Travessias de Cecília: educação matemática em Rondônia
2 - Iniciando a travessia: angústias e confraternizações
2 – Iniciando a travessia: angústias e
confraternizações
[...] para escrever não importa o quê, o meu material básico é a
palavra. Assim é que esta história será feita, de palavras que se
agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que
ultrapassa palavras e frases.
Clarice Lispector, A hora da estrela
Cenário – formação: outro lado do rio
Às sete horas da manhã de março de 1997, em um dia chuvoso, como tantos da Amazônia, Cecília, jovem de olhos castanhos e
curiosos, estava à beira do rio Madeira,1 e percebeu ali a presença de seis pessoas que conversavam animadamente. Respirou fundo, tomou coragem e aproximou-se.
− Com licença, bom dia! Vocês trabalham na escola 2 do outro lado do rio?
− Você deve ser a nova coordenadora pedagógica, pelo menos tem jeito de ser, comentou Conceição.
− Sim, sou a Cecília.
A resposta à pergunta de Cecília veio de uma mulher com fala pausada, olhos negros e espertos, que apresentou a si e aos demais.
− Trabalhamos lá, sou Joana, a diretora da escola e estes aqui junto comigo, Maria, que é professora da alfabetização; o bendito fruto entre as mulheres é o Manuel, que leciona na 3ª série; Claudia, que dá aula na 1ª série; Regiane é professora da 2ª série; e esta toda arrumada é a Conceição, professora da 4ª série.
− Que bom já conhecer vocês! − disse Cecília.
− Ah! Você sempre vai nos encontrar aqui neste mesmo horário, por causa da balsa. Se perdermos a desse horário, chegamos atrasados na escola, informou Conceição.
Rio cheio, chuva, vento e banzeiro, 3 e todos sobre a balsa que realizava a travessia de Porto Velho para o outro lado do rio − lugar da escola. Porto Velho é a capital de Rondônia, município que deve seu surgimento ao Tratado de Petrópolis de 1903. Esse tratado previa a criação de um porto fluvial e uma ferrovia, para escoar a produção de borracha boliviana. O município foi criado em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, mas foi oficializado pelo Decreto-Lei nº 757 já em 2 de outubro de 1914.
Cecília percebeu o desafio dessa travessia não tão segura... Com seus 28 anos de idade e muita disposição para o trabalho, mas sem saber nadar, sente calafrios ao perceber a movimentação da balsa repleta de carros, caminhões, motos, bicicletas e gente − sendo empurrada apenas por um pequeno rebocador. Esse medo foi recompensado pela conversa descontraída e animada que aconteceu − na escola − durante o café da manhã tomado com seus novos colegas de travessia.
Cláudia foi logo informando:
− Fazemos uma cota mensal, uma “vaquinha” para o café da manhã que a Dona Raimunda prepara para a gente todos os dias. Ela não é maravilhosa?
Em seguida, Cláudia beija a bochecha da merendeira, que já estava corada de vergonha pelo elogio.
− De vez em quando ela ainda traz um queijinho ou algum doce.
É muito gostoso, afirmou Regiane.
− Você fica fazendo propaganda, vai que eu erro o ponto do queijo, a professora vai pensar que é mentira sua − advertiu Dona Raimunda.
Depois de uma gargalhada geral, tomaram o café com alegria e boa conversa. Dona Raimunda já deixava tudo preparado, pois morava perto da escola e chegava mais cedo, sempre recebendo a todos com um franco sorriso e, por muitas vezes, com um aconchegante abraço. Prazeres raros e inesquecíveis que ajudavam a superar medos!
Cenário – escola: oportunidades e percalços
Às 18h de uma terça-feira do mês de abril, começou a primeira das conversas organizadas por Cecília no decorrer de 2012. O cenário foi a biblioteca do Centro Estadual de Educação de Jovens e
Adultos (Ceeja) 4 Padre Moretti, com a presença de uma professora e uma ex-diretora do centro, estando as três sentadas ao redor de uma mesa com café e água para que se servissem à vontade.
