do degrau da marinete, Antonieta reconhece o pai. O pai e o bordão. É o mesmo, o mesmíssimo cajado que cantou em suas costas naquela noite de fim do mundo. Um frouxo de riso sobe dentro dela, não consegue contê-lo, estremece, incontrolável som a romper-lhe a boca, apenas tem tempo de encobrir o rosto com as mãos, antes de saltar. Acorrem todos a consolar a viúva em pranto, filha pródiga afogando os soluços nos braços do pai, comovente instante. Nem Perpétua se deu conta. Elisa chora e ri, de repente desafogada, a irmã sendo como imaginara, sem tirar nem pôr. Única a estranhar o curioso som inicial, dona Carmosina aproxima-se com as flores tão de acordo com o traje de viagem de Tieta.

Enquanto Tieta vai de abraço em abraço, disputada pelas irmãs, pelo cunhado, pelos sobrinhos — tire os sapatos, meu lindo, fique à vontade —, presa aos beijos sem conta, às lágrimas de Elisa, na porta da marinete de Jairo aparece a mais formosa, a mais doce e sedutora donzela, esbelta juventude, uma sílfide como logo reconheceu e proclamou o vate De Matos Barbosa. Parada, a contemplar a emocionante cena, emocionada ela também. Encantadora no slaque delavê, boné da mesma fazenda rodeado de cabelos loiros, acinzentados pela poeira, Peto reconhece a própria mocinha dos filmes de caubói. Um murmúrio de admiração percorre a rua, Tieta, desprendendo-se dos beijos de Elisa, apresenta:

— Leonora Cantarelli, minha enteada, minha filha, não tem diferença.

Dona Carmosina volta-se para Ascânio Trindade e o surpreende embevecido. E agora, amigo? Leonora amplia o meigo sorriso, abarcando a todos, detendo-se em Ascânio a fixá-la, atoleimado.

— Feche a boca, Ascânio, e vá ajudar a moça a descer — ordena dona Carmosina.

Adianta-se Ascânio, oferece a mão à paulista: seja bem-vinda às terras de Agreste, pobres, sadias e belas, perdoe o atraso e o desconforto. Ricardo põe o joelho em terra para pedir a bênção à tia mas ela o ergue e o toma nos braços, beija-lhe as faces: meu padreco mais garboso!

Após compreensível indecisão, o padre Mariano resolve, não vai perder, por uma questão de protocolo, o difícil trabalho de adaptação da letra de uma ladainha e de quinze dias de ensaios.

Faz um sinal, os meninos do catecismo cantam:

Vestida de negro

Ela apareceu

Trazendo nos olhos

As cores do luto.

Ave! Ave!

Ave Antonieta!

A mão ainda na mão de Ascânio, encantada, Leonora deixa escapar o riso cristalino, muito mais cristalino, oh!, muito mais!, do que o da finada Astrud. Finada e sepultada, ali, naquela hora, em frente ao cinema, sob os pneus carecas da marinete de Jairo.

Antonieta, de abraço em abraço:

— Carmô, meu anjo, que alegria! Como vai dona Milu? Foi ela quem colheu as flores? Carina… Veja, virei italiana em São Paulo, vou dizer querida e digo carina… — a Tieta de sempre, jovial, marota, não mudou, mesmo dizendo carina para dizer querida.

— Barbozinha! É você? Quase não lhe reconheço!

— As agruras da vida, Tieta, o sofrimento…

— Sempre escrevendo versos? Lembra dos que fez para mim? Lindos.

— Somente e sempre para você. Está mais moça e ainda mais bonita.

— E você continua mentiroso, Barbozinha. Adulador.

Ei-la em Santana do Agreste, em meio à família em luto, a ouvir os meninos do catecismo: obrigada, padre, de todo o coração. Do mar, chega a brisa da tarde, vem saudá-la. Com a ajuda de Sabino, Jairo desembarca as malas, a bagagem viaja no teto da marinete, coberta com lona grossa como se alguma cobertura adiantasse contra a poeira do caminho.

