Tópicos em malacologia médica
6. Técnicas malacológicas
6.1 Coleta; remessa de exemplares vivos; fixação
e dissecção
COLETA
Os moluscos límnicos podem ser encontrados em vários tipos de coleções hídricas, tais como rios, riachos, lagoas, açudes, valas e alagados, preferindo geralmente águas tranqüilas ou de curso lento. Nesses ambientes devem ser procurados sob a vegetação aquática, no fundo do criadouro ou aderidos a pedras e a objetos flutuantes.
Material necessário para a coleta: pinças longas; conchas de
captura (Figura 1); pequenos sacos de tecidos ou recipientes plásticos para acondicionar os moluscos; luvas e botas de borracha; caderneta de campo, lápis e fita adesiva ou similar, para a identificação do material coletado. São também muito úteis no campo os coletes utilizados por pescadores, pois, como possuem muitos bolsos, facilitam tanto o transporte do equipamento de trabalho, como também o do material coletado.
FIGURA 1
A concha de captura consiste em um cabo de madeira com aproximadamente 1m de comprimento acoplado a uma peneira ou concha de metal perfurada. Uma boa concha de captura deve ter o espaço entre as malhas ou os furos em torno de 2mm, para que exemplares pequenos como Antillorbis e Drepanotrema, sejam também retidos.
A técnica consiste em raspar com a concha de captura a vegetação submersa e o fundo do criadouro, levá-la à superfície, lavando cuidadosamente o material recolhido e procurar pelos moluscos que, eventualmente, tenham ficado retidos. Pegar os exemplares com a pinça e colocá-los nos saquinhos de tecido umedecidos ou nos recipientes plásticos sem água e afixar a etiqueta de identificação para o transporte até o laboratório.
Repete-se várias vezes esta operação em diferentes pontos do criadouro, para se obter uma boa amostragem.
REMESSA DE MOLUSCOS VIVOS
Paraense recomenda a técnica que se segue para o transporte de moluscos vivos:
▪ Cortar uma faixa de gaze com uns 30 a 50cm de comprimento e 20cm de largura, molhar em água da torneira e espremer bem para retirar o excesso de água. Pode ser usado outro tipo de tecido, desde que se preste para a finalidade.
▪ Estender a faixa de gaze, apenas úmida, sobre uma superfície plana.
▪ Colocar uma fileira transversal de moluscos a uns 3cm da extremidade da gaze próxima ao operador, deixando um espaço de 1cm entre moluscos pequenos ou de 2cm entre moluscos grandes.
▪ Dobrar sobre a fileira de moluscos a extremidade da gaze próxima ao operador.
▪ Colocar adiante outra fileira de moluscos e dobrar sobre ela a parte da gaze, contendo a fileira anterior.
▪ Colocar adiante outra fileira de moluscos, dobrar a gaze sobre ela, e prosseguir até chegar próximo à extremidade mais distante da gaze, ou até esgotar a provisão de moluscos.
▪ Entre a última fileira de moluscos e a extremidade da gaze deve sobrar uma margem de tecido suficiente para dar pelo menos uma volta completa sobre o cilindro de gaze que se formou.
▪ Introduzir o cilindro de gaze úmida em um saco plástico de tamanho adequado, ou envolver o cilindro em uma folha de plástico, devendo ficar o cilindro bem protegido (envoltório de plástico bem fechado) para evitar o secamento da gaze.
▪ Colocar dentro do envoltório plástico, mas fora de contato com a gaze, uma etiqueta com os seguintes dados: localidade onde foi feita a coleta, tipo de criadouro (córrego, lagoa, brejo, vala de irrigação ou drenagem, etc), nome do coletor, data da coleta, e qualquer outra informação que seja considerada útil.
▪ Colocar o conjunto em recipiente resistente ao amassamento (caixa de madeira, lata, tubo de metal, etc), que não deve ser perfurado.
▪ Não submeter os moluscos à refrigeração, durante o manuseio ou durante o transporte.
▪ Durante o manuseio dos moluscos, evitar exposição a moscas, que depositam ovos, cujas larvas devoram os animais.
