Um Corpo na Biblioteca
Capítulo 1
A SRA. BANTRY estava sonhando. Suas ervilhas de cheiro tinham sido classificadas no prim eiro lugar na exposição de flores.
O pároco, de batina e sobrepeliz, distribuía os prêm ios na igrej a.
Sua esposa peram bulava por perto, vestida num roupão de banho, m as com o sói acontecer nos sonhos, esse fato não provocou a desaprovação do pároco com o certam ente o teria feito na vida real...
A Sra. Bantry deleitava-se no seu sonho. De m odo geral adorava os sonhos ao am anhecer, que term inavam com a chegada do café da m anhã. Em algum a parte de sua consciência m ais profunda, percebia os ruídos dom ésticos no início da m anhã. O guizo das argolas da cortina das escadas, quando a em pregada as corria, os ruídos da pá de lixo e da vassoura da segunda em pregada no passeio da casa. A distância, o barulho pesado do ferrolho da porta da frente, ao ser puxado.
Com eçava m ais um dia. Entrem entes, devia retirar todo prazer possível da exposição de flores — pois a sensação de que tudo não passava de um sonho com eçava a se m anifestar...
Lá em baixo, fazia-se ouvir o ruído das grandes venezianas de m adeira, da sala, que estavam sendo abertas. Ela ouvia e, não obstante, não ouvia. Por m ais um a m eia hora os ruídos dom ésticos continuariam , discretos, abafados, que não perturbavam por serem tão fam iliares. Culm inariam num som rápido e controlado de passos no corredor, o guizo de atavios, o tinido abafado do serviço de chá quando a bandej a era colocada sobre a m esa lá fora, em seguida a batidas de leve na porta e a entrada de Mary para abrir as cortinas.
Em seu sono a Sra. Bantry franziu o cenho. Algo de perturbador estava perpassando por seu sonho, algo fora de hora.
Pisadas pelo corredor, passos apressados dem ais e tão cedo. Seus ouvidos ouviam inconscientem ente o tinido de louça, m as não havia tinido de louça.
Bateram na porta. Do fundo de seus sonhos, a Sra. Bantry disse autom aticam ente:
— Entre.
Abriu-se a porta. Agora ouviria os guizos das argolas da cortina. Da luz verde fraca veio a voz de Mary, sem fôlego, histérica.
— Oh, que coisa horrível, há um corpo na biblioteca. E em seguida, com um acesso histérico de soluços, saiu correndo do quarto.
* * *
A Sra. Bantry assentou-se na cam a.
Ou seu sono tinha tom ado um rum o estranho ou coisa que valha, ou realm ente Mary tinha entrado ali correndo e teria dito (incrível, fantástico!) que havia um corpo na biblioteca.
Impossível, disse a Sra. Bantry para si m esm a. Devo ter sonhado.
Mas m esm o ao afirm ar isso, sentiu-se ainda m ais certa de que não estivera dorm indo, que Mary, sua Mary autocontrolada e superior, tinha realm ente dito aquelas terríveis palavras.
A Sra. Bantry refletiu por alguns instantes e em seguida com o cotovelo conj ugal cutucou seu m arido ainda adorm ecido.
— Arthur, Arthur, acorde.
O Coronel Bantry grunhiu, resm ungou e virou-se para o outro lado.
— Arthur, levante-se. Não ouviu o que ela disse?
— Talvez — respondeu o Coronel Bantry indistintam ente. — Concordo com você, Dolly.
E caiu de novo no sono.
A Sra. Bantry o sacudiu.
— Você deve ter ouvido. Mary entrou aqui e disse que há um corpo na biblioteca.
— Há o quê?
— Um corpo na biblioteca.
— Quem disse isso?
— Mary.
O Coronel Bantry reuniu todos os seus sentidos dispersos e procurou inteirar-se da situação.
— Tolice, m inha velha — disse ele. — Você deve ter sonhado.
— Não, não estava sonhando. No início, realm ente, pensei que estivesse. Mas não estava. Mary de fato entrou e disse isso.
— Mary entrou e disse que havia um corpo na biblioteca?
— Disse.
— Mas não, não pode ser.
— Mas então por que Mary disse que havia?
— Ela não pode ter dito.
— Disse.
— Você deve ter im aginado isso.
— Não, não é im aginação m inha.
O Coronel Bantry estava agora com pletam ente acordado e preparado para avaliar a situação real.