— Vamos, minha filha — convida Zé Esteves oferecendo o braço, apoiando-se no bastão.

— Para minha casa — tenta comandar Perpétua em meio aos destroços da violada compunção.

Cabe-lhe a culpa, a mais ninguém. Como pudera imaginar Tieta vestindo luto por marido? Fizera da irmã a sua igual, como se dinheiro, alta sociedade, casamento com paulista rico e comendador do papa pudessem consertar quem nasceu torta, rebelde a códigos, leis e respeito humano, sem régua nem compasso.

Antonieta Esteves Cantarelli toma do braço do pai, circula o olhar, sorri para as beatas, para o árabe Chalita, para o comandante e dona Laura, para Jairo, para o moleque Sabino, para Bafo de Bode a fitá-la da calçada, a medir e conferir. De tão mísero e podre, cabe-lhe o direito à insolência. A voz molhada de cachaça vibra na rua, em aprovação entusiástica:

— Viva o belo pé de buceteiro!

— Viva! Viva! Vivôo! — apoiam os meninos do catecismo.

 

DE PORTAS E JANELAS E DO CORAÇÃO DE JESUS NA SALA DE VISITAS OU

OS PRIMEIROS MOMENTOS NO SEIO

DA FAMÍLIA

 

NA ESQUINA DA PRAÇA COM O BECO das Três Marias, a

comitiva se detém.

— Chegamos — anuncia Perpétua. — Vamos entrar.

— Tua casa? Esta? A que era do doutor e de dona Eufrosina? — surpreende-se Antonieta. Nas cartas, Perpétua referia-se à “nossa casinha”, adquirida pelo major antes do casamento, na praça Desembargador Oliva. — Mas, aqui é a praça da Matriz.

— O nome correto é praça Desembargador Oliva — esclarece dona Carmosina.

A casa do doutor, a casa de Lucas. Antonieta veio preparada para enfrentar as recordações mas os equívocos começaram logo ao desembarque, ao perceber o velho empunhando o bastão. Nunca imaginara hospedar-se ali, na casa onde Lucas permanecera após a morte do doutor, estudando as possibilidades de clínica. Valeria a pena estabelecer-se?

Perpétua atribui a surpresa da irmã exclusivamente à dimensão da casa, sentimentos opostos a possuem. Satisfação a deleitá-la, não é uma morta de fome, miserável mendiga. Medo da reação de Tieta que pode considerar abuso o pedido de ajuda mensal para a criação dos filhos. Impõe-se uma explicação:

— Foi uma dádiva de Deus, caída do céu. O major pagou uma bagatela pela casa e tudo que tinha dentro.

Os amigos se despedem com promessas de visita próxima:

— Vamos aparecer uma hora dessas — avisa o comandante.

— Venham hoje de noite para se conversar.

— Hoje, não, é dia da família.

— Dia de matar saudades… — acrescenta dona Laura, sorridente.

— Amanhã, então.

— Amanhã, sem falta.

Pelo gosto de Ascânio, voltaria nessa mesma noite, não basta à família o resto da tarde? Além do mais, Leonora é parente afim, encontra-se em Agreste pela primeira vez, não tem saudades a matar, vai ficar à margem da conversa familiar. Pena ele não ter a caradura de dona Carmosina:

— Pois eu venho é hoje mesmo, com mãe. Quando saí ela me disse: Hoje de noite vou em casa de Perpétua, visitar Tieta.

— Trouxe uma lembrancinha para ela, uma tolice. Por que não vêm jantar com a gente? Posso convidar, Perpétua?

— A casa é sua. Graças a Deus, tem comida com fartura.

Antes mesmo de tomar banho — preciso de um banho imediatamente, tenho poeira até na alma, aliás precisamos, as duas —, Antonieta esclarece:

— Enquanto nós estivermos aqui, a despesa da casa corre por minha conta.

