Tieta do Agreste

Jorge Amado · Capítulo 6 de 10 · parte 1/5

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Tieta do Agreste

Quarto episódio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

DAS FESTAS DE NATAL E ANO-NOVO

OU

A MATRIARCA DOS ESTEVES

 

COM PAPAI NOEL DESCENDO DOS CÉUS EM HELICÓPTERO,

POEMAS DE LOUVAÇÃO E MALDIÇÃO,

TE DEUM E FOGUETÓRIO, UM GRITO DE ALERTA ABALANDO A CIDADE,

INSTRUTIVA POLÊMICA NA IMPRENSA SOBRE

OS PERIGOS E VANTAGENS, OS BENEFÍCIOS E MALEFÍCIOS DA

INDÚSTRIA DE DIÓXIDO DE TITÂNIO, QUANDO NO

MUNICÍPIO INAUGURAM JORNAIS MURAIS E BOLSA DE

IMÓVEIS E SE FICA SABENDO DA

IMPORTÂNCIA DO SOBRENOME ANTUNES — DOS RITOS DA

MORTE E DAS AFLIÇÕES DA VIDA

 

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DE COMO PELA PRIMEIRA VEZ PAPAI

NOEL DESCEU EM AGRESTE

 

SENTADO À MESA DE DESPACHOS DO PREFEITO,

ASCÂNIO TRINDADE estuda o programa de festejos da inauguração da luz da hidrelétrica, a ser apresentado à Câmara Municipal para a devida aprovação, em sessão próxima. Cabos e fios devem chegar a Agreste dentro de um mês, mais ou menos, segundo o cálculo dos engenheiros. Ascânio pretende celebração à altura do evento — os postes de Paulo Afonso representam o primeiro, histórico passo do município no caminho de volta à prosperidade. Quem sabe, além dos engenheiros, comparecerá algum diretor da Companhia do Vale do São Francisco, um bambambã da política, do governo federal? Primeiro passo também na afirmação pública do jovem administrador, futuro prefeito, subindo o degrau inicial de uma carreira fulgurante. Festa similar àquelas antigas, quando se deslocavam para Agreste caravanas de ricaços e de políticos, vinham autoridades da capital: discursos, banquetes, bailes, foguetórios, o povo dançando na rua.

Onde buscar dinheiro para tamanha despesa? Vazios, como sempre, os cofres da prefeitura, Ascânio deve sair mais uma vez rua afora, de lista em punho, a solicitar contribuições. Fazendeiro, criador de cabras, plantador de mandioca e milho, presidente da Câmara Municipal, indiscutido dono da terra há mais de cinqüenta anos, o coronel Artur de Figueiredo encabeça todas as listas, seguido por Modesto Pires, cidadão rico e praça pública. Únicos donativos dignos de consideração, os demais revelam apenas a pobreza do comércio, a decadência da comuna.

Ascânio, porém, deseja e há de marcar com inesquecíveis comemorações a noite em que a luz ofuscante da hidrelétrica de Paulo Afonso substituir a mortiça eletricidade do fatigado motor inaugurado por seu avô quando intendente. Talvez possa, finalmente, em meio à alegria e ao entusiasmo, declarar-se à bela Leonora Cantarelli, pedindo-lhe a mão em casamento, noivo oficial. Desde o regresso de Rocinha, quando, no lombo de cavalo, amargou a notícia comunicada por dona Carmosina e digeriu o hímen da paulista, Ascânio vive em permanente exaltação. Calcado o preconceito, reduzido a dormente espinho, a mau pensamento afastado de imediato todas as vezes em que nele reincide, a paixão crescera em incontrolável ternura pela inocente vítima do monstruoso sedutor. Crescera também a intimidade dos namorados, em repetidos e prolongados beijos, na chegada e na despedida. Acendendo o desejo, dando ao amor dimensão nova e maior.

Para a declaração, Ascânio espera contar com a boa vontade da madrasta, de coração abrandado pelas homenagens que lhe serão prestadas na festa. Um dos itens do projeto elaborado por Ascânio manda batizar com o nome da filha pródiga a via de entrada da cidade pela qual chega e parte a marinete de Jairo e por onde ingressarão igualmente os fios do progresso, a luz de Tieta, na consagração do povo. Denominado Caminho da Lama, desde tempos imemoriais, será a rua dona Antonieta Esteves Cantarelli (cidadã benemérita). A placa já encomendada na Bahia, antes mesmo dos vereadores tomarem conhecimento do plano: existirá alguém tão ingrato a ponto de opor-se? Desta vez, Ascânio não esqueceu o Esteves, exigido por dona Perpétua e pelo velho, insolente e cheio de si. Mas o dinheiro para o banquete, o baile, a música, as bandeirolas nas ruas, as faixas, os fogos? Para as pedras do calçamento? Quem poderia ajudar o financiamento da festa, concorrendo com os gastos, se por ali aparecesse, seria o dr. Mirko Stefano, empresário interessado em erguer uma grande indústria nas imediações de Mangue Seco, representante legítimo do progresso. Após a conferência onde expôs planos e exibiu plantas, o ilustre paredro ficara de voltar em breves dias. A esperança de Ascânio reside naquela empolgante figura: para o dr. Mirko nada parece ser difícil, lembra um gênio das histórias de mil e uma noites, saído da lâmpada de Aladim. Ah!, se ele se manifestasse de repente…

E eis que de repente ele se manifesta, gênio risonho e todo-poderoso, baixando dos céus em companhia de Papai Noel. A imponente nave sobrevoa a prefeitura, a matriz, o jardim: visão alucinante, espantoso barulho, até então desconhecidos aos olhos e ouvidos tacanhos do povo de Agreste.

Sol forte e brisa amena, vinda do mar Atlântico, um dia aprazível, típico do verão sertanejo. A cidade parece adormecida quando, pelo meio da manhã, o ruído surge e cresce, insólito, e Peto atravessa a rua, os olhos postos no alto, reconhecendo e proclamando o helicóptero, máquina nunca enxergada antes em Agreste mas numerosas vezes admirada por Peto nas revistas que dona Carmosina lhe permite folhear na agência dos Correios. Comerciantes aparecem nas portas das lojas. No bar deserto, seu Manuel suspende a desagradável tarefa da lavagem de copos, espia e exclama: que os pariu! Ascânio, interrompido pelo barulho assustador, abandona papel, lápis e devaneio, chega à janela e assiste ao pouso do aparelho no centro da praça, entre a prefeitura e a matriz. Padre Mariano, acolitado por beatas que se benzem apavoradas, mostra-se no alto da escada que conduz ao adro.