A professora Elisabete 5 lembrou tempos agradáveis do trabalho em uma escola criada para o atendimento de jovens e adultos:
− Eu achava o Padre Moretti um ambiente feliz, as pessoas até rezavam, tinham os eventos organizados coletivamente, que eram bons.
Cecília, buscando melhor conhecer o Ceeja, pôde contar com o apoio voluntário de pessoas que ainda trabalham, já trabalharam ou estudaram lá. Foram várias conversas, sempre marcadas por recordações, ora alegres, ora angustiantes, mas sempre momentos agradáveis – reencontros de pessoas que tinham algo em comum, o fato de terem alguma história para contar sobre o percurso de trabalho ou aprendizagem naquele lugar.
Elisabete, com 48 anos de idade, corpo magro e ágil, e com um sorriso cativante, é professora, licenciada em Língua Estrangeira – Inglês pela Universidade Federal de Rondônia (Unir) desde 2003 e em Língua Portuguesa por um curso de Educação a Distância, além de ter especialização em Língua Portuguesa. Ela ainda trabalha na escola e contou que já foi professora de matemática no Ensino Fundamental por cerca de quatro anos.
− Elisabete, conte sobre sua experiência na EJA! − pediu Cecília.
− Quando comecei não tinha habilitação, eu tinha magistério. Comecei a trabalhar com a Suplência de Educação Básica (SEB), mas antes de vir para o Padre Moretti, quando eu iniciei, fiz concurso, fui trabalhar numa escola de Educação de Jovens e Adultos no interior, e com a carência de professores na área, fui lecionar matemática para jovens e adultos no sistema modular. No
Padre Moretti eu não fui para o Curso Modular,6 fui trabalhar com as aulas presenciais no SEB, com jovens e adultos de 1ª a 4ª série, e mesmo em a minha habilitação, trabalhei de 5ª a 8ª série com matemática no Seriado Semestral também.
Em Rondônia, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, a presença de professores leigos lecionando matemática era muito significativa, uma vez que nesse período o aumento da população estava em torno de 15,8% ao ano, conforme dados IBGE (1984), e em 1980, “mais de 50% da população vivia há menos de 10 anos na região” (Coy, 1988, p.172). Assim, aumentou também o número de salas de aula e de alunos, e os investimentos na formação docente não acompanharam a demanda local para a Educação Básica.
A situação de Rondônia, durante o processo de criação da Unir,
estava configurada, segundo o IBGE de 1980, da seguinte
forma: população total de 491.069 pessoas, sendo que, desse
total, 178.490 pessoas não tinham instrução nenhuma. A
quantidade de pessoas com 10 anos ou mais era de 101.717,
dentre elas, os que possuíam curso completo, de acordo com o
grau de instrução, dividia-se em: 75.884 com grau elementar;
15.626 com 1º grau; 7.669 com 2º grau; 2.329 com ensino
superior; 209 com curso de mestrado ou doutorado. (Ruezzene,
2012, p.65)
Ainda em 1991, a quantidade de professores da Educação Básica sem formação em nível superior passava de 9 mil, período em que Cecília já trabalhava como supervisora, engenheiros, administradores, contabilistas e aqueles que demonstravam habilidades em matemática, mesmo tendo sido formados em outra licenciatura, eram convidados a ensinar.
Cecília sabe bem do que fala Elisabete. Lembrou-se dos documentos lidos que contavam a história do Ceeja Padre Moretti, inaugurado em 1977 para escolarizar aqueles que ainda não haviam concluído a Educação Básica. No entanto, antes disso, em Porto Velho já existia um educador preocupado com o destino daqueles que não possuíam formação escolar, inclusive homenageado com o nome da escola, pelo seu envolvimento com a aprendizagem de jovens e adultos. Ela comentou:
− Encontrei essa publicação, no jornal do dia 16 de abril de 1977: “O governador Humberto da Silva Guedes, no dia de ontem, tomou a iniciativa de prestar significativa homenagem à memória do Padre João Batista Moretti, o qual, por muitos anos, desde quando aqui chegou, ilustrou com sua inteligência e extraordinária cultura o magistério local, principalmente lecionando à juventude de nossa terra a ciência da matemática, da qual era profundo conhecedor
[...]”.7 Gostei muito de saber que desde essa data já havia um professor de matemática trabalhando com o ensino para jovens e adultos, por isso considerei importante socializar isso com vocês.
