Um Corpo na Biblioteca

Agatha Christie · Capítulo 10 de 18

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Um Corpo na Biblioteca

Capítulo 10

 

O INSPETOR HARPER olhava para o m ontão de ferro queim ado e retorcido. Um carro incendiado era sem pre um a cena chocante, m esm o sem a horrenda carga de um cadáver tostado e enegrecido.

A Pedreira de Venn era um local distante, longe de qualquer habitação hum ana. Em bora na realidade só distasse três quilôm etros de Danem outh, o acesso era feito por um a dessas estradas estreitas, tortuosas e cheias de sulcos, um pouco m ais do que um a trilha de carroças que conduzia exclusivam ente à própria pedreira. Há m uito tem po que a pedreira tinha sido abandonada e as únicas pessoas que ainda transitavam por ali eram visitantes casuais em busca de am oras silvestres. Com o lugar para se desfazer de um carro era ideal. O veículo poderia ter ficado ali sem anas sem ser visto, não fora o acidente do brilho no céu, observado pelo lavrador Albert Biggs, a cam inho de seu trabalho.

Albert Biggs estava ainda ali, em bora tudo que tivesse a contar j á tivesse sido ouvido, m as continuava a repetir a história eletrizante com tantos enfeites quantos lhe ocorressem .

— Uai, arregalei os olhos e m e perguntei, o que seria aquilo. Era um brilho lá no céu. Poderia ser um a fogueira, m as quem estaria acendendo fogueira na Pedreira de Venn? Não, deve ser um grande incêndio. É perto de Venn, é lá, certam ente. Fiquei sem saber o que devia fazer, m as nesse m om ento, vendo o policial Gregg que se aproxim ava de bicicleta, eu lhe contei o que tinha visto. Àquela altura j á se estava apagando tudo, m as eu lhe m ostrei onde era. É naquela direção, disse, um grande brilho no céu. Talvez sej a um m ontão de palha. Algum vagabundo lhe teria ateado fogo. Mas nunca im aginei que pudesse ser um carro... e m uito m enos que pudesse haver alguém se queim ando dentro dele. É realm ente um a tragédia.

A Polícia de Glenshire estivera ocupadíssim a. Batera fotografias e a posição do carro incendiado tinha sido cuidadosam ente anotada antes que o m édico da Polícia com eçasse sua própria investigação.

Este últim o apresentou-se a Harper, sacudindo a cinza escura das m ãos, com os lábios cerrados e expressão carrancuda.

— Um serviço bem feito — disse. — Parte de um pé e de um sapato, é tudo que escapou. Pessoalm ente não saberia dizer nesse m om ento se o corpo é de hom em ou de m ulher, em bora tenham os alguns indícios dos ossos. Mas o calçado é daquele tipo de alças, m uito usado por escolares.

— Há um a j ovem do m unicípio vizinho desaparecida — disse Harper, — m uito perto daqui. De m ais ou m enos dezesseis anos de idade.

— Então é provável que sej a ela — disse o m édico. — Pobre criança.

— Ela não estava viva quando... — ia perguntando Harper apreensivo.

— Não, não, não creio. Não há nenhum sinal de que tivesse tentado sair. O corpo estava sim plesm ente atirado no assento, com os pés para fora. Eu diria que estava m orta quando foi posta ali. Em seguida, incendiaram o carro num a tentativa de elim inar qualquer prova.

Fez um a pausa e perguntou:

— Ainda precisam de m im ?

— Acho que não, obrigado.

— Está bem . Vou andando — disse o m édico e saiu andando na direção de seu carro.

Harper se dirigiu para onde um de seus sargentos, um hom em especializado em assuntos de carro, estava ocupado. Ao ver Harper, levantou a vista.

— Um caso m uito sim ples, Inspetor. Gasolina derram ada em cim a do carro e fogo ateado deliberadam ente. Há três latas vazias ali na cerca.

Um pouco m ais adiante estava outro hom em arrum ando cuidadosam ente alguns obj etos retirados do sinistro. Havia um sapato de couro preto cham uscado e com ele alguns fragm entos de m aterial tostado e escurecido. Quando Harper aproxim ou-se, seu subordinado levantou a vista e exclam ou:

— Olhe isso, Inspetor. Parece que se prende aqui.

