Tópicos em malacologia médica
Introdução
A primeira impressão que se poderia ter desta publicação é a de que se trata de mais um manual de malacologia semelhante aos demais, surgidos em momento próprio, quando a malacologia se situava como campo de estudo aplicado e instrumento eficaz no controle da esquistossomose. Puro engano. A presente publicação tem como objetivo resgatar o vasto e valioso conhecimento, produzido particularmente neste país, no campo específico da malacologia médica e desenvolvido por pesquisadores brasileiros, a quem se fica a dever essa enorme riqueza contribuitiva à Ciência Nacional.
Os estudos de malacologia médica foram intensamente estimulados nas décadas de 50 a 70, período no qual os pesquisadores, apoiados por organizações nacionais e internacionais, sustentavam a opinião de que o uso dos moluscicidas era de substancial importância no controle da esquistossomose. Trabalhos de Farooq (Bulletin of the World Health Organization, 35: 331-338, 1966) e de outros muitos autores cimentaram estas idéias. Entretanto, uma avaliação independente do trabalho acima citado, feita por Gilíes et al. (Annals Tropical Medicine and Parasitology, 67: 45-65, 1973), mostrou que os resultados obtidos por Farooq não eram consistentes. Pesquisa a longo prazo (1966 -1978), realizada no Nordeste do Brasil por Barbosa et al. (Annals of Tropical Medicine and Parasitology, 75: 41-52, 1981), evidenciou o valor muito restrito dos moluscicidas no controle daquela endemia.
O surgimento de novos quimioterápicos específicos, capazes de reduzir a prevalência da infecção e das formas hepatosplênicas da doença esquistossomótica, veio colocar o problema do controle das endemias em outros termos.
A incapacidade, não-confessada, de controlar a esquistossomose, utilizando-se os meios tecnológicos clássicos aplicados verticalmente nas regiões endêmicas, veio mostrar, mais uma vez, que a natureza tem razões que o homem procura desconhecer.
Com as evidências acima e o fato bem-estabelecido de que a erradicação da esquistossomose só foi possível em país desenvolvido (caso específico do Japão), foram criadas várias abordagens, procurando-se envolver as comunidades e aceitando-se como importante a incorporação do controle da endemia nas estruturas dos serviços de saúde em nível local. Estava criado um modismo que veio para ficar, enquanto o caso da esquistossomose for tratado dentro do conceito da Ciência Autosustentada, criticamente analisado por Kloetzel (Cadernos de Saúde Pública, 8: 204-206, 1992).
Não que se pretenda negar ò valor da Ciência, mas que se procure dignificar o homem como o alvo de todos os nossos interesses.
Kloetzel cita que a esquistossomose pode ser controlada por processos simples e investimentos modestos (Parasitology Today, 5: 388-391, 1989), desde que se procure entender como se passam os processos mórbidos no contexto sociocultural, econômico e político das sociedades subdesenvolvidas, como comentado por Barbosa & Coimbra (Memorias do Instituto Oswaldo Cruz, 87, Supl. IV: 215-220, 1992).
A malacologia médica teve seu apogeu. O Brasil produziu substancial quantidade de trabalhos de incontestável mérito, voltados particularmente para a sistemática, a distribuição geográfica, a Biologia, a Ecologia, a Etologia, a relação hospedeiro/parasito e o controle dos moluscos. A Fundação Oswaldo Cruz sedia o Laboratório Internacional de Referência em Malacologia Médica. O primeiro manual de malacologia médica foi criado neste país por Barbosa et al. (Manual de Malacologia Médica, 1960).
Tópicos em Malacologia Médica contou com renomados especialistas brasileiros que desempenharam a árdua tarefa de escrever os tópicos relacionados com a vida, o comportamento e os possíveis métodos alternativos de controle dos moluscos, distribuidos em seis capítulos. O sexto e último trata de assunto prático, envolvendo as técnicas de manejo dos caramujos transmissores da esquistossomose.
Diante deste magnífico acervo científico e ante as evidências de que o controle da esquistossomose passa por outros caminhos distantes das obsoletas estratégias operacionais, utilizadas no passado, poder-se-ia perguntar se ainda haveria espaço para investigações no campo da malacologia médica.
A resposta é seguramente positiva. Os avanços da Biotecnologia indicam uma série de investigações particularmente voltadas para: manipulação genética; genética de populações e cruzamentos interespecíficos; mecanismos responsáveis por superioridade competitiva de cepas de caramujos em testes de deslocamento competitivo; descoberta de novos competidores; estudos quantitativos sobre dinâmica populacional; pesquisas abrangentes de campo sobre Ecologia; e o comportamento dos moluscos, que são, entre outros, assuntos da maior relevância para a compreensão de mecanismos a fim de que se possa chegar ao desenvolvimento de metodologias alternativas de controle dos transmissores da esquistossomose.
A leitura atenta dos diversos tópicos desta publicação indicará ao leitor muitos outros caminhos atraentes para o desenvolvimento de pesquisas, principalmente na área básica: morfologia e sistemática, fisiologia, embriologia e relações molusco/parasito.
Tem, assim, a malacologia médica extraordinário campo de trabalho aberto aos investigadores.
Aos colaboradores que nos honraram com suas contribuições, nossos agradecimentos. Tópicos em Malacologia Médica reflete o elevado nível da comunidade científica do país neste campo específico. Lamentamos a ausência de alguns colaboradores convidados que, por motivos diversos, não puderam atender a nossa solicitação.
Aos leitores, nossa expectativa de que estes Tópicos possam lhes dar apoio e valiosas sugestões de pesquisa.