Tópicos em malacologia médica

Frederico Simões Barbosa · Capítulo 7 de 22

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Tópicos em malacologia médica

1.3 Famílias Chilinidae, Ancylidae, Physidae e Lymnaeidae

1.3 Famílias Chilinidae, Ancylidae,

 

Physidae e Lymnaeidae

 

A posição sistemática (Quadro 1) e a descrição dos principais moluscos da ordem Basommatophora são apresentadas ressaltando-se os hospedeiros intermediários de helmintos parasitas.

Quadro 1: Molusca, Gastropoda, Pulmonata, Basommatophora

 

A família Planorbidae é tratada separadamente por englobar os transmissores da esquistossomose mansônica.

A morfologia interna dos moluscos é de importancia fundamental para a sistemática dos mesmos (Paraense, 1961). Variações de conchas em diferentes populações e anomalias (vide Souza & Lima, 1990, p. 7) podem levar a identificações duvidosas na ausência do conhecimento anatômico interno do molusco.

A parte mole de um gastrópodo planorbídeo é mostrada do lado esquerdo, com parte do manto levantada, permitindo a visão dos

órgãos internos (Figura 1). A massa cefalopodal (cabeça e pé)

(Figura 2 A e C), exposta quando o molusco se movimenta, é unida pelo colo à massa visceral que é permanentemente protegida pela concha. No colo encontramos a abertura genital masculina, atrás do tentáculo esquerdo e, mais atrás, a feminina.

Figura 1: Parte mole de Biomphalaria, vista do lado esquerdo, com

o manto parcialmente levantado. an: ânus; c: cabeça; cl: crista

dorsolateral; cm: colar do manto; cp: cavidade pulmonar; ct: crista

retal; et: estômago; ga: glândula de albúmen; gd: glândula

digestiva; ia: intestino anterior; im: intestino médio; ip: intestino

posterior; mc: músculo columelar; mf: mufla; ms: massa

cefalopodal; om: orifício genital masculino; ot: ovoteste; p: pé, pn:

pneumóstoma; ps: pseudobrânquia; rt: reto; te: tentáculo; tr: tubo

renal; vp: veia pulmonar; vr: veia renal

Ilustração cedida por Paraense

Figura 2: Biomphalaria. Concha e massa cefalopodal, vista pela

direita (A) e pela esquerda (C). Concha, vista de frente (B). ac:

abertura da concha; ag: abertura genital masculina; bm: borda do

manto; ca: calo; co: colo; di: diâmetro da concha; ga: giro apical ou

interno (primeiro giro); gc: giro corporal ou externo (último giro); lc:

largura da concha; ld: lado direito; le: lado esquerdo; mu: mufla; ol:

olho; pb: pseudobrânquia; pe: pé; pf: perifería; pl: palpos labiais;

pn: pneumóstoma; ps: perístoma; so: sola do pé; su: sutura; te:

tentáculo

Fonte: Paraense, 1972

 

O manto ou pálio é urna membrana que envolve a massa visceral e forma a cavidade pulmonar. Nele está situado o tubo renal.

Quanto a reprodução, estes moluscos são hermafroditas, capazes de se reproduzirem por autofecundação; mas a cópula entre dois indivíduos, um atuando como macho e o outro como fêmea é a forma preferida. O sistema genital é composto basicamente de um ovoteste, que produz óvulos e espermatozoides, seguido de um canal para a passagem dos mesmos, o qual se divide em dois

ramos, um masculino e outro feminino, de acordo com a Figura 3.

Figura 3: Aparelho genital de B. glabrata. bo: bolsa do oviduto; bp:

bainha do pênis; bv: bolsa vaginal; cc: canal coletor do ovoteste;

cd: canal deferente; ed: espermiduto; eg: encruzilhada genital; es: espermateca; gn: glândula nidamental; mp: músculo protrator; mr:

músculo retrator; od: segmento proximal do ovispermiduto; odd:

segmento distal do ovispermiduto; ot: ovoteste; ov: oviduto; pp:

prepúdio; pr: prós-tata; ut: útero; va: vagina; vs: vesícula seminal

Ilustração cedida por Paraense

 

Chilinidae Concha entre globosa e cônica, dextrógira, com espira distinta, columela com calo e um a dois dentes na abertura; tentáculos curtos, chatos e triangulares, estando os olhos situados na base externa dos mesmos. Encontrados aderidos a pedras ou ligeiramente enterrados, em águas correntes rápidas e limpas. São encontrados no Chile, Argentina, Uruguai, Sul do Brasil e Peru. Exemplo: Chilina (Paraense, 1981a).

 

Ancylidae

Concha pateliforme pequena, com abertura ampla; tentáculos longos e finos; gonoporos (aberturas masculina e feminina) à

esquerda (Figura 4,). Encontrados na zona de arrebentação dos lagos ou em águas correntes, aderidos a superfícies submersas, em toda a América do Sul. Os gêneros sul-americanos são: Ferrissia, Gundlachia, Hebetancylus, Anisancylus e Uncancylus (Paraense, 1981a).

Figura 4: Concha pateliforme de Ancylidae. (A). Vista dorsal. (B).

vista lateral

 

Physidae Concha fina, cônica, sinistrógira, brilhante, com espira distinta

(Figura 5); olhos na base interna dos tentáculos, que são longos e finos; pé lanceolado; borda do manto lobulada ou digitada. Encontrados em águas paradas ou de curso lento em todo o território brasileiro. São resistentes a ambientes poluídos (Paraense, 1981). Exemplos: Physa marmorata Guilding, 1828: concha com giros convexos, sem ombros, espira mais alta e mais estreita do que

em Physa cubensis, sutura rasa e dobra columelar fraca (Figura 5) (Paraense, 1986a).

