Travessias de Cecília: educação matemática em Rondônia

10 - Educação Matemática: evidências e lacunas

10 – Educação Matemática:

evidências e lacunas

 

Voltando a mim: o que escreverei não pode ser absorvido por

mentes que muito exijam e ávidas de requintes. Pois o que

estarei dizendo será apenas nu [...] Transgredir, porém, os

meus próprios limites me fascinou de repente. E foi quando

pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me

ultrapassa. Qualquer que seja o que quer dizer “realidade”.

Clarice Lispector, A hora da estrela.

 

Cenário – formação: escola e história da

pesquisa

Na tarde da segunda-feira combinada, Cecília e Marília se encontraram novamente na sala dos professores. Conversaram alegremente, contando sobre a semana que se passou.

Logo Marília disse:

− Cecília, ainda lembro com saudades daqueles nossos encontros de formação e planejamento, além disso, adorava as comemorações dos aniversariantes. Era tanta comida gostosa e conversas tão divertidas. Sinto falta, sabia?

Cecília, então comentou:

− Eu também sinto muita falta, e sabe o que é pior, nunca mais encontrei outro grupo como aquele, e também não consegui mais fazer aquele tipo de trabalho, mas tenho planos para organizar um projeto de extensão que se constitua como um grupo de formação de professores. Já pensei até no título: Educação Matemática na EJA. Acredito que o “educador precisa estar envolvido em projetos que se configurem como espaços de reflexão, como perspectivas que precisam ser favorecidas profissionalmente. É por esses programas que temos que lutar. Temos que buscar a inserção da matemática nesses espaços” (Carvalho; Franco, 2002, p.28).

Marília se apressou em dizer:

− Quero fazer parte desse grupo. Faço questão! Posso?

− Claro que pode − respondeu Cecília.

Nesse momento Cecília se lembrou da falta de habilidade que tinha com a matemática na infância. Era a 4ª série (hoje, 5º ano do Ensino Fundamental). A professora ensinava expressões numéricas e Cecília, de olhos bem abertos, mas era como se nada visse, pois não entendia do que falava a professora, e enquanto ela perguntava, vinha prontamente um coro em resposta, por parte da maioria dos alunos. Essa era a pior hora, ela se sentia tão inferior, pensava que era menos inteligente que os outros. Devia ter algum problema! Assim, lhe restava apagar seus erros e copiar a resposta certa.

− Marília, uma das motivações que tenho em realizar uma pesquisa em Educação Matemática é aprender para, num futuro próximo, poder contribuir – a partir da formação de professores – para a realização de aulas que melhor favoreçam a aprendizagem dos alunos, que eles possam manifestar suas dúvidas e participar efetivamente.

Marília comentou:

− Vejo que todas as iniciativas de formação de professores são bem-vindas, ainda mais na nossa região, onde até pouco tempo havia muitos professores leigos.

Essa fala da Marília me fez lembrar que em Rondônia como um todo, por decorrência do alto índice de professores leigos, atuando sem a habilitação mínima exigida, algumas alternativas de formação docente foram implementadas. Em 2000 foi criado pela Unir, em parceria com a Fundação Rio Madeira (Riomar) − instituição de apoio a Unir −, o Programa de Formação de Professores Leigos (Prohacap), para possibilitar aos professores leigos da rede pública estadual e municipal de ensino o acesso a cursos de licenciatura, iniciativa com o objetivo de atender às diretrizes da LDB nº 9394/96 e Lei nº 9424/96 do Fundo Nacional de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef), que permitia investimentos na capacitação de professores.

− Marília, se lembra do Prohacap? − indagou Cecília.

− Lembro sim, foi quando vários professores aqui da escola fizeram suas licenciaturas.

O Prohacap destinou-se à formação de professores em nível superior nas áreas de Pedagogia, Letras, Geografia, História, Matemática e Educação Física, sendo realizado simultaneamente com a prática docente, acontecendo de forma parcelada nos períodos de férias escolares. Atualmente, em Rondônia, estão em desenvolvimento cursos de licenciatura para professores leigos ou que atuam em áreas diferentes de sua formação em escolas públicas. As licenciaturas, dentre elas matemática, são de iniciativa do Programa de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) em parceria com a Universidade Federal de Rondônia, sendo que nessa proposta os professores, com o apoio das Secretarias de Educação, assistem às aulas por quatro dias consecutivos ao mês.

Cecília comentou:

− Agora tem o Parfor, que é um programa nacional implantado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em regime de colaboração com as Secretarias de Educação dos Estados e Municípios e com as Instituições de Ensino Superior (IES), que tem como objetivo “garantir que os professores, em exercício na rede pública de educação básica, obtenham a formação exigida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), por meio da implantação de turmas especiais,

exclusivas para os professores em exercício”. 1

− É uma proposta interessante, e uma oportunidade dos professores estudarem – lembrou Marília.

