Um Corpo na Biblioteca
Capítulo 13
DR. METCALF ERA UM dos m édicos m ais conhecidos de Danem outh. Não tinha um a m aneira agressiva de tratar de doentes acam ados, m as sua presença no quarto do enferm o tinha, invariavelm ente, o efeito de estím ulo. Era um hom em de idade m adura, com um a voz serena e agradável.
Ouvia atentam ente o Inspetor Harper e respondia às suas perguntas com serenidade e precisão.
Harper perguntou:
— Então, Dr. Metcalf, posso aceitar com o verdadeira a inform ação da Sra. Jefferson sobre o estado de saúde de seu sogro?
— Sim , seu estado de saúde é precário. Há m uitos anos ele vem desenvolvendo um esforço hercúleo querendo viver com o um hom em norm al. Por isso tem vivido num ritm o m uito m ais intenso do que o de um hom em norm al na sua idade. Recusa-se a descansar, a não fazer esforço, a ter calm a, enfim , a aceitar qualquer outro conselho dessa espécie que eu e seus outros m édicos lhe tem os dado. O resultado é que o hom em é um a m áquina sobrecarregada. Coração, pulm ões, pressão sanguínea, tudo está supertenso.
— Quer dizer que o Sr. Jefferson tem -se recusado a ouvir suas recom endações?
— Sim . Não sei se devo censurá-lo. Não digo isso a m eus pacientes, Inspetor, m as um hom em pode tam bém destruir-se pela inação. Muitos de m eus colegas fazem assim e, pode acreditar-m e, não é um m au m étodo. Num lugar com o Danem outh a gente vê exatam ente o contrário, inválidos apegando-se à vida, com m edo de se exercitarem dem ais, com m edo de apanhar um a corrente de ar, com m edo de germ es, de um a alim entação im prudente!
— Espero que tudo isso sej a verdade — disse o Inspetor Harper. — O im portante então é o seguinte: Conway Jefferson é bastante forte, do ponto de vista físico, ou, digam os, falando de m úsculos. A propósito, o que é que ele pode fazer realm ente?
— Tem m uita força nos braços e nos om bros. Era um hom em m uito vigoroso antes do acidente. É extrem am ente ágil no m anej o de sua cadeira de rodas, e com a aj uda de m uletas pode locom over-se pelo quarto, por exem plo, da cam a para a cadeira.
— Não seria possível a um aleij ado com o o Sr. Jefferson andar com pernas artificiais?
— No seu caso, não. Sua espinha dorsal foi atingida.
— Com preendo. Deixe-m e resum ir de novo. Jefferson é bastante forte do ponto de vista m uscular. Sente-se bem e tudo m ais.
Metcalf assentia com a cabeça.
— Mas seu coração vai m al. Qualquer superexcitação ou esforço, ou um susto ou um súbito alarm e lhe poderia ser fatal. Estou certo?
— Mais ou m enos. O excesso de esforço o está m atando lentam ente, pois não se quer dar por vencido quando fica cansado. Isso agrava seu estado cardíaco. É im provável que o excesso de esforço venha a m atá-lo de repente. Mas um a em oção forte ou um susto o poderia fazer. Foi por isso que adverti sua fam ília.
O Inspetor Harper disse calm am ente:
— Mas na realidade o choque não o m atou. Quero dizer, doutor, que não poderia passar por um a em oção m ais forte do que esse negócio. E, no entanto, está vivo!
Dr. Metcalf encolheu os om bros.
— Eu sei. Mas se o senhor tivesse m inha experiência, Inspetor, saberia que nesses casos é im possível fazer um prognóstico com precisão. Pessoas que deviam m orrer de susto e de frio não m orrem de susto nem de frio etc. etc. A estrutura hum ana é m ais forte do que se pode im aginar. Além disso, na m inha experiência, um choque físico é m uitas vezes m ais fatal do que um choque mental. Num a linguagem elem entar, um a porta que se bate subitam ente teria m ais possibilidade de m atar o Sr. Jefferson do que a notícia da m orte trágica de um a m oça por quem tivesse particular afeição.