— Você esteve sonhando, Dolly — disse ele bondosam ente. — É tudo. É aquele conto policial que você estava lendo. A Pista do Pau de Fósforo Quebrado. Lord Edgbaston encontra o lindo corpo de um a loura sobre o tapete da biblioteca. Corpos estão sendo sem pre encontrados nas bibliotecas, nos livros. Nunca soube de um caso real.
— Talvez desta vez você verá — disse a Sra. Bantry. — De qualquer m aneira, Arthur, levante-se e vá ver.
— Ora, Dolly, deve ter sido um sonho. Os sonhos m uitas vezes são tão m aravilhosam ente vivos, que ao acordar nos parecem um a realidade.
— Eu estava tendo um sonho m uito diferente. Era um a exposição de flores e a m ulher do pároco vestida num roupão de banho. Mais ou m enos isso.
Com um a súbita m anifestação de energia, a Sra. Bantry pulou da cam a e puxou as cortinas. A luz de um lindo dia de outono invadiu o quarto.
— Não foi sonho coisa nenhuma — disse ela firm em ente. — Levante-se logo, Arthur, desça e vá ver isso.
— Você quer que eu desça para perguntar se há um cadáver na biblioteca?
— Não precisa perguntar nada — respondeu a Sra. Bantry. — Se houver um corpo na biblioteca e, naturalm ente, é bem possível que Mary tenha ficado louca e pense que viu coisas que não existem ... alguém lhe dirá logo. Você não precisará dizer nada.
Resm ungando, o Coronel Bantry vestiu seu roupão e saiu do quarto. Cam inhou pelo corredor e desceu a escada, ao pé da qual se acotovelava um pequeno grupo de criadas, algum as delas soluçando. O m ordom o adiantou-se com um ar im pressionante.
— Graças a Deus o senhor veio, patrão. Tinha ordenado que nada fosse feito antes de o senhor chegar. Acha que eu j á deveria ter cham ado a Polícia?
— Cham ar a Polícia? Para quê?
O m ordom o lançou um olhar de repreensão para um a j ovem que estava chorando histericam ente no om bro da cozinheira.
— Eu pensei que Mary j á o tivesse inform ado, patrão. Ela m e disse que o fizera.
Mary falou ofegante.
— Eu estava tão excitada que não sei o que disse. Lem brei-m e de tudo de novo e m inhas pernas com eçaram a trem er e vi tudo em baralhado. Encontrar um a coisa daquelas... oh, oh, oh!
E apoiou-se de novo no om bro da Sra. Eccles, que dizia para tranquilizá-la:
— Acalm e-se, acalm e-se, m inha filha.
— Mary, com o é natural, está m uito agitada, patrão, tendo sido ela a autora da descoberta m acabra — explicou o m ordom o. — Entrou na biblioteca, com o de costum e, para correr as cortinas e... quase tropeçou no corpo.
— Você quer dizer — perguntou o Coronel Bantry, — que há um cadáver na m inha biblioteca... na minha biblioteca?
O m ordom o tossiu.
— Talvez fosse bom o senhor ir ver pessoalm ente.
* * *
— Alô, alô, posto policial. Sim , quem está falando?
O policial Palk com um a m ão abotoava sua farda e com a outra segurava o fone.
— Sim , é da Polícia de Gossington. Com o? Oh, bom dia, senhor.
O tom de voz do policial passou por um a ligeira m odificação.
Tornou-se m enos im paciente, reconhecendo a voz do generoso patrono dos esportes da Polícia e do principal m agistrado do distrito.
— Às suas ordens, senhor. Em que lhe posso ser útil?... Desculpe, m as não com preendi bem ... o senhor disse um corpo?... Sim . Sim , com o o senhor preferir... Está bem , senhor... O senhor disse... um a j ovem que não conhece?... Está bem . Pode deixar tudo por m inha conta.
O policial repôs o fone no suporte, tirou um longo assobio e com eçou a discar o núm ero de seu superior.
A Sra. Palk espiou da cozinha de onde vinha o cheiro apetitoso de bacon frito.
— O que é que há?
— A coisa m ais estranha que j á se ouviu — respondeu o m arido. — Foi encontrado o corpo de um a j ovem em Hall. Na biblioteca do Coronel.
— Assassinada?
— Estrangulada, conform e disse ele.
— Quem era ela?
— Diz o Coronel que nunca a viu.
— Mas então o que estava fazendo na biblioteca?
