Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 7 de 10 · parte 1/5

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Tieta do Agreste

Quinto episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

DO SOL AZUL E DA LUA NEGRA

OU

A RIVAL DE DEUS

 

COM MÁQUINAS DESCOMUNAIS, ASFALTO ESCORRENDO SOBRE

RUA, MANGUE, PRAIA E CARANGUEJOS,

APRESENTANDO-SE DESLUMBRANTE VISÃO DO FUTURO;

ONDE SE ASSISTE À FORMAÇÃO DE UM DIRIGENTE A

SERVIÇO DO PROGRESSO E SE ERGUE UM BRINDE À AMIZADE E

À GRATIDÃO; QUANDO EXPLODE EM

MANGUE SECO IMPETUOSO MOVIMENTO DE MASSAS,

AGRESTE IMPORTA ADVOGADOS E MÉTODOS JURÍDICOS,

PERSONAGENS SECUNDÁRIOS TORNAM-SE IMPORTANTES;

COM OS ESPONSAIS DE UM DONZEL,

ENRUSTIDOS SONHOS, REVELAÇÕES FAMILIARES,

IMPRUDÊNCIAS, AUDÁCIAS, RANGER DE DENTES E

UMA PALAVRA PRONUNCIADA EM LÍNGUA ALEMÃ —

VENDO-SE TIETA SUFOCADA DE AMOR, AUSÊNCIA E MORTE

 

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DO RÁPIDO ASFALTAMENTO DO CAMINHO POR ONDE PENETRARÃO EM AGRESTE

OS POSTES DA HIDRELÉTRICA, MELHOR DITO, DA RUA POR ONDE PENETRARÁ A LUZ DE TIETA OU DA MUDANÇA DE RITMO NA VIDA DA CIDADE

 

TUDO O QUE ATÉ ENTÃO FORA LETRA IMPRESSA EM

COLUNAS DE JORNAIS, bate-boca nas esquinas, confusas aparições de seres de difícil identificação, mesmo para Barbozinha, íntimo do sobrenatural, concretizou-se em realidade tangível e imediata com a presença matinal nas ruas de Agreste das pesadas e potentes máquinas da Companhia Baiana de Engenharia e Projetos — cbep. Atravessaram com grave lentidão a rua da Frente. Cavernoso ruído, formas excêntricas e grandiosas, o progresso em marcha.

Botando os bofes pela boca, os olhos arregalados, o moleque Sabino as precedera, vindo a toda dos campos da Tararanga onde dava abasto ao corpo aproveitando-se da viciosa docilidade da cabra Negra Flor, flor do rebanho do coronel Artur de Figueiredo. Na permissiva e gentil alimária, o rapazola resume o mulherio de Agreste a povoar-lhe as noites adolescentes: Elisa, esposa do patrão, Carol, manceba do ricalhaço, Edna, que não parece mas é casada com Terto, duas das primas de Seixas: a ligeiramente estrábica e a peituda, o resto um bagulho, a pequena Araci em cuja bunda se roça ao passar. Virente ramalhete, enriquecido com a chegada das paulistas, exóticas e sensacionais. Sabino esforça-se para respeitar dona Antonieta mas que fazer se, ao ajoelhar para lhe pedir a bênção, aprecia o cinema inteiro na transparência dos tecidos, nos descuidados decotes dos quimonos? Sem fôlego, o moleque atinge a loja de Astério, onde Osnar conversa agricultura e veterinária com o novo vizinho de terras. As palavras irrompem da boca de Sabino:

— Estão chegando uns tanques de guerra com canhão e tudo.

Aparece primeiro um jipe grande e veloz, passa em disparada em frente à loja. Surgem depois as lerdas máquinas e um caminhão transportando homens de macacão e capacetes, as mãos calçadas com grossas luvas de trabalho. Nada tem a ver com os veículos da hidrelétrica que de quando em vez trazem à cidade engenheiros e técnicos, em repetidas comprovações de cálculos para o itinerário dos postes.

Uma poderosa máquina com lâmina dianteira, uma dessas motoniveladoras que raspam o chão e aplainam a estrada, um rolo compressor e um carro químico, espalhador de asfalto. Excitado, Osnar levanta-se da cadeira onde estava escanchado, acena para Astério, toca-se em grandes pernadas para o sobrado da prefeitura. Uma leve esperança o conduz: quem sabe não estará no jipe a recordada Elisabeth Valadares, Bety para os colegas, Bebé para os íntimos? Na véspera de Natal, Osnar a perdera por questão de segundos. Ao chegar à praça, apenas pôde bispá-la no helicóptero, de onde, vestida de Papai Noel, acenava às massas com a mão. Acenara ele também e a ruiva miss, parecendo reconhecê-lo, lhe atirou um beijo.

Se bem toda essa história da Brastânio lhe desagrade ao extremo por vir perturbar os hábitos da cidade, tão caros a quem jamais quis sair dali, desejoso de viver tranqüilo, Osnar excetua Bety da maré da poluição. Competente e apetecível, ela lhe parece ser, sobretudo, uma vítima do sistema. Esperando seu retorno, tomara uma resolução extrema e se dispõe a cumpri-la agora mesmo, se por acaso a secretária executiva fizer parte do grupo embarcado no jipe: contar-lhe a história da polaca.

A famosa história da polaca de Osnar, como a experiência comprova, é chave mestra, abre o cadeado de qualquer xibiu, não falha. Nessa certeza marcha Osnar para a praça: pode ser que um dia essa fábrica de bosta se instale mesmo no coqueiral de Mangue Seco e, antes de tudo apodrecer, Bebé, proclamada Rainha do Agreste, o coração e os baixios sensibilizados com os emocionantes detalhes da história sem igual, queira experimentar a rigidez e o sadio sabor do pau não poluído de um sertanejo, gulodice de apetite.

Aproxima-se a tempo de ver um sujeito vestido de brim cáqui, empunhando uma pasta, saltar do jipe e encaminhar-se para a porta de entrada da prefeitura, deixando dois outros tipos no veículo. Resfolegam atrás as grandes máquinas, em respiração de pedra, truculenta. De Bety, nem sinal. Nem dela nem do cordial vigarista, falastrão e poliglota a cujas ordens obedece a incrementada ruiva. Desiludido, Osnar retira-se para o bar, dedicando-se, em companhia de seu Manuel, a azedos comentários em torno da Brastânio:

— Antes, pelo menos, mandavam umas fêmeas vistosas para a gente olhar. Agora, só dá macho.

— E esses trambolhos — seu Manuel aponta as máquinas — para que servem? A que se destinam?

— A nos fuder a vida, almirante, tu vai ver.