Cecília, logo disse:

− Por falar em estudar, estou estudando bastante, inclusive entendendo melhor a EJA e a Educação Matemática, por meio da pesquisa de doutorado em andamento.

− Estou tão curiosa, me conta como está fazendo – pediu Marília.

Depois desse pedido, Cecília, é claro, desatou a falar:

− Entrevistei quatro egressos e seis professores que já trabalharam no Ceeja. Os relatos estão sendo transformados em diálogos fictícios entre esta pesquisadora e os entrevistados, tendo o apoio de um narrador − o Padre Moretti.

Continuando, Cecília explicou mais sobre a pesquisa:

− Com os diálogos que trouxeram as percepções sobre a EJA e a Educação Matemática − histórias já vivenciadas na instituição, e também com os jornais localizados na Biblioteca Pública Municipal

Francisco Meirelles, 2 com as pesquisas feitas nos arquivos do Ceeja, do Conselho Estadual de Educação de Rondônia (CEE/ RO) e da Secretaria Estadual de Educação de Rondônia (Seduc/ RO), foi acontecendo um primeiro vislumbre da história da Instituição Escolar, lembrando que

o passado é, portanto, uma dimensão permanente da

consciência humana, um componente inevitável das

instituições, valores e outros padrões da sociedade humana, e,

além disso, que [...] o passado continua a ser a ferramenta

analítica mais útil para lidar com a mudança constante, mas em

uma nova forma. (Hobsbawn, 2010, p.22 e 30)

E para concluir, Cecília disse:

− Na ânsia de tecer este texto, também a partir do dito nas entrevistas, entendi que seria interessante colocar os dez entrevistados para dialogarem, e, mesmo sendo conversas fictícias, pois não aconteceram de fato, “[...] é claro que a história é verdadeira, embora inventada” (Lispector, 1998, p.12). Além de colocar os entrevistados para dialogarem, decidi, com a ajuda de um narrador (Padre Moretti) construir diálogos de personagens que representam um pouco da minha história, da história de Rondônia e da formação de professores nesse espaço.

− Então, o que acha? – indagou Cecília.

− Nossa, é muito interessante, tão diferente!

− Isso mesmo, eu queria fazer algo diferente, criar um diálogo envolvendo as narrativas, inclusive para preservar essa prática, uma vez que “a arte de narrar reveste-se hoje de raridade” (Benjamin, 1975, p.67). Parece-me que “a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. Quando se pede num grupo que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que os parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências” (Benjamin, 2012, p.197).

− Mas porque escolheu o Ceeja Padre Moretti? – perguntou Marília.

− Você sabe que sempre trabalhei com a EJA, e não escondo minha predileção por essa modalidade de ensino – disse Cecília, que continuou:

− Apesar da importância dessa escola em Rondônia, não há notícia de pesquisas que abordem sua atuação no cenário educacional do Estado, e dada a amplitude de campos de atuação da instituição, assim como a necessidade de serem estudadas as ações em EJA, fiz opção por essa pesquisa. Então, considerando o período de 1977 a 2012, estou investigando como se delineou o cenário da Educação Matemática no Ceeja Padre Moretti.

Marília ainda queria saber mais, por isso perguntou:

− Por que esse período?

− O Ceeja foi criado em 1977 e a pesquisa de campo foi levada a efeito em 2012. Pensei que para analisar tal cenário seria necessário esse período – para levantar dados históricos sobre a criação e implantação da instituição de ensino, além de buscar perceber quais as propostas curriculares e materiais pedagógicos foram utilizados e quais as principais dificuldades em relação à prática pedagógica desenvolvida nas aulas de matemática para jovens e adultos.

− Gostei da concepção da sua pesquisa, mas o que mais gostei foi do estilo de escrita que escolheu – comentou Marília.

− Também estou gostando muito de escrever assim, mas não tive essa ideia sozinha. No início de 2012, fui à “Festa da Batata” − em Piracicaba −, com minha orientadora, a Sofia. Entre batatas e uma conversa descontraída, comecei a falar sobre meu texto, dizendo o quanto estava insatisfeita com o formato, do que gostaria de acrescentar; quando ela, revestida de sua habitual perspicácia, me disse que poderia ser um romance.

Foi assim que entre tentativas, erros e acertos, Cecília chegou ao estilo do texto − polifônico − por “uma multiplicidade de vozes” (Bakhtin, 2011, p.39) que se mostram.

A essência da polifonia consiste justamente no fato de que as

vozes, aqui, permanecem independentes e, como tais,

combinam-se numa unidade de ordem superior a da homofonia.

