Um Corpo na Biblioteca
Capítulo 7
JÁ DO LADO DE FORA do apartam ento de Jefferson, o Inspetor Harper disse:
— Bem , aqui para nós, conseguim os um m otivo.
— Hum — disse Melchett. — Cinquenta m il libras, eh?
— Sim , Coronel. Já se tem m atado por m uito m enos
— Sim , m as...
O Coronel Melchett deixou a frase incom pleta. Harper, entretanto, o entendeu.
— Não acha que é m uito provável nesse caso? Bem , pelo que tudo indica, acho que não é nenhum deles. Mas de qualquer m aneira, tem os sem pre de adm itir a hipótese.
— Oh, sim , naturalm ente.
Harper continuou:
— Se, com o diz Jefferson, o Sr. Gaskell e a Sra. Jefferson j á estão providos e percebem um a renda considerável, não é provável que se tivessem arriscado a com eter um brutal assassinato.
— Concordo. Mas sua posição financeira terá de ser investigada, naturalm ente. Não posso dizer que sim patizei m uito com Gaskell: parece um suj eito m ordaz e inescrupuloso. Mas daí a fazer dele um assassino, a distância é m uito grande.
— Oh, sim , com o disse, não vej o probabilidade de ser nenhum deles e, considerando o que disse Josie, não vej o com o teria sido hum anam ente possível. Estavam am bos j ogando bridge desde vinte para as onze até m eia-noite. Não, a m eu ver, há outra possibilidade.
— Algum nam orado de Ruby Keene? — perguntou Melchett.
— Exatam ente, Coronel. Algum j ovem entediado, não m uito certo da cabeça. Alguém , diria, que a conhecesse antes de ela vir para cá. Esse plano de adoção, se teve conhecim ento disso, pode ter desencadeado os fatos. Vendo que ia perdê-la, que Ruby ia ser levada para um a esfera de vida totalm ente diferente da sua, perdeu o j uízo e ficou cego de raiva. Ele a teria convidado para sair e encontrar-se com ele na noite passada; teve um a briga com ela por causa da adoção, perdeu o controle e a assassinou.
— E com o teria ido parar na biblioteca de Bantry ?
— Acho m uito viável, Estavam fora, digam os, no carro dele. Ele voltou a si, viu o que tinha feito e sua prim eira preocupação teria sido de livrar-se do corpo. Digam os que estivesse no m om ento perto do portão de um a casa grande. Ocorreu-lhe a idéia de que se fosse encontrada ali, o cerco ao crim inoso seria centralizado em torno da casa de seus m oradores e ele ficaria com odam ente fora da história. Ruby era de pequena estatura. Poderia carregá-la facilm ente. Tinha um form ão no carro. Força um a j anela e j oga sua vítim a em cim a do tapete. Sendo um caso de estrangulam ento, não havia nem sangue nem sinais de luta para incrim iná-lo. Com preende o que quero dizer, Coronel?
— Oh, sim , Harper. É perfeitam ente plausível. Mas há ainda um a coisa a ser feita. Cherchez l’homme.
— O quê? Oh, boa idéia, Coronel.
O Inspetor Harper aplaudiu habilm ente a brincadeira de seu superior, em bora, devido à perfeição do sotaque francês do Coronel Melchett, quase não tivesse com preendido o sentido das palavras.
* * *
— Será... quero dizer, será que eu poderia falar com os senhores por um instante.
Era George Bartlett que abordava assim de surpresa os dois policiais.
O Coronel Melchett, que não sim patizara com Bartlett e estava ansioso para ver o resultado das investigações no quarto da m oça, a cargo do Inspetor Slack, e para conversar com as cam areiras, respondeu asperam ente:
— O que é que há? Vam os, o que é que há?
O j ovem Bartlett recuou uns dois passos, abrindo e fechando a boca, im itando inconscientem ente um peixe num aquário.
— Bem ... talvez não sej a m uito im portante, sabe. Achei que devia falar com os senhores. Não consigo achar o m eu carro.
— O quê? Não consegue achar o seu carro?
— Quer dizer que teria sido roubado? — perguntou o Inspetor Harper.
George Bartlett, gaguej ando, explicou que o que queria dizer era que não sabia onde estava o autom óvel.
— O senhor acha que foi roubado? — perguntou o Inspetor Harper.
George Bartlett voltou-se, grato para a voz m ais branda.