— Poderia explicar-m e por quê?
— O golpe de um a notícia ruim quase sem pre suscita um a reação de defesa. Entorpece quem o recebe. A pessoa, de início, não a assim ila. A plena constatação leva um pouco de tem po. Mas um a porta que se bate, alguém que salta para fora de um arm ário, o súbito ataque de um carro quando se atravessa a rua, tudo isso é de ação im ediata. O coração parece querer sair do peito, com o diz o povo.
O Inspetor Harper perguntou em voz subm issa:
— Mas, pelo visto, a m orte do Sr. Jefferson poderia facilm ente ter sido causada pelo choque da m orte da garota?
— Oh, com certeza — o m édico olhava indagadoram ente para o Inspetor. — O senhor acha...
— Eu não sei o que eu acho — disse o Inspetor agitado.
* * *
— Mas o senhor adm ite que as duas coisas se aj ustam m uito bem — dizia ele pouco depois a Henry Clithering. — Matar dois coelhos de um a caj adada. Prim eiro, a m oça; depois, a notícia de sua m orte m ataria tam bém o Sr. Jefferson, antes que tivesse qualquer oportunidade de alterar seu testam ento.
— O senhor acha que o m odificará?
— O senhor teria m ais condições de saber isso do que eu. O que diz a respeito?
— Não sei. Antes de Ruby Keene entrar em cena, fiquei sabendo, por acaso, que deixara sua fortuna para ser dividida entre Mark Gaskell e a Sra. Jefferson. Não sei por que teria m udado de pensam ento. Mas é um direito que lhe assiste. Poderia deixar seu dinheiro para quem quisesse, para um a Casa de Gatos ou para subsidiar dançarinos profissionais.
O Inspetor Harper concordou.
— A gente nunca sabe o que se passa na cachola de um suj eito, sobretudo quando não está preso a qualquer obrigação m oral de com o dispor de sua fortuna. E nesse caso, nenhum a relação de parentesco.
— Ele gosta m uito do m enino Peter — disse Henry.
— Acha que o considera com o neto? O senhor deve saber disso m elhor do que eu.
— Não, acho que não — respondeu Clithering com voz pausada.
— Há outra coisa que gostaria de lhe perguntar, Sr. Clithering. É sobre algo que não tenho a m ínim a condição de constatar. Trata-se de am igos seus e com o tais o senhor deve saber. Qual seria o grau de afeição do Sr. Jefferson pelo Sr. Gaskell e pela j ovem Sra. Jefferson?
Henry Clithering franziu a testa.
— Não sei se o entendi bem , Inspetor.
— É o seguinte, Sr. Clithering: à parte o parentesco do Sr. Jefferson com seu genro e com sua nora, com o os considera com o pessoas?
— Ah, com preendo o que quer dizer.
— Exato. Ninguém põe em dúvida que o Sr. Jefferson lhes sej a m uito afeiçoado. Mas, a m eu ver, seu apego se explica pelo fato de os considerar, respectivam ente, m arido e esposa de sua filha e de seu filho. Mas, suponham os, por exem plo, que um deles, ou os dois, se casem ?
Henry Clithering refletiu e disse:
— É um ponto interessante a ser levantado. Não sei. Estou inclinado a acreditar, é um a m era opinião, que isso alteraria m uito sua atitude. Não iria querer-lhe m al por isso, não guardaria rancor, m as acho que não teria m ais interesse por eles.
— Em am bos os casos?
— Acho que sim . No caso do Sr. Gaskell, tenho quase certeza. No caso da Sra. Jefferson tam bém , m as não estou tão certo. Tenho para m im que gosta dela por causa dela m esm a.
— O sexo talvez tenha algo a ver com isso — disse o Inspetor Harper, sapientem ente. — É m ais fácil para ele considerá-la com o um a filha do que ao Sr. Gaskell com o filho. Isso é válido para am bos os sexos. As m ulheres aceitam um genro com m ais facilidade, m as é raro um a m ulher considerar a esposa de seu filho com o um a filha.
