Tópicos em malacologia médica
6.5 Cultivo em massa de Biomphalaria straminea
6.5 Cultivo em massa de Biomphalaria
straminea
Um sistema para produção em massa do caramujo Biomphalaria straminea, hospedeiro intermediário de Schistosoma mansoni, foi implantado em 1980, na Estação de Biologia Experimental, do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães - Fiocruz.
A experiência do grupo de pesquisas da Estação em trabalhos malacológicos permitiu estabelecer a padronização de condições ideais para o cultivo de bionfalárias, com risco insignificante de oscilações negativas, um mínimo de mão-de-obra, espaço físico limitado e custo operacional muito baixo.
O sucesso de uma técnica de cultivo está vinculado à prática do manejo de fatores que afetam a reprodução e o crescimento dos moluscos: qualidade da água, tipo de alimentação, iluminação, temperatura, controle de predadores e do efeito crowding, entre outros.
Algumas técnicas de cultivo em massa de moluscos já foram descritas (Freitas, 1973; Freitas et al., 1974; Milward de Andrade & Carvalho, 1972; Rowan, 1958; Sandt et al., 1965; Standen, 1951; Ward et al., 1947), geralmente associadas ao tipo de alimentação fornecida e quase todas com referência ao cultivo de B. glabrata. Esta é a primeira descrição de cultura em massa de B. straminea.
O conhecimento e o domínio na manipulação destes fatores propiciaram a manutenção, em laboratório, de condições ambientais favoráveis ao cultivo de uma cepa de B. straminea, albina e
resistente a infecção pelo 1 S. mansoni, nomeada B. straminea R3, sendo possível, assim, assegurar uma produção bimensal de alguns milhares de caramujos que foram utilizados em experimentos de campo de controle biológico, em Alhandra, Paraíba.
Em 1980 foram isoladas três salas, nas dependências da Estação de Biologia Experimental, para o cultivo em massa da cepa R3 de B. straminea. As salas dispõem de amplas janelas e, conseqüentemente, de bastante aeração e iluminação naturais. Foram instaladas lâmpadas fluorescentes para os dias mais escuros, e montados vários balcões e estantes que servem de suporte para os aquários. Estes são do tipo pirex, transparentes, com capacidade para 2 litros d'água cada, medindo 25cm de diâmetro por 11 cm de profundidade. As instalações comportaram 470 aquários até dezembro de 1985, quando as coletas de caramujos eram bimensais e diminuindo para 348, em 1986, quando as mesmas passaram a ser semestrais.
Os aquários foram preparados com uma camada de areia de rio lavada e esterilizada, água natural (não-clorada) de poço escavado na própria Estação, sendo a oxigenação da mesma feita com plantas aquáticas do gênero Elodea, coletadas em um açude próximo à Estação. Não havendo necessidade de aeração artificial. As plantas, antes de serem introduzidas nos aquários, passavam por rigorosa inspeção, em três sucessivos estágios de exames em lupa manual, ate estarem totalmente livres de moluscos, hirudíneos, larvas de culicídeos, microcrustáceos, e outros. As salas são mantidas fechadas e as janelas protegidas por telas de malhas finas.
Em cada aquário foram colocados, inicialmente, 15 caramujos com diâmetro médio de 4mm, já em idade reprodutiva.
Os moluscos eram alimentados diariamente com alface fresca e uma vez por semana recebiam suplementação protéica na forma de ração para alimentação de aves, fornecida pelo Dr. Luís Malta, veterinário e proprietário do Grupo Avimalta - Pernambuco.2
A temperatura média anual da água dos aquários foi de 26,09 + 0.803. As salas foram mantidas em temperatura ambiental.
A cada dois meses era feita uma coleta geral nos aquários, retirando-se todos os caramujos com mais de 4mm, que eram, em seguida, contados e embalados para serem transportados ao campo. A água era renovada, sendo os aquários reabastecidos de plantas. Os moluscos que restavam, com menos de 4mm, eram suficientes para restabelecer uma nova população de indivíduos adultos, utilizados no programa de controle biológico, a cada dois meses.
O cultivo em massa da cepa de B. straminea R3 foi mantido na Estação de Biologia Experimental, durante todo o Projeto do Controle Biológico de B. glabrata x B.straminea (oito anos), com absoluto sucesso reprodutivo da cepa.
O manuseio dos criadouros é muito simples e executado por um só técnico, devidamente treinado.
A distribuição dos caramujos em aquários pequenos facilita a inspeção diária e a limpeza, assim como permite a visualização e o controle imediato de qualquer forma de contaminação, sem prejuízo de toda a cultura.
Este esquema forneceu, inicialmente, para um total de 470 aquários, a cada dois meses, uma média de 5.777 caramujos. Posteriormente, com 348 aquários, a cada seis meses era coletada uma média de 4.800 moluscos com diâmetro igual ou superior a 4mm.
O declínio da produtividade, observado quando a coleta passou a ser semestral é justificado pelo efeito crowding. A quantidade de caramujos por aquário está condicionada à necessidade vital da espécie em relação ao espaço físico disponível. Quando a população atinge o número crítico de indivíduos, a freqüência reprodutiva passa a ser controlada e a densidade populacional se mantém em equilíbrio.
Agradecimentos
A manoel Alexandre Neto, pelo apoio técnico, paciência e dedicação.
Referências bibliográficas
FREITAS, J. R., 1973. Ritmo de crescimento de Biomphalaria glabrata (Say, 1818). Padronização da técnica de criação. Tese de Doutorado, Belo Horizonte: Instituto de Ciências Biológicas, Universidade de Minas Gerais.
FREITAS, J. R.; RESENDE, E. S.; JUNQUEIRA, D. V.; COSTA A. M. & PELLEGRINO, J., 1974. Criação em massa e ritmo de crescimento de Biomphalaria glabrata. Ciência e Cultura, 27: 968-974.
MILWARD de ANDRADE, R. & CARVALHO, O. S, 1972. Alimentação e fecundidade de planorbídeos criados em laboratório. I- Biomphalaria tenagophila. Revista Brasileira de Biologia, 32: 225-233.
ROWAN, W. B, 1958. Mass cultivation oi Australorbis glabratus intermediate host of Schistosoma mansoni in Puerto Rico. Journal of Parasitology, 44: 247.
SANDT, D. G.; BRUCE, J. I. & RADKE, M. G, 1965. A system for mass producing the snail Australorbis glabratus and cercariae of Schistosoma mansoni. Parasitology, 51: 1012-1013.
STANDEN, 0. , 1951. Some observations upon the maintenance of Australorbis glabratus in the laboratory. Annals Tropical Medicine and Parasitology, 45: 80-83.
WARD, P. A.; TRAVIS, D. & RUE, R. E. 1947. Studies on Shistosomiasis: Methods of stablishing and maintaining in the laboratory. National Institute of Health Bulletin, 189: 70-80.
Constança Simões Barbosa
Estação de Biologia Experimental, CPqAM, Fiocruz.
R. Dr. Francisco Correa, 1114 (54735-000) São Lourenço da Mata —
PE.
1 Esta cepa nos foi remetida pelo Dr. C. S. Richards (Biomedical Research Institute, Rockville, Md, USA). Originária de Sete Lagoas, MG, e cultivada no laboratório do Dr. W. L. Paraense, Fiocruz, RJ, foi tornada resistente por seleção genética no laboratório do Dr. Richards, a partir de 1971.