Travessias de Cecília: educação matemática em Rondônia

4 - Conquistas se realizando: avanços e dificuldades

4 – Conquistas se realizando:

avanços e dificuldades

 

Eu que, intersubjetivamente, só existo porque minha língua me

permite que me nomeie, sou, na verdade, em princípio, falado

por meu discurso.

Luis Costa Lima, História. Ficcção. Literatura.

 

Cenário – formação: universidade e docência

Num dia qualquer do mês de abril de 1990, já fazendo bastante calor, embora muito cedo ainda...

− Pensei que ia perder a hora hoje. Levei um susto com o despertador! − comentou Cecília com a mãe.

− Já são 6h15 e se não se apressar vai perder o ônibus. Ele não passa às seis e meia? − perguntou Helena.

− É sim, mas já estou indo.

Pega a mochila e vai saindo, quando Helena diz:

− Vai sair sem tomar café?

− Vou levar esse pão e compro um café na cantina. Tchau, mãe!

Cecília 1 estudava Pedagogia na Unir, localizada a dez quilômetros de Porto Velho e precisava pegar dois ônibus, um até o centro da cidade e outro até o campus, por isso saía tão cedo de casa. Por volta de meio-dia fazia o caminho de volta à cidade, mas já no quarto semestre do curso de Pedagogia, ia direto ao trabalho, uma escola na periferia, onde também trabalhavam outros universitários, como sua amiga Auxiliadora.

Mas não foi sempre assim, pois no primeiro ano do curso, Justino fazia questão de levar e buscar Cecília na universidade.

− Cecília, o pai já ligou o carro. Vamos para a escola! – chamou Lucas.

Lucas e João eram gêmeos idênticos e nascidos já em Rondônia, quando o até então caçula − Luizinho − já estava com seis anos. Todas as manhãs, Justino levava os pequenos gêmeos para a pré-escola e Cecília à universidade. Assim, o sonho de Helena estava se concretizando − os filhos trazidos do Paraná e os nascidos em Rondônia estavam estudando.

A história da educação formal em Rondônia inicia-se

oficialmente a partir de 1913, sendo o sistema de ensino

particular o primeiro a ser instalado por iniciativa da

administração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, visando

atender os filhos dos ferroviários que trabalhavam na

construção da referida ferrovia. O estabelecimento do ensino

oficial acontece dois anos depois com a inauguração da

primeira escola pública de Porto Velho, denominada Escola

Mista Municipal em julho de 1915 [...] E, sob comando da

professora Tavelinda Guapindáia, a referida escola começa

suas atividades letivas atendendo 40 alunos do ensino primário.

(Silva, 1984, p.129)

Naquele mesmo dia, numa sala de aula do curso de pedagogia, o professor Aristóteles, com seu jeito descontraído, óculos redondos, jeans e camiseta, dava aula de História da Educação, e comentou:

− No período compreendido entre 1920 e 1930 continuaram em funcionamento poucas escolas territoriais e particulares, a exemplo de alguns grupos escolares, e das instituições particulares, como a Escola Dom Bosco (1922); a Escola Dr. Joaquim Tanajura (1928) − que oferecia educação aos adultos no período noturno; o Colégio Maria Auxiliadora (1931), que, em 1938, implantou o Curso Normal Rural, para a formação de professores em nível ginasial (atualmente, 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental). Entretanto, mudanças mais significativas só ocorreram a partir de 1943, data da criação do Território Federal do Guaporé.

O professor Aristóteles continuou seu relato:

− E mais, a partir desse período, “[...] a história educacional passa por modificações em sua estrutura, visando à modernização administrativa. Para isso foi criada a Divisão de Educação e Cultura (DEC), com a finalidade de reorganizar o setor educacional e cultural da nova unidade federada, que após sua criação, expande a rede de ensino, criando as primeiras escolas rurais e instalando novas escolas secundárias – atualmente, Ensino Médio – em Porto Velho, antes oferecido pelas escolas salesianas – Dom Bosco e Maria Auxiliadora” (Santos, 2000, p.56-7).