O Inspetor Harper continuou:
— O senhor se incom odaria se continuássem os a discorrer sobre o assunto no pátio de tênis? Miss Marple está ali assentada. Quero pedir a ela para fazer um a coisa para m im . Para dizer a verdade, quero envolver a am bos no m esm o serviço.
— Em que sentido, Inspetor?
— Para conseguir um m aterial que eu próprio não posso conseguir. Gostaria que o senhor se encarregasse do Edwards.
— Edwards? O que quer com ele?
— Tudo que possa im aginar! Tudo que sabe ou que acha!
Sobre as relações entre os vários m em bros da fam ília, sua opinião sobre o negócio de Ruby Keene. Problem as íntim os. Ninguém m elhor do que ele está a par de tudo. Aposto com o está! E a m im não diria nada. Mas ao senhor contará tudo. E algum a coisa poderia resultar daí. Isso tudo, é claro, se o senhor não se opuser.
— Não m e oponho — disse Henry Clithering som briam ente. — Fui cham ado urgentem ente para apurar a verdade. Tenho de fazer o possível.
E acrescentou:
— E qual será o serviço de Miss Marple?
— Junto a algum as m oças... Algum as daquelas m oças-guias de turism o. Já reunim os um a m eia dúzia delas, as m ais íntim as de Pam ela Reeves. É possível que saibam de algum a coisa. Sabe, estive pensando. Parece-m e que, se aquela m enina tivesse realm ente ido à Casa Woolworth, teria tentado persuadir um a das outras m oças a acom panhá-la. As m oças, em geral, gostam de fazer com pras com am igas.
— É, acho que o senhor tem razão,
— Por conseguinte, é possível que a Casa Woolworth tivesse sido apenas um pretexto. Quero saber realm ente onde a m oça teria ido. Talvez tenha deixado transpirar algum a coisa. Se isso aconteceu, Miss Marple é a pessoa indicada para arrancar a inform ação das m oças. Tenho para m im que ela j á sabe de algum a coisa, m ais do que eu. E, de qualquer m aneira, elas ficariam assustadas com a Polícia.
— Parece-m e a espécie de problem as de aldeia próprios da rua de Miss Marple. Ela é m uito sagaz, sabe.
O Inspetor sorriu e disse:
— Acho que o senhor tem razão. Nada lhe escapa.
Miss Marple levantou a vista à aproxim ação deles e os recebeu com vivo interesse. Ouviu o pedido do Inspetor e aceitou im ediatam ente a incum bência.
— Gostaria m uito de aj udá-lo, Inspetor, e acho que talvez possa ser útil de algum a form a. Ver o que se passa na Escola Dom inical, sabe, nas Brownies, na associação das j ovens guias e no Orfanato, ali perto. Faço parte da com issão, sabe, e m uitas vezes tenho um a conversinha com a diretora. E depois, as em pregadas. Geralm ente tenho em pregadas m uito j ovens. Oh, sim , tenho m uita experiência para saber quando um a j ovem está dizendo a verdade e quando esconde algum a coisa.
— Realm ente a senhora é perita no assunto — disse Henry Clithering.
Miss Marple lhe lançou um olhar reprobativo e continuou:
— Oh, por favor, não zom be de m im , Sr. Henry.
— Nem m e passou pela idéia zom bar. A senhora é que tem sorrido de m im m uitas vezes.
— A gente vê tantas coisas ruins num a aldeia — m urm urou Miss Marple, num tom de explicação.
— A propósito — disse Henry, — consegui a inform ações que a senhora m e pediu. O Inspetor m e disse que havia aparas de unha na cesta de papéis de Ruby.
— Havia? — perguntou Miss Marple pensativa. — Então é por isso...
— Por que a senhora queria saber, Miss Marple? — perguntou o Inspetor.