O policial Palk fê-la calar com um olhar de repreensão e com eçou a falar de m odo oficial pelo telefone.
— Inspetor Slack? Aqui fala o Palk. Acabo de ser inform ado de que foi achado hoj e, às sete e quinze, o corpo de um a j ovem ...
* * *
O telefone de Miss Marple tocou enquanto ela se vestia. A cham ada a excitou um pouco. Seu telefone não costum ava tocar àquela hora. Sistem ática e afetada em sua vida de solteirona, um a cham ada im prevista era um a fonte de vivida conj etura.
— Deus m eu — disse Miss Marple, olhando perplexa para o aparelho que soava. — Quem será?
Das nove às nove e trinta da noite era a hora de praxe na aldeia para as conversas telefônicas, resultando sem pre planos para o dia seguinte, convites e assim por diante. O açougueiro tinha o costum e de cham ar um pouco antes das nove, no caso de ocorrer algum a coisa no m ercado de carne. Durante o dia o telefone podia tocar ocasionalm ente, em bora fosse considerado pouco delicado fazer cham adas à noite, depois das nove e m eia.
Era verdade que um sobrinho de Miss Marple, um escritor, e por conseguinte excêntrico, tinha o costum e de cham ar nas horas m ais inconvenientes, às vezes m esm o por volta da m eia-noite. Mas quaisquer que fossem as excentricidades de Ray m ond West, levantar-se cedo não era um a delas. Nem ele nem ninguém do conhecim ento de Miss Marple tinha costum e de telefonar antes das oito da m anhã. Realm ente, faltavam quinze para às oito.
Cedo dem ais, m esm o para um telegram a, um a vez que o telégrafo não abria antes das oito da m anhã.
— Deve ser engano — decidiu Miss Marple.
Tendo assim decidido, dirigiu-se ao aparelho, im paciente, e o fez calar, retirando o fone.
— Alô — disse ela.
— É você, Jane?
Miss Marple ficou m uito surpresa.
— Sim , é Jane. Você se levanta m uito cedo, Dolly.
A voz da Sra. Bantry chegava trêm ula e agitada.
— Aconteceu a coisa m ais pavorosa.
— O quê, querida?
— Acabam os de encontrar um corpo na biblioteca.
Miss Marple achou por alguns instantes que sua am iga tinha ficado m aluca.
— Vocês encontraram o quê?
— Eu sei. Ninguém acredita, não é? Eu tam bém pensava que essas coisas só aconteciam nos livros. Tive que discutir longam ente com Arthur esta m anhã até que ele resolvesse descer e ir ver.
Miss Marple procurava controlar-se. Perguntou quase sem fôlego:
— Mas de quem é o corpo?
— É um a loura.
— Um a o quê?
— Um a loura. Um a linda loura... com o nos livros tam bém . Ninguém aqui de casa a conhece. Mas lá está, estendida na biblioteca, m orta. É por isso que você precisa vir aqui im ediatam ente.
— Você quer que eu vá aí?
— Sim , estou m andando o carro apanhá-la.
— Está bem , querida — disse Miss Marple indecisa, — se acha que posso confortá-la...
— Oh, não, não preciso de conforto. Mas você é m uito com petente em m atéria de cadáveres.
— Oh, não, por favor, Dolly. Meus m odestos sucessos têm sido na sua m aioria teóricos.
— Mas você é a tal em assassinatos. Ela foi estrangulada, sabe? Tenho a im pressão de que se alguém quisesse ter um assassinato em sua própria casa, a oportunidade não poderia ter sido m elhor. Não sei se está-m e com preendendo. É por isso que quero que venha aj udar-m e a descobrir quem fez isso e esclarecer todo o m istério. É realm ente excitante, não acha?
— Bem , é claro, querida, se é que lhe posso ser de algum a utilidade.
— Ótim o. Arthur está-se tornando difícil. Parece pensar que eu não deveria alegrar-m e com isso. Sei, é claro, que é m uito triste e tudo, m as não conheço a j ovem e quando você a vir com preenderá o que quero dizer quando afirm o que ela não parece real.
* * *
Um pouco afobada, Miss Marple saiu do carro dos Bantry s, cuj a porta lhe foi aberta pelo m otorista.
O Coronel Bantry surgiu nos degraus da entrada e parecia um tanto surpreso.
— Miss Marple?... prazer em vê-la.
— Sua m ulher m e telefonou — explicou Miss Marple.