Do helicóptero, cujos motores continuam a trabalhar, as hélices rodando lentamente para a admiração dos primeiros curiosos abobados, desembarcam o Magnífico Doutor, esportivamente vestido de calça jean e colorida camisa da praia do Havaí, com mulheres sensuais e flores exóticas, e o próprio Papai Noel, o mais belo entre quantos existiram pois quem porta as barbas brancas e enverga a roupa vermelha não é outrem senão a figura eficiente, executiva e excitante da nossa conhecida e tão apreciada Elisabeth Valadares, Bety para os colegas, Bebé para os íntimos. Uma secretária realmente competente é pau para toda obra e em vésperas de Natal se transforma, se necessário, em Papai Noel, sob a direção do inventivo gênio da lâmpada de titânio, o Magnífico Doutor.

Ascânio, ao enxergar helicóptero, Papai Noel e o dr. Mirko indicando ao embasbacado Leôncio a carga no interior do aparelho, não contém um grito de entusiasmo, um sonoro viva! O Magnífico Doutor suspende a vista, acena com as mãos para o secretário da prefeitura.

— Fiz questão de trazer pessoalmente os brindes de Natal para as crianças pobres — explica o mago, apertando calorosamente as mãos de Ascânio que desceu a escada de quatro em quatro para receber e saudar os visitantes.

Deixando a cargo de Papai Noel o transbordo de coloridas sacolas do bojo do aparelho para a prefeitura, gratificante tarefa que o capenga Leôncio executa com surpreendente rapidez, o Magnífico Doutor acompanha o jovem funcionário para dois dedos de conversa. Apenas para lhe dizer que os resultados dos estudos realizados até o momento pelos técnicos e peritos em Mangue Seco são extremamente satisfatórios e positivos.

Apesar de regiões mais ricas, mais bem servidas de vias de comunicação e de conforto, mais bem aparelhadas materialmente, como Valença, no Recôncavo, Ilhéus e Itabuna, no sul do estado, e até mesmo Arembepe, junto à capital, se encontrarem empenhadas na disputa, oferecendo facilidades de toda ordem para a instalação em seus limites da magna indústria, as preferências dos empresários tendem a inclinar-se para Agreste. O Magnífico Doutor influi nesse sentido, cativo da beleza e do clima, da gentileza da população.

Impressionado, quase comovido, Ascânio bebe-lhe as palavras de bom presságio e pergunta-lhe se ainda é necessário manter o assunto em reserva. Após a descida do helicóptero com a carga de brindes, vai ser difícil, praticamente impossível, esconder a verdade.

Em dia de francês, o Magnífico concorda:

— Alors, mon cher ami… Pode adiantar que existe a perspectiva da instalação no município, nas vizinhanças da praia de Mangue Seco, das duas fábricas integradas da Brastânio — Indústria Brasileira de Titânio S. A. Mais do que perspectivas, possibilidades concretas.

Explica que todavia a decisão final se encontra na dependência de conclusões e acertos:

— Estamos em fase de estudos, com mais de um local à vista, como já lhe disse. As chances de Agreste, porém, são muito grandes. Personnellement, je suis pour… Mas a solução não depende somente de votre serviteur.

Eleva os braços num gesto oratório que lhe enfatiza as palavras grandiloqüentes:

— A presença da Brastânio em Agreste transformará o município em poderoso centro industrial, fervilhante de vida, magnifique!

Ascânio reforça a candidatura de Agreste com a notícia de que daí a alguns dias, um mês no máximo, a eletricidade e a força de Paulo Afonso serão inauguradas, postas a serviço da Brastânio. A prefeitura tinha intenções de organizar uma festa de arromba, para comemorar os novos tempos, mas a pobreza franciscana do município…

O Magnífico Doutor não o deixou terminar, quis detalhes da festa e concretamente o montante da nota de despesas. Naquela mesma manhã, Ascânio fizera e refizera cálculos, traduziu-os timidamente em contos de réis. Para ele alta soma, ninharia desprezível para dr. Mirko Stefano, cujas verbas de relações públicas para contatos e providências iniciais, em moeda forte, eram praticamente inesgotáveis. Com um gesto liquidou a preocupação principal de Ascânio: o calçamento da rua, despesa maior e indispensável.

— Deixe comigo, mando calçar a rua. A Brastânio se sentirá honrada em colaborar para o maior brilho dos festejos. Passadas as festas de Natal, estarei aqui de novo. Para uma conversa definitiva, para acertarmos nossos relógios e dar o sinal de partida. Assim espero.

Ascânio não sabe se ele fala da instalação da fábrica ou dos preparativos da festa da luz de Tieta:

— De qual partida?

— Da partida para o progresso e a riqueza de Agreste! — A voz cálida, afirmativa, inspira confiança. — Quanto à inauguração da luz, a Brastânio se responsabiliza pelo calçamento e concorrerá para as demais despesas, participando da alegria do povo do município, e eu farei o possível para estar presente. Servir é o supremo objetivo da Brastânio; servir à pátria. Brasil ubber alles — tratando-se de dinheiro, o Magnífico abandona o diplomático idioma francês por línguas mais concretas: o alemão e o inglês. — Auf Wiedersehen. Merry Christmas, my dear.

Cresceu a aglomeração na praça Desembargador Oliva. Nomeando-se embaixador dos meninos da cidade, Peto aproximou-se do aparelho, puxou conversa com o piloto, sorriu para Bety Papai Noel, veio ajudá-la no desembarque das sacolas. Ao apertá-las, curioso, sente bonecas, automóveis de lata, percebe brinquedos miúdos para crianças pequenas, desinteressa-se — em breve cumprirá treze anos, será um rapaz e Osnar o levará à primeira caçada.

Da porta da prefeitura, ao lado de Ascânio, o Magnífico Doutor contempla as velhas casas da praça, a gente pobre reunida no assombro do helicóptero, pronuncia:

— Amanhã, com a Brastânio, aqui se erguerão arranha-céus!

Baba-se Ascânio, santas palavras, que os anjos digam amém, é quanto deseja. Não resiste, transforma o aperto de mão em cordial e grato abraço:

— Muito obrigado, doutor. Fico à espera.

— Imediatamente após as festas de fim de ano.

Antes de reentrar no helicóptero, Papai Noel acolhe de encontro ao peito o indócil representante das crianças pobres, nem tão criança nem tão pobre, beija-o na face. Lábios macios e quentes, perfumado hálito, gostosura! Peto retribui-lhe os beijos, achega-se mais, sente o volume do busto, os seios soltos sob a túnica vermelha de cetim.

O bojo do aparelho está repleto de sacolas idênticas às que ficaram na sala do andar térreo da prefeitura, onde se reúne o conselho municipal quando raramente o coronel Artur da Tapitanga o convoca, sempre a pedido de Ascânio, um formalista. Reuniões inúteis, nas quais os edis aprovam por aclamação o que o coronel decidiu, exatamente como o faz o Parlamento nacional em relação aos projetos do Executivo.