Para os salesianos, a vinda para o Brasil, em 1883,

representava a expansão de suas obras pela América Latina e

a implantação do projeto da Santa Sé. A defesa da educação

laica, ao final do século XIX, no bojo das propostas liberais, que

culmina com a expulsão de ordens religiosas na França,

também foi sentida pelos salesianos no Brasil. Nos primeiros

anos de funcionamento, as escolas salesianas foram

fortemente atacadas pela imprensa nacional anticlerical, em

particular no Rio de Janeiro, que via os salesianos e outras

ordens religiosas que chegavam como ameaças aos ideais

liberais que ganhavam espaço na sociedade brasileira [...]

(Dalcin, 2008, p.44).

Mesmo com muitas críticas, as escolas salesianas se fixaram no Brasil, a exemplo dos Colégios Dom Bosco, Maria Auxiliadora e Laura Vicuña em Porto Velho.

Também passaram a fazer parte do cenário educacional de Porto Velho “as escolas públicas – Getúlio Vargas (1944) e Escola Normal Carmela Dutra (1947). Cabendo à última a responsabilidade de oferecer o curso normal, em nível ginasial, o qual habilitava para o magistério, com duração de quatro anos” (Dalcin, 2008, p.57).

− Cecííília! Ei, vamos para casa, o pai tá esperando, anunciou João, ao lado de Lucas na janela da sala de aula do curso de Pedagogia.

Alguém sempre comentava a aparição diária dos dois, que depois, a pedido de Cecília, tornou-se uma aparição silenciosa, mas não menos expressiva. Quase sempre chegavam por volta de dez minutos antes de terminar a aula.

− Mana, você demora muito estudando, a gente tá com fome e você nem precisa mais estudar, reclamou João, já dentro do carro.

Ao que Cecília respondeu:

− Claro que eu preciso estudar, e muito.

Mas João insistiu:

− Não precisa não, já é muito sabida, até ensina a gente a ler.

Nesse momento, Cecília aproveita a oportunidade para retomar a conversa que já havia tido com o pai por duas vezes, agora com mais um argumento, de que as crianças passavam da hora de comer. Ela achava um desperdício de tempo e combustível o pai levar e buscá-la na universidade todos os dias; sempre dizia que poderia fazer o percurso de ônibus.

Depois de uma detalhada argumentação, Cecília perguntou:

− A partir de segunda-feira posso ir e vir de ônibus?

− Tá bom! Já sei que se não deixar, fica falando sempre nisso, mas vai ver como será difícil. O ônibus não fica esperando, é você quem espera − respondeu Justino.

No final da tarde de uma terça-feira, Cecília, como em todos os dias, fazia a tarefa com os irmãos em fase de alfabetização, depois de ter atendido três ou quatro crianças a quem sempre dava aulas de reforço. Foi assim que ela começou a praticar sua profissão docente.

−Vem logo, Lucas, o João já está quase terminando a tarefa dele. Estou te esperando.

− Já vou. Deixa só eu terminar de guardar meu trenzinho.

− Vou te dar cinco minutos, se não chegar por aqui, vou falar para a mãe. Ainda preciso estudar, porque tenho prova amanhã − disse Cecília.

Antes dos cinco minutos, Lucas chegou, dizendo:

− Tá bom sua chatinha, já cheguei. Você faz muita prova, ainda bem que na minha escola só vai ter prova no final do ano, é de leitura, mas eu já sei ler.

− Vamos ver se sabe mesmo! Senta aqui perto de mim, espertinho.

Depois da tarefa feita e da leitura realizada, Lucas surpreendeu Cecília ao beijá-la no rosto, declarando:

− Eu amo essa irmã! Vamos fazer uma merendinha?

− Vamos sim, também estou com fome − disse Cecília.

Foram para a cozinha, onde logo chegou também o João. Fazer uma merendinha funcionava assim: Cecília pegava uma panela e nela colocava sobras do almoço, fritava uns dois ovos e juntava tudo. Depois os três sentavam no chão da varanda, com a panela no meio deles, quando com as colheres dividiam a comida em três partes iguais, para depois começarem a comer. Parecia muito bom!