Na prefeitura, o indivíduo desembarcado do jipe entrega a Ascânio uma carta do dr. Mirko Stefano na qual o Magnífico, extremamente gentil, depois de cumprimentar seu “simpático amigo Ascânio Trindade”, apresenta-lhe o dr. Remo Quarantini, engenheiro-chefe da Companhia Baiana de Engenharia e Projetos — cbep que, à frente de um grupo de técnicos, vai a Agreste fazer o levantamento dos dados referentes à estrada, com vistas às obras indispensáveis: retificação do traçado, alargamento, pavimentação. Aproveitando a circunstância, leva com ele máquinas e operários para o asfaltamento da rua, cumprindo assim a Brastânio promessa feita à comuna por intermédio dele, Mirko. Termina convidando o prezado amigo a comparecer com a maior urgência à capital baiana para importante conferência com elementos da diretoria da empresa sobre os problemas relativos à instalação da indústria de dióxido de titânio na região. Tem boas notícias a dar, quer fazê-lo pessoalmente. Antes de assinar a carta, com abraços cordiais, avisa que as despesas de viagem correrão por conta da Brastânio, desejosa de não pesar no orçamento da prefeitura. “Até breve, caro amigo, conto com sua presença. Aproveite a condução e a companhia e venha com o doutor Remo que, além de tudo, é um emérito contador de anedotas.”

Olhando-o, ninguém diria tratar-se de emérito contador de anedotas: careca, barbas loiras, longas e emaranhadas, cara típica de quem comeu merda e não gostou, silencioso. Nem por isso Ascânio deixa de lhe apresentar calorosas boas-vindas em nome das autoridades e do povo do município, de colocar-se às suas ordens prevenindo-lhe, ao mesmo tempo, da intenção de acompanhá-lo na viagem de volta, disposto a regalar-se com o hilariante repertório. Enquanto no interior da prefeitura sucedem essas etiquetas, na praça, curiosos e desocupados examinam os Caterpillars, boquiabertos. Peto, a quem viaturas e máquinas interessam quase tanto quanto os mistérios do sexo, descreve-lhes a utilidade e cita-lhes apelidos. Patrola, melosa e rolo compressor destinam-se a abrir ruas e a pavimentá-las. Não com as pedras desiguais com que o avô de Ascânio, em tempos prósperos, calçara a praça da Matriz, a rua da Frente, a praça do Mercado (desde então praça Coronel Francisco Trindade) mas com negro asfalto, calçamento conhecido apenas por aqueles que já viajaram pelo menos até Esplanada, Peto entre eles: três vezes acompanhara Perpétua à cidade vizinha e uma a Aracaju, quase um globe-trotter. Começam a acontecer novidades de monta, não há dúvida. Não se trata mais de conversa fiada.

O engenheiro faz perguntas sobre a estrada. Desculpe-lhe a franqueza: aquele caminho de mulas não merece ser tratado sequer de estrada carroçável. Trilha incerta, estreita picada repleta de lombadas, lamaçais, cacundas, valetas, crateras, em suma, uma escrotidão. Será necessário refazê-la por completo, modificando-lhe talvez o traçado, considerável mão-de-obra. Ascânio fornece alguns dados mas somente Jairo, proprietário da marinete, familiar da travessia, pode dar informação precisa, quando chegar de Esplanada.

Um sorriso zombeteiro desenha-se no rosto macambúzio do dr. Quarantini: na saída de Esplanada haviam deixado para trás o extraordinário veículo, tão obsoleto a ponto de ser ultrapassado pelas máquinas de marcha reduzida. Realmente, quem a leva e traz deve conhecer aquela buraqueira palmo a palmo. Ascânio recomenda-lhe prudência no trato com Jairo: o dono da marinete anda de mau humor desde que vira no jornal mural da prefeitura o desenho dos magníficos ônibus previstos para o serviço de passageiros na nova estrada, essa que o engenheiro vai traçar e construir.

Falando nisso, solicita ao engenheiro um minuto de seu precioso tempo para admirar o jornal mural, antes de ir ver o trecho a asfaltar pelo qual, aliás, vem de passar pois fica na entrada da cidade. O barbudo, diante do desenho, concede outro sorriso, dúbio. Ascânio fica sem saber se devido à discutível vocação artística de Lindolfo ou ao entusiasmo, demonstrado no mural, pela Brastânio e seus efluentes progressistas. O visitante não comenta nem os desenhos nem as afirmações em letras coloridas:

— Vamos indo. Quanto antes se comece, melhor.

Tem pressa. Excetuando-se dr. Mirko Stefano, pausado e calmo, todas as demais pessoas ligadas ao progresso não admitem perder tempo, estão sempre correndo, impacientes. Seguindo o careca para o jipe, Ascânio comprova que ele próprio deve mudar de ritmo. Distante da capital, habituara-se, nos últimos anos, ao lento compasso das horas de Agreste.

Jipe, caminhão e máquinas descem a rua, acompanhados pela massa crescente de basbaques. Na entrada da cidade param, despejando técnicos, capatazes e operários. Ascânio, os dois engenheiros e o fiscal da companhia percorrem o trecho de caminho a ser pavimentado, a futura rua Antonieta Esteves Cantarelli.

— Esse pedacinho, só? — Dr. Quarantini dirige-se aos capatazes: — Não precisa armar as tendas, essa bobagem a gente fatura hoje mesmo. Pensei que fosse coisa de vulto. — Fala para Ascânio: — Muito bem, meu caro, vamos meter mãos à obra. Quem sabe o amigo pode providenciar a gororoba para o pessoal e uns cascos de cerveja? E almoço para nós. Tem algum restaurante que preste? Pelo jeito… — Um desanimado gesto de resignação: — Qualquer coisa serve.

— Fique descansado, cuidarei disso. Que horas pensa voltar?

— No fim da tarde. Vamos fazer o possível para terminar antes do pôr-do-sol. Dá, não dá, Sante?

Sante, possante mulato a mastigar uma ponta de charuto, confirma:

— Demais. — Ordena aos homens: — Toca o bonde.

Cavaletes pintados de amarelo demarcam os limites onde o trânsito torna-se proibido, os curiosos são afastados, as grandes máquinas entram em ação. Acotovelando-se por detrás dos cavaletes, sob o sol intenso, o povo acompanha atento o desenvolvimento do trabalho. A patrola levanta, espalha a terra e a aplaina, sua pá enorme causa admiração. Ainda mais o rolo compressor, indo e vindo nos cem metros do caminho, sujeitando a terra solta, transformando-a em sólido leito de rua. Da rua Antonieta Esteves Cantarelli, curta mas asfaltada, primeira beneficiária do progresso trazido pela Brastânio. E ainda há quem fale mal da grande indústria, reflete Ascânio, revoltado com as injustiças do mundo. Percorre com o olhar os curiosos, constata a admiração geral. Caloca, dono do Bar Elite, cacete-armado onde vende cachaça no beco da Amargura, sintetiza a opinião geral:

— Porreta! Vá trabalhar depressa assim na puta que pariu!