— Ótim o, ótim o. Dolly precisa ter alguém com ela. Caso contrário sofrerá um colapso. Por enquanto está-se fazendo de forte, m as a senhora sabe o que é...
Naquele m om ento apareceu a Sra. Bantry que exclam ou:
— Vá acabar de tom ar seu café, Arthur. O bacon está esfriando.
— Pensei que fosse o inspetor que estivesse chegando — explicou o Coronel Bantry.
— Ele não vai dem orar — disse a Sra. Bantry. — É por isso que acho bom ir tom ar seu café prim eiro. Você precisa alim entar-se.
— Você tam bém . É m elhor ir para dentro com er algum a coisa Dolly...
— Irei nesse instante — disse a Sra. Bantry. — Vá, Arthur.
O Coronel Bantry foi enxotado para dentro com o um a galinha recalcitrante.
— Finalmente! — disse a Sra. Bantry com um a entonação de triunfo. — Vam os, entre.
Ela tom ou rapidam ente a dianteira no corredor, dirigindo-se para o lado oriental da casa. Do lado de fora da porta da biblioteca estava de guarda o policial Palk, que interceptou a Sra. Bantry com um ar de autoridade.
— Sinto m uito, m adam e, m as ninguém pode entrar. São ordens do Inspetor.
— Bobagem , Palk — disse a Sra. Bantry. — O senhor sabe perfeitam ente quem é Miss Marple.
O policial Palk confessou que não conhecia Miss Marple.
— É m uito im portante que ela vej a o corpo — disse a Sra. Bantry. — Deixe de bobagem , Palk. Afinal de contas, a biblioteca é minha, não é?
O soldado afastou-se. Era velho seu hábito de ceder a pessoas im portantes. O Inspetor não pode jamais saber disso, pensava ele.
— Nada deve ser tocado ou m anuseado — advertiu, às senhoras.
— É claro que não — disse a Sra. Bantry im paciente. — Sabem os disso. O senhor pode entrar e vigiar, se quiser.
Palk beneficiou-se dessa perm issão. De qualquer m aneira tinha sido sua intenção.
A Sra. Bantry conduziu sua am iga triunfantem ente pela biblioteca na direção da grande lareira j á fora de m oda.
— Eis ali! — disse ela com o sentim ento dram ático de clím ax.
Miss Marple com preendeu então exatam ente o que sua am iga quisera expressar quando dissera que a m oça m orta não parecia real. A biblioteca era um a sala m uito característica de seus proprietários: am pla, gasta e desordenada. Tinha um a grande poltrona j á decadente; cachim bos, livros e docum entos cobriam um a m esa im ensa. Havia um ou dois velhos retratos da fam ília nas paredes e péssim as aquarelas vitorianas com algum as cenas de caça pretensam ente engraçadas. Havia um grande vaso de ásteres num canto da sala, que era som bria, sim ples e descuidada. Ela falava de um a longa ocupação, do uso fam iliar e de vínculos com a tradição.
E de lado a lado do tapete central de pele de urso j azia estatelado algo de novo, rude e m elodram ático.
A figura extravagante de um a j ovem . Um a j ovem com um a cabeleira de beleza artificial que lhe caía sobre o rosto em cachos e anéis. Seu corpo franzino trazia um vestido toalete de cetim , sem costas, de cor branca reluzente. O rosto estava grosseiram ente pintado, o pó sobressaindo grotescam ente sobre a pele inchada e azulada. A base da m aquiagem perm anecia espessa sobre as m açãs do rosto desfigurado; o verm elho vivo dos lábios parecia um corte profundo. As unhas das m ãos estavam pintadas com esm alte verm elho escuro, com o tam bém os dedos dos pés, m etidos num par de ordinárias sandálias cor de prata. Era um a figura com um , espalhafatosa, extravagante, m ais do que im própria naquele am biente austero e antiquado da biblioteca do Coronel Bantry.
— Está vendo agora o que quis dizer? Não parece verdadeiro! — disse a Sra. Bantry em voz baixa.
A velha senhora a seu lado assentiu com a cabeça. Ficou contem plando pensativa a figura m al posta. No fim disse em tom m oderado:
— Era m uito j ovem .
— Sim , sim , acho que era.
A Sra. Bantry parecia quase surpresa com o quem faz um a descoberta.
Miss Marple curvou-se. Não tocou na m oça. Olhou os dedos que apertavam freneticam ente a gola do vestido, com o se o tivesse rasgado em sua últim a luta frenética pelo ar.