Cecília recorda-se dessas coisas no trajeto feito de ônibus para a universidade. Logo percebeu que seu pai tinha razão, mas a liberdade de ir e vir, além do maior convívio com colegas de faculdade, compensava a espera do ônibus e o desconforto quando nele, de tão cheio, não havia lugar para sentar ou segurar-se. Foi nesse período que ficou muito amiga de Auxiliadora, uma de suas colegas de turma, alta, magra e elegante, e sempre uma boa amiga, sempre franca e pronta a conversar ou estudar junto.

− Cecília, o pessoal do curso de Educação Física tá organizando um passeio de barco pelo Rio Madeira no final da semana. Vamos? − perguntou Auxiliadora.

− Vamos, sim, ainda mais que já percebi o interesse mútuo que existe entre você e aquele rapaz da Educação Física.

Num sábado de sol, todos muito animados fizeram o tal passeio. Num total de 18 pessoas, além do barqueiro, foram até uma das praias de areias brancas do rio e lá passaram o dia conversando, tomando banho e comendo o lanche que todos haviam levado para compartilhar; retornando apenas ao final da tarde, já com o pôr do sol. Maravilhoso pôr do sol, que muitos iam observar da Praça Madeira-Mamoré, à margem do Rio Madeira.

 

Cenário – escola: formação docente e outros

cursos

No terceiro encontro realizado, novamente na sala dos professores, e com novos integrantes, Cecília começou contando sobre uma pesquisa que fez na direção e na secretaria do Ceeja Padre Moretti. Entre muitos documentos: Regimento Escolar, Planejamentos, Atas de Reuniões, Memorial Descritivo da Instituição e registros dos cursos já realizados.

O Ceeja Padre Moretti iniciou suas atividades no prédio do então Governo Federal, localizado à Avenida Rogério Weber esquina com Avenida Presidente Dutra, onde oferecia cursos de Suplência de Educação Geral em nível de 1º e 2º graus (Modular, com sistema audiovisual de apoio), Exames de Educação Geral em nível de 1º e 2º graus, Exames Profissionalizantes de 2º grau e o Curso Profissionalizante para o Magistério (Logos II).

Cecília também contou sobre alguns registros localizados, inclusive dos projetos de formação de professores, que aconteceram na instituição:

− Os Exames de Educação Geral em nível de 1º e 2º graus correspondiam ao Ensino Fundamental e Médio. Os Exames Profissionalizantes de 2º grau conferiam a certificação, após aprovação nas avaliações que eram realizadas a partir do material disponibilizado para estudo. O Logos II conferia certificação em nível de magistério para professores leigos que atuavam na rede pública de ensino.

O Ceeja, entre o final da década de 1970 e início de 1980, atuou na educação de adultos, por meio de cursos supletivos e também na formação de professores − naquele prédio do centro − e apenas a partir de 24 de dezembro de 1984, passou a funcionar em seu prédio próprio, aqui onde estamos − com considerável melhora no ambiente físico.

− Alguém conheceu o antigo prédio onde funcionou esta escola? − perguntou Cecília.

Everaldo, egresso do Ceeja com 44 anos, vendedor numa loja de eletrônicos, havia estudado no Ceeja em 1983 e em 1995, e já foi dizendo:

− Eu estudei um tempo no centro.

− O que pode contar da estrutura física de lá? – perguntou Cecília.

− Quando era no centro da cidade, as salas eram muito pequenas, muito calor. Aí quando passou para este prédio, aqui na Herbert de Azevedo, já tinha ar-condicionado, e Porto Velho é muito quente, eu sofri muito porque eu vim de São Paulo.

Estava presente também o professor Francisco Ilson (53 anos), que possui licenciatura plena em matemática, obtida em 1984 na Universidade Federal de Campina Grande, e que lecionou matemática durante dezoito anos, sendo treze deles no Ceeja Padre Moretti, entre 1990 e 2002. Atualmente trabalha como Técnico Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho (TRT).

Cecília continuou:

− O ambiente físico melhorou. E o grupo de trabalho, como era?

Dessa vez, o professor Francisco Ilson, respondeu:

− Não só os professores de matemática, mas todos os professores formavam uma boa equipe, era uma equipe comprometida. Todas as pessoas, tanto no modular como no seriado ou no telecurso, e mais outros projetos que nós tínhamos aqui, como o Logos II.

