Travessias de Cecília: educação matemática em Rondônia
5 - Aproximando-se da EJA: avanços e retrocessos
5 – Aproximando-se da EJA: avanços
e retrocessos
Com esta história eu vou me sensibilizar, e bem sei que cada
dia é um dia roubado da morte. Eu não sou um intelectual,
escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As
palavras são sons transfundidos de sombras que se
entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música
transfigurada de órgão.
Clarice Lispector, A hora da estrela.
Cenário – formação: universidade e prática
docente
Um ano e meio depois daquele dia quente de 1990...
− Auxiliadora, como está indo com a sua turma?
− Ah, Cecília! Agora já me adaptei melhor, mas nos primeiros dias tinha muito medo de fazer alguma coisa errada, e percebi que as professoras que já são formadas não acreditam muito no trabalho da gente.
Cecília, balançando a cabeça, em um gesto afirmativo, comentou:
− Também senti isso, principalmente no início, mas agora já se passaram três meses e estou mais segura; além disso, aquele professor que veio da Paraíba tem ajudado bastante, até emprestou uns materiais e me deu umas boas dicas.
Auxiliadora disse:
− Não sei como você teve coragem de assumir turmas de 5ª e 6ª série para ensinar Língua Portuguesa. Ainda bem que fiquei com a turma de 2ª série do Supletivo.
Cecília explicou:
− Eu adoraria ter começado com uma turma de jovens e adultos, pois só de ouvir você falar das aulas, fico pensando como deve ser bom contribuir com a aprendizagem deles, mas demorou para sair minha contratação, e quando cheguei à escola, o diretor disse que era a única vaga. E disse mais, que se eu estava no 5º semestre de Pedagogia, teria condições de dar as aulas. Sabe de uma coisa, estou conseguindo, mas tenho certeza que é porque tive duas excelentes professoras de Língua Portuguesa e porque tenho estudado bastante antes de entrar em sala de aula.
Cecília me faz lembrar que o processo de formação precisa ser permanente em virtude do “inacabamento do ser humano,” pois “na verdade, o inacabamento do ser [...] é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento” (Freire, 2009, p.55). Acreditando nessa afirmação, sou totalmente a favor da aprendizagem permanente, além de insistir que se trata de uma busca individual, pois depende da iniciativa de cada indivíduo, que precisa se sentir mobilizado para a busca; mas que só pode ser realizada coletivamente, pois construir conhecimentos ocorre com o outro, por meio da linguagem.
Auxiliadora, mudando de assunto, disse:
− O diretor da escola é bem legal, não é? Essa história de pedir para as merendeiras fazerem almoço para a gente é muito importante. Já estou aqui pensando o que será: macarrão com almôndegas ou maria-isabel?
− Tomara que seja maria-isabel, porque é uma delícia. Também gosto quando ele compra refrigerante. As merendeiras contaram que ele inventou esse negócio do almoço por causa dos universitários que ganham pouco (nós), e dos professores que vieram do Nordeste e vivem com os salários atrasados – comentou Cecília.
Agora estou me lembrando de um professor, que me fez o seguinte relato:
Dia 26 de fevereiro de 1985 aqui desembarquei. À época eu
tinha uma colega chamada Maria do Socorro Brito − professora
de biologia, e como na infância moramos em Campina Grande
frente com frente. Ela veio e disse que aqui pagava muito bem.
Lá na Paraíba o salário era uma desgraça, e então ela me
convidou a vir lecionar em Rondônia. Foi difícil chegar aqui [...]
não tinha recursos para pagar a passagem de avião. Pedi ao
meu pai para vender um telefone (na época telefone era muito
valioso) e o dinheiro deu para comprar a passagem e ainda
sobrou para minha manutenção, e assim cheguei aqui [...] No
dia 8 de março de 1985 fui contratado como professor de
matemática, pelo governo do Estado de Rondônia.1
Pena que a esperança não durou muito tempo.
− Esse nosso governo deveria ter mais responsabilidade. É um absurdo chamar os professores, que deixam suas famílias, seu Estado, e o que oferece em troca? Salários atrasados. Quanta falta de humanidade! Vamos, precisamos descer na próxima parada para pegar o outro ônibus – lembrou Auxiliadora.
− O pior é que até para se rebelar fica difícil, porque eles, e nós também, ainda não somos concursados, não temos estabilidade, podemos até perder o emprego se nos manifestarmos − disse Cecília.