Vitorioso, o coração aos pulos, o secretário da prefeitura de Agreste retira-se para tomar outras providências. Passa na pensão de dona Amorzinho, encomenda comida para toda a equipe. Ele e mais três virão almoçar na sala da pensão, os trabalhadores comerão no próprio local de trabalho — faça um bom feijão e cabrito assado. Quem paga é a prefeitura, não vá cobrar aos homens. Dirige-se, a seguir, à casa de Perpétua para contar as novidades a Leonora, comunicar-lhe a inesperada ida à capital. Dar-se-á ela conta da importância dessa viagem que poderá transformar o namoro sem perspectivas, um sonho absurdo, em exaltante realidade de noivado e casamento? Voltará trazendo o requerimento da Brastânio dirigido à prefeitura, solicitando autorização para se instalar em Agreste. Somente isso? O horizonte é amplo em sua frente.

Em companhia de Ascânio, ao meio-dia, os dois engenheiros e o fiscal da obra comem o melhor almoço de suas vidas: pitus fritos, aferventados, escalfados com ovos, moqueca de peixe, galinha de molho pardo, cabrito assado, carne-de-sol com pirão de leite. Doces de sabores raros: de jaca, carambola, groselha, araçá-mirim. Passas de caju e jenipapo. Refrescos de mangaba e de cajá. O sorumbático engenheiro-chefe comeu tanto, com tal disposição, a ponto de aflorar-lhe às faces desbotadas um ar de viço. Deixando o calçamento por conta do colega, estende-se numa rede para só acordar no fim da tarde, a tempo de assistir a conclusão dos trabalhos.

Quando, depois da bóia, a marinete de Jairo buzinou na curva, os operários ainda no prazer do feijão e da cerveja — o feijão de dona Amorzinho, não um feijão qualquer — acabavam de passar a primeira camada de piche grosso e reluzente sobre o aplainado terreno. Retiraram os cavaletes para abrir caminho à resfolegante viatura, saudando-a com assovios e dichotes: ferro-velho, calhambeque podre, sobra de guerra, lixo; imensa vaia a acompanha.

Por volta das seis horas, maleta em punho, Ascânio aparece, de braço dado com Leonora. O calçamento chega ao fim. Brilha o betume, úmido e negro. Saindo do carro químico, um tubo asperge uma última camada de asfalto fino. Está pronta para ser inaugurada, a rua Antonieta Esteves Cantarelli.

Caloca aproxima-se de Ascânio, pede, provocando risos:

— Seu Ascânio, aproveite e mande eles calçar o meu beco, fazem num minuto.

Ainda sonolento, o engenheiro Remo Quarantini ordena a partida, que almoço! Ascânio despede-se de Leonora, beijando-a na face diante da multidão. Deixa-a junto de dona Carmosina, na primeira fila dos curiosos. Não resiste e provoca a adversária e amiga:

— Conheceu, papuda?

Não espera a resposta. O engenheiro, no jipe, pede pressa, toca a buzina. De agora em diante faz-se necessário correr, terminaram-se os tempos de leseira. De leseira ou de lazer?

ONDE SE SABE DAS

MÁQUINAS NA ESTRADA

OU JAIRO, O JUBILOSO

 

POIS ASSIM É: UM DIA DA CAÇA, OUTRO DO CAÇADOR

OU RI MELHOR quem ri por último. Extinta a luz do motor ao toque das nove no sino da matriz, acionado por Vavá de mão ainda enfaixada, soam palmas insistentes na porta da casa do humilhado Jairo.

Apresenta-se um ajudante de chofer, membro da equipe de asfaltadores, bons de vaia e de achincalhe. Solicita ferramentas emprestadas e, se possível, a presença de Jairo, seu precioso auxílio. Duas das máquinas encontram-se quebradas na estrada, apenas o rolo compressor prosseguira a marcha para Esplanada. Quanto ao jipe e ao caminhão com os operários, ao sair de Agreste tocaram-se na frente e a essas horas já devem estar próximos à Bahia. O moço veio a pé, está morto de sede, aceita um copo com água. Desculpe o incômodo.

— Onde se deu?

— Pertinho daqui, todas duas. Uns sete ou oito quilômetros. Naquela lombada, sabe, onde tinha um mata-burro meio rebentado. Acabou de rebentar com o peso da patrola que afundou. A outra nem chegou lá. Deu galho antes.

Cabe aos vitoriosos a generosidade. Magnânimo, Jairo coloca-se às ordens:

— Vamos ver isso. Não há de ser nada. Dá-se um jeitinho.

Dirige-se à garagem. Acaricia a marinete, murmura-lhe palavras de carinho e confiança:

— Vamos socorrer os ricos, meu Disco Voador, eles te chamaram de lixo, de ferro-velho, agora chegou nossa vez. Veja como se comporta, esqueça as manhas. Não vá fazer feio, me deixar na mão, prove seu valor, minha sensual.

A manhosa e sensual comporta-se à altura. Desenvolve apreciável velocidade, o motor não rateia nem uma só vez. Bichinho bom, constata o ajudante de chofer ao vê-la prosseguir, indiferente a crateras, atoleiros, cacundas, abismos. Impávida e serena, ao som de música pois, por incrível que pareça, até o rádio russo funcionou.

Jairo presta a ajuda solicitada, sobra-lhe competência. Postas as máquinas em ordem, meia-noite passada, sem esperar agradecimentos, limpa as mãos na estopa, sobe o degrau da porta, liga o motor, a marinete parte soltando a descarga de despedida. Beleza de descarga!

Obrigado, Estrela do Sertão; vamos em frente, minha picurrucha.

 

DAS PREOCUPAÇÕES DO NOVO-RICO

 

CRESCE O MOVIMENTO, MODIFICA-SE A CADÊNCIA. NO

CASO CONCRETO de Astério, promovido de modesto comerciante a novo-rico, de capitão a major, a responsabilidade cabe à cunhada rica de São Paulo e, se intervenção houve da Brastânio, foi indireta e casual. De qualquer maneira, também para ele o ritmo da vida acelerou-se.

Antes, passava manhã e tarde na loja, despachando reduzida freguesia, vendendo uns poucos metros de fazenda, uma camisa de homem, uma saia de mulher, uma dúzia de botões, agulhas e carretéis de linha, quinquilharias, bagatelas. Sobrando-lhe tempo para transar com os amigos, sobretudo com o indefectível Osnar, ouvindo fuxicos, comentando acontecidos, saboreando histórias da “trepidante vida noturna de Agreste” (como diz o sarcástico Aminthas), pondo-se a par das qualidades das últimas raparigas recrutadas por Zuleika Cinderela. Dias antes, lhe haviam falado de uma novata, moderninha, quinze anos incompletos, dona de um traseiro que, a continuar se desenvolvendo, será, em breve, o mais vistoso de Agreste; viera do Arraial do Saco e se chama Maria Imaculada.

No começo da tarde, hora morta, deixava o moleque Sabino tomando conta do balcão, ia dedicar-se a longos treinos nos dois brunswicks do bar. Agora, tem de se desdobrar, dividindo-se entre a loja e as terras e as obras da casa de Tieta.