Cecília, retomando a fala, comentou:

− Nos arquivos também encontrei informações sobre o início da década de 1990, quando a instituição atendia cerca de 2.800 alunos nos cursos de suplência de Ensino Fundamental e 1.700 no Ensino Médio, portanto uma média de 4.500 alunos, e tinha como professores e funcionários 91 servidores, atendendo aos cursos e exames de suplência, alfabetização, formação de professores e banco de questões.

Ao longo da década de 1990, a instituição, por certas contingências, incluindo problemas de gestão, foi perdendo campo de atuação, até que, em 1996, a convite da Seduc, Zenaida aceitou o desafio de tornar-se diretora da instituição, pondo-se a trabalhar com o objeto de ampliar e dinamizar o atendimento realizado na escola, sempre atenta às demandas locais e buscando parcerias para realizar o que se propôs.

Zenaida contou:

− Na época tinha só o modular e a educação de 1ª a 4ª série, denominada SEB, e a gente foi convidada para implantar o seriado. Também quando vimos a necessidade e a procura − implantamos o Telecurso − pela necessidade de dar oportunidade àqueles que tinham mais dificuldade de permanecer mais tempo na escola.

Para Zenaida, em função da defasagem de faixa etária dos alunos, o Curso Seriado seria o ideal, porque não era admissível ficar no Padre Moretti apenas assinando documentos dos cursos realizados nas escolas que estavam trabalhando com o Supletivo Seriado. Isso acontecia, pois o Ceeja era a única instituição do Estado autorizada a assinar os certificados dos alunos.

− Aqui tinha que ser a sede piloto do projeto, porque era curso de suplência, então enfrentei o desafio e lutei muito, com muitas pessoas não aceitando colocar aluno aqui dentro. “Diziam” que iria tirar toda a característica da escola, porque colocaria alunos aqui e não era para colocar alunos. Não vendo daquele jeito, considerava uma escola, então enfrentei e coloquei o Seriado, e para mim, naquela época, foi muito satisfatório.

O Curso Supletivo Seriado atendeu ao Ensino Fundamental e Médio no Ceeja Padre Moretti, com quatro aulas diárias, durante cinco dias por semana, totalizando 18 semanas por semestre letivo, o que correspondia a uma série. Assim, os alunos poderiam cursar uma série a cada semestre. O Supletivo Seriado teve sua matriz curricular aprovada pelo Parecer 103/CEE/RO de 1995.

Cecília então lembrou:

− Também foi criado o Exame de Circulação de Estudos, 2 pela Seduc, quando os alunos, incluindo os de outras escolas, faziam as provas para poder eliminar uma ou mais disciplinas e prosseguir os estudos sem repetir o ano letivo. Na escola em que eu trabalhava, o exame fez muito sucesso, e muitos alunos solicitaram o encaminhamento, indicando o ano escolar e o(s) componente(s) curricular(es) em que ficaram retidos, uma vez que a apresentação do referido documento era condição para a realização do exame.

− Zenaida, qual a sua opinião sobre isto? – perguntou Cecília. − Eram testes para os alunos reprovados em alguma disciplina, que vinham até o Padre Moretti e faziam aquelas provas no começo do ano. Na minha visão, seria mais uma oportunidade para o aluno estudar, porque de repente quando chega o final do ano, e o aluno sente que vai ser reprovado, isso mexe com ele, ele sente; então é levado a estudar. E por que não estudar e conseguir? Ter mais uma oportunidade?

Cecília comentou:

− Realmente, quanto mais conheço a história da atuação do Ceeja e das pessoas que passaram por ele, mais me convenço de sua importância para a educação em Rondônia. Ainda me lembro de duas professoras, amigas da minha família lá do Paraná, que na década de 1980 se hospedavam em nossa casa quando vinham fazer o Logos II aqui. Simone e Jaqueline, que eram professoras lá

de Itapuã do Oeste.3 Alguém teria mais recordações sobre os cursos de formação de professores?

A orientadora Terezinha lembrou:

− Um curso que me encantava muito, que eu vivenciei muitos momentos de oficinas, acompanhando, o Logos II, que era a formação de professores que atuavam na área de magistério, mas que não tinham uma certificação, aí eles vinham buscar essa certificação, que na época era correspondente ao magistério, só que era no sistema de módulos. Eram muito fortes os momentos de oficina, aquele momento de formação e eu sempre gostei muito de acompanhar esse trabalho.

