Travessias de Cecília: educação matemática em Rondônia

6 - Educação matemática: aproximações

6 – Educação matemática:

aproximações

 

Fui mudando minha angústia numa força heroica de asa.

Para construir cada músculo, houve universos de lágrimas,

Devo-te o modelo justo: sonho, dor, vitória e graça.

Cecília Meireles

 

Cenário – formação: ampliando a formação

contínua

− Boa noite a todos!

− Boa noite, Cecília − respondeu a professora Marília, que logo perguntou − O que vamos estudar hoje?

− Hoje estamos reunidos para dar continuidade ao estudo dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática (1997) (Brasil, 1997). A matemática é componente importante na construção da cidadania, pois o conhecimento matemático, historicamente construído e em permanente evolução na sociedade, pode ser instrumento de inclusão social e cidadã. Nessa disciplina, como em outras, o professor precisa ajudar o aluno a identificar o valor e utilidade do estudo em sua vida; mostrar que a aula é um momento de troca entre todos e que o saber do professor não é mais importante que o dele; valorizar e utilizar os conhecimentos e as habilidades de cada um; e trabalhar em grupos a fim de se criar vínculos, com o objetivo de que se tornem mais participativos. Logo, é essencial que o docente tenha consciência de que a experiência de vida do educando é o ponto de partida para o trabalho pedagógico para que ele tenha sucesso no seu trabalho.

Marília, jovem professora de Matemática de 5ª e 6ª série do

Supletivo Seriado Semestral, 1 comentou:

− Que interessante essa compreensão da matemática, como parte do cotidiano social e contribuindo para a cidadania.

Assim, na primeira quarta-feira de maio de 2002 começava mais um encontro quinzenal de estudos e planejamento do grupo de professores, sempre às 21h, com a coordenação de Cecília − para estudar, trocar experiências e elaborar projetos.

Nessa reunião, Marília pediu à Cecília:

− Nós todos já contamos um pouco da nossa história de formação, você tem que falar da sua também.

− Tá bom, eu conto! No início da década de 1990, o curso de Pedagogia nos habilitava para a “supervisão escolar”. Detalhe: nunca possuí uma “super visão”, nem tampouco me coloquei numa posição de supervisionar o trabalho de alguém, inclusive porque já havia aprendido que o diálogo é sempre o melhor caminho, e esses encontros com vocês me parecem uma excelente oportunidade de diálogo e aprendizagem.

E continuou falando, aliás, uma das habilidades de Cecília:

− A carência profissional me colocou na posição de supervisora escolar numa escola pública estadual, com 22 salas de aula, quando ainda estava no quinto semestre do curso. Foi um grande desafio conciliar os estudos e trabalhar, mas, depois de alguns conflitos, como por exemplo discussões em virtude da recusa de professores em aceitar mudanças, mas principalmente por conta de minha falta de experiência. Felizmente, passado algum tempo, consegui estabelecer o diálogo e as parcerias com os outros profissionais da escola, que contribuíram muito para que conseguisse realizar o trabalho.

Havia grande carência de profissionais habilitados na área da educação, inclusive o governo convidava professores de outros estados para trabalharem em Rondônia, divulgando contratações e até concursos públicos, principalmente no Nordeste do país, fato que explica a grande quantidade de professores cearenses e paraibanos no Estado.

− Cecília, conta mais − pediu Marília.

− Ao concluir o curso e em constante contato com os alunos, percebi uma lacuna em minha formação, queria entender melhor o processo de aprendizagem e socialização deles, para poder contribuir mais. Então, não havendo cursos de especialização em Rondônia, fui fazer Psicologia Educacional na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Belo Horizonte, nos meses de janeiro e julho de 1995 e 1996. De posse de mais algum conhecimento, percebi que meu trabalho melhorou um pouco, e tenho trabalhado muito na escola pública e em algumas particulares, como o Colégio Dom Bosco, local no qual muito aprendi, ampliando a formação que já possuía.