As hélices ganham velocidade, eleva-se a nave, ruma em direção ao mar. O Magnífico Doutor prossegue a viagem natalina, levando para Valença, Ilhéus e Itabuna, em nome da Brastânio, Papai Noel, sacolas e promessas de futuro grandioso. Não irá, no entanto, a Arembepe. Para cada local e ocasião, uma estratégia.

 

DO CONTEÚDO DAS SACOLAS, CAPÍTULO NO QUAL A BRASTÂNIO COLOCA JESUS A SEU SERVIÇO

 

MEIA CENTENA DE SACOLAS DE PAPEL, COM AS CORES E

A INSÍGNIA — Ordem e Progresso — da bandeira brasileira, contadas e acumuladas na sala de reuniões do conselho municipal; separadas em dois grupos de vinte e cinco. No primeiro, destinado às meninas, predomina a cor amarela e cada sacola contém uma pequena boneca de plástico, um fogãozinho de lata, duas bolas de ar, um saco de balas, uma língua-de-sogra, um reco-reco de madeira. Nas outras, a cor dominante é o verde; a boneca e o fogão foram substituídos por um automovelzinho (de plástico) e uma cornetinha (de lata). Em todas as cinqüenta, idêntica estampa com a efígie de Jesus de um lado, e do outro uma inscrição onde se lê em caracteres dourados: deixai vir a mim as criancinhas. oferta da brastânio — indústria brasileira de titânio s. a., uma empresa a serviço do brasil.

Peto, perdidas as últimas ilusões, abandona a prefeitura:

— Que zorra! Um lixo…

Em compensação, Leôncio freme de entusiasmo:

— Viva Deus! Sete mimos em cada saco, que fartura! Vou querer para meus três netos, as duas meninas e o menino. Não me falte, por favor, doutor Ascânio.

Ascânio concede as três sacolas ao ex-soldado e ex-cangaceiro, fiel auxiliar da prefeitura, salário mínimo nem sempre pago em dia. Naquela hora alegre e luminosa não pode negar-se a nenhum pedido, estando ele próprio cumulado, tendo recebido de uma vez e inesperadamente tantas mercês.

O Natal das crianças pobres. A solução do problema a afligi-lo, o financiamento da festa de inauguração da luz da hidrelétrica: a benemérita Brastânio paga tudo, calçamento e bandeirolas, foguetes e música, e o dr. Mirko Stefano honrará a cidade com sua presença. Mais ainda, porém, excitam-no as notícias sobre as perspectivas da instalação em Agreste da monumental indústria: o doutor praticamente garantiu o feliz resultado dos estudos. Nem Itabuna, nem Ilhéus, nem Valença, nem Arembepe…

Ascânio fica em dúvida: teria o dr. Mirko citado Arembepe entre os locais possíveis? Guarda a impressão de haver escutado o nome da praia famosa, atração turística internacional, apesar de não chegar aos pés de Mangue Seco. Mas não tem certeza pois, ao repetir o nome das cidades concorrentes, o magnata os reduzira às duas do sul do estado e à terceira, do Recôncavo. Enfim, não importa, pois as preferências dos responsáveis pela empresa fixam-se em Agreste.

Para fechar sua visita com chave de ouro o dr. Mirko liberara Ascânio da obrigação de sigilo: pode comunicar a boa-nova ao povo. Ele o fará durante a distribuição dos brindes de Natal.

Mentir não é o forte de Ascânio Trindade, não sabe fazê-lo, comete indiscrições, escapam-lhe detalhes, revela pistas. Assim aconteceu no discurso pronunciado na praça do Curtume (retificando em tempo: praça Modesto Pires) quando levianamente anunciara para breve grandes novidades, dando a entender a existência de projeto muito mais considerável do que simples empreendimento turístico, fazendo referência, imagine-se!, a pólo industrial. A maioria não maliciou mas alguns ficaram de orelha em pé. Osnar o interpelara no caminho do rio:

— Que conversa é essa, capitão Ascânio, de pólo industrial? Nessa história tem gato escondido…

De braço com Leonora, fugira à pergunta com uma pilhéria:

— Com o rabo de fora… Adivinhe, se puder.

Ao coronel Artur de Figueiredo, por motivos óbvios — mandachuva, prefeito em exercício, além de padrinho e protetor — expusera em detalhes a conversa anterior com o “grande empresário”, planos e plantas. Fora à Fazenda Tapitanga a propósito. Mas o coronel anda meio broco, já não se interessa por nada tirante terras e cabras. Considerara o projeto pura maluquice, se não fosse pior, tenebroso plano de vigarista:

— Grande empresário, meu filho? Esse tipo não passa de um gatuno. Só que ele não sabe que é mais fácil tirar leite do saco de um bode do que arranjar verba em Agreste. Tomou o bonde errado. Ladrão e doido.

Discutir com o padrinho? Inútil, não o convenceria. Mas agora ali estavam os brindes, cinqüenta sacolas contendo brinquedos para as crianças pobres, o coronel terá de render-se à evidência. Grande empresário, sim. Nem maluco nem vigarista, representante de imensos capitais, falando em nome da Brastânio, indústria para a produção de dióxido de titânio, básica para o desenvolvimento nacional. Situada em Agreste, cujo prefeito é o dinâmico e competente Ascânio Trindade. Se ainda não é, será, assim que haja eleição, cuja data o Tribunal Eleitoral do estado deve marcar em breve.

Faz-se absolutamente necessário assinalar com solenidade significativa a entrega dos brindes, a dádiva da empresa. Ascânio decide constituir uma comissão de senhoras e senhoritas gradas para a comovente cerimônia da distribuição, na véspera de Natal, daí a dois dias. Vai ser um sucesso, um Natal inesquecível, graças à Brastânio. Sorri sozinho, imaginando Leonora, fada a repartir brinquedos e alegria entre a meninada.

Convocará Barbozinha para agradecer em nome das crianças aos generosos industriais da Brastânio. Nessas ocasiões ninguém o iguala, sabe como atingir o coração dos ouvintes, arrancando lágrimas e aplausos. Também ele, Ascânio, dirá umas palavras: para anunciar aos povos o começo de uma nova era para Santana do Agreste — a era da Brastânio e — por que não? — de Ascânio Trindade. Sim, Leonora, de Ascânio Trindade, não mais um pobretão, reles funcionário municipal pouco acima de Leôncio, igual a Lindolfo. Um administrador, um político, um estadista. Merecedor de tua mão de esposa. Calca o espinho aos pés: a virgindade não passa de tolo preconceito. Uma jovem viúva, paulista, bela e rica.

Deixa as sacolas sob a guarda de Leôncio, duplamente feroz, jagunço e praça de pré. Dirige-se à casa de dona Perpétua, para comunicar a chegada dos brindes a Leonora e a dona Antonieta, esta última ainda recolhida ao leito onde as queimaduras cicatrizam sob a terna vigilância do sobrinho seminarista, um menino de ouro.