Figura 5: Conchas de Physa marmorata (Escala Milimétrica)

 

Fonte: Coleção do Laboratório de Malacologia, do Centro de

Pesquisas René Rachou, Belo Horizonte, Minas Gerais - Acervo

Fotográfico de Lais Clark Lima

Figura 6: Conchas de Physa cubensis

 

Ilustração cedida por Paraense

Características da anatomia interna: corpo da espermateca oblongo, mais ou menos cilturado na parte média e um tanto curvo; pênis longo estreito; canal peniano com abertura na junção dos terços médio e inferior; prepúcio com ombro (Paraense, 1986a).

Physa cubensis Pfeiffer, 1839: concha com giros convexos, com ombros moderadamente salientes, sutura e dobra columelar bem

marcadas (Figura 7) (Paraense, 1987) .

Características da anatomia interna: corpo da espermateca ovóide ou piriforme; pênis grosso na parte proximal; canal peniano com abertura subterminal; prepucio com glândula volumosa em um lado de sua metade proximal (Paraense, 1987).

Figura 7: Conchas de Physa marmorata *

 

* Ilustração cedida por Paraense

 

Lymnaeidae

Concha semelhante à dos Physidae - porém dextrógira - cônica, alongada, fina, giros convexos, suturas rasas ou profundas, abertura oval ou arredondada, lábio interno refletido sobre o umbigo, mede

menos de 11 mm até mais de 15 mm de altura (Figura 8); olhos na base interna dos tentáculos, que são achatados e triangulares. Encontrados em águas paradas ou de curso lento. Ocorrem em todo o território brasileiro (Paraense, 1981a). As espécies identificadas até o momento no Brasil são: Lymnaea columella Say, 1817: concha com até 14 mm de comprimento, 7,5 mm de largura, cinco giros arredondados, espira pequena com ápice pontiagudo e giro corporal

volumoso ocupando três vezes o comprimento da concha (Figura 8). (Paraense, 1983a).

Figura 8: Conchas de Lymnaea columella (Escala Milimétrica).

 

Fonte: Coleção de Laboratório de Malacologia do Centro de

Pesquisas René Rachou, Belo Horizonte, Minas Gerais - Acervo

Fotográfico de Lais Clark Lima.

Características da anatomia interna: prepucio cerca de duas, quatro a seis vezes mais longo que a bainha do pênis e um pouco mais largo; bolsa do oviduto claramente visível; ureter duplamente flexionado (Paraense, 1983a).

Lymnaea viatrix Orbigny, 1835: concha com até 12,6 mm de comprimento, 7,5mm de largura, cinco e meio giros que aumentam lentamente de diâmetro e aberturaocupando metade do

comprimento da concha (Figura 9) (Paraense, 1976).

Figura 9: Conchas de Lymnaea viatrix*

 

* Ilustração cedida por Paraense

Características da anatomia interna: prepúcio aproximadamente do mesmo tamanho que a bainha do pênis ou até três vezes maior que a mesma; bolsa do oviduto bem desenvolvida; ureter reto (Paraense, 1976, 1982a, 1983a).

Lymnaea rupestris Paraense, 1982: concha com até 6mm de comprimento, 3,9 mm de largura, quatro giros com ombros bem marcados; sutura muito profunda, superfície com linhas de crescimento, abertura ovóide arredondada com mais da metade do

comprimento da concha e lábio refletido (Figura 10) (Paraense, 1982b).

Figura 10: Conchas de Lymnaea ruspestris*

 

* Ilustração cedida por Paraense

Características da anatomia interna: prepúcio mais ou menos do mesmo comprimento e da mesma largura que a bainha do pênis; bolsa do oviduto rudimentar; ureter reto (Paraense, 1982b, 1983a).

Representantes da família Lymnaeidae são hospedeiros intermediários de trematódeos parasitas do fígado, Fasciola hepatica Linnaeus, 1758 (Trematoda: Fasciolidae), de grande importância econômica em áreas de criação de bovinos e ovinos. A fasciolose humana tem sido registrada em Porto Rico, Cuba, México, Costa Rica, Venezuela, Colômbia, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil (Souza & Lima, 1990).

Distribuição geográfica dos moluscos hospedeiros: L. columella é encontrada no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais (Belo Horizonte, Barbacena, Betim, Diamantina, Ferros, Juiz de Fora, Ouro Fino, Sabinópolis, Ubá e Viçosa), Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Bahia. L. viatrix, em Minas Gerais (população introduzida em Belo Horizonte) e Rio Grande do Sul (Paraense, 1982a, 1983a, 1986b).

A Fasciola hepatica ocorre em Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo e Brasil Central. Os hospedeiros definitivos deste trematódeo no Brasil são: eqüinos, bovinos, bufalinos, ovinos, caprinos, suínos, cães e o homem. Casos de fasciolose humana foram registrados na Bahia, São Paulo (Vale do Paraíba) e Paraná (Pessoa & Martins, 1982).

A distribuição geográfica dos moluscos hospedeiros, as áreas de ocorrência de F. hepatica e de casos humanos de fasciolose são

mostrados na Figura 11.

Figura 11: Ocorrência de fasciolose no Brasil. Distribuição dos

limneídeos hospedeiros de Fasciola hepatica (Paraense, 1982a)

Área de ocorrência de fasciolose em animais (Costa et al., 1986).

Área de ocorrência de casos humanos de fasciolose (pessoa &

Martins, 1982)