Ao cabo de mais uns quatro meses, aconteceu um fenômeno surpreendente. O sindicato dos professores se levantou numa luta que contou com o apoio dos professores estatutários, dos contratados temporários, universitários, e até de alunos do curso de Magistério da cidade, fato que, pelo grande número de escolas paradas e passeatas no centro da cidade, incomodou a classe política e a sociedade local. Diante de tal situação,
não junto minha voz à dos que, falando em paz, pedem aos
oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação.
Minha voz tem outra semântica, tem outra música. Falo da
resistência, da indignação, da “justa ira” dos traídos e dos
enganados. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra
as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais
sofridas. (Freire, 1987, p.113-4)
Auxiliadora, já sabe das novidades? − quis saber Cecília.
− Que novidades?
− Depois de muitas reuniões e assembleias, finalmente temos um acordo, que ainda não é o ideal, mas já são algumas conquistas, como a realização de concurso público e melhoria salarial. Assim nos tornamos mais fortes e confiantes, tendo orgulho de nossa profissão.
É interessante como em certos momentos históricos acontece uma convergência de fatos que pode impulsionar um grupo a se organizar, criar suas táticas de enfrentamento ao status quo; logrando vitórias para aqueles que, antes oprimidos, passam a sentir o sabor da dignidade, podendo participar de momentos históricos em que percebem o valor de seu fazer profissional, e seu valor como ser humano, pertencente a determinado grupo, no qual encontram apoio e identificação.
Cenário – escola: histórico da Educação de
Jovens e Adultos
Mais um encontro, dessa vez, no pátio do Ceeja com a presença de quatro ex-alunos da escola. Cecília iniciou lembrando:
− No Brasil, a partir da década de 1940, aconteceu uma crescente mobilização por parte dos setores públicos e de movimentos sociais, dando um grande impulso para que a educação voltada para jovens e adultos se tornasse oficial. Foram vários movimentos populares, com grande parte da população se organizando para colaborar com as instituições que se dedicavam a atender esse público.
[Ainda em] 1945, Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 19.513,
de 30 de agosto de 1945, que regulamentava o auxílio federal
para o Ensino Primário, dos quais, 25% seriam destinados à
educação de adolescentes e adultos. Criadas as condições
financeiras, a Campanha de Educação de Adolescentes e
Adultos (CEEA), 1947 a 1963, teve possibilidade de iniciar seus
trabalhos. Razões de ordem nacional e internacional permitiram
o aparecimento dessa Campanha. (Silva, 2012, p.40)
Assim como as mudanças na vida, na economia e no trabalho, advindas da Revolução de 1930 e o retorno ao regime democrático no Brasil.
Devemos considerar os vários acontecimentos, campanhas e
programas no campo da educação de adultos, no período que
vai de 1959 até 1964. Foram, entre eles: o Movimento de
Educação de Base, da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, estabelecido em 1961, com patrocínio do governo
federal; o Movimento de Cultura Popular do Recife, a partir de
1961; os Centros Populares de Cultura, órgãos culturais da
UNE; a campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler,
da secretária Municipal de Educação de Natal; o movimento de
Cultura Popular do Recife e finalmente, em 1964, o Programa
Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação e Cultura,
que contou com a presença do professor Paulo Freire.
(Haddad; Di Pierro, 2000, p.113)
Além disso, “era notável em acordos internacionais estabelecidos
[...]” na década de 1960, “como a Sudene 2 3 e o MEC com a Usaid
[...] a difusão dos valores e práticas sociais do bloco capitalista (Silva, 2012, p.203). A adoção de valores existentes, na época se embasava na educação como pressuposto para a melhoria das condições de vida da população e para o desenvolvimento econômico da região, entendido como ‘progresso’” (Brito, 2008 apud Silva, 2012, p.203). Em contraponto, nesse período, os educadores e parte da sociedade, buscavam o direito à educação de qualidade para todos. Pena que a “repressão de 1964 [...] surpreende os educadores no momento em que seu debate teórico crítico e revolucionário ampliara-se enormemente” (Buffa; Nosella, 2001, p.120). Assim se caracterizou uma das idas e vindas − no processo de conscientização − dos educadores brasileiros e da sociedade em geral.
− Qual a motivação de vocês para trabalhar na EJA? − quis saber Cecília.
A Terezinha explicou:
− Primeiro era uma curiosidade, porque no magistério eu só tinha experiência de trabalhar com crianças, e aí tinha curiosidade de conhecer como seria trabalhar com os jovens e adultos, tão comentado na década de 80. Era muito forte essa questão da EJA, aí criava aquela curiosidade de saber como era. Por isso vim para cá, por se tratar de um centro [de EJA], e outro fator que me fez vir foi porque desde essa época também trabalho numa outra
instituição, que é o Laura Vicuña, 4 então por ser próximo um do outro, facilita a vida, o dia a dia.