 

DE COMO O VATE DE MATOS BARBOSA COMPÕE E DECLAMA UM POEMA

QUE NÃO É OUVIDO EM RAZÃO DO

EXAGERADO SUCESSO DA FESTA ONDE FORAM DISTRIBUÍDOS OS BRINDES

DA BRASTÂNIO ÀS CRIANÇAS POBRES, CAPÍTULO POR ISSO MESMO AGITADO

E CONFUSO, COM DONA EDNA EM

PLENA AÇÃO

 

A VERDADE DEVE SER DITA E PROCLAMADA: A

DISTRIBUIÇÃO DOS brinquedos superou todas as previsões; mais do que animado rebuliço de moças e senhoras, de crianças felizes, foi um deus-nos-acuda, um pandemônio, desbordando de todos os limites da ordem e da boa educação.

Em Agreste, terra falta de recursos e de distrações, qualquer cerimônia, de missa a enterro, congrega o povo ávido de entretenimento. A notícia da chegada dos brindes na máquina voadora, conduzidos por Papai Noel em pessoa, correu mundo. Assim, na manhã da véspera de Natal, a carantonha e a fama de valentia de Leôncio não conseguem conter a massa infanto-juvenil, comandada por adultos, na maioria do sexo feminino, reunida em frente à prefeitura, cuja porta de entrada ele mantém fechada à chave.

Nem mesmo Ascânio Trindade, conhecedor, por ofício e devotamento, dos problemas e realidades do município, jamais imaginara existissem tantas crianças em Agreste. Ao que se vê, todas paupérrimas, pois até os filhos de Agostinho Pão Dormido, dono da padaria, apatacado cidadão, candidataram-se aos regalos da Brastânio: um menino e uma menina, gordos, bem alimentados, nos trinques. Encontram-se entre os primeiros da fila mandada organizar por Ascânio, ali deixados pela mãe, dona Dulcinéia Broa Azeda. Fila interminável a desfazer-se e refazer-se, não pára de chegar gente. A molecada corre, grita, levanta poeira, rola no chão, uma bagunça generalizada.

— Que esporro medonho! — comprova Aminthas, espiando da porta do bar, o taco na mão. — Não vai ajudar, Osnar? Ascânio pediu…

— Desatino só cometo por causa de mulher. Vá você, se quiser. — Osnar passa giz no taco, admirando-se da inesperada presença de Peto que chega e se acomoda numa cadeira, disposto a acompanhar a partida de bilhar. — Por aqui, sargento Peto? Pensei que você fosse o número um da fila…

— Para ganhar aqueles bagulhos? Eu, hein? Fico na minha, pô! — Tendo feito tão longo discurso, estendeu os gambitos, chamou seu Manuel, ordenou uma Coca-Cola na conta de Osnar.

Na sala da prefeitura, desfalcada da insubstituível dona Carmosina, presa ao leito com um resfriado fortíssimo, febre, dor de cabeça, tosse e catarro, a numerosa e galharda comissão de honra coloca-se sob o comando de dona Milu e entrega-se afobada à tarefa de dividir o conteúdo das sacolas para atender ao maior número possível de crianças.

Alguns rapazes ajudam, vieram acompanhando namoradas; entre eles o filho de seu Edmundo Ribeiro, coletor, o jovem Leléu de quem já se teve notícia anterior e venérea. Universitário, segundanista de economia, magricela, prafrentex, cabeludo, no rigor da moda, calça Lee desbotada, camisa aberta, as fraldas fora das calças, as mangas arregaçadas, a barba por fazer, é o ai-jesus das moças, não chega para as encomendas. Seixas também está presente, combóia um batalhão de primas.

— Nem assim vai dar… — declara Elisa, voltando da janela de onde fez um balanço da situação, calculando o número de crianças.

Elisa e Leonora, elegantíssimas, são as duas estrelas da comissão, formosuras que se completam e se opõem, a loira paulista, filha de imigrantes italianos, a morena sertaneja, brasileira de muitas gerações e muitos sangues misturados. Os olhos ladinos de Leléu pousam numa e noutra, a compará-las. Ambas lhe apetecem, mas têm dono: uma é esposa séria de comerciante ainda moço, a outra namora o secretário da prefeitura, uma lástima. Ao desviar o olhar, encontra o de dona Edna a fitá-lo, dolente, derramado em sombra e insistência. Leléu responde ao sorriso, dona Edna se aproxima, seguida de Terto, que não parece ser seu marido mas com ela casou no juiz e no padre.

Entra na sala padre Mariano, veio benzer os brindes. Vavá Muriçoca, sacristão idoso e ranheta, carrega o repositório de água benta e o aspersório, enquanto Ricardo, de sobrepeliz branca debruada de vermelho, conduz o turíbulo e o incenso. Dona Edna vacila. Primeiro a devoção, depois a diversão: dirige-se ao padre, beija-lhe a mão, devora Ricardo com os olhos. Ai que o amoreco não afasta a vista, como antes! Pela primeira vez enfrenta o cúpido olhar e mira o rosto da oferecida, sorrindo levemente ao dizer bom dia, dona Edna. Anjo sem mácula mas homem-feito. Bom dia, meu coroinha. Ai, quem lhe dera as primícias!

Tendo cumprido a devoção, dona Edna ruma para Leléu que busca conquistar as graças do marido Terto. Tolo, não há necessidade de amaciar-lhe os cornos.

Ante a declaração de Elisa, logo confirmada por Seixas, dona Milu, após breve conferência com Ascânio, ordena sejam todos os brinquedos retirados das sacolas, acumulados atrás da mesa da presidência do conselho municipal, em cujos lados são dispostas as cadeiras de espaldar dos vereadores, formando uma espécie de barricada a defender os brindes e as senhoras e moças encarregadas da distribuição. Cada criança receberá um presente.

— Nada de proteção! — recomenda Ascânio Trindade, meio a sério, meio em brincadeira.

Dona Milu não ri, dá ordens:

— Boneca, automóvel, corneta, fogão e reco-reco só para os necessitados. A fila está cheia de filhos de gente que não precisa, uma vergonha. Para esses, uma bola de ar ou um queimado, e olhe lá! Estão aqui porque os pais não têm brio na cara.

Para que não haja dúvidas, exemplifica:

— Está ouvindo, Dulcinéia? Teus filhos estão na fila, como se a padaria não desse dinheiro. Teu irmão também, Georgina, um moleque grande daqueles. Só quero ver.

Apenas Leôncio destranca a porta e permite a entrada, a fila se desfaz, a meninada avança em bloco, mães e pais postam-se diante da mesa de mãos estendidas, empurram as cadeiras.