E se falarmos de vontade individual, então é precisamente na

polifonia que ocorre a combinação de várias vontades

individuais [...] Poder-se-ia dizer assim: a vontade artística da

polifonia é a vontade de combinação de muitas vontades, a

vontade do acontecimento. (Bakhtin, 2011, p.10)

Assim, este é um texto polifônico que não se esgota no discurso literário ou não ficcional, por trazer experiências da autora, aqui representada por Cecília, e das demais personagens, além das experiências deste narrador, incitando o leitor a uma reflexão. Conta das travessias de Cecília transitando pelas discussões dos cenários − travessias baseadas em fatos. E foi isso que ela fez, mergulhou na história pesquisada e na história de sua vida, apresentando experiências (vontades das personagens).

− O texto vem sendo escrito numa abordagem polifônica, em que o autor, ainda que presente configura-se como “[...] regente do grande coro de vozes que participam do processo dialógico. Mas esse regente é dotado de um ativismo especial, rege vozes que ele cria ou recria, mas deixa que se manifestem com autonomia” (Bezerra, 2008, p.194). Dessa forma de reger surgiram as duas formas de apresentar a tese, através da vontade do narrador − quando relata sua história e reflete sobre ela −, e das vontades das personagens a partir de suas falas em torno das travessias realizadas, com um enredo que destaca as dificuldades e as oportunidades, presentes nos momentos de mudanças na vida ou na educação – completou Cecília.

Assim, escrever é uma diversão, é um jogo... É contar a história, envolvendo personagens, no tempo e no espaço. Para mim, Cecília misturou história e drama, ao colocar no texto narrações e diálogos, pois nos diálogos estão presentes as ações diretas dos indivíduos. Também preciso lembrar que

não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites

para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem

limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do “passado”,

isto é, nascidos do diálogo dos séculos passados, podem

jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por

todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de − Isso mesmo, Marília, ela tem me ajudado muito, revirado minha cabeça, orientando leituras que instigam, e me levam a formular novas ideias, incluindo a percepção de que “a história necessita partir da aporia da verdade. Sem essa aporia seu jogo não começa. Precisamos de seu jogo. A questão está em saber que regras usaremos para o jogo de sua escrita” (Lima, 2006, p.62).

desenvolvimento subsequente, futuro do diálogo. Em qualquer

momento do desenvolvimento do diálogo existem massas

imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em

determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do

diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados em

forma renovada (em novo contexto). Não existe nada

absolutamente morto: cada sentido era sua festa de renovação.

Questão do grande tempo. (Bakhtin, 2011, p.410)

Parece-me que os sentidos são sempre renovados em função do tempo.

Cecília comentou:

− Não conseguiria chegar a essa escrita, não fossem as provocações acadêmicas da Sofia, dos colegas de doutorado e da banca de qualificação desta tese. “Sei que o olhar do outro sempre será diferente do meu, mas preciso dele para me enxergar diferente do que me vejo” (Bakhtin, 2011, p.410).

– Sua orientadora me parece muito esperta – disse Marília.

Cecília, aproveitando a oportunidade, tratou de descrever Sofia.

− Ela é muito esperta, ou melhor dizendo, preparada para o trabalho que faz, além disso, é artista na área de fotografia, estudiosa e disponível para os seus orientandos. Também é sensível, descontraída e original. Resumindo, uma pessoa com quem se aprende muito, e por quem desenvolvi um sentimento especial de carinho e amizade.

Depois dessa descrição, Marília comentou:

− Sabia que por trás de uma ideia tão original deveria haver a ajuda de alguém interessante. Agora já sei que teve ajuda, principalmente da Sofia.

− Foi por notar isso que se decidiu pela apresentação em forma de diálogos, numa abordagem polifônica? – indagou Marília.

− Isso mesmo, por perceber que “[...] ser significa comunicar-se pelo diálogo. Quando termina o diálogo, tudo termina. Daí o diálogo, em essência, não poder nem dever terminar [...] Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz, nada termina e nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida, o mínimo de existência” (Bakhtin, 2011, p.292-3).

Dialogando com as outras personagens, Cecília foi construindo o texto, contando suas descobertas, a partir das “fontes, que não são nem janelas escancaradas, como acreditam os positivistas, nem muros que obstruem a visão, como pensam os cépticos: no máximo poderíamos compará-las a espelhos deformantes” (Ginsburg, 2002, p.44). Discutindo os reflexos das “fontes históricas [...] que serviram para impulsionar a pesquisa” (Ginsburg, 2007, p.328), se tornou evidente que “a realidade pode ser entendida como um texto passível de ser lido” (Chartier, 1990); e, nesse caso, tal realidade social constituiu-se a partir dos significados que emergiram das relações entre os registros escritos e os relatos dos atores que participaram da construção do cenário de Educação Matemática no Ceeja Padre Moretti, assim como da discussão das fontes históricas sobre a EJA em Rondônia, tendo por pano de fundo a história da educação, dos processos de formação de professores e de colonização deste estado, o que foi possível em virtude da opção por uma investigação fundamentada na Nova História Cultural.