Cecília ainda comentou:
− Agora que a Terezinha falou do SEB, me lembrei que no Brasil o Plano Nacional de Alfabetização de 1964 foi considerado uma síntese das experiências de alfabetização de jovens e adultos, já realizadas anteriormente. Em seguida tivemos a Cruzada da Ação Básica Cristã (ABC) − e o Mobral, criado em 1968, e que funcionou até a década de 1980. Assim vemos que as iniciativas de atendimento educacional para jovens e adultos foram bem diversificadas, no Brasil.
− Professor Ilson, o que levou você a trabalhar na EJA? – quis saber Cecília.
− Na realidade, foi por uma questão de oportunidade, eu não sabia, vim para o Padre Moretti a convite da diretora Edineia [1990]. Ela
tinha trabalhado comigo lá no Barão do Solimões,5 e quando era vice-diretora aqui, ela me convidou, falou do projeto que tinha e achava que meu perfil se encaixava nesse programa de ensino.
Também continuo a recordar momentos da história do ensino de jovens e adultos: o Serviço de Educação de Adultos e a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA) surgidos em 1947 sob a organização de Lourenço Filho. Em 1961 entrou em cena o Movimento de Educação de Base (MEB), que tinha como função a educação de jovens a partir de programas de rádio. Dois anos depois surgiu outro programa chamado de Programa Nacional de Alfabetização, que tinha como objetivo a alfabetização de jovens e adultos através da proposta de Paulo Freire, sendo este designado para a direção dos trabalhos.
Cecília comentou:
− Por mencionar programas educacionais para o atendimento de jovens e adultos, também me lembrei de uma pessoa que fez parte da história da EJA aqui em Rondônia. Ainda me lembro de uma notícia do jornal O Guaporé, do dia 7 de junho de 1975: “Com grande acompanhamento [...] realizou-se à tarde de ontem, [...] no cemitério dos Inocentes, no jazido perpétuo dos Salesianos, o sepultamento do estimado Padre João Batista Moretti”. É interessante notar que, embora com avanços e retrocessos, a EJA vem sempre encontrando pessoas que se comprometem com esse trabalho.
Bem, depois dessa recordação de Cecília, e percebendo que todos estão sendo apresentados, aproveito a oportunidade para apresentar esse narrador que lhes fala; já falecido desde 1975, mas pelo desejo de participar da tessitura deste texto, faz a travessia inversa – da morte à vida. Sou o Padre Moretti.
Agora, já apresentado este narrador, voltemos àquela interessante conversa que vinha se desenrolando.
− Não podemos esquecer que Paulo Freire defendia que fosse levado a cabo um fazer pedagógico que contribuísse com o processo de conscientização dos jovens e adultos, uma vez que precisam ser críticos, para efetivamente entenderam como se organiza a sociedade − disse Cecília.
Zenaida concordou:
− A gente percebeu que o nosso trabalho era esse, a conscientização daqueles adultos e daqueles adolescentes que ali estavam, porque era uma necessidade da pessoa, daquele aluno de crescer, em seu desenvolvimento pessoal, social, na busca de um profissionalismo que realmente o assegurasse na sociedade.
Que bom perceber que mesmo com uma força opressora as ideias dos movimentos, em especial de Paulo Freire, que jamais concebeu educação sem conscientização, permaneceram nas pessoas, em suas memórias. Digo isso porque os movimentos e programas duraram até 1968, a exemplo do MEB, e mesmo tendo ocorrido o golpe militar em 31 de março de 1964, que tentou por fim aos movimentos populares e reprimir todas as outras formas de expressão que não servissem aos interesses do regime militar, nos primeiros quatro anos, a repressão aos movimentos não foi muito ostensiva, assim os ideais já existentes permaneceram, embora disfarçados por certo período.
Também muito importantes para manutenção da memória de uma educação conscientizadora foram “as escolas radiofônicas de Natal, que são citadas como as matrizes que deram origem ao MEB. No final dos anos de 1950, o Ministério de Educação e Saúde criou o Sistema de Radiodifusão Educativa Nacional (Sirena)” (Favero, 2009 apud Silva, 2012, p.44). Outros programas expressivos e tradicionais como os da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foram sendo censurados até praticamente acabarem. No lugar desses programas o regime militar instituiu o Mobral.