Perpétua esboça um gesto de protesto, não chega a completá-lo, a ricaça corta qualquer tentativa de discussão:

— Se não for assim, pegamos nossas malas e vamos para a pensão de Amorzinho.

— Nesse caso, não discuto… — apressa-se Perpétua a concordar, liberta do peso maior. Resta o menor: as despesas feitas para acolhê-las convenientemente, divididas entre ela, Astério e o velho.

Nem esse prejuízo terão, Antonieta completa:

— Começando pelo que já gastaram para nos esperar.

— Ah! Essa não! — intromete-se Elisa: — Uma besteira, coisa à-toa. Fizemos uma vaquinha, coube um pouco a cada um.

— Tu fala como se fosse rica — Perpétua desmascara a irmã, não há coisa pior do que pobre metido a besta: — Se esquece que Astério teve de tomar dinheiro emprestado a Osnar para completar a parte de vocês?

— Cala a boca, mulher! — Elisa empalidece. Perpétua a humilha de propósito em frente à irmã e à forasteira. Por que expor diante da enteada a pobreza do casal?

— Perpétua tem razão, Elisa, minha filha. Se eu não pudesse, está certo. Mas por que hão de fazer sacrifícios sem necessidade? Mais tarde Perpétua ou Astério me diz quanto gastaram e pronto.

Enquanto fala, Antonieta aproxima-se, abraça Elisa, beija-a afetuosamente — há entre elas um ar de família, uma parecença no rosto e no jeito, só que a mais moça não herdou a obstinação, a teimosia do velho Zé Esteves a marcar Perpétua e Antonieta, aquela dureza de pedra, a audácia das cabras. Mas não herdou tampouco a resignação da mãe.

— Não tenha vergonha da pobreza, minha filha. Hoje possuo alguma coisa mas enquanto fui pobre — eu comi o pão que o diabo amassou —, nunca me fiz de rica. Se fizesse, quem ia me ajudar? Nem bem conheci Felipe, fui logo pedindo dinheiro emprestado a ele.

Acarinhada, tratada de filha, Elisa recupera as cores e o prejuízo:

— Pediu dinheiro emprestado ao noivo?

— Que noivo nem meio noivo, só depois é que veio o noivado. Quando fui apresentada a ele, estava tesa. Um dia, com mais tempo, eu conto. Agora, quero é tomar banho. Queremos, não é, Nora?

— Nora?

— É o apelido dela. Essa, eu criei. Veio para minha companhia menininha, o que sabe, eu ensinei. Onde fica nosso quarto?

— O seu aqui, Tieta, é a alcova. O de Leonora ali, aquele — aponta Perpétua. — Cardo, Peto, levem as malas. Ajude também, Astério.

Por que Tieta não protestou, não pediu para ficar junto com a filha de criação como exigiam as boas maneiras? A janela da alcova abre sobre o beco das Três Marias, a porta face a face com a do gabinete.

— Dorme alguém no gabinete?

— Ricardo.

— Eu, tia. Qualquer coisa que precise de noite, é só chamar.

Moreno, alto e forte, a suar saúde e inocência na batina. Se fosse em São Paulo usaria cabelos nos ombros, não tomaria banho, puxaria fumo, perdido maconheiro como os filhos de tantos amigos seus: Antonieta está cansada de ouvir histórias tristes. Sorri para o sobrinho.

— Se o bicho-papão quiser me pegar, grito por você. — Está tocada pelas atenções e gentilezas: — Tomaram tanto incômodo por nossa causa.

— Demais. — A voz musical de Leonora, em tom menor, não se eleva nunca: — A gente pode ficar as duas no mesmo quarto.

— Agora já está tudo determinado, é tarde — diz Tieta, por que diz? A sombra de Lucas, na alcova.

Astério, Ricardo e Peto sem sapatos, conduzem malas e pacotes.

— Cuidado com essa caixa, Peto. É frágil. Aliás, o melhor é eu entregar logo.