A poder de gritos e de alguns puxões de orelha, padre Mariano contém a avalancha durante os minutos necessários à cerimônia da bênção. Ao terminar, ainda tenta cometer pequeno sermão mas desiste diante da gritaria e da balbúrdia que, de imediato, se estabelecem. Padre Mariano, Vavá Muriçoca e Ricardo são envolvidos pela leva de candidatos aos donativos da Brastânio. Indiferente aos brindes mas amiga da confusão, dona Edna se aproveita e, em meio à água benta e ao incenso, consegue ao mesmo tempo apertar a mão de Leléu em doce promessa e roçar a bunda na batina de Ricardo, façanha limitada, porém divertida e grata.

Torna-se impossível qualquer espécie de controle, fracassam as tentativas de distribuir bonecas e fogões às meninas, automóveis e cornetas aos meninos, bolas de ar e caramelos aos filhos de gente endinheirada. Um tumulto, um motim: a comissão imprensada contra a parede, as cadeiras derrubadas, mãos maternas arrancando os brindes. A donzela Cinira tem uma tontura e desmaia, Elisa sai à procura de um copo com água. Falta de homem, diagnostica dona Milu desistindo de distribuir brindes para aplicar beliscões e cascudos nos moleques mais ousados.

Desaparece rapidamente o monte de brinquedos. Os retardatários recebem tão-somente a estampa colorida com a efígie de Jesus e a frase de oferenda da Brastânio.

Na rua, estouram discussões entre mães e pais, duas mulheres do Buraco Fundo se agarram pelos cabelos, crianças se batem entre choros e xingos. Vencidas, arrasadas, desfeitos os penteados, amarrotados os vestidos, senhoras e moças da comissão de honra ameaçam chiliques. Dona Dulcinéia retirou-se às pressas, após entregar aos filhos corneta, boneca, fogão e automóvel, levando ela própria reco-reco e língua-de-sogra, balas para o marido; para isso aceitou participar da comissão, dona Milu que vá pregar sermão em outra freguesia. Georgina afoga os soluços no lenço, o irmão a ameaçara: vou contar a papai que você não quis me dar nem o automóvel nem a corneta, sua burra.

Em meio à barulheira dessa algazarra festiva e rude, do intolerável som de vinte abjetas cornetas de lata, o vate Barbozinha, na tribuna do conselho, declama o poema composto especialmente para a ocasião, comovente, bíblico e louvaminheiro. Em vão Ascânio, Seixas, Leléu e outros rapazes reclamam silêncio. Também Leonora e Elisa, duas formosuras raras, erguem as vozes e suplicam, por favor, um minuto de atenção. Do poema, ali pouco ou nada se pôde ouvir, para tristeza do bardo insigne que passara dois dias e duas noites escolhendo rimas, contando sílabas e buscando informações sobre dióxido de titânio.

— Me diga, mestre Ascânio, que diabo é isso?

O que fosse, exatamente, tampouco Ascânio o sabia. Importante, importantíssimo produto, cuja fabricação vai significar grande economia de divisas ao país, passo fundamental para o desenvolvimento pátrio. Em que consiste, porém, disso não tem a mais mínima idéia, confessara um tanto encabulado.

Ascânio resolve adiar para melhor ocasião o discurso anunciando aos povos a nova era: os povos, em bulha e correria, se retiram com os brindes, desinteressados de poesia e oratória. Mulheres pobres com os filhos escanchados nas ancas, homens malvestidos levando crianças pela mão, molecotes soltos nas esquinas, rapidamente a multidão se desfaz. Largadas nos caminhos, atiradas fora, as estampas com a efígie de Jesus, a frase do Novo Testamento e o nome da Brastânio. Não possuem valor de compra e troca.

Tendo Bafo de Bode pedido um brinde ou um trago de cachaça a Leôncio, este lhe ofertou uma estampa, único brinde a sobrar.

— Por que não oferece à senhora sua mãe? — perguntou o mendigo, ofendido.

O capenga Leôncio considera a festa um sucesso sem exemplo e a Brastânio organização digna dos maiores elogios. Único a receber sacola íntegra — não uma, três e com antecedência, sem empurrões nem briga — ainda conseguira surrupiar uma corneta que termina dando a Bafo de Bode para se ver livre dele.

Pequena corneta de lata, vagabunda mas barulhenta. Bafo de Bode desce a rua a soprá-la, produzindo um som incômodo, arrepiante, medonho. Com ele obtém o silêncio necessário para perguntar aos povos onde Terto irá pendurar os novos chifres se já não tem lugar no corpo que não esteja ocupado. Resta-lhe enfiá-los no cu, são chifres de menino, maneiros, não doem. O que diz Bafo de Bode, podre de bêbado, não se repete, muito menos se escreve.

 

ONDE FINALMENTE BARBOZINHA

DECLAMA COMO DEVIDO SEU POEMA E ASCÂNIO TRINDADE LANÇA

PROCLAMAÇÃO AOS POVOS DE SANTANA DO AGRESTE

 

SOLDADOS DE DERROTADO REGIMENTO DA CARIDADE,

BATENDO EM RETIRADA, atravessaram a praça e refugiaram-se em casa de Perpétua, onde, na varanda, estendida na rede, Tieta convalesce. Animada corriola, repartida entre a indignação e o riso, ainda sob o comando de dona Milu, demissionária:

— Ai, Tieta, minha filha, não tenho físico para agüentar uma tareia dessas. Para outra igual, Ascânio não conta comigo.

Arrastam cadeiras, colocam-se em torno à rede. Tieta reclama detalhes, enquanto beija a mão de padre Mariano e se regala a admirar Ricardo, ainda de sobrepeliz branca, levita do santuário. O reverendo veio apenas dizer-lhe bom dia mas aceita um copo de suco de cajá antes de retornar à igreja, arrastando consigo o seminarista. Tieta prende um suspiro, sócia de Deus, cada qual com seus horários.

Elisa, mancando, vai à cozinha preparar um cafezinho bem forte para o ofendido Barbozinha. A pequena Araci equilibra nos braços magros pesada bandeja com copos de sucos de frutas: de manga, de mangaba, de cajá, de umbu. As primas de Seixas espiam para o interior da casa onde penetram pela primeira vez, desejando bispar o máximo. Cutucam-se, maliciosas, envesgam os olhos para a rede onde as carnes rijas de Tieta se exibem no decote e no abandono do negligê de náilon, amarelo com rendas brancas, o fino.

Perpétua escolta o padre até à porta da rua. De regresso, elogia o gesto dos industriais, a valiosa oferta de brindes de Natal às crianças da cidade. Tentara convencer Peto a entrar na fila mas o peralta sumiu de suas vistas. Da janela, espiara o movimento, condena a má-educação do povo.

— Essa gentinha não merece a caridade de ninguém. Então, os homens mandam um avião de presentes e o resultado é essa vergonheira… Até dá nojo.