A repressão foi intensificada a partir do Ato Institucional nº 5, o AI-5 – instituído pelo então Presidente da República, general Artur da Costa e Silva, em dezembro de 1968. Dava ao Presidente o poder de fechar o Congresso Nacional, sempre que julgasse necessário, além de proibir eleições para governadores, prefeitos das capitais e as chamadas áreas de segurança nacional. Provavelmente o AI-5 tenha sido a legislação mais ditatorial da história política do Brasil − permanecendo ativa por dez anos, só sendo extinta em dezembro de 1978, pelo então presidente Ernesto Geisel, como prenúncio da abertura política que veio a acontecer nos anos seguintes sob o comando do Presidente João Batista Figueiredo, o qual assumiu o país em 15 de março de 1979, sendo o último presidente do regime instalado em 1964.
Por falar em estudos para jovens e adultos, me lembrei de uma notícia de 1975:
A coordenadoria do Ensino Supletivo no Território, juntamente
com a coordenadoria do Projeto Minerva, acabam de implantar,
nas localidades de Pimenta Bueno, Vila Rondônia, Jaru e Ouro
Preto [do Oeste], na Rodovia BR-364, Rádio Postos do curso
Supletivo Projeto Minerva [...] No momento o Projeto Minerva
está implantado nos principais distritos do Território, bem como
em Porto Velho e Guajará-Mirim. Um total global de 800 alunos
estão sendo beneficiados com o curso.6
− A partir da Lei 5692/71, difundiu-se no Brasil o ensino supletivo para adultos e adolescentes com mais de 14 anos e adultos. Também não podemos deixar de lembrar acontecimentos históricos que influenciaram e ainda influenciam a EJA, como o Mobral, que durou até meados de 1985, quando foi substituído pela Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos – Educar, que atuava como apoio financeiro e técnico, mas não na área pedagógica. A
fundação Educar foi extinta em 1990, pelo Governo Collor, 7 em meio a uma nova concepção de EJA que surgia advinda da nova Constituição da República Federativa do Brasil (1988), que entrara em vigor dois anos antes. Essa Constituição trouxe em seu Art. 208, parágrafo I, a obrigatoriedade do Ensino Fundamental e a gratuidade, inclusive para os que não tiveram acesso na idade apropriada.
Sabendo da importância de uma garantia legal para o atendimento a jovens e adultos, é claro que Cecília concorda com a Terezinha, quando esta afirma que:
− Todos os aspectos do campo de atuação educacional foram e são relevantes, porque o Ceeja é um espaço de oportunidades para aqueles que, por algum motivo, não concluíram seus estudos.
Terezinha continuou seu relato:
− Esse centro é procurado pelas pessoas que estão necessitando, no momento, de escolarização; ou seja, tem aqueles alunos que passaram pelo ensino regular, mas por um motivo ou outro não puderam estudar e ficaram à deriva, por um tempo. De repente, com a necessidade, seja ela profissional ou de escolarização, sentem o desejo de retornar para estudar ou estão trabalhando e nesse setor de trabalho é exigida uma escolarização. O Centro é a referência onde eles podem retornar e buscar isso, então para mim todos os aspectos são relevantes, seja um curso profissionalizante, seja o SEB.
A partir da reflexão da Terezinha, Cecília lembrou:
− Ao longo das últimas décadas, o Brasil assumiu, formalmente, uma série de compromissos internacionais relativamente à universalização da alfabetização e da educação básica. A partir da V Conferência Internacional de Educação de Jovens e Adultos da Unesco, em Hamburgo (1997), o Brasil foi instado a ratificar compromissos anteriores e a se comprometer mais com a educação. Além disso, nessa conferência, moralmente passou a ter mais responsabilidade, já que seu educador maior foi homenageado com a proclamação da “Década Paulo Freire de Alfabetização”. Fórum Mundial da Educação em Dakar (2000) avaliou os resultados das ações nacionais e apontou a necessidade de novos esforços para a universalização da alfabetização e da educação básica. Sempre reflito sobre as oportunidades que a EJA pode significar na vida de tantas pessoas.
Cecília continuou a apresentação dos que estavam naquele encontro:
− Fui ao setor de lotação da Seduc, com o objetivo de levantar documentos sobre os professores de matemática que já trabalharam aqui e, assim, conheci a Valesca, que trabalha lá e foi logo anunciando que havia estudado aqui no Padre Moretti por cerca de um ano e meio, durante o segundo semestre de 1992 e durante todo o ano de 1993.