— Era um a das coisas que... bem , pareciam estranhas, quando vi o corpo. Havia algo de errado nas m ãos e, inicialm ente, não podia atinar por quê. Depois m e lem brei de que as m oças se pintam m uito, e em geral quase todas se pintam exageradam ente e têm unhas com pridas. Sei tam bém que há m oças em toda parte que roem unha. Um hábito m uito difícil de ser dom inado. Mas m uitas vezes a vaidade aj uda m uito. Não obstante, presum i que aquela m oça não se cuidava m uito. Depois veio o garotinho Peter, o senhor sabe quem é. Disse um a coisa que dem onstrava que as unhas dela eram compridas, só que tinha quebrado um a. Então, é claro, preferiu aparar todas as outras, pelo m enos para salvar as aparências. Daí por que perguntei pelas aparas e o Sr. Henry inform a que foram encontradas.
— A senhora disse agora m esm o “uma das coisas que m e pareceram estranhas quando vi o corpo” — observou Henry Clithering. — Havia algo m ais?
— Oh, sim ! Havia o vestido. O vestido estava todo errado! — respondeu Miss Marple energicam ente.
Am bos os policiais olharam para ela curiosos.
— Por quê?
— Bem , sabe, era um vestido velho. Josie m esm o disse que o vestido era velho e eu pude ver por m im m esm a que estava surrado e rasgado. Ora, tudo isso é anorm al.
— Não vej o por quê.
Miss Marple enrubesceu um pouco.
— Bem , a idéia é de que Ruby Keene trocou de roupa e saiu para se encontrar com alguém por quem estaria “gam ada”, na linguagem de m eus sobrinhos. Não é assim ?
O Inspetor deu um a piscadela.
— É um a hipótese. Teria um encontro com algum nam orado, com o se diz.
— Então por que — perguntou Miss Marple — iria vestir um vestido surrado?
O Inspetor coçou a cabeça pensativo.
— Com preendo seu ponto de vista. A senhora acha que deveria ter usado um vestido novo?
— Acho que teria usado o m elhor que tivesse. É assim que fazem as m oças.
Henry Clithering se interpôs.
— Está certo, m as olhe aqui, Miss Marple. Suponham os que tenha saído para esse rendez-vous; saído em carro aberto ou que, talvez, fosse cam inhar a pé por um terreno acidentado. Então, não iria arriscar-se a suj ar um vestido novo e por isso botou um velho.
— O que seria m uito sensato — ponderou o Inspetor.
Miss Marple voltou-se para ele e falou com anim ação.
— Muito sensato seria vestir calças com pridas e um pullover. É isso, naturalm ente (não quero ser esnobe, m as tenho para m im que sej a inevitável), o que faria um a m oça... de nossa classe. Um a m oça bem educada — continuou Miss Marple, reforçando seu argum ento — é sem pre m uito ciosa de usar roupas próprias para um a ocasião. Quero dizer que, por m ais quente que sej a o dia, um a m ulher de certa classe nunca vestiria um vestido de seda florido.
— E qual seria o vestido adequado no caso? — perguntou Henry.
— Se fosse encontrar-se com ele no interior do hotel ou em algum a parte em que se usa vestido toalete, usaria seu m elhor vestido de toalete, é claro. Mas fora, ela se sentiria ridícula com vestido toalete, e por conseguinte usaria a roupa esporte m ais atraente.
— Isso em se tratando de um a j ovem da sociedade, m as Ruby Keene...
Miss Marple o interrom peu.
— Ruby, naturalm ente, não era m oça da sociedade ou, para falar de m odo m ais claro, Ruby não era um a senhora. Pertencia à classe que usa qualquer vestido para qualquer ocasião. No ano passado, sabe, tivem os um piquenique em Scrantor Rocks. Era curioso observar o vestido que as m oças usavam . Roupas de fular, sapatos de verniz e chapéus bem trabalhados. Para escalar rochas, toj os e urzes. E os j ovens com seus m elhores ternos. Isso é geralm ente com um e as m oças não parecem constatar que os shorts são m uito im próprios, a m enos que sej am m uito esbeltas.
— E a senhora acha que Ruby Keene?... — perguntou o Inspetor pausadam ente.
— Acho que teria conservado o vestido que estava usando... seu m elhor vestido cor-de-rosa. Ela o teria trocado se tivesse algum vestido ainda m ais novo para usar.