Com alguns comentários, as três concluíram que precisavam saber mais sobre o histórico da escola e daquele que a nomeia, considerando que uma homenagem foi feita ao Padre Moretti.
Nesse momento chegou Letícia, sobrinha de Cecília, jovem de 21 anos, corpo esguio, de estatura mediana e longos cabelos castanhos. Meiga como de costume, anunciou:
− Com licença? Tia, trouxe o lanche que me pediu!
Cecília apresentou Letícia a Elizabete e Zenaida, depois a convidou para permanecer com elas até a hora de irem juntas para casa. E logo voltou a contar:
− Além da nota no jornal, também gostaria de falar um pouco mais, pois tive acesso a uma pesquisa disponível no sítio eletrônico do Ceeja − que foi realizada em 2001, pelo professor Júlio de Araújo e pela aluna Lindaura Coelho Moura − contando partes da vida, formação e atuação profissional do Padre Moretti. O que acham?
Com a concordância das três, Cecília começou a contar:
− João Batista Moretti era filho de Francisco Moretti e Maria Signaroli, nascido em 11 de fevereiro de 1913 na Itália, onde concluiu os estudos primários e secundários. Depois cumpriu o serviço militar na Capitania dos Portos de Veneza.
− Ele não era padre? − perguntou Letícia.
− Já estava com 25 anos quando foi para a congregação salesiana e após a ordenação sacerdotal em 1949 veio para o Brasil, mais especificamente para Manaus, onde permaneceu trabalhando por três anos. Em 1953 foi transferido para o Colégio do Carmo em Belém do Pará, local em que começou a ensinar matemática, ainda como professor leigo.
Letícia como se também fizesse parte da pesquisa, interveio novamente:
− O que é um professor leigo?
− Aquele que leciona sem ter formação naquela área específica, mas o Padre Moretti logo começou a investir em sua formação docente, quando, em 1955, foi transferido para Juazeiro do Norte, Ceará. Foi em Fortaleza que ele adquiriu habilitação para o ensino de matemática, desenho, latim e trabalhos manuais para atuar nos cursos de Ensino Fundamental e Médio.
− Interessante! Mas quando ele veio para Porto Velho? – quis saber Letícia.
− O Colégio Salesiano Santa Rosa foi o primeiro a ser criado pelos salesianos no Brasil, em 1883, na cidade de Niterói, Rio de Janeiro. Só em 1960, quando foi criada a Inspetoria Missionária da Amazônia, o Padre Moretti veio para cá e assumiu a direção do
Colégio Dom Bosco, 8 mas em 1968 retornou a Manaus para exercer a direção da Casa Inspetoral Salesiana. Retornou à cidade de Porto Velho para atuar no Instituto da Diocese, onde, em julho de 1974, celebrou bodas de prata sacerdotais.
Letícia ainda questionou:
− Ele trabalhou aqui nesta escola?
− Não, mas começou a trabalhar ensinando jovens e adultos ainda no antigo Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), como professor de Matemática e secretário-geral da atual Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Castelo Branco. “Antes mesmo da criação do Ceeja Padre Moretti, a Divisão Territorial de Educação realizava anualmente Exames de Suplência para as pessoas que não tinham escolaridade nenhuma, e o Padre Moretti, voluntariamente, dava aulas, preparando-as para esses exames” (Centro Estadual de Educação, 2012). Principalmente por essa ação, envolvendo a inclusão de jovens e adultos no processo de escolarização, seu nome foi indicado e aceito como patrono da instituição, tornando-se o nome da escola.