Ida matinal a Vista Alegre, para fiscalizar rebanho e plantação, colocados sob os cuidados imediatos de Menininho, filho de Lauro Branco, arranjo de Osnar:

— Roubado, major, você vai ser de qualquer maneira, bote quem botar, então, é melhor que seja pelo compadre Lauro que a gente sabe que rouba sem exagero e, tirante isso, é homem sério e trabalhador. Menininho é bom de enxada, sabe cuidar das cabras e tem o compadre ao pé para aperrear. Desde que você controle, como eu faço, a coisa anda.

Corre da loja para as obras em vias de acabamento, na casa comprada a dona Zulmira. O velho Zé Esteves plantava-se ali o dia inteiro, azucrinando mestre Liberato, dando esporro nos operários, ameaçando Deus e o mundo. Astério precisa impedir que, com a falta do velho, o trabalho se arraste justamente quando chega ao fim. Prontos os sanitários, os melhores de Agreste, com chuveiros e banheiras, latrinas de luxo, bacanérrimas, começada a pintura, pouco falta para a casa estar habitável. Aliás, o plano de Astério é efetuar a mudança quanto antes, mesmo não estando completa a reforma. Duas vantagens: deixará logo de pagar aluguel e com eles dentro de casa as obras andarão mais depressa. Já deu ordens a Elisa para arrumar os teréns.

A morte do velho Zé Esteves viera abrir-lhes o caminho da prosperidade. Mandioca e cabras, terras. Quem possui terras é dono de um pedaço do mundo, repetia o sogro, lastimando o perdido patrimônio. Casa porreta, senão própria pelo menos gratuita, uma das melhores residências da cidade. Digna moldura para a beleza e a elegância de Elisa.

Elisa o preocupa. Anda de cabeça baixa, lacrimosa, pelos cantos. Nem parece haver recebido tantos e tamanhos benefícios, provas de amor fraterno poucas vezes vistas em Agreste. Nunca vistas. Tieta é mão-aberta, mais do que generosa, perdulária. Não obstante, Elisa se comporta como se houvesse sido ofendida ou maltratada. Astério não lhe vira mais um único sorriso nos lábios desde aquela tarde, no dia seguinte ao enterro do velho, quando Tieta anunciou a compra da Vista Alegre em nome do casal. Por mais de uma vez Astério lhe perguntou o que tem, qual o motivo dessa tristeza, Elisa respondeu que não tem nada, tristeza nenhuma, não se preocupe com ela. Não rira nem mesmo quando ele lhe comunicou estar Osnar disposto a propor à secretária executiva do tal homem da Brastânio, aquela de faixa prateada na cabeleira ruiva, se lembra?, o mesmo que propôs à polaca, imagine o despropósito!

Inacreditável: Elisa ficara arrasada com a morte do velho. Enquanto ele viveu, em nenhum momento Astério percebera qualquer demonstração de amor profundo, entre filha e pai. O medo, isso sim, Elisa não conseguia esconder. Confusamente Astério se dá conta de que ela se casara sobretudo para libertar-se da tirania paterna, da prisão familiar, do cajado e da taca de uso permanente. Mesmo depois de casar as filhas, o velho se impunha, a elas e aos genros. Jamais Astério o ouvira pronunciar uma palavra de carinho, esboçar um gesto de ternura, nem sequer para confortar Elisa quando do passamento de Toninho. No velório do major, Perpétua por uma vez desfeita em lágrimas, inconsolável, Zé Esteves escarnecera:

— Nunca mais arranja outro, perca a esperança. Idiota dessa espécie aparece um em cada século e olhe lá.

Vivia a acusar Astério devido ao assunto do cheque usado para descontar a duplicata. Transcorriam os anos e o carrasco continuava a lançar na cara da filha, quando não do genro, aquela falcatrua, ameaçando de cadeia se a repetisse.

Meu Deus, como é difícil entender as pessoas! Pensou que Elisa fosse respirar, finalmente liberta do medo, medo do pai e da miséria. Feliz com o presente da irmã, solução para os problemas de dinheiro a agoniá-los, além da nova residência a lhes dar status de ricos, lugar proeminente na sociedade de Agreste. Ao contrário, Elisa parece inconsolável como se, ao perder o pai, houvesse perdido qualquer esperança de felicidade.

Astério não é exatamente um psicólogo apesar das demonstrações intelectuais fornecidas nas carambolas ao bilhar, cálculos exatos, milimetrados, perfeitos; certas tacadas suas são obras de arte. Mas as complicações no comportamento das pessoas, calundus, choradeiras, fossas, o perturbam e o apoquentam. Talvez dona Carmosina, tão inteligente e lida, possa entender e explicar. Tieta também, nada lhe escapa.

Quando conversaram, ele e Tieta, a propósito do desejo de mudança para São Paulo, expresso por Elisa, a cunhada o aconselhara a botar rédea curta na esposa, a seguir o exemplo do velho Zé Esteves e até falara no bordão.

Tão bondosa, coração de ouro, todavia, em certos instantes, Tieta se parece com o velho. Erguer a voz contra Elisa? Trazê-la de rédea curta? Mas por que, se ela é tão direita e dedicada, dona-de-casa cuidadosa, sem falar na beleza e na elegância?

Recordando tais virtudes da esposa, comove-se Astério. Que mal existe em choro e tristeza de filha, lastimando perda de pai? Com o tempo passará. Mais dia menos dia voltará a ser a mesma Elisa, ostentando o ar distante e um pouco esnobe, um tanto melancólico que lhe vai tão bem. A mulher mais bela e elegante da cidade; outrora pobre, hoje proprietária de terras, quem tem terras é dono de um pedaço do mundo, frase do velho excomungado. Dona de uma senhora bunda. Falaram a Astério de uma tal Maria Imaculada cujo traseiro, sendo cuidado, um dia… Tolice. Igual ao de Elisa, nenhum, por mais se esforce a natureza.

 

ONDE SE ERGUE UM ÚLTIMO BRINDE À AMIZADE E À GRATIDÃO

 

VOZ DE GALHOFA, AMINTHAS PERGUNTA, AO VER

PASSAR, APRESSADO, suando em bicas, pasta negra sob o sovaco, a potente figura do dr. Baltazar Moreira, bacharel em direito com escritório em Feira de Santana.

— Será que escolheram Agreste para sede de algum congresso de juristas? Onde a gente chega, tropeça num advogado.

Osnar descansa o taco, constata a diferença de pontos a separá-lo de Fidélio, já não vê possibilidade de recuperação e vitória, assume o papel de hierofante em geral exercido pelo poeta Barbozinha:

— Quando os urubus aparecem, é sinal de carniça. Isso aqui vai feder.