Antonieta toma o embrulho majestoso, coloca-o sobre a mesa da sala de jantar, em torno à ansiosa curiosidade dos parentes:

— Uma lembrança para tua casa, Perpétua.

Experiente, Astério desfaz os nós do cordão encerado, enrola-o, dobra o papel grosso, ótimos, mesmo sujos serão úteis na loja. Cresce a ansiedade ante o vistoso papel para presente, fita cor-de-rosa, larga, o laço formando uma flor.

— A fita você desata, Perpétua — Astério cede-lhe o lugar.

Contendo o alvoroço, Perpétua toma da ponta da fita, lê a etiqueta: loja do senhor jesus — objetos religiosos à vista e a prazo. pague sua devoção em doze meses. Será, por acaso, aquilo com que há tanto tempo sonha, acalentado projeto de compra, encomenda a ser feita na Bahia? Teria havido inspiração divina a comandar a escolha, iluminando o pensamento de Tieta? Deus, por vezes, usa empedernidos pecadores como instrumento para recompensar os justos.

Puxa a fita, surge a caixa branca. Retira a tampa, entrega-a a Astério — de que matéria é feita assim tão leve? Isopor, explica Antonieta ao cunhado. Uma exclamação geral, de admiração e aplauso. Do peito em chamas de Perpétua escapa um oh! de gozo profundo ao enxergar, na caixa de isopor, o objeto de seus sonhos, apenas bem maior em tamanho e em boniteza, em virtude certamente. Quanto maior, mais bonita e cara a imagem, mais santa e milagrosa. Deus inspirara Antonieta: na caixa, alto-relevo em gesso, o Sagrado Coração de Jesus. Nos cabelos, na face, nas mãos, nas vestes, no manto, todas as cores do arco-íris. Exposto o rubro, amantíssimo coração, a chaga aberta. A gota de sangue semelha descomunal rubi. Peça digna do altar-mor da matriz de Aracaju. Ajudada por Astério e Ricardo, com extremo cuidado Perpétua retira a pesada efígie — nem quadro nem escultura, tendo algo dos dois e sendo coisa nova, jamais vista em Agreste, alto-relevo para ser pendurado em parede. Nas costas, forte armação de arame; à parte, uma espécie de base de madeira onde pousá-lo. Até os pregos vieram, grandes, especiais, de aço cromado, coisa de ver-se. Tieta respira:

— Felizmente chegou inteiro. Para você botar em sua sala de visitas, Perpétua.

— Ai, que coisa mais divina! Até tenho palpitações. Não sei como agradecer, mana!

Perpétua beija a irmã na face, de leve e de longe. Assim beija os filhos e a mão de d. José, a do padre Mariano. Ao major, como teria beijado? Se lhe fosse perguntado, Perpétua responderia que os casais unidos em santo matrimônio, abençoados por Deus, têm direito ao convívio carnal. Direito e obrigação. Mas certamente não diria que da lembrança daqueles beijos ela vive.

Peto alisa o isopor:

— Dá a caixa pra mim, mãe?

— Está maluco? Largue essa caixa aí. Deixe também o papel e o cordão, Astério. Posso precisar.

— Vou buscar o martelo, mãe? — Ricardo se oferece, segurando a peanha.

— Não tem nenhum que se compare nem aqui nem em Esplanada. O de dona Aída e de seu Modesto, ao lado desse, desaparece — vangloria-se Perpétua.

— Irmã como essa é que não há igual no mundo. — Mesmo ao adular, Zé Esteves é bravio e virulento.

Para Perpétua não é hora de discutir qualidades e defeitos de Tieta, nem sequer a maneira imprópria como conduz a viuvez. O ouro paulista, a comenda papalina, a imagem do Coração de Jesus fazem-na perfeita.

— Tem razão, pai. Irmã generosa como Tieta não há.

Custa-lhe pronunciar as palavras mas o futuro dos filhos exige sacrifícios, o major os deixou aos seus cuidados.