Tieta toma a defesa do povo de Agreste, humanidade sofrida, condenada à miséria, cujos filhos não conhecem outros brinquedos além de bruxas de pano e caminhões feitos com restos de madeira, tampas de cerveja no lugar das rodas.

— Eles são pacientes demais.

Dividem-se as opiniões, a discussão ameaça pegar fogo, a atmosfera guerreira da prefeitura invade a pacífica varanda da mansão onde as paulistas se hospedam. Seixas, por uma vez exaltado, a favor de Tieta, defendendo o direito dos pobres à revolta. Elisa, exibindo o pé inchado, conseqüência do pisão de potente lavadeira disposta a obter bonecas e cornetas para os oito filhos, não encontra desculpas, nem para a má-educação do zé-povinho nem para a ausência da malta do bilhar.

Não se refere a Astério, de plantão na loja, sem poder abandonar o balcão, na véspera de Natal sempre se vende alguma coisa. Mas Osnar, Aminthas, Fidélio, eles e outros, deixaram-se ficar no botequim, de taco e giz na mão, em vez de atender ao pedido de Ascânio comparecendo à prefeitura para ajudá-las a conter as feras, porque não passam de feras…

Presidente da comissão de honra, dona Milu devia ser a mais indignada, a primeira a condenar a grosseria geral. Muito ao contrário, defende os canibais:

— Feras coisa nenhuma! Pobres, somente pobres e nada mais. Brigando, se atropelando por uma bonequinha de plástico que não vale dez réis de mel coado, por uma corneta de latão, para dar aos pobrezinhos dos meninos. Por falar nisso, que idéia péssima, essa de oferecer cornetas… Não podiam escolher outra pinóia qualquer?

Observação com a qual todos estão de acordo; o vibrante concerto de cornetas, tantas e tão estridentes, sopradas em conjunto, fora o pior da festa. Dona Milu volta-se para o poeta que ainda não abriu a boca:

— Tenho de ir embora, deixei Carmô na cama, com febre; quando se resfria fica enjoada como ela só, vira um alfenim. Mas antes quero ouvir os versos de Barbozinha. Lá não deu jeito. Por causa das cornetas.

Em geral, o vate não se faz de rogado para declamar seus poemas mas está de calundu, a vaidade ferida com a falta de respeito de seus concidadãos; pede desculpas, mas… Tieta intervém:

— É claro que você vai dizer a poesia, não guarde agravo. De qualquer maneira tinha de recitar para mim que não pude ir, não é mesmo? — os olhos marotos postos em Barbozinha. — Então, meu velho? Estamos esperando, lasque o verbo…

Barbozinha obedece. Amoroso trovador, submisso às ordens de sua musa, põe-se de pé, retira do bolso de dentro do paletó duas folhas de papel, caprichada caligrafia, sonoros alexandrinos. Pigarreia, solicita um gole de pinga para lavar a garganta, Araci corre a buscar. O poeta emborca a cachaça, estala a língua, estende a mão e desfralda a voz.

Arauto da boa-nova, anuncia o nascimento de Cristo, pobre e nu, na manjedoura em Belém. Que venham as crianças de Agreste, todas, sem exceção de nenhuma, participar da alegria universal, pois à infância pertence essa festa de Natal por decisão da benemérita Brastânio, cujos proprietários, nobres e magnânimos construtores da pátria grandiosa e justa, atiram braçadas de brindes valiosos no regaço da pobreza, transmudando as lágrimas das crianças desprovidas em risos álacres, em pipilar de pássaros, em gorjeio de aves felizes.

Buscara inspiração na Bíblia e na beleza do chão, do rio, do mar; molhara a pena nos profundos sentimentos de solidariedade humana. Assim iluminou obscuros lares com estrelas-d’alva, comparou os diretores da Brastânio a novos Reis Magos descobrindo os ásperos caminhos de Agreste, trazendo, nas mãos de bondade, ouro, mirra e incenso. Rimou a pobreza do povo com a grandeza nacional, o infeliz menino dos outeiros de Agreste com o infante divino, rei da Judéia, rimou titânio com Ascânio. Ascânio Trindade, capitão da aurora, a romper os muros do atraso, a abrir as comportas do progresso.

Leonora, empolgada, ergue-se em aplausos, os demais a acompanham: palmas e exclamações entusiásticas. Triunfo completo a compensar a decepção anterior.

— Chegue aqui, quero te dar um beijo! — exige Tieta e beija o vate na face maltratada, imprimindo-lhe nas rugas a marca dos lábios, em batom cor de vinho.

— Bravos, Barbozinha, gostei muito. Merecido, esse elogio a Ascânio — considera dona Milu. — Ascânio não desanima e se um dia Agreste voltar a valer alguma coisa, a ele se deve. A ele e a você, Tieta. Foi você chegar e tudo mudou: foi como um clarão nos iluminando. Não falo da eletricidade de Paulo Afonso, falo de qualquer coisa que eu mesma não sei explicar, não passo de uma velha boboca. Uma coisa que a gente não vê, não toca mas existe, uma luz que veio com você, minha filha, Deus lhe abençoe.

Aproxima-se da rede e beija Tieta com carinho maternal. Despede-se:

— Vou embora, Carmô deve estar sobre brasas, vai me dizer muitas e boas. Com razão.

Ascânio pede-lhe mais um minuto, um minuto apenas, por favor. Pondo-se também de pé, faz sua proclamação aos povos, anuncia a nova era, a era da Brastânio. Não acrescentou seu nome ao da grande indústria de dióxido de titânio, por desnecessário. Merecendo apoio e aplauso de dona Milu, já o fizera De Matos Barbosa em versos que Leonora decorou e repete baixinho, entreabertos os lábios de carmim.

 

“TEU PARAÍSO, POETA, ESTÁ AMEAÇADO!”, CAPÍTULO ONDE A BOMBA EXPLODE

A CRÔNICA DE AUTORIA DE GIOVANNI GUIMARÃES

EXPLODIU EM Agreste no dia seguinte ao Natal. Bomba de retardamento, pois o número de A Tarde em que foi publicada datava de três dias atrás, da antevéspera de Natal, quando o vate Barbozinha não havia ainda cometido seu poema para a festa das crianças pobres.

A culpa cabe por inteiro à gripe que, retendo dona Carmosina febril sob os cobertores do leito, em suadouro, não apenas desfalcou a comissão de honra da dita festa, como impediu o comparecimento da exemplar funcionária à agência dos Correios em dia de distribuição de correspondência. Substituiu-a dona Milu, cansada da maratona da manhã na prefeitura, com pressa de voltar para junto da filha enferma. Entregou as poucas cartas àquelas pessoas que acorreram após a chegada da marinete, naquele dia atrasadíssima, deixou o resto, inclusive os jornais, para distribuir após o feriado.