— É exatam ente isso. O senhor sabe. Talvez, sabe, alguém o tenha apanhado só por brincadeira, sem querer fazer dano. Acho que o senhor m e com preende
— Quando o senhor o viu pela últim a vez, Sr. Bartlett?
— Bem , estava procurando lem brar-m e. É engraçado quando a gente procura lem brar-se das coisas, não é?
O Coronel Melchett respondeu friam ente:
— Não, pelo m enos para um a inteligência norm al. Tenho a im pressão de ter ouvido o senhor dizer há poucos instantes que o carro estava no pátio do hotel na noite passada...
Bartlett foi bastante ousado para interrom per:
— Ah, estava?
— O que é que o senhor quer dizer por “estava?” O senhor disse que estava.
— Bem , quero dizer que achava que estivesse. Quero dizer, bem , eu não saí para ir ver, sabe.
O Coronel Melchett suspirou. Reuniu toda sua paciência e disse:
— Vam os esclarecer isso de um a vez. Quando foi que o senhor viu, viu realm ente, seu carro pela últim a vez A propósito, qual é sua m arca?
— Minoan 14.
— E quando o viu pela últim a vez?
O pom o-de-adão de George Bartlett m ovia-se convulsivam ente para cim a e para baixo.
— Estava procurando lem brar-m e. Saí com ele ontem antes do alm oço. Ia sair para um a volta à tarde. Mas senhor sabe com o é, acabei indo dorm ir. Então, depois do chá, fui j ogar tênis e em seguida tom ei um banho.
— E o carro estava então no pátio do hotel?
— Acho que sim . Quero dizer, foi lá que o deixei. Pensava, sabe, em levar alguém para um passeio. Depois do j antar, sabe. Mas não estava com sorte na noite passada. Não tinha nada para fazer. Nunca tom ei o velho ônibus para sair.
— Mas, para o senhor, o carro ainda estava no pátio
— Bem , naturalm ente. Eu o tinha posto lá...
— O senhor teria notado se não estivesse?
Bartlett m eneou a cabeça.
— Acho que não, sabe. Há m uitos carros entrando e saindo. O pátio está cheio de Minoans.
O Inspetor Harper assentiu com a cabeça. Olhando de relance pela j anela calculara que, naquele m om ento, havia nada m enos de oito Minoans no pátio. Era o carro popular do ano.
— O senhor não tem o hábito de guardar seu carro à noite? — perguntou o Coronel Melchett.
— Em geral não m e dou este trabalho — respondeu o Sr. Bartlett. O tem po está bom , sabe. É incôm odo m anobrar carro num a garagem .
Lançando um olhar para o Coronel Melchett, disse o Inspetor Harper:
— Eu o encontrarei lá em cim a, Coronel. Só vou cham ar o sargento Higgins e encarregá-lo de colher as inform ações do Sr. Bartlett.
— Ótim o, Harper.
Bartlett m urm urou ansioso:
— Achei que seria bom inform á-los, sabe. Talvez fosse im portante, não é?
* * *
Prestcott tinha arranj ado para a nova dançarina alim entação e pousada. Qualquer que fosse o tipo de alim entação, o aloj am ento era o m ais pobre do hotel.
Josephine Turner e Ruby Keene tinham ocupado quartos na extrem idade de um pequeno corredor com um e escuro. Os quartos eram pequenos, de frente para o norte, num a parte do paredão que sustentava o hotel, e eram m obiliados com restos de apartam entos que outrora, trinta anos atrás, representavam o luxo e a m agnificência dos m elhores aposentos. Agora, depois que o hotel tinha sido m odernizado e os quartos providos de arm ários em butidos, esses grandes guarda-roupas vitorianos de carvalho e de m ogno eram relegados àqueles quartos ocupados pelo estafe do hotel, ou cedidos a hóspedes no auge da estação, quando todos os quartos estavam ocupados.
Melchett verificou de im ediato que a localização do quarto de Ruby Keene era ideal para a finalidade de se sair do hotel sem ser observado, e isso era ruim , infelizm ente, do ponto de vista de esclarecim ento das circunstâncias daquela saída.
No fim do corredor havia um a pequena escada que conduzia a outro corredor no andar térreo igualm ente escuro. Havia ali um a porta de vidro que dava para o terraço lateral do hotel, lugar pouco frequentado, sem nenhum a vista. Podia-se passar dali para o terraço principal na frente, ou se podia descer um cam inho tortuoso e sair num a pista que, finalm ente, alcançava a estrada do penhasco um pouco m ais adiante. Com o sua superfície não era boa, raram ente era trilhado.