Entendo ainda que a proposta de escrita foi muito pertinente, uma vez que “os estudos literários devem estabelecer” um “vínculo mais estreito com a história da cultura. A literatura é parte inseparável da cultura, não pode ser entendida fora do contexto pleno de toda a cultura de uma época” (Bakhtin, 2011, p.360).

Marília continuava curiosa para saber mais detalhes sobre a tese, então pediu a Cecília que lhe contasse mais.

Assim foi feito, e Cecília explicou ser a personagem principal, com a história de uma travessia que é iniciada ainda na infância. Começa com uma viagem – do interior do Paraná à Rondônia –, depois se segue a trajetória de formação e de pesquisa, bem como suas relações familiares, de trabalho e parte das amizades. Concomitantemente, desenrola-se a história da Instituição – Ceeja Padre Moretti, com ênfase na Educação Matemática para EJA. E Cecília ainda acrescentou:

− Nessa trama, temos dois tipos de personagens, uns com nomes fictícios – destacados em itálico – e aqueles que foram sujeitos das entrevistas, cujos nomes não estão em itálico, pois autorizaram a publicação de seus nomes verdadeiros neste texto. Para contar essa história também conto com o apoio de um narrador onisciente − o Padre Moretti − que sabe sobre a minha história de vida, da EJA e da Educação Matemática presente no Ceeja.

− Me fala das entrevistas que fez – pediu Marília.

− As entrevistas foram realizadas com dez pessoas, individualmente, mas para tecer esse texto, as narrativas foram organizadas em temas, e a partir das falas, foram criadas as interações − diálogos − que possibilitaram a criação da trama. Foram entrevistados dois professores que atuaram e dois que ainda atuam no referido centro, uma ex-diretora, uma ex-professora do primeiro segmento da EJA, atualmente orientadora educacional, e quatro alunos egressos. Foram realizadas entrevistas parcialmente estruturadas, nas quais os dados que se pretendiam levantar foram expressos em “temas particularizados e as questões (abertas) preparadas antecipadamente. [...] Para cada tema [...] prepara-se uma pergunta a fim de começar a entrevista [...]” (Laville; Dionne, 1999, p.188-9), nesse caso, definidas em virtude dos objetivos da pesquisa.

Cecília também contou que fez pesquisas em materiais impressos:

− Encontrei materiais acerca da temática em estudo nos arquivos do Ceeja Padre Moretti, de jornais e bibliotecas do município, da Secretaria Estadual de Educação e do Conselho Estadual de Educação de Rondônia − buscando rastros históricos em contato com as fontes primárias. Lembro ainda que os documentos foram construídos no fazer histórico, pois, ao contrário do que pregava a história política, eles não estão prontos, mas a espera de serem decifrados pelo historiador.

É certo que depoimentos e entrevistas orais, documentos

escritos diversos, de caráter institucional ou privado, como leis,

currículos, programas, mas também [...] anotações de alunos e

professores, livros didáticos [...] dentre tantos outros materiais,

deverão ser localizados, obtidos, identificados, selecionados,

preparados, organizados, armazenados de modo a poderem

ser utilizados adequadamente na pesquisa histórica. Contudo,

não serão esses documentos que contarão a história! Quem

contará a história é o historiador, que tanto precisa se preparar

tecnicamente para lidar com a documentação, como precisa se

preparar teórica e metodologicamente para fazer escolhas

historiográficas. (Dias, 2012, p.317)

Acredito que a pesquisa de Cecília se harmoniza com a História Cultural, pois o ponto de vista sobre determinado fato sempre está condicionado ao tempo, aos métodos de investigação e à imagem da sociedade em determinado período. Por isso, a avaliação dos documentos e os diálogos levaram à realização de uma interpretação histórica, dentre as possíveis, a partir das fontes disponíveis. Nesse processo de produção de significados, o

sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa,

que tem várias zonas de estabilidade variada. O significado é

apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no

contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável,

uniforme e exata. (Vygotsky, 2001, p.465)

Sendo assim, o papel desta narrativa é permitir a construção de significados, a partir da relação dialógica presente no texto − em que a história é construída − com a linguagem/narrativas de memórias de seres históricos e sociais. Lembro, ainda, que “a verdadeira essência da memória humana (que a distingue dos animais) está no fato de os seres humanos serem capazes de lembrar, ativamente, com a ajuda de signos” (Vygotksky, 2001, p.58).

Depois do relato de Cecília, Marília disse:

− Defendo a necessidade permanente da pesquisa na vida docente, pois acredito na relação de interdependência que existe entre a pesquisa e o ensino, pois “[...] enquanto ensino, continuo buscando, procurando e reprocurando; ensino porque busco, porque primeiro indaguei e indagando me indago, por isso pesquiso; pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo, transformo, pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade” (Freire, 2009, p.26).