A Tarde possuía cinco assinantes em Agreste mas o pacote continha sempre seis exemplares, sendo o sexto destinado a dona Carmosina Sluizer da Consolação, representante do jornal no município. Todos os seis ficaram na agência, atados com um barbante, como chegaram. Dona Carmosina se encontrava de tal maneira tomada pela gripe a ponto de não se interessar sequer pelos acontecimentos da festa na prefeitura, quanto mais pela cansativa leitura dos jornais.

Amanheceu melhor no dia de Natal, sem febre mas ainda fraca, o corpo pedindo cama e repouso, dormiu quase toda a manhã. À tarde, recebeu a visita de Tieta e Leonora, acompanhadas do comandante Dário e dona Laura, além de Ricardo, que ostentava no dedo largo anel de ouro, com uma pedra de jade, de raro verde-escuro, oval e lisa, peça de valor.

Tieta saía de casa pela primeira vez após a noite do incêndio. Algumas marcas das queimaduras, vermelhas, desagradáveis de ver-se, resistiam às pomadas e ungüentos. Outra, que não fosse ela, esperaria a cicatrização completa antes de exibir-se em público, mas Tieta já não suporta permanecer em casa, deitada na rede, sobretudo em dia festivo.

Na véspera organizara uma ceia à maneira do sul para a família e os amigos, após a missa do galo. Vieram Barbozinha, Ascânio Trindade, padre Mariano, Osnar, Aminthas e Fidélio. Seixas tinha compromisso com as primas. O comandante e dona Laura tampouco puderam comparecer. Todos os anos, desde que voltou a Agreste, o comandante promove na véspera de Natal uma festa para os pescadores de Mangue Seco: a população não chega a quarenta pessoas, contando homens, mulheres e crianças. Reúnem-se todos numa espécie de bródio comunal que se prolonga em animado arrasta-pé. Modesto Pires contribui para os gastos mas não participa da comilança, vai à missa do galo no Arraial do Saco. Em compensação, a filha Marta e o genro Pedro confraternizam com os pescadores. Por esse motivo o comandante não aceitou o convite, prometendo, porém, vir com a esposa para Agreste na manhã do dia de Natal, a tempo de saborear, no almoço, em casa de Perpétua, os restos do peru, as sobras da ceia. Nem isso Carmosina e dona Milu podem fazer; o máximo que Carmosina se permite é deixar o leito, estender-se na espreguiçadeira.

Tieta, precavida, trouxera de São Paulo pequenos presentes de Natal para a família mas, além disso, agradecida pela forma como a receberam e tratam, deu dinheiro a Zé Esteves e Tonha, a Astério e Elisa e cadernetas de poupança a Ricardo e Peto, abertas em nome dos sobrinhos em banco de São Paulo. Ademais, a Ricardo, pela inestimável ajuda que lhe está prestando na construção do Curral do Bode Inácio, ofertou aquele anel, jóia do acervo do finado comendador Felipe. As mãos carregadas, chegam, ela e Leonora, à casa de dona Milu.

— Mais presentes? Não se contenta com os que nos trouxe de São Paulo? — dona Milu abana a cabeça ao receber o leque japonês. — Você não toma jeito, Tieta.

— Até melhorei da gripe… — declara, animada, dona Carmosina admirando o broche de fantasia, vistoso.

Não se demoram. Leonora tem encontro marcado com Ascânio, vão à matinê, e dona Carmosina, o rosto abatido, a voz rouca, ainda não está em condições de prosa longa.

— Volte para a cama — ordena Tieta. — E não pense em sair amanhã. Se quiser, eu fico de plantão no correio.

O comandante propõe uma comissão de pelo menos cinco pessoas para assumir a responsabilidade de substituir a boa Carmosina:

— Uma só não chega…

— Não é necessário ninguém; amanhã é dia de pouco movimento, só tem mala depois de amanhã. Mãe dá um pulo lá, não precisa mais.

No dia seguinte, depois do almoço, dona Milu foi entregar o resto da correspondência e os jornais, demorou-se a ver se aparecia alguém com cartas a enviar, matando o tempo a conversar com Osnar e Aminthas até por volta das quatro horas, quando fechou a porta e, levando consigo o exemplar de A Tarde, voltou para casa. Quem por acaso precisasse enviar telegrama, sabia onde encontrar a agente dos Correios e Telégrafos.

Bem mais disposta mas ainda guardando o leito, dona Carmosina ajeita os travesseiros, pondo-se cômoda para a leitura da gazeta. Relanceia os olhos pelos títulos da primeira página, reportagem sobre a carestia da vida, as dificuldades da população praticamente impedida de comemorar o Natal devido à alta dos preços. Não somente das castanhas, das avelãs, das nozes, das amêndoas, do queijo de cuia, do bacalhau; também do feijão, do arroz, da carne-seca, tudo pela hora da morte. Virando a folha, na página nobre de A Tarde, a do editorial, dos tópicos, das crônicas e artigos importantes, matéria de sua especial predileção: a coluna diária de Giovanni Guimarães. Ao ver de dona Carmosina, ninguém supera esse cronista na graça do comentário galhofeiro ou no ferrete da crítica aguda às mazelas da sociedade de consumo.

Bate os olhos miúdos no título da matéria e o que vê? carta ao poeta de matos barbosa, em letras negras e gordas, encimando as duas colunas em grifo, assinadas por Giovanni. O rosto da enferma se ilumina, exclama: oba! Mas a alegria de ver o nome do amigo no alto da página transforma-se em agitada agonia apenas lê a primeira linha da crônica: “Teu paraíso, poeta, está ameaçado!”.

 

DO GRITO DE ALERTA, CAPÍTULO ONDE SE RESUME A FAMOSA CRÔNICA

 

EM CAPÍTULO ANTERIOR, O NOME DE GIOVANNI

GUIMARÃES FOI REFERIDO na condição de amigo do poeta Barbozinha, parceiro de boemia, de vida airada nos castelos e nos cafés de subliteratos, sem que houvesse no entanto alusão às qualidades e ao conceito do foliculário, redator de A Tarde desde os tempos distantes de calouro na faculdade de medicina, assinando há vários anos na popular gazeta da capital baiana, cotidiana e quase sempre risonha coluna, muito lida e apreciada. Por vezes, o tema tratado levava o articulista sem maldade mas enfurecido a trocar a leveza e a graça do comentário pela áspera denúncia das injustiças sociais, substituindo o sorriso trocista e bonachão por impetuosa ira. Quando apontava violências e dizia da opressão e da miséria.

“Teu paraíso, poeta, está ameaçado!” Com essa frase de advertência, o articulista inicia a dramática missiva dirigida ao “poeta e cidadão do município de Santana do Agreste, Gregório Eustáquio de Matos Barbosa”. Dona Carmosina tenta adivinhar: o que será, meu Deus? Recorda a gostosa gargalhada do jornalista, ecoando na agência dos Correios quando visitara Agreste. Homem mais alegre, logo amigo de todos, sobretudo de Osnar.