− Cecília, você fez concurso para a escola pública? − perguntou o professor Juliano, que lecionava História de 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental da EJA.

− No começo era contratada como temporária, depois no início de 1997, quando teve o primeiro concurso após a conclusão da minha graduação, fiz o concurso e tomei posse.

Cecília retomou a coordenação da reunião, dizendo:

− Concluindo essa narração sobre minha formação, quando estudo com vocês, vejo que a melhor forma de contribuir, inclusive com minha formação, é viabilizando a possibilidade de formação continuada para todos nós.

Marília, entrando novamente na conversa, perguntou:

− Por falar em formação, me lembro de ter visto a equipe da direção, supervisão e orientação aqui na escola, se reunindo semanalmente. Parecia que estavam estudando. Era isso, Cecília?

− Sim, no ano passado, nas escolas públicas estaduais, tivemos a oportunidade de cursar uma especialização em Gestão Escolar, num convênio estabelecido entre o Ministério da Educação (MEC) e a Unir. Era uma proposta semipresencial utilizando o material da Escola de Gestores da Educação Básica.

− Cecília, como era esse curso? − quis saber Juliano.

− Ah! Foi muito interessante para as equipes gestoras das escolas estaduais, principalmente porque desenvolvíamos os projetos na própria escola e socializávamos os resultados nos encontros mensais. Assim, tínhamos acesso também aos projetos das outras escolas. Sem dúvida, foi um curso muito bom. Vocês não participaram porque os projetos, infelizmente, foram direcionados apenas para os professores e alunos do Ensino Fundamental diurno.

Marília então perguntou:

− Se esse curso teve essas características, por que a escola não está melhorando?

Cecília tentou sair da saia justa, respondendo:

− Boa pergunta. Não sei se você lembra, mas quando concluímos o curso, a Seduc tomou providências para que ocorresse a eleição da direção pela comunidade escolar, o que aconteceu. Assim, a ideia era a de que a direção eleita tivesse mais autonomia e uma equipe de trabalho bem preparada.

− Então, com tudo isso, por que não deu certo? − perguntou Marília, impaciente.

Cecília tentou explicar:

− Mudança de governo, da equipe da Seduc, exoneração das direções que haviam feito o curso, e pasmem: cancelamento da legislação que tratava das eleições para diretores. Novamente, os cargos de direção foram ocupados por indicações políticas, e as equipes que haviam feito a formação foram desarticuladas. E aí estava a escola, novamente perdida, sendo gerenciada por pessoas que não possuíam formação ou experiência para isso.

Fico bem irritado com esse tipo de coisa, principalmente porque ingerências como essas sempre vêm permeando a história da educação em Rondônia.

Marília, após um longo suspiro, comentou:

− Minha nossa, isso é desanimador!

Cecília, concordando com Marília, disse:

− É realmente desanimador, mas precisamos insistir nos nossos estudos e no nosso trabalho responsável, pois muitos jovens e adultos dependem de nossa determinação. Depois tem outra coisa, governo muda, conforme os interesses políticos; já nós continuamos por aqui, com nossas responsabilidades e possibilidades de aprender e ensinar, principalmente de forma crítica, pois assim plantamos sementes para o futuro...

Com isso eu concordo, não podemos esquecer a força que possuímos quando assumido um trabalho coletivo que planeja onde pretende chegar.

 

Cenário – escola: Educação Matemática

Novamente às 18h, reunidos já pela quinta vez, começou o encontro na sala dos professores do Ceeja Padre Moretti. Cecília iniciou a conversa, refletindo sobre a importância que tem a escolarização para jovens e adultos, que por vezes já duvidaram de seu potencial ou até mesmo que pudessem ter uma nova oportunidade educacional.