Realmente, Cecília não podia desperdiçar tal oportunidade e convidou Valesca, 35 anos, para fazer parte da pesquisa. Ela é pedagoga, habilitada em Supervisão Escolar e Docência dos anos iniciais do Ensino Fundamental, pela Faculdade Interamericana de Porto Velho (Unipec) e fez especialização em Metodologia do Ensino Superior na Faculdade São Lucas.
Valesca, já apresentada, foi dizendo:
− Bom, eu vim estudar na EJA porque eu estava bem atrasada, tinha 15 anos e ainda estava na 6ª série, e como fui estudar no Carmela Dutra, estava totalmente fora do nível de idade das crianças que estudavam lá. Eu era uma das mais velhas da minha turma, porque na minha turma os alunos tinham 12 anos, então fui morar com a minha vó e ela acreditou que eu precisava melhorar o conhecimento e tentar adiantar um pouquinho mais, e foi isso que eu fiz. Depois dessas palavras, Valesca quis falar novamente, mas agora sobre uma das habilidades que desenvolveu em seus estudos no Ceeja:
− A questão da técnica que eu criei para estudar abriu um leque, porque eu tinha muita dificuldade em matemática, então me fez criar estratégias de aprendizagem, porque eu precisava ser rápida na conclusão daqueles módulos, mas também precisava aprender.
Foi quando Cecília lamentou:
− Interessante a Valesca ter ampliado suas possibilidades de aprender. Entretanto, apesar de comprovada a necessidade e importância da EJA, a partir dos anos de 1990, a EJA começou a perder espaço nas ações governamentais. A União foi se afastando das atividades da EJA e transferindo a responsabilidade dessa modalidade educacional para os estados e municípios. O repasse das verbas do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) não contemplava tal modalidade de ensino, o que fez com que a EJA fosse mais uma vez relegada a segundo plano quanto às políticas públicas educacionais.
No período de vigência do Fundef, os recursos se concentraram nas políticas públicas para o Ensino Fundamental regular, deixando a EJA praticamente sem recursos financeiros, daí a necessidade de criar alternativas para manutenção dessa modalidade de ensino, como taxas de inscrição de matrícula, relatadas por Zenaida.
− Você cobrava e então você tinha dinheiro, inclusive, a escola na época pagava até o seu jardineiro, o seu zelador, tinha outro nível de trabalho, de gestão, nesse sentido. Hoje não existe mais, porque não tem necessidade, a escola hoje tem dinheiro, a gente percebe que poderia até funcionar melhor; não só o Padre Moretti, mas a escola de maneira geral, porque hoje tem esse dinheiro diretamente na escola [advindos do MEC ou Seduc], basta que a escola tenha projeto.
O fato é que a demanda por EJA ainda é muito significativa, então quanto melhor a escola se organizar para atender aqueles que dela precisam, mais contribuirá para ampliação da escolarização desse público.
Cecília comentou:
− O depoimento da Zenaida nos leva a lembrar da Apames, que acabava por proporcionar certa autonomia para a escola, embora saibamos que a cobrança de valores, mesmo que pequenos, era conveniente ao poder público, que naquele período deixava de cumprir sua obrigação constitucional.
A professora Elisabete contou:
− Também fui presidente da Associação de Pais, Professores e Alunos, mas quem administrava era sempre um professor, nós não recebíamos recursos do governo para manter a escola, pois não vinha nenhuma verba para jovens e adultos, então nós tínhamos taxa de matrícula, taxa de empréstimos dos módulos que eles utilizavam por disciplina. Essas taxas mantiveram a escola num bom padrão, uma escola conservada e limpa. Nós conseguíamos fornecer material, tanto para os professores, quanto para os alunos. A escola era bem limpa e cuidada, com um jardim muito bonito e elogiado.
Cecília então quis saber:
− Você comentou sobre a Associação, lembra em que período funcionou?
− A Associação funcionou desde o início das atividades da escola e
terminou com a entrada do governo Cassol.8 Então se comparar a escola daquele tempo com a de hoje, ela caiu muito, tinha gestão própria, produzia e era reconhecida por isso; mas na época não recebia nenhum recurso do governo, então no governo Cassol começou a vir um recurso, ainda inferior ao da escola regular.
A professora Elisabete ainda lembrou:
− Durante o período de funcionamento da Associação, nós tínhamos o material que pedíamos, pois o recurso arrecadado tinha que ser investido na escola, e lembro que quando deixamos a presidência, deixamos a biblioteca totalmente organizada, inclusive atendia aos alunos da escola e de outras escolas, até de escola particular. Ela estava organizada, porque era uma exigência dos alunos e dos professores, porque eles elegiam quem ia cuidar dos bens da escola e então cobravam, e a gente queria também, porque quando você entra numa escola limpa e bem tratada, com recursos tecnológicos, pede um material e recebe, você começa a trabalhar com mais prazer. Então, foi muito bom trabalhar aqui porque podia dar uma aula bacana para os jovens e adultos, com a utilização de recursos.