O Inspetor Slack estivera ocupado, apoquentando a cam areira e procurando pistas no quarto de Ruby ; tivera a sorte de encontrar o quarto exatam ente com o tinha sido deixado na noite anterior.
Ruby Keene não tinha o hábito de se levantar cedo. Seu costum e, conform e apurara Slack, era de dorm ir até dez e m eia e em seguida pedia o café da m anhã. Por conseguinte, logo que Conway Jefferson com eçara a fazer suas reclam ações j unto ao gerente, a Polícia se encarregara da coisa ainda cedo, antes que as criadas tocassem no quarto. Elas nem tinham descido àquele corredor. Os quartos daquela ala, naquela estação do ano, só eram abertos e varridos um a vez por sem ana.
Todas as circunstâncias eram favoráveis, dizia Slack m elancólico. Se houvesse alguma coisa para ser encontrada, tê-la-íamos encontrado. Mas não há nada.
A Polícia de Glenshire j á tinha estado no quarto colhendo im pressões digitais m as não havia nada que não pudesse ser explicado. Eram im pressões da própria Ruby, de Josie e das duas cam areiras — um a do turno da m anhã, outra da tarde. Havia tam bém um as duas im pressões de Ray m ond Starr, m as eram explicáveis pelo fato de ter subido com Josie para procurar Ruby, quando ela não apareceu para o núm ero da m eia-noite.
Havia um m onte de cartas e papéis em geral, nos pequenos com partim entos de um a escrivaninha de m ogno m aciço no canto do quarto. Slack tinha acabado de separá-los cuidadosam ente.
Mas não encontrara nada de sugestivo. Contas, recibos, im pressos de teatro, canhoto de cinem a, recortes de j ornais, sugestões de beleza tiradas de revistas. Entre as cartas havia algum as de “Lil”, provavelm ente um a am iga do Palais de Danse, contando-lhe vários acontecim entos e boatos e dizendo que “sentia m uita falta de Ruby. O Sr. Fideison perguntou m uitas vezes por você! Puxa, ele está sem pre por fora! O j ovem Reg está nam orando com May depois que você foi em bora. Barny está sem pre perguntando por você. As coisas vão indo com o de costum e. O velho Grouser m esquinho com o sem pre conosco. Ele m arcou Ada por ter saído com um suj eito”.
Slack anotava cuidadosam ente todos os nom es m encionados. Iria interrogá-los. Quem sabe, talvez daí pudesse surgir algum a pista. O Coronel Melchett concordou, com o tam bém o Inspetor Harper que j á havia chegado. Fora disso, o quarto tinha m uito pouco a oferecer a título de inform ação.
Em cim a de um a cadeira, no m eio do quarto, estava o vestido de dança, cor-de-rosa, espum ante, que Ruby usara no início da noite com um par de sandálias de salto alto, de cetim cor-de-rosa, atiradas negligentem ente sobre o assoalho. Duas m eias de seda pura tinham sido enroladas com o um a bola e j ogadas no chão. Um a tinha um fio corrido. Melchett lem brou-se de que a m oça m orta estava descalça e sem m eias. Slack ficou sabendo que era seu costum e. Preferia usar pintura nas pernas a botar m eias e só algum as vezes as usava para dançar, a título de econom ia. A porta do guarda-roupa estava aberta e m ostrava um a variedade de vestidos cintilantes de toalete e, em baixo, um a fila de sapatos. Havia ainda roupas internas no cesto de roupas suj as, aparas de unha, lenços de lim peza facial usados e pedaços de algodão m anchados de ruge e esm alte, no cesto de papéis. Enfim , nada fora do com um ! Os fatos pareciam m uito claros. Ruby Keene tinha subido apressadam ente as escadas, trocado de roupa e saído de novo apressada — para onde?
Josephine Turner, que poderia estar em condições de conhecer a vida de Ruby e a m aioria de seus am igos, não pudera aj udar m uito. Mas isso, afirm ava Slack, podia ser natural.