Complementando, a professora Elisabete disse:

− Além do Logos II, aqui no Padre Moretti também funcionaram outros cursos de formação de professores, como Fênix e Proformação, até a Universidade Federal do Pará, antes de existir a Universidade Federal de Rondônia, funcionou no Padre Moretti, inclusive quando assumimos a vice-direção, ainda existiam documentos daquela época arquivados na escola, mas depois de muito insistirmos, a Unir aceitou receber essa documentação.

Lembro que os cursos Fênix e Proformação foram semelhantes ao Logos II, mas foram realizados posteriormente.

− Nossa, Elisabete! Essa informação de que aqui funcionou até curso universitário é muito interessante, assim como a diversidade de formação que aqui ocorreu − comentou Cecília.

Ao que Elisabete continuou:

− A escola foi muito importante para o Estado. E deixar um centro educacional que atendia o Estado todo se acabar dessa forma... Um local onde começaram a funcionar os primeiros cursos universitários do Estado, onde foi formada muita gente para o magistério, certificados para cursos técnicos também. O lógico seria que os cursos técnicos fossem ampliados, que fossem sendo criadas novas modalidades para atender a sociedade, principalmente para os alunos que não tinham perspectiva, pois, além do Ensino Médio, precisavam de algo mais imediato para poder trabalhar.

A Terezinha também comentou detalhes sobre o funcionamento do Ceeja Padre Moretti:

− O ambiente de trabalho aqui é muito bom, já foi melhor até no sentido de instalações, mas no sentido de corpo docente, é bom ainda, são pessoas que já trabalham aqui há algum tempo, que já conhecem a realidade; outros estão chegando, mas sempre trazem

uma motivação porque gostam da Andragogia.4 Vejo que hoje ainda é um ambiente muito bom para se trabalhar, mas as dificuldades de instalação estão gritantes. Não tem nada, porque na outra época

que trabalhei, nós tínhamos uma associação, a Apames,5 que mantinha, custeava essa questão de limpeza de todas as instalações, de ar-condicionado, de limpeza do prédio, então era diferente, porque hoje ele [Ceeja] é mantido pela Seduc e aí para algumas coisas não tem verba. Acho que é mais difícil hoje.

Zenaida, retomando a fala, contou sobre como conseguiu a participação dos professores para desenvolver o trabalho proposto, que envolvia estudos pedagógicos, implantação do Supletivo Seriado e ampliação do atendimento à comunidade escolar, no período em que foi diretora.

− Houve muita discussão em cima disso, nós trabalhamos com muitas reuniões pedagógicas, com pessoas do Fórum [de EJA], tivemos oportunidade, conseguimos pessoas que conhecíamos − de gabarito profissional. E trazê-las aqui para dentro levou realmente a uma adesão bem significativa.

Cecília então perguntou à Zenaida:

− Você acha que assim melhorou o ambiente de trabalho?

− É, porque quando entrei aqui, existia um problema, queriam tirar a direção que estava. Tive que mostrar o meu trabalho e caminhar em cima da estrutura didático-pedagógica. Eu acho que produzi com o apoio da maioria, porque sem apoio não se consegue fazer nada em escola, por menor que ela seja. Então, fiz o meu papel de mostrar o porquê da necessidade de mudar, tanto que com pouco tempo consegui até melhorar o espaço físico, consegui ampliar o espaço, até pelas necessidades que foram colocadas, foi colocado um número expressivo de alunos no Supletivo Seriado, sempre respeitando a modalidade de cada curso, nas suas características, nas suas necessidades.

− Como foi organizado o funcionamento dos cursos no Ceeja enquanto esteve à frente da direção da escola? − perguntou Cecília.

− O Seriado funcionava manhã, tarde e noite, e o modular, das 7h até as 22h. Os outros cursos também, porque o Telecurso 2000 foi um curso muito bom também, e eu via no Telecurso 2000 a questão metodológica. Então, colocar um professor lá que estava ali trabalhando no modular, que na verdade você tem tudo pronto ali, resposta pronta, você vai pesquisar com um material de mais de vinte anos, que o professor sabia de cor e salteado, não precisava estudar; daí colocá-lo num curso novo, com metodologia renovada. Para mim, aquilo dali estava investindo em quem? No professor, no trabalho dele.