− Concordo com você Marília, e assim desejo continuar me constituindo como professora e pesquisadora. E ainda vamos conversar mais sobre esse assunto, mas agora preciso ir, vou à Biblioteca Francisco Meirelles. Estou digitalizando notícias de uns jornais antigos, são fontes primárias para a pesquisa. Também estou organizando tudo para viajar, pois vou passar dez meses em Rio Claro cumprindo o período de estágio doutoral na Unesp. Tenho uma proposta: Como logo vou para Rio Claro, vamos continuar nossas conversas online? perguntou Cecília.

− Claro que sim! − respondeu Marília.

Elas se despediram com um forte abraço. Depois dessa conversa entre elas, me convenci de que os grupos de formação docente em serviço podem ser importantes se reservarem espaços para a pesquisa, a discussão da prática docente cotidiana e o debate sobre as experiências do professor, além de estimular sua participação na vida da comunidade e em suas lutas por melhores condições de vida e de exercício da cidadania, por ser uma condição construída historicamente. Sendo assim, funcionam como uma trilha construída para melhorar a qualidade do fazer docente, tão necessária em todas as modalidades de ensino, incluindo a EJA.

 

Cenário – escola: presença da Educação

Matemática

Mais uma vez reunidos no pátio do Ceeja Padre Moretti, começaram uma nova conversa, em que estavam presentes os quatro professores e os quatro egressos. Cecília cumprimentou a todos e lançou uma questão para iniciar a discussão:

− Como se caracterizou o processo de aprendizagem na disciplina matemática?

Valesca foi a primeira a falar:

− Foi muito bom, só teve um módulo, o oito, que eu tive muita dificuldade, precisava ter um raciocínio melhor, foi o módulo que eu demorei e ainda cheguei a fazer três provas com ele. Precisei de uma orientação, além daquela aqui do Padre Moretti, com outro professor, porque eu não estava conseguindo entender, mas foi só esse módulo, os outros eu consegui melhor. Em matemática, o professor era muito dinâmico, bem brincalhão. As orientações eram bem descontraídas para que você pudesse ter a liberdade de tirar suas dúvidas, porque muitas pessoas tinham receio de vir tirar suas dúvidas e mostrar que não tinham entendido, estudando sozinhas. Eu aprendi, na época, que numa coleção de módulos, não sei se era do Ibep, que antes de realizar a prova, você fazia uma autoavaliação para poder fazer a prova.

− Isso já fazia parte do material? − perguntou Cecília.

− Sim, já fazia parte do material, então eu descobri que a avaliação que tinha dentro do módulo era a avaliação inicial que eles faziam para você fazer o módulo. Aí o professor descobriu que eu tinha descoberto, aí começou a pegar mais no meu pé, para saber se eu realmente tinha aprendido, ou se eu tinha só decorado aquela autoavaliação, antes de realizar a avaliação.

Então Jaime começou seu relato:

− Eu não sou bom de matemática. matemática e química são coisas parecidas, tem número, é puxado. No modular eu terminei só Português. Na verdade eu não estudava muito, era muita bagunça, mais no Seriado, foi por isso que saiu o Seriado daqui, porque era muita gente bagunçando. No Telensino foi melhor, eu estudei à noite. Ah! Uma coisa que aprendi e achei interessante foi que num evento, conforme a população, uma área quadrada que é... Não sei como explicar, mas eu lembro que o professor falou que pelo metro quadrado dá para ver a quantidade de pessoas. Eu achei legal essa parte aí. Calcular as pessoas pelos metros quadrados. Cabem quatro pessoas e tem que multiplicar esse quadrado com o tamanho do terreno.

− Everaldo, como foi sua aprendizagem em matemática? – indagou Cecília.

− O difícil é quando a gente não gosta da matéria, já dificulta. Meu problema é esse, não gostar de números. Por exemplo, eu gosto de português, inclusive eu ensino gramática para quem vai fazer vestibular. Na parte da matemática eu gostei de geometria, porque eu queria ser piloto de avião, aí precisa da geometria e da física. Gostava do que me interessava, e me dediquei muito a isso.

Júlio César, ao contrário, contou que não teve problemas com a matemática:

− Matemática para mim, não tive muitos problemas. Tive muita convivência com a matemática pelo fato de ter feito cursos, como programação; nunca tive problema, foi bom. Era uma aula interativa, porque o método de ensino, com as videoaulas, tinha filmes de curta que ensinavam, tinha várias formas de ensino bem interativas. E também era interessante o fato de ter pessoas bem mais velhas que eu, às vezes eu ajudava, porque pelo fato de ser mais jovem tinha uma absorção mais rápida, achava aquilo interessante, na verdade me dava incentivo.