O professor Jair deixou clara sua posição, ao falar sobre o valor da educação:

− Acredito muito, muito, muito na educação, porque o conhecimento é a única coisa que ninguém pode tirar da gente, nunca! Qualquer outro bem que a gente possa ter as pessoas podem nos tirar a qualquer momento, mas conhecimento adquirido pode ficar adormecido, mas no momento que você precisar, se se esforçar um pouquinho, lembra, e esses conhecimentos acumulados acabam fazendo com que passe num concurso, num vestibular, que tenha acesso a uma boa universidade, e você acaba conquistando o sucesso. Eu acredito que o único caminho que vai nos levar ao sucesso é a educação, e, se tivéssemos mais educação, nós teríamos menos violência, teríamos menos prisões.

Muito interessante o ponto de vista do Jair quanto ao valor da educação − um bem que, independentemente da situação, pertence a quem o conquistou. Mas essa conquista é sempre possível?

− Algum de vocês lembra alguma experiência relevante durante a atuação como professor de matemática? – perguntou Cecília.

O professor Ilson contou a história da aprendizagem de matemática do Francisco:

− Eu tive uma experiência. Foi quando me deparei com o Francisco. Ele é paraibano, na época com uns 50 e poucos anos, e fazia 20 anos que ele não ia ao Nordeste, porque dizia que só iria quando terminasse o 2º grau. A dificuldade dele era muito grande, questão de vista, porque ele enxergava pouco, mas a força de vontade superava tudo, e tanto eu, como os outros professores, o próprio

Jair e o Mário,2 a gente percebeu que a dificuldade era em matemática, nas outras matérias ele se saía até mais ao menos. Então a gente dividia o módulo para o Francisco em 10, 15, 20 vezes, aí dava orientação por partes. Ele passava 2, 3, 4 ou até 6 meses num módulo, para poder seguir em frente, porque não tinha condições de ver o todo, tinha que ser bem específico. Então, foi uma situação que me chamou muito a atenção, inclusive eu sempre encontro com ele na rua, e me disse que está perto de terminar o 2º grau.

Cecília comentou:

− Então no Ceeja adequaram os conteúdos conforme o desenvolvimento das habilidades do aluno! Para mim isso realmente é respeito ao saber do educando.

O Ilson continuou seu relato, dizendo:

− Incluindo a matemática, nós fizemos o máximo que nós pudemos para os alunos irem para a frente, tanto que uns entraram na universidade, outros passaram em concursos. Tem ex-alunos nossos que avançaram muito, tem um que é professor da universidade federal, tem dentista; quer dizer, entre as pessoas que passaram por aqui e tiveram oportunidade de dar continuidade [aos estudos], o objetivo foi alcançado.

Os estudos realizados por Skovsmose (2001) apontam para quatro pontos fundamentais à Educação Matemática: contextualização do ensino; respeito à diversidade; desenvolvimento de habilidades; e, reconhecimento das finalidades científicas, sociais, políticas e histórico-culturais. Gosto muito dessa percepção da Educação Matemática, e me parece um jeito bem honesto de desenvolver as práticas pedagógicas, valorizando as vivências dos alunos, respeitando sua forma de ser, proporcionando aprendizagens e percebendo que a matemática pode ser instrumento de inclusão cidadã.

Cecília deu continuidade à conversa, perguntando:

− Como vocês avaliam a Educação Matemática desenvolvida no Ceeja?

O professor Jair foi dizendo:

− Bom, os nossos resultados eram visíveis há alguns anos, porque a gente media muito pela quantidade de alunos que voltavam aqui para dizer que entrou numa universidade federal, que conseguiu sucesso ou resultado daquilo que veio buscar. Igual muitas vezes já encontramos alunos aqui nos nossos corredores dizendo que já estavam na Unir, fazendo exatamente o curso que queriam. Recentemente recebi a visita de um ex-aluno nosso que veio aqui para estudar o modular, e esse aluno foi o meu recordista com relação a tempo. Isso porque normalmente alguns alunos levavam no mínimo três meses para concluir só matemática, e alguns levam até dois anos só para concluir matemática, porque não existe um tempo limite, o que existe é o aluno tendo tempo para se dedicar; se ele tiver tempo, termina o curso mais rápido.