— E qual é sua explicação, Miss Marple? — perguntou o inspetor.
— Não tenho nenhum a... ainda. Mas não posso deixar de pensar que sej a im portante...
* * *
Ray m ond Starr estava acabando de dar um a aula na quadra de tênis.
Um a senhora gorda e de m eia-idade pronunciou alguns guinchos apreciativos, apanhou um a j aqueta de lã azul celeste e saiu na direção do hotel.
Ray m ond lhe gritou algum as palavras alegres.
Em seguida voltou-se para os bancos onde estavam assentados três espectadores. As bolas balançavam num a cesta em sua m ão, enquanto sustentava a raquete em baixo do braço. A expressão alegre e sorridente em seu rosto desapareceu com o se apagada pela esponj a de um a lousa. Parecia cansado e preocupado.
Aproxim ando-se deles disse:
— Esta está term inada.
Em seguida o sorriso estam pou-se de novo em seu rosto, aquele sorriso encantador, j uvenil e expressivo, que com binava tão bem com sua tez bronzeada pelo sol, sua elegância e agilidade.
Henry Clithering perguntava-se quantos anos teria Ray m ond: vinte e cinco, trinta ou trinta e cinco? Era im possível dizer com certeza.
— Ela nunca j ogará bem — disse Ray m ond m eneando um pouco a cabeça.
— Tudo isso deve ser bem aborrecido para o senhor — disse Miss Marple.
— Às vezes. Especialm ente no fim do verão. Durante algum tem po a gente se anim a um pouco com o pensam ento do salário, m as no fim até isso deixa de ser estim ulante!
O Inspetor Harper levantou-se.
— Virei buscá-la dentro de m eia hora, Miss Marple se tudo correr bem , certo?
— Ótim o, obrigada. Estarei pronta.
Harper saiu. Ray m ond ficou olhando-o.
— Não se incom odam se m e assentar um pouco aqui? — perguntou.
— De m odo algum — disse Henry Clithering. — Aceita um cigarro?
Henry ofereceu sua carteira, perguntando-se por que tinha agido assim , um a vez que tinha um ligeiro sentim ento de antipatia por Ray m ond Starr. Seria só por se tratar de um dançarino e instrutor de tênis? Se positivo, não era o tênis, m as era a dança. O inglês, concluiu Henry Clithering, tinha um a especial antipatia por hom em que dança bem dem ais! Aquele sujeito se movimenta com tanta elegância! Ramon... Raymond... como é mesmo seu nome? Abruptam ente fez a pergunta.
— Ram on foi m eu prim eiro nom e profissional. Ram on e Josie... efeito espanhol, sabe? — Mas havia um certo preconceito contra estrangeiros, por isso tornei-m e Ray m ond, m uito britânico...
— E seu nom e verdadeiro é diferente? — perguntou Miss Marple.
Ray m ond Starr sorriu para ela.
— Na realidade cham o-m e Ram on. Minha avó era argentina, sabe. (Isso explicava aquele gingar das cadeiras, pensou Henry Clithering). Mas m eu nom e é Thom as.
Voltou-se para Henry Clithering.
— O senhor é de Devonshire, não é? De Stane? Meu pessoal m ora ali por perto, em Alsm onston. — O rosto de Henry Clithering ilum inou-se.
— O senhor é um dos Starrs de Alsm onston? Nunca poderia supor.
— É claro que não.
Havia um pouco de am argura no seu tom de voz.
Henry Clithering disse em baraçado:
— É um a questão de pouca sorte.
