Um Corpo na Biblioteca
Capítulo 12
CONWAY JEFFERSON agitou-se no seu sono e se espreguiçou.
Seus braços se estenderam . Eram braços com pridos e poderosos em que toda a força de seu corpo parecia ter-se concentrado desde o acidente.
A luz da m anhã penetrava suavem ente através das cortinas.
Conway Jefferson sorriu para si m esm o. Sem pre, depois de um a noite de descanso, acordava assim , feliz, reconfortado, com a sua grande vitalidade renovada. Mais um dia!
Ficou ainda deitado por alguns instantes. Em seguida tocou um a cam painha à altura da m ão. E de repente foi em polgado por um a onda de recordações.
Edwards, ágil e silencioso, ao entrar no quarto, ouviu ainda um gem ido de seu patrão.
Edwards se deteve segurando a cortina.
— Está sentindo algum a coisa, Sr. Jefferson? — perguntou.
— Não, puxe as cortinas.
A luz clara invadiu o quarto. Edwards, com preensivo, não olhou para seu patrão.
Com a fisionom ia contraída, Conway Jefferson continuava recordando e pensando. Diante de seus olhos via de novo o rostinho bonito, m as desenxabido, de Ruby. Só que na sua m ente não usava o adj etivo desenxabido. Na noite passada ele teria dito inocente. Um a criança ingênua, inocente! E agora?
Conway Jefferson foi tom ado de um grande enfado. Fechou os olhos e m urm urou de m odo quase inaudível:
— Margaret...
Era o nom e de sua falecida esposa.
* * *
— Gosto m uito de sua am iga — disse Adelaide Jefferson à Sra. Bantry.
As duas m ulheres estavam assentadas no terraço.
— Jane Marple é um a m ulher notável — disse a Sra. Bantry.
— É m uito sim pática tam bém — disse Addie sorrindo.
— O povo a cham a de fofoqueira — disse a Sra. Bantry — m as na realidade não é.
— Apenas um m au j uízo? Não é?
— Exato.
— Isso é um tanto confortador — disse Adelaide Jefferson, — depois de se ter tido tanto do contrário.
A Sra. Bantry olhou para ela indagadoram ente. Addie explicou-se:
— Tanta exaltação e idealização de um obj eto indigno!
— Você se refere a Ruby Keene?
Addie assentiu com a cabeça.
— Não quero ser inj usta com ela. Não tinha m ás intenções. Pobre diabo, tinha o direito de lutar pelo que queria. Não era m á. Um tipo com um , um tanto ingênua e de boa natureza, m as um a decidida caçadora de níqueis. Não creio que tenha feito planos. O negócio é que era hábil em tirar vantagem de um a oportunidade. E soube conquistar um velho solitário.
— Quer dizer — perguntou a Sra. Bantry, — que Conway vivia solitário?
Addie m exeu-se im paciente.
— Vivia... neste verão — fez um a pausa e em seguida explodiu: — Mark diz que a culpa foi m inha. Talvez sej a, não sei.
Ficou calada por alguns instantes; depois, im pelida por algum a necessidade de falar, continuou com dificuldade, quase relutante.
— Eu... eu tenho levado um a vida fora do com um . Mike Carm ody, m eu prim eiro m arido, m orreu logo depois de nos casarm os. Isso m e abalou m uito. Peter, com o você sabe, nasceu depois de sua m orte. Frank Jefferson era um grande am igo de Mike. Portanto eu o via frequentem ente. Foi o padrinho de Peter.
Mike j á o havia escolhido. Fiquei gostando dele tam bém ... oh, para a sua infelicidade.
— Infelicidade? — perguntou a Sra. Bantry com interesse.
— Sim , para sua infelicidade. Parece esquisito. Frank tivera tudo que quisera. O pai e a m ãe não poderiam ter sido m elhores para ele. E, não obstante, com o posso dizê-lo?... sabe, a personalidade do velho Sr. Jefferson é m uito forte. Se a senhora vivesse com ele, não poderia ter sua própria personalidade. Era o que acontecia com Frank.
— Quando nos casam os, éram os m uito felizes. O Sr. Jefferson foi m uito generoso. Doou a Frank um a grande som a de dinheiro... Disse que queria que seus filhos fossem independentes e não precisassem de esperar por sua m orte. Foi um gesto m uito bonito da parte dele... generoso. Mas foi cedo dem ais. Deveria ter acostum ado Frank pouco a pouco com a independência.