Cecília fez um questionamento:
− Será que o sucesso dessa época não estaria intimamente ligado à autonomia e à responsabilidade que a Apames tinha, por ser eleita pela comunidade escolar?
Todos se entreolharam, ao que Cecília, que não pretendia ali uma resposta, mas provocar uma reflexão, continuou, dizendo:
− Júlio César, qual foi sua motivação para buscar a EJA? − perguntou Cecília.
− Eu vim para cá [Porto Velho] e reprovei dois anos por faltas, foi coisa de moleque, aí foi quando eu me vi já atrasado e entrei para fazer de 5ª a 8ª.
Júlio César contou, ainda, que em 2005 e 2006 estudou no Ceeja Padre Moretti, motivado pela vontade de terminar logo, pois já estava com 18 anos, e percebeu uma oportunidade de estudar com
mais rapidez. Estudou no Telensino, 9 e o professor Jair lecionou a disciplina matemática para ele. A dinâmica do curso acontecia com a presença do professor em sala de aula e com as videoaulas.
Assim concluiu o Ensino Fundamental, conforme comentou:
− Eu fiz o meu Ensino Fundamental aqui no Padre Moretti e comecei a cursar o Ensino Médio, mas acabei ficando praticamente sozinho em Porto Velho, então tive que trabalhar, o que me exigiu muito, e não concluí o Ensino Médio ainda. Eu montei a minha empresa, o que acabou tomando meu tempo, mas já estou com projeto de retornar e começar minha faculdade, no ano que vem.
− Que bom estar tão motivado, Júlio César − comentou Cecília, que prosseguiu a informar.
− Em Rondônia, assim como em grande parte do Brasil, os índices de fracasso escolar no Ensino Fundamental são inaceitáveis, e as medidas tomadas no âmbito dos sistemas públicos pouco têm contribuído para transformar esse quadro de forma significativa.
Por falar em necessidade de mudança na educação brasileira, aqui cabe lembrar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9.394/96) (Brasil, 1996), que em seu artigo 37 abre outras perspectivas e incorpora uma concepção de formação que considera a pluralidade de vivências humanas, afirmando que, ao poder público, caberia viabilizar e estimular o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares. Observo que a maioria dos alunos da EJA já teve alguma experiência de insucesso escolar no início do processo de escolarização, e, além disso, a vida precária de muitos os deixa fora da sala de aula no período considerado adequado para a escolarização.
Everaldo também explicou o porquê de procurar a EJA:
− Eu resolvi vir porque estava muito atrasado nos estudos, justamente pela matemática, mas eu tinha que fazer todas as outras matérias, incluindo a mais difícil, além de matemática, que é português, que eu concluí em 45 dias; 23 módulos em 45 dias. E todas as outras foram rápidas, só matemática que... Colocou número não dá certo.
Cecília comentou:
−Você foi bem rápido em português. Dessa dificuldade em matemática, falaremos mais adiante. Vai ser outra conversa...
Estava presente também Jaime, jovem de 24 anos de idade, desempregado, pois havia sido dispensado da Camargo Correia, uma das empresas envolvidas na construção das duas hidrelétricas no Rio Madeira. Trabalhava como escriturário no setor de Recursos Humanos na hidrelétrica de Santo Antônio, construída em Porto Velho.
− E você Jaime, porque veio estudar na EJA? − perguntou Cecília.
− Eu estava atrasado já no estudo, daí eu comecei a fazer o Supletivo Seriado na 6ª série, mas eu comecei no Supletivo e depois fui para o Telecurso. Vim quando tinha 15 anos, e levei um ano para concluir o Ensino Fundamental, acho que foi entre 2005 e 2007.
Cecília disse:
− A fala do Jaime me fez refletir sobre a necessidade de oferecer variadas modalidades de EJA, porque assim as pessoas podem optar por aquela a que melhor se adaptem – considerando a metodologia específica de cada uma.
Acredito que as instituições que oferecem EJA, a exemplo do Ceeja Padre Moretti, no período em que Zenaida foi diretora, deveriam oferecer a maior quantidade possível de tipos de atendimento, para que os jovens e adultos possam optar por aquele que melhor se adapte as suas condições de aprendizagem, de perfil, de disponibilidade de tempo, de suas condições pessoais.