— Porque a casa foi vendida depois de pertencer à fam ília durante três séculos? Certam ente. E m ais ainda, nosso pessoal teve de se ir em bora, suponho. Nós sobrevivem os à nossa utilidade. Meu irm ão m ais velho foi para Nova York. É editor. Está indo bem . O restante se espalhou por todo o m undo. Eu diria que não é fácil se conseguir hoj e em dia um em prego quando não se tem nada para dizer sobre si m esm o a não ser que se tem um diplom a de escola pública! Às vezes se tem sorte e se consegue o em prego de recepcionista num hotel. A gravata e as boas m aneiras valem m uito ali. O único em prego que pude conseguir foi o de exibidor num a casa de ferragens. Vender lindos banheiros de porcelana cor de pêssego e de lim ão. Salas enorm es de exposição, m as com o nunca conseguia saber o preço do diabo das m ercadorias e nem com o poderia entregá-las logo, fui dispensado. A única coisa que eu sabia fazer era dançar e j ogar tênis. Em preguei-m e num hotel na Riviera. Ganha-se m uito ali. Até que estava indo bem . Então por acaso ouvi falar um velho Coronel, realm ente velho, inglês até a m edula e sem pre falando de Poona. Ele procurou o gerente e lhe disse com toda a altura de sua voz: “Onde está o gigolô? Preciso pegar aquele gigolô. Minha esposa e m inha filha querem dançar, sabe. Onde está aquele suj eito? O que é que está fazendo por aí? Preciso do gigolô.”
Ray m ond continuou.
— Era dem ais. Parecia bobagem , m as abandonei o em prego. Vim para cá. Ganha-se m enos m as o trabalho é m ais agradável. Ensinar tênis a m ulheres gordas que nunca, j am ais, aprenderão a j ogar tênis. Isso e ainda dançar com m oças que ninguém quer e vivem tom ando chá de cadeira, filhas de fregueses ricos. É a vida. Desculpe-m e por essa história de m á sorte!
Deu um a risada, m ostrando seus dentes alvos e pregueando o canto dos olhos. Pareceu de repente saudável, alegre e anim ado.
— Gostaria de conversar um pouco com o senhor. Pode ser?
— Sobre Ruby Keene? Não creio que lhe possa ser útil. Não sei quem a m atou. Sei m uito pouco a seu respeito. Ela não confiava em m im .
— O senhor gostava dela?
— Não m uito. Mas não a antipatizava tam pouco.
Sua voz era tranquila, despreocupada.
— De m odo que o senhor não tem nenhum a sugestão a fazer? — perguntou Clithering.
— Lam entavelm ente acho que não... Teria dito a Harper se tivesse. Parece-m e exatam ente um a daquelas coisas! Um crim e m esquinho, sórdido, sem m otivo, sem pistas.
— Duas pessoas têm um m otivo — disse Miss Marple.
— É m esm o? — Ray m ond parecia surpreso.
Miss Marple olhava insistentem ente para Henry Clithering que disse a contra-gosto:
— Sua m orte provavelm ente beneficia a Sra. Jefferson e o Sr. Gaskell em cinquenta m il libras.
— O quê? — Ray m ond parecia realm ente espantado m ais do que espantado, aturdido. — Oh, m as isso é absurdo, absolutam ente absurdo. A Sra. Jefferson! Nenhum deles pode ter tido algo a ver com isso. Seria inconcebível pensar num a coisa dessas.
Miss Marple tossiu e disse gentilm ente.
— Sinto m uito, m as o senhor parece um idealista.
— Eu? — deu um a risada. — Eu não! Sou cínico e insensível.
— O dinheiro — disse Miss Marple — é um m otivo poderosíssim o.
— Talvez — disse Ray m ond acrem ente. — Mas que um ou outro tenha estrangulado um a j ovem friam ente...
Ray m ond m eneava a cabeça.
Depois levantou-se.
— Lá está a Sra. Jefferson. Vem para sua lição de tênis. Está atrasada — seu tom de voz era divertido. — Dez m inutos de atraso!
Adelaide Jefferson e Hugo Mclean vinham cam inhando rapidam ente na direção deles.
Com um sorriso de desculpa por seu atraso, Addie Jefferson dirigiu-se para a quadra. Mclean assentou-se no banco. Depois de perguntar polidam ente se Miss Marple não se incom odava com a fum aça de cachim bo, acendeu-o e fum ou em silêncio durante algum tem po, observando criticam ente as duas figuras a se m ovim entarem na quadra de tênis.