FIXAÇÃO
Para um bom estudo anatômico, os moluscos devem ser previamente anestesiados e fixados adequadamente. A técnica descrita a seguir, desenvolvida por Paraense, é utilizada na rotina de trabalho do Departamento de Malacologia do Instituto Oswaldo Cruz:
▪ Colocar os espécimes em recipiente com água limpa.
▪ Transferir aqueles que estiverem movimentando-se livremente
para outro recipiente com solução de nembutal a 0,05% em
água comum (0,1 de nembutal + 200ml de água), onde ficarão
durante a noite. Na manhã seguinte deverão estar bem
relaxados e imóveis. À falta de nembutal, pode ser usado outro
barbitúrico, desde que seja estabelecida a dose adequada.
▪ Imergir os espécimes, um a um ou reunidos em coador de
plástico ou metal (tipo coador de chá), em água aquecida a
70ºC, durante um tempo proporcional ao tamanho do exemplar
(cerca de 45 segundos para planorbídeos com cerca de 20mm
de/ diâmetro, ou outros moluscos de tamanho equivalente;
cerca de 30 segundos para planorbídeos pequenos, aucilídeos,
etc). Ter cuidado para não ultrapassar a temperatura adequada
(70 ºC) e o tempo de imersão, para evitar que o cozimento do
sangue e dos tecidos prejudique a dissecção.
▪ Imergir o animal morto em água fria e retirá-lo da concha,
segurando-o pela parte posterior da cabeça com uma pinça
adequada e puxando-o com suave tração a fim de desprender a
inserção do músculo columelar. À medida que se retira o
animal, a concha vai sendo ocupada pela água, dilui o resíduo
de sangue, evitando sua putrefação dentro da concha.
▪ Colocar o animal no fixador (líquido de Railliet-Henry,
modificado para animais de água doce):
Água destilada..... 930 ml
Cloreto de sódio..... 6 g
Formol neutralizado*..... 50 ml
Ácido acético glacial..... 20 ml
* Mantendo um pedaço de giz no frasco original
A quantidade de fixador não deve ser menor que dez vezes o volume do material a ser fixado. Deve-se trocar o fixador depois de 24 horas. Uma vez bem fixado o material, a quantidade de fixador pode ser reduzida para conservação ou remessa.
▪ Limpar a superfície das conchas com um pincel deb pelo
macio e deixá-las secar.
▪ Deixar as partes moles no fixador por pelo menos 24 horas
antes de dissecar. O material conserva-se indefinidamente no
fixador. Havendo urgência na dissecção, fazer a fixação na
estufa a 40º-45ºC durante 12 horas.
▪ Em espécimes de concha lamelada, ou de tamanho muito
pequeno, ou em drepanotremas com muitos giros, o animal
arrebenta facilmente quando se tenta extraí-lo da concha.
Nestes casos o animal, depois de imergido na água quente por
15-30 segundos, é colocado diretamente no fixador sem ser
retirado da concha. Devido à produção de CO2 resultante da
reação entre o ácido acético do fixador e o carbonato de cálcio
da concha, o fixador deve ser trocado várias vezes para evitar o
destapamento do frasco pela pressão do gás.
▪ Na impossibilidade de usar um relaxante adequado, proceder
como segue: tomar com uma pinça um espécime que esteja
movimentando-se livremente, com a cabeça e o pé bem
expostos, tendo muito cuidado para que não se retraia na
concha durante a manipulação. Mantendo a abertura da concha
para cima, imergir gradualmente o molusco em água quente,
como descrito no item 3. Manter a concha imersa na água
quente até quase ao nível da abertura durante os primeiros 15
segundos, submergindo inteiramente o espécime pelo tempo
restante. Prosseguir conforme as recomendações dos itens 4 a
8. Animais fixados sem prévio relaxamento apresentam
desvantagens para um bom estudo anatômico.
DISSECÇÃO
Material necessário: uma placa de Petri rasa, duas pinças com pontas bem finas e retas ou dois estiletes, um pincel com cerdas finas e macias e um bom microscópio estereoscópico.
A técnica de dissecção descrita a seguir é utilizada no Departamento de Malacologia do Instituto Oswaldo Cruz e foi desenvolvida por Paraense e Deslandes.