A professora Elisabete entrou na conversa, se referindo ao trabalho do professor Jair:

− Muitos professores reclamam do aluno, mas porque não conseguem ter a visão do que ele está fazendo e do que o aluno está vendo. Ele olha de maneira diferente da forma como o aluno olha. O professor Jair, por exemplo, faz um trabalho muito bom, porque ele também busca alternativas para suprir as deficiências do material ou as dificuldades dos alunos. Mas têm professores que não têm paciência, estão na EJA, mas não valorizam, talvez porque pensem que aqui pode ser um trabalho mais acomodado, que seria diferente de outra escola, onde o aluno precisa ser provocado o tempo todo. Felizmente, foram poucos professores assim, que não se identificaram com jovens e adultos, mas muitos procuraram fazer um bom trabalho em sala de aula.

A Valesca opinou sobre a matemática realizada no Sistema Modular:

− Eu vejo que a matemática no modular é uma forma muito boa, porque é por módulos. Você é que mostra o tempo que quer concluir, o tempo que você quer aprender, que forma vai buscar para poder aprender. Então, o conteúdo não vai para a frente se não conseguir aprender aquele módulo, porque um módulo é pré-requisito do próximo, e, se fosse com dificuldade, ficaria presa naquele próximo módulo. As orientações eram muito válidas, um momento só para aquilo; ia, tirava as dúvidas, voltava para a carteira, fazia os exercícios, aí, muitas vezes, eles [os professores] criavam outros exercícios para você fazer. Acredito que, na época em que eu estudei, foi muito bom.

O Jaime também falou sobre a matemática, mas a ensinada no Telensino:

− Era bom, os professores explicavam bem. Tinha os vídeos também, mas o que ajudava mesmo era o professor, porque o vídeo passava e pronto, mas o professor, você podia perguntar se não entendia bem.

Cecília pediu a Júlio César que também desse sua opinião sobre o assunto. Ele então disse:

− Acho que pelo curto período que a gente tinha para estudar, foi uma matemática bem objetiva, para a vida singular e concursos. Pelo curto período de tempo, foi bem aplicado, e também pelo interesse dos alunos.

Cecília, após lembrar os quatro pontos fundamentais à Educação Matemática, segundo Skovsmose, comentou:

− Me parece que essas características da Educação Matemática estão se fazendo presentes no Ceeja Padre Moretti, embora emergindo uma aqui e outra acolá. Quero dizer que se fazem presentes nos fazeres pedagógicos, mas aparecem separadamente, conforme o perfil docente ou a modalidade de ensino.

Alguns relatos dos professores demonstram uma compreensão de que a qualidade do ensino de matemática se manifesta a partir das aprovações dos alunos em vestibulares e concursos, mas também apresentam características da Educação Matemática, principalmente no que se refere à contextualização do ensino e ao desenvolvimento de habilidades. Eles percebem a importância de realizar atividades de ensino que considerem as vivências e necessidades dos alunos, assim como acreditam que a educação proporciona novas habilidades aos jovens e adultos, o que pode favorecer a vida em sociedade.

 

Cenário – família: dor e superação

Era o dia 19 de setembro de 1994, e Cecília planejava aulas de matemática para uma turma de 3ª série. Tarde chuvosa e escura, ela e Auxiliadora, aquela amiga com a qual fez faculdade, estavam juntas mais uma vez.

Auxiliadora, que já trabalhava no Colégio Dom Bosco desde 1993, havia avisado a Cecília sobre uma vaga para professora. Assim, após entrevista com o diretor da escola, ela foi contratada no início de 1994.

− Estou com medo de ensinar expressões numéricas para as crianças. Acho isso tão difícil de aprender − comentou Cecília.

Auxiliadora, que conhecia o trabalho de Cecília, pois planejavam sempre juntas, disse:

− Acho que está se preocupando sem necessidade, seus alunos estão muito bem em matemática. Também com tantas atividades diversificadas que você faz, não poderia ser diferente.