Adiadas as partidas decisivas do campeonato, devido à viagem de Ascânio à capital, os candidatos ao Taco de Ouro contentam-se com desafios amistosos, à base de apostas de garrafas de cerveja. De pé para melhor observar o jogo de Fidélio, seu próximo adversário nas semifinais, Seixas intervém:

— Ainda bem que vai feder. Vamos sentir o cheiro do petróleo, do enxofre, dos gases das indústrias químicas. Fedor de progresso, Osnar. Não é mesmo, Fidélio?

No espanto da pergunta inesperada, Fidélio reage:

— Que é que eu tenho a ver com isso?

— Você não é um dos Antunes, um dos herdeiros do coqueiral? Todo mundo ouviu o doutor Franklin dizer, no cartório. Ou você pretende esconder sua riqueza da gente? Está aí, está milionário, sócio da Brastânio, pronto para poluir Mangue Seco. Garanto que um desses advogados veio a seu pedido, não é? Qual deles? Solte a língua, conte a seus amigos.

Fidélio suspende a tacada, fala sério, sem achar graça na provocação do parceiro:

— Não preciso de advogado. — Volta à tacada e à habitual reserva.

— Se você quiser, eu posso me ocupar de seu caso. — Seixas persiste na pilhéria sem ligar para a tromba do companheiro: — Para começar, lhe aconselho juntar seus trapinhos com os de dona Carlota que é outra candidata ao coqueiral, casamento com comunhão de bens, Antunes com Antunes. Além de tudo, você pega um cabaço enrustido, de antiquário, digno de museu.

Fidélio liquida a partida, uma última carambola, tenta liquidar também com a zombaria que evidentemente não lhe agrada:

— Não preciso nem de advogado nem de conselheiro. Meta-se com sua vida… Sua intenção, eu sei qual é: me irritar, me pôr nervoso para eu perder quando jogar com você. Isso é uma safadeza.

Abespinha-se Seixas:

— Só estava fazendo uma brincadeira, sem nenhuma intenção. Para ganhar de você, não preciso disso, já ganhei muitas vezes. Não admito que me chame de desonesto.

Osnar, tendo guardado o taco, corta a discussão:

— Que besteira é essa? Vamos acabar com isso. Deixem que a carniça apodreça longe da gente. Eu disse que vai feder e ajunto: vai feder e ferver. Mas quem quiser discutir sobre essas porcarias, vá discutir longe daqui. Nossa chacrinha não tem nada a ver com isso. Há quantos anos somos amigos? — Muda de assunto: — Se vocês garantem não falar a Astério, conto uma surpresa que estou planejando fazer.

Seixas ainda resmunga, Fidélio mantém silêncio, Osnar continua:

— Vocês sabem que o sargento Peto vai completar treze anos por esses dias? Estou acertando com Zuleika uma grande festa para o sábado que vem, para comemorar a data.

— Com Zuleika? Por que com ela? — espanta-se Seixas, um resto de mágoa na voz: — Aniversário de garoto, se festeja em casa dos pais com guaraná, Coca-Cola, mesa de doces, umas festinhas que são o fim da picada. Mas se dona Perpétua comemorar, tenho de ir para levar Zelita, minha prima mais moça, de onze anos. Ela adora.

Osnar sorri para Seixas, agradecido. A conversa toma rumo a seu gosto. Está cansado de ouvir bate-boca sobre fábrica e poluição, atualmente não se fala de outro assunto em Agreste. Nem o rápido avanço dos postes da hidrelétrica do São Francisco, tema de entusiásticos comentários ainda havia uma semana, consegue agora desviar as atenções do problema a dividir a cidade desde que as máquinas da cbep, a mando da Brastânio, asfaltaram num piscar de olhos o antigo Caminho da Lama, futura rua Antonieta Esteves Cantarelli. Segredo mal guardado, a programada homenagem anda na boca do mundo, diversas pessoas viram a placa na mão de Ascânio. Somente Tieta, veraneando em Mangue Seco, ignora a próxima consagração oficial de seu nome, dos projetos atuais da municipalidade, o único a reunir aplausos e aprovação unânimes. No mais, reina a discórdia, a cidade dividida.

Nas ruas antes tão pacatas, travam-se polêmicas, trocam-se desaforos. Argumenta-se a favor ou contra a instalação da fábrica. Deve-se ou não permitir, saudar com entusiasmo ou repelir com indignação, significa vida ou morte? Uma parte da população mantém-se indecisa, sem saber em qual dos murais acreditar. No da prefeitura, onde se afirma a completa inocuidade da indústria de dióxido de titânio e são prometidas mirabolantes maravilhas ao município e ao povo? Ou no da agência dos Correios, a proclamar a extrema periculosidade da Brastânio e o perigo que correm o céu, a terra, o mar e a atmosfera de toda a região, desgraças mil devidas à indústria de dióxido de titânio? Dióxido de titânio, nome sugestivo, apaixonante, ameaçador, misterioso.

Existem alguns ecléticos que misturam alegações dos dois murais ou seja: acreditam haver muita verdade nas afirmativas sobre a terrível porcentagem de poluição causada pela discutida indústria mas acham que nem por isso se deve impedir sua instalação no coqueiral de Mangue Seco ou em outro ponto qualquer de Santana do Agreste. Segundo eles, não existe progresso sem poluição e citam o exemplo dos Estados Unidos, do Japão, da Alemanha, de São Paulo, quatro colossos.

Debate altamente intelectual a ganhar a rua, extralimitando das fronteiras do Areópago, do Bar dos Açores, da pensão de Zuleika, da matriz, centros culturais de Santana do Agreste, sendo o último especializado em questões de liturgia, nas quais as beatas são peritas dando, por vezes, quinaus no próprio padre Mariano. Passou-se a discutir nas lojas, nos armazéns, na feira, nas casas e nas esquinas. Até no beco da Amargura, no boteco de Caloca. Com ardor, por vezes apaixonadamente. Aqui e ali, aconteceram as primeiras desavenças sérias. Bacurau e Carioca (devia o apelido a ter residido no Rio durante uns anos e ser metido a letrado), ambos empregados no curtume, foram às vias de fato quando Bacurau tratou Carioca de pestilento e este, em troca, o ofendeu acusando-o de medieval, xingo grave pois desconhecido para Bacurau, homem de poucas luzes. Dióxido de titânio tornou-se expressão popular, signo ao mesmo tempo do bem e do mal. Como sempre sucede em se tratando de símbolos místicos, sobre esse reverenciado e temido totem, nada sabiam, nem sequer seu aspecto: se gasoso, líquido ou sólido. Certamente, sendo uma divindade, participa dos três estados. Gasoso, empesta o ar; líquido, envenena as águas; sólido, sua presença se impõe concreta sobre a população dominando-a. Tem razão Osnar: o dióxido de titânio fede e ferve na cidade. Que não o faça na rodinha diária do bar, na mesa de cerveja e na verde cobertura dos brunswicks! Sorri para Seixas, agradecido. Para Osnar a amizade é bem precioso, faz-se necessário preservá-la da poluição. Estendendo a mão comprida e magra toca o joelho do parceiro, num gesto de afeto:

— Eu lhe disse que o sargento vai completar treze anos, Seixas. Ou você não sabe que aos treze anos o cidadão brasileiro adquire a maioridade sexual? Teria sido você um retardado? Porque, além dos normais, existem os retardados e os precoces. Exemplo de precocidade, o porreta aqui presente: antes de completar os doze dei a primeira pitocada, iniciando a vitoriosa carreira de campeão de que vocês são testemunhas.