Ouviu-se o barulho de um carro que rangeu sobre o cascalho do lado de fora.
— Deve ser o Inspetor... — disse o policial Palk afobado.
Confirm ando sua arraigada convicção de que pessoas de bem não nos desapontam , a Sra. Bantry dirigiu-se im ediatam ente à porta, seguida de Miss Marple.
— Não haverá problem as, Palk — disse a Sra. Bantry.
Palk sentiu-se im ensam ente aliviado.
* * *
Deglutindo os últim os fragm entos de torrada e m arm elada com um gole de café, o Coronel Bantry saiu correndo para o saguão e respirou aliviado ao ver o Coronel Melchett, Chefe de Polícia do m unicípio, descendo do carro acom panhado do Inspetor Slack. Melchett era am igo do Coronel. Quanto a Slack, nunca lhe tinha sido apresentado. Era um hom em forte que contradizia o seu próprio nom e, que em inglês significa indolente, e que acom panhava suas atitudes dinâm icas com um a boa dose de desconsideração para com os sentim entos de quem quer que fosse, desde que não os j ulgasse im portantes.
— Bom dia, Bantry — disse o Chefe de Polícia. — Achei que seria m elhor vir logo. Isso m e parece um caso fora do com um .
— É... é, sim — o Coronel Bantry procurava expressar-se — É incrível... absurdo!
— Tem algum a idéia de quem sej a a m ulher?
— Não faço a m enor idéia. Nunca a vi em m inha vida.
— O m ordom o sabe de algum a coisa? — perguntou o Inspetor Slack.
— Lorrim er está tão surpreso quanto eu.
— Ah! — disse o Inspetor Slack. — É estranho.
— O café está servido, Melchett. Não quer tom ar algum a coisa?
— Não, não. É m elhor irm os logo ao trabalho. Hay dock deverá estar aqui a qualquer m om ento. Ah, está chegando.
Outro carro parou e dele saiu um hom em grande e espadaúdo, o Dr. Hay dock, que era tam bém m édico da Polícia. Um segundo carro da Polícia tinha descarregado dois hom ens vestidos em traj es sim ples, um deles com um a câm era fotográfica.
— Tudo pronto? — perguntou o Chefe de Polícia.
— Ótim o. Vam os ver. Na biblioteca, conform e m e disse Slack.
O Coronel gem eu.
— Incrível! Você sabe quando m inha m ulher insistiu esta m anhã em que a em pregada tinha entrado no quarto e dito que havia um corpo na biblioteca, eu não quis acreditar nela.
— É claro, posso com preender perfeitam ente. Espero que sua esposa não tenha ficado m uito sobressaltada com isso.
— Ela se com portou m aravilhosam ente. Realm ente, de m odo adm irável. Convidou sua velha am iga, Miss Marple, a vir aqui. Ela é lá da aldeia, sabe?
— Miss Marple? — form alizou-se o Chefe de Polícia. — Por que m andou cham á-la?
— Oh, as m ulheres sem pre precisam de outra para tagarelar, não acha?
O Coronel Melchett disse com um certo sorriso de m ofa:
— Se quer m inha opinião, sua esposa vai querer bancar a detetive am adora. Miss Marple é a perfeita investigadora local. Ela j á nos passou a perna, um a vez, não foi, Slack?
— Aquilo foi diferente — disse o Inspetor Slack.
— Diferente de quê?
— Daquela vez era um caso local, Sir. A velha sabe de tudo que se passa na aldeia, isso é verdade. Mas aqui ela não tom ará pé.
— Nem você sabe m uito a respeito desse caso, Slack — disse Melchett secam ente.
— Ah, espere, chefe. Não vou precisar de m uito tem po para esclarecer tudo.
* * *
Na sala de j antar, a Sra. Bantry e Miss Marple tom avam , por sua vez, o café da m anhã.
Depois de servir à sua hóspede, disse a Sra. Bantry com insistência.
— Que tal, Jane?
Miss Marple levantou a vista e olhou para ela perplexa.
A Sra. Bantry perguntou esperançosa:
— Isso não a faz lem brar de algum a coisa?
Miss Marple tinha-se tornado fam osa por sua capacidade de ligar acontecim entos triviais da aldeia com problem as m ais graves, a ponto de lançar luz sobre os últim os.