Cecília então disse:

− Talvez esteja me preocupando demais, é que tive muita dificuldade para aprender matemática na 3ª série. Mas, tem razão! Lá se vão quase 20 anos...

Eram outros tempos, outras histórias, outras crianças, e muitas delas, assim como Cecília, sem acesso a tantas estratégias didáticas ou materiais, e principalmente tendo professores que pautavam suas práticas numa educação bancária (Freire, 2009), na qual tanto professor quanto aluno não são sujeitos no processo de construção do conhecimento. O primeiro é transmissor enquanto o segundo é receptor, como um banco, no qual os depósitos são realizados.

Por lembrar o passado, e sabendo que “para fruir convenientemente qualquer obra, é preciso situá-la no contexto de seu movimento histórico” (Borges, 2001, p.24), acredito ser necessário resgatar algumas informações sobre a formação do Estado de Rondônia, destacando alguns momentos históricos. Em um breve resumo − iniciando pelo século XVII −, missões jesuíticas chegaram à região, quando aconteceu a ocupação dos portugueses em virtude da descoberta do ouro, sendo que em meados desse mesmo século ocorreu a ocupação maciça de migrantes nordestinos (capitania do Ceará), em busca da exploração da borracha, atividade econômica em ascensão.

No século XVIII, portugueses partiram de Belém, subiram o Rio Madeira até o Rio Guaporé, chegando ao Arraial de Bom Jesus, atual Cuiabá. Lá descobriram ouro e assim exploradores bandeirantes vieram em busca das riquezas minerais. Nesse período, a região ainda pertencia à Espanha, conforme o Tratado de

Tordesilhas, 3 mas com a entrada das bandeiras e o mapeamento dos rios Madeira, Guaporé e Mamoré − entre 1722 e 1747 − os

limites foram redefinidos pelo Tratado de Madri (1650).4 Então, Portugal passou a ter a posse definitiva e a defesa dos limites da região, sendo feitas as demarcações da área em 1781. Segundo estimativas, no período de 1872 a 1900, mais de 150 mil migrantes entraram no Amazonas, quando ocorreram conflitos internacionais pela ocupação das terras do atual Estado do Acre, o que resultou no

Tratado de Petrópolis,5 envolvendo Brasil e Bolívia.

O século XX foi marcado pelo ciclo da borracha (exploração dos seringais) e a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), inaugurada em 30 de abril de 1912. Entre 1910 e 1940, o Marechal Cândido Rondon, utilizando-se da mão de obra, principalmente, de migrantes do sul do país, construiu um sistema de comunicação − uma linha telegráfica entre os povoados de Cuiabá até o Amazonas −, e por consequência, os migrantes foram se fixando e formando povoamentos, como os de Vilhena, Pimenta Bueno, Ariquemes, hoje municípios do Estado de Rondônia.

Com a escassez do ouro, no começo de 1990, e a mecanização da exploração da cassiterita, ocorreu a decadência da garimpagem manual. Ainda nesse período, a concentração de terras nas mãos de grandes latifundiários marcou uma mudança no meio rural, pois a terra passou a ser utilizada para a agropecuária e o cultivo da soja, cenário que contribuiu para o crescimento desordenado da população urbana. Por consequência, surgiram altos índices de desemprego, falta de saneamento e saúde, altos índices de violência e prostituição, sempre aliados ao baixo índice de escolaridade da população (Matias, 2012, s/p), tornando mais que necessário o aumento da oferta de educação, segurança e saúde para o município de Porto Velho.

Em Porto Velho, problemas com a saúde pública sempre foram uma constante, desde sua origem.