— Não posso ver por que Addie precisa de aulas — disse finalm ente. — Jogar está certo. Ninguém gosta m ais disso do que eu. Mas por que aulas?
— Para aperfeiçoar seu j ogo — disse Henry Clithering.
— Ela não j oga m al — disse Hugo. — Ao contrário, j oga bastante bem . Afinal de contas não creio que vá disputar algum cam peonato.
Ficou calado por alguns instantes, depois prosseguiu:
— Quem é esse tal de Ray m ond? De onde vêm esses instrutores? Parece-m e um tipo de ascendência latina...
— É um dos Starrs de Devonshire — disse Henry Clithering.
— O quê? Não é possível!
Henry Clithering batia com a cabeça. Era evidente que essa notícia não fora agradável para Hugo Mclean. Carregou os sobrolhos com o nunca.
— Não sei por que Addie m andou m e cham ar. Ela parece não dar a m enor im portância a tudo isso! Nunca pareceu tão bem . Por que m andou m e cham ar?
— Quando foi que ela o m andou cham ar? — perguntou Clithering com curiosidade.
— Oh, quando tudo isso aconteceu.
— Com o o senhor soube? Por telefone ou telegram a?
— Telegram a.
— Por um a questão de curiosidade, quando foi expedido?
— Na verdade, não sei.
— Quando o recebeu?
— Não sei exatam ente. Foi-m e transm itido por telefone.
— Por quê? Onde se encontrava?
— Tinha saído de Londres na tarde anterior. Estava hospedado em Danebury Head.
— Oh, tão perto daqui?
— Engraçado, não é? Recebi a m ensagem quando chegava de um a partida de golfe e vim im ediatam ente.
Miss Marple olhou para ele pensativa. Hugo Mclean parecia excitado e constrangido.
— Ouvi dizer que Danebury Head é um lugar m uito agradável e não m uito caro — disse ela.
— Não, não é caro. Nem poderia ter ido para lá se o fosse. É um lugar m uito bonito.
— Precisam os dar um passeio de carro até lá um dia desses — disse Miss Marple...
— Ah, sim ? O quê? Oh, sim , é bom .
Levantou-se.
— Preciso fazer um pouco de exercício para estim ular o apetite.
Afastou-se desaj eitadam ente.
— As m ulheres tratam m uito m al seus adm iradores fiéis — disse Henry Clithering.
Miss Marple sorriu, m as não disse nada.
— Ele lhe deu a im pressão de ser um cão fiel? — perguntou Clithering. — Eu gostaria de saber.
— Um pouco curto das idéias, talvez — respondeu Miss Marple. — Mas acho que tem possibilidades. Possibilidades certam ente lim itadas.
Henry Clithering levantou-se tam bém .
— Preciso ir andando. A Sra. Bantry está chegando para lhe fazer com panhia.
* * *
A Sra. Bantry chegou sem fôlego e assentou-se com um suspiro.
— Estive conversando com as criadas. Mas não valeu a pena.
Não consegui nada de novo! Você acha que aquela m oça poderia estar-se com portando m al no hotel e ninguém tivesse conhecim ento de nada?
— É um a observação m uito interessante, querida. Eu diria taxativam ente que não. Alguém sabe, o negócio é saber se é verdade. Mas ela deve ter sido m uito sabida nesse ponto.
A atenção da Sra. Bantry foi desviada para a quadra de tênis.
— Addie está progredindo m uito no tênis disse aprovativam ente. — Está m uito bonita. Ainda é um a m ulher atraente. Não m e adm iraria se se casasse novam ente.
— E será um a m ulher rica tam bém quando o Sr. Jefferson m orrer — disse Miss Marple.
— Oh, não fique sem pre pensando nessas coisas noj entas, Jane. Por que não decifrou ainda esse m istério? Parece que não estam os fazendo progresso algum . Eu pensei que você iria descobrir tudo imediatamente.
Havia um tom de censura em suas palavras.
— Não, ainda não, querida. Não descobri im ediatam ente, m as não precisou de m uito tem po.
A Sra. Bantry olhou para ela espantada e incrédula.