Harper tom ou o pequeno obj eto em suas m ãos.

— Um botão de uniform e de guia?

— Sim , senhor.

— É verdade — disse Harper, — parece resolver o caso.

Hom em digno e de bom coração, o Inspetor Harper com eçou a se sentir m al. Prim eiro Ruby Keene e agora esta criança, Pam ela Reeves.

E disse para si m esm o, com o j á dissera antes:

“O que está acontecendo com Glenshire?”

Sua providência im ediata foi telefonar para o seu próprio Chefe de Polícia e depois entrar em contato com o Coronel Melchett. O desaparecim ento de Pam ela Reeves tinha tido lugar em Radfordshire, em bora seu corpo tivesse sido encontrado em Glenshire.

A tarefa seguinte que tinha diante de si não era nada agradável: levar a triste notícia aos pais de Pam ela Reeves...

* * *

O Inspetor Harper contem plou a fachada de Braeside ao tocar a cam painha da porta principal.

Um a elegante casinha de vila, com um pequeno j ardim de m ais ou m enos um acre e m eio de dim ensão. O tipo do lugar que vinha surgindo profusam ente por todo o interior nos últim os vinte anos, constituído por m ilitares reform ados, funcionários aposentados, gente desse tipo. O pior que se poderia dizer deles era que eram um bocado tolos. Gastar tanto dinheiro que poderia ser em pregado na educação dos filhos. Não é a espécie de pessoas que a gente pudesse ligar a tragédias. E agora um a tragédia chegava até eles. Harper suspirou.

Foi introduzido num a sala em que um senhor cerim onioso, de bigode cinza, e um a senhora, cuj os olhos estavam verm elhos de chorar, se levantaram . A Sra. Reeves exclam ou ansiosa:

— O senhor tem notícias de Pam ela?

Em seguida, recuou com o se o olhar de com iseração do Inspetor a tivesse atingido com o um golpe.

— Lam ento ter de lhes pedir que se preparem para m ás notícias.

— Pam ela... — balbuciou a senhora.

O Maj or Reeves perguntou rispidam ente:

— Aconteceu algum a coisa... à m inha filha?

— Sim , senhor.

— O senhor quer dizer que está m orta?

— Oh, não, não — disse a Sra. Reeves e irrom peu num m ar de lágrim as.

O Maj or Reeves passou o braço pela cintura da esposa e a apertou contra si. Seus lábios trem iam , m as olhava indagadoram ente para Harper que inclinara a cabeça.

— Acidente?

— Não propriam ente, Maj or Reeves. Foi encontrada num carro incendiado que fora abandonado num a pedreira.

— Num carro? Num a pedreira?

Sua perplexidade era evidente.

A Sra. Reeves sucum biu totalm ente e se deixou cair num sofá, soluçando violentam ente.

— O senhor gostaria de m e dispensar alguns m om entos?

O Maj or Reeves perguntou ainda com rispidez:

— Que quer dizer com isso? Trata-se de crim e?

— É o que tudo indica, senhor. Eis por que gostaria de lhe fazer algum as perguntas, se não for m uito penoso para o senhor.

— Não, não, o senhor tem razão. Não se pode perder tem po, se for verdade o que está sugerindo. Mas não posso acreditar. Quem poderia querer fazer m al a um a criança com o Pam ela?

— O senhor j á com unicou à Polícia local as circunstâncias do desaparecim ento de sua filha — disse o Inspetor Harper im passível. — Ela saiu para assistir a um a reunião de guias e os senhores a esperavam para o j antar, não é verdade?

— É.

— Devia voltar de ônibus?

— Sim .

— Acho que, de acordo com a inform ação de suas colegas de associação, quando term inou a reunião, Pam ela disse que ia a Danem outh, à Casa Woolworth e dali tom aria um ônibus para casa. O senhor acha que esse procedim ento era norm al?

— Oh, sim , Pam ela gostava m uito de ir à Casa Woolworth. Ia m uitas vezes a Danem outh para fazer com pras. O ônibus passa pela estrada principal, a apenas uns quinhentos m etros daqui.

— Não sabe se ela teria outros planos?

— Nenhum .

— Não teria ido encontrar-se com alguém em Danem outh?