Zenaida ainda continuou contando como investiu para uma mudança de postura dos docentes. Não posso deixar de registrar que ela foi bem determinada para alcançar seus objetivos.

− Isso era muito importante e foi conseguido em muitos encontros. Por várias vezes reuni os professores, convidei professores de toda a capital para explicar o que era o supletivo, o que era o modular, porque as críticas na escola eram ouvidas, e às vezes não tem um fundamento para quem está discutindo, condenando, criticando, e a gente conseguiu fazer várias reuniões com professores da capital. Zenaida, o que te manteve motivada para o trabalho? – indagou Cecília.

− Após vários encontros pedagógicos, o que mais me tocou foi sentir que o professor entendia qual era a finalidade daqueles momentos, de reuniões e encontros pedagógicos, sentir realmente que o professor começava a trabalhar com outra visão do que estava fazendo. Isso foi visto aqui e em outras escolas que estavam trabalhando com o supletivo. Agora tem sempre os impasses, mas quando se consegue uma maioria, isso é enfrentado com tranquilidade. Então, acho que a mudança projetada em cima das reuniões e dos encontros, dos trabalhos feitos em escolas, foi o que mais marcou aqui dentro da escola, apesar de ter sido um tempo muito curto.

Cecília questionou:

− Foram três anos de trabalho bem intenso, não?

− Muito grande, porque pessoas que eram avessas às mudanças, eram sempre protegidas por políticos, e as interferências eram muito grandes. Enfrentava cada situação, que chegava em minha casa, colocava a cabeça no travesseiro e não tinha como dormir direito, mas enfrentei, graças a Deus.

Cecília então comentou:

− Estou bem animada com a forma como vocês têm se posicionado, principalmente porque tem permitido uma interpretação dos eventos ocorridos neste espaço social, que “me engloba como um ponto. Mas esse ponto é um ponto de vista, princípio de uma visão assumida a partir de um ponto situado no espaço social, de uma perspectiva definida em sua forma e em seu conteúdo pela posição objetiva a partir da qual é assumida;” melhor dizendo “o espaço social é a realidade primeira e última, já que comanda até as representações que os agentes sociais podem ter dele” (Bourdieu, 2008, p.27). E é daí que decorre a importância dos relatos de vocês sobre tal espaço social, com suas experiências e percepções.

− Por hoje nosso tempo está acabando. Que tal marcar nosso próximo encontro para daqui a duas semanas, na segunda-feira?

Combinaram a data e passaram ao lanche, dessa vez, bolachas caseiras, o tradicional café e um suco de cupuaçu, muito apreciado na região.

Despediram-se e cada qual voltou ao tempo presente e aos seus afazeres, como de costume.

 

Cenário – família: prosperidade e custos

− Pai, para onde a gente vai amanhã? − perguntou Felipe.

A família já estava acostumada a fazer passeios no domingo, sempre em lugares onde houvesse rios, eram sítios de amigos ou o próprio sítio da família.

− O Herculano chamou a gente para ir ao sítio dele amanhã.

Herculano era um senhor por volta dos 60 anos, cujos três filhos faziam faculdade fora do Estado, pois em Rondônia ainda não existia universidade. Era comerciante, comprava e vendia carros usados. Tornou-se amigo de Justino, que agora também trabalhava com comércio de tapetes, almofadas, cortinas e outras coisas do gênero, pois precisou deixar de ser caminhoneiro depois de um grave acidente, em que quebrou o braço direito.

Às vezes Justino ainda se lembrava da vida de caminhoneiro, mas logo dizia:

− Estamos melhor agora com o comércio, já temos nossa casa própria e o terreno para construir a tapeçaria. Temos uma vida melhor!

− Sem dúvida, é melhor, Justino, pois agora pode ficar perto de sua família e dar melhor condição de vida a seus filhos − disse Herculano.

− Verdade − comentou Justino. – E agora, com o aumento do garimpo de ouro, tem muita gente chegando a Rondônia, principalmente vindo do Sul e Sudeste, e a maior parte da população está ficando em Porto Velho e nos povoados próximos; melhorando o comércio, mas também criando mais problemas, como falta de esgoto, água e luz, de saneamento básico em geral.