Pensando nas oportunidades e dificuldades presentes na EJA, me lembrei de que “[...] o Mobral, em Porto Velho, foi instituído no mês de agosto de 1971, tendo sido criada a primeira Comissão Municipal
por decreto do então prefeito Odacir Soares Rodrigues [...]”. 9 Com certa surpresa por algumas informações, os comentários sobre a atuação do Padre Moretti foram seguidos por relatos das experiências vivenciadas no Ceeja.
− Olha, foram muitas reuniões [no Ceeja], muitos encontros, muitas discussões, muitas palestras, muitos eventos, tudo voltado sempre ao foco: Educar por quê? E educar para quê? − contou a ex-diretora Zenaida.
Já aposentada, Zenaida, com 63 anos, mantém seus cabelos todos brancos e tem o jeito paciente de avó, talvez pela constante presença dos netos no seu dia a dia. Ela atuou como diretora do Ceeja durante três anos, entre 1996 e 1999. Possui formação em Pedagogia, curso feito na Universidade Federal de Rondônia (Unir), com habilitação em Supervisão Escolar e para as disciplinas didáticas.
Cecília então comentou:
− É realmente muito interessante essa perspectiva de pensar no porquê e para que do trabalho pedagógico, o que lembra as ideias de Freire (2002), em seu livro Educação como prática da liberdade, no qual justificava o porquê − pela necessidade que todo ser humano tem de aprender − e o para que, considerando a oportunidade de conscientização a que todo cidadão tem direito.
A professora Elisabete comentou:
− Gosto de relembrar coisas que já aconteceram e que fizemos durante nosso trabalho, e também é uma chance de reencontro que considero muito importante.
− Que bom que se sente assim, mas agora me diga por que resolveu lecionar na EJA? − perguntou Cecília.
− Eu comecei com jovens e adultos, então a minha escolha foi porque me identifiquei com essa faixa etária, de jovens de 15 até 60 anos, ou até mais, e essa mistura de jovens com as pessoas mais maduras, eu acho produtivo.
É muito bom notar que sempre existe gente que se dedica ao atendimento desse público! Também acredito que o papel da ex-diretora Zenaida foi muito significativo para o Ceeja.
Cecília se voltou a Zenaida:
− Me conta por que veio para o Ceeja Padre Moretti?
− Tinha uns problemas aqui, fui convidada e aceitei o desafio, pois era voltado para aquilo que eu mais amava, que era a educação, para trabalhar com os jovens, até porque conhecia a realidade em termos da defasagem de faixa etária escolar, que naquela época era realmente irritante, tanto que foi criado o Supletivo Seriado nas escolas. Então foi um desafio que aceitei.
Zenaida também se lembrou de sua formação:
− Quando fiz o curso de pedagogia, ele habilitava também para docência − licenciatura nessas áreas específicas. Na época nós tínhamos um curso que dava direito a trabalhar com professores. Também fiz especialização em Gestão Escolar.
Cecília, então argumentou:
− Acredito que possuir formação adequada para assumir a gestão de uma escola deveria ser imprescindível, até para proteger a própria gestão. Outra coisa interessante é ter formação para docência, o que de certa forma pode explicar a atenção dada às reuniões e eventos realizados na escola para tratar das questões pedagógicas − coletivamente, constituindo-se, assim, um espaço de formação em serviço.
Elisabete recordou:
− Uma vez a gente fez uma feira de empreendedorismo linda, com apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), buscamos o material lá para organizar os espaços (boxes), e muitos alunos puderam expor os trabalhos que faziam como autônomos ou empresários. Foi possível descobrir vários talentos.
Cecília disse:
− Estou percebendo que essa busca de informações históricas, com a ajuda de vocês, pode levar à percepção de muito mais do que a própria história da Educação Matemática no Ceeja.
Sentado ali com as quatro, fiquei refletindo e concluí que também acredito nisso, porque a partir da história da instituição, cria-se a possibilidade de compreender a própria história da EJA em Rondônia, na medida em que se relacionam; e mais, o resgate das fontes das Instituições Escolares pode adquirir significado, pois traz a expressão de sujeitos ou grupos sociais específicos que nelas atuaram e representam um contexto histórico determinado, sendo relevante para a compreensão da História da Educação de uma sociedade.