— Não, tenho certeza de que não. Ela o teria dito. Nós a esperávam os para o j antar. Foi por isso que, quando ficou tarde e ela não aparecia, resolvi telefonar para a Polícia. Não era seu costum e não voltar para casa.

— Sua filha não tinha am igos indesej áveis... quer dizer, am igos de quem o senhor não gostava?

— Não, nunca tive nenhum a dificuldade dessa espécie.

A Sra. Reeves disse entre lágrim as:

— Pam era apenas um a criança. Era m uito nova para sua idade. Gostava de esporte e tudo. Não era um a m enina precoce.

— O senhor conhece George Bartlett, hóspede do Maj estic Hotel, em Danem outh?

Maj or Reeves olhou-o espantado.

— Nunca ouvi falar nele.

— Não crê que sua filha o conhecesse?

— Tenho absoluta certeza de que não o conhecia. — E acrescentou im ediatam ente. — E com o é que ele entra no caso?

— É o dono do Minoan 14 em que foi encontrado o corpo de sua filha.

— Mas então ele deve... — gritou a Sra. Reeves.

O Inspetor Harper a interrom peu prontam ente:

— Ele com unicou o desaparecim ento de seu carro hoj e pela m anhã. Ontem , na hora do alm oço, estava no pátio do Maj estic Hotel. Alguém poderia tê-lo apanhado.

— Mas ninguém viu quem o apanhou?

O Inspetor Harper m eneou a cabeça.

— Dezenas de carros entram e saem todo o tem po. E o Minoan 14 é um a das m arcas m ais com uns.

— Mas os senhores estão fazendo algum a coisa? — perguntou a Sra. Reeves. — Estarão procurando o... dem ônio que fez um a coisa dessas? Minha filhinha, oh, m inha filhinha! Ela não foi queim ada viva foi? Oh, Pam , Pam ...!

— Ela não sofreu, Sra. Reeves. Asseguro-lhes que j á estava m orta quando o carro foi incendiado.

— Com o foi m orta? — perguntou Reeves tenso e abatido.

— Não sabem os — respondeu Harper, lançando-lhe um olhar significativo. — O fogo destruiu todo e qualquer indício.

E voltou-se para a Sra. Reeves, prostrada no sofá.

— Creia-m e, Sra. Reeves, que estam os fazendo tudo ao nosso alcance. É um a questão de provas. Mais cedo ou m ais tarde encontrarem os alguém que viu ontem sua filha em Danem outh e com quem ela estava. Isso requer tem po, sabe. Terem os dezenas, centenas de inform ações sobre um a j ovem guia que foi vista aqui, ali e em toda parte. É um a questão de seleção e de paciência... m as, no fim , descobrirem os a verdade, não se preocupe.

— Onde... onde ela está? Posso ir vê-la? — perguntou a Sra. Reeves.

O Inspetor Harper olhou novam ente para o Maj or Reeves.

— O m édico está cuidando de tudo. Sugeriria que seu m arido viesse com igo agora para preencher algum as form alidades. Enquanto isso, procure lem brar-se de tudo que Pam ela possa ter dito... de algum a coisa em que talvez, no m om ento, a senhora não tivesse prestado atenção, m as que poderia lançar algum a luz sobre os acontecim entos. A senhora com preende o que quero dizer... às vezes um a única palavra ou frase. É a m elhor m aneira de nos aj udar.

Ao se dirigirem para a porta, Reeves, apontando para um a fotografia, disse:

— Ei-la ali.

Harper a contem plou atentam ente. Era um grupo de hóquei.

Reeves apontou para Pam ela, que estava no centro do tim e.

Um a linda garota, pensou Harper, ao ver o rosto grave da m enina de trança.

Sua boca se contraiu num a linha rígida quando pensou no corpo carbonizado no carro.

Jurou para si m esm o que o assassino de Pam ela Reeves não ficaria entre os m istérios insolúveis de Glenshire.

Ruby Keene, adm itia intim am ente, poderia ter criado essa situação para si própria, m as Pam ela Reeves era um caso totalm ente diferente. Um a linda m enina, talvez a m ais bonita que j á tinha visto. Não descansaria até pôr a m ão no hom em ou na m ulher que a m atou.