— Se o que o senhor está-m e dizendo for verdade... sobre esse negócio de adoção... então Josie faria tudo para que Ruby rom pesse com velhos am igos que pudesse ter e pudessem estragar os planos, por assim dizer. Conform e m e parece, esse senhor inválido fazia tudo na suposição de ser Ruby Keene um a criança pura e inocente. Ora, suponham os que Ruby fosse vista com um nam orado vulgar; isso poria por terra todos os planos. Portanto, o negócio de Ruby era m anter-se na obscuridade. Josie não sabe m uito a seu respeito, nem sobre seus am igos e tudo m ais. Mas com um a coisa ela não concordaria: que Ruby arruinasse tudo envolvendo-se com algum suj eito indesej ável. Por conseguinte, parece razoável que Ruby (que, com o im agino, era um bocado sapeca!) faria tudo para não ser vista com algum nam orado. Não contaria nada a Josie, que certam ente lhe diria: “Não, m enina, você não pode fazer isso”. Mas o senhor sabe com o são as m oças... especialm ente essas m eninas-m oças... estão sem pre prontas a se fazerem de tolas com um suj eito qualquer. Ruby quer vê-lo. Ele vem aqui, fica furioso com essa história da adoção e aperta o pescoço da m oça.
— Talvez você tenha razão, Slack — disse o Coronel Melchett, disfarçando sua repugnância natural pela m aneira desagradável de Slack ver as coisas. — Se assim for, terem os a possibilidade de descobrir facilm ente a identidade desse nam orado violento.
— Deixe isso com igo, chefe — disse Slack com sua confiança habitual. — Hei de descobrir essa tal de “Lil”, no Palais de Danse, e a virarei pelo avesso. Chegarem os breve à verdade.
O Coronel Melchett se perguntava se tudo seria assim tão fácil. A energia e a atividade de Slack fazia-o sentir-se sem pre cansado.
— Há outra pessoa de quem se poderia arrancar algum a coisa, Coronel — continuou Slack — e essa pessoa é o instrutor de dança e de tênis. Ele deve ter visto m uita coisa e deve saber m ais da vida de Ruby do que Josie. É bem provável que Ruby se tenha aberto com seu com panheiro de dança.
— Já discuti esse ponto com o Inspetor Harper.
— Ótim o, Coronel. Esgotei as cam areiras com perguntas. Não sabem de nada. Tratei-as com superioridade, tanto quanto pude aparentar. Faziam o serviço apressadam ente, dentro de suas obrigações. A cam areira esteve aqui pela últim a vez às sete horas da noite passada, quando arrum ou a cam a e puxou as cortinas para clarear um pouco o quarto. Há um banheiro ali naquela porta, os senhores querem ver?
O banheiro estava entre o quarto de Ruby e um quarto um pouco m aior ocupado por Josie. Estava ilum inado. O Coronel Melchett adm irava em silêncio a quantidade de ingredientes de beleza que um a m ulher podia usar. Filas de vidros de crem e facial, crem e de lim peza, crem e de rem over, crem e de conservação da pele! Caixas de pó-de-arroz de diferentes tonalidades. Um m onte desordenado de toda variedade de batom . Loções de cabelo e aplicações para “clarear”. Base, m áscara, corante azul para os olhos, lenços de lim peza, pedaços de algodão, pom pons suj os. Vidros de loções: adstringente, tônica, suavizante, etc.
— Você acha — m urm urou debilm ente — que um a m ulher usa tudo isso?
Slack, que sem pre sabia de tudo, o esclareceu gentilm ente.
— Na sua vida privada, Coronel, a m ulher usa, por assim dizer, um ou dois som breados distintos, um para a noite, outro para o dia. Ela sabe o que lhe convém . Mas essas j ovens profissionais, elas sim , têm de variar, por assim dizer. Dão espetáculos de dança, um a noite dançam um tango e na noite seguinte j á é um a dança vitoriana, depois um a espécie de dança apache, depois a dança com um e, é claro, a m aquiagem varia um bocado.
— Santo Deus! — disse o Coronel. — Não é de adm irar que as pessoas que fabricam esses crem es e poções façam um a fortuna.
— O negócio é que ganham dinheiro com facilidade — disse Slack. — Dinheiro fácil. Ganho, é claro, para gastar em publicidade.
O Coronel Melchett afastou o pensam ento do fascinante e eterno problem a dos adornos fem ininos.
— Há ainda aquele dançarino — disse a Harper que acabava de alcançá-los. — É sua presa, Inspetor?
— Acho que sim , Coronel.
Ao descerem as escadas, Harper perguntou:
— Que acha da história do Sr. Bartlett?