− Mas, mesmo muito curiosa para ver o que mais vamos descobrir, está na hora de encerrarmos, com o pão de queijo e o café que a Letícia trouxe. Vamos marcar nosso próximo encontro, parar por hoje, e fazer o lanche? − perguntou Cecília.
Depois de combinado que fariam a próxima reunião dali a quinze dias, lancharam, lembrando com saudade de fatos cotidianos da escola.
Cenário – família: alegria e obstáculos
− Que delícia! Mãe, pode comer mais uma? − pergunta Pedrinho, ainda lambendo os dedos em busca de algum sabor deixado pela coxinha de frango com massa de mandioca, que havia acabado de devorar.
Moleque esperto, irmão de Cecília, por volta dos cinco anos, muito branco, portanto a essa altura – o quarto dia de viagem – já bem vermelho do sol. A tal coxinha era uma iguaria quentinha, por ser mantida numa caixa de isopor, vendida na beira dos atoleiros que havia na BR-364. Era assim que as horas de espera para atravessar o obstáculo se tornavam mais suportáveis. Na verdade, já havia uma grande expectativa quando começava a se formar a fila de carros e caminhões: Será que naquela parada teria a tão desejada coxinha para vender?
− Menino, não vê que se comer mais vai ficar doente, ainda mais depois de tantas bananas! – ponderou Helena.
Helena, na época mãe de cinco filhos, atenta às necessidades de todos, embora de estatura pequena, muito ágil na realização de suas tarefas maternas, se referia a um cacho de bananas que fora comprado na entrada do Estado, na cidade de Vilhena e que, a essa altura da viagem, já havia sido devorado pela família.
Ainda no final de 1976, Cecília e toda a família faziam a travessia do país. Na época com oito anos de idade, menina meio acanhada, cabelos compridos e lisos, e assim como os quatro irmãos, sem entender direito para onde ia. Seu pai tornara-se caminhoneiro, por já estar cansado da vida na pequena roça, que não poderia expandir-se pela diminuta área de terra que possuía. Justino, homem por volta dos 40 anos de idade, cabelos lisos e sempre bem penteados; de um jeito simples, mas com firmeza nos gestos e palavras, havia começado a fazer fretes para Rondônia, na época ainda Território Federal.
Aproximadamente um ano e meio antes da citada viagem, foi divulgada uma notícia:
[...] o Ministro do Interior deu ênfase à alvissareira notícia da
determinação do Governo Federal, por intermédio do Ministro
dos Transportes, Dirceu de Araújo Nogueira, para o
asfaltamento, ainda no decorrer do corrente ano, da rodovia
BR-364, o que significa dizer que a principal rodovia de acesso
do país à parte da região amazônica ocidental será
grandemente beneficiada com a medida governamental.10
Mas o asfaltamento da BR-364 foi concluído apenas em 1983. Então, a família de Cecília e tantas outras chegaram a Rondônia por meio de uma estrada de terra.
Retomemos a vida de nossas personagens. Justino, voltando de mais uma viagem, de Rondônia ao interior do Paraná, trazia várias pulseirinhas − presentes para Cecília − feitas por hippies a quem havia dado carona. Já chegou anunciando:
− Rondônia é um bom lugar de se viver. Para quem não tem medo de trabalho, pode ganhar um bom dinheiro, porque tudo lá tá no começo. Faço mais uma viagem de frete e volto para buscar todo mundo.
Mas as coisas não aconteceram como Justino esperava. Ele já estava fora de casa por mais de dois meses, então Helena, mãe de Cecília, e Aparecida, sua avó paterna, não concordaram com o plano.
Helena, com voz firme, informou:
− Chega de cuidar de tudo sozinha. Agora você só sai daqui com todo mundo junto, eu, as crianças e sua mãe.