— Frank perdeu a cabeça. Queria ser tão com petente com o seu pai, tão conhecedor de finanças e de negócios, tão previdente e bem sucedido. E, é claro, não era nada disso. Ele propriam ente não especulou com o dinheiro, m as investiu em coisas erradas, no tem po errado. É im pressionante com o o dinheiro desaparece logo, quando não se sabe lidar com ele. Quanto m ais Frank afundava, m aior era sua avidez para recuperar o perdido com algum negócio inteligente. De m odo que as coisas iam de m al a pior.
— Mas, querida — perguntou a Sra. Bantry, — por que Conway não o aconselhava?
— Ele não queria conselhos. Fazia questão de fazer tudo por sua conta. É por isso que nunca deixam os que o Sr. Jefferson o soubesse. Quando Frank m orreu, restava m uito pouco de seus recursos... um a pequenina renda para m im . E eu... eu nunca disse nada a seu pai. A senhora vê...
Virou-se abruptam ente.
— Eu m e consideraria traidora de Frank. Frank não teria gostado disso. O Sr. Jefferson ficou doente durante m uito tem po.
Quando se restabeleceu, tinha-m e em conta de um a viúva em boa situação financeira. Eu nunca o decepcionei. Tem sido um a questão de honra. Sabe que sou m uito cautelosa em questão de dinheiro, m as concorda com isso. Acha que sou o tipo da m ulher econôm ica. E, naturalm ente, Peter e eu, desde então, tem os vivido com ele, que cobre todas as nossas despesas. Portanto, nunca tinha m otivo para preocupações.
E acrescentou calm am ente:
— Tem os vivido com o um a fam ília durante todos esses anos. Só que... para ele, sabe (ou você não vê) nunca sou a viúva de Frank, m as a esposa de Frank.
A Sra. Bantry com preendeu a im plicação.
— Quer dizer que nunca aceitou a m orte deles?
— Não. Ele tem sido m aravilhoso. Triunfou sobre a horrível tragédia recusando-se a reconhecer a m orte. Mark é o esposo de Rosam und e eu sou a esposa de Frank e em bora Frank e Rosam und não estej am aqui conosco, eles ainda existem .
— É um m aravilhoso triunfo da fé — disse a Sra. Bantry adm irada.
— É um fato. E assim vivíam os, anos após anos. Mas de repente, neste verão, algum a coisa estranha com eçou a tom ar conta de m im . Eu m e senti... m e senti rebelde. É difícil de explicar, m as eu não queria pensar m ais em Frank! Tudo estava acabado, m eu am or por ele e m inha dor por sua m orte. Foi algo que existiu e que não existia m ais... É difícil descrever. É com o se eu quisesse recom eçar tudo de novo. Eu queria ser eu, Addie, ainda razoavelm ente j ovem , forte e capaz de j ogar, nadar e dançar. Eu queria ser um a pessoa. Até Hugo (você conhece Hugo Mclean?) de quem gosto e que quer casar-se com igo, m as é claro, nunca pensei nisso. Mas neste verão, comecei a pensar nele, em bora sem levar a sério, m as só vagam ente...
Ela parou e m eneou a cabeça.
— E assim , acho que é verdade. Eu m e descuidei de Jefferson. Não quero dizer que realmente o tivesse abandonado, m as m inha m ente e m eus pensam entos não estavam com ele. Quando via Ruby distraindo-o, até que gostava. Isso m e deixava m ais livre para fazer o que eu quisesse. Nunca im aginei, é claro, que ele viesse fazer aquilo... insuflado por ela!
— E quando você descobriu?
— Fiquei aturdida... realm ente aturdida! E, infelizm ente, aborrecida tam bém .
— Eu tam bém m e aborreceria — disse a Sra. Bantry.
— Pensei em Peter, sabe. Todo o futuro de Peter depende de Jeff. Jeff praticam ente o considerava com o seu neto, m as é claro que não era seu neto. Não havia nenhum parentesco. E pensar que ia ser... deserdado! — suas m ãos firm es e bem feitas faziam trem er a parte do colo onde estavam apoiadas. — E tudo isso por causa de um a atoleim ada caçadora de níqueis. Oh! Eu poderia tê-la m atado!
Ela parou, acabrunhada. Seus lindos olhos castanhos encontraram com os da Sra. Bantry com um a expressão de súplica.