Penso que para a realização de práticas pedagógicas que privilegiem a realidade local de cada grupo, os professores de matemática precisam conhecer e estar sempre atentos às situações ocorridas no decorrer das aulas, para através da compreensão delas, tirar proveito e contribuir efetivamente para a aprendizagem e desenvolvimento dos alunos.

Jair contou como foi o ensino de matemática desenvolvido no Ceeja, ao longo de sua atuação:

− No caso do modular, eu recebi um aluno que foi meu recordista, ele terminou matemática, do Ensino Fundamental, em pouco mais de um mês, e o Ensino Médio, em dois meses e pouquinho. Hoje ele trabalha, se eu não estou enganado, é no Tribunal de Justiça do Estado, com um cargo muito bom. E ele voltou aqui pra agradecer, já trazendo uma pessoa que trabalha com ele lá, que estava sem o devido estudo, ele trouxe aqui para se matricular, porque, segundo ele, daqui tirou o sucesso que ele tem hoje na vida.

Os alunos da EJA, assim como seus objetivos, são bem diversos.

Ainda que a designação “Educação de Jovens e Adultos” nos

remeta a uma caracterização da modalidade pela idade dos

alunos a que atende, o grande traço definidor da EJA é a

caracterização sociocultural de seu público, no seio da qual se

deve entender esse corte etário que se apresenta na expressão

que a nomeia. (Fonseca, 2005, p.15)

− Você julga que a Educação Matemática que tem sido feita no Ceeja contribui para a vida das pessoas? − quis saber Cecília. − Acredito que a matemática que a gente tem oferecido aqui é uma matemática que é cobrada também nos concursos, ajuda, apesar de que, no nosso Curso Modular, não se oferece exatamente tudo que é cobrado nos concursos. Hoje, nos concursos, cobra-se matemática além dessa tradicional que nós temos, cobra-se a lógica matemática. Essa lógica matemática ainda não tem nos nossos módulos, mas no momento que tiver, com certeza vai contribuir para esses jovens passarem em concursos públicos, no vestibular ou no Enem. A nossa matemática com certeza contribui bastante.

Quando falamos em Educação Matemática, não estamos nos

referindo ao ensino de Matemática para o estudante

universitário ou da pós-graduação, nem de cursos de

Matemática que integram os currículos de programas de

formação especializada para profissionais qualificados, ou de

sessões de resolução de problemas matemáticos com

finalidade terapêutica ou diagnóstica. Estamos falando de uma

ação educativa dirigida a um sujeito de escolarização básica

incompleta ou jamais iniciada e que acorre aos bancos

escolares na idade adulta ou na juventude. A interrupção ou o

impedimento de sua trajetória escolar não lhe ocorre, porém,

apenas como um episódio isolado de não acesso a um serviço,

mas num contexto mais amplo de exclusão social e cultural, e

que, em grande medida, condicionará também as

possibilidades de re-inclusão que se forjarão nessa nova (ou

primeira) oportunidade de escolarização. (Fonseca, 2005, p.14)

Daí o cuidado com os conhecimentos preexistentes, desse jovem ou adulto, que precisam ser pontos de partida para a prática pedagógica e causa permanente de contextualização.

Paulo também socializou sua opinião:

− A gente trocava informações sobre como estava trabalhando determinado conteúdo, como acontece de modo geral, para melhorar o trabalho. A gente procurava trabalhar assim, por exemplo, eu estava trabalhando com função, então eu problematizava assim: Quanto custa uma bandeirada de táxi, quanto cobra por quilômetro rodado, então, às vezes, tinha que sair um pouco do material para motivar os alunos. Como eu falei anteriormente, tinha que trabalhar muito com motivação.

− Alguém gostaria de comentar sobre algo que aprendeu em matemática aqui no Ceeja e que utiliza no dia a dia? − perguntou Cecília.

O Everaldo comentou:

− Hoje eu trabalho com vendas, então uso muita soma e porcentagem, mas pena que hoje eu não faço as contas, apenas digito e o computador calcula, mas em alguns casos a gente já fala logo para o cliente quanto é que vai dar, mas porque a gente memoriza também.

Júlio César disse:

− A única matemática que eu uso são as contas normais, mas hoje a gente usa muito a calculadora, mesmo eu tendo facilidade, aqui mesmo eu adquiri a capacidade de somar e multiplicar na cabeça mesmo, um raciocínio lógico. Eu sempre gostei de ficar resolvendo assim. Facilita muito o trabalho. Na minha empresa, por exemplo, tem que tá raciocinando rápido a questão de números, medidas, a metragem quadrada, que é o que eu mais uso, e às vezes tenho de calcular a metragem cúbica, e isso aprendi no Ensino Fundamental e até hoje eu uso. Faço impressão de fachadas, adesivos de portas de vidro, e também os brindes com cortes em acrílico; às vezes, eu corto na máquina a laser um cubo de acrílico em 3D, então eu preciso da metragem cúbica para passar o orçamento para o cliente.