E Aparecida, mulher magra, pequena e decidida, por volta dos oitenta anos de idade, reiterou:
− Meu filho, já está na hora de você tomar juízo e cuidar melhor da sua família.
Helena, tendo recebido o apoio da sogra, continuou:
− Enquanto você cuida da venda do sítio, Cecília e Felipe terminam o ano na escola, depois vamos todos para essa tal de Rondônia.
Acredito ser importante lembrar que o Estado de Rondônia, 11 localizado na região Norte do Brasil, é relativamente jovem, completando apenas 30 anos nessa condição. Surgiu território, da divisão de terras anteriormente pertencentes ao Amazonas e Mato Grosso. O Estado “foi criado a 13 de setembro de 1943, através do Decreto nº 5.812, com a denominação de Território do Guaporé, Rondônia somente passou a ser assim conhecida a partir [...] de 17 de novembro de 1956, quando o Decreto-Lei nº 2.731 foi assinado” (Silva, 2000, p.138).
Nessa mesma data, 1943, o então presidente da República, Getúlio Vargas, criou cinco territórios para garantir a segurança das fronteiras do Brasil: Ponta Porã, Iguaçu, Rio Branco, Amapá e
Guaporé. Apenas em 1956, o Território Federal do Guaporé12 passou a ser designado como Território Federal de Rondônia.
Assim continuava o processo de colonização no Brasil, e novamente, em prejuízo das populações indígenas, sendo que, em Rondônia, na década de 1950, não “havia esforços de fixação na terra para produção de riquezas. Apenas exploravam-se as riquezas
da floresta e o trabalho indígena”. 13
O cenário começou a se modificar a partir da década de 1960,
devido à construção da BR-364 14 − fator que motivou a ocupação e o desenvolvimento do então Território Federal de Rondônia − quando foram distribuídas terras para aqueles que se propusessem a trabalhar nelas. Assim, Justino conseguiu se apoderar de um pedaço de chão, apressando-se para a derrubada das matas, plantação de pastos e construção de uma moradia, benfeitorias necessárias para provar o uso das terras, o que seria a garantia do título de posse; ou seja, a derrubada das matas era incentivada pelo poder público, como forma de garantir a ocupação do espaço.
Era o avanço da colonização em Rondônia, gerando certo progresso e muita devastação, pois à medida que protegia o território, ampliando a produção e o desenvolvimento, também alterava consideravelmente o meio ambiente e a cultura local. Entretanto, − Criatura, já que vamos para tão longe, então temos ao menos que morar numa cidade, para as crianças estudarem e fazer o tratamento do Felipe.
ocorre que a natureza, o corpo e a mente dos homens têm um
longuíssimo passado, e, talvez, um não menos longo futuro,
para cuja defesa se torna indispensável a ação da memória.
Por isso, também faz parte da cultura de resistência o resgate
da lembrança que alimenta o sentimento do tempo e o desejo
de sobreviver. (Bosi, 2013, p.366)
Dessa forma, relembrar o passado, através da história, acaba por favorecer a presença desse mesmo passado no hoje e no amanhã.
Voltemos à conversa familiar, na qual sem ter como negar a determinação da mãe e da esposa, que veementemente se posicionavam, por terem notícias de um relacionamento extraconjugal de Justino em Rondônia, ele se deu por vencido e começou a tomar as providências para a mudança, com muita pena se desfazendo de animais e coisas que havia levado tanto tempo para conquistar. Entretanto, dizia convicto:
− Em Rondônia teremos uma vida bem melhor que essa! Até já temos onde morar, vamos ficar no nosso sítio, a 250 quilômetros da capital.
Felipe já estava com nove anos, menino muito tímido e com um problema de saúde apresentado há pouco tempo, o que muito preocupava sua família, pois volta e meia apresentava crises convulsivas. Então, mais uma vez o planejamento de Justino é questionado, agora apenas por Helena, pois a sogra gostava da ideia de permanecer na roça:
− Será que você não tem pena das crianças, sair de um mato para morar em outro mato pior ainda. Pelo menos aqui tem uma escola a um quilômetro e meio de casa. E lá, como vai ser?