Cecília quis saber quais eram as mudanças ou fatos mais marcantes para eles, quando refletiam sobre a história do Ceeja.
Terezinha contou sobre mudanças que a afetaram recentemente:
− Eu acredito que toda escola, todo começo é difícil, aí existe um aspecto sempre de crescimento; aqui eu observei de decadência, ou seja, isso também ocorre nas instituições e aí eu lamento por ter chegado num momento assim, porque aqui quantos cursos já tiveram, e atualmente a gente não tem esse tipo de atendimento, tá atendendo apenas o modular e os provões.
− Então esse momento é marcante para você? − perguntou Cecília.
− Sim, lamentável, marcante não de forma positiva, mas pela situação.
Refletindo sobre os depoimentos de Zenaida e Terezinha é possível perceber, angustiado, o movimento de superação e decadência que se reveza no interior do Ceeja Padre Moretti. Zenaida contou que chegou num momento em que a escola passava por várias dificuldades e tinha reduzido seu atendimento ao público da EJA. Então, superando desafios, conseguiu reverter tal situação, mas algum tempo depois a escola novamente reduziu o atendimento aos alunos e o número de profissionais, fechando alguns cursos do Ceeja, conforme depoimentos da Terezinha.
− Cecília, parece que extrapolamos o horário − comentou Valesca.
− Nossa, é mesmo, estamos conversando há mais de uma hora, mas a conversa estava tão boa, que nem percebi o tempo passar. Então, vamos ao nosso lanche e hoje temos bolo de milho e café com leite. Podemos marcar nosso próximo encontro para daqui a duas semanas, no mesmo horário?
Após verificarem que seria feriado, marcaram para o dia anterior à data prevista. Todos se serviram, se despediram e foram cuidar de seus afazeres, mas, não antes de conversarem um pouco − recordando o que viveram ou fizeram ali.
Cenário – família: Serviço Social do Comércio e
Luizinho
Ao chegar à casa em que morava com a família, cansada por uma tripla jornada, Cecília encontrou Luizinho, seu irmão, ainda acordado. Ela cursava o último ano do curso de Pedagogia pela manhã, era supervisora escolar a tarde e fazia estágio na EJA do
Sesc, 10 das 18h às 22h.
Luizinho foi anunciando:
− Eu quero voltar para a escola, mas a mãe disse que não vai fazer minha matrícula, porque já desisti duas vezes e ela fica com vergonha.
− Você quer mesmo estudar? – perguntou Cecília.
− Quero sim, eu acho que agora vou conseguir aprender.
− Tá bom! Amanhã telefono no Sesc para avisar ao diretor que vou me atrasar um pouco. Vou fazer sua matrícula − afirmou Cecília.
Assim aconteceu, mas Luizinho, que tanto queria ir para escola, desde os três anos de idade − aquele que ficava chorando na janela −, agora na 6ª série do Supletivo Seriado Semestral acabou desistindo novamente, tão logo vieram as primeiras notas, pois eram muito ruins.
Histórias como essa, de Luizinho, contribuem para a produção de demanda para EJA. Considerando o Censo da Educação Básica (Brasil, 2010), realizado em 2010, quanto a procura por vagas, em que das 495.041 matrículas, 78.343 provêm da EJA, representando 15,82%, fica claro que mesmo com a implementação de vários programas ao longo da história da EJA no Brasil ainda é perceptível a grande demanda dessa modalidade de ensino. Daí a importância de que os investimentos nessa área sejam mantidos e que os alunos sejam incentivados para a permanência na escola. Também sabemos que “as conhecidas deficiências do sistema escolar regular público são, sem dúvida, responsáveis por parte da demanda do público mais jovem sobre os programas de ensino supletivo” (Di Pierro; Joia; Ribeiro, 2001, p.64).
Cecília ficou muito triste pela desistência e porque o irmão resolveu morar no sítio da família, com a justificativa de que não conseguia aprender mesmo. Com os conhecimentos que já possuía − adquiridos ao longo do curso de Pedagogia −, até desconfiou que Luizinho pudesse ter dislexia, pelas dificuldades de aprendizagem que apresentava, principalmente, na leitura e escrita.
Cecília, que agora iniciava um contato com a EJA, estagiando através do Sesc, já havia presenciado várias situações semelhantes, e acreditava que mais dia, menos dia, Luizinho voltaria e tentaria novamente. Ela acreditava que essa possibilidade de manter sempre abertas as portas do aprender é uma das características mais marcantes da EJA. Nesse momento lembrou-se de seu irmão Lucas, um dos gêmeos, que sempre lhe dizia que não precisava mais estudar, pois já sabia muito. No entanto, Cecília, agora mais ainda, tinha certeza de que precisava investir muito em sua aprendizagem e formação profissional.