Num riso geral distende-se a atmosfera, a cordialidade reassume o comando da conversa. Fidélio reencontra a voz sossegada:

— A primeira, com quem foi? Com ela?

Seixas, superando por completo a altercação, esquece a zanga:

— E com que outra havia de ser, Fidélio? Lembra de nós dois? Foi no mesmo dia, você primeiro, seu velhaco; me tomou a frente, na surdina.

Fidélio repõe a verdade histórica:

— Conte a coisa como aconteceu. Você pediu para eu ir primeiro, estava tremendo.

Sorriem recordando. Seixas se enternece:

— É verdade, eu estava me borrando de medo. Quando tu saiu e me disse que era batuta, nem assim me controlei. Mas, no quarto, ela logo me pôs à vontade e tudo correu na perfeição.

Aminthas divaga:

— Quantos ela já terá iniciado? Não há nenhuma que se compare com ela para tirar o cabaço de um menino. Nos modos, na delicadeza das maneiras. Conheço alguns caras que estrearam com umas vagabundas, saíram com péssima impressão, decepcionados. Levaram meses para se refazer e começar a usufruir. Há quem não se refaça nunca. Com ela, é logo de primeira.

— Proponho um trago em homenagem — diz Seixas novamente alegre.

— Salta quatro puras, almirante, para a gente selar um trato entre nós e fazer um brinde a quem nos deu à luz pela segunda vez — ordena Osnar: o trato da amizade, o brinde da gratidão. Enquanto esperam, ele volta à iniciação de Peto: — Devemos fazer uma festa do barulho, como o sargento merece. Já tem tempo que a gente não arma um bom pagode e olhe que estamos precisando. Em Agreste agora só se fala de coisas ruins e feias: poluição e dinheiro.

Seu Manuel serve a cachaça, quer saber que mãe é essa que pariu tantos filhos e por que pela segunda vez.

— Foi a luz do entendimento que ela nos deu, almirante. — Para o bravo luso, misteriosas palavras que logo se esclarecem pois Osnar levanta o copo barato e grosso, aspira o odor da límpida cachaça, completa: — À saúde de Zuleika Cinderela e à sua estreita porta onde entramos meninos e saímos homens. E à nossa amizade que nenhum titânio há de apodrecer.

Também Osnar tem seus lampejos, podendo na mesma ocasião, por coincidência ou necessidade, retirar do predestinado Barbozinha os privilégios da vidência e da poesia.

 

CAPÍTULO NO QUAL AGRESTE IMPORTA MÉTODOS JURÍDICOS DE REGIÕES

PROGRESSISTAS E ONDE SE TEORIZA

SOBRE DINHEIRO E PODER

 

DOS TRÊS CAUSÍDICOS, O PRIMEIRO A CHEGAR E O

ÚNICO A PERMANECER durante algum tempo na cidade, hóspede da pensão de dona Amorzinho — os demais iam e vinham, transitando entre Agreste e Esplanada —, travando conhecimento com os habitantes, foi o dr. Marcolino Pitombo, velhinho simpático, bem-apessoado e bem-vestido, terno branco de linho, chapéu-panamá legítimo, charuto Suerdieck, bengala de castão de ouro, vindo da legendária, rica e progressista região cacaueira.

Josafá Antunes o recebera no aeroporto de Aracaju e alugara um carro para transportá-lo da capital sergipana ao sertão de Agreste, apreciável delicadeza condenada a parcial fracasso pois o automóvel, moderno e de bela aparência — entre os táxis que faziam ponto diante do hotel, Josafá escolhera o mais aparatoso e refulgente —, ficou a menos de metade do caminho de Esplanada a Agreste, com o motor fundido. Dando lugar a posterior e execrável trocadilho de Aminthas: fundido e fudido, perpetrou ele, estaria o egrégio jurisconsulto, não ocorresse a providencial passagem da marinete de Jairo, ultimamente apelidada de Samaritana das Estradas pelo orgulhoso proprietário, na qual o advogado e seu constituinte terminaram a viagem em marcha vagarosa porém segura.

Temeu Josafá se tomasse de cólera o ancião, arrepiando carreira, abandonando a causa. Dr. Marcolino, porém, demonstrando senso de humor, interessou-se vivamente pelo veículo de Jairo, pedindo sobre ele variadas informações, atento ao som do rádio russo, elogiando a personalidade do aparelho. Quando, finalmente, atingiram a entrada da cidade, aquele recente e curto porém magnífico trecho de asfalto, aplaudiu e comentou:

— Bravos, meu amigo! Os motores de hoje não valem nada. — Apertou a mão de Jairo: — Nem o motor das máquinas nem o caráter dos homens.

Alojado na pensão de dona Amorzinho, no melhor quarto, com direito ao urinol de louça da proprietária, concessão extrema, logo se tornou figura bem-vista, devido à idade, aos modos polidos e ao donaire. Admiravam-lhe a procedência grapiúna, a fama, a cordialidade e a bengala, em cujo castão de ouro via-se esculpida a cabeça de uma serpente, símbolo provável da venenosa argúcia do eminente causídico, habilíssimo caxixeiro, conforme consta. Ao vê-lo desfilar na rua da Frente (rua Coronel Artur de Figueiredo, não há jeito do povo se desligar dos nomes tradicionais) em caminho do cartório, os cidadãos de Agreste sentem uma ponta de orgulho: não há dúvida, a cidade civiliza-se e prospera, evidência constatada e comprovada pela presença do preclaro bacharel.

No cartório, assessorado pelo próprio tabelião, estudou livros, analisou os velhos documentos, usando inclusive uma lente, em busca de inexistentes rasuras. Fez questão de ir pessoalmente ver as terras em demanda, aproveitando o passeio de lancha para conhecer a praia de Mangue Seco de cuja beleza ouvira falar, menino em Aracaju. Ficou boquiaberto:

— É ainda mais fascinante do que me disseram. Nenhum pintor seria capaz de criar uma paisagem tão bela, só mesmo Deus.

Tendo concluído os estudos preliminares, manteve reservada conferência com Josafá, trancados no quarto da pensão:

— Quem são os outros pretendentes, os outros Antunes?

— Até agora, sei de dois. Uma professora, diretora da Escola Ruy Barbosa.

— Casada? Viúva?

— Vitalina. Deve ter uns cinqüenta anos ou mais. O outro é um rapaz novo, funcionário da coletoria estadual.

— Um rapaz moço? E os pais?

— Mortos, os dois. O pai no Rio, a mãe aqui, deixaram ele pequeno. Foi criado por uma tia, irmã do pai. É Antunes pelo lado da mãe.