Gosto de ver que a matemática ensinada no Ceeja tem contribuído para o trabalho ou para a vida dos egressos. Fiquei pensando que deve ter alguma relação com o fato de os professores estarem sempre se formando, principalmente no exercício de sua prática de ensino, mas claro, também acredito que uma boa formação inicial é fundamental. E por falar em formação inicial, preciso relatar como tem acontecido a formação universitária dos professores de matemática em Rondônia.

Neste dia, encerrando a reunião, Cecília se despediu de todos, agradecendo as contribuições e lembrando que teriam apenas mais um encontro. Por isso o grupo sugeriu a organização de um lanche coletivo para a data combinada, assim poderiam se confraternizar e fazer uma espécie de despedida.

Ninguém aprende o ofício de conhecedor ou de diagnosticador

[...] Nesse tipo de conhecimento entram em jogo (diz-se

normalmente) elementos imponderáveis: faro, golpe de vista,

intuição [...] Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas

– sinais, indícios – que permitem decifrá-la. (Ginsburg, 1989,

p.179)

Cecília agora voltava para casa pensando sobre a Educação Matemática que tem encontrado no Ceeja.

 

Cenário – família: amar, perder e crescer

Numa quarta-feira, início do mês de abril do ano de 2002, Cecília trabalhava na coordenação da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental em uma escola privada, no centro de Porto Velho quando, por volta das 9h, seu telefone tocou.

− Cecília! Mataram o nosso pai! – disse Felipe. Ao que Cecília respondeu:

− Que história é essa? O que está acontecendo?

− O tio Artur [irmão de Justino, que morava no sítio vizinho] telefonou. Ele foi até o sítio e encontrou o pai morto na sala da casa, com uma faca cravada no peito. Disse que a casa está toda revirada e roubaram algumas coisas. Parece um assalto.

− Que horror! Como pode ter acontecido isso? – disse Cecília, sem conseguir controlar o choro.

− Você pode contar para o João, o Joaquim e a mãe? Eu já falei com o Pedrinho e o Luizinho, e vamos para lá agora. O tio já chamou a polícia e nós vamos descobrir quem fez isso – prometeu Felipe.

−Vou fazer isso.Vocês já foram à funerária? – perguntou Cecília.

− Não, nem me lembrei disso.

Com essa afirmação de Felipe, Cecília assegurou a ele que cuidaria disso também. Naquele momento a dor era tamanha que beirava o desespero, mas ela sabia que muitos contavam com sua coragem e não poderia fraquejar; assim, chamou sua assistente, Eulália, contou o que havia acontecido e pediu que lhe trouxesse um chá calmante. Em seguida começaram as providências: telefonou para o Joaquim, que já estava morando em Fortaleza, com a família, e ele, mesmo que inicialmente tenha duvidado da notícia, afirmou que iria direto para o aeroporto, que embarcaria no primeiro voo que conseguisse, e assim o fez. Depois ela telefonou para José, que estava em uma reunião de trabalho, mas por conta da gravidade da situação a atendeu prontamente, combinando que ela não iria dirigir; assim, se ausentou da reunião e foi buscá-la.

− Eulália, por você além de funcionária da escola ser minha amiga, mais tarde leve meu carro até a casa da minha mãe – pediu Cecília.

− Claro que sim, eu levo assim que sair daqui, por volta do meio-dia.

Logo Cecília teve a ideia de telefonar para um médico, muito amigo de Justino e da família, para que lhe orientasse sobre como dar a notícia a sua mãe, já que Helena era hipertensa. O doutor Marcos fez questão de acompanhar Cecília nessa tarefa, assim combinaram de se encontrar em frente à casa da família.

Eulália, jovem muito disposta para o trabalho, magra e ágil, de olhos negros muito espertos, que contrastavam com sua pele muito clara, era sempre tão afetiva com as crianças e com todos da escola, perguntou se poderia fazer algo mais para ajudar.

− Não, Eulália, por enquanto não. Agora vou telefonar para o João – informou Cecília.

Atendendo ao telefone, como sempre fazia, João disse:

− Fala, irmãzinha, o que está pegando?

− João, fala com seu patrão que você vai precisar sair, aconteceu um problema com o pai, e eu estou indo aí te buscar. Teve um assalto no sítio.

− Mas ele está bem? – indagou João.

− Estou indo aí e conversaremos melhor quando eu chegar.

Logo que concluiu a ligação, José chegou para buscar Cecília, que ao vê-lo não conteve as lágrimas de desespero. Com seu jeito acolhedor, ele a abraçou e garantiu que a ajudaria a passar por aquela situação. Assim, foram buscar João, que já aguardava em frente à loja de ferragens em que trabalhava, pois embora tivesse apenas 16 anos, era hábito na família começarem a trabalhar ainda jovens. No caminho para a casa da mãe, Cecília contou o pouco que sabia do que aconteceu, e pediu a José:

−Você pode ir à funerária, tomar as providências? Acho que eles vão buscar o corpo lá em Itapuã.