— Não — respondeu Miss Marple pensativa. — Não posso dizer se m e lem bro de algo, no m om ento. Pensei na caçula da Sra. Chetty, Edie, você a conhece. Mas acho que foi som ente porque essa pobre m oça m ordia unhas e por ter os dentes da frente um pouco para fora. Nada m ais do que isso. E, é claro — continuou Miss Marple, acom panhando a com paração. — Edie adorava tam bém o que eu cham o de coisas baratas.
— Você se refere ao seu vestido? — perguntou a Sra. Bantry ?
— Sim , um cetim de m au gosto, de qualidade inferior.
— Eu sei — disse a Sra. Bantry. — Um a dessas loj inhas im undas, onde tudo é vendido por ninharias. Deixe ver — continuou esperançosa, — o que aconteceu a Edie da Sra. Chetty.
— Ela acaba de ir para o segundo lugar e está indo m uito bem , creio.
A Sra. Bantry sentiu-se um pouco desapontada. O paralelo da aldeia não lhe parecia m uito prom issor.
— O que não posso com preender — disse a Sra. Bantry — é o que estaria fazendo no escritório de Arthur. A j anela foi forçada, disse-m e Palk. Ela poderia ter entrado aqui com um ladrão e depois os dois brigaram ... m as isso parece não ter sentido, não é?
— Ela não estava adequadam ente vestida para um roubo — disse Marple pensativa.
— Não, ela estava vestida para um baile ou para algum a festa. Mas não há nada disso aqui, nem por perto.
— Não, não há — disse Miss Marple em tom de dúvida.
A Sra. Bantry em polgou-se.
— Você tem algum a idéia, Jane.
— É, estava apenas pensando...
— Em quê?
— Em Basil Blake.
— Oh, não — exclam ou a Sra. Bantry, acrescentando com o explicação: — Eu conheço a m ãe dele.
As duas m ulheres se entreolharam .
Miss Marple suspirou e m eneou a cabeça.
— Posso com preender com o você se sente nesse caso.
— Selina Blake é um a criatura excelente. Sua cerca de ervas é sim plesm ente m aravilhosa. Fico doida de invej a. E dá m udas com m uita generosidade.
Miss Marple, ignorando essas considerações da Sra. Bantry, acrescentou:
— E, no entanto, você sabe, correm m uitos boatos por aí.
— Oh, sim , eu sei. E naturalm ente Arthur fica lívido quando ouve o nom e de Basil Blake. Ele foi realm ente m uito grosseiro com Arthur, e desde então Arthur não quer ouvir falar dele. Não tolera esse m odo estúpido e desdenhoso de falar dos j ovens de hoj e em dia, escarnecendo das pessoas que defendem sua escola ou o Im pério ou coisa sem elhante. E, depois, é claro, o tipo de roupas que ele usa!
— Dizem — continuou a Sra. Bantry, que não tem im portância o que se usa no interior. Nunca ouvi tam anho contra-senso. Pois é exatam ente no interior que todo m undo nota as coisas. — Fez um a pausa e acrescentou espirituosam ente: — Ele era um a criancinha adorável em seu banho.
— Há um a linda fotografia do assassino de Cheviot quando criança, no j ornal de dom ingo passado — disse Miss Marple.
— Sim , Jane, m as você não acha que ele...
— Não, absolutam ente. Não quis dizer isso. Seria saltar para conclusões. Estava apenas procurando explicar a presença do cadáver da j ovem aqui. St. Mary Mead é um lugar tão inverossím il. Então m e pareceu que a única explicação possível era Basil Blake. Ele dá festas. Vem gente de Londres e dos estúdios. Lem bra-se de j ulho passado? Gritando e cantando, um barulho horrível, todo m undo bêbado, infelizm ente. E a confusão e vidros quebrados na m anhã seguinte, era incrível, conform e m e contou a velha Sra. Buny. E um a j ovem dorm indo no banheiro praticam ente nua!
— Gente de cinem a, provavelm ente — disse a Sra. Bantry indulgente.
— É provável. E depois, acho que você ouviu falar, ultim am ente trás com ele todo fim de sem ana um a j ovem loura platinada.
— Não vá você m e dizer que o cadáver é dela!
— Bem , estava pensando. É claro que nunca a vi de perto m as só entrando e saindo do carro, e um a única vez no j ardim do bangalô tom ando banho de sol, só de short e soutien. Realm ente nunca vi seu rosto. E todas essas m oças com suas m aquiagens, seus cabelos e unhas se parecem um as com as outras.
— É, bem que poderia ser. É, é um a idéia, Jane.