Tópicos em malacologia médica
6.3 Infecção de moluscos em laboratório
6.3 Infecção de moluscos em
laboratório1
Para infecçao de moluscos em laboratório necessita-se de um concentrado de miracídios. Este pode ser obtido de fezes ou de extratos de órgãos de animais infectados, de acordo com a técnica descrita abaixo.
Técnica de concentração de mirocídios:
1) As fezes são vigorosamente trituradas e diluídas em água,
na proporção de 1 parte do material fecal para 9 partes do
líquido.
2) A mistura é então passada através de tamiz de malhas finas
para dentro de um grande cálice cônico de vidro. O volume é
elevado ao dobro com água. Por exemplo, se as fezes pesam
cerca de 100 g, a primeira diluição irá a 1 litro, e a segunda
elevará o volume do líquido a 2 litros. Portanto, o cálice de vidro
terá forçasamente que possuir capacidade acima deste volume.
3) O cálice é colocado na parte mais baixa do refrigerador
(temperatura de cerca de 8o-10º C) e aí permanecerá durante
1/2 hora. Em seguida o líquido sobrenadante é desprezado e o
volume reposto com água. Esta manobra é repetida mais 3 ou 4
vezes, até que o líquido sobrenadante esteja incolor.
4) O sedimento da última lavagem é então distribuído em
placas de Petri de grande diâmetro, de modo que a superfície
do líquido seja bastante extensa e exposta à luz artificial ou
natural durante 1 hora e a temperatura de 28º C.
5) Após a exposição à luz, o lavado fecal é transferido para o
balão de Kitasato, que será descrito no final deste item. É
conveniente colocar, para um balão de 500 ml, quantidade de
líquido correspondente a cerca de 150 g de fezes sólidas.
6) Junta-se ao balão água, lentamente, até que as primeiras
gotas escorram pelo tubo de borracha que é então pinçado.
7) Deita-se em seguida, 20 ml de água pelas paredes do colo
do balão (10 ml nos balões de 250 ml). Ilumina-se o aparelho e
após 15 minutos de exposição à luz colhem-se os 10 ou 20 ml
de água fazendo simplesmente abrir a pinça que fecha o tubo
de borracha. Pinçado novamente o tubo, mais 10 ou 20 ml de
água são colocados no balão e coletas periódicas poderão ser
assim feitas.
8) A contagem dos miracídios é feita em amostras de 1 ml do
líquido obtido do balão em cada coleta. A água pode ser
distribuída em gotas dentro dos orifícios de uma placa de toque
e os miracídios contados a lupa.
Descrição do balão de Kitasato
O aparelho é de fácil construção e pode ser fabricado com material comumente utilizado em laboratório de química.
Consta simplesmente de um balão de Kitasato de 250 ml ou 500 ml. Este balão é pintado de preto até o nível inferior do tubo lateral ao qual está adaptado um curto tubo de borracha. Uma pinça, do tipo Mohr, serve para fechar ou abrir o tubo de borracha.
O foco luminoso é colocado paralelamente logo acima da parte do balão pintado de preto, a uma distância de 15 cm do aparelho.
INFECÇÃO DOS MOLUSCOS
Uma vez concentrados, os miracídios podem ser utilizados para infecção e moluscos, de acordo com o seguinte processo:
1) Contagem dos miracídios - retire uma amostra de 1 ml de
água contendo os miracídios. A quantidade de água pode variar
de acordo com a precisão desejada na tomada da amostra e as
condições de planejamento da experiência. Distribua a amostra
da água colhida, em pequenas gotas sobre uma placa de vidro.
Conte diretamente os miracídios em cada gota. Se houver
grande concentração de miracídios por gota, tornando a
contagem difícil, dilua o material convenientemente e faça
novas contagens.
2) Sabido o número de miracídios por ml do líquido, procede-se
a infecção dos moluscos fazendo com que estes entrem em
contato com aqueles. Os moluscos podem ser infectados
individualmente, i.e., colocando-se em um pequeno recipiente
um caramujo isolado para o número desejado de miracídios. Ou
então, como é mais prático, colocar todos os animais de uma
mesma espécie a infectar em um único recipiente. Juntar, logo
em seguida, água contendo os miracídios tendo sido calculada
previamente a média por caramujo. Para trabalhos de rotina 10
miracídios por caramujo satisfazem plenamente. Em moluscos
altamento suscetíveis, como Biomphalaria glabrata, obtêm-se,
quando o trabalho é ben conduzido, cerca de 100% de
infecções.
3) Deixe os miracídios em contato com os moluscos, sob um
foco luminoso, durante 6 horas, que é tempo máximo de
vitalidade daqueles.
4) Em seguida, transfira os moluscos para aquários bem
balanceados e examine-os a partir do vigésimo dia após a
exposição aos miracídios.
Frederico Simões Barbosa
Estação de Biologia Experimental, CPqAM, Fiocruz.
R. Dr. Francisco Correa, 1114 (54735-000) São Lourenço da Mata —
PE.
1 Adaptação de trecho do capítulo Relações Hospedeiro/Parasito, originalmente publicado em Manual de Malacologia Médica (Barbosa, F. S.; Carneiro, e. &Barbosa, I.). Salvador, Fundação Gonçalo Muniz, 1960.