Tópicos em malacologia médica

Frederico Simões Barbosa · Capítulo 4 de 22

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Tópicos em malacologia médica

1.2 Família Pilidae Connoly, 1927 (Ampulariidae Gray, 1824)

1.2 Família Pilidae Connoly, 1927

(Ampulariidae Gray, 1824)

 

Os pilídeos ou ampularídeos são amplamente distribuídos em águas continentais do mundo. Na Região Neotropical encontramos representantes de quatro gêneros: Asolene (Orbigny, 1835); Felipponea (Dall, 1919); Marisa (Gray, 1824) e Pomacea (Perry, 1810), estando incluída neste último Pomacea gigas (Spix, 1827), o maior gastrópode límnico neotropical, podendo alcançar cerca de 150 mm de comprimento.

Michelson (1961) com base em caracteres morfológicos, biológicos e zoogeográficos, propôs a divisão da família em sete gêneros: Asolene, Pomacea e Marisa para o Novo Mundo e Afropommus (Pilsbry & Bequaert, 1927), Lanistes (Monfort, 1810), Pila (Roding, 1798) e Saulea (Gray, 1867) para o Velho Mundo. A presença de um sifão longo (exceto em Asolene) e de um canal espermático fechado caracteriza as primeiras, e um sifao curto e um canal espermático aberto é característico das espécies orientais.

O tamanho da concha nesta família varia de médio a grande, sendo espessa ou delgada, sempre globosa (exceto no gênero Marisa, de concha planorbóide), com giros convexos lisos ou finamente estriados, geralmente ornamentados com faixas castanhas; umbílico de tamanho moderado a grande; dextrógiras (levógira em Lanistes), com abertura grande, oval e inteira; opérculo córneo, exceto em Pila que é calcário.

A rádula é do tipo taenioglossa, mas devido às variações intra-específicas sua importância taxionômica fica reduzida em níveis abaixo de família.

As mandíbulas são quitinosas, convexas e unidas dorsalmente.

O animal possui pé grande e lanceolado; probóscide curta, com dois prolongamentos tentaculiformes que correspondem aos palpos labiais; tentáculos longos e finos na base dos quais se encontram os olhos, situados sobre pendúnculos salientes; dois apêndices nucais, o da esquerda, formando um sifão respiratório; cavidade paliai dividida em duas partes, a da direita com uma brânquia alongada e a da esquerda, funcionando como um pulmão; osfrádio à esquerda próximo à margem do manto; mandíbulas bemdesenvolvidas, constituídas por fibras córneas finas; dente radular central alargado com uma cúspide principal, um ou dois dentículos laterais; dente lateral moderadamente grande, apresentando além da cúspide principal, um ou dois dentículos internos e dois externos; dentes marginais fortes, acuminados nas extremidades e geralmente com um dentículo secundário interno; glânglios cerebrais unidos por uma comissura dorsal longa e fina e uma ventral frágil; cordões pediosos reunidos por urna comissura principal longa e algumas secundárias; glânglio subintestinal fundido ao glânglio pleural direito (Thiele, 1931; Franc, 1968).

Os ampularídeos são dióicos mas geralmente não apresentam dimorfismo sexual externo. As fêmeas apresentam um pênis rudimentar na borda direita do manto. As de Pila e Pomacea depositam cachos de ovos de casca dura em hastes de plantas aquáticas, pilares de pontes, rochas e paredes de concreto, sempre um pouco acima do nível da água. Em Pomacea os ovos são pigmentados, podendo apresentar coloração vermelha, rósea, laranja, amarela ou verde, enquanto que em Pila não possuem pigmento. Nos gêneros Asolene, Lanistes e Marisa as desovas, colocadas dentro d'água, são gelatinosas e incolores.

São principalmente herbívoros. Alimentam-se da vegetação aquática presente no ambiente, mas também do bentos e restos de animais mortos. Em laboratório consomem vorazmente folhas de alface, couve, agrião, serralha e de outras hortaliças oferecidas como alimento.

A presença de um mecanismo respiratório duplo (pulmão e brânquia) torna-os capazes de respirarem no ambiente terrestre e aquático.

Toleram bem a poluição, mesmo a industrial, e a dessecação. Os gêneros Pila e Pomacea são acentuadamente anfíbios, podendo hibernar ou resistir à dessecação, enterrados na lama, emergindo com o início das chuvas. Orbigny (1835) observou tal comportamento em alguns exemplares de Pomacea coletados em La Plata (Argentina) que foram deixados em uma caixa durante 13 meses e que voltaram à atividade quando colocados novamente na água.

Respresentantes do gênero Asolene são encontrados nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, no Uruguai e na Argentina. Apresentam sifão respiratório pouco desenvolvido; concha de tamanho médio, arredondada ou ovóide, com espira elevada; abertura oval, com lábio geralmente espesso e opérculo córneo. A discriminação das espécies é feita através de dados conquiliológicos, por falta quase completa de conhecimentos anatômicos.

Apesar de sua abundância e larga distribuição, a morfologia dos pilídeos neotropicais é ainda pouco conhecida, sendo sua classificação baseada, principalmente, em caracteres conquiliológicos. Paraense (1981) adverte sobre a fragilidade do estudo taxionômico baseado apenas em caracteres conquiliológicos, referindo-se ao excessivo número de espécies nominais na malacofauna límnica sul-americana. No caso dos pilídeos neotropicais, cerca de 100 nomes específicos são citados na literatura.

 

Referências bibliográficas

FRANC, A., 1968. Sous classe des Prosobranches. In: Traité de Zoologie: Anatomie, Systematique, Biologie (P. P. Grassé, org.), 5: 40-324, Paris: P. Bertrand.

MICHELSON, E. H., 1961. On the generic limits in the family Pilidae (Prosobranchia: Mollusca).Breviora, 133: 1-10.

ORBIGNY, A. D. Voyage dans L'Amerique Méridionale. Ampullaria, pp. 365-379.

PARAENSE, W. L., 1981. Gastropoda. In: Aquatic Biota of Tropical South America, Part 2: Anarthropoda (S.H. Hulbert, G. Rodriguez & N.D. Santos, eds.), pp. 200-204, California: San Diego State University.

THIELE, J., 1929-1931. Handbuch der Systematischen weichtierkunde. Vol. 1, Jena: Gustav Fisher.

Silvana Thiengo

Departamento de Malacologia - Instituto Oswaldo Cruz (IOC-

Fiocruz)

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