▪ Numa placa de Petri rasa, contendo um pouco de líquido
fixador, colocar o caramujo apoiado pelo lado direito, de modo
que o lado esquerdo, onde estão os gonoporos masculino e
feminino, fique para cima.
▪ Com a pinça vai-se despregando aos poucos a junção entre o
manto e o músculo columelar, sempre pelo lado esquerdo, até a
altura do estômago, onde o músculo termina.
▪ Feito isto, vira-se o animal sobre sua face esquerda, deixando
para cima a face direita e, cuidadosamente, separa-se a parte
anterior do manto, presa ao pescoço, deixando então todo o
manto preso apenas ao longo do lado direito do músculo
columelar. Desprega-se depois o lado direito, como se fez com
o esquerdo, obtendo-se então todo o manto destacado e os
órgãos paliais (coração, pulmão e tubo renal) em condições de
serem examinados.
▪ O gonoporo masculino se encontra logo abaixo do tentáculo
esquerdo, e o feminino se localiza posteriormente, sob o colar
do manto, próximo à abertura anal. O prepúcio e parte do
delicado duto deferente podem ser vistos, por transparência,
próximo ao gonoporo masculino. A dissecção do complexo
peniano inicia-se nesta região, retirando-se pele e músculos
cuidadosamente com a pinça, até que o prepúcio e duto
deferente fiquem completamente expostos.
▪ Em seguida secciona-se os músculos que prendem o prepúcio
à parede do corpo e com a pinça puxa-se cuidadosamente o
prepúcio e o duto deferente até que fiquem completamente
liberados.
▪ Depois, para facilitar a dissecção do restante do sistema
reprodutor, corta-se a cabeça-pé, o esôfago, o reto e todo o
músculo columelar, restando então na placa apenas o sistema
reprodutor e parte do sistema digestivo (estômago, intestino e
glândula digestiva).
▪ Com a pinça retira-se aos poucos as membranas, o muco e o
sangue que geralmente recobrem o sistema reprodutor. Para a
limpeza dos sistemas reprodutores é preciso redobrado cuidado
para que nada seja rompido. A limpeza é necessária para
visualizar pequenas estruturas de importância taxionômica,
como, por exemplo, bolsa e enrugamento vaginal.
▪ A glândula de albume encontra-se sobre o carrefour ou
encruzilhada genital e ligase ao oviduto por um pequeno canal,
que pode ser visto rebatendo-se o estômago, de forma que este
fique com a face ventral para cima.
▪ Após o carrefour seguem-se o delicado ovispermoduto, que se
dilata mais adiante, formando a vesícula seminal, e o ovoteste
ou glândula hermafrodita, que ocupa os giros mais internos da
concha. O ovispermoduto pode ser visto facilmente em seu
trajeto até a vesícula seminal, passando pela face ventral do
estômago e da glândula digestiva. Para dissecá-los basta ir
retirando aos poucos a glândula digestiva e o estômago. Tanto
a glândula digestiva quanto o ovoteste encontram-se recobertos
pelo manto, que deve ser retirado para facilitar a observação
das duas glândulas. Os divertículos do ovoteste são menores
do que aqueles da glândula digestiva e geralmente apresentam
cor branca-amarelada, contrastando com a coloração verde-
oliva dos divertículos da glândula digestiva.
• Quando se fizer necessário distinguir com clareza as
ramificações e o número exato de divertículos prostáticos e do
ovoteste, utiliza-se o lugol como corante. O sistema reprodutor
completo de Biomphalaria tenagophila.
PREPARAÇÃO DA RÁDULA
Colocar o saco bucal inteiro em um tubo de hemólise (8 x 75mm), contendo solução de hidróxido de sódio a 10% e lavá-lo ao aquecimento em banho-maria até se obter apenas a rádula e os maxilares. Retirar o tubo do banho-maria e derramar seu conteúdo numa placa de Petri. Em seguida lavar a rádula e os maxilares, transferindo-os para outra placa, contendo água. A montagem temporária é feita colocando-se a rádula e os maxilares em uma lâmina histológica com algumas gotas de glicerol, cobrindo-as com lamínula, afixada com esmalte de unhas. Não é necessário corar.