— Que coisa horrível de dizer! — exclamou.
Hugo Mclean, que se tinha aproxim ado por detrás, sem ser percebido, perguntou:
— O que é horrível de dizer?
— Assente-se, Hugo. Conhece a Sra. Bantry.
Mclean j á tinha cum prim entado a Sra. Bantry e repetiu a pergunta de m odo pausado e insistente.
— O que é horrível de dizer?
— Que eu gostaria de ter m atado Ruby Keene — respondeu Addie Jefferson.
Mclean refletiu por uns dois m inutos. Em seguida disse:
— Não, se eu fosse você não diria isso. Talvez fosse m al interpretado.
Seus olhos, olhos cinza, firm es e refletidos, encararam -na significativam ente.
— Você precisa controlar-se, Addie — disse ele.
Havia um tom de advertência em sua voz.
* * *
Quando Miss Marple saiu do hotel e veio j untar-se à Sra. Bantry poucos m inutos depois, Hugo Mclean e Adelaide Jefferson cam inhavam j untos na direção do m ar.
Miss Marple, assentado-se, observou:
— Ele parece m uito dedicado.
— Tem sido fiel há anos — disse a Sra. Bantry. — É daquele tipo de hom ens.
— Eu sei. Com o o Maj or Bury. Viveu atrás de um a viúva anglo-indiana durante dez anos. Era m otivo de chacota entre as am igas dela! No fim ela aceitou m as, infelizm ente, dez dias antes de se casarem , fugiu com o m otorista! Era tam bém um a m ulher bonita e de m odo geral tam bém ponderada.
— As pessoas fazem coisas esquisitas — concordou a Sra. Bantry. — Eu gostaria de que você estivesse aqui agora m esm o, Jane. Addie Jefferson estava-m e contando sua vida. Com o seu m arido acabou com a sua fortuna, e com o esconderam o fato do Sr. Jefferson. E então, que neste verão, com eçou a ver as coisas de m odo diferente...
Miss Marple assentiu com um gesto da cabeça.
— Sim . Ela se rebelou contra sua escravidão ao passado, não foi? Afinal de contas, há tem po para tudo. Não se pode viver eternam ente encerrado entre quatro paredes. Suponho que a Sra. Jefferson as tenha derrubado e despido suas vestes de viúva e que seu sogro, é claro, não tenha gostado disso. Sentiu-se abandonado ao relento, em bora não acredite por um só instante que tenha constatado quem a instigou a isso. Não obstante, certam ente não teria gostado. E assim , naturalm ente, com o o velho Badger quando sua esposa se envolveu com o espiritism o, estava apenas m aduro para o que aconteceu. Qualquer j ovem de relativa sim patia que o percebesse ter-se-ia aproveitado.
— Você acha, Jane — perguntou a Sra. Bantry, — que aquela prim a, Josie, a teria trazido deliberadam ente... que era um com plô de fam ília?
Miss Marple m eneou a cabeça.
— Não creio, não creio nisso de m odo algum . Não acho que Josie sej a dotada de tal inteligência que possa prever as reações das pessoas; é um tanto obtusa nesse sentido. É dotada daquela espécie de m ente astuta, lim itada e prática que nunca prevê o futuro e geralm ente se surpreende com o m esm o.
— Parece que todos foram tom ados de surpresa — disse a Sra. Bantry. — Addie e Mark Gaskell tam bém , ao que parece.
Miss Marple sorriu.
— Ouso dizer que ele tam bém tem suas próprias dificuldades. Um tipo atrevido, de olhar vago! Não é hom em para viver curtindo as dores da viuvez durante m uitos anos, por m ais que tivesse querido bem à esposa. Chego a pensar que estão am bos im pacientes, sob o j ugo da eterna lem brança que o Sr. Jefferson lhes im põe.
— Só que é m ais fácil para os hom ens, é claro — acrescentou Miss Marple m aliciosam ente.
* * *
Naquele m esm o instante Mark estava confirm ando esse j uízo sobre si m esm o em conversa com Henry Clithering.
Com a franqueza característica, Mark fora direto ao assunto.
