Tópicos em malacologia médica
Prefácio
É muito bem-vindo este livro de malacologia na atual conjuntura das Ciências Biológicas e da Saúde Pública do Brasil. Pensado e materializado no seio da Fiocruz e da Universidade, ele retrata uma vocação da comunidade científica brasileira para com suas doenças endêmicas, uma tradição consolidada desde Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, no início deste século. Frederico Simões Barbosa e seus companheiros dão aqui seqüência a esta caminhada, trabalhando com os moluscos que, em nosso país, apresentam a sua maior importância quando veiculam a esquistossomose mansoni. Estimando-se que acometa pelo menos 10 milhões de brasileiros, a esquistossomose tem origens históricas nas fortes correntes da migração afro-brasileira dos tempos da escravidão, alcançando nosso país pelo Nordeste e encontrando possibilidades de transmissão em três espécies de moluscos brasileiros.
A par do grande interesse biológico e acadêmico que permeia a vida dos caramujos, é a esquistossomose em si o principal propulsionador do estudo destes moluscos entre nós. Disseminada por meio de migrações internas, a doença no Brasil sempre esteve ligada à maneira e à intensidade com que o homem se relaciona com as coleções naturais de água doce onde se encontram os caramujos do gênero Biomphalaria. Uma série de outros elementos epidemiológicos, de natureza bioecológica, política e social intervêm decisivamente neste ciclo, onde o caramujo é o vetor, e o homem, tanto quanto vítima, o principal protagonista. A esquistossomose aqui se determina basicamente sobre populações pobres e marginais cujas definições epidemiológicas mais visíveis são a falta de saneamento básico e um tipo de vida que induz ao contato com águas naturais poluídas. Desconforto, dores, baixa produtividade, disfunção hepática e intestinal, uma série enorme de formas exóticas e as temíveis conseqüências das formas hepatoesplênicas avançadas cobram o preço social da doença, muitas vezes desapercebido pelas elites dirigentes. Técnicos do próprio Ministério da Saúde do Brasil já referiam, em 1994 que "apenas 69,7% da população residente nos estados endêmicos para esquistossomose dispõem de água encanada. No Nordeste, região onde a doença apresenta as maiores prevalências e está mais disseminada, o suprimento de água é bem mais precário, atingindo apenas 49,2% da população. Praticamente inexiste suprimento de água nas áreas rurais. Esta medida, se adotada, produziria grande impacto na transmissão da esquistossomose, uma vez que no Japão essa providência reduziu em 72% as doenças intestinais. Com relação à
população suprida com esgoto sanitário, o quadro é ainda pior...* Altos índices de analfabetismo, desnutrição, parcos salários e muito baixa capacidade de organização e reivindicação política são outras características das populações mais expostas à esquistossomose. O modelo político-econômico desprivilegia totalmente essas populações, oferecendo-lhes como estratégia de sobrevivência as migrações internas e a urbanização. Vão junto os esquistossomas e os caramujos, espraiando a doença pelo País e urbanizando sua transmissão. Hoje já se conhecem importantes focos de esquistossomose com transmissão ativa em várias metrópoles brasileiras, coincidentemente acometendo as populações excluídas, mal assalariadas e desprovidas de educação, de água e de esgoto. Neste contexto e nesta história, os moluscos transmissores da esquistossomose no Brasil têm-se revelado bastante competentes, aprendendo a adaptar-se às mais distintas condições ambientais e a sobreviver ou recuperar suas populações em meio ambiente, provocada pelos resíduos industriais, por pesticidas agrícolas e mesmo por potentes moluscicidas. Visto até pouco tempo como o elo mais vulnerável da cadeia epidemiológica da esquistossomose, o caramujo mostrou-se um formidável adversário da Saúde Pública, sendo plenamente justificáveis os esforços para conhecê-lo melhor. Neste sentido, a malacologia brasileira teve o seu maior desenvolvimento a partir dos anos 50, quando bons grupos de investigação se iniciaram em Minas Gerais, em Pernambuco, na Bahia, em São Paulo e no Instituto Oswaldo Cruz. Nomes como Lobato Paraense e Simões Barbosa muito cedo se destacaram entre os grandes pesquisadores mundiais. Nos anos 60, as áreas finalísticas do Ministério da Saúde ligadas à esquistossomose mantinham excelente interface com os centros de investigação e tinham mesmo sua própria massa crítica de pesquisa, desenvolvimento e vigilância sanitária concentrada no Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu). Na década de 70, no bojo do regime militar e de uma série de perseguições aos investigadores, a malfadada Reforma Rocha Lagoa fez desaparecer o INERu e enfraquecer bastante as relações entre os serviços e a investigação. Houve mesmo episódios de confronto, como aquele em que pesquisadores brasileiros foram pejorativamente tachados de "mandarins da esquistossomose" por autoridades ministeriais. Não obstante, iniciativas como o Programa Integrado de Doenças Endêmicas (PIDE), do CNPq, e os emergentes cursos de pós-graduação em algumas universidades reforçam as investigações sobre a esquistossomose. Desta época, o maior produto no âmbito da parasitose foi indubitavelmente a radical modificação de sua abordagem programática, advinda da descoberta de drogas esquistossomicidas como a Oxamniquine e o Praziquantel, capazes de controlar efetivamente as formas graves da doença. Pari passu, uma nova perspectiva de atenção à saúde se formatava em Alma-Ata, em busca das ações descentralizadas e da melhoria da atenção primária à saúde. O Brasil, que até então concentrava suas ações contra a esquistossomose no combate aos caramujos, pôde então desenvolver a moderna estratégia baseada no tratamento do infectado. Cessado o período de exceção, a VIII Conferência Nacional de Saúde levou à Constituinte uma nova lógica social, e os programas contra a esquistossomose no nível das populações afetadas começaram realmente a deslanchar. As ações diretas sobre os moluscos transmissores passaram a ser executadas em volume muito menor, somente justificadas em condições focais de extrema pressão de transmissão. Os recursos destinados às enormes quantidades de moluscicidas passaram a ser racionalizados em termos do diagnóstico da parasitose e seu tratamento, com o complemento de saneamento básico e de mobilização comunitária. Dados atuais da FNS de Minas Gerais, onde este programa se implantou em mais de 240 municípios nos últimos três anos, está demonstrando, através de avaliações periódicas, uma drástica redução das formas graves da esquistossomose. Mas está demonstrando, também, que o uso de moluscicidas decaiu enormemente, sem efeito negativo sobre as taxas de prevalência, que também apresentam significativa redução em praticamente todas as áreas trabalhadas. Está demonstrando, enfim, que o programa pode ser responsavelmente conduzido em nível municipal, e que as pequenas obras de saneamento são possíveis e eficazes.