Justino perguntou:
− Mulher, o que você quer que eu faça?
Helena, exaltada, declarou:
Depois de muitas conversas, Justino entendeu os argumentos da esposa, que acabou por convencê-lo. Assim, não ficaram morando no sítio, à margem da estrada BR-364. Ao contrário do plano inicial, a família foi morar em uma casa alugada, bem próxima da entrada da cidade de Porto Velho – a capital de Rondônia.
− Viagem maravilhosa, com todo mundo junto. Até o Lambari, nosso
cachorro, tentou fazer a travessia15 − dizia Cecília. A avó Aparecida confirmou a tentativa do cachorro:
− Pobrezinho do Lambari, tão mansinho, bom de brincar com as crianças, caiu da mudança ainda no Estado do Mato Grosso. As crianças chorando... Que dó! Pedrinho era quem mais chorava e se lamentava.
Justino chegou a pensar em voltar para procurar o pobre do bicho, mas depois acabou desistindo. Difícil encontrar!
Fora esse infortúnio, na lembrança de Cecília a viagem foi bem interessante:
− Num espaço compreendido entre nossa mudança, dividida por um armário de cozinha e um guarda-roupa, nos amontoávamos em colchões, embaixo da lona do caminhão. Minha vó, eu e quatro irmãos, viramos mudança, o que para crianças entre três e nove anos tornou-se uma fantástica aventura.
Felipe até hoje lembra:
− Foi uma viagem incrível, a mais feliz de todas. Toda a família, almoçando a comida que nossa mãe preparava sempre à beira de um rio, a gente brincava e tomava banho. Ainda lembro o cheiro da comida e nossa algazarra quando recebíamos os pratos com aquelas maravilhosas iguarias, como o arroz com carne moída. Nunca mais provei igual, gosto de natureza, de fumaça, de coisa boa!
Foram seis dias de viagem. Primeiro tinha asfalto, até Cuiabá (Mato Grosso), mas depois vinha terra batida, com muitos buracos e atoleiros − em um tempo de muita chuva. Por isso tinha que esperar enquanto fazia uma grande fila de carros e caminhões tentando passar. Às vezes precisava até de trator para retirar os caminhões dos atoleiros.
Fico indignado com situações assim! Quanto descompromisso do setor público, pois fizeram tanta propaganda, anunciaram um “Eldorado” e na verdade não havia sequer estrada adequada para as famílias fazerem a viagem. Entretanto, mesmo com todas as dificuldades, para Cecília e os irmãos, tão crianças ainda, a viagem foi maravilhosa.
Helena, decepcionada ao chegar a Porto Velho, fez uma descrição do lugar:
− Cidade empoeirada, poucas ruas asfaltadas, muito calor, movimento de caminhões e muito barulho!
Aparecida também reclamava:
− Isso é o fim do mundo, com tanto calor e mosquito!
Helena, acostumada a casa ampla, com jardim e quintal,queixava-se por ser uma casa pequena, quente, sem muro ou cerca, entre um posto de combustível e uma área de mata, bem na entrada da cidade. Quanta poeira, calor e mosquitos!
Justino foi logo avisando a todos sobre os mosquitos:
− De dia são uns pequenos, com picadas dolorosas, que deixam marcas, e de noite os famosos pernilongos, aos montes. Nunca vi tantos juntos em um lugar só, fica quase insuportável, por isso temos as telas nas portas e janelas. É preciso deixá-las sempre fechadas, principalmente à noite!
Aqueles mosquitos foram uma grande dificuldade para todos,
principalmente por conta do medo de adquirir a temida malária.16 Fora os mosquitos, durante o dia faltava água nas torneiras, então a água era buscada no posto de combustível, que generosamente cedia água quase potável.
Felizmente, dois dias passados, Aparecida descobriu:
− À noite tem água nas torneiras! Cecília, a partir de hoje você vai me ajudar a encher todas as vasilhas da casa.