Ao voltar, Ricardo não encontra a tia; preparam-se, ela e a moça, para o banho. Os demais encontram-se na sala de visitas. Astério segura a peanha, Perpétua já escolheu o lugar para a divina imagem: entre os retratos coloridos, ela de noiva, o major de farda — trabalho de uma firma do Paraná, encomenda feita logo após o casamento. Ricardo encosta a escada na parede, empunha o martelo. Não chegou ainda a uma conclusão sobre a santa com a qual a tia se parece. Antes de vê-la, ele a imaginara Senhora Sant’Ana, a padroeira, a avó. Da Senhora Sant’Ana não tem nada. Talvez santa Rosa de Lima, santa Rita de Cássia? Elisa estende os pregos ao sobrinho. Aqui, mãe, está bom?

De cima da escada, Ricardo enxerga a tia saindo da alcova, levando a toalha de banho e a saboneteira, o banheiro fica no quintal. Morena, onde a longa cabeleira loira do desembarque? Cabelos negros, crespos anéis como os dos anjos na igreja do seminário. Pele trigueira, perna e coxa aparecendo sob o negligê agitado pela brisa, Ricardo desvia os olhos. Perpétua fita a parede, talvez um pouco acima, aí está bem. Não vê a irmã aproximando-se, à la vontê no robe rendado sobre os seios, vaporoso, preso apenas por um cinto, esvoaçando na brisa da tarde a morrer nas barrancas do rio. Não vê ou não quer ver? Tieta olha e aprova, vai ficar bacana. Elisa, babada com o santo e com o penhoar.

— Que amor, esse robe!

Perpétua prefere não reparar:

— Vou falar com padre Mariano para vir entronizar no domingo, depois da missa.

Nem santa Rita de Cássia, nem santa Rosa de Lima, com que outra então no flos-santório? A caminho do banho, as ancas balouçando, que santa será ela, a tia de São Paulo?

 

CAPÍTULO DOS PRESENTES

ONDE SE ABRANDAM CORAÇÕES E

TOMBA INESPERADA LÁGRIMA

 

A CERIMÔNIA DA ENTREGA DOS PRESENTES REALIZA-SE

APÓS O JANTAR, festa de exclamações e risos: recolhidos os pratos pela pequena Araci, retirada a toalha, Antonieta roga a Ricardo e Astério busquem na alcova a mala azul, a grandona, única ainda fechada. Colocam-na sobre a mesa, Astério encarrega-se de abri-la. Risinhos nervosos, a família na expectativa, Peto indócil alongando o pescoço para espiar dentro da valise. Também Leonora trouxe do quarto uma bolsa de viagem e, tendo descerrado o zíper, a mantém no colo, caixa de surpresas.

Cabem a Zé Esteves as regalias de prioritário: num estojo de luxo, relógio e pulseira de ouro — banho de ouro:

— Repare a marca, pai. Vosmicê sempre desejou ter um relógio Omega, me lembro da inveja que tinha do patacão do coronel Artur da Tapitanga. Por falar nele, ainda é vivo?

— Vivo e lúcido. Não tarda a aparecer. Pergunta sempre por você. — Quem informa é dona Carmosina, pimpona ao lado de dona Milu.

— Já não tenho vaidade, minha filha. Nem vaidade nem relógio desde que o meu se quebrou e Roque não deu jeito. Agora vou poder ver as horas de novo. Estou voltando a ser gente, depois que tu chegou.

Leonora mete a mão na bolsa:

— E aqui tem um radinho de pilha, um transistor, para o senhor e dona Tonha ouvirem música, seu José.

— Tomando trabalho com a gente, moça! Um rádio? Quem vai ficar contente é Tonha, não é mesmo, mulher? Vive me azucrinando os ouvidos para comprar um…

Tonha concorda, contente demais, tanto desejara! Certa vez realmente atrevera-se a insinuar a compra de um dos mais baratos, insinuação primeira e única, levara esporro medonho: tu quer que eu esperdice o dinheiro que minha filha me manda? E se a gente adoecer? E quando a gente esticar a canela? Tu pensa que alguém vai pagar médico e receita, padre e cemitério? Não me peça para botar dinheiro fora. Ficou maluca?