Outro problema foi

a falta de recursos humanos preparados para os trabalhos de

estruturação para o novo Estado, o que levou o governo a

tomar medidas improvisadas [...], pois havia uma preocupação

que justificava o aceleramento dos trabalhos: eram as eleições

gerais de 1982. Se o Estado não fosse criado a tempo, não

participaria delas, permanecendo com governador nomeado e

sem assembleia legislativa para legislar – daí a corrida contra o

tempo. (Silva, 2000, p.138)

Assim, os registros históricos indicam que o improviso se fazia presente desde a implantação do Estado. Em 1981, o presidente João Batista Figueiredo encaminhou o projeto de criação do Estado ao Congresso Nacional, e nesse mesmo ano, em 22 de dezembro, foi aprovada a Lei Complementar nº 41, criando o estado de Rondônia.

− É Justino, agora somos um Estado, e esse reconhecimento deve trazer mais desenvolvimento para nossa região, também vão aprender a nos respeitar mais − disse Herculano.

− Pode ser, Herculano. Acho bom mesmo, pois estamos criando nossos filhos aqui, e francamente não pretendo deixar mais esse lugar, que tem me dado tantas oportunidades.

A euforia presente na “festa pela instalação do Estado de

Rondônia”6 era condizente com o momento econômico, em virtude da extração mineral em alta na região. Inclusive, em meados da década de 1980, o ouro extraído do Rio Madeira, junto com a cassiterita (minério de estanho), foram os principais produtos de Rondônia, atraindo migrantes, garimpeiros e muitas famílias de todo o Brasil. Com esse processo migratório acontecendo, Rondônia, que em 1982 dividia-se em apenas 13 municípios, a partir de 1988 passou a ser dividido em 52 municípios.

Logo começaram os preparativos para o passeio dominical.

Felipe tratou logo de contar para todos os irmãos, pois lá havia um rio bem bonito, que tinha até trampolim, no qual passavam o dia todo, pulando na água.

− Justino, se vamos para o sítio do Herculano, precisamos ir ao mercado e comprar umas coisas. Vou fazer um bolo e um pudim para levar − determinou Helena.

No dia seguinte, por volta das 9h, todos se arrumavam no carro para a viagem, que durava cerca de uma hora − por uma estrada de chão batido, sombreada por grandes árvores a sua margem, onde se podiam avistar alguns animais silvestres.

No final da tarde, no caminho de volta para casa, Helena comentou: − Fomos tão bem recebidos, que casal educado! O Herculano não sabia mais o que fazer para agradar, e a Lúcia ficou o tempo todo oferecendo mais alguma coisa para comer, e deram tanta atenção às crianças.

Justino então explicou:

− Ele me disse que sentem muita falta dos filhos, por isso gostam de encher a casa no domingo, para diminuir um pouco a saudade. Além disso, adoram crianças e estão loucos para serem avós. Ainda bem, porque com esse monte que a gente tem, não podemos ir a lugar onde se incomodem com crianças.

No início daquela mesma noite, Jaqueline e Simone chegaram à casa da família para o compromisso mensal que tinham em Porto Velho. Como ficavam acomodadas em colchões no quarto de Cecília, volta e meia ela testemunhava algumas conversas das duas sobre o curso que faziam.

− Jaqueline, a gente tem que aproveitar a chance de estudar, concluir esse Logos II para garantir nosso emprego. Não vá desanimar agora!

Simone tentava convencer Jaqueline sobre a importância de fazer o curso, pois no lugarejo onde moravam, a 110 quilômetros de Porto Velho, as duas eram professoras numa escola rural, e como poucas pessoas possuíam sequer o Ensino Fundamental, elas foram convidadas a lecionar. Mas já estávamos no início da década de 1980 e não seria mais possível continuar como professoras, caso não tivessem a formação mínima – o curso de Magistério – para exercer a profissão.