Trabalho feito à luz de velas, pois depois das 20h era cortado o fornecimento de energia em parte da cidade, e parece que a parte em que moravam era sempre escolhida para ficar no escuro. A verdade é que chegando ao anunciado “Eldorado” enfrentaram muitas dificuldades, como: transporte deficiente; clima quente e úmido; riscos, como a febre amarela, a malária e falta das mínimas condições de higiene. E foi assim que começou a ser caracterizado e percebido o custo da oportunidade.
1 Rio Madeira: Maior afluente da margem direita do rio Amazonas, em cuja margem, também direita, localiza-se a capital de Rondônia − Porto Velho.
2 Escola Municipal Rural.
3 Banzeiro: Sucessão de ondas provocadas pelo vento forte ou por embarcação em deslocamento. Expressão regional escolhida para também denominar um Teatro Municipal de Porto Velho.
4 Ceeja: Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos, situado à Rua Herbert de Azevedo, nº 1649, Bairro Olaria, no município de Porto Velho. Criado pelo Decreto nº 815 de 04 de abril de 1977, cujo funcionamento foi autorizado pelo Parecer nº 06 de 24 de fevereiro de 1978 e Resolução nº 10 do Conselho Territorial de Educação em 19 de maio de 1978.
5 Elisabete: Nome verdadeiro da professora e, por isso, não destacado, assim como o nome de outras nove personagens, por terem autorizado sua publicação.
6 Modular: curso não presencial, sem cumprimento de carga horária e dias letivos. Os estudos são realizados através de módulos, que a escola disponibiliza aos alunos. Já a avaliação é feita através de exames presenciais, e o atendimento aos alunos, com professores licenciados por área, acontece no plantão de atendimento e durante
a realização das provas (<ceejamoretti.blogspot.com.br>).
7 O Guaporé, 16 abr. 1977. Jornal fundado em 1954 por Aluísio Pinheiro Ferreira, primeiro governador (1943 a 1946) do Território Federal do Guaporé (atual estado de Rondônia).
8 Em 1922, foi instalada a Escola Salesiana Dom Bosco, em Porto Velho, para ensinar uma profissão aos alunos carentes do Colégio Dom Bosco. Foram realizados cursos de oleiro, ladrilheiro, olericultor e pecuária – criação de aves e animais de pequeno porte.
9 Jornal Alto Madeira, 07 abr. 1977.
10 Jornal O Guaporé, 10 jun. 1975.
11 Rondônia: Estado brasileiro que faz parte da região Norte do país, com uma área de 238.378.7 km² totalmente localizada na Amazônia Legal, o que representa 6,19% da área total da região Norte e 2,89% da área do Brasil, possuindo 1.342 km de linha divisória com a Bolívia, com toda a fronteira delimitada por rios.
12 Guaporé: antiga denominação desse espaço territorial. Fazia referência ao Rio Guaporé, que divide o Brasil da Bolívia. Entretanto, como feito com municípios, ruas, escolas e outros prédios ou áreas públicas, uma nova denominação surgiu para homenagear alguém que fez parte da história política da região; assim, aconteceu a mudança de nomenclatura para Rondônia, em homenagem ao sertanista Marechal Cândido Rondon – pela Lei nº 2.731 de 17 de fevereiro de 1956.
13 Ver o artigo Influências da cultura indígena: índios, os primeiros habitantes de Rondônia. Disponível em:
<http://www.topgyn.com.br/conso01/rondonia/conso01a11.php>. Acesso em: 27 dez 2013.
14 A BR-364 (Brasília-Acre) − financiada pelo Banco Mundial − e a implantação dos projetos de colonização do Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil (Polonoroeste), constituíram-se fatores de atração de correntes imigratórias.
15 A travessia do país (do interior do Paraná à capital de Rondônia – Porto Velho).
16 Malária: Doença infecciosa, endêmica em várias regiões, causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida por mosquitos do gênero Anopheles (Ferreira, 2010).