− Sabe de uma coisa, Luizinho? Vou esperar você voltar. Não pode desistir para sempre de estudar, deixa passar um tempo e volta, pois precisa ter uma profissão − disse Cecília.
− Tá bom! Quero voltar sim, mas se não voltar, também posso ficar cuidando da fazenda – comentou Luizinho.
Cecília logo interviu:
− Que história é essa de fazenda, até parece que temos um grande latifúndio! Não esqueça que é apenas um sítio, e o pai só tem gastado dinheiro lá. Até agora não teve nenhum retorno financeiro. Então, não se iluda com isso!
− Fica tranquila irmãzinha, ainda volto a estudar – garantiu Luizinho.
Toda a família aceitou, embora com pesar, a decisão de Luizinho.
Assim, a vida seguiu para todos...
No sítio da família, assim como em muitas áreas da região, as matas já haviam sido
derrubadas e queimadas para dar lugar ao desenvolvimento da
pecuária [...] As terras ficaram limpas e árvores de grande
importância na cultura amazônica foram derrubadas, como:
castanheiras, copaíbas, andirobas, pupunhas e tucumãs
desapareceram quase que completamente na região central e
sul do Estado (Gomes, 2012, p.198).
Na verdade, como Justino, muitos proprietários de terras não se davam conta do prejuízo causado ao meio ambiente, afinal foram orientados, pelo próprio poder público, a agir de tal forma – poder público que falhou no “processo de colonização, que não se preocupou em difundir os valores regionais para uma população vinda de uma região tão diferente. Não existiam órgãos fiscalizadores, orientadores, protetores da rica e diversificada fauna regional amazônica” (Gomes, 2012, p.199).
Em novembro daquele mesmo ano, 1993, o diretor do supletivo, Orlando, se despediu de Cecília:
− Bem, agora terminado o estágio, temos que nos despedir e eu só posso agradecer o tempo que ficou aqui conosco. Vamos sentir sua falta, os professores e os alunos já tão acostumados com sua presença e com seu trabalho por aqui, sempre responsável e dedicado! Muito obrigado por todo o trabalho realizado, pela ajuda que nos deu.
− Também vou sentir falta de todos. Aprendi muito aqui, principalmente pelo contato com os jovens e adultos, pela forma como os professores ensinam, por todo o cuidado pedagógico e pessoal − respondeu Cecília.
Concordando, Orlando logo convidou:
− Temos uma equipe muito boa por aqui, mas agora vamos para a sala dois, já está na hora do amigo secreto e da nossa confraternização.
− Vamos, sim. Quem será que tirou meu nome? Estou tão curiosa! No Sesc, Cecília teve seu primeiro contato efetivo com a EJA, levando consigo, ao final do estágio, uma bagagem muito rica, pelo acompanhamento do fazer pedagógico para jovens e adultos durante um ano inteiro.
1 Entrevista com Antônio Queiroz, em 22 dez. 2013 (Disponível em:
<rondoniadinamica.com>). Acesso em: 03 nov. 2015.
2 Sudene: Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (1960-1964).
3 Usaid: United States Agency for International Development.
4 Escola Salesiana que iniciou suas atividades seguindo o sistema pedagógico de Dom Bosco, em 1969. Atende a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, localizada ao lado do Ceeja Padre Moretti.
5 Barão do Solimões: Primeira escola estadual construída na cidade de Porto Velho, sendo incorporada a EFMM, por meio da Lei Estadual nº 212 de 14 de setembro de 1937, na época intitulado Grupo Escolar Barão do Solimões.
6 Jornal O Guaporé, 10 jun. 1975.
7 Fernando Collor de Mello – Presidente da República a partir de 15 de março de 1990, deixando o governo em 29 de setembro de 1992, por sua renúncia, tendo sofrido um processo de impeachment em dezembro de 1992.
8 Ivo Narciso Cassol – Governador de Rondônia no período de 2003 a 2010.
9 Projeto Telensino: Implantado pela Secretaria Estadual de Educação em 2001, para suplência do Ensino Fundamental e Médio, com a utilização dos vídeos e materiais do Telecurso 2000 − Fundamentação legal nos artigos 11 e 12 da Resolução 098/2000/CEE/RO.
10 Sesc: Serviço Social do Comércio, implantado em Porto Velho no dia 13 de setembro de 1977.