— É verdade, o tabelião me falou. Você pensa entrar em composição com eles?

— Se não houver outro jeito. Mas quem decide é o senhor, foi para me aconselhar que pedi que o doutor viesse.

— Sei disso mas preciso conhecer sua tendência, seu pensamento, para poder agir de conformidade.

— Doutor, me desfiz de umas plantações e de umas cabras, únicos bens que eu e o pai tínhamos aqui, para botar questão por essas terras e depois vender elas à fábrica e aplicar o lucro em roça de cacau. Se puder ganhar tudo, melhor. A gente deve ir para as cabeceiras, é isso que eu penso. Composição, acordo, só se não tiver outro jeito.

— Outro jeito, sempre há. Se fosse nas nossas bandas, a gente podia arrumar as coisas com facilidade; aqui é mais difícil. Existe apenas um cartório e o tabelião foi logo me dizendo, em tom de pilhéria mas na intenção de me fazer saber, que caxixe com ele não tem vez. Parece que também não se usa por aqui o argumento tiro e queda, de todos o mais seguro. — Imita com os dedos o gesto de atirar: — Corta o mal pela raiz.

Josafá dá largas ao riso divertido:

— Nem por lá se usa mais, doutor, foi coisa de outro tempo. Aqui, nunca se usou.

— Que lástima! Como último recurso, é de bom conselho. — Um brilho de malícia nos olhos azuis, cansados, inocentes: — Um tabelião, metido nessas brenhas, que diabo pode saber sobre caxixe? — Ele mesmo responde: — Nada, três vezes nada. Será incorruptível?

— Doutor Franklin? Penso que sim, doutor. Por ele, sou capaz de botar a mão no fogo.

— E o filho? O barril de chope? Pergunto, se por acaso houver necessidade. É sempre bom saber.

— Do filho, não sei nada. Era menino quando me arranquei.

— Tiraremos a limpo, não faltará ocasião. Agora, vou lhe dar minha opinião e explicar meu plano. Mas antes me responda a outra pergunta: tem algum agrimensor por aqui?

— Em Agreste não sei de nenhum. Deve ter em Esplanada.

— Foi o que pensei. Ouça, então. Vamos, de hoje para amanhã, reunir toda a documentação que prova seus direitos. Já encomendei ao tabelião um traslado da escritura antiga e a autenticação dos documentos de seu pai e seus. Vou voltar ao cartório para prometer ao gorducho um dinheirinho por fora. Assim o traslado anda depressa e a gente fica sabendo se o nosso jovem escrivão é ou não sensível a um agrado. Na idade dele e gordo como é, uma ajuda de custo sempre é bem-vinda, para gastar com as raparigas. Tendo os documentos nos tocamos para Esplanada, você contrata o agrimensor, volta com ele para fazer a medição do coqueiral. Eu fico por lá, assuntando o ambiente, conversando com os colegas, estudando as reações do juiz, do promotor, sabe como é, formando minha opinião, vendo como o carro marcha. Quando você chegar com a medição, entro com o mandado de posse para a totalidade da área, já com os homens amaciados, trabalhados por mim.

— Para a totalidade? Porreta. Assim, quando esses tais Antunes de meia-pataca acordarem para a coisa, nós já estaremos de dono. Imagine, doutor, que eles nem constituíram advogados. Nem a velhota, nem o folgado que só pensa no campeonato de bilhar.

Dr. Marcolino contempla com os olhos azuis e sensatos o ardoroso litigante, contendo-lhe o entusiasmo:

— Se ainda não constituíram, vão constituir, não se iluda. Meta na cabeça que eles têm tanto direito quanto você, se são realmente descendentes de Manuel Bezerra Antunes. Vou requerer a posse de toda a área mas não acredito que a obtenhamos, se eles questionarem, e eles vão questionar. Mesmo que a gente obtenha uma primeira decisão favorável, como espero, devemos estar preparados para o caso mais que provável de ter de dividir a terra escriturada em nome de seu tataravô. O importante é saber exatamente com que parte devemos ficar.

— Não percebo.

— Vai perceber, mas antes me responda outra pergunta: alguém por aqui sabe em que trecho do coqueiral a fábrica deve ser instalada?

— Ao que parece, Ascânio sabe. Ascânio Trindade, o secretário da prefeitura, o tal que está namorando a paulista milionária, falei dele ao senhor, se lembra? Vai ser eleito prefeito mas já é como se fosse, é afilhado do coronel Artur e protegido dele.

— Lembro-me. Pelo que você me disse, ele é o homem da Brastânio aqui, é quem se bate pela instalação da fábrica no município, não é?

— Ascânio quer ver Agreste prosperar. Para isso tem lutado como um herói.

Animam-se de malícia os olhos do velho, tão inocentes na aparência:

— Um herói? Pois esse herói é nosso homem, caro Josafá. Precisamos que ele nos faça saber, a nós e a mais ninguém, onde a fábrica vai se localizar, o ponto exato. Esse dado é de fundamental importância. Provavelmente… Provavelmente, não, certamente vamos ter de soltar uma boa grana na mão desse funcionário para ter a informação com exclusividade. Talvez até lhe dar uma comissão no negócio.

— O doutor está dizendo que a gente deve comprar a informação a Ascânio? Pagar para ele não dizer aos outros?

— Acho que falei em português, meu filho.

— Negativo, doutor. Ascânio não é homem disso. A informação, eu penso que a gente pode obter sem gastar um centavo, é só perguntar a ele. Mas conseguir que diga somente a nós, sonegue dos outros, por dinheiro, nem pensar. Se a gente propusesse, ele ia se ofender, seria pior.

Os olhos tranqüilos e cansados do advogado consideram o constituinte quase com piedade:

— Você nem parece um homem que vive no sul, meu caro Josafá.

— Ascânio é homem de bem, doutor.

— Como é que sabe? Em que se baseia para afirmar com tanta segurança? Tendo saído de Agreste há muitos anos, como se atreve a garantir pela honestidade de pessoas que mal conhece? Para você, todo mundo em Agreste é incorruptível. O tabelião, esse rapaz… Como você sabe?

— Bem, venho aqui todos os anos ver o velho, ouço o que o povo diz. Nunca escutei a menor alusão à honra de Ascânio.

— Examinemos os fatos, são eles que contam. Estamos diante de um indivíduo que está fazendo o jogo da Brastânio, um jogo sujo, meu bom amigo. E que, ainda por cima, pretende dar o golpe do baú numa paulista rica. Para exemplo de honestidade, me desculpe, não me parece o melhor.