— Sobre o carro? Acho, Harper, que aquele m oço precisa ser observado. É um a história duvidosa. Suponham os, afinal de contas, que tenha saído de carro com Ruby Keene na noite passada?
* * *
A atitude do Inspetor Harper era calm a, agradável e absolutam ente descom prom etida. Esses casos em que as Polícias de dois m unicípios tinham de trabalhar j untas eram sem pre difíceis. Gostava do Coronel Melchett e o tinha em conta de um Chefe de Polícia capaz, não obstante gostaria de poder conduzir sozinho a presente entrevista. Nunca fazer dem ais de um a só vez era a norm a do Inspetor Harper. Sim ples inquérito de rotina prim eiro Isso deixava as pessoas entrevistadas m ais à vontade e as predispunha a ficarem m enos prevenidas na entrevista seguinte.
Harper j á conhecia Ray m ond Starr de vista. Um tipo de bela aparência, alto, esbelto e sim pático, com dentes m uito alvos, num rosto bastante bronzeado. Era m oreno e elegante. Tinha m aneiras agradáveis e cordiais e era m uito popular no hotel.
— Sinto m uito, Inspetor, m as não creio que lhe possa ser m uito útil. É claro que conheci m uito Ruby. Esteve aqui m ais de um m ês e ensaiávam os j untos nossas danças e tudo m ais. Mas, realm ente, tenho m uito pouco a dizer. Era um a j ovem sim pática, em bora um tanto ingênua.
— É sobre suas am izades que gostaríam os m uito de saber. Suas am izades m asculinas.
— Im agino. Bem , eu não sei de nada! Ela se encarregava de alguns j ovens no hotel, m as nada de especial. Sabe, ela era quase sem pre m onopolizada pela fam ília Jefferson.
— Ah, sim , a fam ília Jefferson — Harper fez um a pausa para refletir. Lançou um olhar arguto para o j ovem . — O que é que o senhor acha daquele negócio, Sr. Starr.
— Que negócio? — perguntou Ray m ond Starr friam ente.
— O senhor sabia que o velho Jefferson estava disposto a adotar Ruby Keene com o filha? — perguntou Harper.
Isso pareceu um a novidade para Starr. Contraiu lábios e assobiou.
— Que m enininha danada! — disse ele. — Oh, sim , não há ninguém tão louco com o um louco velho.
— É assim que o senhor considera o fato?
— Bem ... o que m ais se pode dizer? Se o velho queria adotar alguém , por que não escolheu um a j ovem de sua própria classe?
— Ruby Keene nunca lhe falou a respeito disso?
— Nunca. Notei que vivia exultante com algum a coisa, m as não sabia o que era.
— E Josie?
— Oh, Josie deve ter percebido algum a coisa no ar. Quem sabe se não foi ela quem planej ou tudo? Josie não é boba. Aquela m enina tem crânio, sabe.
Harper assentiu com a cabeça. Foi Josie quem m andou buscar Ruby Keene. Foi Josie, sem dúvida, quem estim ulava a intim idade. Não adm ira que tivesse ficado aborrecida quando Ruby deixara de se apresentar para o show daquela noite e Conway Jefferson com eçara a entrar em pânico. Ela previu o m alogro de seus planos.
— O senhor acha que Ruby era capaz de guardar segredo?
— Perfeitam ente. Não falava m uito de seus problem as pessoais.
— Nunca lhe disse nada, absolutam ente nada, de algum am igo, alguém de sua vida anterior que viesse vê-la aqui, ou com quem tivesse algum a dificuldade? Acho que o senhor entendeu o que quero dizer.
— Com preendo perfeitam ente. Bem , tanto quanto m e foi dado saber, não havia ninguém dessa espécie. Nem por algum a referência da parte dela.
— Obrigado, Sr. Starr. Agora o senhor vai dizer-m e com suas próprias palavras exatam ente o que aconteceu na noite passada.
— Perfeitam ente. Ruby e eu dançam os j untos às dez e trinta...
— Não notou, então, nada de anorm al com ela?
Ray m ond refletiu.
— Acho que não. Não notei o que aconteceu depois. Eu tinha m eus próprios pares para cuidar. Lem bro-m e de ter notado que não estava no salão de baile. À m eia-noite ela não apareceu.