— Com eço a perceber — dizia ele — que sou o suspeito núm ero 1 para a Polícia! Andaram investigando m inhas dificuldades financeiras. Estou falido, sabe, ou quase falido. Se o querido velho Jefferson m orrer, conform e se espera dentro de um ou dois m eses, e Addie e eu dividirm os a gaita tam bém de acordo com o program ado, tudo estará bem . Na realidade, tenho m uitas dívidas... Se vier o colapso, será terrível! Se puder protelar, a coisa será com pletam ente diferente... chegarei ao apogeu e serei um hom em rico.
— O senhor é um aventureiro, Sr. Mark — disse Clithering.
— Sem pre fui. Arriscar tudo, eis o m eu lem a! Sim , foi sorte m inha que alguém tenha estrangulado aquela pobre m enina. Eu não fiz isso. Não sou estrangulador. Não creio que fosse capaz de m atar alguém . Sou um tipo sereno. Mas não creio que possa levar a Polícia a acreditar nisso! Devo ser para eles a resposta à oração do detetive! Eu tinha um m otivo, estava no local, não sou portador de altos escrúpulos m orais! Não posso com preender por que não estou ainda na cadeia! Aquele Inspetor m e olhou com um olhar irritante.
— Você conseguiu um a coisa útil, um álibi.
— Um álibi é a coisa m ais duvidosa do m undo! Nenhum a pessoa inocente j am ais teve um álibi! Além disso, tudo depende da hora do crim e, ou de coisa sem elhante, e pode estar certo de que, se três m édicos afirm am que a m oça foi m orta à m eia-noite, no m ínim o outros seis haverão de j urar que foi m orta às cinco da m anhã... e onde estaria então m eu álibi?
— De qualquer m aneira você não precisa levar isso a sério.
— Um negócio de m au gosto, não acha? — perguntou Mark em tom de gracej o. — Realm ente, nada disso m e abala. O negócio é com o assassino! E, sabe, no fundo lam ento por causa do velho Jeff. Lam ento. Mas foi a m elhor m aneira, por pior que tenha sido o choque, do que se a tivesse ele próprio desm ascarado.
— O que é que quer dizer se a tivesse desm ascarado?
Mark piscou os olhos.
— Para onde ela foi naquela noite? Aposto o que quiser que foi encontrar-se com um hom em . Jeff não teria gostado disso. Não teria gostado de m odo algum . Se tivesse descoberto que ela o estava enganando, que não era aquela coisinha tagarela e inocente com o parecia, bem ... m eu sogro é um tipo bastante esquisito. É um hom em de m uito autocontrole, m as aquele autocontrole pode rom per-se. E, nesse caso, cuidado!
Henry Clithering olhou curiosam ente para Mark.
— Você gosta dele ou não?
— Gosto m uito dele, m as ao m esm o tem po tenho m eus ressentim entos. Procurarei explicar. Conway Jefferson é um suj eito que gosta de dom inar todos os que o cercam . É um déspota benevolente, bondoso, generoso e afetivo, m as é o m úsico e todos têm de dançar a m úsica que ele tocar.
Mark Gaskell fez um a pausa.
— Eu adorava m inha esposa. Nunca am arei alguém com o a am ei. Rosam und era toda alegria, sorriso e flores, e quando ela m orreu eu m e senti com o um lutador que recebeu um nocaute no ringue. Mas o árbitro ficou m arcando ponto o tem po todo. Afinal de contas, eu sou hum ano. Gosto de m ulheres. Não quero casar-m e de novo, de m odo algum . Está bem . Tenho de ser discreto m as, em com pensação, tenho tido m inhas horas de felicidade. Mas a pobre da Addie não tem . Addie é realm ente um a m ulher bonita É o tipo da m ulher com quem todo hom em gostaria de casar, e não dorm ir com ela. Dê-lhe m eia oportunidade e ela se casará novam ente. E será m uito feliz e fará feliz seu com panheiro. Mas o velho Jeff a vê sem pre com o a esposa de Frank e a condicionou de tal m odo que ela assim se considera. Ele não sabe, m as tem os estado num a prisão. Eu a rom pi, discretam ente, há m uito tem po. Addie a rom peu neste verão e isso abalou o velho Jeff. Desintegrou seu m undo. Resultado: Ruby Keene.
Mark irreprim ivelm ente com eçou a cantar:
“Mas ela está enterrada e, oh, Eu não estou”
— Vam os beber algum a coisa, Clithering.
Não era de surpreender, refletiu Henry Clithering, que Mark fosse obj eto de suspeição para a Polícia.