— Mas… Ele deseja o progresso…

— Vamos acreditar que tenha sido assim, que ele fosse muito honesto como o povo diz e você repete. É até possível. Mas, meu filho, no momento em que se meteu nesse assunto, mesmo sem querer, ele mandou a honestidade pra cucuia. Mesmo que ele fosse de aço, enferrujava, sendo de carne e sangue, apodrece. Quanto você imagina que a Brastânio está pagando a ele? Se fosse um dinheirinho, ele poderia recusar. Mas se trata de dinheiro grosso, meu caro, grossíssimo. Apresente-me a esse Ascânio, eu sondo o bicho com jeito e agirei em conseqüência.

— Ascânio está na Bahia. Foi tratar dessa história da fábrica, os homens mandaram um jipe buscar ele.

— Que homens?

— Um chefão da Brastânio. Me disseram que foi ver também se o tribunal marca logo as eleições. É o que ouvi falar na rua.

— Ora, aí está, tudo claro como água e você a querer me vender o homem como o rei da honestidade! O indivíduo viaja a chamado da Brastânio que com certeza está mexendo os pauzinhos para fazer dele prefeito e você a dizer que o fulano não come bola. Ora, seu Josafá…

Abalado com a argumentação do advogado, Josafá reflete e admite:

— Pensando bem, talvez o doutor tenha razão: debaixo da capa de honesto, o cara está se enchendo. Me lembro de ter lido num jornal que os donos da Brastânio estavam tratando de apressar a eleição. Vai ver…

— Fora de são Francisco de Assis, não sei de ninguém, meu filho, capaz de resistir ao poder do dinheiro. Menos ainda ao poder, puro e simples. O desejo de mando vira qualquer um pelo avesso. Tenho visto muitas e boas. Santos e ateus, para mandar um pouco, são capazes de vender mãe e filho, Deus e o povo. Pai, nem se fala.

— Cada uma… Parecia tão direito.

— Talvez fosse. Mas voltemos ao nosso plano de ação. Parto do pressuposto de que, sendo imenso o areal, a Brastânio vai adquirir apenas uma parte, aquela onde irá instalar sua indústria. Correto? E essa parte, meu caro, é a única a ter valor, um grande valor de revenda. A Brastânio pagará por ela o que o dono pedir. Mas o resto, por mais extenso e belo que seja, não vai valer nem dez réis de mel coado. Terras situadas nas vizinhanças de uma indústria de dióxido de titânio, não possuem nenhum valor, o mais mínimo. Nem para a instalação de outras indústrias nem como local de veraneio. Dadas de graça, ninguém vai querer. O que interessa é o pedaço onde a fábrica vai ser construída. Só esse, mais nenhum.

— Quer dizer, doutor, que essa tal fábrica é mesmo uma desgraça como estão espalhando por aí?

— Tudo que disserem, por pior que seja, é pouco. Estudei o assunto, a Brastânio andou pensando em se estabelecer em nossa região.

— Ouvi falar, até assinei um papel contra.

— Um memorial ao presidente da República. Foi redigido por mim e sem vaidade lhe digo: um documento irrespondível. Está saindo como matéria paga nos jornais do sul e da Bahia. — Uma sombra obscurece-lhe o rosto satisfeito: — Tenho pena dessa gente daqui, um lugar tão aprazível. Vão acabar com Mangue Seco, vão borrar a pintura de Deus. — Faz com as mãos um gesto de impotência: — Enfim, antes aqui do que lá.

Verdade evidente, dessa vez Josafá balança a cabeça num gesto afirmativo, concordando. O advogado finaliza:

— Estamos de acordo, não é? Recapitulemos. — Conta nos dedos: — Primeiro, documentos e medição do coqueiral; segundo, requerer o mandado de posse e, enquanto se espera a decisão do juiz, a conversinha com o nosso amigo da prefeitura, o sabidório. Deixe ele por minha conta. Assim, quando os outros herdeiros acordarem e aparecerem de advogado em punho, nós estaremos montados na lei, com mandado de posse, em ótimas condições para negociar, ouvir propostas e impor condições. Uma única condição, meu caro amigo: o pedacinho do coqueiral onde a Brastânio vai erguer sua fábrica de podridão. Entendeu?

Josafá esfrega as mãos: acertara em cheio ao contratar dr. Marcolino Pitombo. Proventos altos, viagens de avião, táxi de luxo — porcaria de carro, fachada e nada mais. Mas o advogado importado, perito no direito grapiúna, compensa qualquer despesa, mesmo o dinheiro posto fora com o táxi, lucrativa aplicação do capital obtido com a venda das encostas de mandioca, dos calvos outeiros de cabras. Para não entender a excelência do investimento, não alegrar-se, é preciso ser um velho tabacudo, sem interesse pela vida, sem ideal, mais para lá do que para cá, como Jarde. O pai, metido num quarto da pensão, longe das cabras, definha a olhos vistos — parece envenenado pelos gases dos efluentes da indústria de dióxido de titânio. Josafá ouviu dizer que, ao aspirá-los, as pessoas vão amarelecendo e ficando tristes, cada vez mais tristes e mais amarelas, ao fim de pouco tempo viram defuntos magros e feios. Uma lástima, mas que jeito?

 

DE COMO UM PERSONAGEM ATÉ AGORA SECUNDÁRIO DESEMBARCA DA

MARINETE DE JAIRO DECLARANDO-SE ANTUNES E HERDEIRO; NO QUAL SE FAZ IGUALMENTE REFERÊNCIA ÀS

ASPIRAÇÕES SECRETAS DE FIDÉLIO E A UM PLANO DE AMINTHAS

 

ENGANAVA-SE O OTIMISTA JOSAFÁ AO AFIRMAR QUE AS

OUTRAS PARTES ainda não haviam constituído advogado. Na mesma tarde daquela conversa, para ser exato, no começo da noite, atraso devido a entupimento do carburador, desembarcaram da marinete dois outros bacharéis e ocuparam aposentos na pensão de dona Amorzinho, aliás os últimos quartos vagos, transformando-a num repositório de cultura jurídica, dando lugar e validade à gozação de Aminthas acerca de Congresso de Mestres de Direito.

A presença simultânea nas ruas de Agreste de três cultores das ciências legais, aves raras em terras do município há muitos e muitos anos — o único bacharel em direito a viver na cidade era o dr. Franklin; exercendo função pública, nunca praticara a advocacia —, colocou em evidência a abundância de problemas provenientes da simples possibilidade de instalação, em comuna pobre e atrasada, de indústrias, poluidoras ou não. Não existe indústria que não seja poluidora, seu ignorante. Viram? Já começa a discussão!

Dando razão aos que defendem o progresso a todo custo, imediatamente as terras se valorizaram uma enormidade. Senão as de todo o município, pelo menos as das margens do rio, próximas ao coqueiral de Mangue Seco, local previsto para a construção do complexo industrial da Brastânio. Especulação nascida de uma onda de boatos, anunciando o interesse de várias e diferentes fábricas que viriam transformar em realidade aquele pólo industrial referido por Ascânio Trindade em histórico discurso quando da inauguração dos melhoramentos da praça do Curtume (praça Modesto Pires, a população não se habitua aos novos nomes).

Continuar: parte 2 de 5