Fiquei m uito aborrecido e fui procurar Josie. Josie estava j ogando bridge com os Jeffersons. Não tinha a m enor idéia de onde estaria Ruby e tive a im pressão de que tom ou um susto. Notei que lançou um olhar rápido e preocupado para o Sr. Jefferson. Persuadi os m úsicos a tocarem outro núm ero, fui ao escritório e pedi para discarem para o quarto de Ruby. Ninguém atendia. Voltei a Josie. Ela sugeriu que talvez Ruby estivesse dorm indo. Um a sugestão realm ente tola, m as, naturalm ente, feita por causa dos Jeffersons!
Saiu com igo e m e cham ou para subir com ela.
— Muito bem , Sr. Starr. E o que foi que ela lhe disse quando estava só com o senhor?
— Tanto quanto posso lem brar-m e, parecia m uito aborrecida e dizia: “Que m enina tola! Ela não pode fazer isso. Perderá todas as chances. Você sabe com quem ela estava?” Eu lhe disse que não fazia a m enor idéia. A últim a vez que a vira estava dançando com o j ovem Bartlett. Josie então disse: “Ela não devia estar com ele. Para onde teria ido? Será que teria saído com o moço do cinema?”
— Moço do cinema? — perguntou Harper abruptam ente. — Quem é ele?
— Eu não sei seu nom e — respondeu Ray m ond. Nunca se hospedou aqui. É um suj eito de aspecto exótico... cabelos pretos e m odos teatrais. Acho que está ligado à indústria cinem atográfica, assim teria dito a Ruby. Ele j á veio j antar aqui um a ou duas vezes e dançou com Ruby depois, m as não creio que ela tivesse m uita intim idade com ele. Daí porque fiquei surpreso quando Josie o m encionou. Eu disse que achava que ele não estivesse aqui naquela noite. Josie disse: “Bem , ela deve ter saído com alguém. O que é que vou dizer aos Jeffersons?” Então eu perguntei que é que os Jeffersons tinham a ver com isso? E Josie disse que tinham e m uito. E disse ainda, que nunca perdoaria Ruby se ela pusesse tudo a perder. A essa altura chegam os ao quarto de Ruby. Ele não estava ali, é claro, m as estivera, porque o vestido usado no seu últim o núm ero de dança estava em cim a de um a cadeira. Josie olhou o guarda-roupa e disse achar que ela tinha posto um vestido branco. Norm alm ente teria vestido um vestido de veludo preto para nosso núm ero de dança espanhola. Eu estava m uito aborrecido por Ruby ter feito isso com igo. Josie fez tudo para m e acalm ar, disse que ela m esm a ia dançar, de m odo que Prescott não se aborrecesse conosco. Ela foi ao seu quarto m udou o vestido, descem os e dançam os um tango num estilo exagerado e aparatoso m as não excessivam ente exaustivo para seus tornozelos. Apesar disso, pude ver que Josie se m achucara m uito. Depois, m e pediu para aj udá-la a tranquilizar os Jeffersons. Ela disse que isso era im portante. Sendo assim , não podia deixar de aj udá-la.
O Inspetor Harper assentiu com a cabeça.
— Obrigado, Sr. Starr — disse ele.
Era im portante, não tem dúvida. Cinquenta mil libras, dizia para si m esm o.
Ele observou Ray m ond Starr que se afastava airosam ente.
Desceu os degraus do terraço e no cam inho apanhou um saco de bolas de tênis e um a raquete. A Sra. Jefferson, tam bém com um a raquete, j untou-se a ele e se dirigiram para as quadras de tênis.
— Desculpe, Inspetor.
Era o sargento Higgins, um tanto esbaforido, que se postava ao lado de Harper.
O Inspetor, despertado abruptam ente dos pensam entos em que estava absorto, olhou espantado.
— Acaba de chegar um a m ensagem da sede para o senhor. Um trabalhador com unicou esta m anhã que tinha visto um clarão com o se fosse fogo. Meia hora depois foi encontrado um carro incendiado num a pedreira. A Pedreira de Venn, a cerca de três quilôm etros daqui. Há indícios de um corpo carbonizado.
As feições severas do Inspetor Harper ruborizaram -se.
— Santo Deus, que está acontecendo a Glenshire? Um a epidem ia de violência? Não venham dizer-m e que vam os ter um a onda de crim es por aqui.
Após um a pequena pausa, perguntou:
— Conseguiram o núm ero da placa?
— Não, Inspetor, m as puderam identificá-lo, é claro, pelo núm ero do m otor. Acham que se trata de um Minoan 14.