Com tais considerações poderia parecer incongruente retomar-se o vetor, na perspectiva deste livro. Em recente reunião da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (Salvador, 1994), a comunidade científica latino-americana procurou analisar a perda progressiva da "expertise" em vetores das nossas doenças endêmicas. Esta perda foi sentida como de grande intensidade, entendendo os especialistas que suas conseqüências a médio e longo prazos se refletem negativamente na própria qualidade dos programas de controle. A grande biodiversidade e as inúmeras possibilidades de determinação da doença entre nós advertem pela prudência, pelo enfoque transdisciplinar e pela contínua vigilância epidemiológica. É ainda viva a lembrança do descaso, em São Paulo, de algumas autoridades sanitárias quando advertidas dos riscos de implantação da endemia, nos anos 40, porque "os caramujos locais (Biomphalaria tenagophila) não eram sensíveis às cepas nordestinas de Schistosoma mansoni...". A manutenção da pesquisa em malacologia hoje se justifica plenamente. Novas situações epidemiológicas e a consolidação da luta antiesquistossomótica estão a exigir contínuo aperfeiçoamento dos técnicos, das estratégias e dos insumos pressupostos no programa. Como em várias outras doenças metaxênicas, os resíduos epidemiológicos são difíceis de extinguir e podem propiciar novas possibilidades de transmissão. A vigilância epidemiológica é o horizonte perceptível para a esquistossomose no Brasil, a demandar atenção e monitoramento contínuo sobre os principais elos da cadeia epidemiológica da doença. Além do mais, o controle do caramujo é ainda importante nos dias de hoje e se reconhece que os insumos utilizados ainda não são os ideais. Refira-se ainda que a fauna malacológica é muito rica e importante na biocenose de nossas águas, havendo muito por explorar e reconhecer.
Como mencionado, Frederico Simões Barbosa há muitos anos vem contribuindo na pesquisa, no ensino e na resolução de nossos grandes problemas de saúde, notadamente da esquistossomose. Sua vocação é estar permanentemente indagando, cercado de gente idealista, a dizer as suas coisas e a palmilhar sertões e povoados. Não estranha, pois, mais este livro, eminentemente prático e essencialmente dirigido à formação de técnicos e de alunos. Desde os primeiros textos da Sistemática e da Biogeografia, percebe-se a inquietação em contextualizar a malacologia brasileira numa projeção ao serviço. A Etologia, a Embriologia e a relação molusco-parasita abrem campo e caminho à discussão do controle. Esta se faz numa perspectiva ecológica, como se deveria esperar dos autores deste livro. Ao final, uma importante série de aspectos práticos compõe seis itens sobre técnicas malacológicas, destinadas ao estudante, ao técnico de campo e ao iniciante à pesquisa. Aqui se manifesta uma vez mais a sintonia dos autores com as questões éticas mais fundamentais para aqueles que estudam as coisas da Saúde Pública: o objeto a serviço do homem, na construção de uma sociedade em que as doenças não separem demasiadamente os homens. Num sentido prático, eles dividem o seu saber e o colocam a serviço da sociedade, no presente livro.
Há cerca de três lustros, Simões Barbosa me dizia pessoalmente na Ensp que acreditava numa Saúde Pública responsável e compartida, com bases sólidas nas próprias regiões endêmicas, fruto de uma epidemiologia local pronta e eficiente, voltada eminentemente para os agravos mais importantes. Era preciso preparar as pessoas para essa nova realidade. Hoje, professores e técnicos de serviço vivemos esta mesma busca, em especial depois que o País optou por uma nova ética social que norteou-se pelo desafio da saúde para todos. A construção desta saúde passa pelos ideários e pelos sonhos de gente como Frederico, assim como passa pela edição de obras que democratizem e que expandam o conhecimento como forma de liberação social. Sem dúvida, pelos caramujos também se pode chegar ao ser humano...
João Carlos Pinto Dias**
Belo Horizonte, agosto de 1995.
* Amaral, R. S. & Porto, MAS, 1994. Evolução e situação atual do controle da esquistossomose no Brasil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 27 (Suplemento III): 73-90.
** Pesquisador Titular da Fiocruz e Professor Titular da Faculdade de Medicina da UFMG. Atual Coordenador da Fundação Nacional de Saúde em Minas Gerais.