No começo da crônica, Giovanni Guimarães reporta-se exatamente à visita a Agreste, havia alguns anos, a convite do poeta que “ao aposentar-se de função pública exercida com exemplar dedicação na prefeitura de Salvador, abandonara a vida agitada da capital, os hábitos notívagos de boêmio, os círculos literários, retornando aos ares saudáveis, ao clima admirável do torrão natal”. Recorda os dias, poucos, porém felizes, de permanência na “bucólica cidadezinha, reino feliz da paz, recanto idílico” e os passeios no rio, o banho na bacia de Catarina, as idas à praia de Mangue Seco, “obra-prima da natureza, paisagem do começo do mundo, única e incomparável”. Em companhia de Barbozinha, cicerone perfeito, Giovanni pudera conhecer e desfrutar as delícias desse “paraíso na terra, éden de beleza e harmonia, onde o homem — em que pese a língua ferina das beatas — ainda é o próximo do homem”.

Durante a curta estada em Agreste, escandalizava as beatas fazendo, no adro da igreja, na hora da bênção, o elogio do pecado e do inferno, repleto de mulheres belas e dadivosas, enquanto o céu não passa de uma chatice eterna de santos barbudos e hinos monótonos. Mas, nem mesmo as velhas xeretas resistiam ao riso comunicativo, ao calor humano que se desprendia do estróina, riam com ele. O único céu onde vale a pena viver é Agreste, paraíso na terra, concluía. Ali, ao respirar aquele ar fino e puro, sentia-se rejuvenescer, limpos os pulmões e o coração. Um pândego, cutucavam-se as comadres.

Pois bem: “Teu paraíso está ameaçado de morte, poeta, a Magra busca instalar-se nas águas do rio Real, nas ondas de Mangue Seco, corveja sobre campos e dunas. Para transformar o diáfano céu azul em poluída mancha negra, para envenenar as águas, matar os peixes e os pássaros, reduzir os pescadores à miséria, substituir a saúde por enfermidades novas de imprevisíveis conseqüências”. Dona Carmosina suspende a leitura para respirar: ai, meu Deus, por que tão terrível profecia? Uma vez, na prosa no Areópago, Giovanni perguntara-lhe por quantos anos ainda o povo de Agreste gozaria em paz a delícia do clima perfeito, a doce convivência, distante dos males da sociedade de consumo? Mais dia menos dia, ele mesmo respondera, os horrores da civilização aportariam na bacia de Catarina, nos cômoros da praia, adeus felicidade!

“Sabes tu, meu poeta, que no mundo inteiro existem apenas seis fábricas de dióxido de titânio? Que recentemente um juiz condenou à prisão os diretores de uma delas, na Itália, pelo mal causado ao Mediterrâneo, pela poluição das águas e destruição da flora e da fauna marítimas? Sabes que nenhum país civilizado aceita em seu território essa monstruosa indústria? Que a empresa, cuja presença ameaça o Brasil, não obteve autorização para erguer suas chaminés malditas na Holanda, no México, no Egito? Vade retro!, exclamaram os governantes recusando os imensos capitais, não somente por estrangeiros mas sobretudo por assassinos da atmosfera e das águas.” Dona Carmosina descansa o jornal sobre o lençol, de algumas dessas coisas ela sabe, delas tomara conhecimento, lera nos jornais, mostrara inclusive ao comandante Dário artigo em O Estado de S.Paulo e juntos aplaudiram a sentença ditada pelo juiz italiano, um porreta.

“Teus maravilhosos versos, poeta, sobre a praia de Mangue Seco, serão amanhã os únicos testemunhos da beleza das límpidas águas, da areia fina, da riqueza dos cardumes de peixes, da valentia dos barcos de pesca, quando a Megera, elevando-se das chaminés das fábricas ali construídas, estender seus gadanhos de fumaça sobre as dunas. Toda a paz e a beleza que cantaste em tantos poemas de amor vai apodrecer e acabar nos efluentes de sulfato ferroso e do ácido sulfúrico, nos gases do dióxido de enxofre, na poluição desmesurada.” Meu Deus!, sussurra dona Carmosina, sentindo um peso no peito, falta de ar.

“Apesar de ainda não terem obtido a necessária autorização do governo federal para o estabelecimento de tal indústria no país, os diretores da recém-organizada Brastânio — Indústria Brasileira de Titânio S. A. — de brasileira bem pouco ela tem, meu poeta, afora os testas-de-ferro — sabem de antemão que não lhes será permitido erguer suas fábricas nos estados do sul. Voltam-se para o desditoso estado da Bahia, onde quatro zonas estão sendo objeto de estudo da empresa, em busca de local onde instalar suas fatídicas chaminés. Técnicos e agentes espalham-se nas plagas grapiúnas, entre Itabuna e Ilhéus, no Recôncavo, para as bandas de Valença e há quem diga que até os subúrbios da capital, nas imediações de Arembepe, estão sob sua mira. Tudo indica, porém, que as preferências dos reis da poluição pendem para a região do litoral norte do estado, a foz do rio Real, os coqueirais de Mangue Seco.” Todo o calor da tarde cai sobre dona Carmosina, lá fora o céu escurece. Pobre Barbozinha: seu amigo Giovanni Guimarães a alertá-lo publicamente enquanto ele rima louvores aos donos da Brastânio, aos reis da poluição. Suprema ironia do destino!, clama dona Carmosina espantando as moscas.

— Precisa de alguma coisa, Carmô? — a voz de dona Milu da porta da rua.

— Nada, mãe.

“A região grapiúna é rica, meu poeta, pesa nos destinos da economia nacional, tem forças para impedir a ameaça a seu mar, ao rio Cachoeira, à própria lavoura do cacau, fonte importante de divisas. O mesmo pode-se dizer do Recôncavo, menos rico mas defendido pelos restos do prestígio político dos barões da cana-de-açúcar, decadentes porém barões. Quanto a Arembepe, seria sem dúvida o local perfeito do ponto de vista dos empresários, devido à proximidade da capital, às vias de comunicação, ao lado do Centro Industrial de Aratu, mas nenhum governo, por mais discricionário, se atreverá a conceder autorização para que seja poluída a cintura da cidade, acabando-se com a pesca, tornando as praias impraticáveis, expulsando os turistas, empesteando a própria capital do estado. Ah!, meu poeta, resta apenas o município de Agreste, esquecido de Deus e dos homens, desprotegido da sorte. O habitat da Maldita será Mangue Seco. Atenção, poeta! Vão aparecer por aí, se já não apareceram, os emissários da poluição, prometendo mundos e fundos, falando em progresso e riqueza, mas é a morte que eles conduzem em sua pasta repleta de moedas estrangeiras.”

Continuar: parte 2 de 5