A própria Nora coloca pilhas no pequeno aparelho, irrompe o som de um samba, prefixo de estação de Feira de Santana.

— Maior do que o nosso… — sussurra Elisa a Astério. Quem sabe o pai aceita trocar, ficar com o deles, recebendo volta em dinheiro. Tieta pagou a cota das despesas e, separando o de Osnar, a sobra a gente pode…

Não será necessário trocar pois Antonieta tira da mala imponente aparelho, sofisticado, quantidade de botões, várias faixas de onda, antena embutida, entrega à irmã: para você e Astério, é japonês, não há melhor.

— Valha-me, minha Nossa Senhora! Tieta, você é demais! — Elisa em nova chuva de beijos, agradecendo o rádio e o perdão: dona Carmosina lhe confirmou já ter esclarecido o assunto da morte de Toninho, não se preocupe onde e quando, não pense mais nisso. — Veio com pilhas? Quero ouvir o som agora mesmo.

— Devem estar colocadas. Funciona também na eletricidade. Essa carteira, Astério, é para você guardar o ganho das apostas no bilhar. E aqui tem mais umas bobagens para você, Elisa.

Sortimento completo de cosméticos. Cremes e pinturas, todos os produtos para maquiagem, quanta coisa, meu Deus, vou desmaiar! Ruge mais diferente, desse nunca vi. Experimente o batom cintilante, recomenda Leonora. No aparelho de rádio, sucedem-se estações da Bahia, do Rio, de Recife falando para o mundo, de São Paulo e, trocando de onda, veja! ao seu alcance os cinco continentes — que língua mais arrenegada é essa? Parece russo, mas é a Rádio de Belgrado, Belgrado é capital de que país? Da Iugoslávia, leciona dona Carmosina.

Foi assim, de música, risos e beijos, foi de festa aquele começo de noite. Como ela pôde adivinhar o gosto, o desejo de cada um? Como sabe das façanhas de Astério no bilhar? Dos sonhos de Cardo com a vara de pesca, o molinete, o fio de náilon, as iscas artificiais? Como adivinhou? Sorri dona Carmosina ao ouvir a pergunta repetida, sem resposta: inspiração divina. Para Peto traga qualquer coisa desde que não sejam livros de estudo, ele quer somente vadiar, nadar e mergulhar no rio, bater bola na rua com os moleques, assistir as partidas de bilhar; vai completar treze anos e cursa ainda o grupo escolar. Peto ganhou um equipamento de mergulhador: máscara, arpão, pés-de-pato. Aos dois jovens, Leonora ofereceu chaveiros com a efígie do Rei Pelé. A Astério, uma gravata. Mantilha cor de chumbo, de Nora para Perpétua. Para Elisa um anelão moderno, de fibra de vidro, a pedra enorme, cor de âmbar, a sensação da noite. O último lançamento da rua Augusta na capital paulista, Antonieta e Leonora têm iguais, só diferem na cor. Nora vai buscá-los. O meu está na caixa de jóias, em cima da penteadeira, avisa Tieta. Caixa de jóias, soa bem aos ouvidos dos parentes. Leonora exibe os dois anéis, verde-esmeralda o seu, branco-esfumaçado o de Tieta. Criações de um artista famosíssimo, Aldemir Martins, seus quadros valem milhões. Muito amigo do comendador, Tieta o conhece, conhece muita gente importante de São Paulo, na indústria, na política, no comércio, nas artes e nas letras. Menotti del Picchia freqüenta sua casa. Dona Carmosina, leitora de Máscaras e de Juca Mulato, quer saber do poeta, se é tão romântico em pessoa quanto sua poesia. Já está velhote mas vive cercado de moças bonitas, ainda não perdeu o apetite, conta Tieta.

Continuar: parte 2 de 5