Travessias de Cecília: educação matemática em Rondônia
Prefácio
E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”.
Não me esqueço do dia em que terminei de ler a versão final da tese de doutorado, agora publicada como livro, de Edna Cordeiro. Eu, como orientadora, havia acompanhado todo o seu processo de elaboração, no entanto, a leitura final do texto completo me transportou a paragens onde o óbvio não tem lugar. Tentarei aqui discorrer brevemente sobre elas
Fui transportada a um local onde memórias são mobilizadas não para transmitir informações desconexas, mas sim para narrar experiências de vida por meio das quais a autora e seus colaboradores tornaram-se quem são atualmente, o que torna as interpretações delas vetorizadas do presente ao passado. A produção de documentos históricos a partir de tais memórias e de outras fontes possibilitou à autora compor com maestria, em três movimentos, no caso aqui, em três cenários entrelaçados, uma história de tantas famílias que migraram para Rondônia em busca do Eldorado, bem como da formação docente em um jovem estado com carência de professores e a da Educação de Jovens e Adultos – particularmente, da educação matemática em EJA – naquele estado brasileiro. A mobilização de tais memórias em momento algum pretendeu alcançar uma “objetividade” racionalista que aniquila qualquer experiência vivida. Ao contrário, elas estão carregadas de vida com lembranças alegres, tristes e algumas de dor em aberto foram difíceis de serem rememoradas e expostas... Talvez por isso, quando lidas, tais narrativas nos transpassam e transformam, como queria Walter Benjamin em seu ensaio O narrador (1936).
No entanto, a opção da autora por trazer em seu texto a subjetividade com toda carga afetiva e conflitos não o tornou menos científico, nem o descaracterizou como uma pesquisa acadêmica. Ele é fundamentado em um referencial teórico-metodológico explícito, cujos procedimentos são utilizados em toda a elaboração textual, seja na constituição dos documentos, nas questões que orientam sua análise, nos recortes que lhes são feitos e na elaboração da história aqui apresentada. Assim, o leitor não encontrará nesse livro uma ficção (entendida no sentido de fantasia) em que a subjetividade deva ser alheia às teorias que embasam o fazer acadêmico. Mas não irá encontrar também uma escrita cuja suposta objetividade prescindiria do sujeito que a elaborou. Ao contrário disso, o texto se apresenta como uma ficção, no sentido de criação poética e, por isso, passeia em uma terceira opção, uma terceira margem entre aquelas duas. Nessa terceira opção, análise metódica e poesia se fazem juntas, amalgamando-se.
Como os saborosos lanches oferecidos por Edna, em vários de seus cenários, aos colaboradores de sua investigação, esse texto se oferece ao leitor como um convite ao banquete do conhecimento. Não há como não se transformar após atravessá-lo. Assim, convido você, leitor, para essa travessia.
Por fim, resta-me felicitar a Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Julio de Mesquita Filho, Unesp, pela iniciativa de publicar este livro e agradecer ao Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da Unesp, campus Rio Claro, pela oportunidade de ter orientado esse belíssimo trabalho, agora publicado.
Piracicaba, 20 de fevereiro de 2015.
Arlete de Jesus Brito