Na tentativa de combater as várias doenças que assolavam a região, como a malária, [...] e amenizar o drama sofrido pelos trabalhadores que eram também acometidos por outras doenças tropicais, foi construído [...] o Hospital da Candelária. Em 1910, Oswaldo Cruz visitou as obras da Ferrovia Madeira-Mamoré, acompanhado do médico Belizário Pena para desenvolver um plano de combate às epidemias [...] O resultado desta viagem foi um plano de profilaxia da doença, do qual constava a utilização de mosquiteiros e a aplicação compulsória de quinino junto aos trabalhadores (Gomes, 2012, p.99-100).

O Hospital da Candelária foi construído em 1907 com capacidade de atendimento de 300 leitos, que não eram suficientes para atender a necessidade da época. Mesmo tendo se passado quase nove décadas, os hospitais públicos de Rondônia ainda não atendem adequadamente às vítimas de malária na região. Esse fato evidencia muito bem a situação do sistema de saúde em Rondônia.

− Cecília, você me parece um pouco triste hoje. Algum problema? − perguntou Auxiliadora.

− Na verdade sim, mas não é um problema recente, trata-se de uma lembrança bem difícil, e que de alguma forma tem a ver com a história da região em que vivemos. Hoje estão fazendo dois anos da morte do Lucas, e ainda é tão difícil lidar com isso, principalmente por acreditar que se em Porto Velho tivéssemos melhor assistência médica, a vida dele poderia ter sido salva. Quem sabe?

− Acredita mesmo nisso, Cecília?

− Claro Auxiliadora. Os médicos levaram quase cinquenta dias para fazer o diagnóstico da leucemia, que já havia avançado demais, o que tornou impossível o transplante de medula. E mesmo ele tendo o irmão gêmeo, não possuía mais condições clínicas para o procedimento médico.

− Realmente, Cecília, é muito difícil aceitar a morte de uma criança de 11 anos, ainda mais pensando que poderia ser diferente se as condições de atendimento médico não fossem tão precárias.

− É isso que eu penso Auxiliadora. Quando a médica, no Hospital das Clínicas de São Paulo, disse que havia pouco a fazer, fiquei tão desesperada que não acreditei, e durante os 13 dias de internação do Lucas, cuidava dele, sem admitir a ideia de sua morte, tão prematura.

A história se repetia, pois há cerca de sete anos a avó de Cecília, Aparecida – já com 97 anos de idade −, também havia sido levada para São Paulo, em busca de tratamento de saúde. As empresas aéreas que faziam o transporte, na época, eram consideradas as melhores alternativas médicas, e havia até um comentário feito constantemente: “Os melhores médicos de Rondônia são VASP e VARIG”.

Chegado o dia da morte de Lucas, à Cecília restou aceitar − embora com muita dor −, tomando as providências para levá-lo de volta à Rondônia, agora inerte, já sem vida. Sem dúvida, uma das tarefas mais difíceis que precisou realizar até aquele momento de sua vida.

− Sabe, Auxiliadora, às vezes pagamos um preço muito alto por nossas escolhas, em busca de melhores oportunidades. Bem, nesse caso específico, pela escolha de meu pai, ao trazer toda a família para cá. Mas também fico pensando: a vida é uma grande aventura, que pode nos trazer prazeres, dores e superações...

Naquele tempo, Cecília nem imaginava o que ainda estava por vir.

 

1 Curso para jovens e adultos, a partir do qual concluem uma série/ano em um semestre letivo. Nesse caso, presente em uma escola de Ensino Fundamental da rede estadual de educação.

2 Mário também foi professor de matemática no Ceeja Padre Moretti.

3 Tratado de Tordesilhas: Segundo ele, as terras em questão pertenciam à Espanha.

4 Tratado de Madri: Após a entrada das bandeiras e o mapeamento dos rios (Madeira, Guaporé e Mamoré), os limites entre Portugal e Espanha foram redefinidos.

5 Tratado de Petrópolis: Celebrado entre Brasil e Bolívia, nele o Brasil se comprometeu em construir a Ferrovia Madeira-Mamoré em troca de terras que passaram para o domínio brasileiro.