— Quer dizer que já sabe quem m atou Ruby Keene?
— Oh, sim — respondeu Miss Marple. — Já sei.
— Mas, Jane, quem é? Diga-m e im ediatam ente.
Miss Marple m eneou a cabeça firm em ente e cerrou os lábios.
— Sinto m uito, Dolly, m as não convém .
— Por que não convém ?
— Porque você é tão indiscreta. Sairia falando por aí com todo m undo. Ou, m esm o que não dissesse, deixaria perceber.
— Ah, não, não o faria. Ficaria m uda.
— As pessoas que falam assim são sem pre as últim as a cum prir o prom etido. Não convém , querida. Há ainda um longo cam inho a percorrer. Há ainda m uitas coisas obscuras. Você se lem bra de quando fui contra deixar a Sra. Partridge fazer coleta para a Cruz Verm elha e não podia dizer por quê. A razão era que torcia o nariz do m esm o m odo com o m inha em pregada o fazia quando lhe m andava pagar os livros. Sem pre os pagava com um a pequena diferença a m enos e dizia: “na próxim a sem ana cobrirei”.
Era exatam ente o que fazia a Sra. Partridge, só que num a escala m uito m aior. Setenta e cinco libras foi o que ela em bolsou indevidam ente.
— Deixe a Sra. Partridge para lá.
— Mas teria de lhe explicar. E se você prestar atenção lhe darei um a pista. A dificuldade neste caso é que todo m undo tem sido crédulo e ingênuo dem ais. Não se pode sim plesm ente dar-se o luxo de acreditar em tudo que as pessoas nos dizem . Quando há algo de suspeito, nunca acredita em nada! Sabe, conheço m uito a natureza hum ana.
A Sra. Bantry ficou calada por alguns instantes. Em seguida disse num tom de voz diferente:
— Eu disse, não foi, que, não sabia por que, não podia m e divertir com esse crim e. Um assassinato real em m inha própria casa! A espécie de coisa que não acontecerá j am ais de novo.
— Espero que não — disse Miss Marple.
— Eu tam bém . Um a vez é o bastante. Mas o crim e é meu, Jane, eu quero distrair-m e com ele.
Miss Marple lhe lançou um olhar reprobatório.
— Não acredita nisso? — perguntou a Sra. Bantry belicosam ente.
— É claro, querida, j á que você m esm a é quem o diz — respondeu Miss Marple delicadam ente.
— É, m as você nunca acredita no que as pessoas lhe dizem , não é? Acaba de dizê-lo. No fim , você tem razão — a voz da Sra. Bantry assum iu de repente um tom am argo. — Não sou tola. Você pode pensar, Jane, que não sei o que estão dizendo em toda St. Mary Mead, em todo m unicípio! Estão todos dizendo que onde há fum aça há fogo; que, se o corpo da m oça foi encontrado na biblioteca de Arthur, então Arthur deve saber de algo a respeito. Estão dizendo que a m oça era am ante de Arthur, que era sua filha ilegítim a, que estava fazendo chantagem com ele. Dizem tudo que lhes vem à cabeça. E vão continuar assim ! Arthur não vê isso; não quer ver o que está errado. Ele é tão estúpido que acha que as pessoas não podem pensar isso dele. Será desprezado e olhado de través (o que quer que isso signifique!) e ficará no ostracism o e de repente ficará horrorizado e aniquilado. Irá recolher-se com o um caram uj o e sofrer dias após dias de angústia. Foi por tudo isso que vai acontecer com ele que vim para cá: para esm iuçar tudo que pudesse! Esse crim e tem de ser solucionado! Se não o for, toda a vida de Arthur estará arruinada e não quero que isso aconteça. Não quero! Não quero! Não quero!
Fez um a pausa por alguns m inutos e disse:
— Não quero que m eu m arido sofra por algo que não fez. Esta é a única razão por que vim a Danem outh e o deixei sozinho em casa... para descobrir a verdade.
— Eu sei, querida — disse Miss Marple. — É para isso que estou aqui tam bém .