A LDB 5692 foi promulgada em 11 de agosto de 1971, e em seu capítulo V, ao tratar da formação de professores, antes realizada em escolas normais, orienta uma habilitação profissional no ensino de 2º grau – formando o professor para atuar de 1ª a 4ª séries –, e fazendo um ano adicional de estudos específicos, poderia ser professor até a 6ª série. Embora a legislação já preconizasse uma formação mínima para exercer a docência, em muitos lugares, a exemplo de Rondônia, os professores leigos permaneceram sendo contratados, pela ausência de profissionais licenciados. Dessa forma também acontecia em outras partes do Brasil, somando, em 1972, aproximadamente 150 mil professores leigos atuando de 1ª a 4ª séries no então 1º grau, fato diagnosticado pelo Departamento de Ensino Supletivo do Ministério da Educação e Cultura (DSU/MEC), mas outras fontes de pesquisa chegavam a divulgar o dobro desse número. Nesse contexto o Projeto Logos II foi iniciado nos estados da Paraíba, Paraná, Piauí e Rio Grande do Norte, e também no Território Federal de Rondônia, ainda na década de 1970.

A partir de 1983 o Logos II passou a ter amparo legal também no âmbito de Rondônia com a Resolução 002/CEE/RO/83, Portaria 0583/Seduc/RO/88 e Instrução Normativa 002/Desu/ Seduc/RO/89. O Curso programado para 30 meses de duração tinha como público-alvo professores em efetivo exercício do magistério na rede estadual, municipal ou particular, da zona rural, desde que não tivessem feito curso superior ou fossem matriculados em alguma faculdade.

− Tá bom, Simone, também não tem outro jeito. É estudar ou perder o emprego, então vou estudar, mas acho uma perda de tempo, porque com o que eu sei, dou bem conta de ensinar aquela meninada lá da roça.

Simone, casada e mãe de três filhas, e sua prima Jaqueline, também casada e mãe de um menino e uma menina, moravam no interior do Paraná, próximo ao sítio da família de Cecília. As duas famílias também fizeram a travessia do Paraná a Rondônia em busca de oportunidades de uma vida melhor, mas quando saíram de seu estado natal, sequer imaginavam que se tornariam professoras.

Fico tão animado pelo Ceeja também ter sido um espaço onde se investiu na formação dos professores leigos, afinal não deixavam de ser trabalhadores da educação, apenas sem a devida formação escolar, como tantos jovens e adultos.

A lembrança mais forte de Cecília é de quando Simone e Jaqueline foram receber o diploma do curso, muito animadas, e Jaqueline, suspirando, dizia:

− Graças a Deus acabamos o curso! Mas sabe que vou sentir falta, acabei aprendendo muita coisa, nem pensei que seria tão bom, e as viagens para cá também foram muito boas, a gente sempre encontrava outras pessoas aqui em Porto Velho, que contavam suas experiências, sem falar que ainda podíamos passear um pouco pela cidade. Vou sentir falta desse movimento todo!

Simone e Jaqueline representam bem a situação da educação em Rondônia naquele período, com muitos professores leigos e uma necessidade urgente – a formação dessas pessoas que já atuavam na docência. Como alternativa viável, foram realizados programas de formação docente em serviço, e alguns deles − como já disse − sediados no Ceeja Padre Moretti, a exemplo do Logos II.

 

1 Unir – Universidade Federal de Rondônia, que foi criada pela Lei de nº 7.011 de 8 de julho de 1982 (Fonte:

<https://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_Federal_de_Rond%C3%

B4nia>. Acesso em: 14 dez. 2013).

2 Exame de Circulação de Estudos: nível de conclusão do Ensino Fundamental ou Médio, mediante o aproveitamento de estudos concluídos com êxito é oferecido aos alunos matriculados na rede pública ou privada de ensino, retidos no último ano Ensino Fundamental ou Médio. Para a realização do exame, exige-se que o aluno tenha 15 anos, no caso do Ensino Fundamental e 18 anos para o exame do Ensino Médio (Resolução n.106/CEE/RO/1997).

3 Município de Rondônia localizado a 110 quilômetros de Porto Velho, à margem da BR-364.

4 Andragogia é a arte ou ciência de orientar adultos a aprender, segundo a definição creditada a Malcolm Knowles, na década de 1970.

5 Apames – Associação de Pais e Mestres.

6 Jornal Alto Madeira, 5 jan. 1982.