− Fiquem com a mãe de vocês e eu cuido dessas coisas – disse José.

Chegaram à casa da mãe e logo em seguida chegou o doutor Marcos. Ao entrarem na casa, Helena já foi perguntando: − O que está acontecendo? Por que vocês estão aqui a essa hora do dia?

Cecília convidou a mãe para que fossem para a sala, e lá todos já acomodados, deu a notícia para a mãe, que, muito transtornada, precisou que o doutor Marcos lhe desse um calmante.

Não demorou muito e Felipe telefonou para Cecília dando mais notícias. Disse que na casa do sítio já encontrou o tio Artur e a polícia, e que não podia acreditar no que estava vendo, o pai naquela situação, e pelo que diziam já deveria estar morto a uns dois ou três dias.

− Tentaram levar várias coisas: televisão, antena parabólica, espingarda e mais um monte de utensílios domésticos, mas parece que a camionete não pegou, então ficou tudo em cima do carro – disse Felipe.

− Que situação horrível! Quem poderia ter feito isso com nosso pai?

− Não sei, Cecília, mas prometo que vou descobrir!

Dois dias se passaram depois de tamanha dor e devastação, quando Eulália visitou Cecília, que ainda muito triste, resumiu a trajetória de Justino:

− Meu pai, que tanto buscou seu lugar e aos 18 anos, fugindo da pobreza em Pernambuco, já trabalhava numa fábrica em São Paulo; depois na agricultura no Paraná, para então, desanimado daquela vida, ser caminhoneiro, viajando do Paraná ao Amazonas, se instalando aqui em Rondônia como comerciante e cuidando de seu sítio. Agora começava a contabilizar suas perdas e ganhos, então, finalizou sua trajetória, numa “triste partida”, como aquela − o poeta analfabeto − cantada por Luiz Gonzaga: “Minha vida é andar/ Por esse país/ Pra ver se um dia/ Descanso feliz/ Guardando as recordações/ Das terras por onde passei/ Andando pelos sertões/ E dos amigos que lá deixei.”

Eulália, numa tentativa de ajudar Cecília, disse:

− Pensa que toda dor de seu pai já cessou e que sempre, “depois da tempestade vem a bonança”, além disso, o “tempo” vai ajudar você a melhorar, a amenizar essa dor.

E assim aconteceu, pois apesar de toda dor, a vida continua... Seis dias depois, os assassinos de Justino foram encontrados, um rapaz de apenas 16 anos e dois usuários de drogas, que já haviam trabalhado no sítio com Justino e que também já haviam cometido outros crimes. O menor ficou abrigado por dois meses em um centro de recuperação de menores e os outros dois fugiram do presídio, durante uma rebelião que aconteceu uns quatro meses depois, portanto antes mesmo de serem julgados.

Porto Velho, diferentemente de outros municípios do Estado de Rondônia, cresceu a partir da implantação da EFMM, sendo evidente sua importância para a economia da região, bem como sua influência para a expansão do comércio local para o exterior. No início, dividia-se em duas partes.

Uma administrada pela EFMM, com toda infraestrutura, sistema de esgotos, tratamento de água, casas teladas, imprensa, salões de festas e energia a vapor, portanto uma cidade planejada, moderna, segura e com rígidos padrões morais, situando-se entre o Rio Madeira e a atual Avenida Presidente Dutra. “Possuía até telégrafo a cabo ligando Porto Velho a importantes cidades da Europa, demonstrando toda modernidade que o ciclo da borracha proporcionava” (Matias, 1997, p.83).

Já a outra cidade de Porto Velho, administrada pelo município, foi sendo formada pelos excluídos do processo que acontecia numa parte privilegiada da cidade, principalmente pelos migrantes. Dessa forma, os problemas, como drogas, violência e impunidade se alastraram e permaneceram na capital e em muitos municípios de Rondônia, a exemplo do que aconteceu com a família de Cecília e tantas outras.

E, mais uma vez, a família − mais unida do que antes − superou mais essa devastação, embora com muito sofrimento. Fico me lembrando da Clarice Lispector, por escrever: “Quero saber o que mais, ao perder, eu ganhei”.

 

1 Cf.

<http://capes.gov.br/Images/stories/download/legislacao/2782014-

MANUAL-OPERATIVO-PARFOR.pdf>. Acesso em 20 jun. 2013.

2 Biblioteca pública criada em 30 de dezembro de 1973 através da Lei nº 85. Foi inaugurada em 24 de janeiro de 1975 e, desde então, localiza-se na área central de Porto Velho.